domingo, 24 de fevereiro de 2019

ADEUS, NENÊ


             Hoje participei do velório do Nenê. Por isso estou reeditando esta história. Meus pêsames aos seus filhos, netos e demais parentes.


         Na adolescência, quando comecei trabalhar num bar, “topei” com a “mardita” Ubatubana, a substituta daquela  produzida por Thomaz Cancer. Quem revendia o produto, em dúzia de litros acondicionados em engradados de madeira, era o Zezé da Antárctica, irmão do Ditinho Jati. Era cheirosa a danada! O rótulo estampava uma embarcação puxada numa prainha, tendo ao fundo uma ponta sobre o mar e morros verdejantes. Essa pinga cheirosa da nossa terra se apresentava como “branquinha” ou “amarelinha”. Os turistas faziam questão de comprar litros e litros. Diziam: “Essa é da boa!”  Depois, com a chegada das aguardentes industrializadas (Riopedrense, 51, Tatuzinho etc.), foi-se a famosa Ubatubana.

                Demorou tempo para que eu conhecesse melhor alguns dos Chiéus, os fabricantes desse produto que, desde 1978, deixou de ser produzido ali perto da ponte da estrada do Monte Valério, na Fazenda Velha. Então, passei a alimentar um desejo: saber mais coisa, ouvir a história desse pessoal e do engenho de pinga que faz parte da memória de Ubatuba (e dos ubatubanos!). Finalmente me encontrei com o Umberto Chiéus, o “Nenê”. Era sábado. Conforme me garantiu o Arnaldo, seu filho: “Todos os dias, a partir das sete horas, ele já está no mato. É a rotina dele. Ele vai gostar de conversar com você a respeito da fazenda”. Assim, com uma boa disposição, quase completando os oitenta e três anos, ele contou:

                O meu pai era Domingos Chiéus, italiano que morava em Piracicaba. Por indicação de Alexandre Malfatti, irmão da famosa Anita, ele veio trabalhar nesta fazenda em 1928. A proprietária na época era a Francisca. O primeiro dono tinha sido o Thomaz Cancer, seu filho. [Neste momento ele mostrou a chapa de cobre vazada, usada na identificação do fabricante nos barris]. Depois, tudo passou à Rafaela (que também era filha da dona Francisca).

                Éramos seis irmãos: Roberto, Augusto, Domingos, Gilberto, Umberto e Antônio. Só eu e o Antônio nascemos em Ubatuba. Somos caiçaras! Após a morte de nosso pai, estávamos resolvidos a deixar esta cidade porque apresentava uma mínima possibilidade de crescimento econômico. Foi quando a dona Rafaela quis vender as terras (aproximadamente duzentos hectares) para nós. A fazenda fazia parte da gente. Nós a compramos.  Desde 1952 ela nos pertence.

                A área de plantação de cana ocupava cerca de vinte e cinco hectares. Equivale aos terrenos do Jardim Carolina e do Jardim Samambaia. A produção era boa. Chegamos a ter até dez trabalhadores nos bons tempos de produção, por volta de 1970. A pinga produzida aqui tinha uma boa aceitação na cidade, mas a gente também vendia para fora (São Luiz do Paraitinga, Taubaté...). No tempo da safra, às quatro horas da madrugada nós já vínhamos para o engenho. A produção girava em torno de mil litros por dia. A capacidade de depósito era para mais de cento e vinte mil litros. Você imagina isso?

                A entrega era feita pelo próprio engenho. O lugar mais longe, ainda lembro bem, era no armazém do Maciel, na Enseada. Duas pessoas a cavalo saíam no amanhecer. A carga seguia de cargueiro: dois burros, abarrotados de litros entre palhas, seguiam a “Trilha da Ferrovia” até o Itaguá. Depois atravessavam a Praia Grande e a Toninhas, sempre pelo lagamar. Então subiam o morrão e desciam a estrada para a praia, onde ficava o maior armazém daquele tempo. Diziam que o Maciel tinha os melhores preços. Só sei dizer que, por volta das duas horas da tarde o pessoal estava de volta, na fazenda. 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

ORALIDADE E HISTÓRIA

Escutando o meu povo (Arquivo JRS)

                                Me parece que hoje em dia nem os pais contam histórias aos seus filhos. Porém, o texto do professor Diegues parece nos relembrar que sem memória ninguém propõem nada, só copia. Que tristeza!
               A sociedade caiçara, assim como outras populações tradicionais não urbanas são marcadas pela oralidade, e raramente deixam marcas escritas. A sua história pode ser recuperada pela memória dos mais velhos e transmitida às gerações seguintes por relator orais. Daí a importância de se recuperar, pela História Oral e pela memória, o que ocorreu e que está ocorrendo nas vidas dos caiçaras, marcadas, em geral, pela raridade dos documentos históricos.
               Paul Ricoeur (2002) afirma que é necessário se defender a ambição da memória em ser fiel ao passado, objetivo talvez inatingível mas que
“constitui a dimensão que chamaria de verídica da memória, com o que quero denotar sua relação fundamental com a verdade daquilo que já não existe, mas que existiu anteriormente” (p. 26).
               Ricoeur refere-se a duas etapas na aspiração da memória à verdade a fim de mostrar como essa aporia ou problema insolúvel se projeta no discurso histórico. A primeira etapa é a do testemunho, de enorme importância da vida social, tanto nos tribunais, na história e sobretudo na vida cotidiana, sendo considerada por ele como uma categoria de conversação. O testemunho é uma declaração de que o que está sendo contado existiu, porque foi presenciado pelo que narra o ocorrido e pode ser confrontado com outros testemunhos. Nesse confronto crítico, segundo Ricoeur, encontramo-nos no umbral da história.

               A segunda etapa é a do documento, em que se passa da memória individual para a memória coletiva, trânsito legítimo para Ricoeur, uma vez que, graças à linguagem, as memórias individuais superpõem-se à memória coletiva. Dizer que nos lembramos de algo é declarar que vimos, escutamos, sabemos ou apreendemos algo, e essa lembrança se expressa na linguagem de todos, inserindo-se assim, ao mesmo tempo, na memória coletiva. O documento marca, para o autor, a transposição da memória e do testemunho para a escritura.

               Para Ricoeur, o documento é, em primeiro lugar, uma memória coletiva arquivada, pois é um conjunto de testemunhos vividos. No entanto, hoje, a noção de documento é mais amplo do que a do testemunho, pois incorpora também os fatos recorrentes,  tudo o que se pode incluir nas estatísticas, sem esquecer todos os outros vestígios. Para o autor, existe também a história da memória, na qual a história amplia a memória no espaço e no tempo, ajuntando outros temas ao seu objeto, dando origem a uma história política, social, econômica, cultural.

               Ricoeur termina seu texto afirmando que “o que honramos do passado não é o fato de que já não exista, mas o fato de que existiu uma vez. Então a mensagem da história à memória, do historiador ao homem da memória é o de agregar ao trabalho da memória não somente o lamento de que já não existem, mas a dívida para com o que existiu” (2002, p.28).

               É o que se depreende da distinção feita por Jean Duvignaud: memória histórica “supõe a reconstrução dos dados fornecidos pelo presente da vida social e projetada no passado reinventado”; memória coletiva é “aquela que recompõe magicamente o passado” (Grossi & Ferreira, p. 67).

               Para Halbwachs é por meio da memória histórica que se unem a memória e a história.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

HISTÓRIA E MEMÓRIA CAIÇARA

Na camiseta (Arquivo JRS)


               Com este título, o professor Diegues (Antônio Carlos Diegues), abre o volume IV da Enciclopédia Caiçara:

               Caiçaras ou praianos do litoral sudeste brasileiro raramente aparecem nos arquivos e documentos históricos. É como se eles nunca tivessem existido e mesmo historiadores locais raramente se referem a eles, à gente dos sítios. Em alguns dicionários o termo caiçara é associado à pessoa indolente, preguiçosa. Até documentos recentes que se referem, por exemplo, à criação de áreas protegidas e reservas naturais em territórios sabidamente habitados por caiçaras, os ignoram ou, às vezes, os classificam como “bons selvagens”, pessoas que viveriam imersas na natureza, sem direitos de cidadania.

               Os caiçaras fazem parte das populações brasileiras pobres e marginalizadas, apesar de terem mantido relações sociais e econômicas com as cidades da região.
História Oral e Excluídos

               Tonglet (2002) se interroga se os pobres têm história e se o próprio fato de se formular essa pergunta não é um sinal que confirma sua exclusão da sociedade. Para ele, encontrar o lugar dos pobres na história não é coisa fácil, pois os arquivos guardam somente os relatos escritos e os pobres raramente deixaram esses relatos. Hannah Arendt (1967) fala dos pobres como condenados a viver na sombra e afirma que a verdadeira marca da pobreza, mais que a própria miséria, é sua invisibilidade histórica.

               Tonglet (2002) afirma, no entanto que os pobres têm uma história, pertencem a uma história e “fazem história na medida em que os reconhecemos como atores na construção de nosso futuro comum” (p.55).
               Para Perrot (2002), o silêncio rodeia a vida dos humildes e marginais, mas esquecê-los é uma forma de negar sua existência, o que explica o desejo legítimo de reconstruir sua história. Para ela, o que não foi objeto de um relato não existe. Esse parece ser o caso dos caiçaras.
               Para os historiadores ligados aos Annales, uma nova História, livre de procedimentos rígidos, em que a história do presente, do cotidiano e da experiência individual adquiriram significativa importância, incorporou o tema da oralidade e da memória que, juntamente com o da cultura, passou a ser para os historiadores um desafio e motivo de renovada criação, como atestam os trabalhos de Braudel, Le Goff, Thompson e Keith Tomas entre outros.
               No Brasil, na década de 70, a História Oral servia quase que exclusivamente para trabalhar com as comunidades dominadas, isto é, as que, por motivos mais que conhecidos, não tiveram oportunidade de ter suas histórias registradas, por não fazerem parte das elites dominantes. Havia a dicotomia entre a chamada história oficial e a não oficial e, esta sim, poderia oferecer um universo próprio para ser explorado através da História Oral (Correa, 1996, p.63).
               O desenvolvimento recente da chamada História Oral como método de pesquisa, recomendado também por cientistas sociais, desejosos de enriquecer o conhecimento com experiências vividas e de romper com o caráter unilateral das memórias oficiais, tem permitido um conhecimento mais aprofundado de populações tradicionais, como os caiçaras, seu modo de vida e sua história.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

MUITO AGRADECIDO, ADÃO!

Desembarque de peixes no Caisão  de Ubatuba (Arte: Da Motta -Arquivo JRS)


               No começo da década de 1980, no Bazar do Compadre, eu conheci Adão. Mais tarde soube que ele está em Ubatuba desde 1976, quando veio de Caraguá. Grande Adão! Desde que o conheci, sempre esteve no comércio de artesanato, com loja bem ao lado da Igreja Matriz. De certa forma, a sua loja era um dos nossos pontos de encontro para boas prosas. Agora, já tem um tempinho, Adão se aposentou, curte a sua moradia, a sua moto e as suas plantas... De vez em quando sai para uma pescaria, sua grande paixão. Dias atrás, conforme o prometido há muito tempo, fui lhe fazer uma visita. Conversamos de tudo, vimos fotografias antigas, recordamos de muita gente boa e de muitos momentos bons que vivemos. É bom ter amigo assim!

               Adão também sempre produziu artesanato em conchas. Tem um estoque delas em casa, nas prateleiras, mas diz que atualmente não está compensando negociar. “Pode ser que um dia eu volte a fazer os meus trabalhos. Tá tudo aí guardado”. De repente me veio à mente que, era na loja dele que eu adquiri alguns trabalhos do saudoso Mestre Da Motta, sempre na intenção de presentear pessoas especiais. “Da Motta era o meu preferido. O seu estilo, as tintas, as cenas da nossa realidade, da nossa cultura”. Então perguntei ao Adão se ele tinha ainda algum trabalho do Da Motta. “Tenho dois quadros que estão com o Rui. Ah! Tenho outro aqui, mas só a tela, pois a madeira se estragou”. E nesse momento vai até o cômodo ao lado à procura da relíquia. Logo volta e me estende uma tela: “É para você. Até hoje eu não tive oportunidade de esticá-lo, mas está perfeito. Com você eu sei que estará em boas mãos”. Eu me emocionei ao receber o presente. Trata-se de uma pintura, da paisagem do Caisão, provavelmente do final da década de 1970 ou começo de 1980, quando era desembarcado pescado ali, principalmente sardinhas. As pessoas, sobretudo os mais pobres, iam até lá e ganhavam peixes dos embarcadistas. Eram balaios e mais balaios lançados dos porões para serem repartidos sobre o cais. As pessoas saiam com sacolas e balaios abarrotados, bem felizes.
               Agora a estimada imagem está na minha parede. Valeu, Adão! Viva o nosso Da Motta!