domingo, 23 de julho de 2017

OLHANDO AS BANDEIRINHAS


          
Cercando tainha no Itaguá -1960 (Arquivo Igawa)
     Ontem, conforme a nossa tradição, chamamos o parentada e fizemos a nossa fogueira no quintal. Agora, olhando as bandeirinhas que tremulam na varanda, retomo uma reflexão que nem é de tanto tempo assim.

               March Bloch e Lucien Febvre, dois importantes estudiosos contemporâneos apelam para que se estude “o homem e todos os seus vestígios, e não somente as grandes personalidades, isto é,  passaram a  considerar toda a produção material e espiritual humana como possibilidade de contato com esse homem do passado”. Assim, após vivenciar mais uma noite em família, dentro de uma tradição, reescrevo a respeito da cultura do pitirão (multirão), da relação de comunhão, de reciprocidade genuína. “É um adjutório que vem desde os mais antigos dessa terra”.

               “Cruzei o Cabo da Boa Esperança”. Fiz favores, recebi favores porque assim aprendi a cultura do pitirão. Neste ideal marquei presença em construções de casas e em roçados de muita gente. “Lembra-se daquela casa, da Dona Irene, na estrada do Monte Valério?”. Era favor que a gente esperava ser retribuído: “Pobre tem de se ajudar”, “Uma mão lava a outra e as duas lavam o rosto”. Agora, pensando em sábias palavras e exemplos de nossos antigos, sei que ajuda é outra coisa. Os velhos caiçaras ensinam que ajuda não se diz, só se sente. Porque, “se uma boa obra (ajuda) se torna pública, ela perde o seu caráter de bondade, de não ter sida feita por outro motivo além do amor à bondade”. Registro isto aqui porque desconfio que, dentre os poucos caiçaras que encontro nos diversos ambientes, quase ninguém recebeu/assimilou tal aspecto. Por quê?
               O advento do turismo e a chegada da televisão coincidem com a vinda dos migrantes em busca de melhores condições de vida. Estes deixaram suas realidades de roças, suas culturas (caipira, sertaneja...); alguns vieram até de outros países. A maioria da população ubatubense se encaixa neste contexto. Quem chega assim, buscando a sobrevivência, dificilmente respeitará a cultura que já se encontra no novo lugar, não vai considerar a sacralidade da terra, do mar, dos rios e dos demais seres. “Farinha pouca meu pirão primeiro”. Acaba se instalando a sociedade de consumidores incapazes de cuidar deste entorno, deste mundo caiçara (interdependência homem-natureza). E o pior: justifica o injustificável (omissão, ganância, egoísmo, perda de sensibilidade dos favores e da ajuda etc.).

               Enfim, ajuda é o que você não vai dizer para ninguém, pois acredita que só à  eternidade diz respeito. Favor é aquilo que você faz esperando retribuição. A frase preferida da vovó Eugênia encerra a prosa: “Que a tua mão direita não saiba o que faz a tua mão esquerda”. A tradição da fogueira é parte dessa cultura em pitirão.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

JARACUÇU AMARELO

Titio e o cará moela em formato de asa (Arquivo JRS)

               Tio Neco é muito querido por nós. Desde pequeno o que muito me impressionou nele foi um pé esquisito, faltando um dedo. “Foi picada de cobra, menino!”. Agora, depois de tantos anos, ele próprio explica:


               Em 1956, quando eu tinha oito anos, fui picado pela cobra. Foi assim: eu fui à roça com o papai [meu avô Estevan], como era costume. Lá chegando, armei a gaiola no lugar que mais tarde o Lúcio [outro tio] morou. Logo estava cheia de tiés. Na volta, pelo caminho da vargem, papai trazia nos ombros um cacho de bananas; eu seguia na frente, distraído, depenando passarinho. Não muito longe de casa, ao atravessar o Rio Ingá, pela baobeira que servia de ponte, bem na cabeceira, eu não vi uma jaracuçu amarelo.  Distraído que estava, pisei em cima da cobra. Aí ela se enrolou até a metade da minha canela e deu duas picadas em cima do pé. Eu a sacudi longe e atravessei a pinguela sem nem saber como consegui. O meu pai largou o cacho de banana, cortou um cambará e matou a cobra. Depois atravessou pela baobeira, viu o pé e a perna inchada. O veneno agia: bateu íngua na hora e inchou. Todas as picadas de borrachudos foram se abrindo e sangrando. Papai voou na pinguela, me carregando e eu chorando, preocupado com injeção (porque todo mundo tinha medo, né?). Bateu nervoso no velho, não conseguia me carregar. Foi correndo na frente em busca de ajuda; eu fui seguindo manquitolando, devagar. Quem me buscou foi o seu pai [Leovigildo] após a notícia.  Na época, o Mané Belo tinha uma carroça, vendia peixe. Alguém foi atrás dele para me levar ao Hipólito, que tinha um armazém no Sertão da Quina e entendia de farmácia, tinha remédio. O seu pai, que capturava cobras para o Instituto Butantan, amontoou as caixas  e meteu fogo nelas. Tudo desapareceu em cinzas.  A mamãe, vendo que demorava o carroceiro, me pôs nas costas e foi me levando para o Sertão. Ao chegar no Morro do Foge, dois quilômetros depois,  se encostou no barranco para tomar um fôlego e retomou a  caminhada. Bem em frente à casa do tio Antônio Amorim, onde é a hoje é a escola [Áurea Moreira Rachou], fomos alcançados pela carroça do Antônio Belo. Assim que chegamos, o Hipólito aplicou duas injeções, depois de fazer um teste nos olhos. Foi uma em cada braço. Nisso eu já estava com febre a variação. O Hipólito foi prender o gado e sofreu uma prensada na mangueira pelo touro reprodutor, quebrando as costelas. Ficamos os dois precisando de socorro.  Já era noite quando uma ambulância veio de Caraguatatuba para nos levar. Não sei se o Hipólito foi logo medicado, mas eu fiquei desprezado no hospital. No dia seguinte, quando o padrinho Antônio foi me visitar, ficou indignado me vendo naquela situação em que eu estava largado num banco do corredor. Ficou bravo.  Arrumou um táxi do Pacheco (Ford 50) e me trouxe para a Ana Cruz, no Sapê, que era enfermeira da prefeitura. Na casa dela eu fiquei quinze dias; o pé foi pretejando. Maria Cruz tinha a minha idade; Clemente era pequeno; João Paulo, o pai, ajudava no desempenho da mulher. Passando por lá o doutor Benedito, vendo a gravidade do caso, o pé gangrenado, imediatamente ordenou para que me levassem para a cidade, ao hospital de Ubatuba, onde fui examinado com mais atenção. Foi determinado o procedimento, mas não fiquei no hospital. Eu, mamãe e padrinho Antônio ficamos instalados na casa da prima Zica [Luzia], no final da rua Cunhambebe, próximo do matadouro. Ali moramos por oito meses.  O padrinho Antônio trabalhou para ajudar nas despesas da casa. A mamãe ajudava em tudo. O médico cortou a pelanca podre desde o pé até o tornozelo. “Começou a funilaria do pé”.  A Ana do Bastião Migué, mulher do Antenor disse assim: “Aí, Maneco, você parece mulher que ganhou nenê!” (Porque precisava de muito pano para enxugar o pé, saía muita água). O doutor Benedito e o enfermeiro Juscelino iam todos os dias para cuidar de mim. Era uma injeção de penicilina todo dia, lavavam o pé com água oxigenada, retiravam uma espécie de geleia que se formava todo dia no local, enchiam de pó antisséptico, tornavam a medicar e enfaixavam.  No total, tomei doze soros de cobra. O ano era 1956. Após a recuperação da carne, nas pontas dos dedos ajuntava um líquido que fedia demais. Quando estava bem cheio, até redondo, uma “boca” aparecia debaixo do dedo que ficou duro, apontando para cima, e vazava. Era um fedor só. Em 1956 passei por uma cirurgia na Santa Casa de São José dos Campos. O dedo foi amputado, nunca mais se formou aquele líquido horrível.

terça-feira, 18 de julho de 2017

CABEÇA, IRMÃO!

Tradição da fogueira (Arquivo JRS)

               Jorge “Cabeça”, filho do tio Izídio Antunes de Sá e da tia Luzia agora está sepultado no Morro do Cemitério, acima da costeira da Maranduba. Há pouco mais de dois meses nos encontramos no ônibus; voltava para a sua casa, no Sertão da Quina. Estava animado para a prova pedestre, prevista para o dia 13 de junho, da subida do Morro de Santo Antônio, em Caraguatatuba. “Ainda ontem treinei com o filho do Mário, viemos correndo desde a Caçandoca até o Sapê. Logo vou completar 71 anos. Acho injusta a minha categoria (acima dos 60 anos): 10 anos faz diferença. Poderia ter uma categoria de 70 anos acima.  Mesmo assim, no ano passado eu fiquei com a terceira colocação.  Você sabe que eu sempre tentei estar em todas. Moderei nos meus vícios; já não bebo muito faz tempo. Agora me dedico mais às minhas corridas”.

               Numa ocasião, quando eu era bem moleque, também escutava uma conversa entre o frei Pio e o comerciante João Pimenta, o “Incréu”, conforme dizia papai. O armazém dele me encantava. Na minha lembrança tinha mais de dez pessoas assistindo e participando da prosa. Jorge, bem jovem ainda, também estava por ali, meio que embalado pela “mardita branquinha”.  Só que prestava bem atenção, balançando de espaço em espaço o vantajoso beiço ou para o lado do frei ou concordando com o comerciante. Em frente era o Largo do Sapê, com vista para o mar e o Porto do Cruzeiro (ao lado da casa da Maria Balio). De repente, cansado do assunto, o Jorge falou: “Quem sou eu para julgar quem tá mais certo ou mais errado?! Entendo quase nada de religião! Mas para mim Deus é um sonho. Um sonho é assim: pode ser interpretado de todo jeito. O Seo João tá certo e o frei Pio também tá certo. Aquilo que o mano Tobias disse acho que não tá errado. Não discordo da opinião do Clóvis. O Calixto deu o seu ponto de vista que é muito interessante. Também tá certo. Um sonho permite tudo. Agora eu vou indo porque a mamãe, a esta altura, já cozinhou a garoupa que o Chico Félix levou. A fome é maior que este papo de religião, entenderam? Sou cabeça, viu? Num assunto desse, assim costuma dizer o papai: ‘A gente usa muitas mentiras bonitas para encobertar as coisas que podem causar vergonha’ Cabeça, né? Cabeça, filho de Cabeça! Cabeça, bicho!”.

               Pelas notícias, A sua morte foi causada por alguém que dirigia bêbado e nem habilitação tinha. Jorge Cabeça, meu primo. Pedreiro. No último dia de vida terminou a casinha de cachorro da dentista. Cabeça, irmão!

domingo, 9 de julho de 2017

É O PROGRESSO, MEU FILHO!

Puxada de rede (Arquivo ACO)
Garça branca, rio... (Arquivo JRS)

               A partir de 1970, mais ou menos, começamos a escutar sobre ecologia, preservação ambiental, ecodesenvolvimento etc. Passamos a ver com outros olhos as formas de ocupação do espaço, de como íamos jogando um monte de coisas (lixo) na natureza e de que forma usávamos os recursos que nos rodeavam, que faziam parte essencial do espaço caiçara. Passamos a entender que o progresso também fazia estragos. Agora, depois de algumas décadas, creio que a causa ecológica não é uma moda passageira, ela começa nas mínimas atitudes em volta da nossa casa, se alastra para o nosso município e ganha o mundo. Há uma ordem na casa e no mundo. O mundo é a nossa casa: ecologia. Somos cidadãos do mundo!
               Meus avós começavam o dia visitando o tresmalho. Seus apetrechos de pesca eram carregados em balaios que, depois de velhos, iriam servir como lugar para as galinhas se aninharem. Depois, ao perceberem alguma tábua encalhada, trazida pela maré, levavam para casa, iria servir para algo. Até mesmo pregos, caso tivessem, seriam depositados numa cumbuca e aproveitados em alguma ocasião. As linhadas eram desembaraçadas e duravam muito tempo. Os pescados eram consertados  no rio, onde os patos devoravam quase tudo que a gente  não aproveitava, sendo o restante comido por camarões e peixes de água doce. Urubu e garoçá comiam da miuçalha que ficava na praia. Não havia detergente, nem desinfetantes, nem todos esses produtos que usamos em nossos cabelos.  O sabão, desde o de cinza feito pela vó Martinha,  era o rei da limpeza. As vasilhas de barro não exigiam muito, mas as de alumínio eram areadas para brilharem.  Hoje sabemos que tudo era dificultoso, mas na época, conforme as palavras do Seo Zé Pedro, “a vida não tinha dificuldade porque a gente não conhecia facilidade”.

               Um exemplo de aproveitamento que me marcou muito foi me dado por Seo Dito Coimbra, morador do sertãozinho do Perequê-mirim. Ele era morador único dali, sozinho mesmo! Bem mais tarde é que o Miguel da Maria Clarinda foi morar naquele lugar.  A água vinha do morro numa bica de bambu, formava um pequeno charco onde ele cultivava agrião e escorria sem nenhuma pressa para o cercado das criações (pato, galinha...). De lá passava pelos canteiros da horta bem cercada de bambus e escorria para o bananal. A cada dia, exceto nos dias santos e domingos, o Seo Dito saía com uma cesta para vender ou trocar seus produtos. Ainda tenho bem na lembrança o seu andar tranquilo, o seu lugar aprazível. Agora, passando por cada córrego do nosso município, sentindo em muitos deles o cheiro de esgoto que segue para o mar, sinto o quanto é urgente pesar os prós e os contras, de avançar com cuidado, mas avançar mesmo em defesa da natureza! Imagine que tem "gente sabida" defendendo a verticalização, mais esgoto ainda para o nosso mar! "Ah! Depois a gente cobra do governo um tratamento adequado do esgoto!".

               Naquele tempo, meados de 1970, quando veio uma ordem para cortar as árvores que enfeitavam as margens da rodovia, o Seo Dito parou onde eu estava junto ao balaio da rede e disse: “É o progresso, meu filho! Aonde vamos parar?”

               Não chego a ser pessimista, pois, conforme o ditado, “o pessimista é um otimista bem informado”, mas desconfio que, a a partir dos abusos do sem-noção do meu entorno e dos poderosos devastadores da natureza em nível mundial, a política dos pequenos passos não salvará o mundo, mas... sigo fazendo a minha parte.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A CASA

 
Sardinhas (Arquivo JRS)

                  Fui novamente ao Festival de Inverno de Campos do Jordão. Maravilhoso! Nenhuma família deveria deixar de apreciar músicas tão bem executadas! Ao passar pela placa da estrada indicando Renópolis, lembrei-me da Dona Hamako, da Mirtes e do pessoal dela. Foi onde eles cresceram. "Era um tempo muito bom!. A nossa casa foi construída com muito esforço pelos meus pais. No fim do dia, papai tirava as roupas e entrava no ofurô na maior paz". Assim me resumiu a estimada Mirtes (Harumi Honda). Por isso, publico outra lembrança, do Caderno de Hamako:

               A nossa casa era feita de tábuas. Meu pai ia no mato procurar a madeira mais dura para fazer as tábuas. Ele media no comprimento certo para cortar, depois colocava no cavalete mais alto do que a gente, deixando bem firme a madeira. Uma pessoa ficava em cima e outra ficava em baixo. O serrote era bem grande: era um traçador, tinha mais ou menos dois metros de comprimento. O telhado da nossa casa também era de madeira.
           A tábua comum da parede se chama ita, do telhado se chama maça, na medida de 50 centímetros por 15 centímetros de largura. Para pregar a maça, meu pai colocava um monte de pregos na boca, para ficar mais fácil e rápido o trabalho. Tinha dia que meu pai trazia porção de manjuba para comer. O que sobrava era salgado para secar. Era colocado no telhado de maça. Eu subia lá em cima da casa para virar a manjuba. À tarde era para guardar numa cesta. Secava mais ou menos dois dias e estava pronto para fritar, para comer.

               Tinha um senhor, amigo do meu pai, que comia tudo: rabo, cabeça... Depois falava que não tinha comido nada. Era para brincar com a gente.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

LIÇÃO DO DANILO

Matias (Arquivo JRS)

Danilo (Arquivo JRS)
                 
Roda de capoeira no Saco das Bananas (Arquivo JRS)
                                                                                                       
               Há trinta e dois anos nascia Danilo, filho de duas pessoas estimadas desde o tempo de ginásio, caiçaras mesmo! Nove anos depois reencontrei o Danilo vivendo intensamente no Saco das Bananas, aproveitando ao máximo da convivência com os avós Dito Madalena e Constantina, sobretudo na lida do mar e da roça. O amiguinho de reinação dele era o primo Matias.  Matias nos deixou há alguns anos, quando nem tinha vinte anos. Há poucos dias o Danilo também se foi. Deles, além das imagens que registrei, de crianças caiçaras sendo educadas na pequena comunidade (Saco dos Morcegos – Saco das Bananas), guardo algumas lições vividas ou repetidas  naquele tempo. Hoje repasso esta fala do pequeno Danilo:

               “Sabe que eu gosto de viver aqui? A minha casa é lá no morro, mas passo mais tempo perto da casa da minha vó. Eu vou na roça com ela, pesco com o meu avô e com os meus tios. Até de barco já pesquei. Gosto muito disso tudo, mas também adoro as histórias que meu avô conta! Tem de caçadas, de brigas por causa da terra. Sempre ele conta também dos antigos, dos escravos na fazenda. A minha vó sabe muitas histórias de assombração. E ela tem até hoje muito medo de coisas assim. Eu também tenho. Quase nós não vamos na cidade, mas já aprendi muitas histórias de Ubatuba. Sabe que o meu avô é homem corajoso, que não tem medo nem de abelha? De vez em quando ele tira mel para nós, lá de um buraco naquela árvore grande, depois da roça de mandioca. Numa noite ele falou assim, depois de ficar olhando um vaga-lume piscando em cima da mesa da sala: ‘Esse bicho só trabalha de noite. De dia deve ficar dormindo em alguma toca escura, em greta de pedra ou algum tipo de casa. A abelha só trabalha de dia, mas trabalha muito, só falhando em dia de chuva. Quando escurece, elas todas já estão recolhidas na colmeia, bem protegidas. Será que não dá para cruzar vaga-lume com abelha para a gente ver mais mel ainda?’. Nós rimos. Aí a minha vó disse: ‘Ditinho, deixa de falar besteira. Não vê que tudo funciona bem, dá certo porque desde que o mundo é mundo as coisas, os bichos, nós todos somos assim !?!’. E aí, desde aquela noite, eu pensei então que nós somos só mais um ocupante desta Terra, junto com todo tipo de bicho e de mato. Eu passarei por ela e espero deixar boas marcas”.

         Então, para parar por aqui, faço questão de citar o amigo Santiago Bernardes, enriquecido pela convivência junto aos caiçaras da praia do Camburi, em Ubatuba:

Nossos descendentes hoje carregam muitos sangues misturados, mas enquanto houver memórias em nosso sangue eles saberão que a verdade que se conta em livros nunca foi a verdade do que se viveu aqui.



sexta-feira, 23 de junho de 2017

ÁRVORE GENEALÓGICA




















       Mano Mingo, em https://barbatuba.blogspot.com.br/, continua, nas suas poesias, nos falando sempre do ser caiçara. 

O lado luso da minha família,
um certo Antonio, foi condenado a penar
nas perigosas colônias do Brasil por furtar
o coração de quem era proibido roubar.

O lado afro da minha família
estava em uma guerra entre tribos rivais,
um antigo esporte muito popular,
quando foi capturado, vendido para os mouros
e a África não reviu jamais.

O lado bugre da minha família
cruzou há mais de vinte mil anos
o estreito de Bering
na época de Era do Gelo,
não se acostumou com tanto frio,
veio seguindo a rota do sol,
até que chegou ao Rio,
Rio de Janeiro,
tirou o capote de pele de urso polar,
correu para a praia, mergulhou no mar
e se transformou em tupinambá.

Deles herdei esse jeito de escrever poemas.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

HOJE É UM TEXTO (II)

Ponto comercial (Arquivo JRS)

               De repente, chegando como onda em cima de onda, lembranças, saudades e palavras viram um texto. Faz-me lembrar daquela claridade de outros tempos que, depois da cantoria dos galos nas madrugadas, ia penetrando pelos vãos do telhado, juntamente com a algazarra dos passarinhos, deixando da noite passada os temores das fantásticas histórias de assombração e dos personagens encantados que nossos pais nos contavam. 
          Nesse ambiente fui alfabetizado. Minha primeira professora brincava com as palavras: “J-A-C-A é jaca. Ponham um acento agudo no derradeiro A que vai virar jacá, que é um cesto que vocês bem conhecem, para cargas. Tão comum é ver os caipiras descendo ou subindo pelos caminhos de Serra Acima com suas pesadas cargas! Agora vamos desenhar oito jacas. Desenharam? A primeira será jaca A, a segunda será jaca B, a terceira será jaca C, a quarta será jaca D, a quinta será jaca E, a sexta será jaca F, a oitava será....” E todos nós gritávamos: “Jaca H, professora!”. E nesse momento ela anunciava o horário do nosso recreio. Era hora de ir até a bica beber água, brincar e fazer nossas necessidades.   Nessa época, quando as cabeçudas (tainhas) chegavam, sempre tinha algum dos alunos trazendo ova seca para a professora. Que presente bem caiçara!!!

               E quando a professora explicou a importância da cedilha, usando a embalagem de açúcar?! Antes dessa lição eu lia acúcar porque não sabia pra que servia aquela “perninha”, aquele “rabinho” debaixo da letra C. E como estranhei aprender o CA - CO – CU a  partir da lição do cachorro! Depois vi que também se aplicava à lata de leite Mococa, que ficava sobre a mesa da tia Carmelina! Bem mais tarde, o Zé da Nhanhã me disse que foi na lição do cachorro que tinha abandonado a escola, depois da bronca da professora. Foi desse jeito: ele foi chamado à lousa para apontar e repetir as sílabas dessa lição. E foi. “Este é o CA, professora. Este é o CO, professora. Este é o CU, professora. É o CU do cachorro!”. Segundo ele, a sala se transformou numa estrondosa risada. "Ninguém parava de rir, Zezinho!". Por isso, morreu analfabeto o nosso querido Zé da Nhanhã. O dó!

sábado, 17 de junho de 2017

HOJE É UM TEXTO!

Vovó Eugênia, a nossa querida (Arquivo JRS)

Mana Ana, uma guerreira.(Arquivo JRS)
Loira, de olhos verdes: ela mesma! (Arquivo JRS)

               Está longe o meu primeiro contato com o mundo escolar, onde aprendi as primeiras lições na cartilha Caminho Suave. Foi na praia da Fortaleza, na casa da tia Martinha, na pequena sala, onde cada fila de carteiras era uma série. Acho que não chegávamos a vinte alunos. Lá estudavam a parentada (primos, tios...), a mana Ana e eu. Vieram as letras a partir das vogais; brotaram as palavras que deram sentido aos textos. Passei a ler o mundo, no final da década de 1960, com essas ferramentas.
               Vovó Eugênia nunca foi à escola, mas me deslumbrava na leitura do mundo quando nos falava da rosa grená, da rosa menina, da rosa negra, do alecrim, do coentro e da pimenta. Tecia sonhos olhando para os flocos brancos do algodoeiro na porta da cozinha. Se detendo nas raízes esparramadas no terreiro, dizia: “Ficam lá uma por uma semana de sol. A batata ganha mais doce e o inhame perde a baba”. Grande prazer viajar nas suas palavras!
               Numa tarde, bem depois disso, sentado na pedra redonda da porta da sala da casa onde minha vó não mais vivia, tentei sozinho, com as letras, algo parecido como a proeza dela. Escrevi:

               “A lágrima de Cristo, tão esverdeada, alcançou o enripamento de jiçara. De lá, do oitão, joga seus cipós com delicadas flores. A parte de baixo forma um bonito conjunto com as espadas de São Jorge. Tudo é muito bonito, inclusive as veias dos cupins no esteio de jacatirão, mas não causa nenhuma inveja ao cheiro dos jasmins, bem distribuídos no frondoso exemplar verde intenso, próximo da coluna da frente, na alta calçada onde balançávamos as pernas quando pequenos. Era o lugar preferido do Peri, o nosso cachorro vinagre.
               Eu espero nunca me esquecer da imagem da vovó nas vezes que passo por aqui. Um gesto diário dela era dar um gostoso abraço na copada sempre cheirosa do jasmineiro, tal como uma abelha. De vez em quando uma das netas, cheia de carinho, ajeitava uma flor em seu chapéu de palha. Quase sempre era um jasmim que inebriava ao redor. Ela apenas sorria; e, em passos miúdos, continuava os seus afazeres, lendo o mundo como ninguém mais lia”.

               Hoje, não consigo imaginar alguém viver sem ler e sem escrever... Sem registrar este mundo imediato, que sustenta a nossa existência.

               Ah! E aquela bendita luz de lamparina que, além de deixar preto o meu nariz, até assombração gerava nas sombras irrequietas?!? Tudo isso hoje é um texto!

terça-feira, 13 de junho de 2017

A LENDA DA GRUTA DO CURUÇÁ

"Entre o caminho e a prainha fica a Gruta do Curuçá"


O amigo Júlio me enviou a Lenda da Gruta do Curuçá, mas não consegui baixar a foto ilustrativa. Por isso, provisoriamente, vamos aproveitar a imagem de outra ocasião. No ponto I está o Buraco da Dita, no II a Toca de Jagoanharo.
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Mesmo que proibido, devido às crenças e superstições em torno daquele morro e que ali vivia o Boitatá , o menino tocador de flauta e outros curumins, depois de atravessarem a perigosa foz de Yperoig , chegaram à pequena e encantadora prainha do Curuçá . Entre brincadeiras de praia e de mar, Jagoanharo , o menino da flauta, observou um contínuo movimento de árvores e arbustos em certa parte da mata e que dali saia também um som suave. Curioso, convidou seus amigos para ver o que seria aquilo, mas com medo, ninguém o acompanhou. 
Jagoanharo era destemido, entrou na mata e descobriu uma gruta, de onde vinha o vento e o som. Apenas com sua inseparável flauta, dirigiu-se ao interior da caverna guiado por uma fosca luz que vinha de dentro; andou mais de duzentos passos e descobriu que o clarão vinha de cima, por uma brecha larga pela qual se enxergava o topo do morro; o túnel continuava, agora estreito, reluzente e “calçado” com pedras preciosas. Não arriscou em prosseguir, pegou sua flauta e pôs-se a tocar; a acústica maravilhosa fez o som ecoar por todas as brechas do morro, até a aldeia distante ouviu a música do menino. Voltou à praia onde seus amigos já não mais estavam. Andando pela costeira voltou à aldeia, onde seu pai, o índio Coaquira , o esperava com um cipó de timbopeva nas mãos..., mas não contou a ninguém a sua descoberta.
Ao amanhecer de certo dia, tocando sua flauta na praia de Yperoig, o menino pela primeira vez viu a “serpente” de fogo que saiu voando do alto do Curuçá, sumindo no horizonte. Intrigado com tal visão lembrou-se das pequenas chamas que avistara no interior da caverna: -Talvez sejam aquelas pequenas luzes, que juntas, esvoaçaram pela abertura no alto do morro? Pensou o pequeno curumim.
Aproveitou que a aldeia ainda dormia e da pequena canoa despojada na praia, em sua curiosidade e coragem remou até a prainha e mais uma vez entrou na gruta. Daquele ponto onde avistava cintilações de chamas, seguiu engatinhando o estreito túnel, até chegar a um lugar mais confortável, na qual pode ficar de pé; ali descobriu uma carcaça, esqueleto gigante de um animal que nunca tinha visto (provavelmente um Gliptodonte ). Mesmo amedrontado prosseguiu e, a menos de cem passadas sentiu uma corrente de ar mais fresco, o que fez continuar e tão logo se deparar com a “saída” do túnel , uma caverna mais ampla, que despojava a sua frente um exuberante manguezal. Percebeu então que o túnel atravessava todo o morro do Curuçá, pois dali conseguia avistar o majestoso Votuporanga (hoje chamado de Pico do Corcovado).
Diante de intensa mata e imenso manguezal, decidiu voltar; encheu o ajó da flauta com pedras preciosas e iniciou a volta.....
Na aldeia todos se assustaram, viram e ouviram a fúria do Boitatá; a “serpente” de fogo, desta vez chegou a incendiar o topo do Curuçá e, do curumim Jagoanharo, nunca mais se teve notícias, só se ouvia o som de sua flauta.
Talvez, por ser “de cascalho”, o estrondo abalou as estruturas do morro e ocorreu um deslizamento interno, prendendo o menino lá dentro da caverna.
Bem mais tarde, com a chegada dos portugueses e com a presença dos jesuítas José de Anchieta e Manoel da Nóbrega na aldeia de Yperoig, os catequistas também observaram o Boitatá e constantemente o som de uma flauta que vinha do Curuçá; sabendo do fato ocorrido com o pequeno índio e aproveitando o momento festivo da “Paz de Iperoig”, cravaram no alto do morro do Curuçá, uma CRUZ, que teve duas finalidade: firmar o catolicismo na terra Tupinambá e acalmar a “alma da onça”. 
A flauta silenciou, mas depois de algum tempo, voltou a ser ouvida... até hoje.
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Até então, Curuçá, pela característica geológica do local, significava lugar de abundante cascalho, seixo; após o som da flauta e do cruzeiro, Curuçá aderiu também o significado de: “lugar de muita música” e lugar da “Cruz Grande”. Ybyty Curuçá = Morro de cascado - Morro da música - Morro da cruz; hoje, Morro do Curuçá com a Gruta do Curuçá.

domingo, 4 de junho de 2017

NÓS SOMOS OS RAMOS

         
Vô Estevan e vó Martinha (Arquivo JRS)

               Através da minha voz você saberá dos meus avós por parte de pai. Ambos foram gerados na beira do mar, embalados pelo barulho das ondas e assimilando desde cedo o cheiro da maresia. Assim se encorparam para nos sustentar na cultura caiçara. Vovô Estevan nasceu na Caçandoca, bem cedo ficou órfão de mãe. Também não custou muito para a gripe espanhola matar o pai dele. Assim, ele, o irmão e duas irmãs foram criados por outras pessoas da comunidade. Cresceu como pescador-roceiro. Vovó Martinha nasceu no Pulso. Ainda criança já trabalhava no alambique do avô. Logo se fez parteira e se dispôs o tanto que a vida permitiu a ajudar na vinda de crianças ao mundo. Dentre centenas de nascimentos, eu fui um deles.
               Vovó era decidida, tinha um temperamento forte. Com ela as coisas se resolviam andando. Quero dizer que as coisas não a angustiavam, não detinham suas insistentes passadas e seus persistentes falatórios. De todos se fazia amiga. Andava sempre com braçadas de mato, pois conhecia bem as ervas e seus usos.  Algumas orquídeas que tenho foram presentes dela.
               Vovô era mais tranquilo, nos contava histórias fantásticas. Tinha uma habilidade em encaixar as histórias antigas, de outros lugares distantes, no nosso viver caiçara. Assim, a casa da bruxa, na história de João e Maria, era uma casa de farinha com uma cobertura de sapê bem estragada, daquelas que já estava chegando aos quinze anos de serventia. O passarinho que se comunicava com uma princesa era um tié-sangue. O gigante limpava a bunda com bagaço de cana seco. E por aí seguia em suas narrativas. A gente nem piscava para não perder nada das emoções.

               Os momentos dos meus avós, se fosse nesta época do ano, era na apreensão da chegada das cabeçudas (tainhas) e nos festejos aos santos juninos (João, Antônio e Pedro). Somos os ramos dessa raiz que brotou no lagamar! Por isso, ontem, fui ao mercado de peixe com a minha Gal escolher uma tainha. Quatro quilos e meio: é mole?!? Naquele tempo seria a tara do cardume, a tainha maior para doar ao santo, em contribuição com a festa. Agora, o carvão está sendo avivado para... para... para.... Adivinhou?

quarta-feira, 31 de maio de 2017

POEMA TRISTINHO

Minha arte (Arquivo JRS)
O mano Mingo, se inspirando na história da nossa família na Caçandoca, no sofrimento do Tio Roque e de tanta gente que perdeu suas posses devido à ganância imobiliária, escreveu:

POEMA TRISTINHO

Seu Roque da Praia da Caçandoca
foi ao doutor juiz
e disse que não sabia ler,
mas sabia falar
e que sua língua
dizia só a verdade
e que não se fiava em papel
que aceita qualquer mentira.
O bom era assim
falar frente a frente
para o doutor juiz
interrogar suas palavras,
sua boca,
seus olhos
e seus modos.
Que a terra sempre foi sua
e que sendo analfabeto
foi ludibriado,
enganado,
tapeado
para pôr o dedão
na autorização
para abrir a estrada
para melhorar o transporte
das bananas,
das pessoas,
dos pescados
e tomaram toda sua terra
de não ter onde cair morto.
O doutor juiz não teve dó
e decidiu que,
mesmo para analfabeto,
vale o que está escrito.

terça-feira, 23 de maio de 2017

A CURA VEIO DO CHIFRE

Praia (?) do Saco da Ribeira - Foto: Reinaldo Rodrigues
     


Praia do Saco da Ribeira - 1945 (Ubatuba Histórica)


De vez em quando, relendo uns textos antigos, acho por bem divulgá-los. É o caso deste que relata a importância da sabedoria popular, da vida difícil justificando que a necessidade é mãe da criatividade.

            Os mais antigos falam das dificuldades dos “tempos d’antes”. É comum ouvir algo sempre assim, ou parecido com isto: “Antigamente tudo era dificultoso; não tinha estrada. Pra ir por mar dependia do tempo”. Eu fico sempre imaginando a situação quando alguém ficava doente! Talvez fosse por isso que quase todo mundo sabia um monte de remédios caseiros; tinham na memória nomes de plantas, simpatias e outras coisas do gênero. Também havia elementos estranhos, bizarrices no dizer de hoje. Você já imaginou chá feito a partir do cupinzeiro? Ou do picumã e do colar de capiá? E o que dizer do fumo com urina para curar frieiras? Porém, o que mais me intrigava era ver em quase todas as casas, pendurado nas travessas, chifres. Eles eram muito usados: geralmente depois de torrado e raspado, o pó era usado para combater uma série de doenças, principalmente aquelas relacionadas a vermes. Na casa do meu avô Armiro tinha dois: um curtinho, queimado pela beirada; outro novinho, sem uso. Acho que servia como sobressalente, para substituir o primeiro que já estava próximo do fim.  Então, lá vai o causo: 
       Armindo, pescador do lado do Norte, num tempo de mar grosso, precisou vir às pressas na cidade. Além de ter de resolver algumas coisas, tinha um filho adoentado sem que nenhum chá fizesse efeito. Andava pelo centro apressado, cumprimentando os conhecidos e prestando atenção nas novidades. Nisso encontrou um compadre, justamente o padrinho do filho que não passava bem. Foi logo lhe informando:  “Ó compadre Zé Mesquita, foi bom encontrar o senhor! O seu afilhado está muito doente. Ainda agora estou indo para a farmácia do Filhinho para comprar um remédio. Tomara que ele tenha um bom, porque lá em casa, desconfio eu, já se tentou de tudo. A mulher já começa a ficar desesperada!”. O outro, meio sem jeito, se desculpou dizendo, como se devesse alguma coisa:  “Eu devo cortar banana nesta quinzena, mas antes do tempo da tainha eu vou até a vossa casa ver o menino. Por enquanto não posso fazer nada; só rezarei para que Deus olhe por ele, por nós todos”. Despediram-se; cada qual tomando o seu rumo.
            Depois de muitos meses, quando o Zé Mesquita, um bom pedreiro, morador da praia da Fortaleza, até tinha se esquecido do afilhado doente, novamente os dois compadres se encontraram perto da Mercearia Paulista. Era tempo de Festa do Divino, mas a tainha já nem era tanta. O coração da cidade era só enfeite: tudo tinha a cor encarnada e fitas coloridas. Na porta da igreja – a matriz - ficava a guarda da bandeira, onde os devotos paravam para beijar a pombinha, se demorando na admiração dos enfeites do interior do templo.  Dito Bento, consertando bicicletas ali perto, dizia: "É a beijação da pombinha sagrada, onde as pessoas prendem suas fitas. Tem fila o dia inteiro na porta da igreja". Ali se respirava o sagrado. O assunto dos dois compadres sobre a festa do momento logo se esgotou. Então, meio sem jeito, o compadre que morava mais perto da cidade perguntou do afilhado: “O menino está bom, melhorou bem?”. Todo entusiasmado o pescador respondeu:  “Está uma maravilha! Curadinho, com a graça de Deus!”.  “Ainda bem!” – Suspirou o padrinho desnaturado. E continuou:  “Quer dizer que o Filhinho acertou no remédio? Qual é o nome?”. De pronto o Armindo respondeu cheio de satisfação:  “Ah! Não foi o Filhinho não quem indicou o remédio”. Cheio de orgulho arrematou a conversa:  “Eu tirei da cabeça: peguei um chifre, torrei, raspei e dei na água morna para tomar. Foi tomar e curar; uma luz que se acendeu! Não se deve esquecer das coisas dos antigos, dos remédios que eles conheciam!”.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

MEU TIO SALOMÃO

Tio Salomão e Tia Umbelina - Aparecida, 1954 (Arquivo Zamberto)

                EM REVISÃO

sexta-feira, 12 de maio de 2017

LIÇÃO À BEIRA-MAR

O Mano Mingo recorda o nosso tempo, quando aprender as letras foi a grande revolução em nossas vida, depois da herança cultural de tantas gerações entre a serra e o mar. Pelos livros, tantos mundos apareceram em nossas vidas de pequenos caiçaras. Quer mais? Vai ler: barbatuba.blogspot.com.br


























Desde menino,

quando faltava livro em casa,

eu ia ler o céu

deitado na Praia da Fortaleza.

E foi assim que fiquei alfabetizado

no voo da fragata

que percorre meio mundo

no sopro da corrente de ar,

aprendi que a nuvem espinha de peixe

é a vanguarda da frente fria

e assisti muitas vezes o desenho animado

de bichos, pessoas e castelos

que são feitos e desfeitos no céu.

Eu aprendi a viver nas nuvens

desde quando era menino.