sábado, 30 de abril de 2011

Mané Hilário (Parte 13)



A cadeia pública

         Eu não peguei a construção da cadeia [da praça, onde é atualmente o museu]. Eu conheci ela ali mesmo, naquele lugar. A cadeia, a igreja, o sobrado do porto, os prédio do coroné Chico Gonçarves, que era ali aonde agora é dos crentes... que era o cinema. Ali tinha um sobrado grande, né? Esse eu arcancei ali.

Idalina Graça

         A dona Idalina Graça? Eu vendi muito peixe pra ela. Ela tinha uma pensão. Era como Idalina Graça: a pensão Idalina. Era ali do lado [do cinema antigo, na praça da Matriz]. Ela recebia muitos turistas. Ia na praia, nós tava vendendo; ela ia lá na praia comprar peixe. Idalina era uma senhora muito boa. Ela veio de Santos pra cá. Ela era muito unida com o Filhinho [da farmácia] sobre negócio de escrever essas coisas assim, né? Idalina era muito boa, muita simplicidade. Eu vendi muito peixe pra ela. Ela encomendava pra mim. Eu vendi pra ela.

Casarão do Porto

         Lá não tinha nada; era tudo fechado. Eu dormi no sobradão, lá no último sote de cima eu dormi numa ocasião. Eu era pequeno; nós morava do lado. E eu fui dormir porque a dona do sobrado, Benedita Baltazar, a velha, eu conheci. Conheci a Benedita Baltazar e o filho. Eu conheci. O filho chamava-se Oscar e ela era Benedita. Era uma senhora de boa aparência, bonitona, né? Cabelo penteado, fazia aquela rodilha aqui no arto da cabeça. Que nem uma italiana faz, ela também fazia. Ficava lá em cima, no sote, fazendo crochê. Ela ia embora, passava lá três, quatro, cinco meses e vortava traveis de novo aqui. Depois, muito tempo depois, ela foi embora e não vortou mais. A viúva, né? Agora, o velho Bartazar mesmo, esse eu não conheci. O Bartazar Fortes eu não conheci.

Júlio: Seo Manoel, o senhor lembra bem do meu avô, né? O Lindolfo. Era muito amigo do senhor.
M.H.: Era. Nós saía no bloco de carnavá, tudo. Ele, o Lindorfo, o Arnofo (que foi morto picado de cobra), o Ardofinho, que era maestro de música. O Ardofinho: trabalhei na padaria com ele muito tempo. Um dia... uma noite eles ficaram trabalhando na padaria. Eu fui com o Ardofinho tarrafeá. Ele falou: “Maneco, vamos matá uns parati pra nós comê assado. Aí fui. Fui com ele. Chegamo lá ele tirou o chinelo, botou na beira do rio e pegou a tarrafeá. Ah! Matemo um cesto grande cheio de parati. Cada parati!!! Ele vai procurá o chinelo. Cadê? A maré tirou fora o chinelo. Veio ele descarço patinando por meio da cidade que nem bicho.
        
(Neste momento perguntei para confirmar se ali, atrás do casarão, tinha um mercado municipal)
M.H.: Não, ali não tinha. Ali não teve mercado. Perto do portão do grupo fizeram um salão. Era casa de morada. Depois fizeram um salão grande que nós dançava baile no tempo de carnavá.      Dancei muito baile. Aonde tinha baile eu tava rente. Hoje não posso mais; a perna não ajuda. Hoje eu gosto de vê. O coração dá umas mordidas, mas... o que eu vou fazê? Não posso mais, né? O que os olhos não vê o coração não sente. Mas eu gosto de tá olhando! E... tudo acaba!

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Mané Hilário (Parte 12)


Mané Hilário: Na casa do Mané Gerardino aconteceu a mesma coisa. Uma dança no sertão do Taquará: foram dançá uma dança de São Gonçalo e... o São Gonçalo tinha quebrado o pescocinho, né? Então fizero uma cola de angu de farinha, botava no santo e colocaram no artá, na mesa. Então, conforme o pessoa dançava, o santinho fazia assim [mostra o balanço da cabeça]. O Mané Gerardino já tava meio sapecado, então chegou e  falou: “Também tá dançando, seu safado?”. O pessoá morreu de dá risada. Aí que tá o negócio! E o pessoá, com aquela fé que tinha em Deus, achava que aquilo ali era um milagre. E todo mundo guardava no coração. Hoje ninguém aceita mais nem Deus, nem imagem, nem nada. Tá tudo... revirou tudo numa só. Se os filhos tivessem, em Deus, esperança, respeito em Deus, não andavam de revólver matando um ao outro, né? Não andavam roubando, não andando fazendo anarquia nenhuma.  E naquele tempo não havia nada disso; tudo mundo arrespeitava. Respeitava e todo mundo vivia bem, todo mundo vivia em paz. Hoje ninguém vive mais sossegado. As brigas ficavam por nada mesmo, não havia nada. A polícia ia tomar as providências, e: “Olha, se você for continuar fazendo de novo, você vai preso e vai fazê faxina lá na delegacia”. E nisso se acabava. Só quando havia morte, então, aí...

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Mané Hilário (Parte 11)


Mané Hilario, o filho: O sabiá era tanto aqui que chegava a matá até com aquela cabeça de ciosa; fazia de pedra. Acabava as pedra da sacola, do bolso, não dava tempo de ir buscar de tanto passarinho que tinha, né? E a gente era moleque, nunca pensava que podia ser barrado por alguém, não tava nem ligando, então... passava o dia caçando de estilingue. Enquanto as pessoa caçava com espingarda, a gente caçava de estilingue, né? Então, cabava a pedra do bolso, pegava e cortava um pedaço de ciosa – aquela cabeça de ciosa – para matar o... pra derrubar o passarinho. Então eu tava contando pro Luís que cheguei a matar de dois, derrubar, de dois numa estilingada só, de tanto que tinha passarinho. Ficava um em cima, outro embaixo, marcava na ponta do bico pra derrubar o outro de cima. Era bom no estilingue, né? Só o Niks quis me enganar; o Niks quis me enganar no quebra-prato. Então... passando para o problema do São Gonçalo, né?, que ontem eu tava lá assistindo a dança do São Gonçalo, na Fundart, aí... Nisso aí há tempo que eu venho falando – não sei se o papai alembra que eu contava sempre isso em casa – que foi lá... um momento, uma coincidência, né?,  que o pessoal lá da roça saía naquela euforia com a festa e tal, levava o santo e não perceberam que... o santo tava na frente e, eu, como sempre, como moleque, andava com um estilingue no bolso, e aí o curiango ficava na frente. O pessoal passou e o curiango tava sempre do lado, então gritava: curiango, curiango... Na frente da gente assim. Aí o que eu fiz: procurava uma pedra... não tinha nada no bolso, né?. Naquela hora vi assim um vulto; assim, uma qualquer coisa no chão, levei a mão, que eu peguei vi que era uma coisa redonda, pensei que era uma pedra. Peguei, coloquei no estilingue e joguei no curiango na frente, né?. Sei que logo bateu; devia ser de barro. Bateu lá na touceira de tucum – aquele coquinho azedo -, que tinha muito no Perequê-açu. Bateu lá que espatifou tudo. Quando chegou lá, na hora da dança, que procura a cabeça do santo, cadê? Logo eu deduzi o que foi que aconteceu: foi o que eu achei no caminho, taquei no passarinho. A cabeça do São Gonçalo que foi no estilingue. Aí improvisaram lá. Como tinha santo também de cabeça quebrada, colocaram o santo lá. Colocaram de cabeça de qualquer jeito e fizeram a dança. Valeu. Mais vale a devoção.

domingo, 24 de abril de 2011

Mané Hilário (Parte 10)



Sobre a caça

         Era demais! Era paca, veado, cutia... Era tudo o que eles encontravam com eles, matavam. E não precisava ir lá muito. Porco do mato... Não precisava ir muito longe não! Era aqui perto  mesmo! Um dia, o meu avô, os meus tio, foram trabalhar pro Antonio de Lima, pai do finado Tinoca, o  avô  do Antonio Galvão, e saiu uma vara de porco no quintal da casa deles lá. A minha tia, com uma mão-de-pilão, matou dois.  Um bocado entrou dentro do chiqueiro. Aí pegaram a gritar pra ela entrar pra dentro senão o porco pegava ela. Porque o porco do mato é bravo, né? Aí entrou pra dentro. Ela chegou na porta e tocou a corneta. Eles tavam trabalhando pro um senhor na beira do rio. Vieram saber o que era e acharam o estrago porque a porcada saiu no terrero. Tinha doze preso num cercado que eles tinham feito lá. Entraram no cercado. Ela fechô. Perdeu uma fornada de farinha por causa da porcada. E  eles vieram e mataram todos os doze porcos, com três que ela tinha matado com a mão-de-pilão... E a minha tia Olívia morreu com cento e doze anos. “Olivia, sai daí que o porco te mata, te morde. Sai daí Olívia”.  E ela: brau, brau, uóóó...Com a mão-de-pilão matou dois. E eles então vieram e mataram doze que tavam preso num curral que fizeram lá. Dividiram porco com aquela vizinhança tudo. Isso foi lá na olaria, no meu terreno. Lá onde tem a escola [Dionísia, no Perequê-açu].

Sobre as caçadas

         Os avô ia. Era o Gustinho, o Pedro Graciano e o Jacinto, os três irmãos, faziam, tem o nome lá... Fojo, lá eles faziam o fojo, faziam aquele buracão, pegavam a terra, botavam numa lata ou num saco e levavam uma distância longe do fojo, que era pra anta não desconfiá, né? E faziam... a anta. Quando chegava num fim de semana iam lá pra visitá. Tinha os dia marcado pra visita, né? Pegavam aquela anta, tiravam o couro, aproveitava aquela carne toda e repartia com os vizinho. Naquele tempo não havia proibição de nada, né? Um dia tava dentro do fojo tinha treze porcos dentro do buraco. Não tinha anta, mas dizem que o porco do mato anda em camada, um na escadeira do outro, né? Foi só debulhando. Naquele tempo a fartura... Matei muito macuco, jacutinga, jacu. Não fartava nada, não fartava. Quem gostava de caça era o Jango Teixeira, Rodolfo Ignácio, Mané Hilário, Paulo Batista, o Mané Fonseca, o Egídio, o Samué, irmão, que eram parente do Constante Simonete, o João Bordini. Mas esse, assim que nem João Bordini e outros, gostavam de caça, mas não entravam no mato pra caçá. Mas não deixavam de não matá arguma coisa, né? E, uma ocasião, foi sabiá preto; era demais, demais. Tinha araçarana no Perequê-açu e na praia Vermelha, da Barra seca; eles iam pra lá e traziam aquela borsada de sabiá. Ficavam embaixo da araçarana... Eu mesmo, no Perequê-açu, de bodoque, nóis tirava sapinhaoá na praia pra fazê pelota. Ele sentava, nem... nem dava bola e, tol, qui, qui, tchabau dentro d’água. E eu pegava dentro d’água. E araponga – daquela rajada! – tinha quantidade. Hoje, quedele? Cabô, não tem mais! Cadê? Nesse mato aqui da aviação, esse um [aponta para o filho] com o irmão, com o Isaías, com o meu filho, matava aquela quantidade. Eu vinha com aquela tranquera de tainha de lá da preia, do Tenório, que matava lá pra casa; chegava em casa já tava aquela panela de passarinho com arroz feita...

sábado, 23 de abril de 2011

Mané Hilário (Parte 9)


Intervenção de Hilário, o filho:
         A festa era muito animada. Não desfazendo o que o pessoal faz agora. Porque a parte religiosa é que manda, a tradição, né? Mas antigamente, nos tempos passados, eu, com a minha idade, o que eu alcancei era muito animado, porque existia, inclusive, um comércio que vinha de Taubaté, do Vale do Paraiba. O pessoal formava aquelas barracas e vendia as coisas tudo pro pessoal da cidade. Tinha banda de música. O pessoal trazia as coisas assim, bonita mesmo! Eu não quero desfazer, porque muita gente faz pra vê as dificuldade. Ou cresce demais e tira um pouco do brilho das coisa que tinha antigamente, porque o pessoal da cidade, da roça, eles eram muito influenciados na festa. Então vinha a massa, todo mundo. Hoje, inclusive, tem muita gente que não pode vir com a dificuldade da vida. Embora também deixar a sua residência...porque com o fato que ocorre agora com essas violências, uma coisa ou outra, invasão de casa e outra coisa. Tudo isso mete medo. Antigamente, tá certo que era poucas pessoas: a cidade e os bairros, tudo. O crescimento não era tão como agora, mas o pessoal tinha uma liberdade para sair e não tinha medo de deixar nada em casa, entende? Mas era bonito porque eu mesmo alcancei essa gente que eu falei pra você. O pessoal, tá certo, fazia o comerciozinho dele, mas era bonito porque ali, onde é agora a parte que faz a festa do Divino, que coloca aquele palanque, tudo ali do lado era barraca de fora a fora. Era bonito ver aquilo ali. E trazia, sabe?, um movimento grande para a cidade. Porque hoje, com todo o movimento que tá tendo, com o desenvolvimento, com toda essa coisa que tá acontecendo porque a cidade tá se desenvolvendo, eu pelo menos tô sentindo que não temos turistas na cidade. E há dez, quinze anos passados, enquanto aquele calçadão que agora é calçado e tudo, é preparado, bonito, não era nada como era no passado que era tudo de barro, assim simples, mas o povo do Vale do Paraiba, de São Paulo e de tudo quanto era lado se interessava mais pela cidade, pela simplicidade que a cidade tinha. Agora eles se afastaram. Eu já falei isso, inclusive com certas pessoas que são políticos da cidade. Eu não sei porque aconteceu isso: dos turistas, daquele povo que sempre frequentava a nossa cidade sair dessa...sumir de uma hora para outra. O que se vê são “uns gatos pingados”. “Ah! Espera a temporada forte que vem muita gente!”. Não é como antes. Antigamente não existia temporada. Era o tempo todo, feriado –tudo! – tava a cidade cheia. Até eu tive conversando com o Josué, ali na pensão, no Casarão, ali onde era a antiga Pensão do Maestro, tive conversando com o Josué. Eu disse: “Olha...” Aí, inclusive tava o Luisinho Bishof, que é...não sei se o secretário de turismo. Ele tava conversando com o Josué. Aí eu cheguei e pedi licença, e, como sabia que tava rolando uma conversa sobre turismo, aí eu disse: “Olha, eu tenho uma coisa, se vocês me dão licença, tenho uma coisa pra dizer pra vocês: vocês são pessoas assim, conhecidas da cidade, mas não têm o conhecimento que eu tenho. Eu posso perguntar pra vocês o seguinte: eu não sei o que está acontecendo que o turista em si saiu da cidade. Não sei o quê. Se tá faltando alguma atração turística, uma continuação de um trabalho mais efetivo para que cative o turista na cidade. Ou alguma coisa está tirando ele da cidade, ou ele está se sentindo assim...açoitado em algum motivo, alguma coisa que tá levando a espantar o nosso turista”.

Algumas lembranças dos primeiros turistas

M.H.: Eu me lembro de alguns turistas no tempo do Hotel Felipe. Trabalhei no hotel. Arguns ficava dez, doze dias; outros ficava uma semana. Outros ficava menos. Outros chegava, pelo menos os viajante que vinham vendê aqui em Ubatuba, eles vinham num dia, no  outro já iam embora, né? Iam de barco. Aproveitavam a oportunidade de controlar o dia deles saírem e [pegavam o navio e iam embora. Vinha de tudo [mercadoria] né? Era carne seca, era o feijão, era o milho, era a batata, era o arroz. Tudo vinha. Deixavam em Santos. Em Santos o  navio pegava e trazia pra cá, né? E do Rio de Janeiro também vinha mercadoria. Vinha material de pesca, vinha tudo.

Em relação à pergunta sobre os franceses que se hospedavam no hotel, do avião que caiu, o seo Mané Hilário confundiu com outro acidente aéreo, quando um avião caiu no mar, junto à praia do Cruzeiro.

         Levou uns quatro ou cinco meses; o avião aí, pra depois levarem ele embora. Quem assubiu no avião foi um brasileiro, que levou o avião, que avoou no avião. Não tinha o campo como é agora, né? O campo era até sobre ali o rancho só. Era da praia, na praia. Depois que fizeram o daqui. [Disse ter conhecido o Jean-Pierre Patural]: ele vinha aqui em Ubatuba num aviãozinho; tava aqui quatro, cinco ou seis dias. Tava no Hotel Felipe, ficava numa outra casa aqui no Itaguá... Quando chegou um dia que caiu daqui, foi embora, quando chegou ali em meia serra, lá, não sei o que houve lá com o avião que ele caiu lá.
        
Outra confusão de avião. Piloto amigo de Cunha.

         O Cunha pegava peixe aqui e levava pra Taubaté, São Luiz, não sei pra onde.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Mané Hilário (Parte 8)

Sobre as festas tradicionais
         As festas de Ubatuba naquele tempo... O carnavá era uma beleza. Eu dancei carnavá desde a idade de dez anos. O carnavá era uma coisa de influênça, sabe? Não comparando uma coisa com outra, é como se fosse uma festa religiosa. Todo mundo respeitava, todo mundo brincava, não havia encrenca, briga, nada. Todo mundo respeitava. Entravam numa casa, tomavam um café, comiam uma canjica... Enfim, tudo o que podia apresentá pro pessoá.  Dali saíam e iam em outra casa. Mas a brincadeira, o carnavá, tudo era na rua. E depois entrava dentro da casa, né?
         No tempo do Antonio Mazzeo, do Gabriel Costa, do compadre Marciano Costa...já tinha a dança do boizinho. Lembro bem do...esqueci dele agora...do Mato Dentro: do Guilherme Vieira, do Guilherme Poca, do Coutinho. O Guilherme Poca é quem dançava embaixo, lá no boizinho. Então, foram dançar num lugar do finado meu primo, do Filhinho. Dançaro, dançaro, depois, né? O Guilherme Pereira estava meio sapecado. Chegou e falou: “Levanta, compadre Poca”. Ah! O povo deu risada! E dali saíram, pegaram a dançá na rua de novo. Mas era muito influído. Tinha o João Paulino, a Maria Angu. Era doze metros de fazenda pra roupa de cada um dos boneco.
         A dança da fita era outra parte, não era carnavalesca. Depois que pegô a saí. A dança da fita era mais da festa caseira, de casa, né? Não me alembro de quem trouxe a dança da fita. Arcancei daqui do Itaguá, que pegaro depois aqui, na cidade. Bom, na Enseada, na casa do João Vitório eu vi a dança da fita. Na casa do João Vitório, numa festa de São João, eu assisti a dança da fita. Lá eu vi a dança do boi, na casa dele.
         A festa do Divino era uma coisa muito respeitada. Ali na Praça da Igreja, ali, aquilo era toda cercada de barraca pra leilão.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Mané Hilário (Parte 7)



Enxergando o sagrado em tudo

         Agora, escama bonita é mesmo de tainha! Ela tem a fotografia, a imagem de Nossa Senhora. Já viu, né? Tem a imagem perfeitinha. É o único pexe que tem a imagem de Nossa Senhora. Todo pexe é mandado por Deus. É o pexe mais sagrado. É um pexe orgulhoso. O pessoá tem...tem essas coisa toda.
         Eu tenho uma anedota contada pelo pessoá antigo:  que no sul, um senhor que era dono de uma rede num dia matô setenta mil tainha. E quando chegou no outro dia, ele com a rede na preia, vinha outro cardume de pexe. Antes disso, uma senhora foi pegá uma tainha no monte de pexe. Ele reclamô da mulhé pegá tainha. Achô ruim. Então, um camarada foi lá e pegô uma tainha e disse: “Tá, leva a tainha. Com tanta tainha que há aí, tá ridicando? Só desconta do meu quinhão”. Ela levô a tainha. Quando chegô no outro dia cercaram um outro cardume de pexe enorme. Pulou uma tainha por cima da água. E puxaram a rede e veio uma tainha. Aí ele perguntou: “Mas como pode sê um caso desse? De nóis cerca pexe mais que nóis cercamo ontem e trazê uma tainha?”. A mulher que tava na preia respondeu: “Foi a tainha que o senhor negou para mim”. Eu tenho isso gravado aqui. Se foi verdade eu não sei. Eu tenho isso contado pelos antigo, né? E, então, eu ouvi aquilo e guardei. Por que, num meio de cerro na preia, negá uma tainha? O que é isso naquela fartura tudo? É pra ter argum castigo, né?

domingo, 17 de abril de 2011

Mané Hilário (Parte 6)



Júlio: O senhor podia contar a história da caranha pra nós?
M.H.: Eu tava facheando mesmo, no rio. Eu co’Arfredo Mariano. Aí eu gritei pro Arfredo: “Oh, Arfredo, uma enorme caranha! Porque todo dia nóis achava pedaço de tainha cortada na preia, né? Era ela que comia. E no rio nóis também achava pedaço, mas nóis não sabia o que era. Quando chegô um dia eu trava com nove tainha na canoa, no Perequê-açu, no rio Indaiá, na boca da barra, no começo do rio. Aí eu gritei: “Arfredo, que nobre caranha! É  a tar que anda comendo a tainha aqui!”. Eu tava co’a fisga na canoa e ele remando. E o lampião  na popa da canoa. Era noite; uma nove da noite ou deiz da noite. Aí ele: “Não fisga,  Mané Hilário, que nóis vai alagá!”. “Ah! Não vô dexá de fisga!”.
         Acompanhei e bati a fisga na caranha. E a caranha...brubrubru....tchaaaaaabau. Nóis dois de boca abaixo. Virô a canoa; apagô o lampião; apagô tudo! “Aí? Eu não disse pra você? Eu não disse pra você? Você é teimoso! Agora perdemo a caranha;perdemo o pexe tudo”. De manhã eu fui e peguei as tainha que tava no poço. O siri tava pegando a roê a cauda da tainha. Aí eu embarquei a tainha e vim embora. Quando passô ali uns oito dia ou mais, o Candinho Manduca, que era o meu tio, foi buscá bambu seco pra fazê tinta pra botá na rede: “Mané Hilário, você sabe de uma coisa?”. Até me assustei quando ele falô assim. “O que foi, titio?”.  “A caranha que você fisgô tá encalhada lá em cima no rio. O corvo tá comendo”. Aí fomo lá. O pessoá foi  lá juntá, tirá as escama pra fazê enfeite no Natar, né? Aquelas escama grandona.
         Era uma baita de uma caranha! Pexe pra uns 50 ou 60 quilo. Aí fomo lá e chegamo lá. O bucho da caranha tava amarelado de ova de tainha, rapaz! E perdemo a caranha! Já tinha uns cinco dia ou mais. Ela acompanhou, assim mesmo fisgada, ela acompanhou o cardume de tainha. Lá tinha um poço que nóis chamava “O poço do Florindo”. Então, tinha um canalzinho que, com a maré, enchia. O peixe entrava lá e depois saía. Eu não sei como foi que ela foi pra lá. Maré abaixou; ela não pode saí. Não, ela não tava fisgada! A fisga tinha saído. Pegou na galha rumadera, né? Aqui no lado, onde  ela anada. Pegou...morreu. Uma baita de uma caranha que era um colosso! A escama o pessoá foram buscá lá uma porção. Eu trouxe um bocado e o pessoá tudo foram buscá para fazê enfeite de presépio. Essas coisa, né? Fazia a mordura e enchia de escama. A escama de caranha é bonita.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Mané Hilário (Parte 5)


Questão 1: O que era o bagre urutu?
M.H.: Bagre urutu era um bagre amarelo grandão, que nem o bagre cumbaca. Só que amarelo. Cabô. Não existe mais. Que fim levô esse pexe? Ah! Batida de arrastão! A pesca de parelha começô quando eu tava com uns setenta anos pra cá; daí pra cá. Não tinha lancha, não tinha nada. As tainha que a gente matava o povo todo aproveitava pra  dá em toda casa. Os pais que eram camarada trazia aquela tainhada. Escalavam tudo porque não tinha pra quem vendê. Era tudo escalado. Agora, depois que pegô a chega lancha, barco aparelhado, aí então tanto vendiam como eles também matavam. E isso acabô co’a tainha.
         O rio do Perequê-açu tinha muito pexe. Prendiam um cerco de taquara; botavam um covo. Sabe o que é um covo, não sabe? Quando chegava a hora de visitá o covo, tinha o prático que chegava e dizia assim, que nem o Gardino da Barra, um senhor de cor que era moradô daqui; depois morreu: “É, nóis não damo conta do pexe que tá no covo!”. E nóis era molecote, então ia pra lá ajudá eles tudo, aquela tranquera de homi. Passava uma corda por baixo do covo –assim, de um lado e de outro– e vinha rolando, rolando.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Mané Hilário (parte 4)


Sobre a fartura de peixe.
         O pexe em Ubatuba a gente pedia pros consumidores pra compra pra pagá quando pudesse. Os pexe era demais. Era fartura, tinha demais. A gente vinha vendê o pexe; o que sobrava, a gente quando não dava, vortava com ele pra casa pra escalá. Quando tinha gente que queria, a gente dava, a gente trocava. Naquele tempo, no Perequê-açu, não havia muita casa. Aqueles que não tinha cana pro café trocava aquele fexe de cana por um pexe e levavam embora. Faziam a troca.
         A tainha era demais. Era trezentos mil-réis o mil. Uma tainha de duzentos réis, um tostão que a gente vendia... Escolhida a tainha grande de ova pra vendê, né? Que nem a sardinha. Sardinha era mil e duzentos o mil. Sardinha galhuda! Não dessas que vende hoje!  Sardinha galhuda que nóis chamamo, né? Porque tem trêis espécie de sardinha. Aquela tranqueira de pexe que a gente vendia tudo na beira do mar. A pesca era do corrê do cais pra dentro; tudo quanto era pexe: espada, corovina, goete, pescada... Era tudo quanto era pexe!
         Nossa mãe! Na puxada de rede na preia você  não podia tirá de dentro d’água, na preia puxá! Quando a rede vinha num cabo por banda, você não podia puxá a redada. O redero, o prático dizia: “Aí vem coisa, no tempo da lula, no centro da rede” Perguntavam: “O quê, titio?”. “A correnteza que a rede vem trazendo é pexe!”. Quando chegava na beira da preia, às veiz não andava; encalhava. Era bagre urutu, era pescada amarela, pescada bicuda que nóis chamava, era pescada branca, obeba, gordinho... Eu com um primo-irmão, o Antonio Joaquim, que nóis chamava de Timbango, nóis dois sozinho, com Deus em primeiro lugá, demo uma redada de obeba, matamo seis mil, não pudemo alá a rede. Eu disse: “Antonio, ponha a rede num lado e de outro, vire as costas e não olhe para tráiz do que sai. Deixe que saia o que quisé saí”. Empatolemo a tralha da cortiça e do chumbo e fizemo força.  Que nada de rede vim! Era só obeba! Cada uma assim!

Mané Hilário (parte 3)

Gente daqui mesmo:
         Estou com 93 anos completo. Eu sou de 1908; 1º de dezembro de 1908. Eu nasci numa casa na rua Dr. Esteves da Silva. Não tem uma saída ali, uma saída que vai no mercado, que tá amurada de bloco, só tem espaço pra fazê casa? Ali foi onde nasci. Do lado era uma padaria do Adolfo Inácio e tinha uma casa dele do lado de onde era o lugá. Nóis morava ali. Então o papai alugô pra minha mãe ganha eu. E aí ficamo mais uns cinco anos morando ali. O Adolfo Inácio era o seu avô [do Júlio]. O seu bisavô era o Zé Inácio.
          Eu morava aqui, eu sou daqui. Depois eu me mudei de novo, outra vêiz lá pro Perequê- açu; fiquei lá no terreno nosso; lá onde a madame morô. Lá era tudo nosso. Agora tão entrando um povo, tomando conta. Tá na mão do advogado, mas até agora... São 66 arqueires de terra. Tá na escritura, tem posse na prefeitura, mas até agora não ressorveu nada. Eu não dô bola; eu tô nessa idade, não dependo de nada mesmo.
         A vida naquele tempo em Ubatuba era a pesca e a roça. Ubatuba não tinha açougue, não tinha medicina, não tinha nada. Caía uma criança doente - que Deus o livre o coitadinho-, a folha de laranja era o remédio –chá- e outros remédio que os mais velho –casero- ensinava, e, com a graça divina todos ele sarava. Hoje, qualquer uma coisinha vão pro médico, vão pra Santa Casa. E às veiz nem o médico sabe o que a criança tem. Mas vão lá pra mão do médico, mas correm pra lá. Naquele tempo não tinha nada disso; era tudo remédio casero. Uma criança que tinha uma dor de barriga – chá- raspa aí uma casca de canela, bota na água morna, dá pra ela sará quer ele sara. E sarava. “Ai, tô com uma dor”. Faiz uma folha de laranja, dá uma folha de laranja. Ah...criança naquele tempo era muito verme, não tinha recurso,  era remédio casero. Erva hortelã –aqueles remédio que nóis tem dentro de casa; e crescia e morria com 80, 90, 100 anos. Não tinha nada, não tinha médico. Não tinha não! Não tinha! O único homem que era entendido naquele tempo era o Luís Domiciano, o seo Juquinha... O Adorfo Inácio também tratava. 
         O Juquinha era famoso. Ele tratou de mim. Eu trabalhei em Santos; eu vim de Santos com uma maleita. Não, de lá eu vim adoentado. De uma maleita não; foi de uma injeção que eu tomei lá: que não podia ninguém embarcá, pegá navio sem sê vacinado. Eu vim. Aí me deu uma febre. “Isso não é nada não, Hilarinho. Eu vou dá um remédio pra você”. E ele me deu um remédio e eu fiquei bom. Eu tinha 15 anos; eu tô com 93. (2002)
         Em Santos trabalhei roçando bananal. Peguei um navio aqui e fui. Fui ganhá um dinheiro lá pra passá um Natar aqui. Você vede como era: eu fiquei dois meses e vim embora; depois não vortei mais. Muitos ia pra lá; de navio ou por terra; levavam cinco ou seis dias de viagem. Chegavam lá c’oa mão inchada, pés inchados de tá andando por esse caminho aí, pra trabalhá no sítio lá. Arguns ia de canoa de volga. Eu nunca fui de canoa de volga.

domingo, 10 de abril de 2011

Mané Hilário (Parte 2)



Folia do Divino:
         No tempo da Folia todo mundo se preparava. O terreiro tinha que alimpá. Arrumamo, limpamo o terreiro, porque lá não era como tá aqui. Era terreiro grande. Limpamo. Tinha laranjá em volta da casa. Tinha barrido as folha, tirado fora tudo. Abria um, fazia lenha para tê a semana toda pra acompanhá a Folia do Divino. Ter lenha em casa pra não tá tomando o tempo, né?
          Ia na casinha dele, botava a enxada. “Ô fulano, pra quê essa lenha?” “Ah, a cantoria do Divino vem aí, eu não vou me pôr com esse negócio de lenha. Quero aproveitá agora, fazê lenha agora pra então ter lenha em casa”. Todo mundo deixava a casa dele, acompanhava o Divino até a hora do almoço, vinha em casa, almoçava, tornava a sair. Quando chegava, terminava a cantoria do Divino na rua porque vinha pra cidade.
          Ali na cabeça da ponte era uma festança, na ponte de lá. Antigamente, ali cantavam, despediam do povo da roça tudo. Aquele povo todo a beijá a imagem da bandera. Eu então, como era mais inteligente um bocadinho, perguntava: “Vovó, porque tá beijando tanto e tá chorando?” “Ah, meu filho! A festa do Divino pra nóis é na roça, na cidade nóis não podemo vim”.  Vê hoje, quando vão batê na casa de alguém, a casa que tão batendo aí na rua tão c’oa porta fechada, não abrem a porta, não abrem nada. Na roça, lá pro lado da Picinguaba, aquele lado lá, tão tudo na roça, pescando, não se incomodavam com mais nada. Naquele tempo, na Picinguaba, nóis chegava na Ilha da Pesca pra terra, fechava a fumaça de foguete. A bandera do Divino ia na voga, na canoa, pra lá pra pegá a cantoria. O pessoá tava todo na preia esperado a bandeira. Era foguete pro lado da preia e da canoa de voga que ia c’oa bandera.

sábado, 9 de abril de 2011

Memória caiçara (I): Manoel Hilário

                 
         No dia 25 de maio de 2002, no final do serão, eu, Gláucia e Júlio nos encontramos na casa do Mané Hilário para escutá-lo. O resultado é este texto que será apresentado em partes. Deste, com alguns arranjos do Júlio, foi gerado o material publicado pela NUPAUB (USP) no volume 4 da Enciclopédia Caiçara. Outros dois artigos de ubatubanos estão lá (Confira: Domingos Fábio dos Santos e Gilberto Chiéus).
        
Introdução:
         Na véspera desta entrevista aconteceu uma exibição, pelo pessoal do Prumirim, uma dança de São Gonçalo, no casarão da Fundart. O seo Mané Hilário está fazendo os seus comentários, inclusive de outras danças e devoções que já são quase desaparecidas. A sua fala é entrecortada de gestos que, ora complementam o tema, ora é o próprio, isto é, não tem palavras que os expliquem. Em tempo: assim que iniciamos a conversa, chegou o filho do entrevistado, o Hilário Filho, que muito colaborou com o “produto final”.


M.H.: - Tem umas cinco ou seis parte na dança do São Gonçalo antes de começá a misura. Hoje dançaro um bocadinho, fizero um recortado. Eu não entendo, mas os práticos diziam: fazia a misura, tudo direitinhozinho, o derradeiro da fila de dança, de lá do artar ele vinha até cá no fim trêis veiz. Ia lá pra então terminá a dança dele. Era uma coisa bonita, mas hoje... Agora, as mulhé de lá dançaro bem sim; até me fez até lembra meus tempo, aquele tempo passado quando as mulhé tinha experiênça no dança c’os homi e fazia aquele recorte assim, coisa bem feitinha, mulher, né? Cadê o chiba? Acabô a dança do chiba que nóis dançava. Pegava a dançá as 8 da noite, ia até as 8 do outro dia. Eu pegava a camisa assim, torcia e caía água no chão. O finado meu sogro, Zé Florêncio, quando ia no chiba, dizia: “Mané Hilário, ocê dança de par comigo aqui”. Nós tudo de tamanco, feito de laranjeira, de canela... Lascava até tamanco, tudo repicadinho, eu... Quando na hora da palma, eu não batia palma, eu acompanhava com o sapateado. Hoje não se sabe nada disso. Começa do violeiro: não sabe aquelas moda antiga, passada, que era bonita... Cabô, não tem nada... Tá tudo mudado.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Que bolo!

        
         O meu tio Genésio adorava festas.  Por isso, num certo período, aos domingos havia matinê em sua casa. Eram animados bailes na modesta sala da sua casa, logo acima da linha do jundu, na praia da Fortaleza. Ali se constituía um ponto de encontro da moçada, mas havia também vários adultos que adoravam dançar.  Só para dar alguns exemplos: meu avô Armiro,  o Cândido, a Judite...Ah! Ia me esquecendo do tio Maneco! Este “farejava função de longe”, ou seja, se perdesse qualquer ajuntamento festivo, até ficava doente.
         Num desses domingos foi dia do seu aniversário. Ao passar na casa da filha, esta lhe presenteou com um bolo bonito e aparentemente saboroso. O tio Maneco agradeceu dizendo que levaria para casa para comer com a tia Aninha.
         No caminho, bem no meio do caminho, não “tinha uma pedra”, mas era preciso passar ao lado da moradia do tio Genésio, onde as pessoas já sacudiam os esqueletos na maior empolgação. Ele não resistiu! Pediu que a tia Maria guardasse aquele bolo especial só pelo tempo de algumas rodadas. E foi todo animado para a sala.
         O Cândido e o vô Armiro assim que viram o valioso bolo tiveram a ideia de uma arte. Foram até uma rede (mantida pela prima Neide como enfeite na sala, onde tinha de tudo: siri, peixe, conchas, escamas, sapo seco etc. ), pegaram um dos  sapos secos, foram até onde estava o bolo, cortaram pela metade e colocaram lá dentro o sapo.
         Após satisfazer o desejo de dançar com a meninada, tio Maneco pegou o bolo sem desconfiar de nada e foi para casa. Pretendia tomar café com o bolo preparado com tanto carinho pela filha Nélia. Foi chegando e perguntado:
         - O café está pronto, Ana?
         A tia Ana confirmou já com a mesa posta, tendo inclusive beijus. Ao passar a faca para  fatiar o bolo, ele descobriu o sapo. Na hora deu um salto e esconjurou:
         - Nem ponha a mão, Ana! É macumba feita! Algum inimigo se aproveitou do presente da nossa filha e fez este trabalho! Enterre tudo porque nem nós e nenhuma criação pode comer!
         Assim foi o fim de um bolo feito com tanto carinho. Ah!!! Esses caiçaras arteiros!!!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Um mês do Blog

         
         Há um mês, por sugestão-insistência da esposa, nascia o Coisas de caiçara. Eu espero que os leitores, sobretudo os seguidores, estejam satisfeitos com a minha mínima contribuição na intenção de mostrar o ser caiçara deste lugar chamado de Ubatuba, outrora território livre Tupinambá (aldeia de Yperoig).
         Juntando os indígenas, os aventureiros portugueses e os cativos africanos neste caldeirão natural entre a serra e o mar, surgiu a cultura caiçara.
         Caiçara é isto: um ser cercado natural pelas condições naturais forçado a ser criativo pelas necessidades. Todas as manifestações (desde os hábitos, crenças, técnicas, festas etc.) decorrem disso.
         Muito já se perdeu da cultura caiçara por omissão, por vergonha ou por falta de reflexão sobre a importância da herança cultural única que recebemos. Por isso que manter o blog é a minha contribuição na era cibernética. Tenho a certeza que, se o finado João de Souza estivesse por aqui, ele o chamaria de Pasquim moderno.
         É assim! O tempo que vou espremendo vai permitindo selecionar o que já tenho nos meus arquivos (“Baú do arco-íris”). Outras ideias (projetos) afloram a cada dia. Ainda falta melhorar em muitos aspectos. Porém, tenham a certeza que é um prazer fazer um pouco de esforço pela nossa cultura caiçara.
         Um abraço a todos que acompanharam as coisas deste caiçara e de tantos outros e outras que preencheram este mês de existência.
                   Um abraço.
                   José Ronaldo dos Santos

terça-feira, 5 de abril de 2011

O pilão é a solução

         Acompanhando o Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, conheci a AKAMUS (Academia de Música Antiga de Berlim). Trata-se de um grupo que excursiona por vários países, tendo recebido importantes prêmios. Coisa maravilhosa! Duas coisas me despertaram mais a atenção durante a apresentação:
         1º) É um grupo devotado ao resgate folclórico: seus ritmos e seus instrumentos são antigos. São belos! O que faríamos se não houvesse quem tivesse tal preocupação em nos apresentar tais preciosidades? 
         2º) Um de seus componentes, por sua postura especial, me fez recordar do tio Maneco Armiro, o rabequista que mais me causou admiração até hoje. Ele, tendo nascido e morado sempre na praia da Fortaleza, ficou muito conhecido por ter saído por muitos anos tocando na Folia do Divino.
         O tio Maneco acompanhava qualquer ritmo. Tocava de um modo muito especial: se requebrando todo; pulava com seu instrumento sem nunca perder o ritmo. Outra particularidade nele era gostar muito de mulheres, mas muito mesmo! Um caiçara fogoso, assanhado mesmo!
         Certa vez perguntei à minha avó Eugênia sobre como ele aprendeu a tocar. Eis a resposta dela: -“Aprendeu sozinho. Seu primeiro instrumento, feito por ele mesmo, era uma lata de massa de tomate pregada numa tábua, tendo no meio algumas linhas bem esticadas. Todo o tempo que podia ficava tocando aquilo. No começo era um enchimento de saco, mas logo todos foram se acostumando; começaram a gostar. Bem mais tarde alguém lhe deu um presente: era um instrumento de verdade. Ele continuou aprendendo sozinho. De lá para cá nunca mais parou. Hoje, então, está cada vez mais assanhado; influído por perceber que a música atrai as mulheres”. Porém, a mulher da vida dele era a tia Aninha. Ambos já são falecidos, mas quase alcançaram o centenário.
         Eles formavam um casal muito especial. Eram os zeladores da capela São João Batista. Eu adorava ir à casa deles; ficava contemplando os tijolos pintados em diversas cores. Outro prazer era vê-los fazendo farinha de mandioca, cuidando da criação no terreiro. Um lugar sempre atraente era o oratório impecável daquela casa. Os seus causos, as suas histórias – da nossa família!- envolviam-me todo o tempo possível. Só que coisas tristes acontecem, deixam qualquer um baqueado; querem nos dizer tantas coisas que jamais saberemos; “são tantos fios soltos cujas pontas não poderemos nunca achar”, conforme já disse alguém. Numa tarde, assim que cheguei de uma longa viagem fui visitá-los. Tio Maneco estava só, triste, se lamentado porque a tia Aninha estava hospitalizada há quase um mês devido uma queda na escada de acesso à casa de farinha. Escutei-o por muito tempo. Depois, para distraí-lo um pouco, brinquei maliciosamente:  “E agora, tio: como o senhor está se virando sem a titia, sobretudo nas noites?”.  “Ah, meu filho!” – respondeu prontamente para mim – “Isso está resolvido! Eu tenho um pilão de bom tamanho, feito de tarumã; está na cama comigo a noite inteira! Olha lá! É como eu venço a saudade da Ana!”.
         Haja criatividade!

         Sugestão de leitura: Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna.
                                     
                                      Boa leitura!
                                      José Ronaldo dos Santos

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Lembrando o João de Souza (1)

                  (Mentira nada! Pergunte a ele!)

         Certa vez fomos caçar tatu no morro da Praia Dura. Eu e o meu cunhado. Começamos a cavar um tatu às nove horas da noite e só paramos às seis da manhã. Cavamos mais de mil e quinhentos metros e paramos num lugar chamado de Bom Descanso. E não encontramos o bicho. Quando saímos do buraco, fomos ver que o tatu fez um buraco no tronco da figueira e foi lá pra cima. Ficou lá em cima grudado num galho de pau que não havia quem o tirasse”.
         “Quando eu era criança via os caçadores colocando fogo ou água no buraco do tatu a fim de que ele saísse mais rápido. Então tive uma ideia: levei um botijão de gás e um maçarico para o mato. Quando encontrava um buraco com tatu dentro, fechava a boca do buraco com um saco de estopa e soltava o gás dentro do buraco. O tatu sentia o cheiro e saía que nem foguete, indo para no fundo do saco. Deste jeito caçamos um punhado de tatu. Chegamos ao ponto  de só levar para o mato o botijão de gás e o maçarico; nenhuma arma a mais. E lá vinha nós com o saco cheio de tatu”.
         “Um dia o gás acabou. É aí que vale a inteligência e a experiência de um grande caçador. Coloquei o saco bem firme na boca do buraco do tatu e, com todo o meu vozeirão gritei: Oooooooolha o gááááááááááás!!!! O bicho saiu que nem bala de canhão e entrou no saco. Nem vi o tipo de tatu que era. O bicho era pesado. Amarrei a boca do saco e vim embora”.
         “Passando pelo bar do Barriquinha, onde estava acontecendo um bingo beneficente, pediram para mostrar o tatuzão que eu tinha pego. Quando virei o saco de boca para baixo e o bicho caiu no chão, foi um corre-corre desgraçado. O bicho que eu pensava ser um tatu, era um jaracuçu do preto que não tinha mais tamanho. O bicho começou a dar bote e rabada pra tudo quanto era lado. Não ficou um no bingo. Acabou o bingo. Vocês pensa que é mentira? Pergunta a ele!”
         “Esta foi a minha última caçada. Felizmente a caçada hoje está proibida; só assim podemos preservar os nossos animais. Hoje, quando vou levar o meu neto na Fazenda Jundiaquara, e vemos lá os gambás, os caxinguelos, os gaviões, os socós... peço para que Deus os protejam também”.
         “Para os ex-caçadores peço que segurem bem seus sacos porque a cobra pode fugir”.
         “Abraço do amigo João de Souza, o caçador do pé rachado que, se bobeiasse, tava também com o saco rachado. Ubatuba, 26/04/2002”.

domingo, 3 de abril de 2011

                Viva o João de Souza!

         Do nosso amigo João de Souza, grande contador de causos da praia do Itaguá, eu tenho muitas lembranças e muitos causos. Também tenho muitos causos de seu pai, o “Velho Rita”. Hoje, para todos entendam os causos vindouros narrados pelo João, publico um breve texto escrito em dezembro, por ocasião do terceiro aniversário de morte deste valoroso caiçara.

         Faço questão de lembrar o nosso saudoso João de Souza, filho do Sebastião Rita e da dona Josefa, casado com dona Maria, pai de umas meninas maravilhosas e avô querido por uma modesta netalhada. É uma pena que os seus escritos ainda não estão disponíveis a todos. Eu, que pude conviver bem com ele e todos os seus familiares, nunca me esqueço dos momentos bons que passamos juntos. Não tem como me desapegar desse humilde caiçara tão ligado à vida do Itaguá. Ah! Dona Maria e os descendentes continuam morando ao lado do campo de futebol, na rua Benedito Cunha Bueno.
         Na minha memória estão momentos maravilhosos, de convivência intensa. Ah! Como eu gostaria que os leitores ouvissem uma fita cassete, onde o Júlio e o João foram "correspondentes" do programa Rancho Caiçara nos jogos da Copa do Japão. Impressionante a agilidade, a criatividade deste homem que enfrentou a vida como um longo causo caiçara. Para encerrar, torno a fazer a reprodução da poesia que o Domingos compôs no dia da sua morte, há três anos.

         Arrelá, João de Souza


         O coração levou uns cambotes na vida,
         Peitou grileiro de terra,
         Distribuiu carinho e amor
         E foi se gastando,
         A tal ponto que seu doutor
         Recomendou mais parcimônia
         No uso das emoções.
         Mas, João de Souza,
         Que não é de cerimônia
         Ou de meias medidas
         Como os causos que contou,
         Era todo paladar
         Como o pirão que provou,
         Era todo caiçara
         Como o povo que amou,
         Era todo coração
         - E nem o fôlego acompanhou –
         E por isso veio a falecer
         No dia 07/12/2007
         Bem quando a alvorada despontou.

                                      Um abraço a todos os familiares do nosso saudoso amigo.
                                               Com carinho.
                                               José Ronaldo dos Santos

sábado, 2 de abril de 2011

O satélite do tio Lindo

                 As rodas de causos ainda existem. Hoje os caiçaras e outros contadores se encontram, principalmente, em frente aos portões, diante de suas casas, pois o jundu, “lugar sacrossanto” no dizer do finado Antonio Maior, “agora está tomado pelas mansões dos tubarões”, pelos quiosques, etc. Embora em algumas praias ainda seja possível tal ritual, o mais comum é, no meu caso, de aproveitar as mínimas oportunidades pelas ruas da cidade, sobretudo em “época de vacas magras”, quando a maioria dos rostos é conhecida. O que eu narro agora me veio à mente depois de uma prosa com o Élcio e o Belinho, em frente da moradia deste.
         O ano era de 1969, quando os americanos chegaram à Lua. Nas praias, em todos os lugares comentava-se a notícia que chegava até nós pelos rádios. Os mais antigos ainda lembram-se muito bem das instalações para que rádio funcionasse: era necessário um fio (antena) estendido acima do telhado, no correr da cumeeira, de onde descia uma ligação com o aparelho (rádio) que, devidamente fixo num ponto alto (para que poucas mãos o alcançassem), depois de abastecido com “potentes pilhas”, eram sintonizados poucos momentos por dia por motivo de economia.           Assim chegavam as notícias, as músicas, o Projeto Minerva, a Voz do Brasil... Pela localização geográfica do nosso município, era lógico que as emissoras cariocas dominassem o espaço. Afinal, estávamos aos pés da Serra do Mar. Mas... deixando de lado tudo isso...de repente quase todo mundo passou a entender de espaço sideral, de satélites, de potência americana e da corrida espacial contra os russos, etc. Era o assunto do momento depois das festas de junho.
         Naquele tempo, apesar de gostar dos encontros, de se visitarem regularmente, muitos caiçaras tinham suas casas bem afastadas. Quando alguém questionava, a resposta sempre era: “Estou cuidando da minha posse”. Porém, nós sabemos que é questão de índole: os caiçaras gostam de se isolar para não serem perturbados, nem molestar ninguém. O meu tio Lindo era um desses casos. Morava na praia do Cedro, próxima da Deserta; depois - bem depois!- da Ponta da Fortaleza, na qual o acesso ainda hoje é por um estreito caminho de servidão que, felizmente, nenhum ricaço ainda cercou. Porém, todo dia de domingo ele estava na praia da Fortaleza. Eu adorava escutar os seus casos.          Também ele entendia de satélite e dos assuntos internacionais do momento. Afirmava:
         - Os satélites estão nos ares e controlam as nossas vidas; alguns até dizem que nos enxergam mesmo dentro de casa. Não tem como escapar dos olhares deles.
         E esse papo ia longe. Discutia-se muito por isso, mas nunca se concluía nada. O tio Lindo adorava uma cervejinha; até dizia que era remédio. Só sei que, de remédio em remédio, ele ficava “sapecado”, tropeçando até em concha de sapinhaoá na areia. Eu me preocupava com ele; achava que poderia se machucar num caminho tão ruim de andar quando estava são, imagine naquelas condições. Assim comentei com o meu tio Tonico:
         - Ele vai sozinho? O senhor não pode servir de companhia para que nada aconteça ao tio Lindo?
         De pronto o meu tio respondeu:
         -Que nada, Zezinho! Você já aprendeu uma coisa: agora tem satélite por todo lado, controlando tudo por aí! O tio também tem o dele! Ele chega bem, você vai ver!
         Assim ele foi pelo lagamá, subiu a Costeira das Pegadas, no canto do Joaquim Silvino. Lá em cima ele estacou, deu um forte assobio e gritou:
         - Satélite! Vem! Vem! Vem, Satélite!
         Correndo, todo feliz, lá se foi o seu cachorro cor de vinagre. Ah!!! Eu ri muito naquele dia por causa do nome que ele deu ao bicho: era muito apropriado e atualizado. Alguém consegue imaginar um caiçara vivendo sem cachorro?

         Deixo como sugestão de leitura A farmácia do Filhinho, de Washington de Oliveira.
                                            Boa leitura!
                                                       José Ronaldo dos Santos

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A luz do Oliveira


Esse causo  aconteceu há algumas décadas, quando  a eletricidade ainda era desconhecida em quase todas as praias de Ubatuba. O que salvava a situação eram as lamparinas de querosene, mas que empretejava desde o nariz até o fundo da alma. Os vaga-lumes também davam uma ajuda sempre. Outro recurso eram os fifós feitos de bambu e trapos embebidos em massa de nogas.
Oliveira, meu parente longevo, morava na praia da Fortaleza. Dormia embalado pelo barulho do mar porque a sua casa estava localizada na linha do jundu; quer dizer, pertinho do mar, de onde a visão de toda a baía da Fortaleza, era privilegiada. Ele era roceiro-pescador, casado com a Filomena.
 Esse caiçara levava uma vida normal, mas eis que numa noite apareceu em volta da sua casa uma misteriosa luz. Ela saía sempre ao anoitecer da Costeira do Recife, onde tinha o coqueiral do Hamilton Prado, e se aproximava seguidamente, noite após noite, da casa do Oliveira. O coitado, juntamente com a família, observava aquilo todo arrepiado e assustado. Fazer o quê? No início se punham a orar, mas parecia pouco adiantar: nada afastava a luz e muito menos a explicava. A referida luz era como se fosse uma bola amarela, brilhante, do tamanho de uma bola de futebol. Ela se movimentava flutuando mais ou menos na altura de um metro acima da água ou da terra, parecendo ter vontade própria: para onde quer que o Oliveira fosse ela o acompanhava e cercava o seu caminho. Parecia exigir que o homem não saísse de casa após o serão. Muitas vezes colocava-se na porta como se vigiasse a passagem.
Outras pessoas podiam ver aquela luz, mas somente o Oliveira era o perseguido por ela. Se tentava livrar-se, era atacado. Apanhava mesmo! Era uma surra de dar dó! Certa vez a filha tentou espantar a luz ao vê-la se jogando contra o pai; foi também atacada. Isso durou meses e acabou sem explicação nenhuma. Ou seja, do jeito que veio se foi.
            Questão: o que era a Luz do Oliveira?