terça-feira, 31 de agosto de 2021

QUEM SEMEIA VENTO...

 

  

Meu ipê florido na calçada - Arquivo JRS

   Agora, postado no terreiro, admirando os ipês floridos, pensei: “Como passa rápido  o tempo! Parece que foi ontem que peguei aquelas duas pequenas mudas e plantei na calçada, logo ali”. Estão lindos! Pena que as floradas durem poucos dias.

    Certa vez, debaixo de um ipê assim, cheio de flores amarelas, mas muito maior do que os que agora estou admirando, fiquei escutando umas coisas diferentes, engraçadas, parecendo até mentira. Mas eram verdades! Quem me garantiu foi Antônio Neves, mestre de bate-pé em meados do século passado, até quando casou-se com Isabel. Ele contava de um caiçara antigo de intestino “muito zangado, que peidava muito”. Já comecei a rir.  O tal Maneco Floriano, segundo o Neves, “não era um peidorreiro qualquer, desses que pretendem aparecer mediante qualquer barulhinho. Maneco era bom mesmo! Tinha uma habilidade notável nos tais fluídos. Era da prainha do Costa, primo do João Manoel. Você tinha de ter visto ele se concentrando para imitar um galo cantando  enquanto a gente esperava, no maior silêncio, algum sinal do espia para largar a rede em cardume de peixes. Pensa em alguém talentoso! E, ainda por cima, fedido demais! Acho que aquele homem tinha entranhas de urubu”. Achei engraçado, mas não duvidei. Peidão por peidão, nós tínhamos o tio João Barbudo que chegava bem cedo soltando seus rojões antes mesmo de nos desejar bom dia ou de abençoar a sobrinhada. Mas ter afinação de galo cantando era demais!

     Os “puns” resultam de reações químicas resultantes do trabalho das bactérias da flora intestinal. As características desses gases dependem dos alimentos que consumimos. Os mais velhos diziam que repolho, frutos do mar e feijão causavam muitas flatulências, punham para correr todo mundo que estivesse ao redor.

    Quando eu quis saber desse homem, Antônio me respondeu: “Morreu na época daquela tormenta forte, quando Ismael e outros também morreram no mar durante uma pescaria de sororoca. Quem semeia vento, só pode colher tempestade”. Não pude deixar de rir ainda mais diante do ditado que ele foi buscar para ilustrar esse tal Maneco e a sua particularidade bem singular. Me desculpe  pelo assunto, mas eu não resisti em contar esse detalhe da vida caiçara recordada sob um ipê florido. Imagine afinação de galo cantando naquele lugar onde a costa muda de nome. Essa foi muito boa!

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

IMAGINÁRIOS

Anjo no Planalto - Arquivo JRS


Os anjos nasceram antes de mim;

já estavam na cabeceira da mãe em dores.

Diziam os grandes que eles me guardavam.

Caí, me quebrei e me recuperei.

Anjo da guarda? Que moda, né?


Todos os anjos eram loiros,

de cachinhos que encantavam;

seguiam a mesma estética de Jesus:

loiro, de olhos azuis, longe ser alguém semita.

Não é estranho, Mané?


Muitos da nossa gente, 

pegaram essas referências 

e formaram suas personalidades.

Como você, nessas convicções,

trabalha os imaginários, Zé? 

 

 

  

 

domingo, 29 de agosto de 2021

CAMINHO DE PEREGRINAÇÃO


 
Puxada de rede no Itaguá - Imagem: Emílio Campi

     A imagem feita pelo saudoso Emílio Campi Neto, meu colega de infância no Perequê-mirim, mostra a labuta de pescaria por puxada de rede num ponto intermediário entre os cantos do Acaraú e a barra do rio grande de Ubatuba, bem próximo da Barra da Lagoa, na praia do Itaguá.  Atenção ao detalhe: uma pescadora no mesmo esforço dos companheiros. Junto ao grupo de caiçaras, gaivotas e garças esperam seu quinhão. É uma imagem do início da década de 1980, quando Aládio Teixeira Leite, seu primo Florindo, Otávio e outros tiravam dali o seu sustento. Quantas vezes eu me demorei apreciando o trabalho dessa gente!?!


    O mar atrai. Aprendemos que, nas crenças dos povos originários, o mar era buscado por estar "a um passo" da Terra sem Males, o paraíso do sol. Era por cima dele, despontando do leste, que o Todo Poderoso aparecia. Nossa costa brasileira era o primeiro lugar que ele, Deus-Sol, queria ver assim que acordava. Portanto, era natural afluir à costa  esses povos.


     No inventário de Domingos Dias Félix, feito em Taubaté, em 1660, constava que "da serra da Amantiquira, o selvagem, atravessando o bairro do Tataúva, o rio Paraiba, o Aguassai, ganhava a Taba Etê. Dali seguia para o Poracê, a Baraceia de hoje. Galgava o Samambaia, atingindo o 'carreiro das antas', caminho do mar de Ubatyba. Atravessando o Paraitinga, e mais adiante o Paraibuna, passava o sopé do Corcovado, que se bifurca, à direita, para Maranduba, e, à esquerda, para a Serra Velha e Ubatyba". Pois é! O caminho que atualmente passa por São Luiz do Paraitinga só mais tarde foi aberto, isto é, depois de 1686, quando as sesmarias perdidas por Mateus Vieira da Cunha e João Sobrinho de Morais foram concedidas ao capitão-mor de Taubaté, Felipe Carneiro de Alcaçouva e Sousa. Esta informação é de Félix Guisard Filho. 


         A que povo indígena está se referindo o inventário?  Quem dá-nos pista aqui é Daniel Mundukuru, em seu livro Vozes Ancestrais: "Os Krenak, conhecidos também como Aimorés, autodenominam-se Kren, que significa 'povo, gente, pessoa'. Estão espalhados pelos estados de São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. Originalmente habitavam a Mata Atlântica. Tem-se notícia de sua presença nessa região desde o século XVI. É certo que sua população era bem grande, mas no Censo 2010 foram registrados 594 representantes desse povo".


        Faço questão de algumas observações, alguns questionamentos:

 1- De Domingos Dias deriva o nome de uma praia em Ubatuba. Só que foi transformada, por falha de transcrição, em Domingas Dias. "Tomou, papudo! Depois de morto virou mulher!", exclamava de vez em quando o Nhonhô Armiro.  Logo, o homem que se apoderou da referida área era poderoso, pois deixou inventário. 

2- As terras de Cunha, o município vizinho ao noroeste de Ubatuba, foi dado primeiro a Mateus Vieira da Cunha? 

3- Andavam muito, vinham de longe os indígenas para a adoração do sol sobre o mar. Atravessar serras e rios fazia parte do caminho de peregrinação deles. Podemos dizer que eram praticantes de turismo religioso, onde renovavam a esperança numa Terra sem Males? Ou eram turistas a passar um tempo pescando e se deliciando nas praias de Ubatuba? De uma coisa eu não tenho dúvida: eles voltavam com cargas de peixes moqueados. 

4- Se apoiando no texto do Daniel Munduruku, podemos afirmar que o esforço empreendido pelo grupo originário, em ver o mar de tempos em tempos, era saudade de uma convivência antiga, de um território perdido, tal como fazem ainda hoje os meus parentes que foram enxotados para os sertões?

sábado, 28 de agosto de 2021

QUAL SERÁ O NOME DA CANOA?

 

Mestre Neco ladeado por Pedro e Estevan, meu querido filho (Arquivo JRS)

"Você pode saber o que disse, mas nunca o que o outro escutou"  (LACAN).


      Com esta frase, selecionada pelo primo Marcos Prado, iniciei o dia de hoje. Sigo deixando as minhas impressões do meu entorno, das pessoas que convivem comigo, do meu povo caiçara e do mundão por aí afora. Vou aprendendo a registrar as minhas percepções, os meus sentimentos, a história.

     Acabamos de ser contemplados pela produção de um documentário em torno do Mestre Neco dando uma aula sobre canoa caiçara. Que alegria! Desde já agradeço à sua companheira Péola por estar junto desse nosso querido mestre caiçara.  

    Para quem não sabe, me valendo de um trecho do mano Mingo por  ocasião da abertura dos trabalhos que resultaram no documento Quilombos - a hora e a vez dos sobreviventes, de 2001, um pouco de história do território caiçara: 


   "Brevemente, farei um relato sobre as transformações que ocorreram em nossa região nas últimas décadas. Até os anos 60, Ubatuba tinha uma economia voltada para a agricultura de subsistência e pesca artesanal. Era um mundo bem diferente. O espaço geográfico era todo ocupado, era dominado pelos caiçaras. Os melhores lugares - nas melhores praias - eram dos caiçaras. Ocupavam a orla com seus ranchos, canoas e casas; ocupavam o pé da serra com suas roças, expandindo as fronteiras deste espaço.

    A partir da  década de 70, com a construção da Estrada Rio-Santos, chegam os turistas [em nova e maior leva!] e com eles a especulação imobiliária. Os caiçaras são presas fáceis dos especuladores, trocando seus espaços tradicionais muitas vezes por "nada". O espaço,produção social, apresentará outra feição  - a paisagem será outra, os caiçaras perdem o domínio dos espaços privilegiados nas principais praias. Os donos serão os veranistas, os empresários da hotelaria, de restaurantes e de imobiliárias. Da mesma forma perdem-se os conhecimentos relacionados com as atividades agrícolas. Perdem-se os conhecimentos herdados dos indígenas: palavras tupi-guaranis, artesanato de cestaria, fiação de fibra de tucum e de outras plantas, uso medicinal da flora etc. Devido à mudança na base econômica, que tirou-lhes a terra da roça e fechou-lhes o acesso ao mar, o caiçara terá de buscar a sua sobrevivência em outras atividades econômicas. Os seus conhecimentos antigos são inúteis no novo sistema econômico. Os antigos pescadores, roceiros e artesãos exercem agora as profissões de zeladores, caseiros, jardineiros e outras atividades na construção civil, hotéis e restaurantes". 


    Mas o que tem a ver o escrito do mano Mingo com o começo da prosa? Tudo! Mestre Neco é parte importante, vital, das nossas raízes caiçaras. A sua sabedoria está em harmonia com a Mata Atlântica. Canoas e remos, saberes vitais à atividade pesqueira artesanal, que está longe de representar um perigo ao mar, precisam ser ensinados desta forma: escolhendo madeiras de preferência tombadas, que cumpriram um ciclo, usar ferramentas que menores impactos causam ao meio ambiente; deixando os cavacos de paus sendo transformados pelos milhares de seres que se constituem na nossa interdependência natural que nos fez caiçaras.


    Mestre Neco faz parte da denominação Nossas Mães e Pais Caiçaras que mostram nossas outras razões culturais provenientes de séculos de interação com a mata, o chão e as águas que nos garantiram vidas. Agora, dou-lhe paz para que decida o nome da canoa que ainda está sendo apurada. Eu voto na Ana Maria. (Este também é o nome da minha mana). Grande abraço, Mestre Neco! Grande abraço, comunidade caiçara! 

Assista, curta e comente: 

(3) AULA 3 - CANOA - YouTube

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

CRUCIFICA-O! CRUCIFICA-O!

 

Apenas descansando um pouco - Arquivo JRS

     Ao ver tantos jovens buscando o primeiro emprego, vem-me à lembrança o meu percurso nesta preocupação.  Parece que foi ontem a minha estreante contratação, mas já se foram 47 anos! Eu chegara ao local com quase nada de experiência, mas o pessoal me recebeu muito bem, me aceitando nos meus limites e me ensinando. Não demorou muito para eu estar tinindo, correspondendo às expectativas do patrão e dos colegas. Dei sorte? Sim, de certa forma. Mas me parece que o caminho de quem queria trabalhar naquele tempo, ser empregado, ter um salário a cada mês, era mais facilitado pela solidariedade, pela compreensão e camaradagem reinante. Deveria existir isso de puxa-saquismo, de difamação para prejudicar alguém, de se colocar a favor de outro "mais poderoso", de falta de acolhimento etc., mas estava longe de figurar como destaque porque a maioria era gente boa, disposta a ajudar. Confirmava o ditado popular: “Mais tem Deus pra dar do que o Diabo para tirar”.  Caso houvesse alguém a vigiar o nosso trabalho, era para nos aprimorar. Nunca ouvi uma fala atravessada, uma resposta ríspida, uma cara feia no meu primeiro ambiente de trabalho. Imagino o quanto é pesado, para quem necessita de um emprego, viver em ambiente torturante, sem poder desenvolver o seu potencial, sem ser acolhido ou ser tratado como se tivesse uma doença contagiosa. 

    Com o passar do tempo, em consequência de condições adversas em ambientes de trabalho, presenciei porção considerável de gente que precisou ser atendido em clínicas, ter acompanhamento psicológico, viver sob a tirania da tarja preta. Ah, Quantas injustiças! Quanto pesar ainda causam ao meu ser essas lembranças! Ao constatar situações assim, sempre ofereci ao menos a minha disposição em escutar. Se colocar ao lado de quem está sendo atacado, fragilizado e mais fraco é o mínimo, que está ao meu alcance em fazer.  Infelizmente os tempos são outros; hoje o caminho está mudado. A quase totalidade dos habitantes da nossa região é composta por pessoas que vieram de outras terras, se deslocaram de suas origens para tentar melhorar de vida, estão em contínua disputa, dentro do espírito do dizer caiçara: “Farinha pouca, meu pirão primeiro”.  Resumindo: predomina ambiente propício ao vicejar de discurso de ódio, ao querer espezinhar, à vontade em atirar a primeira pedra de uma série de muitas que podem massacrar um semelhante. Não, não eram essas as ansiedades neste chão beira mar. 

       Eu acredito que todo desejam se realizar. “A felicidade é o nosso fim último”, defendeu o sábio Aristóteles há muito tempo. Por isso, mesmo que seja alguém vivendo apenas uma frustração, para o meu ser importa muito. Triste? Sim! Sei de gente que enxergou no suicídio a única saída. Alguns estudaram comigo, outros compartilharam do mesmo trabalho. 

     Diante da certeza de que estamos em obra, nos fazendo, como podemos ir nos corrigindo?  Que fizemos ou podemos fazer? O que esse contingente de migrantes, negros, caiçaras e indígenas de Ubatuba e adjacências precisa para ser feliz? Uma certeza: não é de alguém que grita: “Crucifica-o!”. Pior ainda é quando se trata de algoz migrante, negando a própria história porque agora tem algumas míseras posses, se achando "poderoso", esquecendo de que a morte é pobre para todos. 

     Na pedra da beira do caminho, uma figura a soluçar.  Procuro saber o que é. “É síndrome do pânico, irmão. Mas eu preciso desse emprego; eu vim morar no litoral para tentar outra vida”. Sim, havia uma pedra na beira do caminho!

     Arte é resistência“Eu sei que o amor é uma coisa boa/ Mas também sei que qualquer canto é menor  do que a vida de qualquer pessoa” ,  da saudosa Elis Regina. Façamos disto uma prece. Não deixemos nenhum fermento ruim sufocar a dignidade humana em nós e no outro.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

COMPLEXO DE VIRA-LATA

 

Arte no muro - Arquivo JRS


    O que escrevo agora, eu escutei de passagem. Mas me indignei! Aristides, o Tide, puxava uma prosa deprimente, de um pobre querendo agradar outro que aparenta ser menos pobre pelas posses aparentes: o Totonho do Rio Abaixo. Um negro e outro branco. “Eu sou da Bahia, mas a minha mulher é de Minas, de Ladainha...”. Totonho escutava, olhando o visor de seu celular, sem demonstrar nenhuma empolgação na fala do outro. Por fim, acho que notando o pouco caso, humildemente o Tide fez um fechamento no monólogo: “Nesta semana, nós recebemos uns produtos do lugar da mulher, lá de Ladainha... Depois eu trago para o senhor um pedaço de requeijão”. E sumiu portão adentro, à sua simples habitação. Não ouvi agradecimento algum. Nitidamente transpareceu que o primeiro, por testemunhar a ostentação do outro, se acha na necessidade de semelhante gesto. É o que se conhece como complexo de vira-lata. É mais comum do que se pode imaginar; pode implicar em danos ao indivíduo, sobretudo no nível cultural. É um sentimento de inferioridade pela etnia, pela condições econômicas, de gênero etc., inclusive da própria nacionalidade. A ideia de brasileiro inferior transpareceu no século XIX, quando Gobineau disse que os cariocas eram “verdadeiros macacos”.   Em seguida, predominou a ideologia de branqueamento na história brasileira.

    O complexo de vira-lata, expressão usada pelo escritor Nelson Rodrigues quando da derrota ao Uruguai, no futebol, em 1950, é mais presente do que você pode pensar. Infelizmente, ele pode trazer algum prejuízo na relação do indivíduo com a sua própria nacionalidade.

    A expressão criada num contexto futebolístico, pode ser usada em qualquer área, pois ela cria um narcisismo reverso, fazendo com que a pessoa valorize o outro antes dela mesma. As características do complexo de vira-lata podem ser resumidas em: baixa autoestima, vontade de aceitação, valorização do externo e dependência da valorização externa.

     Muito tempo depois de  ver alguns caiçaras entregarem suas melhores áreas a turistas por pouco mais de nada, concluí que o nome dessa postura é complexo de vira-lata, tal como constatei no caso do Tide. Quem ganha com sentimento assim? Precisamos aprender a pensar, ser sujeitos de nossa vida. Grada Kilomba, uma pensadora negra escreveu isto: "É o entendimento e o estudo da própria marginalidade que criam a possibilidade de devir de um novo sujeito". Não tem como eu não escrever contra o silêncio e a marginalidade criados pela colonização de nossas mentes, entendeu Tide?

  Apoio: https://www.psicanaliseclinica.com/complexo-de-vira-lata/  Acesso em 24/8/2021

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

A MULHER BONITA...A PRAIA...

 

Praia Brava, do Hermínio, foi renomeada - Arquivo internet

       

     Era só alegria no aniversário do Nilo Cabral, meu saudoso compadre. As músicas saíam da vitrola para animar ainda mais o grupo, todos caiçaras. De repente, um samba de Martinho da Vila. Aí o clima embalou, ficou mais quente.


Quem é do mar não enjoa, não enjoa/ Chuva fininha é garoa, é garoa/ Homem que é homem não chora, não, não, não, não chora/ Quando a mulher vai embora, vai embora.


       E vai...e vai... e vai.... Quando a música acaba, os mais animados parodiam uma das estrofes:


Quem tiver mulher bonita/Traga rente, pelas mãos/Pois o Nelson tinha a dele/Mas perdeu lá no sertão.


     E virava tudo em escandalosas risadas, com novas rimas e novas  estrofes. “Que bandalheira é essa?”  - perguntou o Nilo. “Estão estragando a música isso sim!”. Quase todos os presentes continuavam na mesma animação, inclusive o irmão do Jango, cuja companheira, no sertão, ganhou o mundo com o Benedito. Mas o Nelson era todo sentimento se desmanchando em bebedeira! Chorava, cantava, se requebrava não se importando com ritmo algum, sem se dar conta de qual artistas se esgoelava na animação daquela festa distante, na casa do Nilo e Luzita. No clima daquele momento, Mané Fialho puxou  cantoria embalado pelo samba que era sucesso no momento:


Meu pai não quer que eu case, mas me quer namorador...lá, lá, lá...

Madalena, Madalena/ Você é meu bem querer/ Eu vou falar pra todo mundo/ Vou falar pra todo mundo,/ Que eu só quero é você...”.


    A pobre da Madalena, jovem de tudo, não sabia onde se colocar cheia de vergonha. Ainda bem que a sua irmã casada estava ali com o marido. Para evitar complicações, eles logo deram um jeito e foram embora muito antes da saideira. No dia seguinte comentei acerca do incidente, com o Fialho; fiquei sabendo que, de fato, ele era apaixonado pela Madalena. Porém, quem passava mais tempo no porre e na boemia, jamais seria aceito na família do saudoso Hermínio, da Praia Brava, hoje renomeada como Lamberto. 

   Tinha mesmo uma praia com este nome? Sim, claro! Parte da Praia do Lamberto, da original, como eu conheci, tornou-se uma área particular, foi transformada numa marina, com barreira bem cuidada que impede aos transeuntes a visão da linda paisagem. Pobre só entra lá se for para trabalhar. A outra parte é onde está o Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo,  vizinha próxima do Saco da Ribeira.

    A mulher bonita, até onde sei, se realizou com o Benedito. A praia do Lamberto foi apagada ao público. Madalena, tristeza, se foi bem jovem.

    Só o estimado Nelson continua firme, se mantendo com pescarias e outros serviços temporários. 

terça-feira, 24 de agosto de 2021

PAPAI E A BICICLETA RALEIGHT

A bicicleta Raleight  - Arquivo internet

Papai e o mano Mingo - Arquivo Documentário


      Papai e mamãe casaram-se com casa pronta na medida do possível e da pobreza deles daquele tempo, final da década de 1950. Era uma edificação de tijolos e telhas cerâmicas  - tipo francesas, da marca “Paulo Becker”  -, com piso de cimento. Tudo feito por papai e alguns irmãos e amigos, pois ele era craque em construção civil, se dava bem como pedreiro e carpinteiro. Aliás, “Carpinteiro” era o seu apelido. Foi o nosso primeiro lar, na praia do Sapê. Eu e mais três crianças nascemos ali. Minha avó Martinha, a parteira, teve trabalho. No começo de 1969, fomos de mudança para a praia da Fortaleza. Quem comprou a nossa propriedade no Sapê foi o tio Antônio do Prado, da tia Santa, sendo as promissórias quitadas por intermédio do tio Ângelo, casado com a tia Belinha.

     Algumas tecnologias, modernidades daquele tempo, marcaram essa minha primeira infância. Um exemplo era um caminhãozinho barulhento, cujo dono bem poderia ser o Biduca. A partida desse veículo tinha de ser dada por uma manivela engatada rente ao para-choque dianteiro. Outro fato marcante foi a construção da rede elétrica, quando a empresa fincava postes e esticava cabos de arame pelas picadas, sobre as matas, com seus maquinários no areão da tia Rita Carlota. E  aquela bicicleta estrangeira, uma Raleight do papai!? Que máximo!

    Sim, que máximo! Pesadona, com assento de couro cru sobre molas amortecedoras, bolsa de ferramentas sob o cano horizontal que ligava o garfo à base da seleta. E aquele farol alimentado pelo dínamo, que gerava energia no contato com o pneu em movimento!? Tinha ainda: para-lamas nas rodas, fitinhas coloridas nos terminais do guidão, espelho retrovisor e uma flâmula de time de futebol, do Palmeiras, orgulhosamente ostentado pelo proprietário.

    Eu e os demais filhos, uma miuçalha só, nunca imaginaríamos de um dia sair pedalando. Aquilo era coisa de gente grande, de quem precisava ir trabalhar mais longe. Alegria nossa, era, nas folgas do pai, ser levado a dar uma voltinha até a pista, ver mais movimento de gente na Praça Santa Cruz, mais conhecida hoje como Largo do Sapê.

     A Raleight era preta e portentosa aos nossos olhos. Só não me recordo que fim levou tamanha preciosidade. Sim, era estrangeira, veio da  Inglaterra! Isto eu soube bem depois, mas nunca esqueci devido a uma expressão recorrente do vovô Estevan: “Porcaria até, porcaria até. Ai que dor na grãbretanha”. Você é capaz de imaginar onde era a Grã Bretanha do vovô?


segunda-feira, 23 de agosto de 2021

AVÓ DAS FLORES

 




         

Nossa flores (Arquivo JRS)




     Pensa na mano Mingo recordando da nossa avó "perdida" entre as flores, no terreiro da casa, dizendo os nomes daquelas maravilhas todas que coloriam e perfumavam cada dia nosso em outros tempos! Ela era a...


AVÓ DAS FLORES


Pensa em um curta planície toda praia e restinga

entre os esporões da Serra do Mar,

pensa em uma casa branca e azul

no meio de um pomar,

pensa em cafeeiros, bananeiras,

aqui um limoeiro, adiante duas jabuticabeiras,

pensa em detalhes como um jardim

frequentado por colibris, borboletas

e criaturas celestes em geral,

pensa em uma avozinha querendo aperfeiçoar

a natureza com mais perfumes e cores,

que plantou uma flor-trepadeira no pé do coqueiro

que subiu, subiu e encheu o céu de flores.





domingo, 22 de agosto de 2021

O DESAFIO NOSSO PARA NÓS MESMOS


Pedra da roça do avô do Virgílio na areia - Grande do Bonete (Arquivo JRS)


       Passa do tempo de novas atitudes de cada um de nós, de cobrança de práticas políticas que tenham como prioridade o coletivo, o bem para nós e para todos os seres desta Terra. O que está em jogo são nossas vidas, a herança que vamos deixando às gerações futuras. Haverá futuro. Mas qual?

   Gratidão ao amigo Jorge pela indicação da Revista Juçara, da resistência em  São Sebastião.  Recomendo a leitura de tão importante material em torno da vida de Carolina Maria de Jesus.



A humanidade se perdeu no próprio lixo

Autora: Tatiana Araújo

Fonte: Revista Juçara  -  is.gd/jucara3 



        Primeiro de janeiro, logo após a festa de final de ano, resolvi ir até a praia. O cenário que eu encontro é o de total fim de mundo. Garrafas, latas, copos descartáveis, pratos de isopor, sacolas plásticas e muitas bitucas de cigarro espalhadas pela areia. As pessoas caminhavam pelo lixo, como se aquilo fosse natural. Deitavam na areia, rodeados de lixo, sem se importar. Eu não conseguia ver aquela cena como normal. Comecei a catar o lixo, decidida a limpar a praia inteira sozinha, mas a quantidade de lixo era enorme.  Cenas como essa são frequentes em todo o mundo. Nós estamos vivendo neste planeta, extraindo da natureza tudo que é possível, sem limites. Como se ela existisse apenas para atender às nossas necessidades e desejos. O resultado é que estamos poluindo o solo, a água e o ar.  Causando nossa própria morte. Comemos peixe com micro plástico, bebemos água contaminada com fezes e respiramos o ar poluído por substâncias tóxicas. Por que poucos se incomodam? Porque nos desconectamos da natureza. A humanidade se perdeu no próprio lixo. Não nos vemos como parte dela. Perdemos a percepção do todo, e da importância do equilíbrio ecológico. Na natureza existe um ciclo de vida equilibrado e circular. Uma fruta que nasce, alimenta os pássaros, quando ela cai na terra, se decompõe por ação de bactérias e fungos, e volta novamente a nutrir a terra para produzir novos frutos. Não existe lixo. Nós, seres humanos, precisamos nos reconectar com o mundo natural. Reaprender a viver neste planeta com equilíbrio ecológico. Recusar o consumo de produtos com impacto ambiental negativo, reduzir a compra de produtos desnecessários, reutilizar o que é possível, reciclar materiais e compostar todas as sobras de comida. Trabalhar por uma economia circular. É urgente mudar a rota atual de produção e consumo. Caso contrário, trará o fim da espécie humana, enterrada no próprio lixo. E o planeta? Este continuará existindo, com toda a resiliência que tem.




sábado, 21 de agosto de 2021

RAÍZES CULTURAIS BUSCAM RAÍZES CULTURAIS

 

Brasão de Ubatuba - Arquivo Ubatuba Antiga

     Pedrinho, agora Pedrão, neto do Velho Pedro Cabral, há mais de década vive na Austrália, longe de seu chão caiçara. Foi para trabalhar, casou-se lá. Creio que por lá, junto a outro mar, com outro povo de pescadores, fará o seu repouso final. Sei de poucos, de gerações mais novas, que fizeram igual: Tayná está na Finlândia, Liliane vive na Espanha, Nilson Nascimento se acomodou em Portugal, a filha da Olga é quase avó na Suíça, Sara está adaptada, vive bem na Escócia, Catarina está na Bélgica, o neto do Dito da Matta se encontra na Alemanha etc. Toda essa gente mais nova buscou outros caminhos, outras terras a fim de ter outros futuros. De vez em quando recebo notícias deles e delas por vias indiretas.

     Há pouco tempo, da Austrália,  por intermédio da prima do Pedro, fiquei sabendo que há um ritual, na região onde ele mora, bastante interessante. Escutei com interesse, deduzindo que o espírito caiçara do rapaz permanece, mesmo em terra tão distante. Penso que é por ser na beira do mar a cidade onde ele se estabeleceu. Quem sabe não é a energia do mar que o faz recordar das suas raízes, de viver e recontar as novidades de lá!? Afinal, o seu avô era um dos maiores pescadores de seu tempo, tinha canoas e enormes redes para a pesca dos cardumes que abundavam neste litoral, nesta Ubatuba. Mas o que ele enviou de novidade?

    Naquela região, na cidade onde o Pedro está, bem longe daqui, também a pesca é uma atividade econômica forte. Portanto, o lugar onde vive o nosso citado caiçara, tem muitos "caiçaras" australianos, descendentes dos povos primitivos que lá habitavam antes dos europeus invadirem para a exploração. Na cidade há um ritual anual, por ocasião da época da chegada de grandes cardumes. A intenção é afugentar os maus espíritos das águas do mar a fim de não atrapalharem as atividades  pesqueiras. Bem na orla da praia uma rua se torna a Rua das Caretas. São esculturas de variados tamanhos, todas postadas de frente para o grande mar. Dentre elas têm algumas centenárias, provindas de tempo pré-colonial; outras vão sendo esculpidas a cada ano, dentro da cultura dos pescadores locais. São três dias e três noites de muita sonoridade, pedidos, danças, comidas e bebidas na Rua das Caretas, na festa do Roh yang baik. No quarto dia todos descansam. Apenas no quinto dia, depois de terem seus nomes repintados, as embarcações partem no enfrentamento do mar, tal como os nossos ancestrais tupinambás, os nossos antigos e os novos trabalhadores do mar de Ubatuba. Na cidade, pelos lugarejos, ficam apenas os familiares rezando por aqueles que agora pescam. Assim, o caiçara Pedro vai se adaptando aos "caiçaras" da Austrália. Que a gente continue recebendo mais coisas, alegres notícias dos bons espíritos de lá! Abraços e felicidades ao nosso pessoal que partiu ao encontro de novas raízes!

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

LUGAR DE FALA

 

Capa do livro - Arquivo JRS

    Seo Miguel apareceu bem cedo, veio buscar uns livros para estudar. Que disposição! Voltou a estudar aos sessenta anos, está no Ensino Médio. Ele, cidadão negro caiçara, é  funcionário em um setor público, na Secretaria da Saúde. Agora ele busca reforçar o seu lugar de fala, quer ser sujeito político mais decisivo e incisivo nesta realidade nossa, de beira mar, que tanta gente atrai.

   Certamente que, com novas leituras, ele será capaz de entender tantos autores e autoras da resistência negra. Ele, Miguel, também é um resistente. Na próxima vez, na primeira oportunidade que aparecer, direi a ele da maranhense Maria Firmina de Jesus que viveu entre 1825 e 1917. Apresentarei a ele o livro Úrsula, publicado em 1859, mas mantido por tanto tempo sob véu de esquecimento proposital porque, além de mulher,  era negra, filha de mulher branca e pai preto. Ou  seja, era duplamente discriminada. Só faltava ser escrava.

   Alfabetizada e inteligente, Maria Firmina, em 1847, prestou prova e passou a trabalhar como professora primária. Conta a história que, em 1880, ela fundou a primeira escola mista do país. Só que, pela mentalidade da época,  a sua iniciativa, foi um grande escândalo. Assim, dois anos depois foi fechada

   No romance dessa mulher maravilhosa, logo no início, um homem branco cai do cavalo. Quem o encontra e lhe salva vida é um homem preto. Reis, em seus estudos, escreveu : “É o homem branco que deveria cair do alto do seu cavalo para poder encontrar a humanidade que seus contemporâneos e antepassados usurparam de si e do outro”. Triste espólio da escravização dos negros! 

   Ah, Miguel! Acho que ainda falta muito para conhecermos muita gente boa e suas contribuições! Imagine quantas e quantos temos de encontrar! Desde que o mundo é mundo, as diferentes formas de resistência existem. Só que havia  - e ainda há! – falta de visibilidade.

  Apagar alguém, perseguir, excluir, desmerecer, discriminar etc... Que histórias não deixaram de ser contadas? Ainda bem que, as diversas formas de resistência seguem pesquisando, revelando tesouros para reforçarem lugares  de falas das minorias da sociedade brasileira. Há 162 anos  vinha ao mundo Úrsula, o livro! Sabe o que significava ser a primeira mulher negra, naquele contexto,  a publicar uma obra literária no Brasil daquele tempo?

   Por fim, até imagino o Seo Miguel exclamando: “Mas que mulher corajosa!”.


quinta-feira, 19 de agosto de 2021

QUE BONITO!

 

Pescaria na praia  -  Arquivo JRS

      A realidade, o cotidiano está aí, se mostrando às contemplações, interpretações, interações e intervenções. Basta dar uma voltinha, se deter e prestar atenção. Um exemplo: me postei no jundu para ver um grupo de pescaria composto quase totalmente por japoneses, desde jovens até o patriarca, bem idoso. Me recordei que, desde pequeno, eu sei que os japoneses gostam de pescar, adoram peixes e outros frutos do mar. Grandes grupos chegavam na praia onde cresci e se espalhavam pela costeira. Caixas de isopor, varas, barracas e tantos apetrechos que tanto nos impressionavam só tinham uma intenção: proporcionar uma boa pescaria.

     O grupo a que estou me referindo, pelo jeito, chegou cedo. Logo deduzi, pelo que vi: estava ali para passar o dia. Todos eles se  acomodando em cadeiras depois de arremessar suas linhadas, prestando atenção nas vibrações das varas. De vez em quando alguém do grupo passava com uma bandeja, servindo algo para o estômago. Eu também comecei a prestar atenção nos diálogos. "Outra vez, Lúcia? Perdeu outro anzol? Só pode ser baiacu!". "Ei tio, traz outro anzol para mim".  De repente, um puxão na linha mais próxima do patriarca. Eu, caso estivesse no grupo, logo pegaria a vara e começaria a trazer o peixe. Mas não foi o que aconteceu. O pescador mais próximo se levantou de sua cadeira, foi até o patriarca, ajudou-o a se levantar, conduziu-o até onde estava fincado o suporte e colocou a vara em sua mão. Depois de se certificar que o idoso estava firme, o largou. Daí em diante, o trabalho foi do pescador mais experiente deles, na carretilha, no molinete.  O peixe veio vindo, veio vindo, veio vindo...conforme a força do homem e o seu talento. Era um bagre. Eu, ali perto, vibrei pelo feito  - e pelo peixe! Nisso, uma das mulheres segurou o bagre, levou até o patriarca para que ele visse bem de perto e recebeu a confirmação para guardá-lo numa caixa que estava logo ali, junto à cadeira de rodas do idoso.  Que bonito!

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

ANTÔNIO DA MATRACA

Pescador caiçara - Arquivo Trindadeiros


     O saudoso Sabá, o Mestre Sabá,  cujo nome real era Silvério, vendia peixes, na década de 1970, empurrando um carrinho de mão. Geralmente passava nas ruas anunciando em claros berros: "Olha a sardiiiiinha....Vai carapau, hoje?...Olha o olheeeeete... Tudo fresco...Se debatendo, caindo no chão". Eu ria demais, achava engraçado aqueles anúncios naquela voz agradável do Velho Sabá. Ao adentrar no bar, onde eu trabalhava, ele primeiro dizia "Olha o peixe" para depois desejar "Bom dia, Zezinho!". Quase sempre a sua parada era para comprar cigarro, daqueles sem filtro - Continental, Kent, Mistura Fina... - e tomar água gelada, mas se demorava um pouco porque gostava da atenção que eu lhe dava, valorizava suas prosas, especulava o que podia. Ressalto que este é meu costume até hoje.

     Foi o Sabá quem me contou do Antônio da Matraca: "Você já ouviu falar? Pois bem! Mas já tem um tempo que ele é morto. Antônio da Matraca era paratiano, mas veio moço para Ubatuba. Trabalhava  no casarão do Guisard e fazia anúncios, propagandas, em suas folgas. Andava pelas ruas aos gritos. Ele, sim, tinha voz forte, potente, do tipo trovoada brava. E ainda por cima, pegava uma matraca e saía sacudindo, chacoalhando pelo centro da cidade de forma bem caprichada. De repente, parava em uma esquina e anunciava os produtos e os pontos de comércio onde havia para negociar. Não havia como não escutar o Antônio da Matraca". Conforme ele falava, eu imaginava a cena, com pessoas prestando atenção no que era anunciado. "Era uma forma de reclame muito eficiente", confirmou o Sabá. Então eu lhe sugeri: "Por que você não arruma uma matraca homem? Vai fazer sucesso!". E não é que o danado arranjou uma matraca não sei de onde!? Daí em diante, nos acostumamos a ouvir e ver mais animação no nosso vendedor favorito de peixes. Viva Sabá! Viva toda a descendência dele! 

terça-feira, 17 de agosto de 2021

QUAL CULTURA É A NOSSA?

 

Prosa de caiçaras Arquivo JRS)
    

      No texto anterior -  O conhecimento da  ervas salvava - fiz questão de transcrever um fragmento da obra do doutor Esteves da Silva, médico que também deu importante contribuição à educação escolar local, além de brilhante carreira política em Ubatuba no final do século XIX e começo do XX. Foi vereador e alcançou o cargo de deputado provincial de São Paulo.  O presente texto é apenas aprofundamento de pontos explícitos no trabalho do médico, de alguém deslocado da capital federal - RJ - para exercer a profissão numa cidade pequena. O empreendimento científico, como era de se esperar, não daria a devida importância ao fazer e ao ser caiçara, aos mais pobres e seus modos de pensar. 


      Está bem claro, faz  parte das convicções do doutor Esteves ao menos alguns pontos: 1º - Aqueles caiçaras, que não eram moradores do centro da cidade, tinham uma simplicidade de costumes, viviam na ignorância - longe do conhecimento científico, da ideologia afinada com o pensamento da elite ou de quem se identificava com ela - e não alimentavam a onda consumista que estava em expansão. 2º - O município, após passar por crises econômicas e golpes certeiros decorrentes da logística regional, esmorece, entra em decadência. É preciso lembrar aqui que a ligação ferroviária com o planalto foi suspensa no tempo em que o doutor atuava como vereador, época na qual ainda ainda nem aparecia no horizonte o turismo como esperança  desenvolvimentista. 3º - Certamente que quem mais sentia a crise econômica era a elite local, os comerciantes, pois os pobres caiçaras não se interessavam por nada que afetasse seus planos futuros. Que planos têm os pobres? Na verdade, como sempre, o que angustia os mais necessitados é o presente, a necessidade de se alimentar, de se vestir e de se proteger sob um teto. "Por que devo me importar com os lucros de alguns, esperar deles as migalhas que caem de suas mesas?", repetia de vez em quando o estimado primo Chico Lopes. 

   Decorre disso tudo o meu povo caiçara ser classificado de indolente? 

       Será dicionarizado como indolente!

      Porém, é essa maioria, pobres, que sustentou a vida neste chão do litoral norte paulista. Eram os pobres que produziam farinha de mandioca e banana, que pescavam e caçavam; abasteciam, inclusive, o centro da  cidade. Observação: o meu saudoso avô Armiro, até o final da década de 1970, se deslocava com sacos de farinha de mandioca desde a praia da Fortaleza, distante quase trinta quilômetros, para vendê-los na cidade, aos habitantes urbanos. 

     Enfim, é essa maioria, descrita como indolente e ignorante pelo doutor, que preservará as bases da nossa cultura caiçara. Desses nossos "pais indolentes" nós herdamos o leque de conhecimentos provindos dos indígenas, dos negros escravizados na África e dos lusitanos marginalizados na pátria deles e forçados a ocuparem, de fato, este território que é o Brasil. Foi essa herança cultural, preservada por aqueles que não detinham o poder econômico e político, que nos permite, hoje, viver e ensinar essa cultura  popular, essa forma de resistência. Como desmerecer tudo aquilo que foi a nossa salvação, a preservação do nosso ser e das riquezas naturais que ainda nos saciam e estão a atrair e deleitar tanta gente? 

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

O CONHECIMENTO DAS ERVAS SALVAVA

O chafariz de Ubatuba (Arquivo Ubatuba Antiga)

         Na última década do século XIX, quando o município de Ubatuba contava com oito mil habitantes, muito longe de haver água encanada nas casas e eletricidade, o médico Esteves da Silva descreveu as condições de vida da população caiçara, fez um estudo que muito contribuiu para a evolução científica brasileira. Hoje, apenas uma parte  para que tenhamos noção de seus estudos.


Pathologia local

   Há no estudo da pathologia da localidade três elementos, dignos de attenção, que revelam a causa das modificações de verdadeiro carácter mórbido local, carácter que, em geral, é o da maior benignidade e o mais vulgar nosologia dos climas quentes. 

   Esses elementos são os seguintes:

   1º - Simplicidade dos costumes, ignorância e extrema indifferença aos commodos da vida da maioria dos habitantes do município, exceptuando os da cidade.

   2º - A decadência da localidade (após vida activa e de grande movimento agrícola, substituída por commércio marítimo bastante desenvolvido mais tarde), acarretou o pauperismo, o desânimo da população do campo e fez salientar a ingenuidade do camponêz, a indolência e a indifferença a tudo que não fôr um interesse de presente.

   3º - Alimentação fácil e barata no mar, nas musáceas e no Manihot utilissima encontrado os succedâneos, quando não lhe seja possível obter do oceano o seu principal e mais appetecido nutrimento, isto com os ribeirinhos da costa, e quanto aos do interior tendo na caça abundante, quer em aves, quer em quadrúpedes, os meios de se nutrirem, são condições de fácil explicação para alguma indolência e para esse desprendimento dos bens materiaes, que trazem a ambição das commodidades hoje e o amanhã da independência social.

  D'aqui decorre que tendo quasi ao alcance da mão o mais importante, o alimento, entendem que egualmente lhes é fácil encontrar o remédio prompto para todas as moléstias, já nas plantas do quintal ou do matto, já nas combinações extravagantes de diversas drogas, combinações filhas de cérebros originalíssimos de alguns curandeiros e de outras tantas comadres, conhecidas com o pomposo nome de práticas.


    Ressalta o autor do estudo: 

  "Não há nas nossas expressões nem ridículo, nem desprezo por taes erros e tal estado de cousas, que temos combatido com palavras, aconselhando e offerecendo nossos serviços com o maior desinteresse, natural da profissão médica, geralmente, e que é um dever santo e universal". 

  Nota-se que parece não lhe agradar muito o saber popular, aquilo que salvava o homem caiçara. Nem a simplicidade, a falta de cobiça, de aspirações ao progresso e aos bens materiais se mostraram como passíveis de elogio, de reconhecimento como coisa boa pelo doutor Esteves. 

domingo, 15 de agosto de 2021

UBATUBA, FELIPPE, TINOCO E BUDAPEST: HOTÉIS DE OUTROS TEMPOS

 

Ubatuba Hotel, onde Idalina despontou (Arquivo Ubatuba Antiga)


Uma visão de quem estava na frente da Igreja Matriz (Arquivo Ubatuba Antiga)

       Idalina e Albino, a convite de Armando Bohn,  deixaram a praia da Enseada logo depois do falecimento da filha única. Mudaram-se para o coração da cidade, onde se voltaram para o ramo de hotelaria. Era início da década de 1930, quando a estrada Taubaté-Ubatuba estava em andamento.     Hoje, onde era o Ubatuba Hotel, está assentado o teatro municipal.  Que fale a Idalina!


      Foi no mês de setembro que tomamos posse do Hotel, destinado a ser nosso, com a ajuda de Deus, um ano depois. Gostei imediatamente do velho casarão. Suas paredes escuras e carcomidas pelo tempo guardavam por certo inúmeras histórias, que explicavam minha curiosidade. Percorri, encantada, meus novos domínios e tive como que um deslumbramento, quando alguém me disse ser aquele prédio já centenário!

     Ajudado por meu marido, iniciei minha nova vida, procurando, no convívio dos hóspedes e no trabalho, que não era pouco, mergulhar as recordações da minha filhinha. Ubatuba, escrínio de relíquias do passado, tinha muito mesmo para me dar, e eu sentia que era ali, na Terra Tamoia, o meu verdadeiro lar.

     Dediquei-me com entusiasmo à minha nova profissão de hoteleira, vendo, em cada hóspede que chegava ao meu hotel, um amigo, e tudo fazendo para que se sentisse como  em seu próprio lar.

     Os meus hóspedes não foram para mim somente seres que pagavam para serem servidos, mas sim uma falange de gente boa que me ajudava com carinho e consideração na nova vida que eu estava começando.

     O "Ubatuba Hotel", tornou-se conhecido em quase todo o Estado de São Paulo, embora nessa época a estrada de rodagem S.Luiz a Ubatuba estivesse apenas no começo, uma esperança apenas.
    

sábado, 14 de agosto de 2021

ABOIO DO TIÉ

 

Olha o cão chupando cana! (Arquivo JRS)

        Severino, um potiguar que por Ubatuba passou na década de 1970, se apaixonou por uma caiçara e logo estavam casados. A sua fonte de renda era um bar-restaurante-mercearia, cuja novidade era servir pizza e apresentar tira-gostos diferentes. Eu trabalhei no estabelecimento dele por quatro anos; foi meu primeiro emprego registrado em carteira aos 14 anos. Ele, cheio de saudade, regularmente contava passagens da sua terra, das comidas, da cultura nordestina. Histórias do cangaço, de Lampião, foram muitas.

      Das coisas contadas por Severino, uma me chamou mais a atenção: trata-se do aboio. No começo, eu achava que tinha a ver com boiar na água, mas logo entendi que era um gênero musical lá do Nordeste. "É canto improvisado, Zezinho. Quem vai conduzindo a boiada, improvisa uma canção que serve na motivação daquela boiada. É um canto dos  vaqueiros para acalmar, para motivar os animais se deslocando de um lugar para outro. Meu finado pai costumava, enquanto descansava, repetir aboios. Escute esta: Aí eu me levantei,/ Saí até choteando,/ Porque eu tava peiado,/ Eles ficaram mangando,/ Quando foi daí a pouco,/ Andava tudo aboiando". 

    Ah! Faz tempo isto! Mas você acredita que o Paulo José, com um chapéu de vaqueiro, daqueles de romper espinheiros na caatinga, fez um aboio ao passarinho? Ele o chamou de Aboio do Tié. Um sanfoneiro se empolgou, nós nos acotovelamos e demos a nossa contribuição. Os poucos ouvintes não tiraram o brilho do momento. Até um passarinho apareceu na cena, por debaixo do chapéu do autor do aboio. Era, no dizer do Severino, "aboio pra boi dormir". Só que eu, por mais que me esforce, não consigo me lembrar da letra. lembro-me que era uma melodia lenta, com poucas palavras alongadas no som, como um boi ao longe mugindo sem pressa. Apenas guardei uma parte que se alongava assim: "O tié...ôôô...ôôô..ôôô... no galho seco...êêê...êêê...êêê... vê o cão chupando cana...ôôô...ôôô...ôôô..."

  Pois é! O Paulo acaiçarou o aboio! Pode isso?

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

ONDE AS CAVEIRAS DESCANSAM

 

Caveira na praia - Foto: Yugo Okoyama

 

Uma bela vista se tinha daquele lugar.

Em maré baixa aparecia areia,

Virava a praia da Bela Vista,

Lugar que, em outro tempo,

Se forrou de corpos

Vindos do Príncipe das Astúrias

Que em Ilhabela naufragou.

Agora, ali, o que restou?


Daquele lugar, um "tubarão" se apropriou:

"Está tudo dentro da Lei!".

"Mas a costeira não é pública?

Os caminhos de servidão não são protegidos?".


Os antigos diziam; o meu pai nos contou:

"O navio afundou lá longe,

Mas tem correnteza no mar;

Por isso encalharam naquele lugar.

Muitos corpos ali apodreceram;

Na exígua Santa Rita foram sepultados.

Da autoridade, uma exigência: que fossem contados".


Daquele lugar, um "tubarão" se apropriou:

"Está tudo dentro da Lei!".

"Mas a costeira não é pública?

Os caminhos de servidão não são protegidos?".


Foi-se a casa que nos assombrava, 

Erigida por parentes dos mortos.

Agora, debaixo das mansões,

Onde antes era apenas mato e flores, 

Descansam caveiras e suas ossadas,

Sob bem cuidados jardins.

Àquela praia, o egoísmo deu um fim.


Daquele lugar, um "tubarão" se apropriou:

"Está tudo dentro da Lei!".

"Mas a costeira não é pública?

Os caminhos de servidão não são protegidos?".





 .



quinta-feira, 12 de agosto de 2021

O ESPANTALHO


 

Arte no muro - Arquivo JRS


       Vovó Eugênia, quando notava na época do plantio de alface passarinhos se refestelando entre os canteiros da horta, logo tratava de ressuscitar um desengonçado espantalho encostado em um canto. Eu, criança de tudo, intrometido, curioso e querendo ajudar, me prontificava a ajuntar uns adereços para deixar o recurso da vovó – o espantalho – mais bonito: escolhia um chapéu já se arruinando, punha umas fitas coloridas e acrescentava outros penduricalhos para reagirem ao vento, produzirem barulho. Eu e ela deixávamos o espantalho no “ponto” . Entre as verduras ele se postava com uma missão: apavorar os passarinhos.

      Nosso espantalho tinha até identidade. Mané Aguado era o nome dele. No tempo, sob sol, chuva, vento, sereno, frio e calor, ele ficava até quando a vovó se convencia que não era mais necessário, quando não precisava mais. Então, ela pedia para alguém recolher e tornava a guardá-lo num canto, na casa de farinha, esperando a próxima ocasião de uso.

    Eu me lembro de um comentário do tio João: “Parece que o Mané Aguado continua dando conta do recado, né? Se não fosse ele, nenhuma alface a gente comeria. Quando ele estava de plantão, quase nem se escutava piado do lado da horta”. Vovô Armiro, que pela janela admirava a paisagem, deu uma resposta em forma de quadrinha: “Mané Aguado tá gasto, mas na horta da Eugênia, não deixa passarinho no chão. Seguindo nesse rumo do Brasil, um dia ele pode ser o espantalho de plantão”.

    Será que o saudoso avô previa um espantalho para apavorar a gente, o povo brasileiro?

  

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

OLHOS D''ÁGUA

 

Rabiscos - Arquivo JRS
Telha - Arte de aluno


     Uma amiga se aposenta: Egléia Adalgizo Minas. Eu escolhi o título de Olhos d'água para homenagear esta exemplar professora carioca que, desde 2004, vive em Ubatuba. Na verdade, trata-se de nome de livro da escritora Conceição Evaristo, que se formou em Letras na mesma universidade onde a nossa querida amiga se formou em História, na UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ou seja, ambas, negras, começaram suas carreiras acadêmicas na Cidade Maravilhosa. A primeira se enveredou pela literatura; a outra, que agora se despede da nossa convivência escolar, estudando bastante e cultivando um senso crítico fantástico, sempre conseguiu fazer a diferença na vida dos alunos e em nossas vidas. Este é o sinal marcante da sua vitalidade. E acredito que ela seguirá assim, sempre atenta às vulnerabilidades dos excluídos da nossa sociedade, ensinado História, provocando reflexões e atitudes libertadoras.

     Parabéns, Egléia, por essa forma tão especial de você estar no mundo, de fazer parte em nossas vidas! Com você nós sempre vislumbramos cenários novos, fizemos novas leituras de mundo, promovemos oficinas formativas maravilhosas e tivemos conversas significativas e marcantes.

     Egléia, minha avó Eugênia, comadre Vitória, Conceição Evaristo e milhares de milhares que marcam o Brasil, são oriundos da Rota dos Orixás inaugurada no século XVI. Recentemente, reparando em medalhistas deste país no torneio olímpico de Tóquio, constatei em seus traços as provas de que somos uma das maiores nações de afrodescendentes do mundo. Olhando essa grande amiga e toda essa gente, posso parodiar Eliane Brun ao dizer a respeito da ginasta Rebeca, a medalha de ouro da periferia de Guarulhos: "... representa séculos de resistência".  Nunca podemos nos esquecer disto, sobretudo quando a narrativa burguesa continua justificando tantas humilhações e sofrimentos ao povo negro e aos povos originários neste nosso país.

   Que o seu coração, amiga, guarde e continue se preenchendo de felicidade; que sempre contagie quem estiver ao seu redor, na sua convivência.

   Abraços e beijos de todos nós, em especial deste que você nomeou, um dia, em sua tese de mestrado, como "semeador de sonhos, de expectativas e de vida".

   Mais alegres do que nós, estão nossos ancestrais africanos que zelam por todos - filhas e filhos - no chão brasileiro, no continente americano. Com certeza que estão!

   Agora, não tendo mais palavras, com olhos d'água, deixo o coração a batucar cheio de alegria as batidas de despedida dessa grande companheira.  

                         Com carinho - José Ronaldo dos Santos