sábado, 18 de novembro de 2017

PROSAS AVULSAS



       
Fandango caiçara: isso eu sei que vale a pena! (Arquivo JRS)

            Por estes dias tenho notado vários grupos passando pelo meu bairro e pedindo doações. Quase sempre são grupos de igrejas, pedem para “fazer cesta básica de Natal”,  para “ganhar pontos numa campanha” etc. Regular mesmo, por todo o ano, são aquelas duplas de uma determinada denominação religiosa. A seguir, apresento algumas das prosas que escutei de passagem pelos  meus caminhos. Algumas delas, interessantes, são fragmentos que escutei sem querer, prosas avulsas que fiz questão de registrar seguindo o conselho de Fernando Pessoa: “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
  

               Dona Veridiana atendendo duas senhoras no portão:
               “Ora, de novo vocês?!? É toda semana isso! Não sabem que eu sou católica e que neste momento estou fazendo o almoço? Vocês precisam considerar isso! Vocês me conhecem, sabem da minha correria. Agora me desculpem porque eu tenho mais coisas a fazer”.

               Dona Eurídes foi chamada da rua. Lá de dentro, sem abrir o portão,  perguntou: “Quem tá aí?”. Eram duas mulheres, acompanhadas de duas crianças: “Nós queremos falar sobre Jesus. A senhora pode nos atender?”. Não”. Foi a resposta dessa caiçara, gente dos Barroso. E continuou: “Vocês são quantas?”. Eis  a resposta que veio de fora: “Estamos em quatro: duas adultas  e duas crianças”. Então...” – continuou a humilde caiçara – “conversem entre vocês a respeito de Jesus porque eu ainda tenho muito o que fazer na minha casa; logo logo o meu marido vem da oficina morto de fome e não vai aceitar a  desculpa dessa prosa sobre religião”.

               Da Dona Margarida, esposa do Seo Hildebrando, ao receber duas senhoras no portão, deu os seus motivos porque era presbiteriana e não se conteve na bronca: “Usem o bom senso antes de chegar nas casas dos trabalhadores neste horário! Se vocês não tomarem jeito, logo serão chamados de seguidoras da igreja do arroz queimado!”.


               Agora, o que não me sai da lembrança foi a cena no açougue do Zé Ioiô, no Perequê-mirim, onde o Zé “Canela”, um exímio desossador trabalhava. Naquele tempo qualquer estabelecimento desses tinha um toco de madeira bem resistente, entre o balcão e a geladeira, bem no centro, onde o machado estava  sempre em ação, cortando os ossos do animal abatido, sobretudo as costelas que tanto sucesso faziam na sopa nossa de cada noite de inverno. Então imagine duas distintas pessoas chegando ao balcão, começando a falação, tentando converter o “Canela”, inveterado cachaceiro na época, a seguir  tal religião. Assim foi a cena: com o machado na mão, debruçado sobre o significativo tronco, metido num avental todo ensanguentado, suado, ele esbravejou: “Não me venham com este papo porque eu não sou testemunha de ninguém, nem de mim mesmo! E nem quero ser um dia! Só sei que vou continuar no meu futebol e na minha pinguinha, tá bom?!? Isso eu sei que vale a pena!”. Quem é que iria continuar prosa dessa num momento assim?

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

FEIRA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL - RELATOS (X)

A escola tem um papel importante na nossa formação (Arquivo Ubatuba histórica)

“O LIXO QUE VIRA PAPEL” – Marzi Marques do Valle

               Sou professora do Jardim III, na EMEI  (Escola  Municipal de Educação Infantil) da Estufa I, em Ubatuba. Em janeiro deste ano [1993], após ter participado do Curso de Educação Ambiental realizado pela Fundação Vivendo a Terra, percebi que tinha, através da Educação Ambiental, a oportunidade de realizar um trabalho interdisciplinar ampliando assim os recursos dos quais dispunha como professora. Pondo em prática, desta forma, algumas das ideias que me passaram durante o curso.
               Inicialmente pensei na reciclagem do lixo como um todo, utilizando a sucata como matéria para o desenvolvimento de diversas atividades na pré-escola, recurso com o qual já estava familiarizado. Nesse momento surgiu a primeira dificuldade, que foi pensar no que fazer com o material trazido pelos alunos, porque eles se referiam ao que já estavam trazendo para o trabalho de compostagem orgânica, trabalho do qual eu tinha desistido de fazer, em vista de grande quantidade de alunos, por serem novos para manipular produtos orgânicos e pelos riscos à saúde. Foi a partir daí que resolvi realizar uma atividade com reciclagem de papel, aproveitando as sobras de que dispúnhamos. Estruturei a atividade e me deparei com a necessidade de criar um nome. Assim, nada mais justo do que propor aos próprios alunos que escolhessem um nome, e após uma discussão entre eles, foi sugerido o título “O lixo que vira papel”.
               Definida a estrutura e escolhido o nome para a atividade, iniciamos os trabalhos. Primeiramente era de fundamental importância para o bom desenvolvimento da atividade, e, principalmente para a sua efetividade pedagógica, que fossem apresentados aos alunos a base teórica acerca do tema. Essa fase estava baseada em atividades de discussão e troca de ideias, onde comecei a conversar com a classe sobre a degradação do meio ambiente, o porquê da necessidade da reciclagem do papel para evitar o desmatamento desenfreado, como forma de economia de energia  e matéria prima. Tudo isso com indução, através de algumas perguntas por mim elaboradas. A partir daí, passamos a trabalhar com o processo propriamente dito de reciclagem de papel e, iniciamos as atividades práticas de confecção de papel artesanal. Depois de concluída essa fase, utilizamos o papel produzido para atividades de expressão artística através de registros de desenhos.
               Em função do grande envolvimento e desempenho obtido pela atividade junto aos alunos, firmamos um compromisso de realizar a atividade em uma outra oportunidade, para colocarmos em prática novas ideias e descobrir novidades com muita criatividade.
Conclusão:
               Esta atividade valeu a pena, porque através dela conscientizamos os alunos da importância e necessidade de reciclagem de “lixo”. Também o fato de ter outro professor envolvido ajudou muito, sem contar o prazer de poder passar a experiência para outra pessoa.

Reciclando papel
Material: papel usado; liquidificador; balde; bacia plástica ou tigela; pesos e amido.

Procedimento: 1- Encha o balde com água e coloque o papel picado, deixe de molho por algum tempo e macere o mesmo.   Depois  adicione  uma  colher  de  amido (maisena) para dar liga. 2- centrifugue o material para que ele fique pastoso. 3- Coloque em uma tigela. 4- Introduza a tela na mistura e retire-a com a pasta nivelada. 5- Vire a tela com a pasta em cima de um pano e com outro comece a tirar a água da superfície, pressionando. 6- Retire a tela, os panos e deixe o papel secar ao sol ou em forno moderado. Observação: para se fazer o mesmo trabalho utilizando folhas secas, não é necessário adicionar amido e pode ser feito com folhas aromatizadas para que o papel fique perfumado.

Em tempo: caso de você note algo que esteja ameaçando o nosso meio ambiente em Ubatuba, telefone para a Polícia Militar Ambiental: Fone: 38321397.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

FEIRA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL - RELATOS (IX)


Momentos de aprendizagem fora da sala de aulas (Arquivo JRS)


Retomo a publicar as ações de um grupo de professores na realidade do Litoral Norte Paulista, cujo resultado foi a Primeira Feira de Educação Ambiental, em 1993, na Escola “Capitão Deolindo”, em Ubatuba.

LITERATURA INFANTIL histórias de bichos – Meire Teles

               O trabalho aqui apresentado foi realizado com um grupo de crianças de terceira série da Escola da Divisa (Município de São Sebastião) e seu objetivo era propiciar a aproximação das crianças com os vários tipos de textos literários. A partir da recepção desses textos, foram desenvolvidas diversas atividades, que levavam sempre em conta a sensibilização para o que é específico da linguagem literária. É preciso que se diga que o curso foi dado em horário extra sala, uma vez por semana, durante aproximadamente três meses. O grupo era formado por vinte crianças provenientes de duas salas diferentes.  As atividades abrangiam a linguagem verbal, através da oralidade (debates, leituras, conversas e jogos de encenação) e da escrita (produção de textos) e a linguagem não verbal, através de figuras, desenhos e mímicas.
               A seleção de textos visava dar uma mostra das diversas possibilidades literárias: o conto de fadas, o conto maravilhoso, o poema e as fábulas. A música também foi utilizada e a escolha obedeceu ao critério temático. O tema que amarrava os textos era o mundo dos animais. Dentro desse mundo, o pássaro foi o mais trabalhado. Destacando-se no mundo animal como literatura, destaca-se no mundo das palavras pela forma incomum, pela beleza, pela musicalidade, pelo ritmo, pelo voo...
               Durante as descobertas foram discutidas questões como a relação do homem com o meio, tendo por base o respeito e a integração.

               “O menino é o pai do homem”

               Como professora de língua e literatura eu tenho preocupação especial com a leitura. Penso que o texto, e principalmente o texto literário, tem um importante papel a desempenhar na formação do homem, desde que entendamos que essa formação deva emancipá-lo enquanto sujeito, possibilitando-lhe autonomia e visão crítica do mundo em que vive, colocando-o, assim, em prontidão para, através da práxis, transformar a realidade. Para tanto, é essencial, desde cedo, a criança em contato com a literatura oral e escrita. O trabalho se deu a um tempo com o indivíduo e com o grupo: leitura, reflexão, debate, reflexão, ação, reflexão. A interdisciplinaridade tornou-se viável e a intertextualidade foi garantida pelo trabalho do professor que coordenou o projeto.
               As crianças da Divisa gostaram do curso e os resultados estão registrados em relatórios disponíveis aos interessados. Assim como nós, professores, merecemos muito mais do que ganhamos, eu acredito que as crianças e os jovens merecem muito mais do que livros didáticos. Está em nossas mãos propiciar-lhes o encontro com materiais mais ricos, assim como está em nossas mãos transformar a nossa atual condição.

Bibliografia:
Para professor COELHO, Betty – Contar histórias, uma arte sem idade.
                                      MEIRELES, Cecília – Problemas da Literatura Infantil

Para alunos

POESIA:       A ARCA DE NOÉ – Vinicius de Moraes
                      A TV DA BICHARADA – Sidônio Muralha
                      ISTO OU AQUILO – Cecília Meireles
                      OLHA O BICHO! José Paulo Paes
                      PÉ DE PILÃO – Mário Quintana

PROSA:        A TERRA DOS MENINOS PELADOS – Graciliano Ramos
                     A MULHER QUE MATOU OS PEIXES – Clarice Lispector
                     O MISTÉRIO DO COELHO PENSANTE – Clarice Lispector

                     COMO NASCERAM AS ESTRELAS – Clarice Lispector

domingo, 12 de novembro de 2017

TENTAÇÃO DO HOMEM

Fim da Picada: onde Totonho foi tentado (Arquivo JRS)

               Totonho do Rio Abaixo tinha um olhar bobo,  “com as castanhinhas pequenas nos céus brancos”, parecendo bonzinho. Só parecendo! O jovem da esquina, que nem o conhece há muito tempo, me disse assim:  “Na real, ele se faz de morto para engolir os vivos. É um puta pilantra, sabia?”. Sim, eu sabia. Eu sei!
               Por ter um “caráter enviesado”, conforme expressão da minha saudosa vó Eugênia, um dia Totonho passou por uma crise existencial e se converteu a uma religião evangélica. Parecia um novo homem! Vestia terno e gravata, se pegava com a Bíblia e não perdia um culto da sua igreja. Parecia um homem novo até que um dia foi tentado. Não sei dizer o motivo que o levou a me escolher para contar o seu dilema.



               “Sabe, Zé, que uma noite dessas, após eu sair do templo, senti uma velha tentação: quis ir à ‘Eva’ [zona de meretrício]. Dali mesmo eu telefonei para um táxi. ‘Me leva ao Perequê-açu? O endereço eu vou indicando’.  Conforme o carro rodava, fui tirando o paletó. Deixando-o dobrado, ao lado da Bíblia Sagrada, no banco. O motorista me olhava discretamente pelo retrovisor.  Chegando no ‘fim da picada’, no jundu do Perequê-açu, paguei e pedi o cartão do motorista para o retorno. Sujeito educadíssimo, viu !?! Com o consentimento dele, deixei no assento do carro o terno e a Bíblia. Na entrada hesitei, parecia que eu estava entre duas forças. Adentrei ressabiado, a dona veio me atender. Me indicou uma mesa. Pedi uma guaraná. Em seguida vieram as ‘meninas’, cada uma mais sedutora que outra. Que maravilha! Fui me esquivando, meio que sem jeito. Pedi mais um refrigerante. Uma loirinha se encostava em mim. Troquei de mesa uma vez...mais uma vez... e uma vez mais. Queria pedir uma cachaça, um ‘rabo de galo’. Estava doido para agarrar a menina com tatuagem num ombro, de mamicas enormes!  Nisso veio uma voz na minha cabeça: ‘Não faça isso, Totonho. Não volte a cometer esse pecado’. Então pensei na minha mulher e nos meus filhos... no meu caçula que acabara de nascer. Foi quando tive forças: me levantei, pedi o aparelho no balcão e liguei para que o taxista viesse me buscar. Suando como um desesperado, paguei pelos refrigerantes –dez contos cada, acredita? -  e saí. O pessoal da zona não deve ter entendido nada do que aconteceu. Ou melhor: do que não aconteceu! Aguardei poucos minutos, recebendo aliviado o vento que vinha do mar. O tempo tava virando pra chuva no dia seguinte. No mesmo local que havia embarcado eu desembarquei: perto do nosso local de oração. Novamente paguei e agradeci pelo serviço. De tão atordoado acabei esquecendo a Bíblia e o paletó no carro. Sem ter percebido o fato, permaneci um tempo parado olhando para o céu, pensando na prova que eu passei.  Que provação! As tentações estão no mundo! E eu também estou! Alguns minutos depois um carro parou na guia, a porta se abriu e o motorista muito honrado me entregou os meus pertences. Agradeci-lhe muito pela honestidade. Ainda permaneci ali um tempinho. Voltei para casa e me resignei em esperar o tempo do resguardo, em respeitar a recuperação da minha mulher. Quem me deu forças foi Deus. FOI DEUS!”
               

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

O HOMEM DO SACO

Eu e Avedis (Arquivo JRS)

               Numa distante tarde com pessoas queridas, eu e o amigo Avedis, caiçara do Perequê-açu, conversávamos sobre a simplicidade do nosso tempo de criança, onde a família extensa (avós, pais, tios...) era o eixo principal da nossa educação.  Lembramos de uma história em comum daquele tempo. Assim entramos no tema da educação.
               Educar assustando: eu desconfio que em outros lugares além do nosso existiu  (ou continua existindo) esta metodologia. Eu também escutei a história do Homem do saco! Pelo que nos falavam, era um andarilho. Ninguém sabia de onde vinha nem pra onde ia, mas uma coisa era certa: pegava crianças desobedientes.
               A nossa mãe nos alertava para não andar sozinha ao escurecer. “Um homem velho, com barba grande, fedido ao extremo, passa de vez em quando pegando as crianças que perambulam sozinhas, fora de hora. Ele tem um saco sujo às costas, onde põe as crianças. Depois as leva para um lugar misterioso, que ninguém sabe onde é. Aquelas crianças que ele pega nunca mais voltam para suas casas, desaparecem”.
               Não me lembro se eu tinha muito medo. Acho que não, mas... ao avistar um desconhecido barbudo, eu logo tomava outro rumo, entrava no mato, me escondia. Recentemente um primo me confessou: “Eu sempre tive medo do homem do saco; por isso sempre andava acompanhado por mais alguém, de preferência mais corajoso do que eu. Tudo por causa desse homem do saco que eu nunca vi, mas que talvez exista”.
               Hoje digo que nossas mães estavam nos educando com tal história. Não era muito agradável essa pedagogia assustadora, né? Mas era assim no senso comum do nosso lugar. E a gente foi aprendendo a escolher os momentos mais propícios para sair com tranquilidade de casa, a selecionar as amizades e os lugares onde os riscos eram menores.

               E o meu querido amigo Avedis,  caiçara e frei franciscano -  encerrou a prosa: “Tantas histórias e tantos encantos!”.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

BALAIO DE GATO

Travessia no Castelhanos (Arquivo Rê)

               O meu pessoal antigo usava a expressão “balaio de gato” para dizer que a coisa era confusa, embaraçada, muitas coisas juntas num só espaço, gente de diferentes lugares convivendo juntos etc.
               Em certa ocasião, em meados de 1994, desembarquei à tarde na Ilhabela com destino à casa dos amigos Vera e Pedro Antônio. Do Engenho Velho até o endereço deles tem um bom pedaço de chão para andar, cerca de trinta minutos para não ficar de brincadeira pela estrada de terra. Logo fiz amizade com um caiçara que iria bem mais além, para a praia dos Castelhanos. Seu nome: Décio. Levava umas compras num saco branco, desses de farinha de trigo. Ou seja, tinha uma longa jornada pela frente, iria escurecer antes mesmo que estivesse na metade do caminho. “Eu estou acostumado; sempre atravesso de um lado pro outro”. Sujeito agradável! Gente da gente! E eu, conforme o hábito, fui escutando e especulando. Nem percebi o tempo e a distância. Achei bem interessante a história do Décio.

               “Meus pais sempre fizeram questão de contar as histórias deles, desde os seus antepassados: de onde vieram e como as coisas aconteceram naquela época. Por parte de mãe, meus bisavós eram gente da África e foram trazidos como escravos para o Brasil. Ficaram no Castelhanos após um naufrágio. Hoje são muitos os seus descendentes. Por parte de pai, eram italianos da região de Nápoles, comerciantes que tiveram de vir para cá por causa de guerras na terra deles. Foi aqui na ilha que os meus pais se conheceram, se casaram, tiveram nós (oito filhos) e nunca mais saíram daqui. Castelhanos é um pouco longe de tudo, mas a gente está acostumado a andar por terra e por mar”.

               Me despedi dele com aquela sensação de que nunca mais o veria. Triste, né?!?

                Que balaio de gato, gente!

terça-feira, 7 de novembro de 2017

CARÊNCIA DE SONHOS

Tia Maria Mesquita e neta  (Arquivo Alix)

               A minha saudosa tia Astrogilda, de acordo com o meu pai, morava no morro da praia do Pulso: “A casa do tio Anastácio, pai da tia Astrogilda, era pra cima da barra, no pé do morro. Hoje, a praia do Pulso, o lugar onde me criei, é só casas de ricaços. Lá a gente nem pode entrar”. Essa minha tia, que nasceu tão perto do mar (aproximadamente cinquenta metros), ao morrer habitava o Morro das Moças, bem longe da praia, na rua que já levava o seu nome: Rua Astrogilda da Conceição. Foi uma tia que me marcou muito devido à garra de lutar pelos nossos direitos, pela questão das terras da Caçandoca.
               Tia Maria Mesquita foi outra mulher decisiva em muitos momentos da minha vida. Também nasceu no jundu da praia da Fortaleza. Assim mamãe explicou para nós: “Ali no Canto do Cambiá era a casa do tio Onofre Mesquita, pai da tia Maria que foi esposa do tio Genésio”. Também terminou os seus dias longe da praia, no bairro da Estufa II.
               A tia Maria, assim como a tia Astrogilda, caiçara de outros tempos, tinha muita sensibilidade, percebia as coisas de longe. Um dia, depois de tê-la visitado com um amigo, esta foi a expressão dele: “A sua tia tem uma alma nobre, tem algo divino em si”. Creio que essa percepção decorreu da narrativa da titia a respeito da sua infância, quando havia muita pobreza. Depois, com o advento do turismo, de como era a sua lida como doméstica, tendo de andar a pé todos os dias até a praia Vermelha [distante quatro quilômetros] “para trabalhar na casa do doutor Paulo Sérgio”.
               Entrando numa preocupação dela naqueles dias, continuou a tia Maria:
               “Tem gente que carece de valores. Digo isso porque aqui perto vejo bem isso quase toda noite quando vou dar uma espiada na rua: uma moçada, gente daqui mesmo, até os filhos da comadre Maria, fumando maconha no pé daquele muro ali. Pra quê? Pra quê serve qualquer droga? Digo que é pra provocar ilusão no pobre! Quem é iludido não enxerga aquilo que deveria enxergar, leva vida de ovelha”. Então lhe perguntei se aquilo não seria miséria cultural. E a resposta dela: “Pode ser, Zezinho. Só sei que é carência de valores! Eu já tentei conversar com esses jovens várias vezes, mas eles até dão risada das coisas que falo. Na verdade, os pais dessa juventude, desses jovens, não sonharam eles; foram criados largados, sem nenhum projeto de vida. Como é que posso eu jogar um caroço de milho no cisqueiro, não cuidar e esperar que dê uma bonita espiga?”.
               Nisso me lembrei das palavras do poeta: “Não adianta ao velho ganhar a discussão com os moços; a vida está do lado dos moços”.

               É isso, tia Maria! Bençãos em sua memória é o que desejo!

domingo, 5 de novembro de 2017

NATAL VEM, NATAL VAI.

Tio Maneco e Otávio, foliões de outros tempos (Arquivo Ubatuba Histórica)

               Para falar do Natal atual, preciso falar dos vividos em outros tempos, quando ainda vivia na praia do Sapê. Ao se aproximar o tempo litúrgico do Advento, vovó Martinha, Maria Balio, Livina, Ana Cruz e outras mulheres da comunidade se embrenhavam na restinga, na Queimada, em busca de musgo em diversos tons, de pequenas plantas e de cascas de cigarras para compor o presépio da capela, vizinha da venda do João Pimenta, o “Incréu”, onde hoje se chama Largo do Sapê.
               O presépio era a atração de todas as crianças. Nós ficávamos olhando os bois e carneiros arrumados próximos da manjedoura, cuja cobertura de sapê era um capricho do tio Chico. Naquele tempo eu acreditava que os bichos também recebiam presentes. Afinal, eles ficavam ali paradinhos, contemplando o Menino Jesus por mais de mês. Só sei que a gente sempre recebia algum agrado nessa época do ano. Ah! Também tinha vinho! Nunca soube se era vinho suave ou seco, mas sempre ficava  bem doce, quase melaço, porque mamãe sempre teve o hábito  de adoçar vinho.
               Tempo de Advento era tempo de Folia. A cada noite deveríamos ficar atentos, pois um grupo de cantadores andava a correr as casas cantando a história de Jesus. Na escuridão, sem nenhuma lamparina acesa, da tarimba mesmo eu escutava atentamente cada verso. E como eu admirava a narrativa da aventura de Jesus ao escutar que “bem podia ter nascido em colchão de ouro fino, mas para dar exemplo ao mundo, nasceu pobre o Deus-menino”! Pensava: tal como nós esse Jesus! Só faltava aparecer no dia 25 de dezembro, esganado para comer a macarronada e tomar do vinho adocicado pela mamãe! Ah! E também era capaz de avançar no nosso omelete reforçado com farinha de mandioca! Um pouquinho de tudo... Como não era muito, a gente escutava da mamãe: “Façam regar porque tem de dar pra todo mundo”.

               Natal de hoje tem muitas coisas, mas não era o tudo daquele tempo.

FOLIA NA CADEIA

Antiga cadeia de Ubatuba, na praça Nóbrega (Arquivo Ubatuba histórica)

               Cadeia é lugar triste. O pai do Joaquim Sirvino dizia: “Cadeia não é lugar de homem. Ali a pessoa fica confinada, sem participar da vida comum de todos”. De vez em quando, no meu tempo de criança, eu ouvia a palavra cadeia como sendo lugar de castigo para alguém que cometeu erro grave. Tanto por parte de pai como por parte de mãe eu tive parente que foi inspetor de quarteirão.
               O inspetor de quarteirão era uma autoridade local escolhido por quem era a lei máxima na comarca. Na verdade, o escolhido era um caiçara comum – roceiro-pescador – indicado para “representar a Lei” (a Justiça), resolver os casos mais simples ali mesmo ou encaminhar os casos mais graves (brigas mais violentas, intrigas por terras etc.) para o delegado da cidade. Tio Nelson fala do vovô Armiro, inspetor de quarteirão por vários anos, atravessando o largo, da Fortaleza para o Lázaro, remando com dois detidos por briga feia. “Um na proa, outro na popa e papai no meio, mas cada um com um remo”. Os dois ficaram uns dias na cadeia da praça; vovô teve que romper sozinho o mar na volta.
               Fidêncio e Teotônio escutaram a bronca, varreram o chão e depois foram recolhidos na cela vazia. Na outra se encontrava um dos Mesquita devido arruaça no carnaval. Cansados que estavam, não tardaram a dormir. Logo começaram a sonhar com festa em meio a bonitas toadas, com barulho aumentado cada vez mais. Nisso acordaram. Era um bloco carnavalesco que festejava na praça Nóbrega, com muita gente animada em torno de um boi que cabeceava pra lá e pra cá. Nele estava escrito Boi do Veiga. Tinha gente conhecida dos dois, mas muitos estavam fantasiados. A empolgação era tanta que os dois começaram a se sacudir ao ritmo da marchinha “Velho traz, velho leva”, do compositor caiçara Domingos Anagro. O Mesquita continuava roncando na esteira, num canto da cela, mas os dois logo se soltaram no refrão: “Ratambufe se despede desta tarde de folia/ Subindo a Maria Alves com arco de guatambu/ Velho traz, velho leva com prazer e alegria/ Agora com muita fome só mesmo um prato de angu/ Angu, guatambu... angu, guatambu...Velho traz, velho leva...Velho traz, velho leva enquanto esfria”.

               Após festejarem, cansados até... o soldado de plantão abriu a cela, mostrou as duas vassouras encostadas na parede e deu a seguinte ordem: “Agora vocês dois vão varrer toda a praça, juntar o cisco para depois jantar e dormir. A dona Donata trouxe arroz e peixe frito. Depois que saírem daqui vocês terão quinze dias para acertar as contas com ela, senão... voltam a festejar na cadeia”.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

O VESTIDO DE LOUVARINA

Placa de impressão com estampa floral, da fábrica Cedro & Cachoeira (Imagem da internet)

               Louvarina, conforme costume das antigas famílias caiçaras, recebeu este nome porque nasceu num dia de louvor registrado no calendário cristão. O seu lugar: uma praia distante da cidade. Por ser de família pobre e numerosa, ela cresceu adorando os vestidos que sua mãe costurava. “Eram lindos os meus vestidinhos de chita. Você precisava ver!”. A primeira roupa chique que teve foi comprada assim que começou trabalhar fazendo limpeza na casa de gente rica. Não demorou para encontrar o primeiro amor,  namorar e casar. Os filhos vieram um atrás de outro. Também não demorou a sofrer pelas traições do marido. Suportou todas as dores porque os filhos eram pequenos ainda. "Eu tinha de esperar eles crescerem".
               Veio a separação, o desquite... e uma nova fase começou em sua vida: para dar a volta por cima, Louvarina encomendou lindos vestidos. “Olha ali nos cabides. Não são lindos?”. E, como adorava dançar, viveu inesquecíveis momentos frequentando forrós com amigas.
               A  casa onde morava, num bairro da periferia, era resultado da herança de seus pais; o ex-marido causador de tantas angústias, nem deveria ter parte. O sonho dela? Vender a casa e se mudar para a cidade, onde estão as lojas com lindos vestidos. “É cada um mais bonito que o outro!”. Pude perceber, ao longo do tempo, que a sua ideia fixa era possuir um vestido especial. “Eu ainda hei de encontrar o vestido de ramagem mais bonito que tem. Nesse dia, na nova casa, chamarei todos os filhos e netos para almoçar. Depois, juntos, vamos tirar uma fotografia da nossa família para ficar na parede da sala”. Quando estava a um passo de realizar seu sonho, recebeu a notícia que o ex-marido, mancomunado com um dos filhos, colocou uma barreira, impedindo-a de  negociar a casa.
               Se angustiou... se conformou... Junto com o sonho que morreu veio a sua própria morte. Fui velar Louvarina. Me surpreendi ao encontrá-la vestida com um lindo vestido, cujas ramagens dispensaram as flores que sempre emolduram os defuntos. Estava linda. Uma mocinha chorosa, talvez uma de suas netas, percebeu a minha emoção. “Bonito, né? Foi uma afilhada dela quem o comprou. Só estava esperando chegar o seu aniversário para surpreendê-la. Era sonho dela um vestido assim”. Era mesmo, eu sabia.

               Depois do sepultamento dessa caiçara lutadora, cuja fortaleza sempre admirei, fui remoendo sentimentos e pensando na ética que nos ajuda a estudar as condutas e finalidades do homem enquanto indivíduo. Mas não me demorei nisso, pois ainda estava extasiado pelo vestido da Louvarina. Ah! Que vestido!

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

NOSSOS BALAIOS

     

Papéis usados viram cestaria (Arquivo JRS)
       Acordei com um texto na cabeça, mas me recordei que, no último concurso de crônicas, a amiga Fátima ficou como primeira colocada. Eu já sabia que ela tinha grande probabilidade desse prêmio meses atrás, quando ela me comunicou: "Eu enviei uma crônica para o concurso"!
Parabenizo a todos e aos vencedores pela participação no concurso que leva o meu nome. Eis os premiados:


3° CONCURSO DE CRÔNICA “PROF° JOSÉ RONALDO DOS SANTOS”
1ª colocação
Fátima Aparecida C. de Souza Barbosa dos Santos com a crônica: “VESTIDO”
2ª colocação
Waldir Capucci com a crônica: “FESTEJO NA CADEIA”

3ª colocação
Valquiria Sperandeo com a crônica: “UMA CRÔNICA DE NATAL”

Querida Fátima, não tendo ainda o VESTIDO premiado em mãos, recorro ao seu BALAIO DE SONHOS. Afinal, quem não tem o seu balaio de sonhos?

      BALAIO DE SONHOS

    Minha mãe tinha um balaio de costura feito de taquara e adornado com cipó-imbé. Um trabalho primoroso feito por hábeis mãos de algum artista que nem sabia disso, pois esses trabalhos manuais eram feitos para suprir a necessidade de utensílios domésticos mais sofisticados. Remexer esse balaio era um dos meus passatempos favoritos. Os apetrechos de costura, bordado, crochê, tricô, enfim, todo tipo de aviamento faziam de minha mãe uma mulher prendada. Ainda posso vê-la sentada na mesa da sala costurando numa máquina de costura de mão. Tem uma parecida no museu... Ainda posso sentir o cheiro da goma dos tecidos de algodão comprada por minha avó quando vinha na missa na cidade.
            Eu catava os retalhos e tecidos no chão para costurar roupas para as bonecas de minhas irmãs. No balaio tinha uma caixinha de botões coloridos e em vários formatos. Mas eram as linhas de bordar de várias cores e enfileiradas nas caixas de abrir que faziam de uma roupa sem graça um modelo novo para uma festa. Acho que é o que chamam hoje customização. Mas para minha mãe era um jeito de economizar, reformando uma roupa aqui, outra ali, com criatividade. Afinal, eram tempos bicudos. Não era como é hoje, que existe a facilidade de se adquirir uma coisa e também a facilidade de se descartá-la. Lembro-me de três revistas. Eram figurinos, com modelos e moldes para criança. O detalhe que esses figurinos eram franceses. Ou pelo menos trazia as informações escritas em francês. Quantas vezes eu quase derreti dentro de um vestido todo forrado. Farfalhei por aí com minhas saias rodadas. Mal conseguia correr e brincar dentro de um costume xadrez de lãzinha. Até meu pijama de flanela com estampa de patinhos acompanhava um robe de morim. Até hoje possuo um cachecol bordado pela minha mãe. Mas ela achava que era chique... Estava no figurino.
           Por muito tempo um pano de copa em algodão cru, trazia os riscos de um cozinheiro e sua cozinha impecável que rodou de mão em mão até ser finalizado. Era ali que eu aprendi meus primeiros pontos de bordado. Duas agulhas tricô em madeira foram minhas ferramentas de quebra-cabeça, até aprender o segredo da tricotagem. À vezes comparo que a Emília do sítio do Pica Pau Amarelo tinha uma canastra, e eu tinha o balaio de costura de minha mãe. Um mundo de fantasia. Mil possibilidades de se construir algo que fosse útil e colorido. Via isso no exemplo que minha mãe colocava diante de nós, ela nem percebia isso, ocupada que era com tantos afazeres domésticos.
           As tardes eram ricas em conversas, ensinamentos e costuras. Mesmo trabalhando, minha mãe agregava suas filhas, ocupando-as com a pedagogia que ela conhecia. Um jeito de estar por dentro de tudo que andávamos aprontando. Sutilmente ela jogava um assunto e fazia a gente dissertar sobre ele, em meio a panos, agulhas e linhas. Assim ela sabia com quem estava lidando. A gente acabava se entregando. Aí o bicho pegava. Tardes memoráveis, tardes inesquecíveis.
Outro dia vi a velha tesoura que cortava panos, linhas, ataduras, cabelos e até as roseiras, de bico para baixo dentro de um pote no armário da sala da casa dela. Jazia ali, inútil, velha e preta. Hoje não existe mais esse balaio de costura adornada de imbé, para guardar utensílios. Se existisse era só para guardar lembranças. Agora tudo é descartável. Se quiser roupa nova e só recorrer ao crediário das lojas de departamentos.
         Acho até que as lembranças são feitas de cor, gosto e cheiro. Se isso não existir mais, será o fim da memória poética. A mesma memória poética que dá valor aos trabalhos manuais ensinados pela minha mãe, hoje chamados de artesanato. Um balaio de sonhos que hoje me ajudam a sobreviver.

(Fonte: O GUARUÇÁ)

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

NUNCA IMAGINEI!


                Mesmo que as pessoas desta história não vivam mais, eu sempre os estimei muito. Na verdade, eu continuo guardando os bons momentos que vivi com essa família, na praia do Perequê-mirim. É por isso que não citarei nomes. Na minha memória eles são imortais! Então... eu continuo gostando deles, das coisas boas que vivemos em outros tempos!
                Era uma família feliz. Ela, além dos afazeres domésticos, também faxinava nas casas de turistas. Ele trabalhava de encanador e eletricista, mas era entendido em outros ofícios (enfermagem, relojoeiro...). O menino, super educado, se dava bem com todos da vizinhança. Agora são todos mortos, de doença mesmo!

                Depois de muitos anos encontrei uma amiga que os tínhamos em comum, também vizinha na mesma rua. Os assuntos variaram, variaram... até que chegou na tão estimada família. “Pois é, depois que o marido foi-se embora, deixando- grávida, o (....) gostou dela e a assumiu integralmente, educando com maior empenho aquela criança. Ah! Ainda bem que eu testemunhei o amor entre eles!”. “Eu também!”.  “Que casa agradável era a deles, se lembra?”. "Sempre saíam juntos para as compras na cidade". "Nas festas da capela, e, nos finais de tarde, lá  estavam  eles olhando o mar". "Depois, foram-se um após o outro: primeiro foi o filho, por volta dos vinte anos. A doença agiu muito rápido. Em seguida, o pai que já era idoso...”. “Ele fumava muito!”. “É verdade". "A doença de pulmão o levou". "E a viúva reencontrou um amigo de infância, foram morar juntos, depois se casaram, mas a alegria deles não chegou a durar cinco anos. Ela faleceu nem sei  dizer de qual doença”. “É a vida, né?”. “Ah! Você soube que, um pouco antes de morrer, ela recebeu a visita daquela que havia lhe ‘roubado’ o primeiro marido, pai do seu filho? Pois é, ela veio de Santos e lhe pediu perdão”. “E o marido traidor?”. “Ele não veio, nunca apareceu mais por aqui”. “Você sabia que eu nada sabia dessa história de traição, nem desse perdão?”. “Ah não?!?”.


                Tristeza, né? O Velho Drummond disse num contexto mais ou menos parecido: “Se o inferno existir, este mundo deve ser o vestibular”.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

DESEQUILÍBRIOS

  
Turistas no Perequê-açu-  década de 1960 (Arquivo Ubatuba Histórica)
         Há uma pequena parcela da humanidade que só tem a lucrar com o desequilíbrio emocional das pessoas.
         Quem é desequilibrado  demais sofre muito e causa sofrimentos. Se desfaz de bens, perde amizades e destrói amores. Em última instância, quem lucra com isso são aqueles que conhecem as engrenagens, que são partes vitais deste sistema econômico, possuidor de um espírito capitalista, baseado mais no lucro do que no trabalho. 
          Quando eu nasci, no litoral vicejava a ânsia por lucros a partir da venda das posses. Muitos dos caiçaras acreditavam que suas vidas seriam tranquilas a partir da negociação de suas terras, de construção de casas para aluguel nas temporadas etc. Apenas as comunidades mais afastadas das rodovias, onde o acesso era dificultoso, permaneciam nas suas tradições, mas "com um olho no peixe e outro no gato", propensos às novidades trazidas pelo turismo.  E foi chegando os "tubarões"! E foi chegando a moda dos "tubarões" e dos "tubarõezinhos"! Parte da caiçarada foi engolindo a isca, sonhando ser uma coisa que não estava em suas raízes: viver sem trabalhar, ter vida de turista. Se desfizeram de seus maiores bens, das suas terras, mas não realizaram seu grande sonho. Aos poucos foram vendo que a coisa não era bem assim, que não dava para ser como os ricos. Vieram os sofrimentos que resultaram em vícios. 
            "Legal é beber", dizem alguns. "Um grande barato é curtir uma erva", afirmam outros. "Agora, o máximo é cheirar e ficar doidão", repetem tantos miseráveis no meu cotidiano. Por isso, acho que posso publicar a seguinte contribuição de Eckhart Tolle, em seu livro O poder do Agora: "Todo vício surge de uma recusa inconsciente de encararmos nossos próprios sofrimentos. Todo vício começa no sofrimento e termina nele. Qualquer que seja o vício - álcool, comida, drogas legais ou ilegais, ou mesmo uma pessoa -, ele é um meio que usamos para encobrir o sofrimento. Essa é a razão porque, passada a euforia inicial, existe tanta infelicidade, tanto sofrimento nos relacionamentos íntimos. Eles não causam o sofrimento e a infelicidade. Eles trazem à superfície o sofrimento e a infelicidade que já estão dentro de nós. Todo vício faz isso. Todo vício chega a um ponto em que já não funciona mais para nós e, então, sentimos o sofrimento mais forte do que nunca"

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

ONDE ESTAMOS NÓS?


Tiriba no nosso terreiro (Arquivo JRS)

ONDE ESTAMOS NÓS?
                                            Rabindranath Tagore

Onde estamos nós?
Muito longe, sem luz,
em uma cidade decadente,
abalada em seus alicerces,
em casa desmoronada,
sob o olhar taciturno de milênios,
com o corpo arqueado e a cabeça inclinada,
tremendo diante da cara fria
e do dedo em riste da tirania.
Fomos decapitados
pelas escrituras de mil artigos.
               O corpo hesitante treme
               compondo a sombra
               de suas imaginações.
               No lusco-fusco do entardecer,
               triste em casa,
               o desditoso espírito
               passa a vida
               rodeado de incontáveis medos.
               Vagarosamente,
               com o espírito assustado,
               arrasto-me na poeira,
               rejeitando-te.
Como se nós, sem pai,
vagássemos de trilha em trilha,
sem Deus e sem rei,
por um mundo cheio de medos.


              Escolhi esta poesia de Tagore porque, vendo tantos romeiros caminhando na Via Dutra, na madrugada, em direção à cidade de Aparecida, ela ajuda a entender o fenômeno dos incontáveis medos que nos afligem. É isto o motor principal da busca de tantas pessoas. Eu só gostaria que elas estivessem conscientes do perigo de ir andando pelo acostamento pela principal rodovia deste Brasil.
              Também há grupos de caminhantes que saem de Ubatuba em direção dessa cidade onde, há trezentos anos, os pescadores encontraram, no rio Paraíba, uma imagem de santa, dando início à devoção à Nossa Senhora Aparecida. Os antigos caiçaras faziam questão de, ao menos uma vez na vida, irem até lá para pagar alguma promessa e para passear. Ah! Tem coisa melhor do que passear?!?

              No ano de 1987, o Sr. Mário, frequentador da comunidade católica da Estufa, da capela São Benedito,  deu início a esse evento (ir a pé até Aparecida). A caminhada começava numa noite de quinta-feira, saindo do cruzamento da rua Rio Grande do Sul com a Thomaz Galhardo. Por volta da meia-noite o grupo de poucas pessoas já estava no alto da serra. De lá, seguindo pela antiga fazenda Santa Virgínia, ao clarear do dia  já se encontrava em Catuçaba, um distrito da cidade de São Luiz do Paraitinga. Era só o tempo para um café rápido e em seguida tomar o rumo da cidade de Lagoinha, sempre passando pelas trilhas entre pastos e matas. Ao anoitecer, bem na praça central da cidade, na pensão da dona Nice, um bom banho, uma modesta refeição e um leito para sono até a madrugada era a alegria de todos. Por volta das quatro horas da manhã, depois de um café preparado com muito carinho e dos acertos das contas, era hora de encarar a curta planície até a Serra do Bonfim, onde a parada obrigatória era  a Poça da Onça. Ah! Que água! E, depois de encarar uma manhã toda no chão de terra, subia-se um morro. "É o último, pessoal. Lá de cima a gente avista Aparecida!". Pronto! Alguns até choravam ao avistar a grandiosa obra. Depois era só achar uma pensão para um bom banho, fazer uma refeição e visitar os lugares, as igrejas, fazer umas comprinhas e embarcar no ônibus de volta. Vida de caminhante em meio da mata é outra coisa! Eu fiz esse percurso em três ocasiões. Numa delas éramos apenas quatro pessoas.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

ESPAÇOS DE MEMÓRIAS

Cais do Porto - 1939 - Antônio Gomide

No domingo passado (8 de outubro de 2017) aconteceu uma coisa bonita em Ubatuba: um grupo de maracatu, juntamente com algumas lideranças da igreja católica, realizaram uma cerimônia na praça Nossa Senhora da Paz de Iperoig, onde existia a “devoção aos santos dos pretos”, conforme me disse um dia o saudoso Sabá. Vou republicar um trecho para ajudar a entender esta prosa.

Em Ubatuba só existia a Igreja Matriz, no centro da cidade, mas não era essa atual. [Era na Rua Conceição, numa área que abrangia o Ateneu Ubatubense e antiga Câmara Municipal]. Só que os escravos, todos os pretos, não podiam entrar nela. O que acontecia era de acompanharem seus donos, mas nem pensar em entrar no templo. Só que a negralhada já tinha ficado dependente dos ensinamentos da religião dos brancos e queriam de qualquer modo poder entrar na igreja. Também havia branco piedoso que não se conformava em ver a minha gente sem lugar decente para a devoção. Como fazer isso se o costume religioso dizia que os dois –branco e preto – não podiam se misturar? Para encurtar a conversa,  porque eu não sei os detalhes, acharam a solução: construir uma igreja para os pretos. ‘Era pequena, mas era bonitinha’ dizia a mamãe. Ficava também no centro da cidade, mais perto do rio [Grande]. Hoje não existe mais. Nem eu conheci essa igreja em pé. Hoje, no lugar dela há uma praça [Nossa Senhora da Paz de Iperoig]. É no caminho para a Rampa [área do mercado de peixe], quase chegando no Sobrado do Porto [Casarão da Fundart]. Por volta de 1910, a Igreja de São Benedito, mais conhecida por Igreja dos Pretos, foi demolida. Parte do altar dela, dizem, foi levado para compor aquele bonito altar da Matriz [Exaltação da Santa Cruz]. Depois disso, preto e branco puderam frequentar o mesmo lugar sagrado”.
 
Como é importante recuperar as memórias da nossa gente, da nossa terra! Afinal, os africanos começaram a chegar a partir de 1533 nesta terra chamada Brasil. A historiadora Mary Del Priore repassa que “em carta datada de 3 de março de 1533, Pero de Góis informava que pretendia receber dezessete peças de escravos ‘forros de todos direitos de frete que soe pagar’. [...] Pelo alvará de 29 de março de 1559, o rei fazia mercê àqueles que tinham construído engenhos no Brasil, permitindo-lhes mandar resgatar ao rio do Congo e de lá trazer para cada um dos ditos engenhos até 120 peças de escravos resgatadas às suas custas, os quais virão no navio que o dito feitor (da ilha de São Tomé) lá enviar para trazer escravos”.

Aquela praça merece outras celebrações e um painel histórico ensinando nossa história e os valores do nosso povo (caiçara) que faz parte deste caldo cultural brasileiro!

Ah! Que saudade do Velho Sabá!

terça-feira, 10 de outubro de 2017

NÃO SERÁ ASSIM

Não será assim (Arquivo JRS)

               Tempos atrás avistei na linha do jundu uma flor da minha infância: a palma de Santa Rita. Colhi e plantei no meu exíguo terreiro.
               A palma de Santa Rita era apenas umas hastes, floridas com espigas, nos braços de uma mulher, num quadro que ficava sobre a mesa da vovó Eugênia. “É Santa Rita, meu filho, das causas impossíveis!”. Não fazia muito sentido para mim até no dia em que eu vi aquela quantidade enorme, em diversos tons, colorindo o jardim da vovó. Coisa linda! Mais atraente que as madressilvas e as rosas! Elas brotavam da terra, de uma espécie de cebola (bulbo), ‘batata’ como dizia todo mundo. Numa manhã fui colhê-las sob orientação da vovó: “Pegue a serenga, Zezinho, corte só a espiga, mas bem rente ao chão. Mas tome cuidado para não cortar as folhas! É que as ‘batatas’ precisam delas para continuar crescendo debaixo da terra até quando a gente colher e replantar de novo. Enquanto isso elas vão vegetando”.

               Alguns anos mais tarde eu conheci a praia da Santa Rita. Apenas um morador ocupava todo aquele espaço. Era o Nilson que trabalhava de caseiro do Pirani, um “tubarão”, dono de lojas na capital paulista. Em 1972, “um incêndio no edifício Andraus, deu um enorme prejuízo ao Pirani”. Assim comentavam os simples caiçaras que ficavam sabendo das notícias pelo rádio. Mas voltando ao assunto, o jundu da Santa Rita era um areal com pequenas árvores e muitos arbustos. Ao se aproximar o fim do ano, quando o sol começava a esturricar, num belo dia começavam a despontar entre os capins as palmas de Santa Rita. Essa imagem é a que ficou mais forte na minha memória: a palma de Santa Rita é da praia da Santa Rita! Depois, conhecendo as histórias dos antigos caiçaras daquela praia (da gente da Amada, do Gusto, da Chica do Argemiro...), sabendo das artimanhas para grilarem suas posses, essa flor chamada de palma ganhou mais significado.


               A cada ano elas florescem em algum lugar. Elas me ajudam a recordar histórias. Vou imaginá-las naquele areal que era de todos, mas que hoje está murado, repleto de casarões de veraneio. 

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

BODOQUE CAIÇARA

                
Meu bodoque (Arquivo JRS)

Caiçara bodocando no Ubatumirim em 1974 (Arquivo Olympio)

             Bodoque não é arco de atirar flechas, mas parece, né? É um arco de atirar pedras. Coitados dos passarinhos!

                No meu tempo de criança os caiçaras aproveitavam muito as oportunidades para passarinhar. Era uma ocupação e também fazia parte de nossos hábitos alimentares o consumo de carne de passarinhos. Ainda bem que hoje não precisamos mais disso, nem há essa necessidade cultural (de seguir os passos dos nossos pais e avós caçadores).

                O bodoque era o que podíamos ter, a nossa arma anterior ao estilingue. Matéria-prima básica é madeira. Para a alça da pedra e os separadores das cordas qualquer corda ou embira bastava. Algumas madeiras tinham a preferência na confecção do arco. Por isso nossos olhares sempre estavam atentos à diversidade vegetal de nossas matas, identificava-se facilmente um cafeeiro do mato, uma vareta de cabreuva, um exemplar de marfim etc. De vez em quando até pitangueira e cafeeiro do entorno eram cortados. Na verdade, a gente só queria pau linheiro, madeira que tinha fibras retas, sem caroço para atrapalhar. Tio Tião Armiro era quem mais fazia bodoques na minha infância. E o danado tinha uma ótima pontaria! Hoje, o meu bodoque, presente do estimado Irineu, é feito de guatambu. Fica na parede pendurado; mata a curiosidade de alguns. Esse sim!

                Creio que vale a pena, a título de diversão, retomar a arte dos bodoques e treinar para um campeonato, onde teremos a oportunidade de admirar ótimos atiradores. Certeza mesmo serão as pedradas acertadas na própria mão, pois até acertar o jeito, muitos acidentes acontecem! O meu amigo Napoleão, do interior paulista, disse que lá ele também curtiu muito esse instrumento chamado bodoque.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O MEU LUGAR É LUGAR DE TODOS

Penso, logo... (Imagens da internet)

                Alguém já escreveu que cidadania significa também ter deveres, como os de zelar pelo direito alheio, ter a responsabilidade coletiva pela própria comunidade, participar das decisões, ajudando a construir as regras e cumpri-las.  Agora entenda a situação que eu vivi dias atrás:

                Eu seguia pela ciclovia depois de um período de trabalho, me mantendo à direita conforme regra de trânsito. Já passava das 22 horas. De repente, quase chegando no meu bairro (Ipiranguinha – Ubatuba), eu avisto um grupo se avolumando na minha direção, ocupando todo o espaço, forçando outros ciclistas à modificação de  suas rotas, tendo de sair para a via reservada aos carros. Eram sete bicicletas, alguns carregando crianças. Pela falação, logo reconheço como pessoas religiosas, "evangélicas" talvez (alguns portavam bíblia). O assunto de igreja continuava; não davam nenhum sinal de abrir espaço para quem vinha no outro sentido (no caso, eu). Fui  seguindo em frente. Somente no último instante, quando a trombada parecia inevitável, uma brecha foi aberta e eu passei. No mesmo instante escutei uma mulher dizendo: “Ó, glória! Jesus te ama!”. Dei risada porque sabia da intenção real da frase, com um palavreado que ela certamente sabia usar muito bem. Quanta hipocrisia! Que falta de reflexão e de atitude cidadã!


                Desconfio que o Velho Drummond estava certo ao escrever:  “Fala-se tanto, e a ideia de Deus ainda não chegou a constituir uma ideia”. E agora aprendi:  caso volte a viver outra experiência similar, vou logo dizendo “Ó glória...”, mas o verdadeiro sentido você já aprendeu com aquela “piedosa” mulher sem noção alguma de civilidade. Enfim, transgressões assim são comuns, mas continuam sendo reprováveis. O meu lugar é o  lugar de todos. Por isso que cidadania é também participar de maneira ativa da organização político-social e exigir seus direitos.

Em tempo: o que esperam acontecer de trágico para que seja construída uma ciclovia à margem da BR-101, desde a praia Vermelha do Norte até a Toninhas?

domingo, 1 de outubro de 2017

VISSUNGO DA MISTURA

           
Violino (Arquivo JRS)

Ditinho no teclado, Elias no violão e Estevan no violino (Arquivo JRS)


               Desde pequeno eu me ative às diferenças entre as pessoas: pequenas, altas, umas loiras, outras morenas, umas branquelas, outras pretinhas. Meu pai tinha cor de cobre, minha mãe era bem clara. Minha vovó Martinha parecia uma índia. O pai da minha avó Eugênia, cuja mãe foi escrava na praia do Lázaro,  era um negro namorador que deixou uma vasta prole pelo espaço caiçara. Eu tenho irmãos loiros de olhos azuis e de olhos verdes. Tudo muito interessante e curioso, sobretudo quando se é criança. É assim! Resultado de uma colonização, cuja presença de brancos, negros e índios deu nesse resultado, nessa mestiçagem. “Somos assim porque nascemos de raças misturadas”, dizia o finado tio Clemente, cuja mãe era negra, nascida na Ilha do Mar Virado.

               Dessa mestiçagem, vivendo nesse meio ambiente entre a serra e o mar,  nesse  cercado natural, apareceram os caiçaras com tantas particularidades culturais dentro desse caldo cultural brasileiro. Hoje, quero me ater à musicalidade. Os mais antigos sempre estavam cantarolando, sobretudo quando trabalhavam em grupo. O saudoso Sabá, um grande negro, vendedor de peixe da praia da Enseada sempre tinha umas toadas. Uma delas era mais ou menos assim: “Carrego sobre o cangote carga de branco que não pode andar. Quem dera dormir agora e na minha terra acordar”. E me perguntava: “Sabe que é isso? Isso é vissungo, Zezinho! É cantoria da minha gente que foi tirada da África!”.

               Dias atrás fui visitar uns primos músicos, gente que toca desde que eu me entendo por gente. Eu era bem pequeno mesmo! Por volta dos seis anos de idade eu já atravessava um trecho de mato para chegar até a casa do tio Dário, que também era no morro da Fortaleza. Elias, Toninho e Ditinho, os filhos, tocavam instrumentos de cordas. A tia Maria tocava viola, acompanhando o violino choroso do marido. Eu adorava ouvi-los! Na sala, quando não estavam sendo usados, eu admirava cavaquinho, violão, bandolim, violino e viola pendurados na travessa da parede de pau a pique. Agora, com o meu filho no grupo de fandango caiçara, tenho uma tarefa: dar uns acertos nos instrumentos. Me encanto em saber que aquele violino que eu tanto admirava agora está em minha casa, aos cuidados do meu filho! Não é emocionante isso? Acho que até vou compor um vissungo para comemorar!