quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

MARIMBONDOS PARCEIROS

É casco de tatu no tronco?

          O Júlio não perde nenhuma ocasião para produzir belos textos, dignos de serem contados no "Banquinho dos amigos", sob a proteção da grande figueira da Rua Cunhambebe, no centro de Ubatuba, cujo patrocinador é o Isaías Mendes, seu pai.
               O assunto agora é bichos, é engenharia de bicho. Coisa linda é a casa do maribondo tatu! Essa obra, depois de abandonada, servia de componente de chá para curar "amarelão", juntamente com raiz de urtiga vermelha e picumã de ripa. Ah! Coisas de outros tempos!
                No ano passado, num pé de cravo da Escola Deolindo, uma "turma" assim também fez muito sucesso à distância. Depois não sei que fim deram.


          “Laranja madura / Na beira da estrada / Tá bichada, Zé / Ou tem marimbondo no pé”

           Pois é! No caso do nosso pé, não é laranja e não tem fruta madura, ainda. É o nosso pé de graviola que está na beira da rua Cunhambebe e agora, por sorte da natureza, um enxame de marimbondo-tatu resolveu construir sua moradia e, com certeza, o verso da música de Ataulfo Alves, marcada na voz de Noite Ilustrada, vai prevalecer quando as graviolas estiverem maduras. Quem é que vai ter coragem de subir no pé para tirar as frutas?
        Por experiência e conhecimento de causa, eu digo que o marimbondo-tatu é uma espécie de vespa mansa, não ataca ou agride, se ninguém mexer com eles, caso contrário, na defesa de seu lar e principalmente de seus ovos e filhotes, que estão em processo de desenvolvimento lá dentro, eles são ferozes. E quem tem coragem de tomar uma ferroada? Eu, “acidentalmente”, já tomei ferroada de diversas espécies de abelhas e marimbondos, mas digo que a ferroada do tatu é uma das mais doídas, perde apenas para o marimbondo “aperta-goela”, esse, como o nome diz, além de doer muito no local atingido, suas enzimas também chegam a afetar as vias respiratórias (traqueia, brônquios).
            Marimbondo-tatu, marimbondo aperta-goela, amarelo, caga-fogo, mamangava, arapuá e tantos outros são insetos de grande importância dentro da fauna e flora e em nosso habitat, aliás eles são protegidos por lei (Lei n° 9.605/98 - dos crimes contra a Fauna).
           Por falar em crime contra a fauna, que tempos dantes não era crime, aconteceu um fato que ficou marcado e hilarizado entre os caçadores de Ubatuba.

          “João Alegre era grande violeiro, isso todo mundo sabia, mas de tanto ouvir as façanhas de caçadas de seus amigos, um dia aceitou o convite para uma caçada; convite feito por um dos maiores caçadores da cidade, o saudoso Vicente Ramos. E foram... Aconselhado a vir atrás, até pela inexperiência e por não conhecer o mato, João Alegre seguia a picada a uns cinquenta metros atrás de seu Vicente.
Nem bem entraram no mato o tiro comeu solto da espingarda de João. Poulllllllllll... Seguido o tiro ecoou também os gritos de João Alegre:
- Matei, Vicente, matei!
Mais que depressa Vicente volta ao encontro do amigo.
- Atirou no que, João?
- Atirei num tatu, mas o bicho engarranchou no tronco da árvore; olha lá, tá lá ele.
Morrendo de rir, seu Vicente esculhamba:
- Sua besta, aquilo é uma casa de marimbondo-tatu e vamos correr que o enxame tá roncando e tá vindo em cima de nós. Onde já se viu tatu trepado em galho de árvore?
João Alegre tinha atirado num ninho de marimbondo-tatu, que o formato é idêntico à carapaça de um tatu.

              Isso com certeza ainda vai ser motivo de risos e brincadeiras por parte de Isaías Mendes, Oscar Miguel e Melquíades, que passam o dia conversando, sentados no banquinho aos pés da “gravioleira”, que agora tem um tatu trepado no tronco da fruteira.
                 Ah! Lembrei-me agora de uma outra particularidade desse marimbondo a qual tive a oportunidade de presenciar: é que de noite, sentindo ameaçado e não podendo esvoaçar em cima do agressor, a colmeia toda, em rufar de asas, emite um som parecido berro de onça, que também assusta e faz afugentar quem está próximo, seja homem, seja bicho.
(Fonte: O Guaruçá - Julio Mendes).

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

CULTO AOS ANCESTRAIS

capela
Capela São João Batista, na praia da Fortaleza.


        Esses meus parentes têm cada uma! Ainda bem que o Mingo está inspirado e põe tudo em poesia!

         Más notícias de países distantes
         atravessavam as escarpas
         e seus esporões que isolavam nossa praia
         trazendo inquietações para o cotidiano
         da pequena vila de pescadores.
         A pedido do padre rezávamos
         pelas almas de tantas vítimas.
         Mas Vovó Zulmira não se abalava e dizia:
         por defunto que não conheço,
         não rezo nem ofereço.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

CAUSOS É QUE NEM MITOS?



Pescadores no cerco - (Arquivo Chieus).


Não faz tanto tempo assim que, na praia do Puruba, logo depois de um gostoso café na casa do tio Dico, fomos até a boca-da-barra para ver o mar. Lá, encontrando um jovem turista (barraqueiro, campista) muito conversador, comecei uma prosa meio que intelectual. “Conversa difícil”, de acordo com os caiçaras. O conteúdo era mais ou menos isto:


Nos tempos antigos, quando as culturas estavam nascendo nas primeiras sociedades, os homens criaram os mitos para explicarem, a eles mesmos, as faces misteriosas da realidade.
Os mitos são verdades emocionais porque, em muitos de seus momentos se faz necessário crer, apenas crer. Em outros, por tratar de condições humanas, da vida em sociedade em que foram elaborados, eles exigem racionalidade. Por exemplo, se eles colocam as mulheres (Eva, Pandora...) como responsáveis pelos males na Terra, não tem como não admitir que já predominava o contexto machista. Ou seja, os homens estão escrevendo uma tradição oral e jamais irão se colocar como culpados disso. Ainda hoje é assim! Então não é comum, quando os filhos falham em alguma coisa, o pai logo indicar a mãe como culpada? “Tá vendo? Você é quem errou; educou desse jeito!”.
Em muitas culturas os mitos continuam sendo importantes, servindo de ponte para o conhecimento e de fortalecimento dos valores sociais, sobretudo unindo as pessoas. Em nosso caso, de pertença à cultura caiçara, os causos e as memórias de tempos passados têm funções semelhantes. Podemos comparar como um caminho que dá segurança, que não nos inibe diante daquilo que devemos passar.
Nisso o tio Dico pergunta:
- Então causo é que nem mito?”
Não tinha como definir de outra forma para o bondoso homem: os dois são bem parecidos. Os causos e memórias do nosso povo servem para nos revigorar. Eles estão repletos de pessoas vivendo como a gente; em condições semelhantes vivem superando as dificuldades com criatividade.
- Então... (Novamente o velho pescador purubano)... a necessidade é mãe da criatividade? 
- É isso mesmo! Acertou em cheio, tio Dico!

domingo, 24 de fevereiro de 2013

POR ONDE ANDARÁ?



Olá,  querida Mônica! Olá, Ateliê Manacá! Bem-vindos ao blog!

Continuando o assunto, a respeito dos Marques do Valle, não posso deixar de contar um fato que vivenciei junto com o Alexandre “Gugu”, neto do Antônio Marques do Valle, o português, grande carpinteiro da Igreja Matriz de Ubatuba, aquele  que é nome de rua no Jardim Silop.
Gugu, filho da dona Ruth e Alexandre Marques, um dos músicos principais da “Banda do Coreto”, conforme aprendi a chamá-la, num belo dia recebeu a seguinte incumbência de sua mãe:
- Você, Gugu, ajuda o Zé a fazer o muro rente ao córrego. Eu tenho que sair, mas já tem uma comida preparada. Se quiserem outra coisa diferente é só fazer.
A dona Ruth se referia ao regato da parte dos fundos do terreno, na avenida originariamente denominada Petrópolis (hoje tem, merecidamente, o seu nome). Do outro lado ficava a A.S.E.L, do frei Pio, onde começava a funcionar a Creche Francisquinho. Era um muro simples. A água ainda era limpa, piscosa. Vários meninos sempre pescavam bagres na ponte que era ao lado da moradia do Brulher. Havia também as garças que se empanturravam por ali. Logo lá estávamos nós (eu e Gugu) munidos de ferramentas e com muita disposição de terminar tudo naquele mesmo dia. Era pouco serviço.
Ao sentir cheiro de comida na vizinhança, o meu amigo já começou a se motivar para o almoço. Tinha fome o rapaz!  Avaliando que a mãe não tinha preparado o tanto para a sua gulodice, resolveu preparar uma canjica. Só que tinha um detalhe: era para depois do almoço; um reforço enquanto não saía o café da tarde. Gente nova é assim mesmo, diz todo mundo. “Come que é uma beleza!”.
Percebendo o receio do amigo, resolvi almoçar na minha casa. Aproveitar da “comida insossinha" da mamãe. Só que, pensando na canjica do Gugu, tive o cuidado de não comer demais. Quem resiste a uma deliciosa iguaria em forma de canjica com leite em pó, canela, cravo etc.?
Muito bem! Ao retornar depois de uma cochilada, já encontrei uma caneca transbordando de tão cremosa. “É para você, Zé!”. Que delícia! Cremosa, cheirosa, impossível de resistir. Repeti duas vezes. De repente escutei a concha já raspando o fundo. "Impossível de ter acabado", pensei. Mas era isso mesmo! Acabou?
- Não tem mais, Zé. Sabe o que aconteceu com quase toda a canjica que eu preparei? Passou por aqui um andante pedindo comida. Eu dei o que tinha, mas o coitado continuava com aquela cara de fome. Então fui dando canjica. O homem comeu, comeu, comeu... Depois agradeceu muito, colocou o saco nas costas e seguiu o caminho. Foi quando eu notei o quanto estava esfomeado o andante. Deixou menos da metade da nossa canjica.
Fiquei contente pelo ato nobre. Fui imaginando um magrelo barrigudinho, muito barbudo e sujo seguindo pela beira do asfalto. Talvez tivesse “dado uma fraqueza" pela empanturração e se “apinchado" num capinzal para dormir satisfeito. Certamente que pessoas assim não podem perder as raras ocasiões de se fartar. Afinal, elas não sabem quando vai aparecer uma alma tão desapegada como o Gugu. A propósito, por onde andará o meu amigo?

sábado, 23 de fevereiro de 2013

OS MARQUES DO VALLE

Dona Vanilda observa a dona Alcina colhendo uns temperos para o pirão. (Arquivo JRS).


                Olá, ANE!   Olá, RUJOSÉ!   Olá, ZIZA CENAMO! Sejam bem-vindos!

                 Ao ver a Ane como seguidora do blog, logo  me assaltaram as lembranças do casal Alexandre e Ruth, de um tempo bom no bairro da Estufa, quando ainda existia muito mato e as pessoas se conheciam. Naquele tempo, começo da década de 1980, a nossa praia era o trecho do Itaguá, entre a Barra da Lagoa e o rancho dos pescadores. Era onde jogávamos bola, namorávamos e começávamos boas amizades.
                Na capelinha de São Benedito, fundada pelo velho Mariano, aconteciam os momentos de devoção e de humildes festas.  A creche Francisquinho ainda estava por nascer, sob o espírito empreendedor e de caridade do finado frei Pio. Um grupo de pessoas, dentre elas a dona Ruth e seu filho Alexandre “Gugu”, Luiz Albado, Manoel Tude e tantos outros fundaram a S.A.B.E (Sociedade Amigos do Bairro da Estufa), sempre visando buscar o melhor para o nosso lugar. Era esse pessoal que, na verdade, estava em todos os eventos e em todas as reuniões. Depois foram chegando outros: tio Genésio, dona Nilda, dona Maria Albado e Carminha, tia Tereza e Nini...
                Voltando ao princípio, os Marques do Valle, da família do músico Alexandre, de quem a Ane descende, se destacou na arte com madeira. Diz a história que Antônio, o primeiro deles, no começo do século passado, foi o carpinteiro da Igreja Matriz (Exaltação da Santa Cruz), cuja restauração, assumida no ano de 1981 por frei Angélico, se realizou por outro Marques do Valle, o Antônio Filho.
                O grande carpinteiro Toninho Marques, o companheiro primeiro da Vanilda Ballio, refez o trabalho de seu pai com a mesma maestria, causando-nos orgulho pela perfeição de seus acabamentos em madeira. Adentrando o espaço da referido templo qualquer um pode admirar, sobretudo a beleza do forro e seus preservados detalhes. Assim como também deve apreciar, nas luminárias, a arte do serralheiro Guadix, e, no altar, a mesa-barco do mestre Jacó Meira.
                Tenho saudades dessas pessoas, mas me fortaleço pensando em suas intervenções pelo bem da comunidade. De uma forma ou de outra as suas obras continuam. Foram eles e tantos outros que me mostraram, em atos concretos, que para uma cidade funcionar da melhor maneira possível não deve haver subornos e favores politiqueiros.
                Hoje, ao saber que alguns desses Marques do Valle têm seus nomes em ruas no nosso município, procure conhecer mais do nosso  passado, das pessoas que transformaram este  chão ubatubano.
                Ah! Aqueles olhos lindos da dona Ruth! Eram, ao mesmo tempo, inquiridores e consoladores. 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

SÃO GONÇALO EM UBATUBA

Sinta-se em casa, Dada!


         O caiçara Rogério Estevenel, neto da dona Gertrudes, da Praia das Toninhas, continua se interessando pelas nossas manifestações culturais, sobretudo as danças. Aliás, ele é um ótimo fandangueiro! Neste texto, representando a Pastoral Fé e Política da Igreja Exaltação da Santa Cruz, ele discorre a respeito da Dança de São Gonçalo, salientando que é uma  das riquezas provenientes do tempo colonial que deve continuar para as futuras gerações.

         Diante de tantas interferências que o povo caiçara sofreu e que provocaram a descaracterização de parte de nossa cultura, manifestações seculares ainda persistem junto às comunidades caiçaras mais tradicionais tais como a Dança de São Gonçalo que pode ser apreciada como pagamento de uma promessa do Sr. Jurandir (Didi) do bairro do Prumirim, sendo realizada num espaço próximo a capela São Judas Tadeu na praia Vermelha do Norte reunindo dezenas de pessoas que puderam conferir essa tradição caiçara mais de perto. A dança contou com a participação de 10 casais que em reverência ao glorioso São Gonçalo dançaram e sapatearam com muita fé e devoção ao som de viola do mestre Sr. Dito Fernandes, contramestre Seu Jorge e Pedrinho e rabeca com Marinho, por aproximadamente três horas com duas breves pausas.
         No início da dança foram feitas as recomendações pelo mestre da dança Zeca, que ilustrou a tradição dizendo que essa dança ele aprendeu com seus antepassados, que só iria parar de dançar quando Deus quisesse e que estaria disposto a passar esses conhecimentos às novas gerações para que essa tradição não venha a desaparecer de nossa cidade. Durante a apresentação recebemos a ilustre presença do Revmo. Frei Bruno Manzoni que prestigiou o momento ressaltando a importância de tal manifestação para a solidificação da fé junto às comunidades mais afastadas.
         Dentre as cidades do litoral norte e região, Ubatuba é a cidade que possui um amplo acervo imaterial com danças peculiares como os da suíte de danças do Fandango Caiçara (Xiba, Ciranda, Cana-verde, Canoa, Caranguejo, Tontinha, Chapéu), Folia do Divino e de Santos Reis esta última totalizando aproximadamente oito grupos na ativa em nossa cidade, Congada de Bastões - Sertão do Puruba, Quadrilha e Dança da Fita - Itaguá, Dança de Boi e bonecões de cortejo João Paulino e Maria Angu os quais necessitam de apoio da comunidade e órgãos oficiais para a manutenção e revitalização desse patrimônio que é não só de Ubatuba, mas do Brasil.

Fonte: O Guaruçá.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

MULHER LÊ MAR



Fernanda e Lemar. 
                Há pouco tempo a Fernanda Liberal nos deixou, vitimada por uma “doença feia”. Para quem não a conheceu, eis uma oportunidade de se contactar com um espírito muito sensível, sempre atenta, que escolheu morar bem perto do mar, em Ubatuba.   Talvez  sob a inspiração de seu companheiro Lemar, buscou, entre tantas coisas, ler o mar. Trata-se de um de seus fragmentos; faz parte de seu livro Mulheres Oceânicas.

                “É uma mulher que olha para o mar”.

                A mão que trabalha agora sobre o papel espera os ventos do amor. E do conhecimento. A história de todos os inícios. De reter em si o tempo que passa. Há um palco. O cotidiano e a representação. Uma necessidade de vida. Urgente. O diálogo: a revelação do outro. Nos labirintos, os espelhos, os nós e os laços. Da paixão. Da loucura. Do prazer. Em que consiste a vida?
                Parar e pensar excessivo, e sentir. Esta é a chave: sentir.
                “É uma mulher que olha para o mar”.

                Assim pode inventar e desinventar a si própria. É a sua condição. Uma mulher sozinha num palco. Não há respostas corretas, só a que seu eu expressa. Pensa que sente em vez de sentir mesmo. Ver é permitir. Vai tentar. A história de todos os inícios.
                Tenta desligar-se. Das vozes internas que analisam, racionalizam, justificam, castigam.

                “É uma mulher que olha para o mar”.

                O dentro-mar. Seu quebra-mar. Ressacas. Marés baixas. Vazantes. E o autoconhecimento a inspirar. O corpo sendo: o andar, o respirar, o tocar. Ser aberta. Ser macia. Ondulante: onda do mar.

                Em tempo: agora, o Lemar, seu eterno parceiro, se refaz da dor da perda. A ele a minha solidariedade e que continue produzindo poesias para o nosso deleite.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

CANÇÃO AO PESCADOR



                           Em 1990, os herdeiros do saudoso José Kleber lançaram Praia do Sono, uma seleção das poesias desse cidadão paratiano, escritos entre 1953 e 1956, num tempo em que a cidade vizinha ainda vivia isolada, sem o glamour dos dias atuais.
                           É impossível, ao passear entre seus casarões coloniais, não recordar do caiçara fluminense que admitiu: "em cada pedra redonda da tua rua deixei uma lágrima escondida que fará brotar mais ervas".




                Pescador, pescador
                que não se perdeu
                na superfície cruzada
                e desembarcou
                vitorioso de nada
                no arquipélago cotidiano!

                A rede de sonhos,
                coroa de menino
                agora já é tecida
                por cabelos brancos.

                E a fartura, que não é
                milagre de multiplicação,
                nas cestas de ferrugem e escama,
                onde mil olhos desfilam
                gananciosos.

                Meu coração pescador,
                jaz no fundo,
                com um nome acorrentado.
                O teu, navega no peito,
                tatuado em azul-marinho.
                Meu cabelo é noite pura,
                enquanto queima-se toda
                tua fronte amadurecida
                ao sol que vem de bombordo.

                Teu anzol e meu braço
                ceifando profundidades
                e ondas de viração.

                No xiba perderam-se
                tamanco e juízo.
                A viola não fica tonta
                como a gente,
                e as vozes povoam cordilheiras
                maciças de novas terras.

                Pescador!
                No lombo onde assentaste
                o mastro do teu partir,
                devassado e sem fim,
                também joguei esperança,
                meu bocado de paisagem
                frente às ilhas e às enseadas
                de ser e existir.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

ANTIGUIDADES



               O mano Mingo continua se inspirando naquilo que nós vivemos, desde um tempo em que as famílias se reuniam para saborear a vida sem se importar com tantas preocupações.

Na casa de meu avôs
tinham muitos tesouros:
um rádio de válvulas
que irradiava Lamartine Babo
e Orlando Silva
que a gente não se cansava de escutar.

Um retrato que, visto de frente,
mostrava Nosso Senhor Jesus,
olhando de viés via-se, à direita, São João Batista
e, à esquerda, São Lázaro
que a gente não cansava de olhar.

Na cozinha um velho fogão
fumegava cheiro de pirão de peixe
que a gente não cansava de paladar,
de tal modo, que até esse substantivo
virou verbo defectivo.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

POETA DA PEDRA BRANCA



É concha de preguai onde começa o jundu.

                Eu conheci o velho Antunes fazendo companhia ao seu parceiro Amaral, no Bar dos Inocentes, perto da Pedra Branca da Enseada. Era um dos pontos onde o vovô Armiro entregava a nossa farinha de mandioca quinzenalmente. Depois, através dos escritos de seu filho João Batista, o JOBÀN, aprendi a olhar nas entrelinhas da poesia a angústia humana diante das transformações do mundo. Se pensarmos que esse tempo foi na segunda metade da década de 1970, então podemos dizer que não faz tanto tempo assim. Hoje, relendo uma coletânea do caiçara da Praia da Enseada, escolhi a poesia...

                DIVAGANDO

                A cada corpo que morre
                nasce uma estrela no céu
                Os homens como crianças
                querem estrelas nos dedos
                O chão armou-se de flores
                pra combater o cimento
                Quem quer estrelas nos dedos
                também quer brincar no vento
                No ventre da Terra-mãe
                gerou-se o filho do tempo
                Cansei de contar estrelas
                dormindo sob o sereno
                Deitado sobre o cimento
                dormi o sono do medo
                Sereno da madrugada
                aninhou-se em meu cabelo
                O sol menino indiscreto
                tirou-me do devaneio
                Lavei o rosto na poça
                represada no passeio
                Desta rua escondida
                no meio dos meus anseios...
                ...e um poeta sofrido
                nasceu-me dentro do peito...

                Por onde andará o poeta nascido entre sapinhauás, bem no lagamar?

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

UM PRINCÍPIO DE AUTENTICIDADE

Que maravilha! É o Perequê-açu!


                Hoje eu esperava  encontrar com o Júlio Mendes, o carnavalesco que prossegue a Saga do Vô Lindolfo, o “Prega fogo”.  A minha  intenção – faço agora! – é parabenizá-lo pela participação nas marchinhas do coreto. Foi ótima a música e a representação do Juvenal e sua tuba. Também adorei as outras composições que pude acompanhar. Parabéns  a todos os participantes!

                Um pouco antes do início do concurso, apreciei a animação do matinê com Mário Gato e sua trupe, todos caiçaras que estavam relegados, esquecidos em suas casas. É muito importante isso! Na ocasião seguinte, dois dias depois,  vi o mesmo grupo puxando as marchas carnavalescas embaixo de uma amendoeira, na Praia Grande. Que bom, pessoal!

                Toda essa gente, de gerações distintas, mas caiçaras que adoram festar, estão mostrando que, conforme escreveu Shinyashiki, “precisamos ir ao encontro de nós mesmos, da nossa originalidade e autenticidade”.  Também afirmou num dia desses o amigo Júlio:  “Os nossos ritmos e as nossas letras são de uma beleza muito particular. O festival  de marchinha a cada ano reforça isso”. Eu aposto que sim!

                As primeiras manifestações carnavalescas desta vida, conforme já disse, eu presenciei no clube do Anchieta Futebol Clube, a “Cocheira” conforme o repúdio da dona Aparecida, no Perequê-mirim. Porém, naquela mesma época, começo da década de 1970, o ritmo “corria solto” no Bar do Peres (Lázaro), na Zenaide, Jacundino e Araca (Enseada); no  alto do morro, entre a Enseada e a Toninhas, estava na moda  A Caverna, do Newton Ciryllo. No "perímetro urbano", bem na margem do rio Acarau, a folia total acontecia no Le Bateau. Já na avenida Yperoig, a mocidade causava deslumbres nas proximidades do Patapraia e do Princesa.  Finalmente, após enfrentar um acesso barrento, eis o Rancho do Galo e o Hotel Jangadeiro no Perequê-açu.  
           Tempo bom! Era festa, suor e cerveja! Tudo na maior limpeza!

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

RELATOS DA ILHA

Que paraíso!  (Arquivo Chieus)


                Eu, menino crescido na Praia do Perequê-mirim, escutei muitas histórias da Ilha Anchieta, desde o tempo dos caiçaras, antes do presídio, até detalhes da rotina e do levante da ilha em 20 de junho de 1952. Em volta dela pesquei muitas vezes.
                Aprendi que antes do presídio, no tempo em que aquele lugar era a Ilha dos Porcos, vivia ali mais de cem famílias. Depois que o governo requisitou o local para fazer o presídio, por volta de 1910, toda essa gente foi espalhada pela costa do município. Lembro-me  muito bem do saudoso Dito Coimbra e de suas lembranças do tempo em que morava na ilha. “O governo mandou que a gente se virasse, encontrasse um lugar para morar porque ali ninguém podia ficar. Nós não recebemos nada”.
                Conheci alguns dos caiçaras que trabalharam no presídio (Rodolfo Cabral, Benedito Góis, Francisco Cruz...), ouvi detalhes do lugar que tinha padaria, plantações, inclusive de legumes  e verduras, onde, após a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, ficaram detidos os membros da Shindo Remei (que não aceitavam a derrota do imperador de status divino). Disse-me a dona Rita:  “Aqueles japoneses da horta trabalhavam com afinco, sem precisar ser vigiados. Eram muito educados e respeitadores.  Eles produziam muita coisa na Praia Grande da Ilha”.
                Do velho Henrique eu escutei o caso de um italiano inocente, mas que ficou vários anos confinado na ilha: “Dava dó ver aquele homem que se atrapalhava na nossa fala. O que ele contava tinha fundamento, mas ninguém da Força Pública fazia esforço para resolver a sua situação”. Bem mais tarde, lendo um livro me  ofertado pelo estimado professor José Hércules Cembranelli, cuja autora era a vizinha do seo Dito Freitas, a dona Idalina Graça, encontrei uma referência ao mesmo caso, feita por Willy Aureli, o jornalista que descobriu a escritora caiçara. Ah, como eu gostaria que os estudantes dos dois estabelecimentos que a homenageiam soubessem um mínimo dessa  valorosa mulher!

                “Foi em janeiro de 1931 que conheci Ubatuba, quando a serviço da ‘Folha da Noite’, realizei uma reportagem na Ilha dos Porcos, onde para mais de 400 infelizes se encontravam detidos.
           Tinha alcançado aquele presídio de tão tristes recordações, a bordo de um naviozinho da ‘Costeira’, que, por uma deferência  toda especial à minha condição de jornalista, fez uma atracação fora do programa na ilha, que agora tem o nome do taumaturgo Anchieta. Lá permaneci uns dias, entrando em contato com todos os presos, ouvindo deles as lamúrias, as queixas, os apelos. Entre eles havia nada menos do que 16 completamente inocentes, vítimas da sanha de certos policiais desalmados.   Um era oficial de um transatlântico italiano e fora apanhado na faixa do cais de Santos, atordoado pelas bebidas, e que, depois de despido da sua brilhante farda, descalço, sem nenhum documento e espoliado do seu dinheiro, tinha sido metido no porão do navio que levava presos para a ilha. Trabalhava como motorista do diretor do presídio, enquanto a sua família, em Gênova, continuava desesperada pelo sumiço misterioso do ente querido”.

                Se inteirando de notícias assim, sabendo da superpopulação e de outras injustiças, fica fácil entender a revolta dos presos.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

SÃO TODOS INCRÉUS!

Olha o peru!             (Arquivo JRS)


                Ao ouvir  a notícia da renúncia de Bento, o papa, imaginei os comentários de João Pimenta, o incréu da praia do Sapê, onde eu nasci.  Eu já contei em outras ocasiões da concepção de religião para esse comerciante. Na minha memória, era com o frei Pio que ele adorava discutir. Coitado do franciscano!
                O irreverente João Pimenta, esposo da dona Quinhinha,  neste momento do magistério petrino em crise,  diria que “Bento XVI está de aviso-prévio.  Portanto, que se preocupem em procurar alguém para o cargo vacante”.
                Do papa, por ocasião de sua passagem pela cidade de Aparecida e cercanias, eu ouvi coisas engraçadas. Na cidade de Potim, na metade do caminho entre Guaratinguetá e Aparecida, por exemplo, o povo enfeitou a rua e o aguardou. Era trajeto certo, logo após deixar a fazenda do frei Hans. De repente, no horário previsto, vários carros pretos, “na maior escuridão por dentro” passaram enfileirados. Num deles estava o tão aguardado papa. Só que eles passaram bem velozes, sem dar para distinguir em qual deles estava o estimado líder dos católicos. "Nem um lencinho foi abanado!". Só deu para sentir o vento.  Imediatamente surgiram as brincadeiras. Por um bom tempo o velhinho foi apelidado de “Papa Vento XVI, o ligeiro”.
                Agora, o Brasil tem cinco votantes e candidatos em potencial. Um deles é Cláudio Hummes, já aposentado, mas que eu  conheci na época em que o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, sob a direção de Lula, forçou  a abertura democrática brasileira. Ele, liderando a Diocese de Santo André, manteve as igrejas abertas para as assembleias e sustentou a espiritualidade da Pastoral Operária. Era o representante de uma teologia coerente com o momento histórico dos trabalhadores.
                Numa ocasião, após um jantar reservado, ele nos contou a seguinte passagem que até parece um causo nosso:
                “Já faz tempo, no bairro do Pedroso, na área rural, num domingo logo após a missa, uma família muito simples me convidou para o almoço. Que beleza! Quase tudo naquela mesa era produzido ali mesmo. Tudo muito natural. Ao redor da casa, o que se via eram abóboras. Imensas abóboras!  Logo pensei, conhecendo os talentos da cozinheira de casa, que uma daquelas daria um inigualável doce em sabor e quantidade. Ai o pecado da gula! Porém, estava meio que sem jeito de pedir ao menos uma para levar para casa. Ensaiei, ensaiei ... Por fim, depois de um fumegante café servido em caneca de ágata, ao me despedi,  tomei coragem e até me ofereci para pagar por uma abóbora daquelas. Uma só bastava, disse eu. Imediatamente o chefe da casa, todo sorridente, atalhou que eu podia levar quantas quisesse. ‘Leva, seu bispo! Leva quanto puder! Tudo isso é para dar para os porcos mesmo! Só escolha daquelas que o peru ainda não bicou!’.  É assim o povo simples, o homem da roça. Que Deus olhe por eles!”.
               O comprometido pastor não acrescentou mais após um largo sorriso. O bondoso tio Totô só diria: "São todos incréus!".

SE TIVESSE MAIS EDUCAÇÃO...

Será que fantoches de cidadão sabem o que é respeito à vida?  (Arquivo  JRS)

                Passando pela sala, assisti uma reportagem do programa FANTÁSTICO a respeito dos carros equipados com potentes equipamentos de som.  Numa cidade, Aparecida de Goiânia, as autoridades tiveram que tomar outras atitudes em relação aos que demonstram tamanha estupidez humana, tirando a paz das pessoas nas ruas e em suas próprias casas, perturbando até bebês, doentes, idosos e demais seres vivos. No mesmo instante questionei se determinados miseráveis da vizinhança estariam assistindo e entendendo o assunto da televisão. Tomara que eles tenham capacidade para isso (que não é tanto!).

                O assunto fez me lembrar do amigo Jorge G., num tempo em que a sua saudosa mãe estava muito doente. Na rua onde ele morava, nas cercanias da pobre escola Aurelina, no bairro da Estufa II,  um desses carros resolveu fazer uma parada demorada perto de seu portão. Imagine só: um cidadão que não atrapalhava ninguém, que se dedicava o quanto podia à mãe, ter de aturar um “sem-noção”  escroto, um miserável culturalmente falando e outros adjetivos nesta mesma direção.

                O que fez ele?  Saiu com muita educação, como quem estava adorando aquela demonstração de inutilidade. Ao chegar perto foi logo detonando:

                - Escuta aqui, seu idiota, seu fantoche de cidadão: você tem mãe? Tem casa? Por que você não pega o seu carro e enfia dentro da sua casa ou naquele seu  lugar bem escondido, onde as costas muda de nome? Não é porque você gosta de bosta que nós também devemos gostar. Pode ir comer a sua iguaria sozinho, bem longe daqui. Agora!

                Nisso, outras pessoas decentes foram se mostrando nos portões, dando maior confiança ao Jorge que se mostrava como um siri na lata. Não restou outra alternativa ao ser que parecia não ser tão racional. Sumiu dali. Ainda bem! Pelo que pude ver as pessoas já estavam procurando porretes e enxadas.

                É isso! Precisamos de pessoas assim! Não é possível que as pessoas, sendo maioria decentes, se encolham diante de tantos desaforos e de falta de respeito! Aonde vamos parar se não tivermos paz nem mesmo em nossa própria casa?

                Agora os tempos são outros! Eu espero que as corporações, sobretudo a Guarda Municipal, neste governo que se inicia em Ubatuba, não se omitam naquilo que presenciam, nem dos chamados que por ventura recebam a respeito de barulho orgulhosamente chamado de “som”.

                Como disse um dia dona Francisca, a querida "Chica", uma doce caiçara natural da Praia da Santa Rita: “Nada disso acontecia se tivesse mais educação. Sabedoria é enfrentar a vida de cara limpa, sem precisar mostrar que tem isso e isso e isso para se sentir gente”.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

MAMÃE, JÁ É TEMPO DE ORGIA?

Oba! Canoa Caiçara! Bem-vindo! Max aproveita cada madeira tombada no Camburi. (Arquivo  Canoas)


                Quando criança, graças à moral dos pregadores que passavam pelo espaço caiçara, o carnaval era diversão para ser evitada, “tempo de orgia”.
                A nossa vizinha, a dona Aparecida, uma evangélica recém-convertida, piorava ainda mais as coisas. Nomeava de “Cocheira” o local, o clube do Anchieta Futebol Clube, no Perequê-mirim, onde uns tocadores locais arrebentavam os instrumentos nas marchinhas de outros tempos. Era um termo depreciativo, onde frequentavam “as vacas, essas mulheres que não têm vergonha na cara”. Mesmo assim nós não perdíamos os matinés, se enrolando em serpentinas e confetes. A mamãe ia, discretamente, pelo cercado de bambu, olhar a nossa diversão. Afinal, não queria se indispor com a vizinha.
                Os mascarados eram atração especial nos dias de carnaval. Tratava-se de adolescentes e jovens do bairro que saíam em grupos com varas, dispostos a correrem atrás das demais crianças e descerem a guasca, provocando choro. A gente provocava muito eles, principalmente quando eram reconhecidos e todos passavam a gritar seus nomes. Depois de darem um show, se retiravam para algum lugar no mato onde se desvestiam e davam um jeito de não deixar pistas.
                Era tempo de carnaval, da festa da carne. Depois, ao chegar a quarta-feira de Cinzas, as testas ficavam marcadas e... era tempo de penitência aos católicos!
                Com o passar dos tempos, das leituras e reflexões, foi aparecendo a verdade: a festa da carne, dos prazeres, era muito mais antiga que eu imaginava. Vinha dos pagãos, dos discriminados pelo cristianismo. Desde os primórdios os homens sentem que precisam se divertir e extravasar seus sentimentos contidos pelas tarefas de rotina. Assim garantiram um ritual que cresceu e teve de ser considerado até pelo pessoal do calendário cristão.
                Ambos, o Carnaval (tempo de diversão e de prazer), uma paixão de muitos milênios, e, o Natal (dia do nascimento do sol), foram incorporados ao calendário oficial, gregoriano. Só tomando essas medidas, era possível converter os povos pagãos, devassos, adoradores de outras divindades da Antiga Europa. A ideologia nova, imposta pelo imperador romano, conseguiu trabalhar as mentes, redirecionar toda  paixão popular para um calendário litúrgico que deveria ser seguido à risca.
             Hoje, as linhas religiosas fundamentalistas ainda continuam ativas. Coitada da finada dona Aparecida que nem queria olhar para o outro lado da rua, onde ficava a “Cocheira”, um ponto de união da praia do Perequê-mirim! Agora, se não estou enganado, por falta de lugares assim, a juventude crescida na hipocrisia fundamentalista, na propaganda para um consumo desenfreado está desorientada, copiando porcarias exóticas e preferindo se drogar. Que pena! Foi-se o tempo em que nós, em plena Quaresma, perguntávamos: "Mamãe, tá ainda muito longe o tempo de orgia?". Depois, assim que passava as festas de fim de ano, novamente o desespero: "Mamãe, já é tempo de orgia?". 
               

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

DEU NO JORNAL



                No dia oito de janeiro deste ano, no caderno Cotidiano da Folha de São Paulo, saiu estampada a seguinte notícia: Caiçaras ‘ganham’ ilha no litoral paulista. Trata-se da ilha Montão de Trigo, pertencente ao município de São Sebastião, defronte à praia da Barra do Una, quase na divisa com Bertioga. Quem fez questão de guardar a página do periódico foi o estimado professor Emerson.  Ele sabe do meu interesse por boas notícias ao meu povo. Só tenho a agradecer pela sensibilidade do amigo.

                A ilha Montão de Trigo, onde nasceu a saudosa dona Margarida, moradora antiga da Praia Dura, é “uma comunidade de quatorze  famílias caiçaras, todas de pescadores,  originadas há mais de três séculos e que vive sem energia elétrica, vai se tornar dona, na prática, de uma ilha na rica costa sul de São Sebastião”. São cinquenta e duas pessoas que dependem da pesca e do turismo. As comunidades caiçaras se alegram com isso. Como eu gostaria  que a dona Margarida estivesse viva para poder escutar mais coisas da sua querida ilha!

                “O documento, que deve ser expedido até fevereiro, vai impedir que a ilha seja alvo de grilagem ou especulação imobiliária de alto padrão. O domínio permanecerá da União, mas na prática isso impede que outros interessados venham requere inscrições de ocupação sobre a área, ameaçando a ocupação das comunidades tradicionais”. Quem garante é a SPU (Secretária de Patrimônio da União).
                “Desde 2010, o governo vem acelerando a concessão do TAUS (Termo de Autorização de Uso Sustentável) a grupos tradicionais, mas é a primeira vez que isso beneficia ilhéus”.

           Essa conquista deve muito à iniciativa do Instituto Guapuruvu, com o processo que se solidificou há cerca de três anos. “A medida abre caminho para que o mesmo seja feito em ilhas como a de Búzios (142 habitantes) e Vitória (50 habitantes), no arquipélago da Ilhabela”. Nestas ilhas estão os caiçaras mais intocados, sem migrantes atraídos pela construção civil. Vários dos meus parentes viveram por lá. Boas lembranças da ilha da Vitória tinha o Eugênio Inocêncio. 

                Já passa da hora de dar atenção aos caiçaras-ilhéus!

          A dona  Margarida era fantástica nas histórias de assombração da ilha Montão de Trigo. Me lembro de uma onde os pescadores, por muito tempo, deixaram de pescar depois do serão. “Um tremor batia neles, meu filho! Ninguém, por precisão que fosse, baixava canoa depois de escurecer. Um vento escuro, mas parecendo ter ardentia no bojo, vinha pelas pedras da Cajaíba. Não tinha corajoso para desafiar o mar encrespado. Isso só passou depois do padre Ramiro fazer uma reza e benzer as imediações. Foi nesse tempo que eu me mudei, vim para cá [Praia Dura] a convite da Isabel,  a minha comadre”.

                Parabéns às pessoas que lutaram e/ou foram solidárias  nessa conquista!

                Viva o meu povo da ilha Montão de Trigo!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

TIO LÚCIO, O PASSARINHEIRO




Ao aniversariante Estevan. Com carinho.

              No livro Tocaia Grande, do baiano Jorge Amado, encontrei uma passagem que fez me lembrar do finado tio Lúcio Félix, um passarinheiro inveterado:

                “Um passarinho alegra a casa e mesmo o lar mais pobre e desolado se enriquece e         se                embeleza com o canto e a plumagem de um currupião, um sabiá, um cardeal, um curió,          um pássaro-preto, um canário-da-terra, um papa-capim, um pintassilgo; a lista é vasta.   Quanto aos periquitos e aos papagaios, são íntimos e inestimáveis companheiros”.

                O personagem Dodô Peroba “não caçava passarinhos para os vender na feira, tampouco para tê-los simplesmente cativos em gaiolas. Da farta recolha das trampas, muitas vezes o passarinheiro não guardava sequer  uma única ave. Depois de estudá-las com atenta minuciosidade, de sujeitá-las a ensaios e exercícios curiosos e estranhos, selecionava pouquíssimos exemplares, baseando-se em misteriosas conclusões só dele conhecidas. Voltava a soltar a grande maioria, quando não a totalidade, e, ao vê-los voar felizes com a inesperada liberdade, demonstrava tal contentamento que se poderia imaginar um absurdo: ele os aprisionava apenas para ter o prazer de libertá-los”.   

                O tio Lúcio, na década de 1970, armava suas gaiolas de alçapão, seus bates pelas redondezas do areal da praia do Sapê. Até mesmo periquitos “cu tapado” eram feitos cativos nos grandes viveiros e nas dezenas de gaiolas que se espalhavam pelo terreiro, nas árvores e no beiral da casa do vovô Estevan. Era um mundo de cores e sons distribuídos em bonito-terê, bonito-fogo, sanhaço, tié, coleirinha, pintassilgo, saíra de toda espécie e tantos mais. Dava-lhe um trabalhão a cada manhã a limpeza,  a alimentação e outros cuidados sobre tudo aquilo.
                Além das frutas (laranja, mamão, banana...), também havia as rações diversificadas. Em algumas gaiolas, onde estavam os melhores cantadores, ele punha preso por um arame cascas de ovos de galinha. Dizia que servia "para afiar o bico, não deixando perder a afinação".

                Nada menos de que dez gaiolas pousavam dentro de casa, na sala, com os melhores cantadores. Não tinha como não ser acordado bem cedo por curiós, canários e outros de maravilhosos cantos e pios. Eram os que mereciam os primeiros cuidados a cada dia. E isso ia, ia, ia... até que, num belo dia, sem nenhum aviso, as portas eram abertas. Rapidamente todos voavam pelo espaço frondoso junto ao Rio do Boi, seguindo a vargem que alcançava o Sertão do Ingá. Depois de uma quinzena ou mais, ele começava novas capturas.

                Agora, depois de tanto tempo, digo que o tio Lúcio pensava como Dodô Peroba. Ele os aprisionava apenas para ter o prazer de libertá-los.