quarta-feira, 31 de março de 2021

DONA VIRGÍNIA - PARTE IV

 

A casa do meu tio-bisavô José Félix, na Caçandoca, virou escola

       Dona Virgínia, enfrentando até mesmo mentalidades preconceituosas,  buscava, na capital paulista, os recursos para levar em frente as suas iniciativas em prol dos caiçaras de Ubatuba. Teve de ousar mais do que imaginava por conta dos exigências legais. Ah! Depois do norte, expandiu o projeto de escolas para o sul,  conseguindo alcançar toda a área do município.


    Na capital, ninguém queria ajudar o caiçara “preguiçoso, malandro, indiferente”. Perdemos até um de nossos sócios contribuintes dos mais generosos. Mas não desanimamos, pois queríamos demonstrar que o caiçara só precisava de um impulso. 


Infelizmente minhas companheiras na Sociedade, quase todas mães de família como eu, não podem ausentar-se da capital, ajudando-me só a levantar dinheiro. Assim, tive de empreender o trabalho em Ubatuba como pude. Meu marido, temendo que eu me esgotasse, a princípio não via com bons olhos a ideia. Hoje, entretanto, é meu principal colaborador, orientando-me nas questões técnicas e abrindo-me caminho nas Secretarias de Estado, onde tenho sempre assunto a tratar. 

 

Os próprios caiçaras também resistiram no começo, embora alguns, mais ousados, se entusiasmassem com o plano da escola e pedissem até remédios e médico. Em primeiro lugar, pareceu-me que era necessário combater o amarelão; mas quando sugeri a abertura de fossas, a indignação foi geral. “A fossa é imoral”, disseram. Preferiam o mato, “onde ninguém vê a gente”. Mas, com muita paciência e alguns caixotes, construíram-se, afinal, as fossas. 


As necessidades daquela gente não tinham fim. A maioria das crianças teria de caminhar mais de um quilômetro para chegar à escolinha; quase todas estavam subnutridas ou atacadas de amarelão. Saíam de casa com um gole de café e um pedaço de peixe salgado, quando tinha disso. Assim, além do prédio da escola, um quarto para a professora, equipamento didático, livros, papel, lápis, tinta, etc., o remédio seria dar-lhes uma sopa ou lanche forte, com legumes, cereais, extrato de carne, fortificantes. Outra despesa necessária era o fornecimento de uniformes. 


O mais difícil, porém, foi a matrícula. O governo exige, para isso, que a criança apresente certidão de nascimento. Mas a maioria não era registrada. E muitos dos pais nem sequer conheciam a prática do casamento civil, contentando-se com bênção nupcial coletiva de um abnegado sacerdote lhes ia levar pelo menos uma vez por ano. Não me agradava ver na certidão das crianças a pecha de “filho natural” (na época a lei exigia a diferenciação) e por isso comecei a fazer os casamentos civis. 

 


terça-feira, 30 de março de 2021

A ESCOLA DO TIÉ

 

Escola do Tié, no Sertão do Ubatumirim

     Agora abro uma lacuna no relato da Dona Virgínia para destacar a vivência de um homem que fez parte do projeto dessa mulher em Ubatuba.

    Acompanhando uma prosa entre o primo Ostinho e o Tié (Armindo Barbosa), logo agucei a atenção. Era um desdobramento das publicações feitas em torno do referido relatório.

 

Tié  (Arquivo Roberto)

    Bom dia, Ostinho. Bom dia, todos do grupo [de fandango]. Falando da Dona Virgínia, ali do Itaguá, o primeiro ano que eu entrei na escola, lá no Sertão do Ubatumirim, na escolinha coberta de sapê, ela foi a primeira pessoa que doou para nós os uniformes. Foi lá que eu vim conhecer o que era um short azul e uma camisa branca: uniforme da escola. Ela foi uma pessoa muito maravilhosa, demais para nós da época. E quem se evoluiu bem na leitura, ela teve o prazer de levar para São Paulo, para estudar lá, que nem o filho do..., irmão dessa turminha que mora aqui no sertão: do Mané Gusto, do Saturnino... Entende? Ela fez isso, essa doação pra nós. Afinal de contas: caderno, uniforme... era ela que presenteava pra nós. Era uma pessoa muito maravilhosa.

 

     No fim fiquei pensando nas pessoas que, assim como o Tié, continuam entre nós, foram alfabetizadas graças ao trabalho da Virgínia Lefèvre, da Dona Virgínia, há mais ou menos setenta anos. Essa gente precisa dar seu testemunho. É muito importante para a nossa história e à memória caiçara.

     E o caiçara, do Sertão do Ubatumirim, que foi levado para continuar os estudos em São Paulo: quem poderá dar notícias dele? Quem estiver mais próximo do Tié (e desse pessoal que teve a chance de frequentar uma escola graças ao trabalho dessa mulher valente), deve registrar tudo. Alguém já disse que “quando morre uma pessoa idosa, é como se tivesse queimado uma biblioteca”.

   É isto: vamos resgatar a memória oral dessa caiçarada, desse nosso povo que tem tanto conhecimento, tanta vivência a ser registrada! A nossa biblioteca precisa se avolumar mais em vez de ser queimada!

   E viva o Tié!

segunda-feira, 29 de março de 2021

DONA VIRGÍNIA - PARTE III

 

Escola do Camburi teve início na capela 

      Virgínia Lefèvre, após dez anos em Ubatuba, em 1956, apresenta a sua compreensão do universo caiçara e se propõe a fazer alguma coisa pelos moradores do extremo norte do litoral paulista.


Os caiçaras passaram anos vegetando, quase esquecidos, tentando extrair alimento do solo e do mar, trabalhando às vezes em obras de construção e outros biscates. O pouco que percebiam mal dava para comprar velas, fósforo, querosene. As crianças, subnutridas e expostas a doenças, só vingavam por milagre. Nasciam robustas e espertas e vicejavam em quanto a mãe os amamentasse. Em lugares mais remotos ainda se crê que é bom para o umbigo do recém-nascido passar-lhe picumã das chaminés, o que, naturalmente, causa muita infecção fatal. Ao começar a alimentação de mingaus de farinha de mandioca e bananas, porém, iam perdendo saúde. 

 

Entre as poucas distrações do caiçara contavam-se as danças herdadas dos negros, sem música, num ritmo de pandeiro e tambor, e as festas religiosas, idênticas ao que era há um século. Sua imaginação se nutria das superstições herdadas dos brancos, índios e negros. Acreditava no lobisomem, em monstros marinhos e na mãe d’água. Em longos anos de ignorância, acumulara “receitas” como estas contra doença: para picada de cobra, beber uma xícara de querosene com três dentes de alho socados. 

 

De uns anos para cá, o litoral paulista começou a ser “descoberto” pelos turistas. Muitos deles, orientados por gente poderosa e inescrupulosa, puseram-se a ludibriar o caiçara, “comprando” suas terras. O turista chega, constrói casa de luxo que abre durante poucas semanas por ano, mas nada planta nas terras compradas. Os gêneros desaparecem e os preços sobem. 

 

Foi assim que encontrei Ubatuba há dez anos. Apesar de desconfiado e acanhado a princípio, o caiçara me pareceu inteligente, bom e muitíssimo aproveitável. Tive uma ideia. Em São Paulo, com um grupo de amigas eu vinha há alguns anos tentando ajudar crianças superdotadas que, por falta de meios, não poderiam continuar os estudos por precisarem ajudar as famílias. Percorremos duas ou três escolas públicas e escolhemos cinco meninas das que tiravam as melhores notas e pertenciam a famílias mais pobres. Angariando alguns poucos recursos entre parentes e amigos, não nos contentamos em encaminhá-las para o ginásio ou curso comercial; tomamos conta da família toda, dando-lhe tratamento médico e dentário, enfim, elevando-lhes o nível econômico. Queríamos provar que a boa vontade e o idealismo eram coisas mais valiosas e produtivas que as grandes verbas. E foi assim que formamos a Sociedade Pro-Educação e Saúde. Por que não levar o seu auxílio ao litoral de Ubatuba, abrindo uma escola ali? Compreendíamos muito bem a enorme carga que o governo estadual carregava para manter os serviços sociais oficializados. Poderíamos, porém, dar a nossa migalha e, se conseguíssemos elevar o nível de vida de uma dúzia de famílias, estas iriam multiplicando os dons recebidos e um dia a seara seria grande. 

domingo, 28 de março de 2021

DONA VIRGÍNIA - PARTE II

 

Puxada de rede na praia

      Dona Virgínia, chegando em Ubatuba em 1946, se sensibiliza pelos moradores deste chão e procura entender como as coisas desembocaram em tais condições impostas aos caiçaras. É muito importante saber a História para estabelecer razões a uma resistência!

Em 1788 o governador da Capitania Geral ordenou que todos os barcos de cabotagem fizessem escala obrigatória em Santos, que sofria por falta de gêneros, vendendo o que pudessem antes de seguir para diante. Ora, a tributação ali era alta e os compradores não pagavam tanto quanto os do Rio de Janeiro e outros portos. Protestaram os ubatubenses em veementes abaixo-assinados, mas em vão. Desanimados, muitos dos agricultores abandonavam suas culturas, outros deitavam fogo aos canaviais e mudavam-se. Enquanto isso, a vila de Santos prosperava e a abertura de caminhos por terra ligando a Capital a outras cidades de planalto foi desviando mais ainda o pouco de comércio que ainda sobrava a Ubatuba. Os habitantes levaram anos protestando, mas a situação não mudou e a decadência continuou até a chegada da Família Imperial, em 1808, com a consequente liberação do comércio. No século XIX, com a introdução do café no Vale do Paraíba, Ubatuba tornou a prosperar e, por volta de 1865, escoava-se por ali cerca de metade do café exportado pela província. Lá para fins do século, alguns dos cafeicultores se juntaram a potentados ubatubenses para construir uma estrada de ferro ligando o vale ao porto. Mas o café já passara do auge, e a empresa faliu. Encontra-se ainda hoje os vestígios da obra de terraplanagem e até o edifício da estação. 


Praticamente sem comunicação com o interior, Ubatuba entrou de novo em declínio. Dessa vez o povo aceitou a sorte com mórbida resignação. O clima era bom e o alimento farto, no mar e no mato. Os mais enérgicos plantavam mandioca, cana de açúcar e café. Faziam farinha de mandioca pelo mesmo método primitivo dos índios; da cana extraiam garapa para fazer o café; e do mar tiravam o peixe.


Mas veio a saúva e alastrou-se de tal maneira que já não era mais fácil conseguir alimento da terra. E vieram as traineiras “cercar” o peixe dentro das enseadas, deixando o caiçara sem ter o que pescar. Procedimento ilegal é claro, mas os donos sem escrúpulos, comodamente instalados nas cidades limitavam-se a pagar as multas quando apanhados em flagrante. 


sábado, 27 de março de 2021

DONA VIRGÍNIA

 

Dona Virgínia (Imagem Antiga)

      Eu estava vidrado no livro Torto Arado, do geógrafo baiano Itamar Vieira Júnior, quando me deparei neste trecho: 

Zezé ajudou a carregar o barro do rio, a cortar estacas para a forquilha e parede, Via como um encanto uma casa nascer da própria terra, do mesmo barro em que, se lançássemos sementes, veríamos brotar o alimento. Quantas vezes havia visto aquele ritual de construir e desmanchar casas, e ainda me maravilhar ao ver se levantar as paredes que seriam nosso abrigo.

          É uma narrativa familiar, pelo menos aos caiçaras da minha geração, criados nas comunidades isoladas, com mínimos recursos, longe do centro urbano. Em seguida,  visitando as páginas do Núcleo de Documentação do Colégio Dominique, achei um texto da Virgínia Lefèvre, reproduzido da revista Américas (Volume VIII, Número 3, Março de 1956).

    Muitas recordações me vieram à mente, pois eu a conheci em 1980, durante o Censo Demográfico. Em sua casa, ali defronte ao Canto do Acaraú, logo depois da área dos Alexandrinos, eu passei quase que uma tarde inteira escutando aquela senhora. Deduzi que era naquela paz doméstica o lugar onde, em outros tempos, ela se refazia e retornava para as jornadas de trabalhos humanitários às famílias caiçaras de Ubatuba. Disse-me na ocasião que quem se encantou primeiro pelo nosso chão foi o seu marido que para cá veio num trabalho de pesquisa ambiental. Até um livro ganhei de presente naquela tarde distante. Algum tempo depois, em 1987, ela faleceu em Atibaia, uma cidade do interior. Mais tarde a sua antiga moradia abrigou uma pousada (ou hotel?), tenho a impressão que hoje é uma marina. É, conforme já disse alguém, "os anjos passam em nossas vidas". Então resolvi que iria dar a conhecer o texto da Dona Virgínia a mais gente através deste blog. Enviei mensagem; o Colégio Dominique me respondeu com muita satisfação. Assim, irei dividi-lo em partes para maior tranquilidade de quem lê no espírito de revisitar nossa história e nossos embates em busca de aperfeiçoar a civilização.


VIDA NOVA PARA OS CAIÇARAS  - VIRGÍNIA LEFÈVRE

 

UMA BRASILEIRA ALTRUÍSTA DESPERTA SEUS PATRÍCIOS 


Escola da praia da Almada



Foi um choque para mim descobrir, há dez anos, o abandono em que se achava o litoral norte de São Paulo. Acompanhando meu marido, que é diretor do Instituto Geográfico e Geológico, eu entrara na mata, onde faziam levantamentos para fixação de divisas entre os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. A montanha chegava quase à beira da praia, que se espichava sem fim. Nesse cenário belo e grandioso, a população vivia em regime de fome, morando em casebres de pau barrado, cobertos de sapé, com uma esteira à guisa de cama, um banco tosco, um fogão de três pedras sobre as quais se equilibrava a única panela (muitas vezes de lata). Era essa gente que havíamos apelidado de caiçaras. A verdade, porém, é que Ubatuba, o principal centro da zona, cuja população de hoje orça pelos 1.500, já fora mais importante que Santos. Seu nome, no idioma tupi, significa local onde há abundância de caniços próprios para flechas. Fundada em 1600, dentro em breve tornou-se centro exportador e importador não só para a zona do Vale do Paraíba como para o interior de Minas. Os produtos de exportação desciam a serra em lombo de burro e as pedras de cantaria, seda, sal, louças e outras importações subiam do mesmo modo. Ubatuba tinha sua própria frota de barcos que faziam cabotagem até o Rio da Prata ou Pernambuco, levando os produtos dos engenhos de açúcar, das serrarias e das olarias que ali abundavam. O ouro de Minas Gerais seguia de caravela para Lisboa. Diversos foram os flibusteiros ou traficantes franceses ou ingleses que ali resolveram estabelecer-se ou, naufragados na costa, acabavam ficando. Muitos dos atuais caiçaras ainda exibem nomes e traços fisionômicos que denotam esse legado racial, de mistura com sua herança índia, negra e portuguesa.


sexta-feira, 26 de março de 2021

A MÃO DE CERA

Mestra e mestres (Arquivo JRS)

Tocadores e cantadores (Arquivo JRS)


Dando continuidade às Memórias do Fandango Caiçara em Ubatuba, o nosso estimado Rogério Estevenel nos apresenta a Parte III, se referindo à devoção de São Gonçalo, o milagroso violeiro.


     Quero contar um pouco das devoções caiçaras de Ubatuba e uma delas é  dedicada a São Gonçalo d’Amarante, santo português, da Ordem dos dominicanos, que tinha o dom da palavra. Um religioso à frente do seu tempo: contextualizava e aplicava a Bíblia para o cotidiano na época em que viveu, era alegre e amigo de todos, gente como a gente, pau pra toda obra. Converteu muitos alcoólatras, bandidos, prostitutas pela sua disponibilidade e desenvoltura com a música, dança e a palavra de Deus (estratégia nota 10). Contam que que se aproximava dos mais pobres sem o hábito dominicano para não interferir no processo de conversão dos desvalidos da sociedade portuguesa. Sua missão era bem objetiva, contudo para não cair em tentação colocava pequenas pedras em sua bota (sacrifício de mortificação), para não esquecer seus propósitos, dançava, cantava e por meio da alegria apresentava uma nova vida ao pobre  pecador. Ganhou fama de milagroso quando, em súplicas, fez uma enchente baixar repentinamente, e, aos que já estavam passando fome, uma fartura de peixe após a vazante, entre outros fatos miraculosos.

No Brasil, a devoção a São Gonçalo se espalhou rapidamente pelo território colonial. Ubatuba tem a honra de possuir em seu acervo de patrimônio imaterial a Dança de São Gonçalo, que acontece apenas mediante pagamento de promessa por uma graça alcançada pelo devoto. 

Antigamente a dança de São Gonçalo era uma constante entre as praias e sertões de norte a sul do município, sempre com muito respeito, devoção e oferecimento de uma farta mesa de alimentos aos participantes.

A dança de São Gonçalo de Ubatuba é com certeza uma pérola para a comunidade caiçara que ainda preserva essa tradição. A dança pode durar mais de três horas, composta geralmente por doze pares entre dançadores e dançadoras, além dos violeiros que fazem os versos na hora.


Oh! meu São Gonçalinho,

Ele é tão bonitinho,

Ele come o seu pão,

Ele bebe seu vinho,

Ele deita na cama

E levanta cedinho

Ora viva o São Gonçalo!


A dança é dividida em três partes, geralmente de uma hora cada, onde os dançadores fazem as coreografias e voltas em meio a sapateados. Quem começa a dança obrigatoriamente tem que terminar, é permitido a substituição do dançador apenas na segunda parte.


A terceira parte é conhecida como “Misura” é a reverência individual dos dançadores e dançadoras ao santo protetor dos violeiros e o verdadeiro santo casamenteiro (especialmente das velhas viúvas), as vezes ocorre uma dobradinha com Santo Antônio para socorrer a menina donzela e a viúva folgazona a um casamento virtuoso.


São Gonçalo do Ubatumirim, Ubatuba-SP, O ano era o de 2007, início da festa da Mandioca, uma quinta-feira. Dona Maria, senhora de idade avançada da comunidade, mãe do “Dito do Estaleiro” aproveitou o evento para cumprir sua promessa (violeiros dançadores e dançadoras reunidos), porém sua casa não comportava os presentes, e algo inusitado foi colocado em prática: a promessa seria paga em cima do palco armado para a festa que começaria no dia seguinte, mas já havia um clima de festa desde o começo da tarde com algumas barraquinhas que resolveram antecipar o funcionamento (a dança é exclusivamente realizada em casas). Abriu-se uma exceção por consideração a D. Maria e assim prosseguiram...

No palco uma mesa com toalha, a imagem de São Gonçalo (estava com cara de Santo Antônio!!!, mas minha avó já dizia “Mas vale a fé do que o pau da barca”) e uma vela. 

D. Maria ficou muito grata com a aceitação. Pedro Brandão e Seo Jorge eram os violeiros, logo se aprontou a fila no palco e a dança começou... Foi feita uma singela oração pelo mestre da dança José Moisés (Zeca do Promirim) e a viola repicou! Iniciava-se a dança... na primeira volta do sapateado o Santo e a vela logo foram a baixo! D. Maria, piedosa com o fato, resolveu sentar-se próximo à mesa e segurar o santo e a vela até o fim, porém sua fragilidade devido a idade avançada fez com que seu braço ficasse encostado no beiral da mesa. A dança assim prosseguiu... a cada golpe dos sapateados no assoalho do palco era uma “chuva de parafina” no braço de D. Maria que ficou “lambrecado”, pois “sacolejava” tudo. 

Com a promessa cumprida... era só desenformar o braço de cera! Estava prontinho era só levar na sala dos milagres em Aparecida e agradecer o milagre de termos em Ubatuba uma linda expressão de devoção popular. Viva São Gonçalo (vestido de Santo Antônio) e Nossa Senhora Aparecida!!! Viva!!!


quinta-feira, 25 de março de 2021

UM PADEIRO NA VITÓRIA

 

Arte em casa (Arquivo JRS)

     

Embarcados pelas comunidades isoladas (Arquivo Rê)



      Eu precisava comprar pão: “ordem da patroa”. Cheguei e parei na fila. Notei o rapaz do Lar Vicentino esperando a sua carga para levar aos idosos que ali são assistidos. Beto Maciel, padeiro de primeira, sempre atento às necessidades da coletividade e buscando ajudar com alguma coisa, certa vez expressou a preocupação com caiçaras que moravam em pontos distantes, em comunidades isoladas, nas ilhas. Imaginou que faria uma boa ação se ensinasse às pessoas dessas comunidades a arte de fazer pão, contribuindo para a diversificação alimentar imposta pelas circunstâncias. E assim fez!

       Juntando a fome com a vontade de comer, conforme o ditado, o Beto patrocinou uma viagem de barco a um grupo de evangélicos para a Ilha da Vitória. Seguiu junto munido de equipamentos e ingredientes à aula que esperava dar lá. Chegou se admirando pelo fato de todas as moradias estarem localizadas no alto do morro. Expliquei, depois, que é um sentimento que vem dos primórdios: era medo do morro descer e soterrá-los caso morassem nas partes baixas, perto da costeira. (Na ilha vizinha, em Búzios, não tem essa crença e esse costume). Ele também constatou a falta de água aos pobres daquele lugar, naquela época seca, sem chuva. Ah! Também ficou desapontado pelo fato de ninguém se interessar no aprendizado de fazer pão. Quer coisa pior para um padeiro com toda disposição para ensinar a fazer pão, esperando realizar algo tão sonhado e tão bem planejado?

     Não importa, amigo! O que valeu foi a sua intenção e o seu empenho em realizá-la! Não posso dizer muita coisa a respeito da desmotivação dos ilhéus, das ilhoas, mas recordo-lhe que a culinária caiçara nunca prezou pelas novidades além daquilo que estava ao nosso alcance. Assim comíamos das espécies de raízes, de algumas ervas, dos frutos do mar, das frutas da terra, da caça e da pesca. Do milho saía o piché. O quê? Nunca comeu? Da mandioca, além da farinha, tinha bolo, tapioca e beiju.  Isso tudo que é derivado de trigo (macarronada, pães, bolos etc.) não constava como dote à mamãe, às minhas avós e aos mais antigos. “Pizza não existia quando eu era criança”, brinco sempre com os meus familiares após uma rodada dessa iguaria deliciosa.

 

Em tempo: recomendo a leitura do texto A VITÓRIA FOI DOS PEITOS, de março de 2011.



quarta-feira, 24 de março de 2021

JUIZ IMPARCIAL (?)

     

No lado direito: Domingos, de cinto branco; Daniel Sabiá, de barba (Arquivo Ubatuba)

        Em tempo de magistrado traindo a Pátria, me vi pensando num texto escrito há bastante tempo. 

   Domingos, filho do Licínio Barreto, funcionário público do Departamento de Estradas de Rodagem (DER), aos domingos era juiz (árbitro) de futebol. Até uniforme da LUF (Liga Ubatubense de Futebol) ele tinha (para ser respeitado dentro de um limite, de acordo com as torcida). Foi quem me contou o seguinte causo:


                “Isso aconteceu depois da conquista do tri pelo Brasil, bem depois,  inaugurando a abertura da BR-101, num jogo no campo do Puruba, um paraíso de borrachudos na boca da barra. O time da casa fazia uma partida decisiva contra o Recurso  (do Saco da Ribeira) e perdia por 1 a 0. No último instante, marquei um pênalti que beneficiava o pessoal do Puruba.
                Depois da bola ajeitada na marca, o atacante Dico tomou distância de 15 metros e aguardou o apito. Esperei o silêncio. Assoprei a ordem para o caneludo caiçara sair disparado.
              Que beleza! Foi um estouro!
             A bola arrebentada seguiu firme na direção do goleiro Cardo. Em fração de segundos adentrou pelo arco o couro e o capotão (câmara). Foi duplo frango! Eu validei o gol, ou melhor, os dois. O resultado se inverteu, o tempo acabou. O Puruba ganhou a peleja por 2 a 1.
            Depois de muitos xingamentos, inclusive à mamãe, o Recurso, através do técnico Paulo Sabão, apelou para outro imparcial juiz presente – o Daniel Sabiá. Este decidiu tudo com esta frase:
          ‘Estourou, mas entrou na caçapa! O Puruba é campeão da Taça José Zabeu. Viva nós, viva tudo, viva o Chico Barrigudo!’
                Depois foi só alegria com muita bebida e comida! Até escaldado de ostra tinha!”.

terça-feira, 23 de março de 2021

A FORÇA DA PISADA DO DIDI

 

Tamancos de outras terras (Arquivo JRS)

Gente do fandango (Arquivo JRS)

            Grande, Rogério Estevenel! Sempre levantando a Memória do Fandango!


           Esse episódio aconteceu  numa das  versões da  Caiçarada  que ocorreu na praia da Barra Seca a uns dez anos atrás mais  ou  menos. Na  programação   estava   o  grupo de   Xiba do  Promirim... sempre prontos a participar  das  festividades,  bastava  um  transporte  e  um lanchinho que a festa estava garantida com muito fandango,   risadas, alegria e respeito.

       Antes da apresentação muito bate papo, entrosamento e uma bela vista da natureza da baía de Ubatuba. Passado o tempo chegou a hora da apresentação... (meia hora afinando a viola e o resto tocando errado mesmo)... Brincadeiras à parte os violeiros estavam impecáveis! Mestre Orlando, Seu Jorge, Norinho afiados para um Xiba bem recortado com os dançadores. O palco modesto e baixo deveria ter meio metro... mas o mais importante estava lá... o assoalho! Grupo completo com cavalheiros e damas... a dança começou... e o  bate pé estava respondendo de bom grado o repique da viola... os dançadores olhavam desconfiados um para o outro preocupados com as placas do assoalho... passamos o oito, fizemos a primeira roda, “palmeemos”, do meio pro final é que o fandango estava respondendo e a vontade de pisar forte no assoalho era maior que a preocupação de espatifar com a madeira. Foi numa dessas horas de empolgação que o pisado do Didi do Promirim (Jurandir) transpassou a madeira deixando-o entalado pelo joelho... depois disso foi só risada e aplausos pela façanha de estourar o bendito assoalho. Os fandangueiros tem a meta de ao longo da vida estourar o seu tamanco numa roda de Xiba, mas estourar o palco é só para o Didi.

segunda-feira, 22 de março de 2021

O DESAFIO DE UMA IDEIA ORIGINAL

 

Embarque de banana dos caiçaras (Arquivo S. Sebastião)

    Hoje, muitos de nós pobres, de ideias não originais, são contrários às medidas que visam diminuir as desigualdades sociais. Está provado que uma minoria sempre viveu às custas do sofrimento da maioria das pessoas neste Brasil. Foi assim nos primórdios, quando gente lusitana marginalizada foi deslocada para esta terra, habitada pelas muitas etnias indígenas. O trabalho desses primeiros servidores era desbravar a mata e abrir espaço para a fundação de vilas. Pouco importava se eles morreriam ou não distante da pátria-mãe.  Amansada a terra, os senhores de melhores condições receberam porções do território, se tornaram fundadores. A escravização dos nativos, depois de verdadeiro genocídio, cedeu lugar à escravização dos africanos. Do outro lado do Atlântico, milhões foram embarcados, milhões morreram no mar e milhões chegaram aqui como mercadoria humana de muito valor, que deu origem a riquezas e nobrezas que perduram até os dias de hoje. Os pobres, sobretudo os negros, não precisavam de dignidade. E muita gente, inclusive pobres caiçaras, continuam pensando assim! Mas de onde vem essas ideias? Elas não são originais! Construir um esquema de pensamento que mantenha o pobre culpado pela sua pobreza é elaboração da minoria que domina. Pior: hoje em dia, encantados pela tecnologia dos celulares e computadores, a minha gente abraça e se devota a ser divulgadora de mensagens que tem o objetivo maior de manter os pobres conformados, capazes de se matarem em defesa dos poderosos. É vida de rebanho conformado, indo para o matadouro.

      A intenção explícita da ideologia dominante é manter os trabalhadores sob controle. Com certeza que as chances dos herdeiros dos exilados lusitanos, dos remanescentes indígenas e dos afrodescendentes são cruéis. Jogam descalços contra gente de pés enfiados nas melhores chuteiras, não precisam estudar, mas apenas trabalhar, gerar lucro ao patrão. Não tem de compreender a engrenagem capitalista, mas defendê-la com a própria vida como coisa maravilhosa.

     Comecei este texto após ler o seguinte documento de Ana Luíza Marcílio:

A condição de alforriado era uma situação pouco frequente em Ubatuba. Certamente, as barreiras que estes libertos encontravam para seu ajustamento na categoria dos livres criavam outras sortes de problemas para sua vida normal, em família. Ana de Souza, por exemplo, era uma parda forra, analfabeta, que chegou da vida de Santos, com a idade de 25 anos e solteira. Em Ubatuba ela só consegue sobreviver, no início, com trabalhinhos temporários (em 1798 como costureira, e em 1799 como lavadeira). Só em 1801 chega a estabelecer-se e a viver em sua pequena roça, mas sempre produzindo quase tão-somente para seu próprio sustento. Solteira, teve oito filhos, dos quais sete morreram ainda crianças. Só lhe restou Jozé, que se casou muito jovem. Mesmo sozinha, Ana conseguiu sobreviver com sua pequena plantação. Outra parda alforriada, Bárbara Maria da Silva, mostra com sua vida as dificuldades enfrentadas pelas mulheres libertas. Sem conseguir se casar, teve sete filhos, entre 1792 e 1803, quando morreu, aos 39 anos. Roceira, foi a ajuda de seus filhos, todos forros, que lhe permitiu uma existência miserável. Ela tentou viver de favor com outra família, mas só ficou aí dois anos. As possibilidades de casamento eram maiores para as pessoas de cor branca e menores para as negras, dentro do estrato livre da população.

    Por fim me perguntei em quantos de nós, caiçaras deste chão ubatubano, certamente temos gente assim (exilados/degredados lusitanos, indígenas e africanos) na base de nossas árvores genealógicas? Acho que todos! E quantos de nós, criados com farinha, peixe e banana, assumimos a fala de quem, desde aquele tempo tão miserável, vive se aproveitando de nossa gente?

   Que tal rever nossos pensamentos, nossas concepções, nossas razões de viver neste outro tempo tão miserável? Que tal pensar num mundo de mais justiça e de amor? Que tal deixar morrer às míngua, não alimentar o discurso de ódio atual?


  

domingo, 21 de março de 2021

A VEZ DA NOVA GERAÇÃO

Ontem fizeram festa para mim e produziram desenhos. Gratidão pelas mensagens recebidas. Hoje quem aniversaria é a nossa querida filha Maria Eugênia.  Continuamos os festejos em família. 

A pequena Maria Eugênia (Arquivo JRS)

Passarinhos - Arte: Maria Eugênia

Eu, de guerreiro turco - Arte: Estevan

     Aproveitando dos momentos alegres, vamos nos inteirar de outros acontecimentos, tendo como protagonistas essa nova geração, esses nossos filhos e filhas que se engajam por um mundo melhor. 


Em cartaz desde o dia 12 de março, a peça virtual Missa de Sete Cores entra em sua última semana de apresentações. Fruto do Trabalho de Conclusão de Curso do estudante de Artes Cênicas Caio Ferreira, o espetáculo tem suas próximas transmissões agendadas para os dias 19, 20 e 21 de março, sempre às 19 h. 

Segundo a sinopse, a peça é uma "celebração cênica no ambiente virtual que fala de vida, morte e ressurreição e as diferentes cosmovisões em suas formas de compreender a complexidade de nossas jornadas". 

O espetáculo é gratuito. Para assistir, basta acessar o Canal Missa de Sete Cores no Youtube

Caio Ferreira, criado em Ubatuba, é filho do Joana e Jorge Ivam, gente finíssima, querida por nós. 


Está rolando o Festival Cine Kurumin de cinema indigena. E temos um filme de Ubatuba no festival, o filme Nossas Caminhadas conta sobre a chegada do povo Guarani a Ubatuba na decada de 70 e posterior luta pela terra. Direção pelo cineasta Guarani Alexandre Karai e por Rodrigo Guim ambos de Ubatuba.  Tem muitos filmes legais no site www.cinekurumin.org


Parabéns, moçada! 


sábado, 20 de março de 2021

A PRAÇA

 

Praça Santos Dumont (Arquivo Ubatuba)

Mano Guinho (Arquivo JRS)

       A praia do Itaguá era o nosso ponto de encontro na década de 1980. Por ali, defronte a praça Alberto Santos Dumont, onde a imagem mostra o meu irmão caçula sentado, era a referência principal das pessoas. 

    A praça tem data de nascimento: 1976, sob gestão do prefeito Basílio de Moraes Cavalheiro Filho. Era um projeto do engenheiro Roberto de Carvalho Resende, com um busto do inventor do avião e uma cauda em concreto armado, onde muita gente queria ser fotografada. 

   Em março de 1991, o prefeito José Nélio de Carvalho, sob a Lei Municipal número 1.071, no artigo 1º diz: "Passa a denominar-se "Dr. Alberto Santos", a praça existente no início da Avenida Leovegildo Dias Vieira, junto à barra do rio Lagoa, na orla da praia, atual Praça Alberto Santos Dumont".  

   Eu conheci, já idoso, mas disputando uma eleição, em 1969, o doutor Alberto Santos (prefeito em quatro ocasiões). Os mais antigos diziam que, aqueles terrenos defronte a praia, que vão da Praça Capricórnio (Praça do Skate) até a Barra da Lagoa (Aquário de Ubatuba), foram distribuídos em uma das suas gestões para atrair turistas. Segundo o finado Celino, ele renunciou ao cargo, em 1970, porque deu terrenos que pertenciam à Santa Casa de Misericórdia a particulares. Pelo que sei, a área onde se localizava o nosso primeiro hospital ficava encostada ao cemitério, entre este e o aeroporto. Ou seja, mais terras do que a simples faixa de jundu anteriormente citada. Por qual (is) mérito (s) ele foi merecedor para suplantar o primeiro homenageado, o Pai da Aviação? 



    Não houve manifestação a tudo isso? Se houve, pouco se falou. Só sei que, vasculhando um pouco, achei textos da SABIÁ (Sociedade Amigos de Bairro do Itaguá e Acaraú) e de moradores, do ano de 2008, reagindo na gestão do prefeito Eduardo César:

     Em data que não sabemos precisar, no segundo semestre de 2007. Atendendo a convite formulado por essa Secretaria [de Obras], reuniu-se nas dependências do hotel Maré a população residente e os comerciantes do bairro do Itaguá, para que tivessem conhecimento e opinassem a respeito do projeto de reurbanização da Praça. Foi consenso de todos, que o projeto, à aquela época apresentado pela Prefeitura, deveria sofrer alterações para melhor se adequar aos interesses e necessidades da população, e preservando as características fundamentais, paisagísticas e históricas da praça pública, cuja destinação é para servir ao laser e descontração das pessoas; e histórica, onde se homenageia com um monumento, a Santos Dumont. Assim também, quanto a preservação e revitalização das árvores existentes. Foi-nos garantido que seriam consideradas as observações feitas pelos presentes e, que, antes que as obras se iniciassem nos seria apresentado o projeto final. Ocorre senhor secretário, que as obras se iniciaram e não se cumpriu o acordo, pois a Prefeitura não nos apresentou antecipadamente o projeto final. Portanto, não só as pessoas presentes àquela reunião, assim como, a população em geral, não tem conhecimento do que está por ser construído no espaço da praça que já está parcialmente em obras.

Estamos de total acordo que algo se faça para a sua revitalização. Já, que esta mesma praça, não teve das administrações públicas a atenção necessária, para que ela cumprisse seu papel social. Só se mantendo em face da dedicação de algumas pessoas.

Assim é que, a SABIÁ, na qualidade de entidade representativa dessa mesma população, vem mui respeitosamente, solicitar vistas ao projeto de reurbanização da praça, antes que as obras se concretizem.


Em 3/3/2008, estivemos na praça e fomos surpreendidos com as informações dadas pelo engenheiro Ubyapara (EMDURB) sobre o andamento da obra. Afirmou que o projeto da Prefeitura aponta para a demolição do monumento em homenagem a Santos Dumont. E que a sua responsabilidade está apenas na execução da obra, não tendo responsabilidade sobre o que será feito. Contestamos. Pedimos para que não prosseguisse com a demolição. Conforme destacamos em Ofício 01/08 da SABIÁ encaminhado à Prefeitura. Além do mais, tal ato será entendido como um desrespeito ao acordo, uma agressão à homenagem prestada a um ilustre brasileiro e um crime contra o patrimônio público.

A praça Santos Dumont está inserida na própria história da nossa cidade e do nosso bairro, o Itaguá. Outros aspectos, como a preservação das árvores estão previstos. Acrescentou que haverá o deslocamento da ciclovia para o lado interno; e também, a destinação de área para estacionamento de veículos (?).

Aguardamos pelo pronunciamento oficial da Prefeitura. Esperamos que haja bom senso e capacidade criativa por parte dos idealizadores da reforma.

P.S. - A propósito, gostaríamos de acender uma discussão a respeito do que teria sido levado em consideração, para a mudança do nome da praça?


  Talvez seja por isso que MAURICIO HUMBERTO FORNARI MOROMIZATO, Prefeito Municipal da Estância Balneária de Ubatuba, Estado de São Paulo, usando das atribuições que lhe são conferidas por Lei, FAÇO SABER que a Câmara Municipal aprovou e eu sanciono e promulgo a seguinte Lei: 

Art. 1º Fica revogada a Lei nº 1071 de 15 de março de 1991, que denominou de praça “Dr. Alberto Santos”, passando a denominar-se “Praça Santos Dumont” de acordo com o Decreto Número 02 de 10 de janeiro 1977. Art. 2º A praça a qual se refere o artigo anterior trata-se da existente no início da Avenida Leovigildo Dias Vieira, junto a barra do rio Lagoa, na orla da praia, no bairro do Itaguá. Art. 3º Esta Lei entra em vigor na data da sua publicação, revogadas as disposições em contrário. PAÇO ANCHIETA – Ubatuba, 18 de abril de 2013.

Em tempo: Hoje, essa praça é a conhecida Praça da Baleia. Tá bom assim?

Fontes: PMU e O Guaruçá.

sexta-feira, 19 de março de 2021

COÇA DE TIMBOPEVA

 

   

 

     

Capela Nossa Senhora das Dores (Arquivo JRS)


  “A arte não reproduz o que vemos. Ela nos faz ver". Escreveu assim, num dia distante, alguém.

 

     O texto de hoje é para rememorar duas amigas, da comunidade do Itaguá: Fátima Souza e Lúcia Elisa, a Tia Chileca. Na década de 1980, com a juventude do bairro, elas nos apresentaram maravilhosas encenações no espaço da capela local, defronte ao plácido mar possibilitaram muitas reflexões e novas atitudes perante o turismo que queria engolir tudo. Elas e tanta gente boa dali (Élvio, Mercedes, Isaac, Santaninha, Luzia, Juraci, Neia, Virgílio...) estão na história singular dessa comunidade caiçara.

 

     Arte é tudo: música, desenho, teatro, escultura, poesia etc. e é capaz até de “mover montanhas” quando as convicções ultrapassam as condições. Os jesuítas, assim que chegaram neste continente depois da travessia do oceano, do vasto Atlântico, recorreram aos dons artísticos na catequização dos indígenas, os primeiros moradores desta Pindorama, a terra das palmeiras e dos papagaios. Os invasores lusitanos trataram logo de mudar o nome. Vários deles passaram até se deter em Brasil. Primeira lição: o nome é uma identidade, a primeira. Por isso que, do grande nome Vila Nova da Exaltação da Santa Cruz do Salvador de Ubatuba, só restou Ubatuba, a denominação provinda dos tupinambás.

     Comecei assim porque o inconsciente fez aflorar uma encenação na beira do mar, no Canto do Acaraú, numa ocasião em que a comunidade revisava a nossa história: a chegada dos portugueses, o modo de vida dos tupinambás, a vinda dos turistas, as alterações na rotina dos que aqui viviam e as revoltas. Nestas eu me detenho agora: vendo uma situação fora do controle, beirando o extermínio das coisas mais valiosas para nós, moradores do lugar, a areia foi aberta para o mar dar um susto maior, quebrando assim o andamento das coisas e chamando a atenção do grande público. O menino do finada dona Luzia tinha uma espécie de cipó na mão, gritava contra a submissão da nossa gente à gente de fora, aos costumes que iam sendo abraçados. Entremeava a fala com lambadas no chão. Em cena apenas ele e o pai. De espaço em espaço, uma guachada nas pernas do velho.

        Depois de desabafar o rumos da história, começou a explicar a respeito de como a sua mãe resolvia a questão em casa:

      Estão vendo este reio? É ele que a mamãe usa quando vai dar lição no papai. Ela bronqueia com ele porque abaixa a cabeça para essa gente de fora, vai entregando tudo só porque chega de carro e tem mais dinheiro. Até a dignidade vai perdendo. Entre uma etapa da falação e outra ela usa isto, mostrando que precisa apanhar, sentir uma dor passageira agora para não passar o resto da vida em dores. Enquanto ele não aprender, vai levando regularmente coça da mamãe com esta mesma perna de timbopeva”.

   Conforme ia falando, batia o cipó nas pernas do velho pai, causando-lhe pulinhos e encolhimentos na movimentação para a plateia que se compadecia. Todo mundo parecia entender a mensagem. De quando em quando o velho caiçara gritava: “Valei-me Nossa Senhora das Dores”.  Segunda lição: encenar a história é repensá-la e manter a memória bem viva.

quinta-feira, 18 de março de 2021

PRIMEIRAS REFLEXÕES CAIÇARAS

 



Mães da pescaria 







Sopa d'água

Mães da pescaria -
" A menina escolheu um poema muito bonito" (André)

Os delicados fios da vida

Mães da pescaria 


Curiango de saudade

Existência na fotografia



     "Zé, tô usando seus textos do blog num projeto em São Sebastião".

     O meu amigo André, durante as comemorações da semana passada (10º aniversário deste blog), escolheu uma turma de alunos da Escola  Edileusa Brasil Soares, em São Sebastião,  para trabalhar a partir dos nossos seguintes textos: 
     
      1- Existência na fotografia
      2- Mães da pescaria
      3- Sopa d'água
      4- Curiango de saudade
      5- Os delicados fios da vida

    O exercício era ler um texto ou poema e depois produzir um desenho livre. Eu recomendei então isto: "Depois você poderia fazer um relato para eu publicar. Tipos de comentários, se constataram algum a coisa inspirado nos textos etc". Ele concordou. E deu a seguinte informação: "Os alunos são de pais de fora. Apesar de nascerem aqui não sabem nada da cultura caiçara". Acrescentei em seguida: "Deve-se dar atenção a uma coisa: eles estão longe, desgarrados do lugar de origem cultural dos pais. Cabe ao menos uma reflexão: qual cultura deverão (ou poderão cultivar para não serem engolidos pela globalização (leia-se manipulação/alienação)? Tive uma ideia, André: faz uma pasta de desenhos, textos etc. dos alunos em referência ao projeto e um dia me envia para ser publicado. Acho que vai ser legal".

     E assim foi chegando a produção dos alunos.
 
   Finalmente, um depoimento de uma mãe: "Meu filho é único caiçara de uma família baiana. E agora ele adquiriu a cultura, pois se sentia mal em não ser baiano e ser caiçara".