terça-feira, 19 de setembro de 2017

LIBERDADE E VIDAS QUE SE FORAM


Quadro no museu, em Ubatuba (Arquivo JRS)

Casa do Carlos Laureano (Arquivo JRS)

               Admiro muito os que se propõem a estudar a história, sobretudo a Nossa História. Mary Del Priore, que escreveu mais de quarenta e cinco livros, é uma das minhas preferidas. Tempos atrás separei um trecho de seu livro Histórias da gente brasileira porque desconfiei que mais gente precisava saber de situações vividas pelos índios brasileiros.

               Em São Paulo, houve indivíduos que tinham a seu serviço cem ou mais flecheiros. Eram “potentados em arcos”, como Valentim de Barros, Diogo Coutinho de Melo, Sebastião Pais de Barros e Pedro Vaz de Barros, que, em 1650, tinha mais de quinhentos índios. Eles desempenhavam qualquer tarefa que branco não queriam executar: portavam cargas nas costas, cuidavam das plantações, remavam no mar e nos rios, caçavam, construíam todo tipo de edificação, de igrejas a fortes ou edifícios públicos, e também, embarcações, e ainda ajudavam a lutar contra outros índios. Desde a década de 1630, entregavam-se à cultura do tabaco durante sete a oito meses por ano, em troca de alimento e de duas a quatro varas de tecido de algodão, o equivalente ao que seria um salário baixo [...]. Uma vara equivalia a um jornal de sete a vinte réis por dia, enquanto que os assalariados brancos recebiam entre 150 a 200 réis. Os índios livres estavam em pior condição do que os escravos, segundo padre Vieira, que, em carta ao rei d. João IV, expressava a sua preocupação: “Que, para que índios tenham tempo de acudir às suas lavouras e famílias [...] nenhum índio possa trabalhar fora de sua aldeia cada ano mais do que quatro meses, os quatro meses os quais não serão juntos de uma vez, senão repartidos em dois”.  E quanto aos pagamentos, que fossem feitos à hora e que nenhum deles servisse de graça a qualquer morador ou às obras do serviço público.
               Pretendia também o jesuíta que os índios recém-aprisionados fossem recebidos com aldeias e roças preparadas para que aí pudessem viver e que só começassem a trabalhar depois de “estarem mui descansados do trabalho do caminho”. E para evitar tensões com os colonos, acrescentava: missionários não poderiam ter índios, livres ou escravos, trabalhando para si em canaviais ou outras lavouras.

               Tal como os africanos, os índios também eram propriedade dos brancos e aparecem como “negros da terra” nos documentos da época.  É isso! Afirma a historiadora: “A cana matou o índio e importou o africano”. Dizia o padre Anchieta que “os portugueses não tem índios amigos que os ajudem porque os destruíram todos”. Ah é!?! Não me diga!!!

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

TINHANGA

Cabeça no bambu (Foto Estevan)


               Dona Laurentina, a minha saudosa mãe, quando parecia não querer perder a paciência com a gente, nos chamava de “cabeça de tinhanga”, significando algo como encrenqueiro, que quer inticar por pouca coisa. Fui buscar a palavra em Moçambique, um país africano de onde tantos foram tirados para serem escravos no Brasil: está no sentido de formar juízo se baseando em crenças, se sustentando em narrativas míticas. Creio que posso afirmar que a mamãe, assim como os caiçaras mais velhos, estava nos chamando de cabeça oca, de quem diz coisas levianas, inconsequentes. “É coisa de gente que está com a cabeça no mundo da Lua”.  Mas também relaciono com Anhanga, um conceito indígena para espírito assustador, visagem, prenúncio de coisa ruim quase sempre ligado aos seres do mato. Por isso que “cabeça de tinhanga” poderia estar se referindo a miranhanga, ou seja, visagem de gente, que deduzo ser sujeito que inferniza, que enche o saco, que torra a paciência. “Assombração na vida da gente” é dizer do meu povo.
               Ah! Esses seres fantásticos! O quanto devemos aos indígenas, aos negros e aos pobres portugueses trazidos como degredados, expelidos da nobre sociedade lusitana a partir do início do século XVI, por ocasião do achamento de Pindorama, do Brasil – a Terra de Santa Cruz!?! Hoje, retomo uma contribuição dos Tamoios ao nosso caldo cultural, ao nosso ser caiçara, falando do Curupira.

               Hans Staden, um alemão que foi prisioneiro em terra Tupinambá, dizia que a noite causava temores aos indígenas, pois as trevas se enchiam de espíritos audaciosos. Assim, qualquer barulho na noite era motivo de inquietação, de nem imaginar sair da proteção da oca. Por isso que era comum acender fogueira junto às redes para estar a salvo dos males. Vamos resumir tais espíritos como guardiões da natureza contra as ações dos homens. O Curupira, por exemplo, era um dos entes mais temidos pelos indígenas. O padre Simão de Vasconcellos o denominou “o espírito dos pensamentos”, que comanda todos os assombros da floresta, pois é o dono das matas cujos segredos conhece e defende. 
             Hoje, quando se exalta a cruz, chamando-a de santa, eu proponho que retomemos o espírito do Curupira e sejamos intiqueiros, "cabeça de tinhanga" em favor da preservação deste meio ambiente saudável deste litoral, desta flora e fauna que se fez em milênios, destes veios de água, deste mar que tantas vidas e poesias nos dá. Sejamos intiqueiros! Não omitamos o Dia da Traição de Yperoig! Isto não é pouca coisa!

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

FOI TRAIÇÃO!

        

     
            Em 1563, os padres Anchieta e Nóbrega, após uma estadia confabulando com os senhores de engenhos (líderes políticos do Brasil colonial) na Baixada Santista, partiram numa comitiva, sob o patrocínio de José Adorno, um desses líderes, para negociar a paz com os índios confederados (Confederação dos Tamoios).
         A aldeia de Yperoig que, segundo especialistas, significa “água de tubarões”, localizada onde é a atual cidade de Ubatuba, foi escolhida como território de negociação devido a presença de um cacique por nome de Koakira, considerado amistoso pelos jesuítas.
         O velho Catarino dizia:
         “Neste chão de Ubatuba, logo ali onde era a lagoa (que deu o nome da Barra da Lagoa), era onde os índios tinham as suas ocas. Suas canoas subiam pelo rio e logo ganhavam a lagoa. Yperoig foi escolhido pelos padres e por quem mandava porque era um lugar estratégico, de onde partiam as frotas de canoas e as tropas a pé a partir do Caminho das Antas, onde hoje se conhece como Cachoeira dos Macacos. Desse lugar saía um mundaréu de gente brava que aterrorizava os portugueses!”.

                Depois de uma tomada de fôlego, Catarino retomava a prosa-aula:
         “Entre os líderes confederados, os ânimos variavam: uns lutariam até a morte; outros já estavam cansados. Por isso que a presença dos padres e a disposição de Anchieta em ficar como refém deu-lhes uma esperança. O padre até que gostou da ideia! Afinal, era só ele entre a indialhada pelada, não é mesmo?”. Todos riam do humor do contador de causos.
         Com a desculpa de que as exigências dos índios tinham de ser decidida pelos patrões, uma comitiva se dirigiu à Baixada Santista. Enquanto isso, para sufocar os desejos da carne, entreter as mãos e os olhos, Anchieta foi escrevendo e memorizando poemas nas areias da praia. (Depois de séculos, há muitos anos passados, vi a dona Idalina Graça fazendo o mesmo na praia do Itaguá, bem perto do rancho do Florindo. Segundo ela, eram ensaios para um livro que estava escrevendo).
         Os pontos defendidos pelos confederados não pareciam conter algo tão extraordinário. Queriam a libertação dos prisioneiros que se encontravam no trabalho forçado dos engenhos, o fim da prática de escravização, a entrega dos chefes traidores e que deixassem os Tamoios viver em paz, como verdadeiros donos da terra.

                O acordo de paz, considerado o primeiro do continente americano, foi selado em Yperoig, futura cidade de Ubatuba, em 14 de setembro de 1563, dia  da Exaltação da Santa Cruz.

         Aylton Quintiliano, na obra A guerra dos Tamoios, diz que “a partir de Iperoig, e por muitos meses, houve um período de relativa calma. Aimberê, o bravo cacique de Uruçumirim, auxiliado pelo francês Ernesto, que se tornara um deles ao casar-se com Potira, retornou ao seu grupo, onde hoje é a cidade do Rio de Janeiro. Havia esperança de volta aos bons tempos da produção, das expedições de caça e pesca”.
         Em sua Carta ao Colégio de Coimbra, o padre Manuel da Nóbrega diz: “De tudo o que mais me alegra o espírito é ver por experiência o fruto que se faz nos escravos [índios] dos cristãos, os quais com grande descuido dos seus senhores, viviam gentilicamente em graves pecados. Agora, ouvem missas cada domingo e festa e têm doutrina e pregação na sua língua às tardes”.

         Vou concluindo com a fala do velho  Catarino que nos ensinou num dia distante, no jundu, no barranco da Barra da Lagoa, em frente da pobre, mas honrada casa do velho Dito Camburi:
         “Depois de um ano daquele acordo, quando receberam tropas de Lisboa, sentindo falta de mais índios para o trabalho escravo, a portuguesada acaba com tudo a partir da traição de Yperoig”.

         É por isso que eu não duvido que as coisas aconteceram aproximadamente do jeito descrito na Guerra dos  Tamoios:
         “Ao chegar em Iperoig, para verificar a produção de algodão, Ernesto deparou-se com um quadro que lhe fez correr  lágrimas nos olhos: todas as ocas haviam sido queimadas, vários nativos mortos em meio aos escombros ou pela praia. Alguns poucos que escaparam à fúria sanguinolenta dos brancos, contaram a ele que os portugueses haviam levado centenas de prisioneiros para São Vicente. O velho cacique Coaquira lutara como um bravo e foi um dos primeiros a morrer”.

         Agora, você decide:

         a) Comemora a Exaltação da Santa Cruz porque os Tamoios foram dizimados; ou...

         b) Comemora a data como Traição de Yperoig porque a paz tão exaltada nunca houve.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

OCUPAÇÕES DESORDENADAS


A minha árvore (Arquivo JRS)

               Em outra ocasião eu já escrevi a respeito daquilo que todo mundo já sabe: ocupações desordenadas. O nome já diz tudo: está acontecendo fora de ordem. Onde? Na nossa Mata Atlântica, que mais parece terra de ninguém. Um menino disse assim: “O meu tio marcou um lote lá pra ele. Tem bastante gente ocupando aquele morro. Até o dono do mercado cercou uma área lá. Tem outras pessoas que são de fora. Dizem de um homem que já cercou tudo e logo vai construir, que é de Jacareí e é advogado”.  Será? Eu não duvido!
               Um colega de trabalho acabou de dar a notícia que o governo federal, “o Temer cedeu uma área muito grande na Amazônia para os estrangeiros extraírem metais preciosos, mas que garantiram que não vão desmatar mais do que está estipulado no acordo”. Outro trabalhador da empreiteira que abre estrada na Serra do Mar, em Caraguatatuba, está horrorizado pelos estragos que estão fazendo na mata: “Muitos bichos estão morrendo pelas derrubadas e pelas máquinas e caminhões. Na represa de Paraibuna, na construção da ponte, peixes estão morrendo devido ao óleo que vai parar na água”. O governo do Estado de São Paulo, há mais de década move um processo de desmanche da política ambiental preservacionista, de pesquisa etc. São notórias as ruínas na Estação Experimental do Horto Florestal, em Ubatuba. Nem os amigos do governador, de passagem pela rodovia Oswaldo Cruz, podem negar. Quer parar lá e ver o estado do salão que era nobre até os primeiros anos deste século? E o que dizer do núcleo da Mata Atlântica, onde em 2005, com orientação do Douglas, recebi maravilhosas aulas a respeito do ecossistema que nos rodeia e é a nossa maior riqueza? Agora é só ruínas.

               Enfim, aqueles pontos de fumaça no morro, não longe da minha casa, são desdobramentos de omissões e descompromissos que começam na esfera federal, cresce na estadual e se multiplica na municipal. Disse a Dona Senhorinha: “Fui reclamar no destacamento na semana passada. Quem me atendeu disse que é quem é dono daquele terreno é que precisa denunciar as queimadas e as ocupações”. Ou seja, não atendeu alguém que queria exercer a cidadania. Deve ter pensado: “Ah! Isso é coisa boba”. E agora, meu povo?

domingo, 27 de agosto de 2017

ALMA DE CAIÇARA

Eu e o primo João (Arquivo JRS)

                   Hoje acordei com uma certeza:

               REPARTIR IDEIAS É RECOMPOR SONHOS.

               Prosear com as pessoas, sobretudo as mais próximas, é muito prazeroso! Ontem, eu e a mana Ana conseguimos promover o reencontro de Dona Gertrudes e comadre Luzita, depois de quase setenta anos sem se verem. Duas valorosas caiçaras! Outro dia foi com o primo João Barreto escutando suas histórias, suas memórias e suas declamações de seus próprios poemas apaixonados pela nossa terra. São palavras de acalanto, que trazem denúncias e cultivam sonhos bonitos, precisando de mais gente para sonhar juntos, em mutirão. Escutando a minha gente, eu sigo alinhavando a minha colcha de retalhos. Tá ficando uma beleza!
               Eis o conteúdo de algumas estrofes do nosso querido João:

               Mas hoje o progresso chegou,
              Tudo mudou de repente
               Que até a nossa gente
               Resolveu também mudar.

               Mudaram a pesca,
               Mudaram as festas,
               Poluíram nossos rios,
               Cortaram nossas florestas
               E sujaram nosso mar.

               Veja a praia do Itaguá,
               Cartão postal da cidade,
               Veja que barbaridade
               O que fizeram por lá!
               É de cortar o coração,
               De ver que toda essa beleza
               Um dia possa se acabar.

Em tempo: a referência na última estrofe se deve ao estrago que está acontecendo com despejo de esgoto através dos três rios que desembocam na baía de Ubatuba, acabando com a balneabilidade nas praias do Cruzeiro, Itaguá e Acaraú. "Não é essa a natureza que eu quis".

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

CULTURA POPULAR


Quebrando coco pindoba (Arquivo JRS)
Eu e Nísio, da Congada (Arquivo JRS)

                      Agosto está se findando. Você pensou na cultura popular, no folclore? Recordou das tantas manifestações, das muitas festas, comidas típicas, folguedos, adivinhas, crenças etc. que fazem a nossa riqueza, o nosso patrimônio cultural popular?

                Lembrou-se das procissões, dos benzimentos, das ladainhas, dos cortejos, das Congadas, das danças de Moçambique, das cantigas de rodas, das brincadeiras da nossa infância?

                Recordou dos mestres canoeiros, das escolhas das árvores e da lua certa para fazer derrubadas?  Pensou nas marés para coleta dos frutos do mar, corte de cabelos e unhas?

                Agradeceu pelos chás de tantos matos da nossa mata? Pelas sementes de capiá, de coroanha nas simpatias que nos deram alívio?

                E o que dizer das redadas tão responsáveis dos velhos pescadores que acudiam ao toque do buzo nas madrugadas?

                Quando nem se sonhava em ecologia, nós prosseguimos a técnica de cultivar por partes, em sistema de pousio, para o descanso da terra. Fazíamos casas que nem marcas deixavam após o deslocamento de seus ocupantes. Somente os vestígios das plantações, alguns exemplares dão noção de  gente que passou determinados locais.

                Tantas coisas do meu povo! Tudo cultura popular!
                Agosto – mês do folclore. Todos os meses é da cultura popular!

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

UM ANEL, UMA HISTÓRIA


                Não tem muito tempo que, nas areias da praia do Perequê-açu, em Ubatuba, o meu filho, cavando um pequeno buraco, encontrou um lindo anel de cobre. Também não demorou muito tempo para perdê-lo. Era bonito, com gravações de motivos egípcios. Esse fato –ter encontrado um anel - é que me fez recordar de outra situação que envolve um anel. O personagem principal é Luizinho, um pedreiro, morador em barraco de obra, em outros tempos, no Perequê-mirim.  O apelido dele no trecho era “Diabo Loiro”. Pela vida sofrida, pela idade que já tinha naquele tempo, por tanto padecimento que o pobre passa, eu desconfio que o Luizinho nem viva mais. O importante é que, em minha memória, ele continua presente. Dele escutei a seguinte história que nunca esquecerei:

                “O que vou contar agora para você, Zezinho, escutei da minha finada mãe quando eu era jovem ainda. Trata-se de um fato que aconteceu com o meu avô. Ainda bem novo, ele se apaixonou por uma moça lá na cidade onde nasceu, no Ceará. Era apaixonado, mas não tinha coragem de se declarar a ela, de dizer  o quanto se sentia atraído para um compromisso sério.  Até comprou um anel como sinal de disposição em se casar, caso a moça o aceitasse. Passaram-se meses apenas em ensaios, pensando num jeito de revelar seus sentimentos, mas só continuaram na amizade, ambos transbordando em timidez.
                O tempo foi passando até que, num belo dia, ele soube que a sua amada estava na estação para embarcar no ônibus e ir para uma cidade bem longe, num outro estado. Meu avô largou o que estava fazendo, pegou o anel e saiu numa carreira para o local, como uma  questão de vida ou morte. Chegou tarde. A partir disso caiu em profunda solidão, sobretudo depois de um mês, quando recebeu a notícia de que a sua amada tinha morrido num acidente, foi atropelada por um carro na cidade grande. Aí foi que as coisas pioraram.
                Levou muito tempo para o meu avô aceitar a situação e refazer os rumos da sua vida. Casou, teve filhos e netos, ficou viúvo. Faz certo tempo que ele também já faleceu. Agora, preste mais atenção, Zezinho: um pouco antes de morrer, ele chamou a minha mãe, deu-lhe um anel e contou a sua história. A minha saudosa mãe ficou tão emocionada! Ela nunca poderia nem imaginar aquilo tudo que o pai guardava por tanto tempo. Ela, coitada, até chorou junto com o meu avô! Por fim, o vovô recomendou que ela guardasse aquele anel e desse ao próximo filho que estava para nascer, ao seu neto. Eu sou a criança que nasceu;  fui eu quem herdei o anel do vovô”.

                Em seguida, o Luizinho abriu a mão cheia de calos, rachada pela argamassa, mostrando o anel. Me presenteou: “Agora ele é seu, Zezinho. Quero que você aceite este anel porque eu não tenho mais ninguém por mim neste mundo”. Eu me emocionei diante daquela figura que tantos não hesitavam em chamar de “Esponja”, “Traça pernas”, “Desaprumado” etc. Mesmo meio sem jeito, guardei o anel. A vida deu voltas, cada um foi pegando seus desvios, fazendo novas rotas. O Luizinho se foi, o anel continua comigo, aos meus cuidados. “O que se opõe ao descuido e ao descaso é o cuidado. Cuidar é mais do que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais do que um momento de atenção. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro”. (Leonardo Boff).  A minha preciosidade, “Joia do Luizinho”, permanece atada na cabeceira da minha cama desde aquele tempo de adolescente, quando eu era balconista no Bar Orly (Bar do Severino), no Perequê-mirim.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

BELELÉU

Beleléu espreitando (Arquivo JRS)

                Para o filósofo J-J. Rousseau, um francês do século XVIII, a educação é algo fundamental, que define o caráter da pessoa e os seus hábitos. Mais ou menos nesta direção se dá a minha busca em aprender ao máximo e passar aquilo que sei aos que estão ao meu redor.
           Certa vez perguntei a um adolescente se ele tinha lembrança de como ele foi aprendendo a ser o que era. Procuramos um lugar para nos sentamos... e veio a história!
                 
                “Na infância meus pais me contaram a história de Beleléu. Na verdade, era apenas uma desculpa para que eu cuidasse melhor das minhas coisas, para que não as perdesse. Era uma história realmente simples, mas que qualquer criança de quatro ou cinco anos acreditava. Era a clássica historinha para justificar coisas simples, dar lições de moral ou ensinar hábitos básicos, tal como se preocupar com os pertences e não perdê-los. Esse era o caso do Beleléu. 
                O Beleléu, segundo meus pais, morava em lugares escondidos, dentro da casa (debaixo da cama, atrás do guarda-roupa, sob a mesa etc.), junto com o Bicho-Papão. Ele era fascinado pelos objetos dos humanos, roubava tudo que caía no chão ou estava bagunçado. Pegava e levava para seus esconderijos.

                O objetivo da história era para que eu cuidasse melhor das minhas coisas e arrumasse as minhas bagunças, senão... o Beleléu roubava tudo. Essa estratégia funcionou por um bom tempo. Depois... eu fui crescendo e percebendo que, mesmo com tudo bagunçado, nada sumia. E, quando sumia, eu sabia que tinha sido a minha mãe. Ela pegava e jogava no lixo, achando que aquilo não servia para nada, que não tinha utilidade”.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

O CARÁ DO ARGELO


Final da colheita dos carás (Arquivo JRS)

               Inverno, para nós caiçaras, tem um gosto especial por diversos motivos (tainha, festa junina, fandango, festa do Divino...), mas o que importa hoje é falar dos carás: roxo e moela. Fomos criados aguardando esta época do ano. Portanto, além dos sabores em si, da sustância desses frutos da terra, tem ainda a reminiscência dos momentos em família, da disputa em coletar pelas matas essas iguarias.
               O cará moela dá nas tralhas pelos galhos das árvores; o cará roxo dá na terra, necessitando cavoucar com cuidado a cepa, de onde saem suas tralhas. É lá que se encontra a grande preciosidade!  Ambos têm tralhas que se espalham nos galhos altos das árvores. O sinal que está no ponto de colheita é quando as tralhas começam a secar nos muitos pontos, pelas matas. Os nossos olhos foram acostumados, marcam os lugares nas antigas tigueras, onde se encontram essas inconfundíveis tralhas. A gente fica na espreita.  Seus lugares, suas localizações são conhecidas. Na verdade, uns passam aos outros essas localizações, pois sempre houve partilha nas coletas. É por isso que o Antunes não me deixa esquecer: “Já não é tempo de ir à estrada da Lagoa, no Morro do Cará?”. A vovó Eugênia, nessa época recomendava: “Quem for à Pedra da Igreja tem que esticar a pena até o Morro do Tatu para trazer cará”. Na casa da vovó Martinha era moleza, as tralhas cobriam uma frondosa aroeira na porta da cozinha.
               Quando a panela de cará estava na mesa, a vovó nos chamava para o café. Nunca faltava alguém que perguntava rindo: “É o cará do Argelo?”. Ah! Quem não imagina de que se trata, considerando nossas raízes culturais?

               Neste final de semana, conforme atestam as fotografias, cheguei ao derradeiro momento desta safra no meu reduzido quintal. Agora é só replantar a miuçalha que nos saciará no próximo inverno. Aos de fora digo que conhecer, mesmo parcialmente, é importante para respeitar a cultura local e ajudar a preservar esta terra que tudo dá. E viva o cará do Argelo!

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

E O PERU?



Outro Malhado (Arquivo JRS)

                Adoro histórias! Dias atrás uma colega se propôs a me contar uma história:
                   - Mas é história antiga. Você gosta?
                - Lógico que gosto! Pode-se dizer que histórias antigas são, no mínimo, engraçadas!
                - Então, preste atenção, Zé.


                “Minha mãe é daquela mulher que gosta de conversar de tudo com os filhos. Certa vez ela me contou uma história que eu ri muito. É relacionada aos meus avós que, infelizmente, não cheguei a conhecê-los. A história em questão, que eu acho o máximo, aconteceu numa véspera de Natal.
                O terreiro da casa da minha avó Quinhinha era cheio de criação (patos, marrecos, perus...). Com  ajuda do cachorro Malhado, treinado desde pequeno nas lidas da casa, ela separava um peru estando a dois dias antes do Natal. E, conforme o costume, antes de sacrificar, ela também dava pinga à ave. Naquela ocasião ela deu pinga ao peru, mas também bebeu bastante, se embriagando. Outro hábito dela quando se embebedava era dar tudo o que tinha em casa para aqueles que moravam mais próximos. Fez isto, depois colocou o peru na cama, devidamente aconchegado sob o cobertor. Em seguida  se deitou também e ambos dormiram. Quando o meu avô chegou da roça, foi logo acordando a vovó e perguntando o que era aquilo. Ele não estava entendendo nada. A vovó despertada, mas ainda embriagada, começou a gritar entre xingamentos: ‘Ninguém vai pegar o meu peru, ninguém!’. E assim passou boa parte da noite até que voltou a adormecer. Ao amanhecer, conforme outras ocasiões assim, começou a escorraçar  todo mundo, indo atrás das pessoas para pegar suas coisas de volta. Na verdade, os vizinhos já estavam acostumados com aquele ritual a se repetir sempre que a vovó se excedia no consumo da cachaça; muitos deles, assim que amanhecia, já iam chegando na sua casa para devolverem as coisas ‘presenteadas’. Era assim sempre.  Nesse ponto a mamãe aproveitava para  nos incentivar a não beber, dizendo que coisas absurdas assim só acontecem com quem bebe".

                     - E o peru, amiga?

                - Ah! Ele não morreu! Depois de passado o efeito da pinga em ambos, a vovó ficou com dó de matá-lo. 

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

É, MAS NÃO É!


Mandioquinha e mandioca:(imagens da internet).

                Meu avô, assim como outros caiçaras, de vez em quando precisava contratar mão de obra extra porque o trabalho aumentava, e, ele e os filhos não davam conta de tudo, correndo o risco de perder prazo no corte da banana, de ver o mato comprometer  o rendimento do mandiocal etc. Geralmente se contratava os “caipiras de serra acima”,  trabalhadores temporários de distritos nos municípios vizinhos (São Luiz do Paraitinga, Natividade da Serra e Redenção da Serra). A Serra do Mar, desde tempos remotos, é repleta de trilhas que sempre facilitaram esse intercâmbio  entre caiçaras e caipiras. A movimentação de mercadorias entre as duas regiões (alto da serra e litoral) sempre existiu desde a chegada dos primeiros colonos portugueses: traziam queijo, levavam peixe seco, voltavam com farinha de milho, retornavam com cachaça, depois a carga se segurando  na descida era de carne seca, ou a subida íngreme estava sobrecarregada com produtos provenientes da Europa. Só sei dizer, conforme dizia o vovô  Zé Armiro: “Tinha gente que até tropa de burros usava para suas cargas”. Os mais velhos citavam a "tropa branca" que se destacava no verde da mata, carregada de chapéus, da fábrica que estava nas imediações de Catuçaba, na margem do Rio do Chapéu.
                Seo Zé Sibi (nem sei se é assim que se escreve) era um desses camaradas do vovô. Trabalhava muito, apesar de seu corpo frágil. “Magrelo que dava dó”. Detalhe: esses trabalhadores eram acomodados na casa de quem os contratavam, como se fossem mais um membro da família. Almoçavam da mesma comida, dormiam sob o mesmo teto e participavam das rodas de conversas, das prosas em família. Numa ocasião, outro caipira desceu com o Seo Zé, para uma empreitada num novo eito de mandioca. Era Tonico do Totonho. Não me lembro do sobrenome, nem de que família era. Porém, do seu lugar eu não me esqueço: “Sou de um lugar conhecido por Rio Abaixo, perto da cidade de São Luiz”. Mais tarde, no corte de banana, no verão, ele novamente estava como camarada do vovô. Trouxe uma novidade: “Conhecem esta raiz?”. Parecia uma mandioca, mas era de casca branca e bem menor. Ninguém conhecia. “Alguns chamam de batata-salsa, mas é mais conhecida como mandioquinha. Minha mãe costuma cozinhar com carne, de preferência costela de boi. Fica uma delícia”. Acho que era mesmo, porque pouca coisa não combina, não dá um ótimo cozido  com carne de boi.

                Quem conhece bem o espírito caiçara já imagina as brincadeiras, as troças a partir da tal mandioquinha.  Só sei dizer que, de tanta caçoada, o Tonico até abandonou a empreitada e retornou à sua gente, ao seu lugar. A tal mandioquinha virou farra, sempre tinha alguém puxando ocasião para gostosas risadas. Ainda hoje me lembro de alguns dizeres da minha gente: “O João Grande falou que, de agora em diante, ele só deseja mandioquinha”, “Zetinho diz que mandioquinha tem o tamanho ideal para a prensa dele”, “A viúva Esmeralda agora suspira por uma mandioquinha”,  “Zé Mascate foi pra Santos, se tratar da pneumonia, só volta daqui a três meses. Adivinhem quem vai consolar a mulher nesta safra?”, “Vai mandioquinha aí?”.  E por ai ia a criatividade dos sarristas. Teve gente que até tentou cultivar a novidade, a mandioquinha, mas “a moda não pegou”.  Sabe porquê? Eu digo que a vovó acertou: “É o costume de sempre plantar a mandioca que dá farinha. Essa outra é, mas não é. Só o nome se parece. Também, né, aqui não se cria boi!”.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

ELAS NOS PROTEGEM

Uma das minhas jabuticabeiras (Arquivo JRS)
                         Ao meu amigo Napoleão:

                Quem não se lembra de ao menos de uma árvore marcante em sua vida? Eu desconfio que não me esquecerei de muitas!
                Na minha primeira infância, na Praia do Sapê, no terreiro da Tia Rita Carlota, o que me impressionava era uma nogueira a abrandar a quentura do areião, onde brincávamos. Por ali também, no caminho do rio, um grande cajueiro se sacudia com os nossos corpos (eu, Ana e Mingo). Na casa do Jonas, uma árvore que mamãe chamava de papoula,  estava sempre repleta de flores brancas no começo do dia e rosadas depois. Na área da vovó Martinha, além de cajueiros, jaqueiras e aroeiras, tinha um abacateiro que ficava carregado de frutas vermelhas. Hoje não sei onde encontrar outro igual. Os araçaeiros nem se podia contar! Toda Queimada era infestada!
                Em seguida, indo morar na Praia da Fortaleza, a jabuticabeira era bem na porta da cozinha da vovó Eugênia. Que delícia ficar nas grimpas quando chegava a primavera e os frutos escureciam  o tronco! Outra atração era um mamoeiro, desses bem antigos, cheio de galhos que sempre tinha algum fruto maduro em algum de seus braços. E as laranjeiras (da terra, da China, da Pérsia, mexerica...)!?! Depois, no morro, a sombra na porta da sala era uma frondosa aroeira, onde estirávamos nossas esteiras para as madornas em dia de calor, recebendo a viração de fora que refrescava toda a baía. E que vista de lá! Mar...ilhas...navios deixando rastros de fumaça...canoas com traquetes esbranquiçados chegando na praia... Mas maior atração era um gigantesco tarumã, no caminho do rio! Ele tinha um oco na raiz onde galinhas faziam ninhos, mas que também servia de esconderijo, onde criança se escondia  para dar susto nos passantes. “Buuuuu”.  Na verdade, em cada morro a gente tinha árvores como referência: “A enxada e a foice fica guardada na sapopemba cheia de caraguatás onde fica o ninho de gambá”, “A melhor água é aquela que sai do ciosal, na timbuíba da grota da tia Martinha”, “Já é tempo de dar uma olhada no grande caneveteiro, onde fica a touceira de tucum para tirar coco azedo” etc.
                No Perequê-mirim, o ponto de encontro era na figueira preta, do canto do rancho de canoa do Targino. E volta ao tema as jabuticabeiras (do terreno do velho Hiasa, do Zé Barrigudo, do Licínio Barreto, do Seo Pascoal etc!). Na Enseada, no morro do Dito Henrique, um jatobá se perdia nas alturas, mas jogava para nós e aos bichos suas frutas de polpa em pó. "E aquele cheiro, hein!? Não lembrava chulé?".  Quem nunca comeu? O meu amigo Napoleão preferia as frutas antes de chegarem ao ponto de secura total.

                Agora, nestes dias, dou uma volta sempre no meu quintal para sentir o cheiro da florada...da jabuticabeira, lógico!        
      Essas árvores! Não somos nós que protegemos elas, mas sim, elas quem nos protegem! Alguém duvida?

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

DE ONDE VEM A CHUVA?

Banana cera (ou banana marmelo) do quintal (Arquivo JRS)

                Em outras ocasiões eu já comentei do regime chuvoso de outros tempos no nosso município de Ubatuba. O normal era ter muita água no ano todo, os córregos estavam sempre correndo e eram piscosos. Quando essas águas límpidas passavam pelos terreiros, era a alegria da criação, principalmente dos patos. Dificilmente se via um lugar  – praia, sertão ou bairro – que não tivesse sua vargem, sua área alagada que fornecia taboa, junco, caxeta, traíras, acarás, bagres etc. para o nosso viver, para a nossa existência cultural.
                Pelos caminhos abundavam olhos d’águas, onde saciávamos a sede. Era água cristalina a brotar entre sapê, nos bananais e nos aceiros das roças. Quantos camarões (cafula, tamanqueira, vadio, lagosta listrada etc.) a gente perseguia nesses regatos!?! O Nhonhô Armiro, tomando um caminho na restinga, andava até uma bica e enchia mais de uma vez por dia a sua talha de barro que ficava num canto da cozinha. Eu, criança ainda, mesmo sem sede, toda vez que passava pela sua casa, fazia questão de pegar a caneca de ágata e tomar um gostoso gole daquela água sempre fresca. Dele ouvi pela primeira vez: “A água é a nossa melhor bebida, menino!”.
                Por estes dias, lendo um texto do Antonio Donato Nobre, um renomado pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, me  recordei dos cuidados do Nhonhô com a água nossa de cada dia. “Não quero, crianças, que vocês fiquem passando pela grota da bica. Entenderam?”. O assunto era a água, a ausência de chuvas que está assustando muita gente. De acordo com esse cientista, “a não chegada da umidade amazônica é uma das causas da forte seca na Região Sudeste. O que sustenta esta afirmação é o conteúdo de 200 trabalhos científicos publicados nas melhores revistas científicas”. E continua: “É vital fazer com que os fatos científicos sobre o papel determinante da floresta para o clima amigo e o efeito do desmatamento na geração do clima inóspito cheguem à sociedade e tornem-se conhecimento corrente”.
                O que este cientista disse reforça o que escrevi em outras ocasiões: o modelo dominante de agricultura, de pecuária e de silvicultura (pinus, eucalipto, seringueira...) praticado no país precisa ser revisto. Senão... de que adiantará supersafras, recordes na produção de celulose, de borracha etc. se não houver chuva suficiente para as regiões produtoras?
                Há um déficit de cobertura vegetal e as queimadas estão crescendo no Brasil. Não se forma umidade suficiente em mato ralo, em pastagens e canaviais. Ainda existe o agravante das ilhas de calor - nas cidades e zonas industrializadas -  que impedem a chegada de massas úmidas de outros pontos mais distantes. O resultado só pode ser este: a crise hídrica medonha.
                Por etapa, caso pudesse determinar em lei, eu faria o seguinte: primeiro revisaria o desmatamento desregrado. Depois, retomaria as margens dos rios para garantir o máximo de mata ciliar. Isto a gente pode fazer em nossa cidade!
                Também podemos acusar os destruidores dos nossos rios. São atos criminosos, ainda mais agravantes em tempo de rios secando. Trata-se de incoerência de governos, incoerência de turistas e incoerência de moradores que não valorizam a riqueza da nossa terra.

                Naquele tempo não tão distante, sentado no banquinho da cozinha do Nhonhô Armiro, lá na Praia da Fortaleza, a fala era esta: “Preste reparo no que vou dizer, menino: a chuva vem da água que sobe pro céu. E de onde ela sobe? Sobe das águas que  tem aqui em baixo. Por isso carece de muito zelo tudo isso. As bananeiras ajudam bastante, ajuntam água, sabia?”. E continuava a lição que se repetiu por tantas ocasiões. Eu aprendi assim.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

FILOSOFIA, JUVENTUDE E TIRANIA


               
Canto da Cocanha (Arquivo JRS)

O carcará defronte a Ilhabela (Arquivo JRS)

Morcego desnorteado (Arquivo JRS)

             Foi lendo A República, de Platão, escrito há 2400 anos, que me inspirei para escrever sobre tal tema. Por isso, tudo aquilo que aparecer entre aspas são fragmentos que pertencem à obra desse antigo filósofo grego.

               O que é a tirania? É qualquer governo instituído à margem da legalidade, opressor e cruel. Para Platão, “tirano é o ambicioso que se apresenta como protetor do povo, sendo acolhido para isso”. “Nos primeiros tempos de sua elevação ao poder ele acolhe com sorrisos e gentilezas a todos que encontra, faz-lhes as mais belas promessas em público e em particular, perdoa dívidas, divide as terras com o povo e com os seus validos, trata a todos com benevolência e ternura de pai”. Mais tarde, conquistado o povo, é preciso mantê-lo fiel, “empobrecê-lo com os impostos cobrados de modo que, ocupado diariamente com a própria penúria, não medite em assaltos contra si”. Isto quer dizer que as péssimas condições de trabalho e os baixos salários têm uma função definida na estrutura tirânica: manter a submissão. Porém, sempre aparecerá alguém que fale “livremente sobre o que sucede e que os mais ousados cheguem mesmo a provocar o tirano”. Então, “será necessário, pois, que o tirano se livre deles se quiser reinar em paz e que, sem distinguir amigo de inimigo, afaste a todos os que, por seu mérito, lhe façam sombra”.

               A juventude interessa muito à tirania; é garantia de sua sobrevivência. Por isso é conveniente ao tirano lançar mãos de todos os meios para cooptar essa juventude na manutenção da “realidade da caverna”. Um sistema que sobrevive graças a um baixíssimo nível intelectual, investindo no ponto fraco (ou forte?) da juventude: as paixões que podem fomentar o amor tirânico. Os mais pessimistas dizem que apenas 25% da população brasileira é realmente alfabetizada, capaz de exercer a cidadania. É, pode ser mesmo!
                   De acordo com o filósofo Platão, o amor tirânico é “o amor que preside aos desejos ociosos e apetites pródigos”, “paixões mais fortes coroadas de flores, impregnadas de perfumes, embriagadas de vinhos generosos, cercadas de prazeres dissolutos” que “o nutrem, fomentam e armam com aguilhão de desejo”. Então, “este tirano de almas, escoltado pela demência e pelo furor, sacrifica todos os sentimentos e impulsos honestos e decorosos que ainda lhe sobrevivam no fundo da alma até que, extintos os últimos vestígios de pudor e de temperança, se afunda em uma loucura antes desconhecida”. Pronto! Eis a receita que perpetua a tirania e mata a cidadania!
               Uma vez morta a cidadania, da alma da juventude só brotarão “desejos incontidos e insaciáveis”. Daí, por ambição, “há dissipação dos bens familiares, enganos e furtos”, ou seja, “a juventude recorrerá abertamente à rapina e à violência”. Um espírito assim perdeu a referência do que é essência e do que é aparência. Não sabe sequer distinguir numa propaganda o quanto se manipula a fim de se manter as condições tirânicas. É a lógica tirânica:  a juventude precisa continuar alienada, sem entender os mecanismos traçados por uma mísera porcentagem que vive muito bem a partir de uma estrutura social horrível (muitos na miséria, pouquíssimos no bem bom). “Só quem tem amor e saber” escapa de tal esquema, percebe uma verdade que ultrapassa a das sombras projetadas no fundo da caverna. É por isso que o compadre Chico Lopes não está totalmente errado ao afirmar que: “O sujeito sem-noção é um miserável cultural que alimenta, dá a sua contribuição à tirania, que propaga a degradação ambiental e as questões sociais. E o pior: a sua prole tem nele seu principal exemplo. É por isso que antes nós (Ubatuba) nos identificávamos mais com Fernando de Noronha e agora demos uma guinada para a Baixada Santista, onde a poluição é a regra, parecendo um imbatível buraco negro”. Só quem tem amor e saber escapa de tal esquema, concorda Velho Platão?

sábado, 29 de julho de 2017

A MULHER FANTASMA

         
A casa vai se ruindo (Arquivo JRS)
Olha as marditas aí, gente! (Arquivo JRS)

         A minha amiga Néia, caiçara do pé rachado, mora no mato, no caminho para a cachoeira. Defronte à sua casa tem um terreno grande, uma grande chácara, "quase uma fazenda". Um casal morava lá até pouco tempo, coisa de cinco anos atrás. Eram os caseiros, tomavam conta da propriedade. O dono ninguém conhece. Eram felizes ali, sempre cuidando da plantação e zelando pela limpeza do terreiro. Não tinham filhos. Com o passar do tempo alguma coisa aconteceu entre eles, a mulher começou a beber muito. O marido foi se entristecendo com aquela situação, pois a mulher depois de bêbada enchia a saco de todo mundo, ficava na porta do bar até fechar. Diziam que até batia no companheiro. Ninguém entendia porque ela foi se acabar assim.  "Uma tristeza que dava dó".
         Num dia chuvoso novamente ela encheu a cara até cair. "Tomou o rumo da casa em pandarecos", de acordo com a Néia. "Foi a mardita, né Zé?". A casa deles, feita de pau a pique, era no alto. "Um morrote antes da tiguera". Era uma subida ruim. "Em tempo chuvoso ficava tão liso quanto gudião da costeira". Ela foi subindo, escorregando, subindo, escorregando... de repente escorregou feio e bateu a cabeça numa pedra da beira do caminho. Morreu na hora. Do marido ninguém sabe contar nada. "Não era gente daqui". De lá para cá ninguém mora na casa. Na verdade, ninguém nem passa por aquele caminho. Muitos já viram, na pedra do acidente fatal, um fantasma. Dizem que todas as noites, naquele horário do acidente, a alma dela está por ali. É por isso ninguém mais entrou naquele terreno. Eu resolvi entrar lá por estes dias. Por um tempo fiquei na cozinha e imaginei os muitos momentos do casal ali.  Vi as marcas dos pobres que vão se esvaindo no tempo. Tudo vai se arruinando. É a vida, né?

domingo, 23 de julho de 2017

OLHANDO AS BANDEIRINHAS


          
Cercando tainha no Itaguá -1960 (Arquivo Igawa)
     Ontem, conforme a nossa tradição, chamamos o parentada e fizemos a nossa fogueira no quintal. Agora, olhando as bandeirinhas que tremulam na varanda, retomo uma reflexão que nem é de tanto tempo assim.

               March Bloch e Lucien Febvre, dois importantes estudiosos contemporâneos apelam para que se estude “o homem e todos os seus vestígios, e não somente as grandes personalidades, isto é,  passaram a  considerar toda a produção material e espiritual humana como possibilidade de contato com esse homem do passado”. Assim, após vivenciar mais uma noite em família, dentro de uma tradição, reescrevo a respeito da cultura do pitirão (multirão), da relação de comunhão, de reciprocidade genuína. “É um adjutório que vem desde os mais antigos dessa terra”.

               “Cruzei o Cabo da Boa Esperança”. Fiz favores, recebi favores porque assim aprendi a cultura do pitirão. Neste ideal marquei presença em construções de casas e em roçados de muita gente. “Lembra-se daquela casa, da Dona Irene, na estrada do Monte Valério?”. Era favor que a gente esperava ser retribuído: “Pobre tem de se ajudar”, “Uma mão lava a outra e as duas lavam o rosto”. Agora, pensando em sábias palavras e exemplos de nossos antigos, sei que ajuda é outra coisa. Os velhos caiçaras ensinam que ajuda não se diz, só se sente. Porque, “se uma boa obra (ajuda) se torna pública, ela perde o seu caráter de bondade, de não ter sida feita por outro motivo além do amor à bondade”. Registro isto aqui porque desconfio que, dentre os poucos caiçaras que encontro nos diversos ambientes, quase ninguém recebeu/assimilou tal aspecto. Por quê?
               O advento do turismo e a chegada da televisão coincidem com a vinda dos migrantes em busca de melhores condições de vida. Estes deixaram suas realidades de roças, suas culturas (caipira, sertaneja...); alguns vieram até de outros países. A maioria da população ubatubense se encaixa neste contexto. Quem chega assim, buscando a sobrevivência, dificilmente respeitará a cultura que já se encontra no novo lugar, não vai considerar a sacralidade da terra, do mar, dos rios e dos demais seres. “Farinha pouca meu pirão primeiro”. Acaba se instalando a sociedade de consumidores incapazes de cuidar deste entorno, deste mundo caiçara (interdependência homem-natureza). E o pior: justifica o injustificável (omissão, ganância, egoísmo, perda de sensibilidade dos favores e da ajuda etc.).

               Enfim, ajuda é o que você não vai dizer para ninguém, pois acredita que só à  eternidade diz respeito. Favor é aquilo que você faz esperando retribuição. A frase preferida da vovó Eugênia encerra a prosa: “Que a tua mão direita não saiba o que faz a tua mão esquerda”. A tradição da fogueira é parte dessa cultura em pitirão.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

JARACUÇU AMARELO

Titio e o cará moela em formato de asa (Arquivo JRS)

               Tio Neco é muito querido por nós. Desde pequeno o que muito me impressionou nele foi um pé esquisito, faltando um dedo. “Foi picada de cobra, menino!”. Agora, depois de tantos anos, ele próprio explica:


               Em 1956, quando eu tinha oito anos, fui picado pela cobra. Foi assim: eu fui à roça com o papai [meu avô Estevan], como era costume. Lá chegando, armei a gaiola no lugar que mais tarde o Lúcio [outro tio] morou. Logo estava cheia de tiés. Na volta, pelo caminho da vargem, papai trazia nos ombros um cacho de bananas; eu seguia na frente, distraído, depenando passarinho. Não muito longe de casa, ao atravessar o Rio Ingá, pela baobeira que servia de ponte, bem na cabeceira, eu não vi uma jaracuçu amarelo.  Distraído que estava, pisei em cima da cobra. Aí ela se enrolou até a metade da minha canela e deu duas picadas em cima do pé. Eu a sacudi longe e atravessei a pinguela sem nem saber como consegui. O meu pai largou o cacho de banana, cortou um cambará e matou a cobra. Depois atravessou pela baobeira, viu o pé e a perna inchada. O veneno agia: bateu íngua na hora e inchou. Todas as picadas de borrachudos foram se abrindo e sangrando. Papai voou na pinguela, me carregando e eu chorando, preocupado com injeção (porque todo mundo tinha medo, né?). Bateu nervoso no velho, não conseguia me carregar. Foi correndo na frente em busca de ajuda; eu fui seguindo manquitolando, devagar. Quem me buscou foi o seu pai [Leovigildo] após a notícia.  Na época, o Mané Belo tinha uma carroça, vendia peixe. Alguém foi atrás dele para me levar ao Hipólito, que tinha um armazém no Sertão da Quina e entendia de farmácia, tinha remédio. O seu pai, que capturava cobras para o Instituto Butantan, amontoou as caixas  e meteu fogo nelas. Tudo desapareceu em cinzas.  A mamãe, vendo que demorava o carroceiro, me pôs nas costas e foi me levando para o Sertão. Ao chegar no Morro do Foge, dois quilômetros depois,  se encostou no barranco para tomar um fôlego e retomou a  caminhada. Bem em frente à casa do tio Antônio Amorim, onde é a hoje é a escola [Áurea Moreira Rachou], fomos alcançados pela carroça do Antônio Belo. Assim que chegamos, o Hipólito aplicou duas injeções, depois de fazer um teste nos olhos. Foi uma em cada braço. Nisso eu já estava com febre a variação. O Hipólito foi prender o gado e sofreu uma prensada na mangueira pelo touro reprodutor, quebrando as costelas. Ficamos os dois precisando de socorro.  Já era noite quando uma ambulância veio de Caraguatatuba para nos levar. Não sei se o Hipólito foi logo medicado, mas eu fiquei desprezado no hospital. No dia seguinte, quando o padrinho Antônio foi me visitar, ficou indignado me vendo naquela situação em que eu estava largado num banco do corredor. Ficou bravo.  Arrumou um táxi do Pacheco (Ford 50) e me trouxe para a Ana Cruz, no Sapê, que era enfermeira da prefeitura. Na casa dela eu fiquei quinze dias; o pé foi pretejando. Maria Cruz tinha a minha idade; Clemente era pequeno; João Paulo, o pai, ajudava no desempenho da mulher. Passando por lá o doutor Benedito, vendo a gravidade do caso, o pé gangrenado, imediatamente ordenou para que me levassem para a cidade, ao hospital de Ubatuba, onde fui examinado com mais atenção. Foi determinado o procedimento, mas não fiquei no hospital. Eu, mamãe e padrinho Antônio ficamos instalados na casa da prima Zica [Luzia], no final da rua Cunhambebe, próximo do matadouro. Ali moramos por oito meses.  O padrinho Antônio trabalhou para ajudar nas despesas da casa. A mamãe ajudava em tudo. O médico cortou a pelanca podre desde o pé até o tornozelo. “Começou a funilaria do pé”.  A Ana do Bastião Migué, mulher do Antenor disse assim: “Aí, Maneco, você parece mulher que ganhou nenê!” (Porque precisava de muito pano para enxugar o pé, saía muita água). O doutor Benedito e o enfermeiro Juscelino iam todos os dias para cuidar de mim. Era uma injeção de penicilina todo dia, lavavam o pé com água oxigenada, retiravam uma espécie de geleia que se formava todo dia no local, enchiam de pó antisséptico, tornavam a medicar e enfaixavam.  No total, tomei doze soros de cobra. O ano era 1956. Após a recuperação da carne, nas pontas dos dedos ajuntava um líquido que fedia demais. Quando estava bem cheio, até redondo, uma “boca” aparecia debaixo do dedo que ficou duro, apontando para cima, e vazava. Era um fedor só. Em 1956 passei por uma cirurgia na Santa Casa de São José dos Campos. O dedo foi amputado, nunca mais se formou aquele líquido horrível.

terça-feira, 18 de julho de 2017

CABEÇA, IRMÃO!

Tradição da fogueira (Arquivo JRS)

               Jorge “Cabeça”, filho do tio Izídio Antunes de Sá e da tia Luzia agora está sepultado no Morro do Cemitério, acima da costeira da Maranduba. Há pouco mais de dois meses nos encontramos no ônibus; voltava para a sua casa, no Sertão da Quina. Estava animado para a prova pedestre, prevista para o dia 13 de junho, da subida do Morro de Santo Antônio, em Caraguatatuba. “Ainda ontem treinei com o filho do Mário, viemos correndo desde a Caçandoca até o Sapê. Logo vou completar 71 anos. Acho injusta a minha categoria (acima dos 60 anos): 10 anos faz diferença. Poderia ter uma categoria de 70 anos acima.  Mesmo assim, no ano passado eu fiquei com a terceira colocação.  Você sabe que eu sempre tentei estar em todas. Moderei nos meus vícios; já não bebo muito faz tempo. Agora me dedico mais às minhas corridas”.

               Numa ocasião, quando eu era bem moleque, também escutava uma conversa entre o frei Pio e o comerciante João Pimenta, o “Incréu”, conforme dizia papai. O armazém dele me encantava. Na minha lembrança tinha mais de dez pessoas assistindo e participando da prosa. Jorge, bem jovem ainda, também estava por ali, meio que embalado pela “mardita branquinha”.  Só que prestava bem atenção, balançando de espaço em espaço o vantajoso beiço ou para o lado do frei ou concordando com o comerciante. Em frente era o Largo do Sapê, com vista para o mar e o Porto do Cruzeiro (ao lado da casa da Maria Balio). De repente, cansado do assunto, o Jorge falou: “Quem sou eu para julgar quem tá mais certo ou mais errado?! Entendo quase nada de religião! Mas para mim Deus é um sonho. Um sonho é assim: pode ser interpretado de todo jeito. O Seo João tá certo e o frei Pio também tá certo. Aquilo que o mano Tobias disse acho que não tá errado. Não discordo da opinião do Clóvis. O Calixto deu o seu ponto de vista que é muito interessante. Também tá certo. Um sonho permite tudo. Agora eu vou indo porque a mamãe, a esta altura, já cozinhou a garoupa que o Chico Félix levou. A fome é maior que este papo de religião, entenderam? Sou cabeça, viu? Num assunto desse, assim costuma dizer o papai: ‘A gente usa muitas mentiras bonitas para encobertar as coisas que podem causar vergonha’ Cabeça, né? Cabeça, filho de Cabeça! Cabeça, bicho!”.

               Pelas notícias, A sua morte foi causada por alguém que dirigia bêbado e nem habilitação tinha. Jorge Cabeça, meu primo. Pedreiro. No último dia de vida terminou a casinha de cachorro da dentista. Cabeça, irmão!