domingo, 28 de fevereiro de 2021

ATÉ COM AS ESTRELAS?

 

Porto do Cruzeiro - Iperoig (Arquivo Ubatuba - História)

       Olhando umas imagens antigas, me detive em algumas que mostravam o centro da cidade de Ubatuba em meados do século XX. "Ah! Esta é bem conhecida! Era a Mercearia Popular, do velho Maciel!".

       Francisco Maciel, comerciante antigo, originário de Caraguatatuba, que antes tinha um famoso armazém na praia da Enseada, se instalou na esquina das ruas Dona Maria Alves e Coronel Domiciano. Quando adolescente, enquanto tínhamos de esperar o horário do ônibus, a gente se juntava, via quanto de dinheiro tinha e comprava tudo em pães, na venda do Maciel. Gente nova é esganada! Na época já era o seu filho quem comandava tudo. Atualmente, o seu neto Beto mantém uma padaria pequena, mas admirável na rua Conceição. Ou seja, segue a tradição do avô, um homem que poucas vezes foi passado para trás. 


       Idalina Graça, "alguém que não estudou, não conheceu autores, e que conseguiu escrever dois livros, palavra por palavra, juntando-as para formar sentenças, frases, episódios, de forma escorreita, assimilável e amiga", no dizer de Willy Aureli, nos conta sobre o Maciel:


      Pela manhã, quando despertei estava calma. A primeira pessoa que encontrei  na rua foi Francisco Maciel Leite, o mais dinâmico homem que conheci na vida. Paramos e trocamos ideias sobre o passado em confronto com o presente. E como eu o chamasse de esperto, ele sorriu dizendo:

     - Mas já encontrei alguém mais esperto que eu. E como eu duvidasse, ele continuou:

     - Vou contar a você um caso que se deu comigo. É verídico. Era bem moço quando, viajando de Ubatuba para Santos, em canoa de voga, fui tapeado por um dos rapazes da tripulação. Levava a bordo um carregamento de frangos. Ora, você conhece o nosso sistema praiano de cozinhar a refeição que, geralmente é feijão e carne seca, sobre uma tripeça. Era o que usávamos no barco. Atrás desse fogo improvisado estava o jacá de frangos. Lá na popa, eu quase nada via do que se passava na proa, por causa da fumaça que vinha daquele lado; os frangos começaram a morrer. Eu mandava o cozinheiro jogá-lo fora, mas nada disso o rapaz fazia. Dizia não ter nojo, e na hora do almoço, enquanto eu comia o triste jabá, ele e mais três companheiros saboreavam galinha. Um dia brigaram. E palavra vem, palavra vai, diz um deles: "Você pensa que sou da sua igualha? Está cansado de comer frango, porque quando o coitado, com sede, põe o bico de fora, você aperta e depois engana o seo Maciel dizendo que o bicho morreu de fumaça!". Como vê, Idalina, já encontrei na vida alguém mais esperto!

      Chico Maciel, possuidor de grande inteligência e negociante abastado em Ubatuba, já ia longe e eu ria e pensava: - Como é formidável esse caiçara de excelente humor, simpático, capaz de negociar até com as estrelas do céu de Iperoig.

Avenida Iperoig - 1972 - (Arquivo JRS)

sábado, 27 de fevereiro de 2021

A ARGOLA DOS SOFREDORES

 

Entrada da Barra de Ubatuba (Arquivo JRS)

Abaixo, o mar (Arquivo JRS)



- O Toninho Sidônio contou-me que viu assombração no caminho que leva à Prainha. Usavam uma túnica com capuz e cada qual segurava uma vela. Desapareceram de repente. Quando ouvi, arrepiei-me todo. Toninho disse-me que naquela pedra grande em que há um argola de ferro fixada, lá nas proximidades da estátua de São Pedro, era onde os escravos, que vinham nos navios, ficavam acorrentados.

- Mas o Toninho tinha razão em afirmar isso? Questionei o Eduardo Souza.

- Tinha sim, Zé. Ele, filho do velho Sidônio, pescador caiçara, morava ali, no pé do morro da Prainha, onde é a cabeceira da ponte hoje, na saída para o Perequê-açu. Na boca da Barra. Quer lugar melhor para ver assombração?

        Interessante como é importante registrar por escrito as coisas que sabemos, vivemos e escutamos dos outros. Agora, relendo a prosa com o saudoso Eduardo, percebi uma veia importante para pesquisa a respeito do tráfico negreiro e que servirá ao turismo cultural. Imagine você, guia de turismo ou apenas exercitando a cidadania, não se omitindo da verdade, parando na estátua de São Pedro, olhando a beleza da baía de Ubatuba e explicando que logo ali, na Prainha do Padre (ou do Matarazzo), desembarcavam escravos; que naquela pedra, até recentemente, havia uma argola chumbada, onde se acorrentavam os africanos para serem comercializados.

- Mas por que ali, Eduardo?

- Porque ficavam afastados da vila e do porto, mas no caminho dos possíveis compradores, tanto de terra como do mar, pois eram facilmente avistados. Era como, mal comparando, uma passarela das pobres criaturas. Conforme iam sendo comprados, o espaço ia se esvaziando.

- Nossa! Exclamei.

- Agora você imagina, meu amigo, naquele morro que bate vento direto (porque é todo aberto). O quanto sofriam - a mais! - em dias de chuva com vento? Então o Toninho do Sidônio não exagerava quando dizia ver coisas estranhas ali, perto da casa deles. Naquele lugar se concentrou muito sofrimento dos negros. Penso também que não foram poucas as mortes dos coitados agrilhoados ao relento.

- É mesmo! Não tive como não concordar. Acredito que uma energia ruim, decorrente dos maus-tratos aos negros, pode permanecer por ali, à sombra da estátua do santo padroeiro da cidade. 

- Tomara, Zé, que as assombrações continuem aparecendo para não deixar cair no esquecimento as injustiças e sofrimentos que foram causadas a tanta gente. Haverá sempre tempo de corrigir alguma coisa, de fazer algumas compensações aos prejudicados pela ganância. Que as assombrações também nos sirvam de alerta às maldades de hoje e vindouras.

- É mesmo. Tomara que sim.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

QUANDO O MAR COBIÇOU A PEDRA DA IGREJA

Sol acordando (Arquivo JRS)


   Tio Maneco Mesquita, homem tranquilo toda vida, de vez em quando ajuntava a criançada para contar histórias. Era marido da tia Bertolina, moravam bem perto do rio. Durante as contações do titio, o barulho da água escorrendo entre as pedras e o vento nas folhas das bananeiras serviam de fundo musical.

    - Escutem, crianças o que eu tenho para dizer agora: houve um tempo em que o mar já esteve por aqui tudo. É por isso que, quando a gente cava um buraco perto do brejo, se encontra um monte de conchas diferentes. Parece que ele recuou para o lugar que está hoje faz muito tempo. Os antigos contavam o causo de uma intriga entre o mar e a terra por causa da Pedra da Igreja. Era ali o ponto da maré mais alta. Vocês imaginam isso? Olhem lá no morro. Vejam a distância que ela está do mar! Não é impressionante?  Mas o mar não estava satisfeito em apenas alcançar aquele ponto poucas vezes por mês. Ele queria viver permanentemente ali, cobiçava aquela enorme toca para as garoupas e meros viverem. Só que a terra seca achava o mar muito abusado, querendo tudo. Assim ela procurou um jeito de acabar com a cobiça dele. Foi semeando naquele morro inteiro pés de urtiga vermelha. As moitas se espalharam como praga, até debaixo da Pedra da Igreja elas proliferaram. Com isso, o mar subia na maré cheia, mas nenhum peixe queria passear por ali por mais que o mar insistisse. A terra continuou fortalecendo as plantas que afugentavam os seres marinhos. E assim foi passando o tempo até que o mar esqueceu de tudo, deixou de querer aquele lugar e foi recuando, recuando, recuando... até parar na Ponta da Fortaleza. E continua lá até hoje! Papai tinha um espinho gigante de peixe que servia de travessa, onde ficava dependurado os panos de rede e samburás, no corredor. Dizia que era herança, foi de seu avô que encontrara, quando ainda era criança, debaixo da Pedra da Igreja. Se era mesmo, devia ser um peixe muito grande. Sabem de uma coisa? Passando este tempo escuro, quando o sol estiver bem acordado, vou revirar o monturo, procurar o tal espinho. Quero mostrar a vocês aquela baita coisa para confirmar essa história antiga.

 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

OUTRA MARIA

 

Borboleta curiosa (Arquivo JRS)

O poeta, vigilante, só sabia amar;

Dito Preto tinha a malandragem;

João encorajou Maria;

Sobre o mar o sol nascia.


O que vai me proteger?

O azul se esvai;

A cada um a alegria

Deste novo dia.


A saudade abandonada;

Os lampejos do farol,

O alerta do vigia,

As boias servindo de guia.


Os olhares dos marujos,

Os sinais ao timoneiro.

A chegada do dia,

Tal como se previa.


No serão, agora em casa,

Aquele poeta-marinheiro dedilha a viola;

Se derrete em melodia

À sua esposa, outra Maria.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

O VELHO E O MAR

Rolos da canoa do velho na areia (Arquivo JRS)

      Acompanhei com os olhos o velho sair remando; lhe desejei boa sorte na pescaria. Não fiquei esperando, pois precisei ir embora, voltar para casa distante dali. Me lembrei de um livro que li há muito tempo. Trata-se de O velho e o mar, escrito por Ernest Hemingway, em 1952. Por acaso, achei uma nota sobre o mesmo, na adaptação de Thierry Murat, publicado pela Bertrand Brasil (RJ, 2018), que resolvi compartilhar com pessoas especiais. Você é uma delas. Boa leitura.

    Cuba. Início da década de 1950. Santiago, um velho e pobre pescador, retorna mais uma vez com barco vazio. Já são 84 dias sem fisgar nenhum peixe. Todos na ilha acreditam que ele é velho demais e um "salao", palavra espanhola para aqueles que são tocados pela má sorte. Apenas o menino Manolin continua a acreditar nele e quer acompanhá-lo em suas viagens ao mar. Seus pais não permitem mais que ele parta com Santiago; mesmo assim, o menino continua visitando o velho em sua cabana e cuidando dele como se fosse seu avô. No 85º dia, Santiago decide se arriscar no mar traiçoeiro. Ele é confrontado com um espadarte, peixe enorme e forte, e uma batalha que dura três dias e três noites irá se desenrolar entre eles. [...] O autor morou 22 anos em Cuba. Não é à toa que a obra é ambientada em Havana e no Mar do Caribe; trazendo muitas das observações da sociedade da época. O livro é considerado, por muitos, uma fábula ou uma ilusão aos grandes heróis e mitos que colocam o ser humano em confronto com as forças da natureza, opressivamente superiores. Esse embate entre o homem e a natureza, um tema constante na obra de Hemingway, atinge o seu ápice na luta entre o velho pescador e o peixe quase mitológico, que mudaria o seu destino. O livro explora os limites da capacidade humana diante de uma natureza voraz, onde todos os elementos estão permanentemente em luta, sendo também o retrato de um homem na solidão do alto-mar, com seus sonhos e devaneios, com sua luta pela sobrevivência, com sua inabalável confiança na vida. O longo embate entre Santiago e o espadarte não tem vencedores ou perdedores: às vezes, a verdadeira vitória não se pode mostrar, nem a verdadeira coragem é tão visível ou evidente quanto se pensa. Santiago não esmorece diante dos embates e vicissitudes da vida e sabe receber os triunfos e derrotas com a mesma força de espírito.


 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

É TEMPO DE MANACARU, CAIÇARADA!

 

Minha coleta maravilhosa! (Arquivo JRS)

Maravilha no jundu (Arquivo JRS)

Flores, vento, pássaros, abelhas e outros insetos = fruto garantido (Arquivo JRS)


      Desde criança, nós caiçaras, somos acostumados a esperar o tempo de determinadas frutas, sobretudo aquelas que aparecem no calor do verão: bacupari, araçá, goiaba, cambucá, grumixama etc. E, uma mais difícil ultimamente, devido a devastação dos jundus: o manacaru.  Vovó Martinha, que usou até o fim da vida um monte de palavras herdadas da nossa parte indígena, falava iamanacaru. Mas...o comum era todo mundo dizer manacaru. 

     Na Queimada, na praia do Sapê, todos esses frutos citados eram coletados por nós. Toda a família seguia, num belo dia, munida de balaio ou sacola, vasculhando tudo, procurando divisar as frutas maduras. Era um vasto espaço comunitário, de mata rala e baixa. Também tinha bastante orquídeas, onde a forração era uma espécie de musgo usado para enfeitar presépios na época de Natal. Depois apareceu um dono não sei de onde, loteou tudo. Foi-se a nossa querida Queimada.

    No Nordeste eu conheci o mandacaru. Enormes, Da música do amigo Ângelo, me pego sempre cantando o refrão: "Só mandacaru, só mandacaru, só mandacaru resistiu tanta dor". Então fui pesquisar a origem do nome, a etimologia da palavra: Achei isto na internet: 

mandacaru (Cereus jamacaru), também conhecido como cardeiro e jamacaru, Planta da família das Cactaceae, gênero cactus. Arbustiva, xerófita, nativa do Brasil, disseminada no Semiárido do Nordeste. Mandacaru vem do tupi mãdaka'ru ou iamanaka'ru, que significa «espinhos agrupados danosos».

     Agora é tempo dele, caiçarada!  Já andei coletando alguns. Por enquanto está garantido pelas costeiras e onde tem jundus secos (Lagoa, Prumirim, Aguda, Simão, Capricórnio...). Antigamente, quando apenas ranchos de canoas ocupavam áreas dos jundus, o manacaru abundava. Eu proponho que ele seja replantado, por exemplo, no jundu em recuperação da praia da Mococa, em alguns pontos arenoso da Caçandoca, em frente ao aeroporto, na praia de Yperoig, perto das corujas na orla do Massaguaçu, na Lagoinha, na Praia Vermelha etc. Você tem um espaço no terreno, onde bata bastante sol? Então pode plantar também!

Resultado de imagem para origem da palavra mandacaru



segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

SAUDADE DO EXPRESSO MANDIOCA

Distração (I) - (Arquivo JRS)


       Meu saudoso pai, morador da praia do Sapê,  falava que, assim que passou a estrada (rodovia), apareceu, vindo de Caraguá, o caminhão do Pacheco servindo como meio de transporte coletivo, aliviando as longas caminhadas e os percursos arriscados dos canoeiros mediante um preço camarada. Ele próprio, ainda adolescente, foi ajudante do Pacheco.  Pelo que me explicou, era algo parecido com o pau de arara nordestino. A carroceria ganhava uma cobertura de lona e uns bancos de madeira eram fixados para acomodar os passageiros. Que viagem! Logo ganhou o apelido de "Expresso Mandioca". Creio que o motivo era que nunca faltava esse produto e seus derivados na carga (porque todo mundo comercializava no centro da cidade a sua farinha, o seu beiju, a sua mandioca etc.). Só sei que o Pacheco perdurou poucos anos, sendo substituído por uma empresa (Auto viação  Anchieta). Porém, a mesma não deu conta do recado. Justo Arouca cita matéria no jornal A voz do litoral, de 15 de maio de 1955:

      "A empresa vem criando sérios problemas, não apenas para os usuários da linha São Paulo-São Sebastião, que mal e precariamente vem sendo atendido de longa data, mas de  modo especial, aos que se servem da linha Caraguatatuba-Ubatuba e vice-versa, já que há muitos dias não funciona, nem irregularmente, deixando sem transportes moradores do Getuba, Massaguaçu, Fazenda Mococa, Tabatinga e diversos bairros de Ubatuba. se o órgão ou órgãos que fiscalizam os serviços rodoviários acham que não pode funcionar o caminhão do sr. Pacheco, que ultimamente vinha merecendo subvenção da Prefeitura de Ubatuba pelos bons serviços que presta aos habitantes daquele município, como presta também (sem subvenção) aos habitante de Caraguatatuba, por que não aplicam a concessionária as sanções que  merece pela sua negligência, desinteresse e pouco caso tanto para os poderes públicos como para a população. O povo exige a volta do Expresso Mandioca".

       Mas o Pacheco não voltou. O Expresso Mandioca ficou apenas nas lembranças dos que viram o nascimento da rodovia que liga Ubatuba a Caraguatatuba.  Em seguida chegou uma nova empresa: o Expresso Rodoviário Atlântico.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

MANÉ CARRUFÁ

Cabra-bode é um peixe (Arquivo JRS)


Na hora de muito sol,

no asfalto escaldante,

apenas as reluzências do ar.

Logo depois, o mar.


Um corguinho no jundu,

escorrendo de uma mina ali.

a grande pedra de se sentar

e a tão boa água de se tomar.


A paisagem de muita largura,

ainda mais alargada pelo sol;

a árvore de poucos galhos no lugar,

onde ficava o rancho do Mané Carrufá.


Então, sem plateia, 

cantarolei uma moda da infância:

"Tico-tico, Mané Carrufá,

três sardinhas não dá pra almoçá".

 

sábado, 20 de fevereiro de 2021

O MAIOR DESAFIO DA ESTRADA

 

Praia Dura - Depois da ponte, o Morro do Pinhão (Arquivo JRS)

     Hoje, continuando no livro do Justo Arouca (Ubatuba - onde a lua nasce mais bonita), iremos nos deparar com o maior desafio na construção da rodovia que liga os municípios de Ubatuba e Caraguatatuba, cujo início se deu em 1948.

    A luta mais sofrida da estrada foi vencer a serra do Pinhão, entre a Praia Dura e o Lázaro. Daí até o bairro da Enseada levou quase três anos de trabalho duro. Esse pedaço de tempo dá a exata dimensão da abnegação dos rodoviários nessa jornada heroica. Em setembro de 1952 os serviços tinham apenas chegado ao Rio Escuro. O empenho da equipe de obras contando apenas com equipamentos rudimentares, basicamente sustentados por carrocinhas puxadas a burro. Exigiam muito esforço braçal dois compressores de ar comprimido para funcionar marteletes que furavam pedras e dinamites a explodir rochas gigantes. Para derrubar e arrastar grandes toras de árvores foi preciso braços fortes e um sonho extraordinário. Enquanto isso o pessoal de obras-de-arte preparava a estrutura da ponte provisória sobre o Rio Escuro, suficientemente robusta para a travessia de um pequeno trator de esteiras, e passagem para outros veículos. Havia pressa em alargar a picada para que o trator e caminhões pudessem empurrar pedras e madeiras ladeira abaixo; dar meios à estabilização do leito primário, pelo menos precariamente. O primeiro traçado, ainda hoje visível pelas marcas aparentes, era bem mais longo, razão da busca  apressada pelo fim dessa etapa. Um pouco à frente uma outra luta, no mais rigoroso sentido do termo: a costeira do Lamberto, porém menos extensa que o morro do Pinhão. Haveriam de ser rebentadas muitas rochas, mas o ressoar da leve agitação da maré e o cenário azul que buscava, ao longe, a silhueta da Ilha dos Porcos, atual Ilha Anchieta, suavizava todos os padecimentos físico das obras sob árvores. Estávamos em meados do ano de 1955. Neste tempo a utilização das carrocinhas ficou para a história. Os burrinhos, finalmente, foram levados a gozar merecida aposentadoria, numa pastagem deliciosamente verde.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

UMA PÁGINA DO MUNDO

 

       

Umas artes em casa (Arquivo JRS)


       Cheguei à janela. Ali perto, aquele amontoado, coisa tão sem pé nem cabeça. Na verdade, com muitos pés e cabeças. Uma cachorrada e um amestrador. Interessante demais! É inegável, olhando daqui, que os bichos o adoram.

       Um passante me enxergou na janela; olhou de relance. Também se admirou daquela algazarra. "Uma prazerosa farra", diria o finado Dito Funhanhado, um dos pescadores, camarada do Eduardinho da praia da Enseada. E tiraria o inseparável chapéu em sinal de reconhecimento, admiração e de merecimento de honrarias.

       Um outro, pedalando apressado, levantou as feições e se distraiu quando não devia. Foi uma mínima fração de tempo que bastou para jogá-lo ao chão. Coitado dele. Mas... que dá vontade de rir dá. Só olhei de esguelha, pensando na vergonha latejante. Caiu, se levantou e foi, ainda meio desequilibrado, em direção da praia.

     Voltei a me concentrar no rapaz dos cachorros. Eu não escutava o que era dito, mas percebia diferentes entonações. Lembrei-me de quando, mais cedo do mesmo dia, ao passar na Lagoinha, vi alguém esbravejando com um cão que saíra em desabalada carreira no rumo da rodovia, onde os carros se teciam. O animal parecia entender tudo, se mostrando envergonhado pela bronca.

      Daqui da janela, uma página do mundo.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

ESCUTANDO QUASE DIREITO

 

Amanhecer sobre a ilha do Tamanduá (Arquivo JRS)

Vovó envelheceu e ensurdeceu.

Gostava de novelas

desde quando chegou a televisão.

Me perguntou: "Esta qual é?"

"Escrava Isaura, vovó".

"Estava sem saia?"

Fiz que sim.

"Não escuto quase direito, Zezinho"

Balancei a cabeça.

"Que coisa feia! Onde já se viu?"

Eu repeti, mas ela nem ouviu.


E  quando o Arziro,

do caminhão de frutas e legumes,

lhe apresentou a beringela roxa:

"O quê, Arziro? Brejeira da roça?"

"É, dona Martinha. Pode ser".

Eu ria sozinho,

mas sem dar a perceber.

Me recordava do Estevo Surdo,

do morro da Caçandoca,

quando a filha Rosa virou roda,

e, o pedido da Rosa em casamento,

foi acolhido como roda de viamento.


O velho homem deu graças à farinhada

que na semana foi de empreitada.

Roda, viamento, Rosa, casamento...

"Viva o momento!"

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

ENCOSTE O OUVIDO QUE EU LHE CONTO

 

Coruja no toco (Arquivo JRS)

    Um cachorro corria com dinheiro na boca. Uma cabeça de garça segurava um peixe no bico. Lentamente uma camada se levantou ameaçadoramente. Era uma onça, toda branca, mas medonha. A garça sumiu entre arbustos que se formaram com o felino. Olhei de novo; passou tudo. Só um sapo admirava o ar avermelhado, quando o sol se punha no morro distante. Eu olhava ainda o sapo, mirava o quadro escurecendo quando, de repente, não sei de onde, pontinhos brancos seguiam enfileirados. Agora era de verdade! Dezenas de garças brancas seguiam voando na ordem delas. Pelo rumo deduzi que iriam para as árvores e o bambuzal, que beiram o rio do canto da praia.

   Dias desses, ao passar no dito rio quando escurecia, enxerguei a grande quantidade de aves empoleirada, cansadas, mas com força ainda de mais um mergulho na garantia do jantar. Quantas vezes me admirei dos infindáveis pontos brancos distribuídos no entorno verdejante!?

   Agora já é noite. As nuvens continuam se movimentando, se compondo em figuras diversas. Desde criança, quando posso, me entrego a distinguir imagens se formando e se desmanchando. Linda visão do céu estrelado! Vovó Eugênia dizia ter conhecido alguém que falava com as estrelas: "Encoste o ouvido que eu lhe conto, Zezinho. Foi com elas que ela aprendeu que o mar tem dois tamanhos: o da nossa imaginação e aquele que ele quer ter".

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

ÁGUA DE GUINÉ E SARMORA

 

Embarreando o Rancho Caiçara (Arquivo JRS)


        Minha amiga Irene, da praia do Lázaro, mais uma das pessoas preocupadas com as nossas andanças pelos ônibus, deu a seguinte recomendação: “Toma banho de creolina”. Será que resolve? Circulando, por motivo de trabalho, nós somos portadores em potencial do coronavírus, podemos levar para nossos familiares que ainda se mantém em quarentena, seguindo as preciosas medidas sanitárias. E depois, quem vai aguentar o cheiro da creolina? Ela caiu na risada. Eu prefiro continuar me cuidando.

         Quando eu era crianças, diante de um perigo medonho, a saudosa tia Aninha recomendava: “Faça como eu. Eu me venzo todo dia, minino, com água de guiné e sarmora. E reze, meu filho. Reze bastante”. Recordar dessa fala agora, fez me lembrar de uma poesia do mano Mingo; esta agora:

 

SAL AMARGO

 

O que os olhos viram,

O que os ouvidos escutaram,

O que faz saltar o coração

Ficou na memória:

Esta terra tinha dono

E os rios eram sagrados,

Nada de sal de lágrimas

A misturar com as marés

E fazê-los mais salgados.


Depois do embarreamento, uma confraternização (Arquivo JRS)


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

MINHA FILHA ARTEIRA

Cerâmicas da Maria Eugênia (Arquivo JRS)


       "Dito do barro" era o apelido dele. Nasceu, sempre viveu e morreu na Ilha dos Búzios, no lugar chamado de Guanxumas. Ainda tenho guardado um pito dele. Alguém levava suas miudezas para oferecer aos turistas na Ilhabela,  gerando uma renda a sua arte, o seu trabalho com barro herdado dos pais. Um dia ele me explicou o passo a passo.

       "É assim: primeiro tem de saber reconhecer um barro de liga, que dê para ser modelado. Depois, caso não queira se sujar à toa, assim que der uma chuva, vai-se à procura de lugar onde esse barro ficou empoçado. Deixa secar ali mesmo, onde estiver. Só recolhe o lodo do fundo depois de seco. Fica parecendo pedaços de chocolate, vai se rachando com o calor do sol. É o que eu uso para fazer tudo isso que você tá vendo. Eu levo para o terreiro, quebro tudo em farelo. Depois uso uma peneira bem fina para não deixar nenhuma pedrinha. Guardo tudo bem protegido e vou usando com o tempo. Molho a quantidade que penso em usar no dia. Nas peças moldadas passo cinza do fogão e deixo secando. Por fim, segue para o fogo. Ali mesmo, no fogão de casa. Só quando tem uma vasilha maior é que armo uma fogueira na furna do barranco".

       Eu entendi. Processo simples, herdado dos antigos. Será que veio dos índios? Também pode ser técnica dos africanos escravizados ou dos pobres portugueses trazidos para as terras do nosso litoral. Só precisei de um esclarecimento:

    - Por que precisa passar cinza, seo Dito?

    - Para não rachar, rapaz. A cinza evita que a peça se quebre no fogo. 

    Ah! Que bom ter conhecido e convivido com tanta gente boa e cheia de sabedoria! Já a minha filha aprendeu outras técnicas, na universidade. Usa argilas diversas, compradas. Adoro as peças em que ela se dedica com tanto esmero! Menina talentosa que teria dado muita atenção ao artista caiçara, caso estivesse junto comigo naquele tempo.








 

domingo, 14 de fevereiro de 2021

QUEM IMAGINAVA UMA ESTRADA?

 

Rodovia no Morro do Pinhão, no município de Ubatuba (Arquivo JRS)

     Ao viajarmos pela rodovia, entre Ubatuba e Caraguatatuba, apreciando as praias e morros verdejantes, passando rios tranquilos, não conseguimos imaginar o tempo e o trabalho que foi a abertura de uma via assim. Hoje, nas palavras de Justo Arouca, um operário da época, natural de Caraguatatuba, apresento a você o nascimento da estrada:

    Era o começo de 1948. A  casa do seu Chico Graça ficava nos limites da área urbana da cidade, indo para Ubatuba. Uns seiscentos metros do centro. Ganhava a sombra de dois frondosos pés de cambucás e um outro de jambo. Coisa linda!

   No dia seguinte, segunda-feira, nada aconteceu. Nem na terça. Nem no mês seguinte! Quem dera naquele vilarejo tão distante do mundo houvesse um acontecimento tamanho! Uma estrada, para aquelas bandas, livraria os caiçaras de caminhar horas a fio pelas encostas à beira mar, equilibrando-se nas costeiras ou em canoas para chegar à Vila.

   Que bom haveria de ser uma estrada!

   Naquele nosso pequeno mundo sem horizontes ou sonhos a serem construídos, o cotidiano vagava pelas praças empoeiradas, ora ouvindo a estridente gritaria da garotada do grupo escolar, ora o troar de tambores da congada famosa em dia de festa.

   Mas numa dessas manhãs iluminadas da história, uma movimentação incomum na rua Dr. Altino Arantes, porta de entrada da cidade. Um aluno chamou à atenção, em voz alta:

   - Olha que montoeira de carros, exclamou ao colega do grupo escolar vendo passar quatro automóveis, um atrás do outro.

   Os carros, apressados, seguiram até onde era possível chegar, no final dessa mesma rua, bem perto da chácara do seu Chico Graça.

   Terminadas as aulas, fomos ao corriqueiro caminhar nos terrenos baldios em busca de algum divertimento, quando ao longe, avistamos um grupo de pessoas se movimentando no final da dita rua. Algumas pessoas vestidas em terno azul, gravata estirada aos ombros, davam ordens. De repente dois esteios foram fincados ao chão para sustentar uma faixa com letreiros para soletrar: Departamento das Municipalidades. Estrada para Ubatuba.

   Muitos trabalhadores, carroças puxadas a burro, plainas movimentadas por esses animais estavam um pouco adiante, esperando ordens. Logo depois o trabalho começou talvez para satisfazer as autoridades presentes. Mas começou!


Fonte: Ubatuba - onde a lua nasce mais bonita. Livro de Justo Arouca. Editora Cabral, 2012.

    

sábado, 13 de fevereiro de 2021

NELSON JOSÉ DOS SANTOS

 

Tio Nelson (Arquivo  mana Ana)

     Nesta semana perdemos o tio Nelson, irmão da Laurentina, minha mãe. Mais uma vítima da Covid-19, da pandemia do momento. “É só uma gripezinha” o seu rabo, seo excrementíssimo presidente! Em junho próximo o nosso tio faria 81 anos. Aos 79 ainda estava trabalhando como taxista, no ponto da rodoviária Litorânea. Tinha saúde boa, era homem honrado.

     As minhas primeiras lembranças do tio Nelson era dele indo trabalhar em obras na praia do Lázaro, ajudando nas farinhadas e no carregamento de bananas, jogando bola na praia da Fortaleza e se divertindo como todo mundo. Quando eu entrei na escola, ele estava construindo a sua primeira casa no pedaço de terra que o vovô lhe dera como herança. Eu deixava de ir às aulas só para vê-lo fazendo um piso de caquinhos de cerâmica. Era impressionante aquilo, sobretudo quando nosso chão melhor era de cimento grosso na sala e de terra pilada nos demais cômodos.

     Por volta de 1970, tio Salvador e tio Nelson estavam trabalhando na ASEL (Ação Social Estrela do Litoral), com o frei Pio. Eram mestre e contramestre do barco “Maria Silla”, o  “Barco do Padre”. Irmã Yolanda assim explicou a respeito:

“O padre Frei Pio Populin, franciscano, grande missionário de Ubatuba, idealizou um barco que pudesse transportar o povo das praias e do sertão, para ir vender seus produtos na cidade, seja a farinha, como também artesanatos que muitos faziam de madeira ou palha, ou para irem a médicos, etc. Esse barco, construído pelo Odorico, na época frei, foi uma bênção para o povo. Os “timoneiros” eram os conhecidos Salvador e Nelson”.

     

Os irmãos: Tonico, Nelson, Maria, João, Laurentina e Tião (Arquivo JRS)

Tio-avô Domingos, vó Eugênia e filhos. Nelson é o caneludo do meio (Arquivo Conceição)

    Sendo um dos timoneiros do barco, tio Nelson também transportava as professoras que iam ensinar nas comunidades isoladas do lado norte do município de Ubatuba. Foi assim que ele conheceu Marilda, "a moça de Lorena que veio ensinar aqui", a futura esposa. Por isso veio a decisão de vender o que tinha na Fortaleza e comprar um terreno no centro da cidade, na rua Gastão Madeira, na época (1972), um caminho de barro no meio do charco de ubás. O dinheiro da venda possibilitou ainda comprar uma perua Kombi e um lugar no ponto de táxi, na praça Nóbrega, onde teve Ireno, Renatinho, Freitas, Espigão, Keyti Okase (pai da minha amiga Celina, tristemente assassinado na serra durante uma viagem, uma "corrida") e outros como companheiros. Nesse tempo (1973) ele morava conosco, no Perequê-mirim, pois não poderia viajar todo dia para a Fortaleza, à casa dos pais. Lembro-me disso porque eu lia os jornais deixados dentro da Kombi, quando foi marcante a crise do petróleo e os conflitos no Oriente Médio. Nesse ínterim ele construiu, com ajuda de papai e outros, a edícula no lote adquirido. Só então se casou na matriz Nossa Senhora da Piedade, em Lorena. Tia Marilda e o tio tiveram duas meninas e o menino. Agora são todos casados.

      Tio Nelson, além de taxista, era diácono da igreja católica. Muito estimado pela comunidade. Sabia falar, mas sabia sobretudo escutar. Gostava de ler coisas ligadas à religião para melhor exercer sua função religiosa. Falava que eu não devia ser tão radical. Ah, titio... Se fôssemos radicais esse genocida não estaria no poder acabando com tantas vidas pelo descaso que faz com a ciência, pelas leis desfavoráveis aos que mais precisam e pelas tantas mentiras que conta! Esse verme ainda vai separar muitas pessoas queridas!  Está com razão o senador que, há uns dias, se dirigindo ao Ministro da Saúde, assumiu papel semelhante ao dos antigos profetas: "As digitais do senhor e do Presidente da República estão nas 235 mil mortes pela Covid".

     A nós fica o exemplo do caiçara honrado que foi o nosso tio. Eternidade é a memória que cultivamos. Desejo muita força à tia Marilda, às primas, ao primo e netos.

 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

RECOMEÇO

Labirinto na montanha  (Arquivo JRS)                                                                                  


 


    O mano Mingo, em barbatuba.blogspot.com, está balizando um recomeço com empatia. Que seja um recomeço de esperança a nos devolver a vida que os profetas do mal continuam a tirar!



Com máscaras nos rostos

só nos resta ler os olhos,

ouvir as palavras e

apreciar os gestos

para superar o distância pandêmica

que nos afastou uns dos outros.

Mal posso esperar o recomeço,

especialmente da esperança

de que a escola é lugar para se gostar;

de que o povo vai acordar

e o homem violento vai tombar;

de que os falsos profetas não enganarão mais,

e o dinheiro já não comprará mais consciências;

de que a ignorância não é mais do que  a ciência

e de que, quando passar esta pandemia,

se outra vier, que venha a da empatia.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

O FRUTO SAGRADO

Festa na aldeia (Arquivo JRS)


        A pesquisadora Kilza Setti, a mesma que escreveu Ubatuba nos cantos das praias, publicou um estudo a respeito do sistema musical dos índios Guarani de São Paulo. Isso foi no Diário Oficial Leitura, há trinta anos.  Vale a pena entender um pouco mais da vida dos povos indígenas, sobretudo quando se refere a valores do grupo Mbyá-guarani que tem três aldeias no município de Ubatuba.

      As formas mais expressivas do repertório musical guarani estão presentes às celebrações religiosas (porãhei ou porã'i), orações e cantos sagrados que se realizam todas as noites em algumas aldeias, e com muita frequência noutras, além da cerimônia de batismo uma vez ao ano, à qual chamam nhemongara'i. [...] É preciso dizer que tanto as situações de reza cotidiana como as anuais do grande batizado propiciam com muita probabilidade as ocasiões musicais.

    Além das celebrações acima referidas, há outro fato que estimula a prática musical coletiva. Trata-se do xondaro, espécie de dança/luta que procede, nos finais de tarde, as cerimônias sagradas. Na bibliografia brasileira consultada não encontramos, até o momento, referências ao que os guarani de São Paulo chamam de xondaro, e que remete a um sentimento de defesa conforme os próprios informantes das aldeias paulistas na época (Boa Vista, Silveiras, Morro da Saudade e Jaraguá). Antes da cerimônia de nhemongara'í, homens e jovens, simulando movimentos coreográficos de defesa, volteiam algumas vezes em sentido anti-horário, no que são acompanhados em duo de violão e rebeca.

   Irma Ruiz descreve o mesmo movimento que precede a cerimônia do batismo, assinalando ser a palavra xondaro corruptela de soldado. Refere-se a "Tupã sondaro" (soldado de Tupã) como guardião do fruto sagrado gwenbé oferecido cerimonialmente durante o nhemongara'í. Nas situações de celebrações aqui mencionadas está presente a prática musical. Por outro lado, certas ocasiões musicais estão desvinculadas da religião. Os guaranis reúnem-se para cantar e tocar repertórios estranhos ao seu sistema musical religioso. Algumas formas e instrumentos (incluindo a sanfona) vão sendo assimilados à sua prática musical, o que demonstra certa flexibilidade e segurança em manter simultaneamente, mas em categorias estanques, diferentes repertórios, com a consciência das particularidades que os distinguem.


Em tempo:  informação importante do fruto do guaimbé, a mãe do imbé, que eu encontrei em http://overdegratuito.blogspot.com:

Frutifica nos meses de dezembro a fevereiro. Os frutos são comestíveis mais devem ser consumidos apenas chupando a polpa, pois se morder, as sementes contem oxalato de cálcio (cristais ou agulhas em miniatura) que faz com que a língua, boca e garganta fiquem picando. Não há toxinas no fruto, mas apenas esse inconveniente causado pelo formato do mineral. É por isso que os indígenas tomavam apenas o suco ou liquido do fruto espremido, sendo essa a origem do nome. A planta é muito cultivada como ornamental ou em vasos dentro de casa. Essa espécie também deve ser utilizada em reflorestamentos pois seus frutos são muito apreciados por diversos animais silvestres como gralhas, sabiás, gambás, guaiticas e macacos.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

PROSA DE JUNDU

 

Higino em prosa (Arquivo JRS)
     

      Seo Higino, em prosa de jundu, contava de outros tempos, onde o mar era mais usado para se locomover:

      "A canoa era o nosso carro. A gente embarcava de quase tudo nela para levar de um ponto a outro. Quantas vezes, ali no jundu da Barra Seca, a gente não avistava um ou outro, quase todo dia, se tecendo com carga no largo! Quase sempre iam vender seus produtos nas cidade e voltavam com outras compras, coisas diversas, que não havia na roça, no bairro. Raramente iam a pé, com carga. Só se fosse tempo de mar bravo mesmo. Numa certa ocasião, o João Quelementino, do Ubatumirim, trazia nas costas um alqueire de farinha para entregar no Macié. Parou lá em casa para descansar um pouco. Não sabem o que é um alqueire? É uma medida dos antigos, corresponde a 40 litros. No caso da farinha, é o mesmo que 40 quilos. Ele vinha a pé porque o mar estava revoltado e havia um compromisso que não podia faltar. Vocês imaginam alguém carregar, desde aquela distância, mais de 5 léguas, esse tanto de peso? Cada légua está em torno de seis quilômetros. Então, o lugar do Quelementino, a sua moradia distava mais de trinta quilômetros da cidade, onde a gente vendia os nossos produtos e fazia as nossas compras.  

    Ajudou muito, salvou a vida de muita gente, quando o padre Pio conseguiu um barco para fazer o trajeto do lado norte semanalmente. Nelson e Salvador, tios deste menino que aí escuta, eram os tripulantes dele. A dita embarcação, tenho certeza disto, navegava sempre com carga a mais, até correndo risco. Teve uma ocasião que o Dito Freitas, presidente da Colônia dos Pescadores, vendo o barco sobrecarregado, na Barra dos Pescadores, não deu permissão que zarpassem daquele jeito. Não adiantou o padre, nem o representante do prefeito tentar convencer o saudoso Freitas. Era risco demais; poderia afundar e matar gente. O jeito foi retirar um monte de carga. Saiu quase a metade. Dava dó do pessoal, mas havia risco de acidente sim. Só depois de aliviarem o barco, eles tiveram autorização para seguir viagem".

     

Nota: neste momento, em situação muito crítica devido à pandemia (covid 19), meus tios Nelson e Salvador, os condutores do barco do padre, estão se segurando à vida por um fio. 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

FILHO ARTEIRO

 

Obra de arte (Arquivo JRS)

Outra obra de arte (Arquivo JRS)

     Dia feliz. Meu filho completa 21 anos. Se fazemos o possível pelas crianças que estão sob nossa responsabilidade, mais ainda devemos fazer por aqueles que pusemos no mundo. Até o impossível queremos tentar pelo amor que temos por eles.

     Estevan gosta de arte, tal como a Maria Eugênia. Agora, por exemplo, se esmera em seu instrumento que está quase pronto. Aguardemos o que irá aparecer pelo seu talento e persistência. Enquanto isso..

    

Um menino afobado,

que escapuliu aos oito meses

do lugar tranquilo,

do ventre da mãe.

Cresceu, nos dá alegria;

Agora, com a Anna, uma boa companhia.


Parabéns! Parabéns! Parabéns!

  

Arte do Estevan (Arquivo JRS)