sábado, 18 de novembro de 2017

PROSAS AVULSAS



       
Fandango caiçara: isso eu sei que vale a pena! (Arquivo JRS)

            Por estes dias tenho notado vários grupos passando pelo meu bairro e pedindo doações. Quase sempre são grupos de igrejas, pedem para “fazer cesta básica de Natal”,  para “ganhar pontos numa campanha” etc. Regular mesmo, por todo o ano, são aquelas duplas de uma determinada denominação religiosa. A seguir, apresento algumas das prosas que escutei de passagem pelos  meus caminhos. Algumas delas, interessantes, são fragmentos que escutei sem querer, prosas avulsas que fiz questão de registrar seguindo o conselho de Fernando Pessoa: “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
  

               Dona Veridiana atendendo duas senhoras no portão:
               “Ora, de novo vocês?!? É toda semana isso! Não sabem que eu sou católica e que neste momento estou fazendo o almoço? Vocês precisam considerar isso! Vocês me conhecem, sabem da minha correria. Agora me desculpem porque eu tenho mais coisas a fazer”.

               Dona Eurídes foi chamada da rua. Lá de dentro, sem abrir o portão,  perguntou: “Quem tá aí?”. Eram duas mulheres, acompanhadas de duas crianças: “Nós queremos falar sobre Jesus. A senhora pode nos atender?”. Não”. Foi a resposta dessa caiçara, gente dos Barroso. E continuou: “Vocês são quantas?”. Eis  a resposta que veio de fora: “Estamos em quatro: duas adultas  e duas crianças”. Então...” – continuou a humilde caiçara – “conversem entre vocês a respeito de Jesus porque eu ainda tenho muito o que fazer na minha casa; logo logo o meu marido vem da oficina morto de fome e não vai aceitar a  desculpa dessa prosa sobre religião”.

               Da Dona Margarida, esposa do Seo Hildebrando, ao receber duas senhoras no portão, deu os seus motivos porque era presbiteriana e não se conteve na bronca: “Usem o bom senso antes de chegar nas casas dos trabalhadores neste horário! Se vocês não tomarem jeito, logo serão chamados de seguidoras da igreja do arroz queimado!”.


               Agora, o que não me sai da lembrança foi a cena no açougue do Zé Ioiô, no Perequê-mirim, onde o Zé “Canela”, um exímio desossador trabalhava. Naquele tempo qualquer estabelecimento desses tinha um toco de madeira bem resistente, entre o balcão e a geladeira, bem no centro, onde o machado estava  sempre em ação, cortando os ossos do animal abatido, sobretudo as costelas que tanto sucesso faziam na sopa nossa de cada noite de inverno. Então imagine duas distintas pessoas chegando ao balcão, começando a falação, tentando converter o “Canela”, inveterado cachaceiro na época, a seguir  tal religião. Assim foi a cena: com o machado na mão, debruçado sobre o significativo tronco, metido num avental todo ensanguentado, suado, ele esbravejou: “Não me venham com este papo porque eu não sou testemunha de ninguém, nem de mim mesmo! E nem quero ser um dia! Só sei que vou continuar no meu futebol e na minha pinguinha, tá bom?!? Isso eu sei que vale a pena!”. Quem é que iria continuar prosa dessa num momento assim?

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

FEIRA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL - RELATOS (X)

A escola tem um papel importante na nossa formação (Arquivo Ubatuba histórica)

“O LIXO QUE VIRA PAPEL” – Marzi Marques do Valle

               Sou professora do Jardim III, na EMEI  (Escola  Municipal de Educação Infantil) da Estufa I, em Ubatuba. Em janeiro deste ano [1993], após ter participado do Curso de Educação Ambiental realizado pela Fundação Vivendo a Terra, percebi que tinha, através da Educação Ambiental, a oportunidade de realizar um trabalho interdisciplinar ampliando assim os recursos dos quais dispunha como professora. Pondo em prática, desta forma, algumas das ideias que me passaram durante o curso.
               Inicialmente pensei na reciclagem do lixo como um todo, utilizando a sucata como matéria para o desenvolvimento de diversas atividades na pré-escola, recurso com o qual já estava familiarizado. Nesse momento surgiu a primeira dificuldade, que foi pensar no que fazer com o material trazido pelos alunos, porque eles se referiam ao que já estavam trazendo para o trabalho de compostagem orgânica, trabalho do qual eu tinha desistido de fazer, em vista de grande quantidade de alunos, por serem novos para manipular produtos orgânicos e pelos riscos à saúde. Foi a partir daí que resolvi realizar uma atividade com reciclagem de papel, aproveitando as sobras de que dispúnhamos. Estruturei a atividade e me deparei com a necessidade de criar um nome. Assim, nada mais justo do que propor aos próprios alunos que escolhessem um nome, e após uma discussão entre eles, foi sugerido o título “O lixo que vira papel”.
               Definida a estrutura e escolhido o nome para a atividade, iniciamos os trabalhos. Primeiramente era de fundamental importância para o bom desenvolvimento da atividade, e, principalmente para a sua efetividade pedagógica, que fossem apresentados aos alunos a base teórica acerca do tema. Essa fase estava baseada em atividades de discussão e troca de ideias, onde comecei a conversar com a classe sobre a degradação do meio ambiente, o porquê da necessidade da reciclagem do papel para evitar o desmatamento desenfreado, como forma de economia de energia  e matéria prima. Tudo isso com indução, através de algumas perguntas por mim elaboradas. A partir daí, passamos a trabalhar com o processo propriamente dito de reciclagem de papel e, iniciamos as atividades práticas de confecção de papel artesanal. Depois de concluída essa fase, utilizamos o papel produzido para atividades de expressão artística através de registros de desenhos.
               Em função do grande envolvimento e desempenho obtido pela atividade junto aos alunos, firmamos um compromisso de realizar a atividade em uma outra oportunidade, para colocarmos em prática novas ideias e descobrir novidades com muita criatividade.
Conclusão:
               Esta atividade valeu a pena, porque através dela conscientizamos os alunos da importância e necessidade de reciclagem de “lixo”. Também o fato de ter outro professor envolvido ajudou muito, sem contar o prazer de poder passar a experiência para outra pessoa.

Reciclando papel
Material: papel usado; liquidificador; balde; bacia plástica ou tigela; pesos e amido.

Procedimento: 1- Encha o balde com água e coloque o papel picado, deixe de molho por algum tempo e macere o mesmo.   Depois  adicione  uma  colher  de  amido (maisena) para dar liga. 2- centrifugue o material para que ele fique pastoso. 3- Coloque em uma tigela. 4- Introduza a tela na mistura e retire-a com a pasta nivelada. 5- Vire a tela com a pasta em cima de um pano e com outro comece a tirar a água da superfície, pressionando. 6- Retire a tela, os panos e deixe o papel secar ao sol ou em forno moderado. Observação: para se fazer o mesmo trabalho utilizando folhas secas, não é necessário adicionar amido e pode ser feito com folhas aromatizadas para que o papel fique perfumado.

Em tempo: caso de você note algo que esteja ameaçando o nosso meio ambiente em Ubatuba, telefone para a Polícia Militar Ambiental: Fone: 38321397.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

FEIRA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL - RELATOS (IX)


Momentos de aprendizagem fora da sala de aulas (Arquivo JRS)


Retomo a publicar as ações de um grupo de professores na realidade do Litoral Norte Paulista, cujo resultado foi a Primeira Feira de Educação Ambiental, em 1993, na Escola “Capitão Deolindo”, em Ubatuba.

LITERATURA INFANTIL histórias de bichos – Meire Teles

               O trabalho aqui apresentado foi realizado com um grupo de crianças de terceira série da Escola da Divisa (Município de São Sebastião) e seu objetivo era propiciar a aproximação das crianças com os vários tipos de textos literários. A partir da recepção desses textos, foram desenvolvidas diversas atividades, que levavam sempre em conta a sensibilização para o que é específico da linguagem literária. É preciso que se diga que o curso foi dado em horário extra sala, uma vez por semana, durante aproximadamente três meses. O grupo era formado por vinte crianças provenientes de duas salas diferentes.  As atividades abrangiam a linguagem verbal, através da oralidade (debates, leituras, conversas e jogos de encenação) e da escrita (produção de textos) e a linguagem não verbal, através de figuras, desenhos e mímicas.
               A seleção de textos visava dar uma mostra das diversas possibilidades literárias: o conto de fadas, o conto maravilhoso, o poema e as fábulas. A música também foi utilizada e a escolha obedeceu ao critério temático. O tema que amarrava os textos era o mundo dos animais. Dentro desse mundo, o pássaro foi o mais trabalhado. Destacando-se no mundo animal como literatura, destaca-se no mundo das palavras pela forma incomum, pela beleza, pela musicalidade, pelo ritmo, pelo voo...
               Durante as descobertas foram discutidas questões como a relação do homem com o meio, tendo por base o respeito e a integração.

               “O menino é o pai do homem”

               Como professora de língua e literatura eu tenho preocupação especial com a leitura. Penso que o texto, e principalmente o texto literário, tem um importante papel a desempenhar na formação do homem, desde que entendamos que essa formação deva emancipá-lo enquanto sujeito, possibilitando-lhe autonomia e visão crítica do mundo em que vive, colocando-o, assim, em prontidão para, através da práxis, transformar a realidade. Para tanto, é essencial, desde cedo, a criança em contato com a literatura oral e escrita. O trabalho se deu a um tempo com o indivíduo e com o grupo: leitura, reflexão, debate, reflexão, ação, reflexão. A interdisciplinaridade tornou-se viável e a intertextualidade foi garantida pelo trabalho do professor que coordenou o projeto.
               As crianças da Divisa gostaram do curso e os resultados estão registrados em relatórios disponíveis aos interessados. Assim como nós, professores, merecemos muito mais do que ganhamos, eu acredito que as crianças e os jovens merecem muito mais do que livros didáticos. Está em nossas mãos propiciar-lhes o encontro com materiais mais ricos, assim como está em nossas mãos transformar a nossa atual condição.

Bibliografia:
Para professor COELHO, Betty – Contar histórias, uma arte sem idade.
                                      MEIRELES, Cecília – Problemas da Literatura Infantil

Para alunos

POESIA:       A ARCA DE NOÉ – Vinicius de Moraes
                      A TV DA BICHARADA – Sidônio Muralha
                      ISTO OU AQUILO – Cecília Meireles
                      OLHA O BICHO! José Paulo Paes
                      PÉ DE PILÃO – Mário Quintana

PROSA:        A TERRA DOS MENINOS PELADOS – Graciliano Ramos
                     A MULHER QUE MATOU OS PEIXES – Clarice Lispector
                     O MISTÉRIO DO COELHO PENSANTE – Clarice Lispector

                     COMO NASCERAM AS ESTRELAS – Clarice Lispector

domingo, 12 de novembro de 2017

TENTAÇÃO DO HOMEM

Fim da Picada: onde Totonho foi tentado (Arquivo JRS)

               Totonho do Rio Abaixo tinha um olhar bobo,  “com as castanhinhas pequenas nos céus brancos”, parecendo bonzinho. Só parecendo! O jovem da esquina, que nem o conhece há muito tempo, me disse assim:  “Na real, ele se faz de morto para engolir os vivos. É um puta pilantra, sabia?”. Sim, eu sabia. Eu sei!
               Por ter um “caráter enviesado”, conforme expressão da minha saudosa vó Eugênia, um dia Totonho passou por uma crise existencial e se converteu a uma religião evangélica. Parecia um novo homem! Vestia terno e gravata, se pegava com a Bíblia e não perdia um culto da sua igreja. Parecia um homem novo até que um dia foi tentado. Não sei dizer o motivo que o levou a me escolher para contar o seu dilema.



               “Sabe, Zé, que uma noite dessas, após eu sair do templo, senti uma velha tentação: quis ir à ‘Eva’ [zona de meretrício]. Dali mesmo eu telefonei para um táxi. ‘Me leva ao Perequê-açu? O endereço eu vou indicando’.  Conforme o carro rodava, fui tirando o paletó. Deixando-o dobrado, ao lado da Bíblia Sagrada, no banco. O motorista me olhava discretamente pelo retrovisor.  Chegando no ‘fim da picada’, no jundu do Perequê-açu, paguei e pedi o cartão do motorista para o retorno. Sujeito educadíssimo, viu !?! Com o consentimento dele, deixei no assento do carro o terno e a Bíblia. Na entrada hesitei, parecia que eu estava entre duas forças. Adentrei ressabiado, a dona veio me atender. Me indicou uma mesa. Pedi uma guaraná. Em seguida vieram as ‘meninas’, cada uma mais sedutora que outra. Que maravilha! Fui me esquivando, meio que sem jeito. Pedi mais um refrigerante. Uma loirinha se encostava em mim. Troquei de mesa uma vez...mais uma vez... e uma vez mais. Queria pedir uma cachaça, um ‘rabo de galo’. Estava doido para agarrar a menina com tatuagem num ombro, de mamicas enormes!  Nisso veio uma voz na minha cabeça: ‘Não faça isso, Totonho. Não volte a cometer esse pecado’. Então pensei na minha mulher e nos meus filhos... no meu caçula que acabara de nascer. Foi quando tive forças: me levantei, pedi o aparelho no balcão e liguei para que o taxista viesse me buscar. Suando como um desesperado, paguei pelos refrigerantes –dez contos cada, acredita? -  e saí. O pessoal da zona não deve ter entendido nada do que aconteceu. Ou melhor: do que não aconteceu! Aguardei poucos minutos, recebendo aliviado o vento que vinha do mar. O tempo tava virando pra chuva no dia seguinte. No mesmo local que havia embarcado eu desembarquei: perto do nosso local de oração. Novamente paguei e agradeci pelo serviço. De tão atordoado acabei esquecendo a Bíblia e o paletó no carro. Sem ter percebido o fato, permaneci um tempo parado olhando para o céu, pensando na prova que eu passei.  Que provação! As tentações estão no mundo! E eu também estou! Alguns minutos depois um carro parou na guia, a porta se abriu e o motorista muito honrado me entregou os meus pertences. Agradeci-lhe muito pela honestidade. Ainda permaneci ali um tempinho. Voltei para casa e me resignei em esperar o tempo do resguardo, em respeitar a recuperação da minha mulher. Quem me deu forças foi Deus. FOI DEUS!”
               

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

O HOMEM DO SACO

Eu e Avedis (Arquivo JRS)

               Numa distante tarde com pessoas queridas, eu e o amigo Avedis, caiçara do Perequê-açu, conversávamos sobre a simplicidade do nosso tempo de criança, onde a família extensa (avós, pais, tios...) era o eixo principal da nossa educação.  Lembramos de uma história em comum daquele tempo. Assim entramos no tema da educação.
               Educar assustando: eu desconfio que em outros lugares além do nosso existiu  (ou continua existindo) esta metodologia. Eu também escutei a história do Homem do saco! Pelo que nos falavam, era um andarilho. Ninguém sabia de onde vinha nem pra onde ia, mas uma coisa era certa: pegava crianças desobedientes.
               A nossa mãe nos alertava para não andar sozinha ao escurecer. “Um homem velho, com barba grande, fedido ao extremo, passa de vez em quando pegando as crianças que perambulam sozinhas, fora de hora. Ele tem um saco sujo às costas, onde põe as crianças. Depois as leva para um lugar misterioso, que ninguém sabe onde é. Aquelas crianças que ele pega nunca mais voltam para suas casas, desaparecem”.
               Não me lembro se eu tinha muito medo. Acho que não, mas... ao avistar um desconhecido barbudo, eu logo tomava outro rumo, entrava no mato, me escondia. Recentemente um primo me confessou: “Eu sempre tive medo do homem do saco; por isso sempre andava acompanhado por mais alguém, de preferência mais corajoso do que eu. Tudo por causa desse homem do saco que eu nunca vi, mas que talvez exista”.
               Hoje digo que nossas mães estavam nos educando com tal história. Não era muito agradável essa pedagogia assustadora, né? Mas era assim no senso comum do nosso lugar. E a gente foi aprendendo a escolher os momentos mais propícios para sair com tranquilidade de casa, a selecionar as amizades e os lugares onde os riscos eram menores.

               E o meu querido amigo Avedis,  caiçara e frei franciscano -  encerrou a prosa: “Tantas histórias e tantos encantos!”.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

BALAIO DE GATO

Travessia no Castelhanos (Arquivo Rê)

               O meu pessoal antigo usava a expressão “balaio de gato” para dizer que a coisa era confusa, embaraçada, muitas coisas juntas num só espaço, gente de diferentes lugares convivendo juntos etc.
               Em certa ocasião, em meados de 1994, desembarquei à tarde na Ilhabela com destino à casa dos amigos Vera e Pedro Antônio. Do Engenho Velho até o endereço deles tem um bom pedaço de chão para andar, cerca de trinta minutos para não ficar de brincadeira pela estrada de terra. Logo fiz amizade com um caiçara que iria bem mais além, para a praia dos Castelhanos. Seu nome: Décio. Levava umas compras num saco branco, desses de farinha de trigo. Ou seja, tinha uma longa jornada pela frente, iria escurecer antes mesmo que estivesse na metade do caminho. “Eu estou acostumado; sempre atravesso de um lado pro outro”. Sujeito agradável! Gente da gente! E eu, conforme o hábito, fui escutando e especulando. Nem percebi o tempo e a distância. Achei bem interessante a história do Décio.

               “Meus pais sempre fizeram questão de contar as histórias deles, desde os seus antepassados: de onde vieram e como as coisas aconteceram naquela época. Por parte de mãe, meus bisavós eram gente da África e foram trazidos como escravos para o Brasil. Ficaram no Castelhanos após um naufrágio. Hoje são muitos os seus descendentes. Por parte de pai, eram italianos da região de Nápoles, comerciantes que tiveram de vir para cá por causa de guerras na terra deles. Foi aqui na ilha que os meus pais se conheceram, se casaram, tiveram nós (oito filhos) e nunca mais saíram daqui. Castelhanos é um pouco longe de tudo, mas a gente está acostumado a andar por terra e por mar”.

               Me despedi dele com aquela sensação de que nunca mais o veria. Triste, né?!?

                Que balaio de gato, gente!

terça-feira, 7 de novembro de 2017

CARÊNCIA DE SONHOS

Tia Maria Mesquita e neta  (Arquivo Alix)

               A minha saudosa tia Astrogilda, de acordo com o meu pai, morava no morro da praia do Pulso: “A casa do tio Anastácio, pai da tia Astrogilda, era pra cima da barra, no pé do morro. Hoje, a praia do Pulso, o lugar onde me criei, é só casas de ricaços. Lá a gente nem pode entrar”. Essa minha tia, que nasceu tão perto do mar (aproximadamente cinquenta metros), ao morrer habitava o Morro das Moças, bem longe da praia, na rua que já levava o seu nome: Rua Astrogilda da Conceição. Foi uma tia que me marcou muito devido à garra de lutar pelos nossos direitos, pela questão das terras da Caçandoca.
               Tia Maria Mesquita foi outra mulher decisiva em muitos momentos da minha vida. Também nasceu no jundu da praia da Fortaleza. Assim mamãe explicou para nós: “Ali no Canto do Cambiá era a casa do tio Onofre Mesquita, pai da tia Maria que foi esposa do tio Genésio”. Também terminou os seus dias longe da praia, no bairro da Estufa II.
               A tia Maria, assim como a tia Astrogilda, caiçara de outros tempos, tinha muita sensibilidade, percebia as coisas de longe. Um dia, depois de tê-la visitado com um amigo, esta foi a expressão dele: “A sua tia tem uma alma nobre, tem algo divino em si”. Creio que essa percepção decorreu da narrativa da titia a respeito da sua infância, quando havia muita pobreza. Depois, com o advento do turismo, de como era a sua lida como doméstica, tendo de andar a pé todos os dias até a praia Vermelha [distante quatro quilômetros] “para trabalhar na casa do doutor Paulo Sérgio”.
               Entrando numa preocupação dela naqueles dias, continuou a tia Maria:
               “Tem gente que carece de valores. Digo isso porque aqui perto vejo bem isso quase toda noite quando vou dar uma espiada na rua: uma moçada, gente daqui mesmo, até os filhos da comadre Maria, fumando maconha no pé daquele muro ali. Pra quê? Pra quê serve qualquer droga? Digo que é pra provocar ilusão no pobre! Quem é iludido não enxerga aquilo que deveria enxergar, leva vida de ovelha”. Então lhe perguntei se aquilo não seria miséria cultural. E a resposta dela: “Pode ser, Zezinho. Só sei que é carência de valores! Eu já tentei conversar com esses jovens várias vezes, mas eles até dão risada das coisas que falo. Na verdade, os pais dessa juventude, desses jovens, não sonharam eles; foram criados largados, sem nenhum projeto de vida. Como é que posso eu jogar um caroço de milho no cisqueiro, não cuidar e esperar que dê uma bonita espiga?”.
               Nisso me lembrei das palavras do poeta: “Não adianta ao velho ganhar a discussão com os moços; a vida está do lado dos moços”.

               É isso, tia Maria! Bençãos em sua memória é o que desejo!