segunda-feira, 29 de agosto de 2016

FEIRA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL - RELATOS (VI)

Baobá (Arquivo JRS)

Arte do professor Hildebrando (Arquivo JRS)

O LIXO QUE VIRA ARTE  - Luciana Valério Cunha

Em outra escola, em outro bairro e com outra clientela, a professora Luciana expandiu a consciência ecológica, fez bem a sua parte e mereceu destaque na Feira.

               Meu trabalho foi desenvolvido com uma 8ª série, do noturno, na Escola Aurelina Ferreira, em Ubatuba, dentro da disciplina de Educação Artística.
               Após muita leitura e estudos de várias formas de manter o meio ambiente mais agradável e favorável ao nosso viver, propus aos meus alunos um trabalho sobre a preservação do meio ambiente, expliquei a existência da Fundação, sua importância e função.
               Toparam o desafio. Coloquei algumas ideias, debatemos outras, até escolhermos uma de mais fácil acesso e organização. O primeiro passo foi sairmos pelo bairro e coletarmos o lixo encontrado em volta da escola. Lá fomos de saco na mão e muita indignação. A divisão dos grupos ficou a critério dos alunos. Minha função era observar.
               De volta à escola, os alunos foram lavar o material, já que o mesmo seria exposto numa Feira próxima. Muitos passavam o desejo de colocar em prática os planos, pois já havíamos conversado bastante sobre o desenvolvimento do trabalho.

               De arame, martelo, alicate, cola prego... os alunos arregaçaram as mangas e foram aos entretanto. Dividiram - se em: plástico, madeira, latas. No grupo que trabalhou com lata e plástico, foi montada uma única escultura; o de madeira fez diversas. A empolgação tomou conta de todos. Ao final, pedi para que cada grupo escrevesse sobre sua escultura e o que mais lhe chamou a atenção. Conclusão: posso dizer que o resultado foi positivo para ambas as partes.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

FEIRA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL - RELATOS (V)

Ai que raiva dessa gente invejosa! (Arte Estevan)

O LIXO QUE VIRA SAÚDE  
                                                    Luciana Valério Cunha

               Após vinte e três anos, relendo os relatos da 1ª Feira de Educação Ambiental, consigo relembrar de cada rosto amigo e suas falas demonstrando um empenho em lançar sementes para uma nova consciência ambiental. Educação é isso! Cada novo projeto, cada nova turma de alunos é como um novo nascimento. “Com cada novo nascimento um novo começo nasce no mundo, um novo mundo passa potencialmente a existir”. (Hannah Arendt)

               Após o Curso de Educação Ambiental ocorrido em janeiro último, elaborei uma atividade para trabalhar com os meus alunos da EMEI Perequê-Mirim, que estão na faixa etária entre 6 e 7 anos incompletos. Queria uma atividade que permitisse uma maior integração entre os alunos para observar a natureza, identificar problemas e buscar possíveis saídas para solucioná-los, com o objetivo da preservação do meio ambiente. Mas o que poderiam eles tão pequenos fazer?  Particularmente, gostaria que observassem o processo de reprodução das plantas como elemento para introduzi-los às questões ambientais. Com a chegada de outra professora, contei a ela meus planos e tentamos colocá-los em prática.
               Relatamos aos pais o trabalho, e a partir daí, solicitamos aos alunos que trouxessem mudas e até mesmo adubo (esterco de cavalo), iniciando a montagem de nossa horta. À parte, montamos uma composteira onde contamos com a ajuda da merendeira  - Tia Nice -, orientando-a sobre o processo e como seria desenvolvido o trabalho. Recolhemos os restos de cascas de legumes e comida, montamos a composteira feita de blocos e forrada de folhas secas e serragem (saímos para buscar). Tudo acompanhado de muita explicação.
               Infelizmente, alguns acontecimentos nos aborreceram muito: roubaram nossa composteira, pisaram em nossas hortas e a única coisa que colhemos foi cerca de 50 gramas de feijão. Os alunos ficaram tristes com o ocorrido, mas assim mesmo tiramos resultados positivos, fizemos discussões sobre o ocorrido e chegamos à conclusão de que, apesar dos imprevistos, nossa iniciativa foi válida.

               Orientamos para que explicassem aos pais a atividade que desenvolvemos e que o resultado poderia ter sido diferente, mas para isso seria necessário um maior esclarecimento com toda a comunidade.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

SÓ ESPANOU UM POUCO A PONTA DO EIXO

Tio Neco, o "cozinheiro francês" da Vó Martinha. (Arquivo JRS)



          Adoro histórias! Adoro escutar pessoas relembrando fatos de suas vidas e da nossa  terra! Por estes dias, como sempre faço, passei parte de uma manhã de sábado escutando o Tio Neco. Impressionante as suas recordações! Espero que, aos 68 anos, eu também seja privilegiado assim!

          “No ano de 1971, logo após o término da obra do Fórum de Caraguatatuba, a firma em que eu estava registrado partiu para a construção da escola 'Capitão Deolindo', o primeiro colégio de Ubatuba, bem no centro da cidade.

          A firma era A. Carvalho Construtora e Comércio Ltda. No interior paulista, se não me engano na cidade de Pederneiras, ela se mantinha no ramo açucareiro. A obra era imensa, com dois blocos e uma caixa d’água sendo construídos simultaneamente. Porém, a caixa d’água, por ser prioridade, logo estava pronta. Eu dormia lá em cima, subia por uma escada rapidamente e lá me acomodava e descansava sossegado, deixando o barraco para os outros. A única companhia naquela altura era uma coruja branca, a suindara que também se alojava por lá. 'Ela ficava arengando um pouco, puxando conversa comigo, mas logo via que eu estava cansado e desistia da prosa'.

          Entre os dois blocos havia uma interligação, com uma ampla sala em cada nível e uma escadaria. Foi próximo do centro da escadaria que ocorreu o acidente com o Seo Antônio Canabrava. Ele estava, logo depois de um tempo chuvoso, no ponto mais alto, na cumeeira, montando um andaime para encher a caixaria das vigas, com pontaletes e tábuas. Foi daquela altura que ele escorregou. Seo Antônio era pernambucano, carpinteiro de forma, boa pessoa e bom profissional. A sua esposa era daqui mesmo, do Ubatumirim. Seus filhos eram: Rosa, Luiz... Após o acidente foi levado para o hospital em Taubaté, onde permaneceu internado por certo tempo. Depois foi trazido para casa, mas não demorou muito para falecer. Nós todos sentimos muito.

          Finalizado o concreto da primeira laje, percebemos que o primeiro bloco, paralelo à rua Gastão Madeira, apresentava 10 centímetros em desnível no comprimento. Como corrigir? O encarregado, o Seo Guido Rossi, resolveu fazer o seguinte: encheu toda a diferença com areia seca e cobriu com concreto. Foram vários caminhões de areia! Conforme o concreto foi secando, tudo foi trincando. Resumindo: tudo se perdeu. Tudo foi refeito. Foi um prejuízo enorme! Desconfio que a construtora teve que pagar.

       Alguns nomes, além do Seo Antônio Canabrava, companheiros na construção do ‘Deolindo’, que me lembro: Zequinha, Roquinho, Moacir, Antônio Gertrudes, Mané Amorim, Tião Amorim, Zé Benedito (irmão do Antônio Pereira), Luiz (filho do Antônio Gertrudes), Socó, Baduca, Duga, Zé Januário... Luiz Carlos era o motorista da firma.
          O material, a areia vinha dos portos de areia que tinha por aqui mesmo; a pedra britada era buscada numa usina do bairro São Francisco, em São Sebastião. Numa ocasião o caminhão, da marca MERCEDES, depois de ser carregado com a pedra, quebrou na saída da usina. Tivemos que ir com outro caminhão prestar socorro: passamos parte da carga e o rebocamos até a uma oficina em Caraguá. Com fome e pouco dinheiro, decidimos comprar um litro de cachaça para enganar a fome. Chegamos em Ubatuba, na obra, já estava escurecendo. Só no dia seguinte é que descarregamos o caminhão. Foi quando um colega olhou para o veículo e disse: ‘Mercedes dá muita despesa. Eu tive sorte: a minha Mercedes nunca deu problema, só espanou um pouco a ponta do eixo!’.

          Em 1972 nós entregamos a obra. Creio que as aulas no novo prédio só começaram em 1973. Ah, ia me esquecendo! Ao final da obra a firma faliu, dando um calote no Bananinha, o comerciante que forneceu toda a tinta para finalizar a obra da escola”.


          E assim vou fazendo de tudo para registrar as incontáveis experiências que vou escutando, pois desconfio que mesmo que estivessem em arquivos, elas já seriam esquecidas. Obrigado, Tio Neco.

domingo, 14 de agosto de 2016

POR OUTRAS TERRAS

Eu estava escrevendo a última parte do texto a respeito do Sr. Igawa, quando me veio à mão esta matéria da neta dele, da estimada Laura, que está na tailândia, bem longe daqui, fazendo a diferença em outras terras, em outra cultura. E ELA renovou o prazo! Ou seja, continua lá!

Quer ser voluntário no exterior?

Olha a Laura bem longe de casa, gente!!!
Andrea Tissenbaum –Estadão/ Blog da Tissen
10 Agosto 2016 | 08h48
Foto: Laura Shizue Igawa – Tailândia, Wai -Kru-Day com alunos
As possibilidades de trabalho voluntário são as mais diversas e abertas a todas as faixas etárias. 

Se você tem interesse em uma experiência de aprendizado internacional na qual poderá contribuir para o desenvolvimento de uma região e participar ativamente em questões comunitárias, o voluntariado pode ser uma excelente escolha.  Como voluntário você compartilha suas habilidades e competências com uma comunidade que, de fato, precisa desse apoio. Aprende a fazer coisas novas, se aprimora em um outro idioma e vive o intensamente o cotidiano de uma nova cultura.

Laura Shizue Igawa, formada em Letras pela USP, trabalhou como professora assistente voluntária em uma escola na Tailândia por seis meses. “Meu treinamento antes da partida foi intenso, com leitura de textos sobre cultura, identidade, diferenças e semelhanças entre os países, expectativas e dicas para uma boa viagem”.

Laura viajou pelo AFS Intercultura Brasil, uma organização internacional, voluntária, não governamental e sem fins lucrativos, comprometida em oferecer oportunidades de aprendizagem intercultural. Ao chegar na Tailândia teve todo o apoio deles no aprendizado de costumes, tabus culturais e comportamento.  

“Minhas responsabilidades no voluntariado eram lecionar, preparar aulas de inglês focadas em conversação, corrigir exercícios, avaliar os alunos e participar das atividades da escola. Uma das mais interessantes das quais participei foi o Wai Kru Day, dia de reverência ao professor. Todos os alunos levam um arranjo de flores e se ajoelham em frente aos professores agradecendo pelo ano letivo. O respeito aos mestres é muito grande”, relata.

“Escolher a Tailândia como lugar para realizar o trabalho voluntário foi realmente especial. Mas eu também acredito que quando há envolvimento com as pessoas e a comunidade local, em qualquer lugar do mundo, você só tem a aprender com o voluntariado que agrega valores como compreensão e adaptabilidade”, avalia Laura. “Ao nos depararmos com pessoas novas numa terra nova, algo evolui dentro de nós. Sinto que cresci pessoal e profissionalmente com esta experiência única”, completa.

Para fazer um voluntariado valer é preciso ter cuidado na escolha do programa ao qual você quer se juntar e ter muita consciência de que o seu engajamento é sério. Programas que tem um impacto nas comunidades querem receber pessoas que, de fato, participem e contribuam. Afinal, voluntariado internacional não é turismo. É uma atividade que exige compromisso e muita dedicação. O voluntário deve estar aberto a trabalhar com situações desafiadoras, ser paciente e responsável.

Por isso algumas dicas importantes devem ser levadas em consideração para quem quer ser um voluntário fora do Brasil:

– Pesquise muito o país e a instituição onde pretende ser voluntário. Saiba como lidam com seus recursos e de que forma aproveitam seus voluntários. Leia os relatos.
– Entenda o que você tem a oferecer à instituição: quais são as suas habilidades mais fortes? 
– Procure saber o que vai fazer lá: quais serão os projetos em que poderá participar?
– Pense no seu retorno. Que tipo de vínculo você vai manter com a instituição na qual trabalhou?


Foto: Department of Foreign Affairs and Trade via Wikimedia Commons

Não espere viajar de graça. Embora existam projetos nos quais você pode se envolver sem nenhum custo, algumas instituições recebem seus voluntários por meio de agências, o que garante um processo seletivo de qualidade, de ambas as partes. De qualquer forma, esteja preparado para cobrir suas despesas pessoais enquanto estiver fora.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

NIPÔNICOS NO LAGAMAR


 
Japoneses, em vindas promovidas pelo Sr. Igawa, catando sapinhauás no  Canto do Acaraú (Arquivo Igawa)
         Cheguei ao fim desta etapa, da minha parte na empreitada (de dar a conhecer a história do Sr. Igawa, um japonês que apostou muito em Ubatuba). Em prosa com o Nelson Igawa e sua esposa Mary, vislumbrei outras pistas de pesquisa que futuramente espero apresentar aos que seguem meus despretensiosos  textos. É muito bom saber que seus descendentes continuam firmes em seus projetos no município! Quanto a mim, nesta necessidade de conhecer e transmitir coisas de caiçara, vou trabalhando de acordo com meus recursos e correria do dia a dia, com prazer em escutar, descobrir tesouros que estão por aí, na nossa história, alguns ainda encaixotados e carinhosamente mantidos por pessoas sensíveis. Por isso aceito sempre alguma pista para um trabalho neste molde. E agradeço muito!

Conclusão:
Sr. Igawa (conhecido pelos funcionários como Sr. Álvaro) nunca morou em Ubatuba, fazia a rota São Paulo-Taubaté pela via Dutra, ainda de mão simples, e descia a serra em estrada de terra. A atual rodovia dos Tamoios nem existia, era mesmo feito uma trilha. Só por isso  dá para pensar  que ele era mesmo um desbravador. Em São Paulo participou ativamente até quando pôde de empreendimentos da colônia japonesa: na federação das escolas de língua japonesa, na construção do kaikan – associação  nipo-brasileira no bairro onde morava, e por muitos anos na Casa da Esperança ( Kibo-no-iê ), instituição para doenças  mentais e físicas graves. E ainda teve tempo para ser rotariano ativo, participando até mesmo das reuniões  em Ubatuba quando por aqui se encontrava.
Sr. Igawa faleceu em 28 de fevereiro de 2009, um dia antes de completar 87 anos.

          Na minha prosa com o Nelson, ainda nos lembramos:

1- Do empreendimento do Santokura, na Praia da Barra Seca. Começou com enguias, cujos alevinos vinha em avião da França. “Vinham dormindo, numa temperatura de quase zero grau. Quem trazia do aeroporto para cá era o Jorjão, num caminhão isotérmico. Chegando aqui, passavam de um tanque para outro, em temperaturas diferentes, rigorosamente controladas. Eles compravam gelo para reanimar os alevinos. Ali cresciam, engordavam e eram vendidos. Era só para exportação. Depois, das enguias, Santokura criou peixes tropicais. Ah! Por fim também funcionou como ranário. Faz tempo que já acabou tudo”.

2- “Outro japonês que investiu em Ubatuba tinha um ranário, no Itamambuca”. Como era mesmo o nome dele?

3- E o que dizer dos Matsuoka, Makiyama, Orito, Yamada, Hyasa, Imai, Utyama, Ikeda etc. que abraçaram as chances oferecidas nesta cidade?

Faço questão de acrescentar o comentário esclarecedor da amiga Mary neste espaço:

Oi Zé, bom dia!
Nos lembramos de outras famílias japonesas que aqui estavam quando viemos em 1977 - os Kuramoto que tinham pousada e restaurante no Pereque-açu, o famoso Rancho da Lua, os Niyama, do Rio Escuro - agricultores, os Assai até hoje com comercio de água e gás na Thomas Galhardo .Na época havia muito japonês por aqui, mas quando o Japão começou a receber os dekasseguis brasileiros muitas famílias daqui foram pra lá .Um lugar que meu sogro costumava almoçar era no restaurante São Jorge, da dona Izabel  e seu Jorge  - não sei o nome japonês - que faleceu nos anos 80 e a dona Izabel tocou sozinha até pouco tempo atrás. Vi esses dias  que o espaço onde ela morava e tinha restaurante e quartos pra alugar (na rua Jordão H. da Costa próximo a Casa Fernandes) deve virar logo logo um prédio.  
Bom fim de semana a todos!
abraço, Mary

            Finalmente, apresento o seguinte texto que esclarece alguns aspectos da cultura japonesa e da importância do Sr. Igawa na origem da Associação Esportiva e Cultural de Santana, na capital paulista:

           Apesar de refletirem muito das tradições do país, existe outra forma de conhecer mais a cultura nipônica que muitos brasileiros ainda têm pouco conhecimento: os Kaikans, pequenos clubes de bairro da colônia, comuns em vários locais onde a Imigração é marcante, como ocorre no ABC.
           Formado a partir dos termos “kai” (que quer dizer reunião) e “kan” (prédio), originalmente “Kaikan” era o nome dado apenas ao espaço onde os imigrantes, ainda pouco integrados ao Brasil, se reuniam para se confraternizar.
           Pouco frequentados fora do círculo nikkei – como são chamados os descendentes da “Terra do Sol Nascente” –, os kaikans desenvolvem atividades semelhantes a várias associações do gênero, com o diferencial de servirem também como redutos culturais do país oriental.
          Segundo a diretora do Museu de Imigração Japonesa de São Paulo, Célia Abe Oi, os Kaikans podem ser entendidos como “associações que tem a finalidade de reunir os descendentes e suas famílias para promover, em conjunto, as atividades sociais, esportivas e culturais de seu país”.
            A Associação Cultural e Esportiva de Santana completa 40 anos de existência. Foi uma longa caminhada. Quando volvemos nossos olhares para o caminho percorrido, enchemo-nos de emoção.
 1o Presidente: Suekazu Igawa  - 1967~1980   

 2o Presidente: Toyohiro Shimura - 1981~1990
3o Presidente:  Vicente Hayashida  - 1991~1996
 4Presidente: Toshihiko Komatsu - 1997~2000
 5o Presidente: Mário Suga - 2001~2008


domingo, 7 de agosto de 2016

FEIRA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL - RELATOS (IV)


Vera, as crianças, Pedro...Tudo na Ilha! (Arquivo JRS)

Projeto de recuperação e preservação de mananciais - Ilha dos Búzios
                                                                               Vera Lúcia Gomes

Introdução
               A relação que a comunidade tem com a água é tão natural que fica difícil para eles relacionarem suas dificuldades e analisa-las, encontrando outras soluções. O declive da ilha, mais o regime de chuvas, faz com que em determinados pontos falte água para o consumo em geral. As queimadas são outra parte da história: com as coivaras (queima da vegetação sem limpeza do terreno para posterior plantio), as matas foram devastadas na face oeste da ilha e em mais alguns trechos. Ao redor das casas, frutíferas sempre exóticas (ou seja, que não são nativas do local) são as poucas exemplares daquilo que hoje chamam de mata. As limpezas da trilha que levava ao ponto de captação de água que abastecia a escola (Porto do Meio) e mais seis residências eram constantes. Essas limpezas consistiam em retira todos  os arbustos e o mato rasteiro da margem esquerda. Na margem direita temos uma pedra de seis metros mais ou menos e uma roça de mandioca ao lado. Assim, junto à necessidade de manter a vegetação à margem do córrego que abastecia a escola, surgiu o Projeto de Recuperação e Preservação de Mananciais.

Histórico:
               Além da situação descrita acima, já tínhamos realizado com as crianças alguns trabalhos relacionados com o tema. Em 1991 discutimos com as crianças sobre o que é o lixo (eles achavam que as folhas eram sujeira), utilizando como exemplo prático de reaproveitamento de lixo orgânico as folhas de um pé de jambolão. As folhas eram varridas (e não mais queimadas) e colocadas na taquareira. Desse modo, eram aproveitadas como adubo para mais de 300 mudas (nascidas naturalmente). Além disso, realizamos um trabalho de contagem e observação das sementes e das mudas; observação do local onde tinha mais mudas e estas estavam mais adaptadas, etc.
               Em 1992, as mudas já estavam “no tempo”, mas tivemos problemas, e, infelizmente, não foi realizado o plantio previsto para acontecer no caminho entre as duas escolas. Já havia sido feita a separação do lixo, já tínhamos o buraco, a composteira e o trabalho sobre a decomposição. Tínhamos também trabalhado anteriormente com mudas a partir de sementes – Crianças Enchendo o Saco.
Desenvolvimento:
               Em 1992 mudei de escola. Fui para o Saco das Guanxumas e passei a lecionar Educação Física, minha real habilitação. Mesmo tendo mudado de escola, a realidade era bem próxima. Assim, continuava sendo importante um trabalho com mananciais, sobre o papel e a importância da vegetação, os problemas oriundos das queimadas e a tentativa de “reflorestamento”.
               Porém, pelas diferenças na nova escola, por não ter mais uma sala em tempo integral e por problemas de resistência da comunidade, comecei por fazer um levantamento das principais árvores e/ou plantas da ilha e sua utilidade. Esse levantamento foi feito junto à comunidade e foi uma maneira de sensibilizar e envolver a mesma.
               A princípio pensávamos que trabalhar com mudas e recuperação de vegetação, seria um total sucesso, que teríamos facilidade no desenvolvimento das atividades, porém os costumes locais e os valores gerais deram outro rumo ao trabalho. Numa comunidade ligada à agricultura e ao artesanato o assunto é cotidiano e visto de diversos aspectos.    Tanto no trabalho em classe como nas pesquisas, a conservação de espécies vegetais eram abordadas e apesar de todos “atestarem” a diminuição e até a ausência de várias delas (tanto árvores como arbustos e ervas medicinais e, até taquara). Identificando as causas quando nos referíamos ao cultivo, logo éramos contestados com a alegação de não ser preciso pois no dizer local, elas “nascem à toa”.
               Ora o que pensar se sabemos do conhecimento que possuem em relação ao cultivo e o uso que fazem das plantas?
               Repetíamos as pesquisas e obtinhamos o mesmo resultado até mesmo coisas do tipo: “- Não é preciso plantar. No mato, se procurar bem, tem muito. Só que é longe.” Mas,   quando precisam de uma boa árvore para canoa, nem longe não acham mais.
               Houve então uma queimada feita por um aluno (com acompanhamento da mãe), com a seca de julho e sapezal, o incêndio foi de grandes proporções, atingindo a mata.  Foi aí que retomamos o assunto. O tema voltou com mais força devido à seca, à área devastada e ao fogo na mata.
               Sobre a queimada trabalhamos com desenho onde as crianças retrataram o acontecimento, a área atingida e o resultado. Oralmente discutimos as causas, os porquês e as consequências, principalmente para os animais, o solo, a vegetação e sobre o que restou.
               Veio a chuva; pegamos as mudas na mata. Então trabalhamos o texto “o berço dos Hiroshi” que fala sobre a importância de se preparar a muda e a cova.     O trabalho foi realizado com as crianças analisando a situação local, comparando épocas e “aprendendo” a fazer mudas.    O plantio foi realizado em dois dias na área queimada e próximo ao córrego da escola.

               Conclusão:
               Este é um projeto que deve ser aplicado durante todo o processo de escolarização para que o aluno chegue a conclusão do trabalho que desenvolveu. Caso contrário, se transformam em atividades isoladas com sentido menor.
               O desenvolvimento de árvores através de sementes é demorado e para a criança sentir melhor, as mudas apresentam melhor resultado. É necessário que possam acompanhar os dois processos e outros como recuperação natural; para que encontrem soluções através das reflexões de seus experimentos e observações.
            Relação das principais plantas de Búzios: Aia, Araribá, Ariba, Aracurana, Arranha gato, Angelim, Arapoca, Bacubixaba, Bocuíba prego, Bataia, Rainha de espada, Bacupari, Bacaconha, Cuibatá branco vermelho, Cedro branco rosa, Canelinha miúda, Cambará grande, Cabaceira do mato, Carne de macuco, Caberiuba, Cosoca, Cacheta dura, Capororoca açu, Caporoca mirim, Cubirana, Caúna, Espirradeira, Espinheiro, Figueira parda, Fura olho, Fedegoso, Guaranda, Guaracica e outros.