sábado, 17 de fevereiro de 2018

O NOSSO CANECO

Muita força à tia Marli, aos filhos e netos

Parede de caiçara (Arquivo JRS)

Partiu, meu tio;
um dia também eu partirei.
Todos partirão.
E o que fica,
além da memória
e das  boas lembranças,
já pertenceu à Terra
E vai retomar o ciclo.
Tudo é vida!

Olhando as artes na minha parede,
vislumbro-o em suas artes,
se preparando para as pescarias
e sempre dando boas gargalhadas.

Combateu o bom combate, 
amou a família 
e as coisas mais simples:
é isto que sustenta a memória,
que garante imortalidade.

Partiu tio Aristides,
o nosso "Caneco", 
nascido na praia do Pulso, 
filho de Estevan e Martinha.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

PÉ NO BAGUARI



As velhas destemidas descansam para sempre (Arquivo JRS)


               Aproveitando uma manhã radiante, juntei meu filho e uns amigos (Jorge, Solange, Mirtes Harumi e Zé Roberto) para uma caminhada. “Coisa rápida, gente. Vamos até a Ponta Grossa, no Farol e no Baguari de Fora”. Foi mesmo! Em cinco horas fizemos o percurso. Saímos bem cedo, quando o sol ainda estava acordando, mas no retorno ele já estava abrasador em nossas cabeças.
               Subidas e descidas são as marcas desse trajeto, bem como uma mata exuberante e um visual sem igual, no Baguari, com seu areal de conchas conservado varrido, graças ao pescador caiçara que ali se encontra. Impossível aquela formação geológica não impressionar qualquer um! Impossível não deixar de se silenciar para o vai e vem das ondas sem recordar dos pescadores daquele lugar: Garné, Zeca, Dito, Jovelino... A vida traz... a vida leva... Tudo se renova enquanto não chega lixo, esgoto... Tudo está a acolher enquanto o patrimônio público está para todos, sem cercas e muros, sem proibições impostas pela mesquinhez humana e pela falsa felicidade gerada pelo poder do dinheiro.
               Lugar bonito, preservado, com marcas da vida dos caiçaras: isto se partilha com amigos! E no caminho: brejaúba, patieiro, taquaruçu, tucum, pindoba, guaco, embiruçu etc. Tudo é abundante. Viva tudo isso! Viva esse pessoal!

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

PRAGA NO MANDIOCAL

Rio Acaraú  em esgoto (Arquivo JRS)


               Aproveitando que “no escuro todo gato é pardo”, Totonho do Rio Abaixo deixa a sua fortaleza em busca de ocasiões propícias, onde o alheio é menos vigiado e dá margens para as suas manobras obscuras. “Tem que ser assim. Você não concorda comigo, pastor? Devagar se vai ao morro e devagar se vai o morro!”.  Uma prosa assim, por celular, ouvida de passagem na Esquina do Pecado, faz-me pensar na fragilidade da continuidade deste ambiente que herdamos em Ubatuba, onde os milhares de anos da Mãe Terra nos permitiram viver com fartura de água, de mata, de animais silvestres e de belezas naturais. Agora, com atitudes espoliadoras, tudo vai se perdendo. Tristeza é admirar as obras que crescem onde era o jundu e ver as sombras dos prédios, os lixos e os esgotos tomarem as praias”.  Isto resultará no nosso fim, confirmando as palavras do índio americano, do Cacique Seattle, em 1855: “Tudo o que acontecer à Terra, acontecerá aos filhos da Terra”. Se continuar desse jeito, promovendo tais escaramuças contra a natureza, terei de arranjar outra internação para o Totonho. "Das pequenas más ações nascem as grandes corrupções".

               Para quem não tem acompanhado a história: na última situação, ao ver um sofá na beira da estrada,  Totonho surtou porque dizia que aquela peça foi protagonista de seus momentos amorosos com “Militona”. Teve de ser internado e esteve aos cuidados do "Doutor Fraude". Agora, de volta ao lar, nem passado uma semana, ele voltou a “pisar na bola”, a fazer coisas que não são favoráveis à sua saúde mental, agravando a sua miséria cultural. Coitado de Totonho!

               Vovô Armiro nos ensinava que saporé é doença causado por um bicho e faz perder o mandiocal se não for cuidado. E arrematava a lição: “Praga tem cura, mas é preciso se empenhar para achar o que está na raiz, causando a praga”. E a gente, caiçaras dependentes desse valioso tubérculo, digo raiz, se esmerava em dar um fim ao bolor branco que apodrecia as bases das vistosas plantas, comprometendo a nossa produção de farinha (e o nosso pirão, lógico!). Neste princípio, me propus a colaborar num plano do "Doutor Fraude" para a cura de Totonho. Hei de localizar a praga em sua raiz! Então... Totonho, na tarimba (cama de pau duro que substitui muito bem o divã), começou falando da “Militona”:

               “Ela é aposentada como policial, mas tem esse apelido desde nova, quando era uma militante de tantas causas. Mas 'Militona' passou a ser ‘Militona’ mesmo, de fato, na época do Sarney. Ela foi Fiscal do Sarney! Sabe daquelas pessoas que saíam pelos estabelecimentos comerciais vendo se os preços seguiam ou não seguiam a tabela do governo federal? Pois é! Foi quando a filha do Velho Cosme passou a se chamar assim. E ela gosta! Daquele tempo vem o nosso namoro. Oficialmente a gente acabou com tudo: ela se casou... eu me casei... mas... você sabe... a carne é fraca... A gente se encontra de vez em quando. Coitado do meu caminhãozinho naquele mundão de areia!”.

               Estou cismando que encontrei uma boa pista, um “carreiro bom”. É aguardar pra ver!

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

ARTE EM TUDO

Bispo e suas obras (Arquivo JRS)



               Em 1986, quando eu construía um trenzinho de tubulão na Creche Francisquinho, avistei um operário da companhia de água fazendo um reparo próximo do portão da creche. Por acaso passei bem perto dele e notei que era uma figura bem singular, dessas que a gente avista só de vez e nunca. Tinha cabelo rastafari por debaixo do capacete. A barba no mesmo estilo tinha umas porcas e arruelas enfeitando. Na ocasião pensei: “Eis aí um negro bem diferente”. Puxei conversa, somente um dedo de prosa porque ambos estavam em serviço. Um olhar manso, curioso, de muita profundidade, num corpo forte que parecia nem fazer força com o peso da picareta. Nome: Fernando Bispo, apaixonado por Ubatuba, natural da capital paulista, criado em Taubaté e vivido em tantas cidades deste Brasil.

               Mais tarde, no ano 2000, eu e Bispo nos encontramos novamente na Escola Cooperativa. Ele era o “Faz tudo” do estabelecimento, mas sempre arranjava um tempo para puxar assuntos filosóficos. Nas artes ele seguia o seu natural: inventando, criando, apresentando peças de teatro dentro de caixa de madeira, onde apenas uma pessoa por vez podia apreciar etc. Todos se encantavam com a figura do Bispo e as suas artes, as suas reflexões e os seus questionamentos.

               “O mundo gira, a Lusitana roda”: é o dizer. Assim, no final do ano passado, ao assistir um show, notei um pintor se empenhando num quadro na lateral do palco. (Ao final foi sorteado entre os presentes). Era o Bispo. Que prazer rever! Que figura! Conversamos rapidamente, me informei do lugar onde estava morando para uma visita. Agora, neste Carnaval, eu fui visitar o casal Fernando Bispo e Maria Nazaré. Encontrei o danado entre obras de arte e outros materiais recolhidos em suas andanças: fazia uma classificação (mola com mola, parafuso com parafuso, arruela com arruela, arame com arame...). Após os abraços e primeiras prosas, logo ele foi me apresentando as obras mais próximas, os jogos, as ideias que se mantém naquela cabeça fervilhante.

               Eu definiria o Fernando Bispo como um artista dos materiais rejeitados. Afinal, nada se perde na sua concepção de mundo, onde a finalidade última (do homem se encontrar consigo mesmo) é conduzida pela arte. Eu garanto que muitas prosas e aprendizados vêm por aí.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

RISOS E CHOROS

Choro colorido (Arquivo JRS)


A Mãe Natureza chorou
Andando na madrugada,
Esbarrando em foliões,
Atentando a tudo.
Entre risos e choros,
Jovens e velhos...
Jovens e crianças...
Jovens e jovens...
Reparou em todos da folia.

A Mãe Natureza buscou:
Uma figura gerada no amor,
Perdida ali naquele meio,
Deslocada de outras aragens.

Busca marejada em angustiantes olhos;
Tantas aparências inúteis em álcool...
Jovens, sobretudo jovens,
Onde não estava o seu filho.
Rostos e restos, farras e lixo...
Belos rostos,
Alegres rostos,
Revoltados rostos,
Enigmáticos rostos...

Dentre tantos rostos,
Não se avistou o rosto tão ansiado,
Do querido filho,
Dessa mãe em procura soluçante.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

EXERCÍCIO DE SE PENSAR

JRS  &  JRS: Muita força sempre,  primo. (Arquivo JRS)


               Tião Félix, da comunidade do Sertão da Quina nos deixou. Muita força aos que ficam, pois a vida continua! Para alguns a morte é muito mais abrangente.“Quem não pensa já tá morto”, repetia o Velho Sabá, caiçara dos antigos da praia da Enseada. Eu concordo.

               Dias atrás, voltaram uns adolescentes na mesma lengalenga de sempre: “Deus existe?”. Ao pensador pouco importa a preocupação de existe ou não existe. Os “fiéis” que resolvam suas dúvidas! O que importa é a ideia, o pensamento. Ele existe, basta! “Só não existe o que não pode ser pensado”, já escreveu o finado Murilo Mendes. É o conceito (aquilo que ocupa um espaço no nosso pensar, com mais significações em uns do que em outros, desconhecido para alguns etc.) que importa no ato de refletir. O pensamento é o cerne da Filosofia.

               Tudo o que está no pensamento humano é fruto da cultura humana. Portanto, é criação humana. Agora, que tem muita gente explorando as “significações transcendentes” de determinados conceitos ninguém pode negar. (Eu conheço alguém que até a família perdeu porque colocou o dízimo à igreja acima de tudo. Você também deve ter exemplos). Afinal, são milênios de aperfeiçoamento desses conceitos. As ideias de hoje têm trajetos históricos, interesses e desinteresses que todos deveriam estar sempre pesquisando. Por exemplo, muitos grupos primitivos não tinham uma divindade maior que não fosse feminina. A mulher, na sua capacidade de dar ao mundo um novo ser, de perpetuar a existência do coletivo, foi  inspiradora dos remotos cultos da Deusa Mãe. Só bem depois, com a solidificação do machismo, ocorre a imposição das divindades masculinas. Entre os judeus aparece o conceito de Deus Pai. Não é por acaso que, em diversas tradições míticas, a mulher está com uma pesada carga: é protagonista  nos males da Terra. Eva e Pandora são alguns dos exemplos.

                Com o passar do tempo, na formação das primeiras civilizações, as lideranças (políticas e religiosas ao mesmo tempo) sentiram a necessidade de aperfeiçoar o sistema. Para melhor dominar e resistir enquanto povo, uma transição do politeísmo para o monoteísmo foi promovida. Persas e egípcios estão entre os que tentaram primeiro. Perceberam que um povo dividido em suas crenças é mais passível de fraquejar, de ser vencido! Então... será que esses povos elegeriam divindades fracas, que não fossem da guerra? Lógico que não! Um deus principal deve de ser um deus guerreiro, bravo mesmo! Considerando os primeiros textos bíblicos, ainda na escrita dos cananeus, língua da qual se originou o atual hebraico, os que se dizem acreditar piamente, com discursos de “papagaio de pirata” ou de fanatismo, deveriam atentar ao mandamento do Decálogo: “Não tomarás o nome de YHWH (Deus) em vão, pois YHWH não considerará impune aquele que tomar seu santo nome em vão”. Então, a questão-base (“Deus existe?”) da lengalenga nem deveria parecer. E coitado daquele que tivesse outros deuses! É evidente: depois da experiência da escravidão no Egito, os hebreus, também chamados de judeus ou israelitas, sabiam o quanto precisavam estar unidos a uma ideia forte, a uma única ideologia. Por isso, nada de ficar adorando bezerro de ouro. “Moisés ficou puto da vida ao descer do morro com as lascas de pedra cheias de escrita e ver aquele bonito boi faiscando de ouro”, nos ensinou um dia titia Maria da Barra, a nossa querida Tia Iaiá. E hoje, quais são esses bezerros de ouro?

          Aos adolescentes do ponto de partida deste: o quê, devido à adoração de vocês, os tornam tão frágeis, dominados pelo sistema, se conformando com uma existência tão alienada, resultando numa espécie de escravidão do Egito atualizada? Pensemos... pensemos... pensemos... Mas como, se essa telinha (ou telona) não deixa? Mas como, se esses discursos assombram e ameaçam? Mas como, se este exercício de se pensar incomoda?

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

UBATUBANOS

         
Julio C. Mendes, o professor e folião Julinho (Imagem da internet)
     Eduardo Souza nos deixou há alguns anos, mas sempre tem alguém a nos recordar desse filho tão singular de Ubatuba, que sempre nos brindava com seus textos n’ O GUARUÇÁ. Hoje, após o texto do Penna, voltei a reler este, de 2012, que agora lhe apresento. Se ainda estivesse entre nós, nesta ocasião (Carnaval) estaria publicando um texto das peripécias do folião Julio, meu amigo desde o primeiro ano ginasial (sexto ano escolar hoje).

         Textos interessantes nos trazem o José Ronaldo [dos Santos] e o Julinho Mendes. O primeiro, sobre a preservação da cultura caiçara, o segundo, uma história do saudoso Lindolpho Alves Pereira, o “Prééééga fogo!”. O Zé Ronaldo argumenta sobre a necessidade da preservação de comunidades caiçaras. Cita a do Puruba, e nos brinda com uma foto do “Seo Antonio”, balseiro aposentado, quero crer, do rio do Puruba, consertando uns peixinhos que, pelo jeito, me parecem paratis barbudos...
         A ideia de preservação da cultura caiçara é complicada quando se tem a sedutora presença de todos esses “avanços” da modernidade, com a excelsa participação do dinheiro na vida das pessoas, com a TV despejando “informações” e modismos nos lares, com todo esse processo vertiginoso de aculturação, acho muito difícil preservar os resíduos dessa cultura. A não ser que houvesse disposição e vontade dos próprios moradores dessas comunidades. Tenho a impressão que algumas comunidades que ainda se interessam em preservar esses valores são as comunidades do Sertão da Quina e a do Itaguá. Talvez, se essa cultura fosse vista como valor econômico, como insumo para a atividade turística. Turismo cultural. Se essas comunidades pudessem ganhar dinheiro com isso, quem sabe motivar-se-iam em preservar essa nossa cultura.
          Quanto ao velho Lindolpho, tenho também uma historinha pra contar. Foi na época em que comecei, já vão lá há uns quarenta anos, a namorar com minha mulher Ângela, neta do irmão do Lindolpho, o Rodolpho. Havia ganhado um pequeno violão da Annik Toth que, na época, fora embora para a França, morar com uns parentes da mãe dela. Esse violãozinho tinha uma corda que eu não conseguia afinar de jeito nenhum. Lembrei-me, então, do Rodolpho e fui até a casa dele, ali onde hoje há uma casa de ração para animais, na antiga Rua Condessa de Vimieiro - hoje, Cel. Ernesto de Oliveira, para regozijo do Nenê Velloso. Encontrei-o na sala, cuja porta era ao rés da rua, aliás, ficava sempre aberta para a rua, estava sentado no sofá, televisão ligada, uma TV preto e branco, em que se colocara na tela um papel celofane, não me lembro se azul ou vermelho. Fui logo entrando. “Rodolpho, tenho um violão aqui que não consigo afinar. Vê se você consegue. É a primeira corda, a de E (mi)”. Ele pegou o violão de minhas mãos e começou a dedilhar. Aí, então, aparece quem?... o Lindolpho, com sua bicicletinha. Viera fazer uma visita. Conversaram um pouco. De repente, o Rodolpho levantou-se, foi num dos aposentos da velha casa e, quando voltou, tinha um outro violão que entregou ao irmão. Começaram a tocar. Rodolpho no solo e Lindolpho fazendo o baixo. Os dois velhos caiçaras ali, na minha frente, dedos grossos e calejados pela idade, tocando improvisadamente, lembrando os tempos de juventude. Rodolpho chegou até a tocar uma valsa composta pelo irmão Adolpho. Famoso compositor ubatubano - Dona Ophelia é quem melhor poderia falar sobre o Adolpho. Uma família de músicos. Aliás, um dos descendentes dessa família é músico famoso: o Renato Teixeira. Uma tarde inesquecível.
(Fonte: O GUARUÇÁ)