sábado, 15 de abril de 2017

MÁQUINA DO TEMPO

Lendo para as crianças (Arquivo JRS)


               Hoje comecei o dia lendo Rubem Alves. Tem uma passagem que é muito interessante, sobretudo quando nos identificamos como bons escutadores de histórias que também gostam de contar causos. É assim: “Já houve um tempo em que fui criança [...] O tempo é isto: o poder que faz com que coisas que existem deixem de existir para que outras que não existam, venham a existir [...] Eu posso passear no seu mundo, que existe. Mas eu gostaria que vocês passeassem no mundo da minha meninice, que não existe mais. Acho que vocês gostariam, porque era um mundo tão diferente...”. E, seguindo a narrativa, ele diz que “é preciso embarcar numa Máquina do Tempo”, que ela “está dentro da nossa cabeça”. “Ela se chama imaginação”.  Lindo, né?!?
               Eu gosto de ouvir coisas atuais, mas adoro quando contam situações vivenciadas em outros espaços e em outros tempos. Ah! Quantos causos! E quando eles vinham sob luz bruxuleante, de lamparinas que pareciam estar nos últimos suspiros, nos convidando para dormir?!? Coisa boa demais!!! E quando eram histórias de assombração, que nos arrepiavam por toda a narrativa?!? Pior era depois ter de sair para o terreiro, pois na minha meninice não havia banheiro dentro de casa. A solução era o cisqueiro (“usar o mato”) ou o penico. Olhar aquela escuridão, os salpicados pontos luminosos dos vaga-lumes... escutar os sapos, a nimbuias e toda a passarinhada da noite era alimentar a nossa imaginação medrosa. Mas era preciso se superar diante da pergunta-ordem da mamãe: “Todo mundo já mijou antes de ir pra cama?”.
               Num desses dias, comentando uma situação de medo de escuro, afirmei que as assombrações do meu tempo de criança desapareceram depois que chegou a luz elétrica. A nossa imaginação perdeu força com essa tecnologia, essa “facilidade da vida”. Coitadas delas (das assombrações)! Ah! Mas também apareceu a televisão substituindo os contadores de causos, de histórias que embalavam nossas vivências! E hoje, aparelhos mais modernos enfeitiçam nossas vidas, transferem os prazeres para outras esferas, nos tornam mais egoístas, indiferentes para esse mundo tão próximo, de pessoas tão concretas. A função deles? Criar outras necessidades (comprar computadores e outros equipamentos de última geração,  games etc.), gerar outras dependências que garantam os lucros de uma mínima parcela da população, deixar a autonomia mais longe no horizonte da utopia!

               Ontem encontrei o pai da Tainá, uma ex-aluna que não vejo há mais de dez anos. “Ela se casou, vive na Islândia. Eu tenho uma linda netinha”. E já foi puxando, do celular, uma série de imagens de uma terra muito distante de Ubatuba, onde Tainá nasceu e se criou. E, empolgado, me mostrou desenhos de animais e plantas tropicais: “São trabalhos, aquarelas da Tainá. Ela agora está aqui. Na semana que vem certamente você a verá, pois ela vem nos fazer uma visita”. E a minha Máquina do Tempo é ativada pela menina tranquila, estudante, num tempo que a Internet ainda era para poucos a grande novidade.

sábado, 8 de abril de 2017

OUTROS TEMPOS DA PESCA

1960 - Cercando tainha no canto do Acaraú (Arquivo Igawa)


A PESCA EM UBATUBA 

O amigo Peter, em seu blog (canoadepau.blogspot.com.br) nos apresenta, via estudos do professor Diegues, caiçara de Iguape, coisas interessantes a respeito da pesca e da vida dos caiçaras em Ubatuba, há mais de quarenta anos, quando ainda não existia a rodovia entre Ubatuba e Paraty. Vale a pena ler o texto completo!


Interessante resgatar este documento que apresenta "subsídios interessantes a respeito da evolução da produção pesqueira e das técnicas de captura, das condições de comercialização, das relações de trabalho e participação social".
Embora seja um documento editado pela SUDELPA, a maior parte dos dados apresentados foram coletados pelo Prof. Antonio Carlos Sant'Ana Diegues entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1970 em viagens de campo feitas em Ubatuba.

O que torna este estudo especial é que ele compõe um quadro da atividade pesqueira de Ubatuba em uma época de sensíveis mudanças socioeconômicas e culturais que impactaram fortemente a região. A abordagem do Prof. Diegues revela um panorama completo da percepção dos pescadores sobre questões como o impacto da abertura da BR e outros aspectos relevantes tais como: Histórico da atividade pesqueira em Ubatuba,  Produção por Espécie em Ubatuba, Valor da Produção,  Distribuição dos Pescadores por Praia, Tecnologia e Produção, Participação Social,  Dificuldade e Aspirações, Quadro de produtividade do cerco flutuante, etc.
Tudo isso permite um verdadeiro mergulho na atividade pesqueira de Ubatuba do início dos anos 1970 fornecendo valiosos dados que nos permite avaliar as mudanças e as não mudanças que ocorrem nos dias atuais, meio século depois.

Abaixo um trecho do TEXTO COMPLETO de "A PESCA EM UBATUBA, estudo sócio econômico", Antonio Carlos Sant'Ana Diegues, SUDELPA, 1974. 

"Por outro lado, o contato maior do embarcado com os centros urbanos maiores como Santos e Rio de Janeiro faz com que ele vá absorvendo valores urbanos que se manifestam inicialmente na maneira de se comportar, no modo bizarro de se vestir imitando os jovens da cidade, etc. Nas praias como Picinguaba, no "claro" pode-se observar os jovens embarcados trajando camisas estampadas, calças justas e usando cabelo comprido, fenômeno que não se encontra nos artesanais das praias geograficamente mais isoladas.

Um outro sistema de vinculação com as atividades agrícolas é o uso ou não do forno de fazer farinha de mandioca. Enquanto que 29,5% dos artesanais afirmavam ter o forno, somente 15.5% dos industriais o possuíam. Dentro das sub-categorias a diferenciação é até mais significativa, pois entre os artesanais "donos dos aparelhos de pesca" a porcentagem se elevava a 37.1% enquanto que para os camaradas, não passava de 12.5%. Evidentemente a subcategoria dos mestres de barco é a que mais se identifica com a pesca: nenhum deles exerce outra atividade paralela e não tem forno de farinha.

Em termos de praias é interessante se observar, que a atividade agrícola exercida conjuntamente com a pesca pelos artesanais é mais presente em praias como Ubatumirim, Camburi, ao norte do município. Aliás é Ubatumirim que possui o maior número de agricultores nessa parte norte do município e eles são fornecedores de farinha de mandioca para Picinguaba, núcleo agora mais especializado na pesca da sardinha. Já nas praias mais próximas à cidade as atividades complementares não são agrícolas e sim do ramo de serviços (construções civis, biscates, etc.) como é o caso do Lázaro, Enseada e Maranduba.

Quanto a algumas características gerais da população de pescadores é desnecessário se afirmar que vivendo em sua grande maioria em situação de extrema marginalização, pois seus rendimentos em geral só lhes permitem a sobrevivência, os pescadores apresentam baixos índices de alfabetização".

quinta-feira, 6 de abril de 2017

SANAPISMO

 
No Hotel Picaré (Arquivo JRS)

Galeria desse tempo (Arquivo JRS)


              A amiga Fátima, como sempre, relembra de outros tempos, de outras convivências, quando até doenças eram curadas graças a esse saber herdado de nossos antigos: índios, negros e portugueses que resultaram no ser caiçara.Parabéns mesmo!

Antónho hoje chegou tão aíbo, arribado, que só largou as tralhas de pesca no canto da casa e se bardeou na cama. Tava ca cara tão encarnada como um camarão cozido. Um febrãoooooo, tão grande, mais tão grande, mais tão grande que cuá. E o tremô de frio... Santisso, que que vou fazê com esse hôme anssim, dessa jeito agora, Sinhô?
Matutei com meus caraminguás: - Tor Piza não tá aí na casa dele, no Tinóro. Agora, despois que ele se meteu com a perfeitura, não tem tempo mais pra acudi a gente, nessas horas de tromenta.. Tem o Filhinho... Mais essas hora ir amolar o homem... é capaiz dele sortá a estiranda ni nóis. Pai do céu!
Pensa mulhé de Deus, pensa, pensa só um cadinho, o que vois mecê vai fazê pra cuidá de Antonho, seu marido?
Doutra vez que se assuscedeu-se isso, se assucedeu com nosso filho Bidiquinho.
Bidiquinho, meu filho, foi reiná no rio atrás de camarão pitu ou mandi, sei lá o quê. Só sei que foi lá pras banda da Jundiaquara, e vortou anssim, quente. Tão quente, mais tão quente, que a cara dele parecia aquela abroba moranga, aquela que os pescadô quenta no barco pra jogá guela adentro do titureira. E Bidiquinho agonizava de tanto tremô. A diaba carcumia ele. Ele dilirava. Ele gimia como meu ingenho de cana.
Um anjo de Deus acendeu uma lamparina na minha cachola embananada pelo disispero.
Passei a mão no pote de banha de galinha, espalhei um punhado anssim, lambuzei uma mãozada daquela meléca, num pedaço de papé pardo, um papé que veio de pacote da venda do Reiné Vinherão, aí espalhei bem. Quentei anssim, anssim na boca do fogo. Quando ficô bem quintinho e não pelando, emprastei no peito do Bidiquinho.
Daí cogitei mais ainda. Rifriti: - Acho que vou milhorá isso. Corri na casa de Sinhá Josefa. Cheguei lá arfando: - Sinhá Josefa me acuda, perciso de umas folha de baga, pra mode curá meu filho Bidiquinho.
Então ela disse: - Não é baga, mulhé de Deus, é mamona. Donvirgina Lefreva já não disse pra nóis falá certo? Então é mamona. Aí eu disse: - Que seja, me dê cá a tar mamona.
Cheiguei em casa peguei as folhas, quentei no fogo, moquequei anssim na minha mão e enlheei nas pernas de Bidiquinho meu filho.
Cochei uns trapos velhos em vorta pra não sortá. Gasalhei ele bem com as cuberta. Até a corcha que ganhei de casamento da comadre Ritinha entrou. Uma corcha linda de retalho que só ela sabia fazê. Hum... arrelá comadre Ritinha, que Deus a tenha na sua Santa Glória.
Tudo isso com a janela fechada e no escuro. Pra mode que a luz não estragasse o sirviço.
Bão, ele dormiu, e eu lá velando ele. Uma hora me bateu uma fome de arrancá cipó, de tirá imbé. Fui até a cozinha, passei a mão num rabo de peixe seco, que tava pra cima do fumeiro, espalhei um pouco de brasa do fogão, deitei a bicha ali, e deixei i amolentando.
Coei um café, e mandei pro bucho. Café amargo com uma cuia de farinha e peixe assado. Ô cuá! Que diliça! Vortei pra cabeceira do meu filho, e anssim passei a noite toda. Entre um cochilo e outro, dava uma pitada no meu cachimbo de barro com fumo de rolo pra mode espantá os pirnilongos, que além de dá as rabanadas na cara da gente, ainda sonatava mais que folião da Folia do Divino. Lá pelas tantas o galo Gabrié cantou, me pus de pé. Na cozinha passei um café novo, cozinhei us mangarito e esperei o minino acordá. Acordando que seja, fui tê com ele. Tava bão. Por essa lúiz. O minino tava tinindo de bão.
Retirei os remédios. Seis não acreditam; a folha de baga tava tão seca, mais tão seca que quebrava anssim na mão da gente.
Aí Bidiquinho tomou café, pois tava com uma fome de comê o guardanapo da Santa Polônia, como dizia o padre. Mas não deixei ele brincá lá fora. Falei: - Bidiquinho,meu filho, voismecê vai ficá na cama por treis dias, não vai tomá banho, nem água fria, muito menus pegá vento. Porque se voimecê tomá um gorpe de ar depois desse sanapismo, voismecê fica torto. Anssim foi. 
Ai meu Deus o Antónho! Me dêem licença, vou a casa de Sinhá Josefa buscá folha de baga, ou seja, de mamona pra móde curá o Antónho.

Cada uma! Que mais parecem duas. Inté!

Fonte: O GUARUÇÁ

terça-feira, 4 de abril de 2017

NO TEMPO DE NOSSOS AVÓS

Tio Salvador e a caçoa, na Fortaleza (Arquivo JRS)

Canoas da Florentina (Arquivo JRS)

      Tio Neco, vivendo em seu retiro, passeia por todos os lados, em todos os assuntos. Na sua simplicidade tece comentários de tudo, mas a sua preferência é pelas coisas da nossa terra. Este texto foi indicado pelo mano Mingo.
     Aproveito para mandar um forte abraço ao meu amigo Napoleão, fiel leitor das nossas coisas. 


    O verdadeiro caiçara dos tempos de nossos avós

    Nas primeiras horas de um novo dia, logo de madrugadinha, lá estava ele de pé. Acendia a lamparina, preparava o café que tomava acompanhado com peixe assado e farinha de mandioca. Abastecia a barriga e saía para pescar.
   Preparava o balaio e as linhas de pesca, que naquele tempo era de cordonel. Se deslocava até ao rancho na praia, lugar onde as canoas dos pescadores ficavam guardadas.
   E ali chegando tirava a sua canoa do meio das outras, colocando-a sobre os rolos de madeira e empurrava-a até ao mar.
  Não podia esquecer o puçá. Arrumava os apetrechos na canoa e lançava-a na água até que flutuasse, pulava dentro e ficava em pé para remar até ao camaroeiro (lugar onde os camarões se agrupam). Ali ele jogava o puçá, amarrava o cabo de sustentação no banco da canoa e arrastava por um certo tempo.
 Quando tinha capturado camarões em quantidade suficiente, o pescador remava mar adentro pelo tempo de umas quatro horas e ali começava a pescaria.
 A pequena embarcação era suficiente para dois pescadores, que remavam de um lugar para outro até encontrar o peixe.
 Lá pelo meio-dia, horas dadas pela altura do sol, estavam eles retornando à praia.
 Seus familiares estavam esperando e não ficavam decepcionados. O pescador caiçara sempre voltava com a canoa cheia de peixes. Corvina, bagre, cação, xaréu... enfim, uma infinidade de peixes. Era tempo de fartura, ninguém passava necessidade de alimentos.
  Existia o essencial para a sobrevivência, todos tinham roça de mandioca e faziam farinha, colhiam feijão, plantavam café e tinham bananal nas encostas dos morros. Viviam da terra e do mar que dava o que era preciso para fazer o azul-marinho, a alimentação preferida dos caiçaras.
  Após uma refeição dessas vinha uma sonolência danada. Mal dava tempo de buscar a esteira que estava guardada em pé atrás da porta, jogar na sombra de uma árvore do quintal e dormir a sesta.

  Eta vida boa! Este era o viver do caiçara nos bons tempos.

domingo, 26 de março de 2017

AS PRIMEIRAS MADRES EM UBATUBA

Neide, Ângela e Juventina (?) durante uma feira de artes promovidas pela A.L.A., em 1976. (Arquivo Neide)


               No ano de 1969 eu conheci algumas das Cônegas de Santo Agostinho. Eram as irmãs da A.L.A. (Assistência ao Litoral de Anchieta), religiosas que se dedicaram aos mais pobres em vários pontos do litoral (Apiaí, Guarujá, Cubatão, Ubatuba...). Na verdade, desde 1957, elas encararam a missão em Ubatuba. A referência, o colégio delas, a “Casa das Irmãs”, a A.L.A. propriamente designada era uma edificação na Rua Gastão Madeira, onde hoje estão algumas secretarias da Prefeitura e a Escola “Olga Gil”, bem no centro da cidade. Nesses prédios que você ainda pode apreciar, pois estão servindo à coletividade, são públicos, muitas jovens caiçaras aprenderam lições de civilidade, de enfermagem, de artes etc. A este respeito escreveu uma das protagonistas deste grupo religioso:

               Em janeiro de 1957, duas irmãs foram em audiência ao Governador do Estado de São Paulo, Dr. Jânio da Silva Quadros [...] Ao citarem Ubatuba, onde estavam se instalando, ele se mostrou muito interessado. Por quê?     É que, naqueles dias, notícias de jornal diziam que o Governador havia “dado as costas para o litoral”. Isso foi o bastante para que, com seu conhecido temperamento impulsivo e oportunista, ele se aproveitasse para ligar a obra educativa delas  ao seu governo. Assim estaria respondendo às críticas dos jornais.
               Então propôs a doação de um terreno no município para que a obra fosse em frente. E ali mesmo, diante delas, ligou para o Prefeito de Ubatuba, ordenando-lhe que doasse um terreno à Assistência ao Litoral de Anchieta, a A.L.A., dentro de curto prazo, pois isso seria muito benéfico para a cidade.
               Mas o terreno destinado pelo Prefeito era uma várzea, usada como campo de futebol pela população local, “praça de esportes”. [...] Essa doação foi aprovada pela Câmara Municipal em 21/11/1957 por unanimidade. [...] Em agosto do ano seguinte elas voltam ao Palácio com plantas do novo prédio elaboradas. A construção, tendo passada pela Secretaria da Viação, foi avaliada em cinco milhões. O Governo ficou de estudar a possibilidade de uma ajuda financeira para esse fim. Contudo a A.L.A. nada obteve nesse sentido e a entidade mantenedora arcou com as despesas da construção.

               Além disso, o terreno doado tornou-se um pesadelo por apresentar infiltrações provenientes do lençol freático. Pois havia um córrego subterrâneo nesse local, que além de acarretar um custo muito elevado nas fundações  do prédio, ocasionou posteriormente muitos problemas. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

NOVO UBATUBA HOTEL


               
O novo hotel, onde hoje é o Bardolino (Arquivo Ubatuba Antiga)

Onde hoje é o "Calçadão", avistando o Hotel Fellipe (Arquivo Ubatuba Antiga)


           Sempre é pouco falar mais um pouco de Idalina Graça, a primeira caiçara a escrever a respeito de Ubatuba. Agora, recorrendo ao seu teu texto em TERRA TAMOIA, vamos entender a mudança de endereço de seu hotel. Lembramos que, em meados do século XX, Ubatuba, além do Hotel Ubatuba, tinha o Hotel Fellipe como principal concorrente, na Rua Dona Maria Alves, defronte ao supermercado Paulista atual.

               Iríamos mudar para a nossa nova casa, que seria um hotel em miniatura comparado ao grande sobradão que íamos deixar. A nova residência era em frente à Praça de Nossa Senhora de Iperoig. O juiz de nossa cidade nos mandara desocupar o velho casarão, pois, na sua opinião, o prédio estava prestes a ruir. Foi com pesar que me mudei, embora a nova casa fosse prova de meu trabalho conjugado aos esforços do meu marido, que possuía de sobra o senso de economia, qualidade muito apreciada por mim, que não sabia, nem sei cultivá-la.
               Trabalhamos o dia todo: Albino, eu, tia Rita e mais um rapaz que viera para nos ajudar. Não tive tempo de refletir o que estava se passando em mim. Mas, quando meu marido, feliz da vida, retirou a chave da porta do sobradão, não suportei mais e, abraçando-o, desabafei toda a mágoa que sentia, em fortes soluços.
               - Oh! Idalina! Por que você chora? Nós vamos para a nossa casa, que construímos ajudados por Deus, querida, e lá não há lugar para tristezas. Só se é porque Ubatuba está localizada unicamente no hotel, ou você escondeu algum tesouro no jardim...
               Enquanto ele falava, tia Rita sorria, e eu mais soluçava. Por fim parei e olhei, triste, para ambos, Albino e a fiel companheira de onze anos de trabalho e sacrifícios. E ali estavam os dois, sorridentes, a olhar para mim. Como fazê-los compreender a dor que eu sentia se nem eu mesma sabia o porquê dela? Enfim, um último olhar para a palmeira secular, inclinada pelas lutas constantes contra o vento; à farmácia pequenina e branca do Filhinho, mas acolhedora na grandiosidade de sua missão; um adeus à velha e maravilhosa Matriz, e, em desabalada corrida, fugindo ao abraço amigo do meu marido, procurei meu novo lar. Dois dias depois de instalados, vim a conhecer o casal Alvarenga, meu amigo até a data de hoje, que, alguns anos depois, se tornaria o proprietário daquela casa, onde instalei meu novo hotel. [Hoje é o Bardolino, um restaurante].
               No mesmo dia de nossa mudança, foi com indescritível prazer, como a compensar-me da minha tristeza, que recebi, pelo correio da tarde, a quinta carta de Monteiro Lobato.

               

sábado, 18 de março de 2017

A SOLITÁRIA DE IPEROIG (II)


                   
O primeiro ponto comercial de Idalina e Albino, na esquina do "Teatro" (Arquivo Ubatuba Antiga)


         Por eu sempre ter morado em bairros distantes do centro da cidade, não sou a pessoa indicada para falar de personalidades significativas na vida cultural da cidade. Por isso me aproveito dos escritos dos outros nesse detalhe. Assim, este é o prosseguimento do relato do Seo Filhinho. Algumas vezes tive a felicidade de escutar suas histórias na Praça da Matriz! Na minha adolescência também pude apreciar a amizade que unia esse farmacêutico à Idalina, quando, sentados num banco da mesma praça, onde mantinham seus pontos comerciais, conversavam tranquilamente. 

                   
               Quando o hotel esvaziava – porque raros visitantes procuravam Ubatuba naquele tempo – Idalina lia e escrevia. E escrevendo às ocultas, passava para o papel o rico manancial de sua rica imaginação.
               E quantas vezes, atravessando a praça ia à minha farmácia, que ficava em frente ao hotel, para que eu datilografasse admiráveis páginas literárias, rústicas na forma, mas de conteúdo transbordante de lirismo e poesia.
               - Estou guardando meus escritos – ela me dizia – porque um dia hei de publicá-los.
               E assim aconteceu. Willy Aureli, o sertanista desbravador dos sertões de Goiás e Mato Grosso, o brilhante jornalista paulistano, seu hóspede frequente e seu amigo íntimo e fraterno, rebuscando guloseimas nas prateleiras da cozinha, encontrou seus originais atulhando o repositório de uma lata vazia. Foi, portanto, Willy Aureli quem, burilando-as, levou suas produções às páginas dos jornais da Capital, tornando conhecida aquela que passou a ser denominada “Escritora Iletrada” – a Solitária de Iperoig.
               E nessa condição acercou-se de amigos e admiradores, literatos como ela, entre os quais, além de Willy, destacavam-se Monteiro Lobato, Virgínia Lefevre, Paulo Florençano, Evaldo Dantas, Wladimir Piza, Guisard Filho, Audálio Dantas, Urbano Pereira, Luis Ernesto Kawall, Cesídio Ambrogi, Gentil de Camargo e tantos outros, com os quais manteve estreito e cordial relacionamento.
               Mas a divulgação dos seus escritos e a honrosa plêiade de amigos conquistados não lhe deram plena satisfação. É que a esse tempo seu marido [Albino] apresentava grave infecção num dedo do pé, enfermidade cuja intervenção cirúrgica era inevitável. (...)  Passaram-se meses e Albino faleceu.
               Enviuvando sem descendentes, sentindo-se só, desprendida como sempre, doou seus poucos haveres – sua casa, seus utensílios – aos menos favorecidos, com a preocupação de fazer o bem aos pobres, fracos, desamparados e enfermos, enfim, a todos quantos necessitassem de uma mão amiga ou de uma palavra de consolação.
               Surpreendentemente, com toda essa gama de encargos e preocupações, de trabalhos e sofrimentos, Idalina ainda encontrava momentos para pensar e escrever!
               Com a ajuda de amigos dedicados, entre eles o Mecenas brasileiro, Francisco Matarazzo Sobrinho, editou seu primeiro livro – TERRA TAMOIA -, precisa obra literária, infelizmente esgotada, esperando que amigos remanescentes promovam uma nova edição.

               Posteriormente editou BOM DIA UBATUBA, e dava andamento a uma terceira obra quando a morte traiçoeira veio arrebatá-la do nosso convívio.