sexta-feira, 1 de maio de 2026

COITADO DO BAGANA

 

Horizonte - Arquivo Ana


     Era um sábado, bem cedo cheguei no ponto de ônibus. Mais cedo ainda havia chegado alguém. Pelo jeito, a verdade mesmo seria que ele passou a noite ali. Assim estava calçado de chinelos, com uma mochila surrada demais, roupas sujas e um cheiro característico que o denunciava. “Coitado, é um morador de rua. Jovem ainda, mais uma vítima do sistema”. Assim que ele percebeu a minha presença, puxou conversa. Foi então que eu o reconheci de outros tempos, de quando eu trabalhava com meu pai pelas obras. “É da praia do Lázaro, caiçara como eu. Que situação triste”. O pai  dele, assim como o meu, era pescador-carpinteiro. A família, pelo que me lembro, era bem religiosa, evangélica, frequentava uma grande igreja local. “Como a congregação deixou um de seus membros decair tanto assim?”. Lembrei-me de uma observação do Jorge Ivam acerca  de certas doutrinas capazes de conseguir incutir ideias que desenraizam as pessoas e deixam elas como arbustos secos. Seria o caso dele?

    O cidadão em questão, agora não mais tão jovem, trabalhava com o pai. Portanto, sabe lidar com madeiras, entende de construção. “Como será que chegou a esta situação, de morar nas ruas?”. Fiz de conta que nem percebi a condição sofrível dele, continuei na prosa mais escutando do que falando.

   - Estou indo para a chácara da minha irmã, vou fazer um galinheiro lá. Devo passar uns dias com ela.

   Ainda bem que ele ainda mantém laços com familiares, não fica o tempo todo na insegurança das ruas, correndo o risco até de ser morto por “gente de bem”, que se acha superior, com direito até de recorrer a métodos extremos para limpar a cidade. Entre assuntos fúteis, de personalidades ricaças mostradas nas mídias (Silvio Santos, Neymar etc.), o nosso empobrecido personagem relembrou a morte do Bagana, caiçara da mesma praia que ele.

   - Coitado do Bagana, né? Antes do almoço ele foi pescar na costeira como tava acostumado. Foi sozinho. A mulher, sentindo a sua demora, ficou preocupada. Seu filho, o Fabinho, que sabia que ele tinha ido na direção da Aguadinha, disse pra mãe que iria procurar lá. E naquele lugar da costeira encontrou o Bagana morto, caído lá embaixo nas pedras. Parece que o cipó que ele se agarrou para passar de uma pedra pra outra não aguentou, arrebentou. Tava morto lá embaixo. Coitado do Bagana.

    Fiquei impressionado com aquele morador de rua, caiçara que, constatando a vida que leva, não teve forças perante alguma passagem muito ruim na vida. De maneira tranquila ele fez questão de, naquela minha primeira prosa do amanhecer, relembrar da morte do estimado pescador Bagana. Em seguida se despediu de mim e seguiu o caminho que tinha em mente.  Nem pude lhe oferecer um café porque a cidade ainda dormia.