sábado, 31 de dezembro de 2016

FIM DE ANO

        
Tio Neco



        Estive fazendo umas visitas com o Estevan. É um ritual pessoal, agora compartilhado com o meu querido filho. Primeiramente tomamos café com o estimado Tio Neco. Depois uma entrega especial à mana Ana. Em seguida, fui apresentar ao primo Elias o Estevan; ouvimos um pouco de música em seus solos de cavaquinho. Na próxima ocasião devo registrar a Música do Irmão Cláudio, a Sardinha Arenga e O galo da praia.  Aproveitei para rever a velha rabeca do seu finado pai. Raridade! Eu me comprometi, na próxima semana, levá-la para uma restauração. São nossas raízes caiçaras que se manifestam nesses pequenos traços culturais. Espero que, apesar da correria da vida, não nos esqueçamos de nossas raízes.

          Que 2017 seja cultivado para gerar mais felicidades, principalmente junto à minha família (Gláucia, Estevan e Maria Eugênia) e  aos demais parentes e amigos.

          Um grande abraço a todos que preencheram de bens, de coisas boas, a minha vida em 2016.

           Parabéns à querida Tia Marilda! Parabéns ao amigo Jorge Ivam! 

            E, para encerrar, que tal uma poesia de Cezar Prates, classificada no concurso de poesias de 1986 da Fundart, em Ubatuba?

POBRE

Pobre não é aquele que não possui riquezas materiais
Pobre não é aquele que mora numa choupana
Pobre...
...é que tem a alma gasta
O espírito plebeu
E que nunca tenta algo melhor;

Que não sonha.


Pobre é aquele que tem um sonho
Mas que não vive, a ponto de lutar
Para que se torne realidade.
Pobre...
...é aquele homem que desiste de tudo
Porque tem medo de perder...
...antes mesmo de tentar.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

ESPÍRITO DE SOLIDARIEDADE

Praia do Itaguá (Arquivo JRS)

               Saio bem cedo para uma caminhada. “Corpo e cabeça precisam de exercícios”. Na praça, perto da minha casa, um grupo de trinta ou mais jovens ainda não encerraram a madrugada. São moças e rapazes contentes, mas logo devem se retirar para suas casas para outras comemorações em família.  Seguindo a rua principal encontro os frequentadores habituais, de hábitos noturnos: conversam, bebem e fazem outras coisas que preenchem a rotina. Eles me reconhecem. Uma garota, ex-aluna há muitos anos, comenta com os amigos: “José Ronaldo foi o melhor professor de História que eu tive”. Aceno-lhes com a mão; sou-lhe grato no silêncio das passadas. “Seja feliz, Carlinha”. Mais adiante apenas digo "olá" ao vigia do posto de gasolina. “Logo mais irá descansar, espero”. Já na rodovia, de longe avisto duas pessoas: um está sentado na calçada; outro, sobre a bicicleta, segura um aparelho, um celular. São jovens como os demais que encontrei neste amanhecer. Quando me aproximo, o da bicicleta fala: “Ele está passando mal, já telefonei para o socorro. Disseram que só tem uma ambulância trabalhando. Vou aguardar. Mas eu não o conheço”. Então reparo que o outro não estava bem, tinha uma das mãos sobre o coração, sentindo dores. É o que eu chamo de solidariedade. Que ação significativa no amanhecer deste dia! Mais uma oportunidade para refletirmos sobre o sentido ético desses jovens!
               A juventude ameaça o sistema político podre. Ela representa o principal perigo às velhas raposas que “cuidam” do Brasil. Talvez seja por isso que a mídia dá enfoques tão negativos às ações juvenis. A mídia é dessas raposas! E tem tanta gente que acredita que tudo pode ser apreendido em uma só visão! Miserável é o “cabeça gorda”, o “sem-noção”. Disse Jesus: “Sempre os tereis entre vós”.

               Em 2017, eu quero escutar, aprender mais, crer que “uma geração não é feita de idades e sim de afinidades” conforme escreveu alguém. E espero continuar escrevendo, principalmente pelo prazer de escrever, me inspirando em Mário de Andrade que disse: “Não devemos servir de exemplo a ninguém. Mas podemos servir de lição”. A todos que alimentam esse espírito solidário eu desejo um feliz 2017.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

REENCONTRO



Quarenta e cinco anos depois... Em Bom Jesus de Itabapoana - 15/11/2016 (Arquivo Silvana)

        "Gostaria que você descrevesse sobre o reencontro com o tio, o reencontro de vocês".


Boa tarde José Ronaldo!

    Peço desculpa pela demora, mas os dias foram apertados pois estava na correria do casamento do meu filho e as aulas na faculdade. Espero que ainda dê tempo.
                                           Um grande abraço!   
Eu e Seo Zé - junho 2016 (Arquivo JRS)



          No mês de junho deste ano, trabalhando na escola (CEEJA - Massaguaçu), conversei com o Seo Zé (José Luciano da Silva) e soube que, há mais de quarenta anos perdeu o contato com os familiares, da cidade de Bom Jesus de Itabapoana (RJ). Pedreiro de profissão, agora aos 79 anos aposentado, morador de Caraguatatuba, sentiu que podia confiar em mim e, de alguma forma, percebeu que eu faria de tudo para ajudá-lo a restabelecer os laços familiares. Apelei aos recursos tecnológicos. E os contatos aconteceram: primeiro foi a sobrinha Silvana e a filha Ederlaine. Que alegria! Enviei fotos, recebi fotos, mostrei ao Seo Zé. Então... eles se programaram e a visita dele à terra natal aconteceu no feriado de 15 de novembro.

                 As linhas a seguir foram escritas pela Silvana, sua sobrinha, a respeito desse reencontro:


          Como descrever um momento tão emocionante e marcante como esse!
            Quando soube do seu aparecimento, confesso que não acreditei. E que depois de tanto tempo longe, poderia reencontrá-lo!  Foram tantos anos sem sua presença. Eu tinha apenas 2 anos quando ele se foi! 
          Para todos um vazio, uma falta... Algo apertando dentro da gente.
              Mesmo na saudade, você não foi ausente em nossa mente nem no coração. Quando se ama de verdade, fica no coração, eternamente....
              A minha adolescência passei ouvindo falar de você e agora finalmente tive a oportunidade de lhe ver e abraçar! Contei cada minuto e segundos para a sua chegada e esse dia finalmente chegou!
         Foi um misto de emoções! Nosso reencontro foi marcante e muito especial. Pude ver nos olhos de cada irmão, sobrinhos e outros familiares a felicidade ao revê-lo. 
           Como conter as lágrimas? Impossível em ver tamanha emoção!
          Saudade é uma palavra que explica tudo, é no peito que sentimos e não mais que isso, apenas saudade…
          A espera terminou e pudemos enfim nos alegrarmos com sua presença.
     Sorrisos, abraços e lágrimas fizeram parte desse reencontro tão esperado, que por vários anos ficaram contido em nossos corações. 

          Enfim, seja bem - vindo Tio José!  


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

SÓ AS PALMEIRAS SÃO AS MESMAS

            
Roteiro turístico publicado em 1951

Meu enfoque (Arquivo JRS)

Sr. Igawa registrando o centro da cidade (Arquivo Igawa)


             Escolhi três imagens da mesma esquina (Condessa de Vimeiro com Salvador Correia, na Praça da Exaltação da Santa Cruz, "Praça da Matriz"), distantes no tempo: a primeira em 1950, a segunda destes dias de 2016, a terceira de 1960. Na mais antiga, na parte mais clara, bem na esquina, funcionava o Hotel Ubatuba, sob os cuidados do Alexandrino e da Idalina Graça. Só mais tarde, quando havia o risco de desabamento, eles se mudaram para a esquina seguinte, onde hoje é o Bardolino. A mais nova, substituindo um comércio na esquina e o antigo Cine Iperoig, é um edifício que teve uma justificativa como Centro do Professorado (municipal), mas fazendo uso de pouco bom senso, virou um teatro (espremido, sem área de estacionamento etc.). Desconfio que sei quem foi o causador desse desperdício de dinheiro público.
                A  terceira foto, do Arquivo Igawa, mostra um grupo seleto em frente ao mesmo local, em 1960, onde estava o moderníssimo cinema. Já tínhamos energia elétrica, telégrafo... mas os edifícios de até quatro andares ainda não ocupavam a avenida Iperoig, os rios eram limpos e o carroceiro Modesto dava conta de recolher o lixo produzido na pequena cidade de Ubatuba. As praias mais badaladas eram Perequê-açu e Itaguá. E os turistas eram chamados de veranistas.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O MESTRE DA MOTTA

Sérgio da Motta e eu (Arquivo JRS)

Mestre Da Motta e Estevan (Arquivo JRS)

               Em meados da década de 1970, morando na praia do Perequê-mirim, eu tinha como vizinho o Mestre Sérgio Pio. Seus trabalhos, seus entalhes em madeira me impressionava muito. A sua barraca, o seu atelier, era na costeira, perto do sítio Promontório, quase na Pedra do Alçapão, um maravilhoso pesqueiro de garoupa, antes de chegar à praia Brava do Hermínio, hoje nomeada erroneamente de praia do Lamberto. No final desta mesma década conheci, na escola “Deolindo”, em Ubatuba, um pessoal bem legal. Sérgio, Paulo, Augusto, Daniel... filhos do Mestre Da Motta, um escultor da praia do Perequê-açu. Eu e Augusto estudamos na mesma série. Seu companheiro inseparável era o “Cabecinha”. Juntos com Osmara formavam um agradável trio. Bons tempos das “cocotinhas”! Nessa mesma época acompanhei as exposições do Mestre Bigode, um caiçara do Ubatumirim, com traços bem característicos nas esculturas mínimas e máximas. Que traços naqueles santos de dois centímetros de tamanho! E – pasmem! – por intermédio da saudosa Dona Leonor fiz os primeiros contatos com o Mestre Jacob! Resumindo: Pio, Da Motta, Bigode e Jacob me influenciaram muito, me despertaram para as figuras que parecem querer sair da madeira. Um pouco mais tarde um escultor da geração nova: Luís, o autor das Duas Toninhas, da Via Sacra da Igreja São Francisco etc. Enquanto isso Sérgio e o finado Dani caminharam sob inspiração do pai (Da Motta).

               No domingo passado, passando por ali, na avenida Félix Guisard, 348, mostrei para o meu filho, pelo portão fechado, o atelier do Da Motta. Depois de tantos anos, ainda não consigo deixar de me emocionar. Quantas já peças comprei no Bazar do Compadre, nas mãos do estimado Adão, para presentear pessoas queridas! As cenas caiçaras com seus coloridos continuam me encantando! Nisso, quando explicava emocionado ao meu filho Estevan, uma senhora sorriu e nos convidou a entrar. Disse: “O meu sogro saiu, foi até a cidade, mas o meu marido, o Sérgio, já está chegando. Fiquem à vontade”. Que maravilha essa acolhida caiçara! De fato, logo o Sérgio chegou. Nos abraçamos depois de tantos anos. E aí fomos conversando, nos deslumbrando com as ferramentas, as peças começadas e as já prontas. Soube que o pai se recupera de um tratamento. “O coração dele nos deu um susto! Agora, aos 85 anos, já está bem. Tá andando por aí!”. Por fim nos despedimos porque ainda tínhamos quase uma hora e meia de caminhada. Ao atravessar a ponte, vindo na maior tranquilidade, avistei o querido Mestre Da Motta. Que prazer! “Uma foto, querido Estevan, porque poucos têm esse privilégio!”.


               Bigode e Jacob já se eternizaram por suas artes, deram notoriedade à comunidade do Perequê-açu. Longa vida ao Mestre Da Motta! Que Sérgio, Luís e os mais novos conduzam honradamente seus talentos!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O ESTUDO NO CADERNO DE HAMAKO


Manzarrata: você já comeu? (Arquivo JRS)

                 Estamos finalizando mais um ano letivo, com previsões sombrias para o próximo devido à lei que suprime algumas disciplinas do Ensino Médio, sobretudo aquelas que mais contribuem para o aperfeiçoamento da cidadania. Estou me referindo à Filosofia e Sociologia. Recorrendo a tais expedientes é que uma minoria consegue se manter dominando uma maioria, implantando um modelo de sociedade espoliadora, destruidora do meio ambiente e fazendo crer que apenas o consumismo (o ter) garante a felicidade. Acabei de chegar do Horto Florestal, da Fonte da Amizade que fica dentro da Estação Experimental. Para quem não sabe, a fonte é num pequeno morro rodeado de plantas, aves etc. Só o fato de estar ali já experimentamos uma paz. De repente, alguém que chegou de carro diz: "Por que essa água não é canalizada até a beira do asfalto, facilitando a vida da gente?". Não resisti: "Porque as pessoas não valorizam aquilo que está muito fácil. O legal é fazer esse mínimo esforço, sentir esse perfume do ar, escutar esses sons e fazer amizades. Tomara que continue aqui essa água!". Acho que a Dona Hamako concordaria comigo. Até diria: "Felicidade é isso, Zé!".

       O estudo
               Estudar japonês era muito bom porque o professor só falava em japonês. A hora de aprender o brasileiro era tão difícil! Nem eu e nem meus amigos sabiam falar o português. A professora falava, mas ninguém estava entendendo nada.
               A Matemática era fácil para mim e meus colegas porque aprendíamos nas aulas de japonês. História, Geografia, Ciências e outras matérias a gente decorava tudo, todas as palavras e letras, porque a gente não sabia trocar as palavras. Por exemplo: bonito, lindo.
               A professora falava para formar as sentenças com gato, cachorro e todos os animais. Se ela falasse que os gatos pegam os ratos, assim a gente escrevia, não mudava uma palavra porque não sabia escrever.
               As nossas brincadeiras era só falando em japonês.
               Na escola não tinha diretor porque era uma escola mista. De vez em quando a professora falava: “Hoje vem o inspetor, por isso vocês não podem falar a língua japonesa”. A gente ficava quieta.


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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

AS CRÔNICAS





               Gostar de escrever eu gosto mesmo! Que maravilha é poder registrar fatos, sentimentos, aventuras e coisas específicas da nossa terra, do meu povo caiçara! Meu primeiro caderno de anotações (de histórias, poesias e causos) data de quando eu tinha 16 anos. Antes disso, qualquer motivação era para desenhos (carvão pelas paredes, rabiscos em papel de pão, figuras em páginas de caderno...). Ainda bem que Maria Eugênia e Estevan avançaram muito mais que o pai neste particular! Adoro seus desenhos!

               Meus escritos brotam das observações, das vivências e das prazerosas prosas do dia a dia. Também há os livros inspiradores. E são tantos! Mas voltando um pouco, parece que foi ontem que o pessoal do setorial de literatura (da Fundart – Fundação de Arte e Cultura de Ubatuba) fez a indicação do meu nome para o concurso de crônicas. Depois me consultaram para saber a reação. A princípio não queria aceitar, mas alguém disse: “Aceita, Zé. O pessoal indicou o seu nome porque você é estimado, escreve coisas interessantes. Será uma desfeita não aceitar essa honra”. Aceitei. Agradeci muito pela consideração. Agora, após a premiação na última sexta-feira (25/11), já estou motivando mais gente a participar da próxima edição. Há talentos escondidos, sem oportunidades para se apresentar.


               Os premiados desta vez: O enigma de Andrômeda (Maria Helena Barreto Luiz), Os que conduzem e os que são conduzidos (Guilherme Carmona) e Estrela (André Telukazu Kondo). Parabéns a todos que participaram! Aguardo mais gente para o próximo ano. 

sábado, 26 de novembro de 2016

OUTRAS PÁGINAS

Outras páginas do guia turístico de Ubatuba, de 1951.

Nesse tempo, havia apenas a ligação rodoviária pela Estrada de Taubaté (Rodovia Oswaldo Cruz) ou pelo mar (navegação de cabotagem, canoa de voga...). Depois de alguns anos, após metade da década de 1950, aconteceu a construção da rodovia que nos ligou até Caraguatatuba. A BR-101 (Rodovia Rio-Santos) se completou por volta de 1977. Aí já podíamos ir até Paraty e apreciar as mais lindas paisagens da nossa terra. 



Carlos Borges Schmidt vendo o Corcovado, do Morro da Berta, em 1945.

Na semana passada, do Sertão das Cotias, o Corcovado (Arquivo JRS)



terça-feira, 22 de novembro de 2016

O PRIMEIRO GUIA TURÍSTICO



O meu amigo José Iraedson, ao receber um material relativo a Ubatuba, diz: "Isto o Zé tem que ver. É a cara dele". E acertou! Sobretudo ao me trazer este guia publicado em 1951, dando a conhecer as belezas do nosso município! Que legal, né? Digo que é o primeiro guia turístico da nossa terra. Se existir outro anterior, me avisem.



A praia da frente (Cruzeiro/Iperoig) era imprópria para banho porque era um mar bravio, praia de tombo, de perau como dizemos.





E este sobrado está na esquina onde um prefeito construiu um Centro do Professorado e depois o transmutou em teatro. Uma metamorfose que ainda não deu certo.



Eis o Perequê-açu! Praia maravilhosa! Nem dá para acreditar que hoje, sobretudo no verão, se torne um lugar de tantas sujeiras. 

sábado, 19 de novembro de 2016

EDUCAR PARA A DIVERSIDADE

Ricardo ordenando as peças (Arquivo JRS)

Uma amarração muito especial (Arquivo JRS)

Umas peças do Mestre Ricardo (Arquivo JRS)

               O meu amigo Ricardo, passando agora por momentos ruins, me ensinou neste semestre coisas maravilhosas a partir do bambu.

               Ricardo, professor de Educação Física, afrodescendente, tem uma história triste. Aos quatro anos foi abandonado na rua pela mãe. Por isso chorei ao ouvi-lo num dos seus muitos momentos difíceis: Só o meu primeiro nome eu sei que é meu. O restante, inclusive data de nascimento, foi o governo quem me deu. Fui criado em orfanato; nunca ninguém me adotou. Nunca soube de parente nenhum nesta vida. Você e outros que me consideram, que demonstram carinho, são os meus parentes”.

               Hoje, na véspera de celebrar o Dia da Consciência Negra, preocupado com a situação atual do meu amigo, faço questão de refletir sobre preconceito, linguagem e ação.

               Ao nascermos já temos uma herança cultural por pertencermos a uma família, a um grupo social. Com a nossa vivência vamos nos afirmando, revendo aspectos, refazendo essa herança. Nisso a linguagem é essencial. Por ela absorvemos e expressamos o mundo. Nossas necessidades essenciais e nossos anseios étnico nos permitem criar e recriar a linguagem.
               Foi o anseio étnico de Sartre, na segunda metade do século XX, que criou o conceito de negritude, fomentando a autoestima e os movimentos sociais negros decorrentes disso. O filósofo Albert Memmi, filósofo tunisiano, questionou, na mesma época o conceito de racismo. “O racismo é a valorização generalizada e definitiva de diferenças biológicas, reais ou imaginadas, em benefício de alguém a fim de justificar seus privilégios e suas agressões”. Para ele, o seu uso só se justificava se houvesse mais de uma raça humana. Ou seja, o mais adequado seria preconceito , discriminação, perseguição étnica etc.
               Algumas pessoas, miseráveis culturais eu diria, acreditam que os direitos devem variar de acordo com as diferenças étnicas. Nessa ideologia se tolera o sofrimento de alguns povos, inclusive a escravidão. Foi o caso do Brasil que se fez com suor dos indígenas, dos degredados e das etnias africanas. Quantos povos foram dizimados nesse processo? Caso semelhante fizeram os católicos da Península Ibérica contra o judaísmo. Os nazistas seguiram o mesmo princípio contra diversos segmentos étnicos, culturais e religiosos. No fundo, tudo converge para garantir a exploração, os privilégios de uma minoria. E a História continua neste rumo!

               De acordo com as pesquisas sérias, os negros, descendentes daqueles africanos trazidos à força para o Brasil durante mais de trezentos anos, continuam sendo os mais explorados; às mulheres se aplicam salários menores; os índios são discriminados porque suas terras são cobiçadas pelos latifundiários etc. Ensinamos que o ponto de partida dessas formas de exploração está na construção dos arquétipos (ideias, imagens, concepções que fazemos das pessoas e de quase tudo que nos rodeiam). Nós aprendemos, repetimos e criamos sem avaliar essas visões. Ou seja, criamos rótulos que muitas vezes, por nascer de pensamentos artificiais, não correspondem à realidade. Ciro Marconde Filho, sociólogo, chama estereótipo de vício de raciocínio. É o que está na base gerando leis, alimentado ideologias que resultam naquela falta de caráter, no problema patológico generalizado como racismo. Em pesquisa de 2003 (Fundação Perseu Abramo), 87% dos brasileiros consideram que o país é racista, mas só 4% se assumem racistas. Apesar de nossa Constituição dizer que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”, os negros continuam marginalizados, discriminados etc. No artigo 5º, inciso XLII está escrito: “a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível”.

               Nos embates contra qualquer tipo de preconceito, nunca é demais relembrar o Dalai Lama, líder de uma etnia perseguida há tempo pelo governo chinês: “A meta da ética secular é nos libertar do sofrimento momentâneo, e, de longo prazo, é desenvolver a capacidade de apoiar o outro na busca da felicidade”.
               Nesta ocasião celebrativa, de luta dos movimentos sociais negros, que tal refletir a respeito da alteridade, do homem em ralação de interação e interdependência com o outro? Que tal, caros colegas, entender que alteridade implica se colocar no lugar do outro, numa relação de diálogo e de valorização das diferenças? Que tal repensar nossas atitudes nessa problemática enquanto educadores e gestores? Já dizia o Velho Brand:" Um simples gesto de aceitação pode ser decisivo para a felicidade de alguém".


               Agradeço ao meu angustiado amigo pelas lições. Acho que eu aprendi bem, Ricardo! Você é o nosso (eu, Egléia, Christiane, Luciane e Ayla) homenageado nesta celebração! Muita paz, muita saúde, continue na luta e seja feliz.

domingo, 13 de novembro de 2016

O CADERNO DE HAMAKO (IV)

Buscando lenha - Arte: Estevan

                  Dia chuvoso. Silêncio, tempo ideal para passar mais algumas histórias da Dona Helena. De repente busco o meu filho Estevan de outra atividade e lhe peço para ler esta parte e produzir um desenho. Adorei e creio que a Mirtes, o Minoru e os demais da Família Honda irão gostar. Na verdade, acho que todo mundo vai gostar!


O meu irmão Yassuo

               Todos os dias precisava socar arroz para a janta e almoço do outro dia. Nessa época não tinha aula de japonês. Eu e meu irmão Yassuo éramos os que socavam arroz. Mas Yassuo fazia hora para não ajudar a socar o arroz. Então eu lhe falava para comer logo e vir me ajudar a socar arroz. Eu falei várias vezes, mas ele não vinha. No fim, ele ficou com tanta raiva que jogou o garfo que segurava. Bateu bem no meu cotovelo e começou a sair sangue. Aí ele foi buscar o iodo, passou no machucado e amarrou com o pano. Depois disso foi socar sozinho. Ele ficou tão preocupado, pedia desculpas várias vezes. Depois que estava socado, eu fui fazer a janta. Eu era pequena, mas fazia de tudo. Tirava água do poço para fazer tudo. Fazia ofurô também.


               O ofurô era esquentado com lenha. A lenha a gente ia buscar na roça: levava um saco de estopa e enrolava num pau comprido e trazia para casa. Depois cortava e fazia fogo no ofurô. Quando chovia, a lenha ficava molhada e não fazia fogo. Eu soprava, mas só saía fumaça preta, nada de fogo. À noite, quando ia dormir e fechava os olhos, eles ardiam, saíam lágrimas.

NEIDE, CECÍLIA, ELIZABETH... ENFERMEIRAS DA MINHA VIDA!

A.L.A.: escola das Irmãs Agostinianas. Olha a Lira Padre Anchieta! (Arquivo Histórico)

               Eu tive muitas oportunidades de comprovar o sacerdócio que é a enfermagem! Testemunhei a Neide indo pelos caminhos ao atendimento dos pobres caiçaras, me submeti às agulhas da Cecília nas muitas doações de sangue, encarei o desafio da Beth ao dizer: “A Dona Irene vai deixar o hospital, mas antes disso precisamos lhe dar uma moradia digna, no Monte Valério”. E lá fomos nós, gente da Estufa, em mutirão, construir a casa da mulher.

               No século passado, logo depois do fim da segunda guerra mundial, a filosofa Hannah Arendt quis entender o que sustentava as atrocidades do nazismo, chegando à conclusão o absurdo da banalidade do mal é “consequência de uma ação impensada, alienada e conivente, que propaga um tipo de normalidade, de hábito insensível. Esse mal faz ignorar as vítimas e pode se instalar tanto em regimes totalitários quanto democráticos”.

               O meu autor do momento, James Clavell, no livro Gai-Jin cita: “O dinheiro torna qualquer modo de vida possível. O dinheiro, sob a forma de ouro, prata, arroz ou seda, até mesmo esterco, o dinheiro é a roda da vida, faz as engrenagens funcionarem”. É preciso outras precauções, além da febre do ouro e da questão do poder, no combate à banalidade do mal.

               No sábado, dia 12 de novembro, na casa da minha amiga escutei o seguinte: “Qual é o trabalho das enfermeiras num hospital? Não é zelar pelos pacientes, medicá-los conforme determinação médica e estar sempre atenta aos possíveis chamados de intervenção nos variados quadros dos pacientes, com suas situações mais graves?”. “É, acho que também é isso!”. “Pois é, amigo! E o meu irmão está lá, nos últimos suspiros de vida; o próprio médico já nos preparou para isso. Agora, o que podemos fazer senão lhe transmitir a solidariedade?”. “É, concordo. O que se espera em momentos assim é apenas paz consigo mesmo. Por isso é importante os familiares demonstrarem ao menos um semblante de aceitação, de despedida,  de perdão pelos momentos de fraqueza do doente. Se os amigos também fizerem isso será melhor ainda!”. “Agora entenda amigo: somos pobres como você bem sabe, o quarto que meu irmão divide com outra pessoa é pequeno, mas tem leito para mais um. Ele não tem a idade que a lei do estabelecimento permite ter acompanhante. Nem sei se seria útil alguém a mais só para olhar o seu definhar. Eu, pessoalmente, não aguento aquele pesar do ambiente. Expliquei isso para a enfermeira que, mais atenta ao seu celular, queria me impor como acompanhante, que eu ficasse de vigília durante a noite, depois de estar por ali o dia inteiro. Ela, continuando mais de olho no seu aparelho do que em mim, disse que tem uma solução: há cuidadores; o preço é de cento e dez reais durante o dia e cento e cinquenta por noite. Será que ela pensa que somos ricos?”. “É lógico que não, amiga! Rico vai ficar nesse hospital, num quarto apertado, com um assento rústico para seu acompanhante passar a noite? E vai achar normal duas ou três profissionais velando suas mensagens nos celulares em um recôndito esbranquiçado, mal percebendo as lamúrias que por ventura escapam pelos corredores? Acho que passa da hora de recordar o sacerdócio das primeiras enfermeiras formadas em Ubatuba, atendendo até na tragédia ocorrida na cidade vizinha de Caraguatatuba, em março de 1967, sob o comando da Irmãs Agostinianas. É comovente ler uma delas relatar: ‘Para chegarmos a Caraguá tivemos que atravessar um mar de lama. E só quem aventurava numa dessas eram os homens. De saída, nos apresentamos na cadeia local, onde estavam reunidos os voluntários. Fomos de caminhão. Os homens bebiam antes, para aguentar, pois a chuva continuava caindo e penetrava até os ossos. No lugar que recebia os voluntários trocamos de roupa e logo nos mandaram para o Clube XV, onde se achavam umas trezentas pessoas abrigadas, pois suas casas tinham sido destruídas. Havia ali muitas crianças e idosos. Era um choro contínuo de crianças e de adultos. Uma havia perdido isto, o outro mais aquilo, um terceiro familiares!... Lembro-me de um senhor que chegou acalentando um pedaço de madeira, como se fosse uma criancinha. Aproximei-me e lhe perguntei o que estava fazendo: - É o meu bebê, a mãe dele foi na correnteza’. 

      -  Amiga, o que vemos é a atualização da banalidade do mal. Ainda bem que existem as exceções!

               Isto ensina-se na escola, nas aulas de Filosofia: “Hannah Arendt encontrou-se diante de um enigma assim quando escreveu a tese da banalidade do mal, na tentativa de compreender a maldade praticada pelos homens”. Muitas das maldades nem são percebidas como maldades. Seus praticantes são jovens, adultos ou idosos, esposas ou maridos exemplares, pais dedicados, praticantes de alguma religião, alguém que se julga devidamente civilizado, cumpridor de seus deveres, sobretudo de seus horários que justificam seus salários e asseguram seus empregos. Nem percebem que são aliados de um sistema que está aniquilando as pessoas, a começar dos mais pobres, que mereceriam essa atenção devotada aos seus celulares.

               Neide, Cecília, Elizabeth, Isabel, Balbina e Mercedes estão entre as enfermeiras da minha vida. Agradeço-lhes pelos exemplos em minha vida. Parabéns aos profissionais da saúde que não se afastam do desafio de zelar pela vida de tanta gente na Santa Casa da Misericórdia de Ubatuba.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

E AÍ COMPADRE?

             
Lhe digo uma coisa, Joban: essa caiçarada gosta de história e de causos!

               Quanta honra poder publicar um causo do JOBAN, caiçara da praia da Enseada!


            Antigamente, há muitos anos atrás, antes da construção da BR-101, popularmente conhecida como Rodovia Rio-Santos, rodovia que liga Santos ao Rio de Janeiro pelo litoral, era muito difícil visitar as praias ao lado norte do município. O acesso a essas praias era através de uma trilha passando por montanhas e praias, muitas vezes íngreme e levava-se quase um dia todo para ir a uma dessas praias, e por isso normalmente ia-se a cavalo para adiantar a jornada. Jacundino, morador do bairro do Itaguá onde tinha uma vendinha, resolveu visitar seu compadre Jacozinho casado com Dona Dinda, moradores da praia do Prumirim e levar a ele uma resma de fumo e palha de milho para seu cigarrinho habitual que ele gostava de pitar no fim de tarde para espantar os mosquitos, também usar o fumo para umas mezinhas. Na manhã seguinte levantou com o raiar do dia porque a jornada seria longa e cansativa, tomou seu café, selou o cavalo emprestado do seu vizinho Zé do Pinho, pensou se devia levar uma matula porque na última visita que fez o compadre não ofereceu nem um café, dizendo que já tinha almoçado e a comadre estava cansada da lida na roça não podia ir para o fogão preparar um de comer, na verdade o compadre era um pão duro, sovina, todos diziam isso, pensou em cortar um pouco de salame e por no pão amanhecido que sobrou da vendinha, mas depois decidiu, afinal ele ia levar fumo e palha, talvez o compadre se condoesse dele e oferecesse alguma coisa, então desistiu. Montou no cavalo e iniciou sua jornada rumo ao Prumirim. Depois de enfrentar muito sol nas costas e amassar muito mato chegou à casa do compadre, era perto do meio dia, o sol estava quase a pino. Chamou o compadre:
            – Cumpadre Jacozinho! Ó de casa!!!
            Nesse momento surgiu seu compadre Jacozinho com a enxada suja de barro às costas parecendo que vinha da roça e disse:
            – Se apeie desse cavalo cumpadre e vamos entrando pra gente proseá um pouco.
            Jacundino desceu do cavalo, deu ao compadre o fumo e palha que trouxe esperando o convite do mesmo para almoçar. Entraram na casa e ele perguntou pela comadre.
            – Cadê a cumadre Dinda, cumpadre, tá na roça?
            – Tá não, tá na cama doente, com constipação.
            Pelo visto com a comadre doente, posso dar adeus ao almoço, pensou Jacundino.
            – Cumpadre Jacozinho vou-te contá as novidades lá da cidade, muita confusão na política você nem imagina o balaio de gato que tá acontecendo lá.
            – É mesmo, cumpadre? Me conta, tô morrendo de curiosidade.
            – Conto sim, se for regado com um bom cafezinho de cana fica melhor.
            – Me adiscurpe cumpadre Jacundinho, mas a garapa acabou hoje de manhãzinha, e o café precisa torrá os grãos e adispois moê, e com a Dinda de cama não dá pra fazer um café de cana, mas se quisé água da bica tem ali na moringa é só pegá.
Jacundino viu que não conseguiria nada do compadre, essa doença da Dona Dinda talvez fosse mais uma desculpa, esqueceu-se da fome e começou a prosear, contando os fatos verídicos e inventando outros. A conversa estava tão animada que eles nem perceberam que a tarde entrou noite adentro. Só perceberam quando viram o pisca-pisca dos vagalumes pela moldura da janela aberta em contraste com o céu começando a estrelar.
            – Preciso ir mi já, anoiteceu cumpadre Jacozinho, vou pegar o cavalo e vou mimbora.
            – Vai não cumpadre Jacundino, viaja a noite a cavalo nessa trilha é arriscado demais, pode o cavalo quebra a pata, vosmicê cair em argum barranco. É melhor vancê dormi por aqui e ir amanhã cedinho. Pode deitá nessa esteira de taboa, mas lava o rosto e os pés, para não sujá e estraga a esteira.
            – Tá bom cumpadre Jacozinho – e vendo que não seria servido nada e a fome estava demais, seu estomago roncava mais que garoupa presa em anzol e entocada na pedra, viu na lavagem dos pés uma dica para pedir um de comer – mas posso lhe aperguntá uma coisa?
            – Apergunte homem, diga lá o que é?
            – Será cumpadre Jacozinho que não faz mal lavá os pés com a barriga vazia?
            – Faz não cumpadre –fingindo não ter entendido a indireta – faz mal lavar com a barriga cheia.
            Lá do quarto a comadre Dinda, vendo que o compadre iria dormir na pura esteira aconselhou.
            – Sinhô Jacozinho, meu marido, arranja um cobertô pro cumpadre não passá frio.
            – Cumadre Dinda – prontamente respondeu o Jacundino no desespero da fome – não precisa se incomodá, tendo arroz com farinha já tá bom pra mata a fome.

domingo, 6 de novembro de 2016

NINGUÉM É DONO DO MAR



Morro da Santa Rita; degradação até na costeira (Arquivo JRS)

      O mano Mingo, nesta poesia, nos remete à sustentabilidade, ao desenvolvimento que não é destrutivo, sobretudo do meio ambiente que é a nossa "galinha dos ovos de ouro". O mar não tem dono, a costeira é para todos, a vida tem de ser respeitada, inclusive dos demais seres que se desenvolveram neste planeta bem antes dos homens.

Ninguém é dono do mar - Domingos Fábio dos Santos

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Os dias emendam-se nas semanas,
o barco continua atracado ao porto
e o pescador está ancorado em casa
esperando o tempo ruim passar.
Por ordem de São Pedro
o céu despeja tanta água,
decerto para dar aos peixes uma trégua
e tempo para andejar pelos quatro cantos
da pátria líquida, oceânica,
que se alguém puser porteira,
ou fazer muro na fronteira,
construção de pedra ou cimento armado,
as ondas lá vão arrancar,
pois chão pode ter proprietário,
mas ninguém é dono do mar.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

O CADERNO DE HAMAKO (III)

       
Olha nós no Recanto Casanossa!(Arquivo JRS)
         Hoje, apesar de todas as facilidades, a maioria dos alunos não valoriza escola, os estudos. Estudar é hábito que se cultiva a partir do primeiro impulso dado pela família e continuado por professores idealistas, daqueles que nos cativam a partir de sinceros acolhimentos, de leituras prazerosas e das descobertas do mundo dos números e das letras. É isso que nos faz andar quilômetros, viajar muito ou até mesmo buscar outras cidades ou países. Só a boa educação pode mudar o mundo para melhor! Por isso é lamentável o descaso dos governantes para com a educação brasileira!

         No CADERNO DE HAMAKO, na parte que eu escolhi para hoje, recordei da minha primeira escola, na casa da Tia Martinha (do Tio Cláudio), no morro da Fortaleza, onde chegávamos com as pernas encharcadas dos serenos nos capins, com um caderno e um lápis protegidos numa sacola plástica, num saco de arroz. Também levávamos nosso peixinho frito, nossa farofa para a hora do recreio. A sede a gente matava numa bica de bambu, da água que vinha da grota ali perto.  Lá estudavam crianças que vinham de longe (Praia Brava, morro do Bonete...), e, numa sala multisseriada, alimentaram seus sonhos, né Cláudio? Né, Clotilde? Né, Cida? Né, Rosângela? Né, Palmira? Né, Ana?

A escola
               A escola era longe, distante 6 quilômetros. A gente ia cedo e voltava à noite. De manhã, das 8 horas até 12 horas, aprendia aula em português. Das 13 horas até 16:30 horas as aulas eram em japonês. A gente levava marmita para comer ao meio dia. Quando acabava as aulas, era hora de fazer a faxina. Depois que tudo estava limpo, a gente ia embora. No inverno, quando chegava na casa, já tinha estrelas.
               Essa escola era uma escola mista: uma classe era dos meninos, outra era das meninas. Nós todos não sabíamos falar a língua portuguesa. Eu até que sabia um pouco porque meu pai tinha uma porção de camaradas para trabalhar na roça. Uma vez por mês eu trabalhava na enxada e na foice para limpar o campo. Tudo era serviço das crianças: os meninos roçavam em volta do campo e as meninas carpiam o mato.
               A escola era num lugar chamado Areado. O cabeçalho assim se escrevia: Escola Mista Rural de Sete Barras. Nela se estudava até o 3º ano. Depois fui para outra escola, um grupo escolar que tinha o 4º ano. Ficava a 6 quilômetros da nossa casa; eu andava 3 quilômetros e corria os outros 3. Nesta outra escola era só brasileiro; ficava na cidade de Sete Barras.

               Eu tinha dois irmãos que andavam 13 quilômetros para estudar. A gente nunca faltava às aulas, nem se atrasava. Crianças que moravam na cidade chegavam sempre atrasadas nas aulas.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O CADERNO DE HAMAKO (II)

Dona Helena e suas plantas (Arquivo Harumi)

                Creio que é inevitável: quando a palavra é lançada ela ganha autonomia, vai buscando outras combinações e gerando outras pontes de histórias. No texto anterior muitos comentários apareceram e outros ainda estão por vir.  Por exemplo, soube que a Dona Maria Helena (Hamako) começou a escrever por volta de 2004, por estímulo do Thomas, seu genro.

                Thomas De Carle Gottheiner era meu conhecido desde o começo da década de 1970. Foi quando ele adquiriu uma propriedade na praia da Fortaleza, bem perto do tio Maneco Armiro, o tocador de rabeca. Sempre se deu muito bem com a caiçarada, participando dos nossos eventos e momentos. Depois, já no final dessa década, nos reencontramos no restaurante e pizzaria Perequim, na parceria inicial com Mike e Gustavo, na praia do Perequê-mirim. Mais tarde buscou uma participação política, pois tinha uma preocupação constante com os rumos da nossa Ubatuba. E aí se uniu à nossa amiga Mirtes (Harumi Honda) e foram felizes. Ele – Thomas – foi um ótimo ouvinte das prosas da Dona Helena, percebeu que seus relatos mereciam um registro e fez de tudo para que ela mesma fosse a autora dessa proeza. Assim podemos acompanhar no Caderno de Hamako:

Na praia

                Eu e meu irmão Yassuo pegávamos pitus na praia, no capim da margem [do rio]. É debaixo dele que o pitu fica escondido. A gente passava a peneira debaixo do capim e pegava muito, mas só levava para casa os grandes. Os pequenos a gente soltava. Essa praia era muito bonita.

                Para pegar a manjuba precisava de quatro pessoas: duas seguiam na canoa (uma para remar e outra para jogar a rede), duas ficavam na praia e iam soltando a corda. Quando chegava bem perto do final da praia, a gente começava a puxar a corda. Nessa hora, as pessoas da canoa também já estavam puxando do outro lado. Duas pessoas puxam o lado do chumbo e duas pessoas puxam o lado da boia para chegar junto no saco que tem as manjubas. Sempre eu ia junto para jogar a rede. Eu gostava muito.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

O CADERNO DE HAMAKO

Eu e Dona Maria Helena, no sítio da Cristina  e Roberto (Arquivo JRS)





















        No começo da década de 1990 eu conheci a jovem Mirtes (Harumi Honda), professora, colega da minha futura esposa, na escola Deolindo, em Ubatuba.  Pessoa maravilhosa, amiga estimadíssima em nossa casa! Mais tarde, coisa melhor aconteceu: conhecemos a sua mamãe. 

              Hamako Nishi Honda, a querida Dona Maria Helena, amava orquídeas e, contrariando uma das principais características dos nipônicos, adorava uma prosa. Falava de tudo que era agradável ouvir, sobretudo da sua experiência de vida. Logo eu me encantei com a sua sabedoria, com a sua genuinidade, com a sua bondade. Fiquei freguês de suas prosas, sobretudo de seus relatos sobre suas origens, no litoral sul do estado de São Paulo, quando descrevia a lida de seu pai com a pesca da manjuba. Eu, apesar das correrias da vida, sonhava em escrever um texto para publicar e dar a conhecer a mais gente um testemunho de vida tão importante. Mas a vida, escorrendo tal como a areia na ampulheta, também deixou de animar essa mulher. 


               Após o falecimento da Dona Maria Helena, em 2015, eu me lamentei de não ter ido mais vezes em sua simpática moradia para mais prosas. E, então, fiz uma proposta à Mirtes: “Vamos sentar juntos e escrever um texto para homenagear a sua mãe?”. Ela adorou a ideia; ficamos de olho numa ocasião, no momento de fazer a hora, de não esperar acontecer. De repente, num belo dia, eis a notícia dela: “Zé, não sei se ainda interessa, mas acabei de achar o caderno de anotações da minha mãe, todo escrito por ela, onde conta como foram morar nas margens do rio Ribeira de Iguape e como iniciaram a pesca da manjuba, como secavam o peixe e encaixotavam”. Estalei os olhos e a cabeça! Na primeira ocasião, entre sair de uma escola e embarcar no ônibus para outra, passei na casa da minha amiga. Revi o Marcos, filho da Mirtes, e conheci o seu irmão Minoru: tudo gente boa! Que beleza o tal caderno! Comecei a leitura imediatamente e terminei de fazê-la na viagem. Que viagem! É esse caderno que agora põe tudo a se movimentar. Boa leitura. 

A manjuba

          Para pescar a manjuba, precisava de licença. Meu pai logo obteve a licença. Comprou a rede de 50 braças (mais ou menos 70 metros), uma canoa grande e outra pequena e logo começou a pescar. No outro lado do rio tinha uma praia bonita onde se pegava manjuba. Nessa época meu pai tinha uma porção de camaradas para ajudá-lo na pesca. Quando estavam pescando na frente de casa, eu ia levar o almoço para eles na praia. Enquanto eles estavam almoçando, eu colocava as manjubas na minha canoa para trazer para a nossa casa, depois lavava para salgar em seguida. A manjuba ficava 24 horas no sal. Para cada latas de manjubas, era colocado mais ou menos 4 latas de sal para ficar bem salgada. No outro dia tirava do sal e punha para secar ao sol, onde ficava em torno de 3 dias. Quando o sol ficava muito quente, a gente enrolava a esteira, de manhã por volta das 11 horas, e, à tarde, depois das 15 horas, abria a esteira e espalhava as manjubas. Depois de secas, colocava em caixas de madeira (que cabia 20 kg). As cabeças eram tiradas.
         Tinha uma senhora que ajudava a encaixotar as manjubas. O sal deixava nossas mãos bem finas, que nem cal. Tinha dia que eu pedia para essa senhora lavar os sacos de sal. Ela ia, mas ficava xingando o tempo todo porque lhe doíam as mãos. Ela gostava de uma pinguinha, ia na cozinha para beber. Também gostava de pimenta vermelha. Na hora do almoço ela amassava no prato a pimenta, depois colocava arroz, feijão e outras coisas para comer.