sábado, 30 de maio de 2026

RAÍZES SERRA'CIMA

 

Mestre Neco - Arquivo JRS 

     Tudo em Ubatuba

  Nas décadas de 1960-1970, no bairro da Estufa, era forte o grupo de dança de moçambique. Também na Caçandoca havia muita gente empenhada nesta dança e no jongo. Quem me informou a esse respeito foi vovó Martinha, natural da praia do Pulso. Suas irmãs já moravam na Estufa já muito tempo.

    Benedito Correia Leite, o Dito Olho Azul, demostrou, numa ocasião, saber cantar pontos de jongo. Dizia que desde criança, no Ubatumirim, esse traço cultural era muito praticado. Ele era violeiro. Seu avô foi seu mestre. Estas informações foi que ouvi dele, em 1980.

    Modesto, morador dos arrebaldes da cidade, hoje zona central, era mestre de congada na minha adolescência. No bairro do Taquaral, esses mesmos aspectos culturais se perpetuavam, principalmente na residência da dona Maria Charleaux, a popular Maria Xana. Tal como Maria Vitória Jean, ela era mestiça de africano com francês.

    Bito Cristóvão dizia que era comum, na sua meninice no Morro da Berta, sempre ter pontos de jongo nos pitirões de roçados, em descidas de canoas de morros e em outras ocasiões. "Era um trabalho festivo, cheio de cantorias e bailados".

MÚSICA É VIDA

 

A rabeca do tio Dário - Arquivo JRS 

      

Aniversário em cantoria - Arquivo Thales

   

Fandangando - Arquivo Fundart

  Eu estava em casa, sossegado, passeando nas imagens de gente que eu gosto. De repente me deparo com uma postagem do Thales, da sua mãe, a Regina, filha nativa da praia da Fortaleza, prima da minha mãe. Seus pais, Nicomedes e Maria Tereza eram vizinhos do nhonhô Armiro e da tia Maria da Barra, moravam no lindo jundu de abricoeiros e amendoeiras, bem na metade da praia, perto da barrinha. Voltando à imagem: era um ambiente gostoso e Regina cantava. Certamente estava feliz junto de pessoas estimadas. Parabéns, Thales, pelo emocionante registro!

      Não sou músico, mas não consigo lavar uma louça sem escutar prazerosas canções, sobretudo MPB. Também não perco nenhuma oportunidade para prestigiar os cantadores e tocadores caiçaras.

      Imagino que esse viés da minha gente implique bons momentos de ensaios e confraternização entre si. É onde se intensifica a socialização e a solidariedade sustentada na paixão comum pela musicalidade, pela perpetuação dos nossos traços culturais. 

       Tenho comigo que, nesses momentos, entra em combinação muitas coisas. Exemplos: repertório tradicional, músicas novas, afinação de instrumentos, entrada de vozes, trajes de apresentação, roteiro de eventos, meios de transportes etc.

       Nesses momentos, que quero chamar de encontros musicais, tenho certeza que o mais importante é o fortalecimento das manifestações culturais dessa caiçarada querida.

     Ah! Enquanto a Regina canta, Nádia, a mana desta, segue firme nos fandangos. Que legal, né? Viva a música! Viva essa minha gente festiva!

sexta-feira, 29 de maio de 2026

UMA SÓ CONSCIÊNCIA

  

Shiva, a gatinha - Arquivo JRS 

      Há uma consciência muito maior do que a de cada um. Nela estamos nós e tudo que existe. Creio que é esta que denominam de consciência cósmica (que é a mesma nossa!). Sem dúvida alguma que a imensidão do espaço afeta a todos, mas também é atingida por mim, pela minha percepção.

     Tudo o que vemos, ouvimos falar, sentimos, nos apegamos etc., nos modificam. Energias chegam até nós, mas também partem de nós. Tomarei o seguinte exemplo: ao escrever uma crônica, em torno de determinado tema que mexeu comigo, na verdade estou demonstrando que ele segue me modificando. Um caso: dias atrás repassei para muita gente uma face marcante de uma determinada fase histórica do Brasil, vivida por mim na pequena escola mista do Perequê-mirim, em Ubatuba, um lugar desconhecido por muitos leitores do blog. No entanto, já disse que se trata de uma praia onde vivi grande parte da infância. Muita gente sabe o que é uma praia. Por outro lado, a minha experiência estabeleceu explicitamente uma conexão, pois a Mirtes (Harumi) foi afetada. E me afetou com seu texto e a contagiante alegria da irmandade em uma fotografia. Então aconteceu algo maior: parte dessa ampla consciência se faz presente por uma terceira pessoa. E, por intermédio da estimada filha do Sr. Honda e da Dona  Hamako, eis a sequência:


      Não consegui logar para comentar, mas adorei tua história! Também morei em Taubaté, quando criança. Estudei no colégio Olegário de Barros e tive a mesma impressão do prédio, dos corredores, das portas e janelas enormes. E de uma professora que era assim, tirana...

     Que lindeza de relato! A foto está maravilhosa! Ninguém respondeu o que era República durante a ditadura e ainda te colocou de castigo.


     Fechando, por enquanto, o assunto, uma atitude decorrente dessas interações diversas:

     Passei para frente, para os formadores de professores.

Em tempo: a fotografia das três crianças é mesmo demais! Sem dúvida que seus sorrisos estão em Renópolis, na Mantiqueira, deslumbradas com um mundo sendo de todos.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

VIRA, MAR VIRADO

 

Chegada na praia - Arquivo JRS 

    Fato desses dias: pescador da Maranduba, estando arrastando camarão por fora da ilha do Mar Virado, encontra mulher que estava desaparecida há quase dois dias. Ela e um companheiro saíram da Ilhabela numa motonáutica e não retornaram, nem deram notícias. Somente ela estava flutuando, graças ao colete salva-vidas, na imensidão do mar. Foi salva, mas o parceiro continua desaparecido. Ainda bem que um experiente caiçara estava buscando seu sustento por ali!


     "Com o mar não se brinca", repetiam os caiçaras mais velhos. 


     Numa ocasião, lá de longe, na costeira, eu e Fatinha olhávamos o movimento na praia. Mais algumas pessoas conhecidas estavam por ali, no nosso entorno, mas foram se dispersando ao notarem o tempo mudando. Nisso, uma lancha, dessas razoavelmente equipadas, surgiu na linha do jundu. Ela estava sendo empurrada por dois homens. Um deles era o Zé Roberto. Deduzi o óbvio: o meu amigo estaria indo à pesca. Afinal, ele se realiza quando está em pescaria no largo. De repente, do nada, o mar ficou enfurecido, com ondas imensas. Os dois companheiros já estavam embarcados, mas não conseguiam ultrapassar a zona de rebentação. 

      Eu me assustei quando vi uma onda maior, correndo de sul, ir carregando a lancha barra adentro. Ainda bem! Sem querer,  eles foram parar num lugar seguro. Nesse momento eu desci das pedras, fui até o local para conversar, convencer o Zé Roberto que, com aquele tempo, era impossível sair mar afora. Nenhum sinal facilitador era vislumbrado; ninguém deixaria o porto naquelas condições. De repente, nós dois nos viramos na mesma direção do Mar Virado. Céu turvo, ondas ainda maiores e tormenta de vento surrando forte. Foi naquele instante que o Zé concordou comigo, foi retirando as tralhas e se conformando em voltar para casa. "É, Zé, não vale a pena arriscar a vida".


Em tempo: o pescador que resgatou a moça é gente do Aristeu da Ponta Aguda, do Henrique da Figueira, do Candinho da Maranduba e outros espalhados no chão caiçara. Os mais antigos dele eram donos da ilha do Tamanduá, defronte a praia da Tabatinga.

O QUE É A REPÚBLICA?


Harumi, Satiko e Minoru - Arquivo Mirtes



       A querida amiga Harumi Honda, a nossa Mirtes, depois de ler no blog a crônica PÁTRIA LIVRE OU..., nos enviou a fotografia dos irmãos e fez o seguinte comentário:


   Nessa época, eu e minha família havíamos saído, ao meu entender, do paraíso. Vivíamos em Renópolis, um pequeno vilarejo encravado na Mantiqueira. Tinha os meus dias livres de criança que se deslumbrava com o mundo sendo de todos. Meu pai lecionava japonês aos filhos dos colonos japoneses, vivíamos sem cercas ou porteiras. Onde dava frutas, comíamos, onde havia riacho, refrescávamos. Não havia maldade, cumprimentávamos os adultos com muito respeito e ainda voltávamos para casa carregados de castanhas que ganhávamos para levar aos pais. Tudo era simples. Papai (Ototian) achou que chegara a hora de dar aos filhos educação urbana e condizente com os novos tempo. 

         Chegamos a Taubaté.  Matriculada no centrinho de  Taubaté, Grupo Escolar Lopes Chaves, linda construção hoje tombada pela Condephaat. Nunca tinha visto  construção como aquela. As portas eram escuras e de uma altura que dava quatro de mim. Corredores gigantes com janelões imensos. Saíra de uma escola em Renópolis que era uma única sala com uma única professora, dona Conchita que vinha de Pinda de bondinho para dar aulas para o primeiro, segundo e terceiro anos, todos juntos, ainda éramos responsáveis pela horta. Dona Conchita colhia as verduras e levava para vender. Como resultado recebíamos lindas escovas de dente, que podíamos escolher a da cor de preferência e, de quebra, aprendíamos o asseio bucal. Bem, retomando ao Grupo Escolar Lopes Chaves, santuário da aprendizagem: a professora que reluto a lembrar, mas não consigo chegar ao nome, que possuía olhos negros e grandes, me chama para avaliar meus conhecimentos. Fui indagada: - Quem é o Presidente da República? Nunca soube disso, República? O que é? Mil indagações à frente.  Não teve jeito, fiquei meia hora do lado de fora da sala cuja porta permaneceu fechada para mim. Findo o período que fiquei para pensar, enchi a lousa do início ao fim, EMÍLIO GARRASTAZU MÉDICI. Nunca me explicaram o que é a República.

 

Em tempo: há um certo tempo eu publiquei O CADERNO DE HAMAKO, mãe da Harumi. Basta procurar no coisas de caicara.blogspot.com

quarta-feira, 27 de maio de 2026

A ESQUINA DO PECADO (II)

 

Depois do muro - Arquivo JRS 

        Depois do muro é a Esquina do Pecado. Bem cedo, por ali se avista pinos de droga, preservativos, copos descartáveis, garrafas vazias etc. Porém, a característica primeira da esquina são as prosas, fofocas e argumentações políticas, futebolísticas e religiosas. Conforme avisto quem vem se aproximando, já sei qual será o assunto. Hoje foi a vez do Dedé, neto do finado Daniel, meu chapa. O pontapé inicial foi a dificuldade nos negócios, mas logo vazou para religião e política:

      - Esses pastores ganham muito dinheiro. Para você ter uma ideia, o salãozinho perto de casa, "Ministério X", fatura 60 mil por mês só de dízimo.

     - É assim mesmo, Dedé. Daí para pior. A pesquisa diz que entre os mais ricos do Brasil, 5 são pastores (Edir Macedo, Valdemiro, Malafaia, R.R. Soares, Estevam e esposa).

      - Será mesmo! Coisa estranha, né? Mas o que eu acho errado mesmo é ficarem falando de política nas igrejas. Religião não deveria se misturar com política.

      - Pois eu discordo. Cristo morreu apedrejado ou crucificado?

      - Crucificado, lógico!

      - Pois é. Naquele tempo só ia para a cruz quem era uma ameaça política. Era a punição imposta pelo sistema. O castigo religioso era o apedrejamento. Estevão, primeiro mártir dentre os seguidores de Cristo, foi apedrejado. Que morte horrível!

     - Quer dizer então que Jesus era uma ameaça política?

     - Sim, porque ele, pobre, tomou partido dos pobres, das pessoas marginalizadas. Então seria salutar se, nas igrejas que pretendem transmitir ensinamentos de Cristo, das primeiras comunidades cristãs, houvesse reflexão sobre a vida e em torno dos compromissos dos fiéis. Exemplos: Vai votar em quem faz leis contra os pobres? Vai escolher representantes que são contra os direitos trabalhistas? Vai aplaudir quem só deseja ampliar as desigualdades sociais? Vai eleger quem acha que exterminando os injustiçados a justiça prevalecerá?

      - É, neste sentido você tá certo. Mas é complicado.

     - Você, que conhece bem o nosso povo, as pessoas que nos rodeiam, me diga: Elas usam o posto de saúde, a Santa Casa e outros hospitais públicos? Seus filhos estão na escola pública?  Muitos deles não sobrevivem graças ao Bolsa Família? Não recorrem ao SAMU, à Farmácia Popular etc.?

     - Sim, quase todo mundo que eu conheço precisa disso tudo.

     - Diante dessa realidade, Cristo estaria mais na posição de quem é a favor da direita, contra os pobres, ou questionaria e seria crucificado porque ousaria defender os empobrecidos? Como deve se comportar politicamente quem quer se comprometer com Cristo, com a comunidade?

    Depois disso Dedé se despediu porque precisava ir "resolver uns negócios".  Não sei se voltará para outras prosas na Esquina do Pecado.

terça-feira, 26 de maio de 2026

TUDO QUE VIVI LÁ

 

Teia de aranha - Arquivo JRS 

     As histórias nos mantém aquecidos mesmo depois de décadas após ouvi-las. Nossos corpos não vivem sem histórias.

     Imagine, nos primórdios da humanidade, adultos e crianças  prestando atenção e se revezando nas narrativas que preenchiam a vivência, davam sentido a cada um e ao coletivo. Milênios depois, no chão caiçara, nas casas de nossos avós, o ritual dos primeiros tempos era atualizado. A gente não vivia sem histórias!

     São as lembranças dessas histórias - e de muitos momentos nossos! - que se compõem em nossas crônicas, poemas e outros gêneros literários. Hoje, apresento dois poemas: uma do mano Mingo e outro do Miguel, filho do primo Márcio da Fortaleza. 

      Deste modo o Mingo faz a apresentação:

Coloquei mais rimas no seu poema, Zé.   Me acomodei na banco da cozinha,

o fogo ardia devagar,

era lenha que queima fácil:

caneveteiro, tinticuia e ingá.

O gato se destacava no canto,

com os olhos brilhantes da luzerna.

Pensei nas brasas,

em postas de peixes,

em bananas-da-terra...

Biju tinha na cuia.

Voltei aos 10 anos de idade,

ai, que lonjura foi minha saudade!


      Já o Miguel, premiado no concurso de 2023, escreveu:


     Na casa dos meus avós, eu jamais ficava só.

     Fosse de dia ou não, nunca senti solidão.

     Posso me lembrar de tudo que vivi lá,

     Do bolo da vovó ao seu brilho no olhar.

     Só não posso esquecer de uma coisa em particular:

     O pequeno lampião que vivia a me cativar.


      O lampião estava sempre a me salvar.

      Não importava a hora ou lugar.

        Ele vivia a iluminar.

      Mas o que mais gosto de lembrar,

      É o vovô apagando-o para orar.


Observação: eu estava na Biblioteca Publica, na ocasião da premiação. Muito me alegrei saber que gente mais nova, da nossa família, estava no "papo da aranha", na teia da literatura.

VEM FRIO AÍ

 

Arte do Estevan - Arquivo JRS 

Me acomodei na banqueta,

O fogo ardia devagar.

Era lenha de caneveteiro,

De tinticuia e cajuja.

Tudo que queima fácil.

A luzerna destacava o gato,

Brilhava em seus olhos.

Pensei nas brasas,

Em postas de peixes,

Em bananas da terra...

Biju tinha na cuia.


Ah, que lonjura!

segunda-feira, 25 de maio de 2026

UNIVERSO E MENTE

 

Conchas de preguaís - Arquivo JRS 

      Deepak Chopra e Menas Kafatos, autores do livro Você é o universo, afirmaram o seguinte: "Podemos dizer que pensamentos e palavras são um tipo de limbo silencioso, à espera de serem convocados pela mente". E não é que parece ser isso mesmo? Haja vista que eles não se manifestam antes da nossa apelação. Exemplo: 

      Eu penso numas pedras na costeira, mas em qual costeira? Determinei agora ser o Saquinho Manso, entre as praias do Perequê-mirim e Santa Rita, porque foi bem marcante na minha infância. Me foco nele, no lugar calmo que era, onde a criançada nadava sem nenhuma dificuldade, sobretudo quando se aproximava o verão e os preguaís apareciam rastejantes no fundo do mar. Passávamos horas mergulhando ali, recolhendo esses seres tão apreciados em nossa família. Então, o pensamento se junta às palavras para avançar nas explicações até mesmo a quem, mesmo sendo da cultura caiçara, não conhece preguaí e nem imagina o sabor dessa iguaria na nossa culinária. Está comigo? Percebe que sigo convocando pensamentos e palavras que se encontram no limbo silencioso que, num primeiro momento, é muito particular? Mas você vai se inteirando dele graças às palavras e à sua mente! Neste instante chego a sentir o aroma daquelas coisas singulares, partes picadas de preguaís numa panela, sendo preparadas pela minha saudosa mãe. Ah, que cheiro bom! Melhor ainda era degustar com acompanhamento de palmitos que foram cortados logo ali, em torno da nossa pobre casa. Na verdade, tudo do nosso entorno era para a nossa subsistência. Por isso plantávamos e cuidávamos com muita atenção. Eram "crias nossas", dos pássaros, dos animais e dos ventos que semeavam. Tínhamos compromisso com o que abundava ao nosso redor e por onde andávamos. 

      Onde passeia agora meus pensamentos e palavras? Está emergindo, vindo da imensidão do universo e trazendo o escritor português Fernando Pessoa. É a ele que transfiro a conclusão:


            Segue o teu destino,

            Rega as tuas plantas,

            Amas as tuas rosas.

       O resto é a sombra de árvores alheias.

domingo, 24 de maio de 2026

MAR DE MORROS

Rosas na Mantiqueira - Arquivo Mingo

     E um morrão, depois de muitos morros, chegou. Agora, o mano Mingo prestando-nos uma imensa ajuda, está na Mantiqueira sentindo o inverno que se aproxima. Gratidão demais, meu irmão!


Quando eu era ingênuo,

espiando as alturas da Serra do Mar,

imaginava o que havia mais além,

só depois descobri que depois do morro,

havia outro morro,

com mais morros depois por uma jornada inteira,

e, quando atinava-se com o fim,

ainda estava  por vir a Serra da Mantiqueira.

sábado, 23 de maio de 2026

A ATRIZ PRINCIPAL

   

Logo ali - Arquivo JRS 

Quando o sal ainda não salgava e o açúcar não era doce?

- Não sabeis? Foi ontem!

- Naquele momento quando o raciocínio subiu como balão, deixando todo mundo de boca aberta?

- Mais ou menos, podemos dizer. Aí veio aquela sonolência que matou a vontade de comer e deixou nossas mentes à deriva.

- Me lembro sim desse momento quando as palavras sumiram, deixaram as letras desarranjada.

- Isso mesmo! Impossível descrever qualquer coisa! O pensamento andava pelo infinito enquanto o finito tinha sumido no horizonte. Queria criar algumas coisa.

- Como criar algo do nada?Quero dizer ir do nada para alguma coisa.

- Não sei se enxergo esse rumo. Até duvido que possamos deduzir.

- Agora estamos no hoje. Dos seres passados herdamos os átomos e essa gama de tudo que nos sustem.

- Isto cria problemas ou ajuda a resolvê-los?

- Veio o começo, espaço e tempo nasceram.

-   De onde?

- Provavelmente de outros que se findaram, que vieram de outros que se findaram, que vieram de outros que se findaram... Só depois de espaço e tempo vieram os corpos.

- E dos corpos vieram nossos corpos, né ? Destes, ansiosos e vibrantes, se originou a sociedade e se consolidaram as crenças. Bem mais tarde se definiu a ciência.

-  E o amanhã?

- Tudo será surpresa. Somente o desconforto é certo.

- Talvez as luzes e radiações que atravessam imensidões cheguem até nós como suaves melodias ou estonteantes trovões. Caberá aos nossos corpos as interpretações.

- Se haverá de ser assim, elevemos nossas tigelas abastecidas com as leis da natureza. Desse modo nos revigoramos.

- Então continuamos no zero?

- Sim, dele saímos e nele estamos. Do nada veio tudo. Logo, tudo é nada. "Havia trevas sobre a face do abismo".

- Portanto, nada de se estressar com a própria existência.

- Que se vire cada cultura para apresentar seu próprio mito da criação!  Eu só digo que foi o cosmos o orientador da nossa existência. Porém, a mente é a atriz principal.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

ASCENDINO COUTINHO

 

Ascendino - Arquivo Roberto Ferrero

     Tempos atrás o estimado Roberto Ferrero publicou uma fotografia que, ao mesmo tempo, me causou saudades e pesar. O meu amigo Ascendino havia nos deixado. Hoje, faço questão de publicar o texto daquela ocasião, daquele momento que me fez recordar de tantos outros.

     Ascendino era descendente do Odócio e Maria, gente do Prumirim que se mudou para a praia da Enseada em busca de melhores condições de vida. A casa deles, no local conhecido por Pedra Branca, era vizinha do Dito Henrique, o velho. O já citado Roberto é bisneto deste.

      Um pouco mais de tempos atrás eu havia estado com o Ascendino no terminal de ônibus, no centro da cidade. Conversamos um pouco, lembramos de pessoas e momentos que vivemos na nossa mocidade naquele trecho envolvendo Perequê-mirim e Enseada. 

     Um tempo mais longe, quando eu entrava na adolescência, Ascendino foi meu parceiro em obras. Éramos serventes dos pedreiros onde, Jorge do Moji, originário do Ubatumirim, era o encarregado. Numa dessas construções, futuramente Hotel Nosso Cantinho, dávamos conta de atender cinco ou seis pedreiros. Depois nos separamos: ele foi para a pesca e eu fui contratado para trabalhar num bar, mercearia e restaurante. Só de vez em quando ele aparecia para prosear. No entanto, vez ou outra, vivia nas pescarias com o meu pai.

      Ascendino, gente nossa, amigo fiel que não hesitava em pedir ajuda e ser um apoio sempre quando era possível, sempre prezou por nossa raiz cultural. E assim se foi mais um caiçara de nossa geração. É a gente passando pela vida. Bem dizia o meu amigo: "A rede tá no mar da vida. Um dia a gente fica no tresmalho que está armado para nós desde que viemos ao mundo".  Bem assim, Ascendino do Odócio e da Maria!

Em tempo: Benedito Henrique foi casado com Judith Cabral. Hoje, na rua Benedito Henrique, no Perequê-mirim, se localiza a creche Judith Cabral. Seguem juntos, né?

quinta-feira, 21 de maio de 2026

...E MORRE NA PRAIA

 

Um lindo ser - Arquivo JRS 

      Ainda no corre-corre com a minha filha acidentada, depois da alienada da crônica anterior, eu me encontrava sentado ao lado de um jovem com o braço quebrado, na altura do cotovelo. Escutei a sua narrativa:

    - Eu tava indo para o trabalho, bem cedinho. Ia pedalando pela rodovia, passando pela Estufa. Quando foi na altura da entrada para a Sesmaria, um caminhão me fechou. Caí e quebrei o braço. Pior que é o mesmo motorista que uns meses atrás atropelou e matou uma criança. Só que comigo não vai ficar barato não! A firma na qual ele trabalha é pertinho de casa, no Parque dos Ministérios, no Ipiranguinha. É uma distribuidora de ferros para construção, de ferragens para obras. Na minha opinião, se eu fosse dono, eu já teria mandado embora esse motorista irresponsável. Agora tô assim, não sei quando poderei voltar ao trabalho. Sou casado, tenho família pra cuidar. Vou entrar na Justiça atrás dos meus direitos.

      Pois é! O pobre leva a pior quando se coloca ao lado dos ricos. Também não se sai nada bem quando busca seus direitos contra uma empresa poderosa, cheia de grana. Tudo porque ainda impera uma estrutura muito cruel, de colonização, na sociedade brasileira.

     Onde para tudo nesse inseguro mar?  No lagamar! Diz um ditado: "Nada, nada, nada... E morre na praia".

quarta-feira, 20 de maio de 2026

NADA, NADA, NADA...

 

Um copo - Arquivo JRS 

    No leito hospitalar, no mesmo quarto da minha filha, uma mulher bem desequilibrada falava um monte de coisas, mas não dizia nada, sempre com um aparelho celular na mão. Sua acompanhante, que dizia ser sua irmã, logo foi afirmando que era evangélica, das Testemunhas de Jeová. Na hora me deu uma angústia porque estou cansado de ouvir coisas descabidas, absurdas, desse tipo de gente que puxa assunto fora da realidade essencial. Até hoje, pouquíssimas das pessoas que me abordam buscando me converter são críticas, procuram expressar indignação perante as injustiças sociais. O mundo melhor para elas é outro mundo. Eu quero que este nosso mundo seja o melhor!

      Pois bem! A tal irmã acompanhante, num determinado momento, entre o falatório da outra doente que parecia flutuar em nuvens, afirmou uma "verdade" que, conforme os estudiosos mais significativos, provam qual país está por trás dessas igrejas, quem as financiam. Eis a verdade dela: "Lá no Irã as crianças são ensinadas a serem terroristas". Pensei no instante: uma pobre criatura, acompanhando outra semelhante num hospital público, que nem imagina onde fica esse país chamado Irã, está tomando partido de dois países que iniciaram uma guerra bem distante daqui bombardeando uma escola de  meninas  no  antigo

Império persa, matando quase duas centenas delas. A miséria cultural é evidente! "O pastor falou, é verdade". Neste nível, nesta disfunção cognitiva, jamais usarão as lentes apresentadas pela ciência. Apenas serão usadas para justificação de maldades mundo afora. 

    Eu, sujeito mediano, consigo entender que é a sede de expansão territorial e a cobiça pelo petróleo iraniano que está sendo disputado. Ao mesmo tempo, dominar aquele país é enfraquecer a China, poderosa  potência consumidora dos combustíveis derivados do óleo de pedra. 

 Basta de alienação!

    

segunda-feira, 18 de maio de 2026

ALFREDINHO

 

Capa de livro - Arquivo JRS 

     Fredy Kunz, mais conhecido por padre Alfredinho, fez da sua vida uma total entrega aos mais sofredores. Era comum ele estar pelas ruas dividindo espaço com quem fosse encontrando, querendo ao menos poder conversar e partilhar suas esperanças.  Por exemplo, em 1995,  na estação ferroviária Prefeito Saladino, em Santo André, ele escreveu:

      A casa de convivência tinha sido fechada. Os moradores de rua que lá estavam abrigados foram retirados dali e jogados embaixo desse viaduto. Quando cheguei, percebi que no mesmo local seis tendas de ciganos haviam sido montadas. Enrolei-me num cobertor e me encostei num lugar perto deles. O tempo estava nublado e frio. Passei horas assim sem chamar a atenção de ninguém. Qualquer iniciativa deve começar por um olhar silencioso. Os homens usavam botas e chapéus grandes. As mulheres vestiam saias compridas e cheias de cores. A criançada, seminua, brincava. Depois de muito tempo aproximou-se uma mulher para conversar:
        - Você é parecido com o meu pai, que era assim velhinho. Vem se arranchar em nossa tenda. Lá você pode almoçar, jantar, dormir. Vou lavar as suas roupas. E depois você vai com a gente pro Paraná.
        Agradeci muito e fiquei no mesmo lugar. Pouco depois veio uma criança me chamar para tomar café. Dessa vez aceitei e fui. Aproveitando a minha saída, as crianças fizeram a mudança das minhas coisas guardando-as embaixo da tenda. Querendo ou não, eu seria acolhido por eles. Pouco depois apareceu um bom prato de comida. Ganhei um grande cobertor. À noite tomaram vinho e começaram a cantar. Coisa estranha. Nem conhecia a música, nem entendia as palavras. Dias depois fizemos o batismo de duas crianças no meio do acampamento. Rezamos o pai-nosso de mãos dadas. No fim as mulheres fizeram duas chaleiras de café.
        Dias depois voltei novamente. Não havia mais ninguém. O que aconteceu com eles? Não sei!

     Pois é! O que dizer de tantos cristãos, até mesmo parentes meus, que querem assar devotamente aquelas pessoas que abraçam as causas sociais? Nesta lógica, Alfredinho, por toda vida, seria muito perseguido. Eis um grande exemplo de verdadeiro pastor!

quinta-feira, 14 de maio de 2026

UM DIA NO SACO

 

Saco das Bananas -  Arquivo JRS 

       Depois de um dia de muita correria, com a minha querida filha hospitalizada devido a um tombo na rua, me detive na imagem acima que tem mais de três décadas. Na ocasião, eu me encontrava na praia do Saco das Bananas, era hóspede do saudoso casal Dito Madalena e Constantina. No mar estavam as embarcações usadas nas pescarias e no transportes em geral (banana, farinha, materiais de construção, turistas etc.). Um pouco mais longe eu divisava a praia do Simão, também conhecida como Brava do Frade. Nesse tempo já nenhum caiçara habitava a paisagem do Simão, apenas vestígios ficaram como restos de histórias. João Araújo, os irmãos Quintino e Luiz Januário se foram por últimos. Os descendentes dos Garcêz e da Maria Jacinta saíram mundo afora entre os primeiros. No Saco das Bananas até a escola deixara de ter quem ensinasse as primeiras letras. As poucas crianças agora precisavam andar longa distância num péssimo caminho até a praia da Caçandoca para receberem a instrução básica. Gregório Crispim levou toda família para habitar longe de sua origem, à margem do rio Juqueriquerê, em Caraguatatuba. Teófilo e Palmira eram falecidos. Só a lembrança da acolhedora casinha deles entre bananeiras me deixava saudoso. 

     No dia distante dessa imagem, sem nenhuma companhia, fui até o Morro do Inhame para contemplar pela última vez os sinais, entre matos, de uma sala de aula, mas que também servia a outros eventos para a vizinhança (missa, bate-pé, reunião...). Uma carteira escolar, daquelas de dois lugares, ficara no capinzal como testemunha. Raras fotografias de uma comunidade que existia ali, preservadas por gente querida, me emocionarão pelo resto da vida.

   Pois é! A experiência de cada pessoa é única! Tia Livina costumava repetir esta máxima: "Quem viveu viveu. Quem não viveu ouvirá contar". 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

PÁTRIA LIVRE OU...

 

Nossa turma - 1971 -  Perequê-mirim - Arquivo Valda


      O ano era de 1972, eu estudava na terceira série primária, na aconchegante Escola Mista da praia do Perequê-mirim, bem na beira da rodovia que na época estava bem arborizada, com mínima edificação no entorno. Entre o edifício escolar e a estrada se encontrava o mastro da bandeira. Era onde, uma vez por semana, a bandeira nacional era hasteada. Nós, perfilados, cantávamos os hinos. Naquele ano escolar a minha turma começou aprendendo com o professor Oberdan, sendo logo substituído pelo professor Pedro Eurico. Ambos, bem como os demais mestres do minha fase primária (Olga, Valda, Osmildo) não eram naturais de Ubatuba como quase todos os que ensinavam naquele tempo. Apenas alguns anos depois foi aberto o curso de Magistério no colégio Capitão Deolindo.

    No ano de 1972 o país estava sob o regime dos governos militares. Nem perco tempo mencionando os nomes destes, mas tínhamos da saber de todos eles, inclusive os dos ministros, porque eram abordados em provas ou chamadas orais. A escola, distante uns 10 quilômetros da área urbana, foi convocada para o desfile no centro da cidade em comemoração aos 150 anos da independência do Brasil. Eram os festejos do sesquicentenário. Tudo se deu naquele ano na rua Coronel Domiciano. O percurso do evento tinha como ponto de partida o cruzamento entre o citado logradouro e a rua Professor Thomaz Galhardo e terminava na praça Nóbrega, na cadeia velha, o coração da cidade (onde estava o banco Novo Mundo, a rodoviária, o fórum, as lojas etc.). Bem cedo uma condução foi deslocada até o nosso bairro para nos levar ao evento. Em cada uma das crianças havia um misto de prazer pelo passeio e preocupação em cumprir bem a tarefa. Nenhuma delas deixava o encantamento para prestar atenção em qualquer discurso político. Somente as ordens do nosso professor importava. Nas nossas mãos, acenando sempre, uma bandeirinha da nação. Um grupamento do Exército, com alguns de seus equipamentos, se fazia presente no ato, se mostrava.

    Passou o tempo, cheguei ao ginasial. 1974, quinta série no Deolindo. Professores e professoras se revezavam nos horários das novas matérias. O regime militar estava em alta, sem nenhum arrefecimento. No  recinto, para manter a ordem, ser “os olhos dos homens”, estava postado o professor José Simeão. Diziam que era sargento do Exército, ensinava Educação Moral e Cívica e zelava pelo Centro Cívico (a “representação estudantil” permitida porque os Grêmios Estudantis deixaram de existir sob a ordem verde oliva vigente). Um hino patriótico dizia: “Ou ficar a Pátria livre ou morrer pelo Brasil”. Anos depois fui entendendo o que estava por detrás de tudo aquilo, daquele momento em que vivi, mas não era permitido enxergar.


domingo, 10 de maio de 2026

TELHADOS

 

Isaías Mendes, Jairo e João de Souza - Museu Caiçara - Arquivo Inês

Embarreamento do Rancho Caiçara - Arquivo JRS


    A minha família morava na praia do Perequê-mirim, na década de 1970. Eu era criança de tudo, estava no primeiro ano primário, aluno da professora Olga Ribas, quando ouvi uma prosa bem interessante em torno de telhados. Os dois, Dico Barreto e Nequinho Valentim, citavam algum conhecimento a respeito de telhas: para um deles a melhor telha era a plana, a famosa telha francesa (fabricada no Vale do Paraíba, na cidade de São José dos Campos, por Paulo Becker, um alemão naturalizado brasileiro. Diziam os mais velhos que ele veio para o Brasil a fim de se curar de um reumatismo. Não me perguntem como antigos caiçaras sabiam disso. Bem mais tarde, um de seus descendentes (Conrado Becker) veio a ser presidente da Fundação de Arte e Cultura, em Ubatuba), já na opinião do Dico, as telhas mais antigas eram as preferidas porque não necessitava de um enripamento rigoroso, pois elas não tinham garras, bastava ir espalhando sem deixar brechas, ajeitando o alinhamento só no beiral. “Tem também as telhas francesas que vêm de Caçapava, dos irmãos Quirino. São boas também”, completou o Nequinho. E por aí seguiu a prosa. Faz tempo que ambos, caiçaras estimados, são falecidos.

    Hoje, recordando dessa prosa ocorrida há mais de cinquenta anos, lembrei-me da tia Maria Mesquita, do tio Genésio, quando contou do maior sonho de quem queria se casar: ter uma canoa e uma casa de telha. Por quê? Porque a canoa, além de essencial na atividade pesqueira dos caiçaras, também era um meio de transporte muito necessário num tempo em que havia poucas estradas e quase nada de automóveis. Já a telha, era a garantia de uma moradia mais segura. Antes os pobres usavam apenas  sapê como cobertura de suas casas. Caso você encontre alguma fotografia aérea daquele tempo, até depois da metade do século XX, será possível divisar um quadrado marrom bem discreto rodeado de um terreiro. Era casa caiçara, com cobertura de sapê que durava no máximo quatorze anos se fosse bem feita, com palhas bem escolhidas e amarradas em madeiras devidamente selecionadas para resistir aos ventos e às chuvas tão abundantes nas décadas passadas. A técnica básica da construção caiçara era pau a pique e sapê, nossa herança tupinambá. Os moradores da praia da Fortaleza e adjacências, de acordo com o finado tio Salvador, iam até o mangue da Praia Dura para buscar as varas por serem mais resistentes. Outro recurso valioso eram as ripas de jiçara. Imbé e timbopeva eram os cipós mais usados. “Hoje os tempos são outros, tá tudo mais fácil”, dizem os bem vividos da nossa terra. É mesmo!

sábado, 9 de maio de 2026

VERDE E AMARELO

 

Flores  no quintal - Arquivo JRS 


     Muitos dos brasileiros se vestem de verde e amarelo para se identificarem como patriotas. Mas o que ser patriota? Ser patriota é defender a Pátria, o país que o acolheu. Ser patriota é, sobretudo, identificar os inimigos internos, na “roupagem de patriotas”.

     Inimigos internos são, principalmente, os que elaboram e aprovam leis contrárias à Pátria: facilitam que empresas estrangeiras  se apossem dos nossos bens, destroem as leis trabalhistas que garantem um mínimo de dignidade ao nosso povo, garantem mais exploração àqueles que já vivem às custas do suor alheio, criam mentiras para sustentar o domínio sobre a classe mais sofrida, defendem jogos viciantes, privatizam serviços essenciais (água, luz, saúde, educação...), acabam com leis de proteção ao meio ambiente, corrompem o poder judiciário, se apoderam de espaços públicos (praias, praças, matas etc.), promovem ideias alienantes, alimentam paraísos fiscais, combatem políticas de inclusão  e justiça social, perseguem as minorias sociais, elevam os desonestos, criminalizam ainda mais as periferias via polícia mal preparada, milícia, organização criminosa  e mais outras coisas terríveis.

     Os principais inimigos internos têm muitos aliados entre os pobres! Fico triste em ver tanta gente nossa ser envolvida numa onda perversa. Sob a designação de patriotas se situam muitos ingênuos úteis, mas também uma boa parcela maldosa. Quem reflete, percebe que esses “patriotas” precisam existir para serem usados por poucos privilegiados? São esses “patriotas” que sustentam as ideias contrárias à Pátria. Esse rebanho (iludido ou com más intenções) está contra a Pátria Brasileira, mas veste verde e amarelo!

     Foi no desfecho da independência do nosso país que essas cores se tornaram marcas da nação. De acordo com o historiador Paulo Rezzutti, no livro D.Leopoldina, essas cores representariam as duas linhagens monárquicas: a portuguesa (D. Pedro I) e a austríaca (D. Leopoldina). Foi no ato da coroação do primeiro  imperador do Brasil que “se juntaria ao verde heráldico  dos Braganças o amarelo dos Habsburgos, que ainda fazem parte das cores nacionais brasileiras. Foram oficializadas em 18 de setembro de 1822”. Portanto, o simbolismo verde-amarelo se sustenta em duas dinastias estrangeiras que se uniram em prol de uma única possibilidade: tornar o BRASIL uma NAÇÃO.

    Ainda segundo o citado pesquisador, o primeiro espetáculo nas cores verde e amarelo foi por ocasião da coroação de D. Pedro, onde “as mulheres vestidas de verde e amarelo jogavam de suas varandas flores à passagem dos novos soberanos”. Poético, né? Nada a ver com orações a pneu, sinais para alienígenas, marchas com políticos nada éticos, acampamentos estranhos e  outras bizarras manifestações. Nada a ver com pregações religiosas que apoiam injustiças!

sexta-feira, 8 de maio de 2026

O SENHOR NÃO SABE LER?

 

Canoa e canoeiros - Travessia Ubatuba-Santos - Arquivo internet


     Francisco Lopes é meu primo e compadre. Se aposentou como carpinteiro. Sempre gostou muito de escutar histórias e também de contá-las. Ah! Foi aluno do professor Joaquim Lauro, na escola do Itaguá.

    Joaquim Lauro, natural da cidade de Lorena, assim que se formou conseguiu emprego em Ubatuba. Era metade do século XX, tempo de raros professores nativos da beira do mar. Por isso esse mestre veio exercer a profissão e fixou moradia em chão caiçara. Sua casa sempre foi ali, na entrada da praia do Tenório, próximo do rio Acaraú. No portão havia uma placa: “Consulado de Lorena”. Os antigos alunos diziam que ele era rigoroso, bravo, sempre disposto a dar um corretivo imediatamente.

     Esse senhor que escolheu viver em Ubatuba pelo resto da vida é sempre lembrado por incentivar as corridas de canoas caiçaras, cujo grande momento foi a longa travessia Ubatuba a Santos, em 1973, para comemorar um fato histórico ocorrido em 1563, no território Tupinambá: a contraditória “Paz de Iperoig”. Cinco remadores (Artur Alexandrino, Carrinho, Jango, Barrosinho e Nilo Vieira) conduziram a canoa Maria Comprida por mais de 200 quilômetros na linda costa atlântica. O ponto de partida foi defronte a capela Nossa Senhora das Dores, no Itaguá. Depois disso muitas outras provas aconteceram e muita gente se destacou nas remadas. Hoje vamos conhecer, via Chico Lopes, um fato que se deu numa dessas ocasiões festivas do povo caiçara.

 

    Era tempo de regata de canoas no Itaguá. Importantes prêmios seriam distribuídos aos melhores classificados. Joaquim Lauro era exigente, meticuloso nos detalhes e nas regras. Todas as embarcações precisavam ter nomes bem legíveis. Martiniano, um dos competidores, sendo analfabeto de tudo, recorreu ao Chico Preto, filho do Velho Rita, para marcar a sua canoa emborcada logo ali. Assim ficou bem legível na proa: AURORA.  Se aproximando o momento da prova, com algumas canoas ainda sendo desviradas e puxadas do jundu, o professor Joaquim Lauro saiu conferindo tudo. Ao chegar junto do Martiniano, perguntou:

     - Qual o nome da sua canoa?

     A resposta imediata foi:

     - AURORA, o senhor não sabe ler?

     Você consegue imaginar a estrondosa gargalhada de quem estava por perto?


Explicação do mano Mingo: o nome da canoa foi escrito pelo Chico Preto quando ela estava emborcada. Ao ser desvirada, o nome AURORA  ficou de ponta cabeça, difícil de decifrar. As risadas se deram porque era um analfabeto interpelando um professor.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

SENTIDOS, MARESIA...

 


TUNICANA, a canoa - Arquivo JRS


    O veterano Bidinho pesca, cria mariscos e negocia outros produtos provenientes do mar. Dias desses fui lhe fazer uma visita. Uma estradinha simples desce da rodovia para a praia. No jundu, bem dizer na área de mangue, está a sua casa. Entrando na propriedade eu noto algumas mudanças no solo por estratégia desse pescador que resiste ao tempo: deitou madeiras, fez quadrados no chão para produzir verduras sem desmatar quase nada. Ali vai enterrando conchas, limo retirado das cordas, cisco da varredura do lagamar, cabeças e tripas de peixes. Era terra pouco fértil que vai sendo melhorada. Ao chegar na casa, bem na beira da barra, avisto água e o mangue preservado por ali. Sua esposa me atende, despacha mensagem de que eu havia chegado. Duas outras mulheres se apresentam, aparentam serem  irmãs da dona da casa. Enquanto aguardo o meu amigo, aprecio a movimentação de camaradas, parceiros dele, também pescadores resistentes. Uma caixa de vidro retangular relativamente comprida mantém espécies vivas que atraem curiosos e fregueses. Um comércio no jundu: fácil acesso a todos, dinamiza as vendas. Avisto o Bidinho na areia com outros parceiros: vêm trazendo, numa carretinha, uma canoa. Vou ao encontro deles. Chegaram da área das boias, do campo da maricultura no largo. Algumas cordas de mariscos estão dentro das canoas para serem debulhadas. Certamente que tem gente já aguardando os bonitos mexilhões cultivados por essa turma.

    Enquanto o meu amigo pescador dava orientações aos mais próximos, me postei contemplando as canoas do entorno: bonitas, com nomes significativos: Aurora, Pedra Redonda, Badejo, Brisa... Lembrei-me de outras: Tunicana, Rosinha, Mundé... Recorri, então, a um texto do estimado Santiago:

Um barco chamado Pedro: Os nomes dos barcos. Cada pescador batiza sua embarcação e anseia proteção nas águas. Nome de bicho, de árvore, nome de gente, de santo e de santa, nome inventado, nome antigo. Dar nome a uma embarcação é torná-la viva.

      Pois é! Assim, tal como a viração de fora daquele momento me envolvia com cheiro da maresia, esses fragmentos em nossos sentidos nos alimentam, compõem-se no nosso ser, na nossa cultura.

sábado, 2 de maio de 2026

SÓ QUERIA VOLTAR PARA CASA

 

Maré baixa - Arquivo Santiago


     Ao compartilhar o texto COITADO DO BAGANA com o estimado Santiago, o  escritor do Cambury, recebi a seguinte contribuição ao meu ser:


    Quantos caiçaras perderam seu caminho do mar para o caminho das ruas... Uma vez, estava na casa que minha companheira morava, no Itaguá, escrevendo um trecho do COIVARA [livro recente], uma parte que falava sobre caça. Tocaram a campainha interrompendo o trabalho, mas eu parei e fui atender. Era um jovem com uma pequena mochila. Contou que tinha sido destratado pouco antes ao contar sua história e pedir algum dinheiro em troca de limpar o mato.

    A história: ele tinha acabado de ser solto da cadeia e estava voltando pra casa, no Sertão do Ubatumirim. Caiçara. Contou que tinha sido preso por caça. Na verdade nem foi pego com caça, mas com arma sem porte. Levaram. Falou vários nomes do Ubatumirim, contou que o avô morreu na praia do Itaguá. Infartou. Ele queria cinco reais pra pegar o ônibus e voltar. Enxotaram ele. Ele nem precisava contar a verdade, mas fluía naturalmente no jeito caiçara de contar as coisas, com sinceridade e até uma inocência. Sorria. Eu não lembro o nome dele. Dei um café com biscoito, era o que tinha, mas ele nem pediu comida. Só o dinheiro da passagem em troca do servicinho de limpar o mato da calçada. Depois foi embora sorrindo. Eu fiquei pensativo. Estava escrevendo justamente sobre caça, um pequeno trecho. Ele ficou um ano e pouco preso. Só queria voltar pro seu lugar. Turistas o destrataram, xingaram. Ele não ligou. Saiu andando. Até hoje penso sobre esse dia, esse momento. Sua crônica me fez lembrar desse dia. Ele poderia ter se tornado outra coisa na cadeia por uma imposição violenta do sistema que massacra culturas e relega às margens de seu próprio território. Mas ele só queria voltar para casa... E mesmo sua casa já não era mais a mesma, sofrendo essas agruras da desterritoriolização e invasão do capital imobiliário.

Gratidão, Santi!

sexta-feira, 1 de maio de 2026

COITADO DO BAGANA

 

Horizonte - Arquivo Ana


     Era um sábado, bem cedo cheguei no ponto de ônibus. Mais cedo ainda havia chegado alguém. Pelo jeito, a verdade mesmo seria que ele passou a noite ali. Assim estava calçado de chinelos, com uma mochila surrada demais, roupas sujas e um cheiro característico que o denunciava. “Coitado, é um morador de rua. Jovem ainda, mais uma vítima do sistema”. Assim que ele percebeu a minha presença, puxou conversa. Foi então que eu o reconheci de outros tempos, de quando eu trabalhava com meu pai pelas obras. “É da praia do Lázaro, caiçara como eu. Que situação triste”. O pai  dele, assim como o meu, era pescador-carpinteiro. A família, pelo que me lembro, era bem religiosa, evangélica, frequentava uma grande igreja local. “Como a congregação deixou um de seus membros decair tanto assim?”. Lembrei-me de uma observação do Jorge Ivam acerca  de certas doutrinas capazes de conseguir incutir ideias que desenraizam as pessoas e deixam elas como arbustos secos. Seria o caso dele?

    O cidadão em questão, agora não mais tão jovem, trabalhava com o pai. Portanto, sabe lidar com madeiras, entende de construção. “Como será que chegou a esta situação, de morar nas ruas?”. Fiz de conta que nem percebi a condição sofrível dele, continuei na prosa mais escutando do que falando.

   - Estou indo para a chácara da minha irmã, vou fazer um galinheiro lá. Devo passar uns dias com ela.

   Ainda bem que ele ainda mantém laços com familiares, não fica o tempo todo na insegurança das ruas, correndo o risco até de ser morto por “gente de bem”, que se acha superior, com direito até de recorrer a métodos extremos para limpar a cidade. Entre assuntos fúteis, de personalidades ricaças mostradas nas mídias (Silvio Santos, Neymar etc.), o nosso empobrecido personagem relembrou a morte do Bagana, caiçara da mesma praia que ele.

   - Coitado do Bagana, né? Antes do almoço ele foi pescar na costeira como tava acostumado. Foi sozinho. A mulher, sentindo a sua demora, ficou preocupada. Seu filho, o Fabinho, que sabia que ele tinha ido na direção da Aguadinha, disse pra mãe que iria procurar lá. E naquele lugar da costeira encontrou o Bagana morto, caído lá embaixo nas pedras. Parece que o cipó que ele se agarrou para passar de uma pedra pra outra não aguentou, arrebentou. Tava morto lá embaixo. Coitado do Bagana que tanto adorava samba.

    Fiquei impressionado com aquele morador de rua, caiçara que, constatando a vida que leva, não teve forças perante alguma passagem muito ruim na vida. De maneira tranquila ele fez questão de, naquela minha primeira prosa do amanhecer, relembrar da morte do estimado pescador Bagana. Em seguida se despediu de mim e seguiu o caminho que tinha em mente.  Nem pude lhe oferecer um café porque a cidade ainda dormia.