domingo, 31 de julho de 2011

Máximo, o Cine

Vista da cidade de Caraguatatuba
Praia do Canto do Camaroeiro - fotos: Thales Stadler e outros

            O primeiro “cinema de luxo” do Litoral Norte, nomeado de Máximo,  passou a funcionar em Caraguatatuba, na década de 1960. Atualmente, após duas décadas desativado, quando passo defronte ao prédio, sinto uma dor no  coração devido ao seu lastimável estado.
            O Cine Máximo e o Cine Iperoig, este na Praça da Matriz de Ubatuba, se constituiram como espaços culturais e de lazer das gerações de caiçaras.
            Do espaço do Cine Máximo, narro o causo seguinte através da fala do finado Aristeu Quintino, caiçara da Ilha do Tamanduá:
            “Quando inauguraram o cinema em Caraguá, eu já era quase casado. Logo os comentários chegaram na roça, na Praia da Tabatinga, onde eu passei um tempo morando com o titio Barra Seca. Diziam que era uma coisa maravilhosa, onde o  mundo o mundo todo passava na tela de pano da parede. Quem não queria comprovar?!
            Numa ocasião, o tio Olívio e o Teófilo Crispim foram até a cidade com a canoa abarrotada de coisas para negociar. Chegaram no Canto do Camaroeiro, puxaram a canoa até meia praia e venderam tudo que tinham levado. Depois, sabendo de uma sessão que começaria às seis da tarde, os dois adiaram o retorno para assistir a fita. Deram sorte. Estava em exibição Fúria de Titãs. De fato, tudo aquilo era maravilhoso! Os assentos eram macios... as imagens eram quase reais! Foi no momento das grandes ondas provocadas por um monstro que o instinto de pescador falou mais alto: o tio Olívio, assustado com a fúria do mar, puxou o  outro lembrando que a canoa deles tinha ficado quase no lagamar, que nem era preciso onda tão grande para arrastá-la. Saíram correndo; logo estavam no jundu. A surpresa veio então: tudo era uma calmaria, com uma lua brilhante iluminando tudo. O tempo bravo estava na tela. Fazer o quê? O jeito foi voltar para casa desapontados e com uma certa vergonha”.
             É! De fato o cinema era o máximo!

sábado, 30 de julho de 2011

“Malempregado ólhio!”

               
                É conhecida a fama de pão duro, de sovina e usurário do finado João Glorioso, caiçara da Praia do Saco da Ribeira. Eu o conheci, mas somente de vista. Porém, os causos sobre ele são muitos. Até os dias de hoje ainda escuto causos inéditos desse personagem. Na semana passada, o Álvaro assim me descreveu uma situação:

                - Você conheceu o João Glorioso? Sabe do causo dos ovos? Foi assim: depois de comprar dois ovos na venda, se dirigiu para casa a fim de prepará-los como mistura no almoço. Derreteu uma colher pequena de banha na fritadeira; em seguida quebrou os dois ovos. Por azar, um deles estava estragado. Na mesma hora, pegando a fritadeira, foi mostrar ao vendedor o ocorrido. Explicou tudo, mas fez questão de dizer que não era por causa dos dois ovos que tinha ido reclamar. Isso era o de menos! Caro mesmo era o óleo desperdiçado.  O dono da venda não quis saber de mais explicações; logo entregou outros dois ovos. Deve ter pensado assim: com gente assim não adianta dizer nada. João Glorioso ficou satisfeito, mas encerrou o assunto com uma expressão desgostosa:
                “Malempregado ólhio!”

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Brejaúba assombrada



Manoel Hilário, quando já passava dos oitenta anos, afirmou que assombração – ou “coisa ruim” – existe sim. Ele contou assim:
“Numa ocasião, seria agosto ou setembro, eu e o Toninho Manduca saímos para o mato, pra tirar coco brejaúba, aquele de planta repleta de espinhos pontiagudos e compridos, perigoso mesmo! Encontramos uma touceira com alguns cachos bonitos. Estocamos com uma vara, derrubamos alguns cocos para experimentar se estavam bons. Estavam no ponto. Pegamos o facão e usamos uma raiz de figueira para apoiar e cortar os frutos. Nisso escutei um assobio forte, mas bem fininho. Depois escutei mais uma vez e me arrepiei todo. Olhei assustado para o Manduca e perguntei se ele tinha escutado. Ele estava pálido e arrepiado como eu. Então outro assobio começou e se prolongou mais que os outros, e uma voz esquisita ecoou bem próximo de nós. Olhamos para o lado dos coqueiros de brejaúba e vimos uma coisa assombrosa: havia uma figura humana barbuda e cabeluda, bem no meio dos espinhos da touceira. Ora, aquilo é fechado, não tem jeito de gente viva entrar naquele espinheiro. E o assobio, que entrava até na alma da gente? Aquilo só podia ser coisa ruim. Disparamos a correr pra casa largando lá mesmo os cocos, facão e até os chinelos”.
Manoel Hilário terminou a história com os olhos arregalados como se tivesse acabado de ver aquela misteriosa figura.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Vizinhos e História (III)

               
                Os indígenas desta região, da antiga aldeia de Iperoig e de outras do mesmo grupo (Tupinambá), na terceira década do século XVI,  começaram a ser aprisionados para o trabalho escravo nos engenhos da Baixada Santista, mais especificamente nas fazendas de Martim Afonso de Souza, Bráz Cubas e outros. Nesse trabalho, foi fundamental aos portugueses se aliarem aos tupiniquins, inimigos naturais dos primeiros.
                As péssimas condições, que causavam tantos sofrimentos e mortes aos nativos, deram origem ao movimento hoje conhecido como Confederação dos Tamoios. Segundo os historiadores, foi a primeira organização do gênero (resistência aos invasores europeus) em toda a América.
                As aldeias do ramo Tupinambá se uniram primeiro, mas logo convidaram outros grupos. Afinal, eles eram os primeiros da terra, os mais antigos (tamuya). Tinham que lutar por aquilo que era deles, que era garantia de dignidade. De certa forma, podemos dizer que um pequeno grupo de franceses do Rio de Janeiro também dava apoio aos índios nesse propósito. Vale relembrar: não eram somente os portugueses que estavam tão ávidos por lucros sobre estas terras e os moradores daqui.
                Depois de muitas lutas, onde, contra o poder armado dos portugueses, valia muito o conhecimento do espaço físico e a familiaridade com a natureza (principal característica dos indígenas), houve o apelo para a Igreja. Foi quando entraram em cena os padres Anchieta e Nóbrega.
                Na verdade, os padres já tinham certo prestígio junto aos indígenas; tinham conseguido isso se inteirando do mundo mítico dos indígenas (relembro a Terra sem Males) e se aproveitando do assistencialismo que marcou e marca até hoje a sociedade brasileira.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Vizinhos e História (II)


         Na primeira parte fiz questão de ilustrar com xilogravura do próprio livro de Hans Staden, publicado em 1557. Nela podemos colocar uma questão importante, principalmente pelos rumos históricos (ou mentiras?) que dizem respeito à nossa cidade de Ubatuba. Afinal, é evidente que a aldeia, para onde conduziram o artilheiro alemão, está defronte de uma ilha por nome de Ippaun Wasu, ou Ilha Grande. Portanto, é lógico que o território em questão está na Baía de Angra, ou um pouco mais além tendo como referência o nosso município .Desta aldeia era o grande líder Cunhambebe. O texto, ao determinar a distância entre as localidades, também confirma isso no capítulo 40:
         “Cerca de oito dias antes do início da expedição guerreira, chegou um navio francês em um porto, que dista oito milhas de Ubatuba, ao qual os portugueses chamam Rio de Janeiro, e os índios, Niterói. Aí costumam os franceses fazer carregamento de pau-brasil. Vieram num  bote também até a nossa aldeia e compraram dos índios pimenta, macacos e papagaios (...)” .
         Por que será que a nossa Ubatuba (a Outra, ou a aldeia de Iperoig das margens do Rio Ubatuba) buscou se tornar o palco da história de Hans Staden?
         De uma coisa podemos ter certeza: os antigos senhores (e os historiadores) conseguiram em parte os seus propósitos somente porque a cidade teve uma importância econômica muito grande.
         A partir de 1532 (data da fundação de São Vicente), os portugueses começaram a instalar nas terras brasileiras as primeiras fazendas que inauguraram o ciclo da cana-de-açúcar. O território passou a ter importância econômica. Adivinha quem era a mão-de-obra mais barata?
         Você acertou se disse os indígenas.
         Começa o fim do endeusamento dos portugueses.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Vizinhos e História (I)


         Os meus vizinhos Jean e Lucimar, num dia desses, depois de irem a um restaurante no centro da cidade, trouxeram um folheto que citava o alemão Hans Staden e a sua passagem por aqui no século XVI. Acharam ótima a ideia do comerciante (talvez outros pudessem imitar o estabelecimento que através daquela história se divulgava) e deram-me a sugestão de falar um pouco mais sobre esse e tantos outros aspectos da História de Ubatuba.  Então, dentro do espírito deste blog, conforme apresentação na página inicial desde o primeiro incentivo doméstico, estou “pincelando causos e fatos” que permitem entender cada vez mais o universo caiçara.
         Neste território, hoje conhecido como Ubatuba, viviam, na época da invasão portuguesa, francesa, holandesa etc., os índios  Tupinambá que, segundo os historiadores, ocupavam uma faixa de terra desde esta região até a Baía da Guanabara (RJ). Tinham como vizinhos, ao Sul, mais precisamente na Baixada Santista, o grupo Tupiniquim. Ao Norte, na porção dos lagos fluminenses, os limites eram com a nação Goitacaz. Outros vizinhos mais do interior, do planalto: Aimoré, Tremembé, Goianá, Camanducaia etc.
         Todos esses grupos indígenas viviam numa sociedade primitiva, num modelo que não conhecia outro modo de produção que não fosse o de caça e coleta, além da mínima cultura de subsistência. Isso vale dizer que não tinham a preocupação em acumular, em edificar monumentos ou escravizar outros povos para obter riquezas.  
         Os povos indígenas da costa brasileira, por serem de origem Tupi, tinham um mito em comum: a crença numa Terra sem males. Isto prova que todos os seres humanos idealizam uma situação de vida para  justificar a sua existência. É de onde decorrem as divindades, os rituais e a produção cultural que irão possibilitar o acesso ao paraíso sonhado nos primórdios.
         Onde poderia estar a Terra sem males?
         A lógica é simples: se o Sol é o bem maior que os homens têm, aquele que permite a vida para tudo, então é natural cultuá-lo como a suma divindade. Mas onde é a moradia desse deus, a sua casa que é o paraíso? Perseguindo essa busca, os grupos nômades chegaram à margem do grande mar (Atlântico); não havia como avançar mais. Foi o que os fez se fixarem por aqui, mais próximo do deus-Sol a cada manhã. Este é o coroamento das premissas:  assim que deixa a sua casa, ele (Sol) já nos enxerga e nos cumula de bênçãos. Portanto, a casa dele é depois do mar, além do horizonte, num lugar onde as igaras (canoas) não conseguem atingir.
         Era de se esperar que povos com tal mito se tornasse presa fácil dos invasores, dos aventureiros sedentos por lucro fácil, à custa da exploração da posse e do trabalho alheios. Não posso omitir que os sedentos portugueses estavam esfomeados pelas terras que lhes pertenciam antes mesmo de 1500, conforme o Tratado de Tordesilhas assinado em 1494, onde o mundo foi dividido entre as duas nações católicas: Portugal e Espanha.
         Resumindo esta parte: os navegadores, apesar de barbudos, fedidos e em estados físicos lastimáveis após tanto tempo de travessia, eram especiais (representantes da divindade maior) porque vinham do lugar onde o Sol morava.
          Parando por aqui: quem é adorado já é um dominador, controla alguém.

domingo, 24 de julho de 2011

A casa no morro do cemitério



Leovigildo Félix morou com seus pais e irmãos numa casa no morro do cemitério da Maranduba durante alguns anos de sua infância e adolescência. Ali aconteciam algumas coisas estranhas. O local era deserto, mesmo assim o cachorro da casa vivia agitado, parecia que era provocado por alguém.
Ele conta que uma noite sua mãe Martinha resolveu ver o que  atormentava o cachorro que latia como um desesperado: espiou pela janela e viu que ele latia numa bananeira que ficava bem perto da casa. Então chamou um dos filhos: “Chico, vem comigo. Vamos ver o que tá perturbando o cachorro. Deve ser gambá entre as bananeiras”. Enquanto isso o cachorro latia e pulava, rodeando a bananeira. Já tinha arranhado todo o caule da planta e parecia querer pegar alguma coisa que via.
Chegaram perto, olharam bem dando uma volta em torno do lugar e não viram nada. O que tinha ali somente o cachorro estava vendo: “coisa boa não era”. Então dona Martinha chamou o filho para dentro de casa e, quando estava na porta, ela assobiou, chamando o cachorro, que continuava na refrega. Nesse momento, um assobio forte veio como resposta exatamente da bananeira, seguido de outro e mais outro. Aí, ela se benzeu e entrou.

sábado, 23 de julho de 2011

Que caiçarada!!!


                   Num dia desses fui visitar os amigos Isaías e Alcina, pais do Júlio. Tomamos café com cará-roxo. Depois continuamos a conversa como se tivéssemos todo o tempo do mundo. Depois, na despedida do portão, outra caiçara chega: Vanilda Balio. Que prazer!!!
                   De novo a prosa retomou: causos e pessoas foram lembrados. Também rimos bastante. De repente, um velho hábito se manifestou: o de recorrer aos vizinhos quando algo se fazia urgente. Explico melhor:  ao perguntar aos vizinhos se não tinha cheiro verde, Vanilda provocou reminiscências de tantos momentos, de tantos “empréstimos” tão comuns entre os caiçaras. Ainda lembro-me, como fosse hoje, dos tempos em que o Mingo, com um cestinho embaixo do braço, se dirigia à casa da Livina para pedir ovos, pois não queria o que a mamãe havia preparado como mistura.
                  A Livina atendia toda satisfeita; mais tarde as coisas se acertavam. A mesma, até os seus últimos dias, sempre recordava desse ato tão simples: um menininho com um cesto na mão perguntando se tinha ovos.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Boi-tatá



Tio Neco Felix conta que, quando criança, no tempo que morava na Praia do Pulso, ia com a mãe, a minha vó Martinha, para a beira do mar ao anoitecer. Ela era uma mulher ousada, sempre falava o que pensava, sempre fazia o que queria. Tinha muita coragem.
Naquelas noites ela costumava carregar um tição de fogo – um pedaço de pau em brasa tirado do fogão de lenha – com o qual ficava acenando para o ilhote da Maranduba. Lá começava a surgir uma misteriosa luz, em forma de bola que começava a se movimentar, vindo ao encontro do tição, na praia, como que atraído por ele. Tio Neco, além de outras crianças, se apavorava, queria se esconder na saia da mãe, correr. O que poderia ser aquilo? Uma bola de fogo que se movimentava acima da água e parecia querer atacar quem a estava provocando? Ninguém sabia, não havia explicação, mas o mistério atraía várias pessoas para observar, apesar do medo.
Quando a bola de fogo chegava pertinho da praia a vó Martinha fazia um gesto rápido colocando o tição na água. Imediatamente aquela aparição, que chamavam de Boi-tatá, parava o seu curso e ia retornando para o ilhote de onde tinha surgido e lá desaparecia.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Nem céu, nem inferno

         Em outras ocasiões eu já contei das lições, da doutrina da tia Maria da Barra. Espero que ninguém desconheça, por exemplo, dos Judas (Matadeus e Carioca), já publicado há alguns meses.
       Morando no jundu da praia da Fortaleza, a titia sempre adorava contar causos com um toque religioso. Afinal, foi desse modo, pela tradição oral, que se forjou a religiosidade bonita do ser caiçara. Neste momento retorno no tempo para que todos aprendam a lição do purgatório segundo a minha saudosa parenta.
       Desde cedo estávamos acostumados a ouvir a palavra purgatório;  sempre  a associamos  ao inseto (pulga), pois era comum os comentários das “marcas de purga” nas roupas. Ainda bem que a titia assim me esclareceu:
       - Não seja bocó! Coisa antiga é  o purgatório! É céu de segunda catigoria. Desse modo compreendi adespois da pregação do padre João.
       - Como assim, titia?
       - Bote reparo no que vô dizê: o vosso tio me trocô por’otra; agora vive no Cedro. Ainda não sei quem vai falecê na frente: se ele ou eu. Caso seja ele, é certo que não vai pro céu, mas também no inferno não é o lugá dele (porque não é tão mardoso anssim). Então, egiste o purgatório pra gente anssim, pra caso como o do vosso tio. De lá, adespois de bastante reza minha e da otra, de oferenda para a ingreja, passando uma temporada, ele sobe pra junto de Nosso Senhor Jesuis Cristo; fica no céu pra sempre.
       - Então, titia, na verdade o purgatório é um inferno fraquinho!
       - É isso, minino! Desdigo o que disse e digo de novo: purgatório é um inferno de segunda catigoria! Aprendeu agora?

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A bruxa de Vargem Grande




Não muito tempo atrás, os caipiras, moradores de "serra acima", procuravam o município de Ubatuba para ganhar "um dinheirinho". Muitos deles vieram, gostaram e por aqui ficaram. Deles tenho ótimas lembranças quando, na casa do meu avô Almiro, após o jantar, ficávamos escutando suas histórias. Arrepios percorriam nossos corpos. De vez em quando, alguém enxugava discretamente as lágrimas. Difícil era depois, devido ao medo, se dirigir ao quarto para dormir.

Se não me falha a memória, todos os caipiras de “serra acima” eram contadores de histórias de grande empolgação. De Vargem Grande veio o José Sibi.
Hoje, homenageando todos os caipiras, principalmente os descendentes daqueles que com os meus familiares conviveram, dou a conhecer o causo da bruxa, conforme nos contou o saudoso Sibi.
Ele contou sobre uma bruxa que lá viveu nos idos de 1950. Era uma mulher conhecedora de plantas e remédios, sabia da vida dos outros e se intrometia fazendo seus trabalhos. Todos tinham muito medo dos seus supostos poderes e da sua maldade. Ninguém conseguia esconder segredo algum dela. Os seus desafetos corriam perigo, e se alguém adoecia de repente e morria, pensavam logo que era obra de sua feitiçaria.
Cansados de sofrer com o medo e querendo se livrar da ameaça de ter uma bruxa por perto, os moradores tramaram acabar com a sua vida. Se armaram e invadiram a casa da mulher que, surpreendida por aquele bando, fugiu e foi perseguida até ser encurralada. Não havia saída para ela. Então, o inesperado e inimaginável aconteceu: a bruxa se transformou numa pata branca, bateu asas e saiu voando.
Assim a bruxa pôde voltar para sua casa e nunca mais pessoa alguma se atreveu a atentar contra a sua vida. Depois disso, as pessoas do lugar se aterrorizavam ao ver patos voando por sobre suas casas ou pousando sobre seus telhados.
Um dia a tal mulher sumiu sem deixar rastro. O lugar da sua casa foi tomado pelo mato e hoje poucos se lembram do pavor que ela causou.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Tempo de gambá

                        
Coco jarobá (ou gerivá), um alimento procurado pela gambá.
      
            A partir do mês de abril, desde o tempo dos tupinambás, é costume caçar gambás. E isso vai até o final de junho. Depois é tempo de respeitar o cio e o período  de gestação dos bichinhos para que nunca falte tão precioso recurso à nossa alimentação. Assim ainda pensam e agem os pobres caiçaras. Outros pobres, vindos de outras terras e pertencentes a outras culturas não sabem disso, não respeitam os ciclos dos outros seres no ambiente que gerou a cultura caiçara. Resulta disso e da maldade congênita em muitos a matança por matança, o risco de extinção de muitos seres que conosco compartilham esta terra (e esta Terra!).
            O causo de hoje ocorreu no Perequê-mirim, em agosto de 1970. Portanto, já fora da época de caçar gambás. Foi assim:
            Numa manhã, quando se dirigia ao trabalho, Argemiro, o jardineiro, encontrou Gusto, o “pobre de espírito”,  com um cumbu pesado, isto é, com gambá dentro, ainda vivo. Logo foi dizendo:   
           “Sorta o  bicho, Gusto. Não vê que já passô do tempo?”.
           “Que nada! A bicha tá gorda!”.
           Depois que o outro retrucou, o meu estimado jardineiro pensou numa maneira de vencer pela psicologia. Apelou para o estado do bicho:
           “Está prenha pra dar ao mundo uns cinco filhotes. Quem sabe não caiu na armadilha porque tinha desejo iguá às nossa mulhé? Sorta a pobre mãe". 
           “Não. Não sorto. Tive trabalho, pus banana das boa!”.
            Novamente, diante da teimosia do outro, o Argemiro “rezou uma ladainha” que se encerrou desta forma:
           “Sorta o bicho porque a carne já não presta, pode até fazê mal pra quem comê".
           É aqui que entra a assombrosa resposta do Gusto:
           “Não tem problema! Não se preocupe com isso! Não é pra mim! É pra mamãe!”.

           

sábado, 16 de julho de 2011

“Abelhudos e abelhudas”








                               
                Nesta semana tivemos o primeiro módulo do curso de apicultura promovido pelo SENAR, em parceria com o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Ubatuba. Os demais módulos deverão acontecer até o final de novembro deste ano.
                É impressionante o mundo das abelhas no pouco que já podemos conhecer!
                O professor Alexandre, de São José dos Campos,  deve levar uma lembrança única da turma: animação e disposição para cooperação. A descontração e os momentos de brincadeiras não deixaram de ter a sua importância no resultado final, além de fortalecer a turma.
                 Valeu a semana de aprendizado e de convivência! Agradecimentos especiais aos apicultores que nos auxiliaram, sobretudo ao Fernando (que  vende mel na feira todos os sábados) e ao Álvaro, caiçara do ramo dos Prado da Caçandoca.
                É isso aí! As abelhas, as mais perfeitas parceiras numa sociedade, estão na realidade caiçara, mas seus produtos não são aproveitados como poderiam ser. Pelo contrário, o que nós vemos são pessoas que agem de má fé, vindo de outras cidades e vendendo um composto qualquer que se passa como mel, o sagrado produto das abelhas.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Cará-moela

            
           De vez em quando eu cito alguma coisa, digo algum causo que tem nomes desconhecidos, poucos familiares. Por isso é comum sempre alguém perguntar, querer saber sobre tal coisa ou expressão que usei. É natural que haja, no universo caiçara, coisas muito específicas ou que já são raras em outros lugares e culturas. Um exemplo é o cará-moela.
         O cará-moela tem este nome porque se parece com uma moela de galinha. Recorro a uma explicação mais científica que encontrei sobre este órgão:
         “Moela é o estômago muscular das aves, com função de trituração dos alimentos. Para tanto, é constituído de forte parede muscular, cujos músculos se contraem alternadamente e quebram os alimentos contidos aí. Para auxiliar esta trituração, muitas aves engolem pequenas pedrinhas, que servem como trituradores, no interior da moela. A porção interna da moela é uma capa protetiva, que não sofre abrasão pelo alimento ou pelas pedrinhas. O órgão equivalente à moela em nós é o estômago, mais especificamente, o papel de trituração e mistura que ocorre no estômago, graças às contrações da sua parede muscular. Além disso, não esqueçamos que parte inicial da trituração em nós ocorre na cavidade oral, pela ação dos dentes. As aves não possuem dentes, mas sim bicos adaptados em forma e tamanho ao hábito alimentar”.
         Então, conforme eu estava contando, o cará-moela é fruto de um cipó. Recentemente foi classificado como inhame: nasce dependurada na tralha que sobe em árvores e cercas. A partir de julho, é o tempo de colheita deste recurso alimentar tão utilizado pelos caiçaras. Come-se geralmente cozido, acompanhando café. Mas o melhor é substituindo a batata nos diversos pratos da nossa região. Numa galinhada? Ah!!! Água na boca!!! Aproveito para pedir aos caiçaras que divulguem, dispersem e continuem cuidando para não perderem suas tralhas de cará-moela. Será que o nome popular deve mudar para inhame-moela? Quanto ao uso do hífen, parece que eu li que ficou como pendência a ser resolvida após a nova reforma ortográfica.


quarta-feira, 13 de julho de 2011

Jairondirorum littorina



                     
               Por insistência de alguns amigos e depois de consultar os irmãos, resolvi divulgar o que poderá ser um achado do século para o nosso município. Desde já digo que o mérito é de algumas pessoas que leem, buscam ver um pouco além daquilo que aparece e desejam fazer encaminhamentos para contemplar muitas outras possibilidades (científicas, turísticas etc.). Se não fosse por tais características, tal achado passaria despercebido como muitos outros que se já ouviu falar no universo dos caiçaras.
                De acordo com algumas notícias (ver, entre outras, cienciamao.usp.br; noticias.terra.com.br ), se considerarmos o achado da Índia, em 01/10/2009, veremos muita semelhança nas fotos. Será que o nosso ser caiçara também está próximo dos 65 milhões de anos?
                Resta-nos aguardar os encaminhamentos que serão sabiamente tomados pelo professor Aziz Nacib Ab’Saber, este grande geógrafo nascido em São Luiz do Paratinga, em 24 de outubro de 1924.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Arquitetura e história

                     
                No dia 05 de julho, na altura do Bairro Mato Dentro (Rodovia Oswaldo Cruz), em São Luiz do Paraitinga, após um percurso em estrada de terra relativamente conservada, chegamos (eu, Suelen, Marcos e alunos da escola Semíramis de Ubatuba) à Fazenda São Luiz, cuja proprietária é pesquisadora e incentivadora da cultura popular.
                É impressionante, ao adentrar no espaço, retornar no tempo ajudado pela arquitetura, mobiliário, ferramentas e outros detalhes. É prova de resistência! Até fica difícil de comentar mais sem vislumbrar o pátio, o piso de tijolos ou assoalho, as telhas antigas em profusão, as plantas que superaram em muito a vida de tanta gente.
                Lá estão os livros contábeis, os preços de escravos e outros investimentos. Ah! Nota especial à capela interna!
                Dentre as notícias complementares: o primeiro proprietário da fazenda foi o fundador do município vizinho de Natividade da Serra.
                Resumindo: é apaixonante o turismo cultural!

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Encantamento

                             
               Acabou a festa literária em Paraty (Flip). Foi boa, mas nos deixa deprimidos porque, olhando as “fotografias” de tempos passados, vemos que ambas –Ubatuba e Paraty-  têm as mesmas características: estavam na rota do café, tinham condições favoráveis às atividades portuárias e possuíam estradas que interligavam ao Vale do Paraiba e Sul de Minas. As duas também tiveram, depois, um período de quietude, sem razão de existir, porque foram excluídas das rotas econômicas.
                O que as distinguem então?
                Com o advento do turismo, favorável a ambas, houve percepções diferentes. Enquanto as lideranças políticas e econômicas de um conservaram as características culturais e arquitetônicas porque enxergaram um veio lucrativo, no outro, tal como um “consumidor nota dez”, buscou-se desvencilhar “das velharias, que não condizem com o progresso”. Então, nós de Ubatuba perdemos tudo, ou quase tudo que dava um sentido ao nosso passado histórico.
                Citei isso tudo de passagem só para chegar a um ponto: a descoberta da cidade vizinha pelos caiçaras de Ubatuba. Fiquei impressionado por encontrar até mesmo parentes inimagináveis em outras edições da Flip. Estavam encantados pela cidade, pelas montagens e pessoas bonitas que era em profusão nos caminhos de pedras. Até fretaram um barco para conhecer alguma ilha da enseada de Paraty. Deste modo expressaram a grande alegria:
                - Isso aqui está maravilhoso! Ainda bem que nós viemos em lotação; dá para aproveitar bem o dia! Você não quer dar uma volta de barco com a gente, Zé?

domingo, 10 de julho de 2011

Zé Barreto

               
               Infelizmente muitos não conheceram o Zequita, apelido familiar do primo José Barreto, um caiçara da Praia da Fortaleza que exerceu  mandatos na vereança na década de 1980. Era o Barreto, o vereador  sarrista, irônico e algumas vezes polêmico.
                Zequita se fazia de bobo para pegar os bobos. Apesar de criticá-lo em algumas ocasiões, eu o admirava pela sagacidade, pela forma engraçada de induzir ou abordar coisas que nem sérias pareciam. Muitas vezes, quando eu trabalhava na reforma de sua casa na Fortaleza,  à mesa ele esquecia o prato para falar sobre os discursos na Câmara.
                Em certa ocasião, para dar um fim à discussão sobre a compra do Casarão do Guisard, onde mais tarde foi a sede da Fundart (fundação cultural da cidade), o “Voto de Minerva” cabia a ele. O que estava em votação era o tombamento do prédio histórico do período cafeeiro como patrimônio cultural. Assim ele contou como concluiu o seu discurso que justificava o voto favorável ao tombamento: “Eu voto favorável ao tombamento. Tenho certeza que todo mundo tem a vontade de tombar aquele prédio velho que enfeia o centro da cidade. Ainda nesta semana, um pescador de traineira, depois de descarregar uma carga de sororoca, passou no meu armazém e disse o quanto aquilo deixa feio a boca da barra”.  E ele ria gostosamente do riso que provocara nos outros. Não sei se foi assim mesmo. Só sei que o prédio ainda hoje está se aguentando como mostra de um período próspero da nossa cidade.
                Hoje, diante do lastimável estado de conservação do Casarão, ele provavelmente diria isso: “O sino da igreja parece anunciar um enterro. Estou feito um molambo: bem puído e sujo. Por que não me tombaram de verdade? Sabe de uma coisa, Zé? Só pode ser a raposa a responsável pela crise do galinheiro!”. E a gente daria ótimas risadas com tais tiradas do saudoso Barreto.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O ser caiçara fica!

                       
                 Sempre estamos perdendo caiçaras. Nestes dias perdemos o caiçara Isaac Antonio. Ontem, oito de julho, foi a celebração do sétimo dia de sua morte, uma tradição do catolicismo.
                A igreja do Itaguá, além dos pais e numerosos parentes, também acolheu muitos amigos. Todos queriam expressar  mais do que um sentimento religioso. A emoção mais forte era a de pertencer a uma cultura.  Por isso eu, no momento do ato religioso, definia o misticismo como a convicção de pertencer a um grupo e de querer se encontrar sempre para se sentir fortalecido em torno de ideais semelhantes. É essa mística que põe em comunhão as lembranças e os viventes; fortalece uma memória; não deixa que os membros esmoreçam apesar das atribulações de todas as épocas.
                Uma das últimas conversas que tive com o Isaac, ele me confessou da admiração por determinados nomes do bairro que não se corromperam, não traíram aqueles princípios que estão na base da vida comunitária. Depois, dedilhando o violão, recordando Beto Guedes, cantamos juntos, bem em frente à Praia do Acaraú, sentados sob um abricoeiro, algumas das suas músicas preferidas. Por fim, repetiu: “É, Zé! É preciso recriar o paraíso agora para merecer quem vem depois!”.
                Isaac, Janguinho, Aristides, Preciosa, Santana, Dorcas, tantos e tantas caiçaras que nos deixaram recentemente, assim como os finados de tempos imemoriais, estão vivos porque deles nos lembramos pelo ser caiçara que testemunharam. É essa a comunhão de maior valor.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O causo é coisa séria!


Na apresentação de um artigo da minha esposa, o causo é o “artista principal”, ou seja, é defendido cientificamente como gênero. É mais uma informação aos interessados na área da Linguística e da Cultura Popular. Muito importante neste trabalho é  a participação dos contadores de causo de Ubatuba, sobretudo João de Souza, João Barreto, Mané Hilário, Julinho, Dico, Célia, alunos da rede pública e outros. É “só uma isca”! Quem tiver maior interesse, basta conferir a sua tese de mestrado (UNITAU, 2007).

O CAUSO: uma proposta para a formulação de atividades didáticas de caracterização do gênero, destinada à formação de professores[1]

Gláucia Aparecida Batista[2]

O objetivo deste artigo é apresentar o gênero discursivo causo em suas peculiaridades, por comparação com o gênero conto popular e, a partir disso, propor a elaboração de atividades didáticas destinadas à formação de professores de Língua Portuguesa e, talvez, de outras disciplinas da área de Ciências Humanas, em que seja relevante o estudo de gêneros discursivos da cultura popular brasileira. Ambos os gêneros fazem parte da cultura popular brasileira, constituindo-se em resultado, meio e forma de uma dinâmica social. Sendo um gênero narrativo oral como o conto popular, o causo não deve ser confundido com ele, pois tem características próprias que podem ser identificadas na própria comparação dos dois gêneros.
A caracterização aqui apresentada faz parte dos resultados de minha pesquisa de mestrado – em fase de elaboração – e foi feita a partir de entrevistas com contadores de causos da cidade de Ubatuba, litoral norte de São Paulo, no ano de 2006.
Conquanto tal caracterização tenha sido originalmente feita a fim de compor, junto com outros gêneros da tradição oral, um capítulo sobre os gêneros trabalhados na contação de histórias para alunos e também por alunos de 5ª série do ensino fundamental de Ubatuba, é aqui apresentada com a finalidade de possibilitar seu estudo por professores em formação e/ou em serviço.
Este trabalho justifica-se pela atualidade da proposta de estudo da perspectiva dos gêneros discursivos – em plena expansão no Brasil – e pela carência de trabalhos voltados para a transposição didática desses gêneros.


[1] Artigo apresentado como requisito para aprovação na disciplina “A formação do designer de material didático”, ministrada pela Profª Drª Maria Cristina Damianovic no curso de Pós-graduação em nível de Mestrado da Universidade de Taubaté, em junho de 2006.
[2] Mestranda do 2º ano do curso supracitado.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Ovo do Diabo (II)

        
           Numa ocasião em que a tia Izolina nos visitava, assim que alguém usou a expressão “então coma ovo do diabo do inferno!”, ela aproveitou para esclarecer que esse dizer é muito antigo.  Explicou para nós que se referia a estranhos ovos de pedras que de vez em quando, desde os mais antigos, alguém achava: “No morro da Praia do Pulso existe até hoje um lugar por nome de Greta dos Ovos; foi onde o Anastácio encontrou uma ninhada de quatro deles”.
         Bem mais tarde, coisa igual escutei do Eugênio Inocêncio: “Na Ilha da Vitória, na Tiguera da Sinhana, num buraco, tinha dez ovos de pedra”.
         Uns parentes religiosos se benziam ao dizer que João Pimenta, “O incréu”, tinha em sua cristaleira, um “ovo do diabo”.
         Até nem me lembrava mais disso, mas... neste semestre, o meu irmão Jairo, realizando um serviço na Praia da Ribeira, encontrou mais ovos, uma ninhada. São provas da nossa história antiquíssima, onde até “os homens continuavam no barro”.
          Os pesquisadores irão nos dizer mais. Espero que em breve! Por enquanto fiquemos com a versão caiçara dos “ovos do diabo do inferno”.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Ovo do Diabo (I)

                
         Desde que eu era pequeno, era usual na minha casa a expressão: “então coma ovo do diabo do inferno!”. Queria dizer mais ou menos isso: se não quiser o que foi preparado de boa vontade, com o que tinha, então fique com qualquer coisa, se vire. Meus pais diziam que era uma referência a uma fala do Izaltino por ocasião do resguardo da mulher.
         Resguardo?
         Sim! No “tempo d’antes”, as mulheres, logo após o parto, entravam num período de quarentena, recebiam um tratamento especial, principalmente no aspecto alimentar. “Quebrar o resguardo” poderia trazer sérias consequências, inclusive causar a morte. O nosso personagem (Izaltino), num período assim, se esmerava em zelar pela esposa. Porém, a coitada estava enjoada de comer ovos de galinha. Se aguentou até quando pode, mas chegou o dia em que recusou o saboroso alimento. Esta foi a reação do homem: “Não quer comer ovo da galinha? Então coma ovo do diabo do inferno!”.
         A gente ria. Entendia bem a linguagem e, até hoje, ocasionalmente, ainda usamos a expressão.

domingo, 3 de julho de 2011

“Tá ovada!”

                                          (1/3 da praia do Saco da Ribeira -2011)
            
          É tempo de tainha. Todo ano é isso: os povos que moram próximos do mar, no inverno, não veem a hora de aparecer as primeiras tainhas, peixes deliciosos que, na época da desova, migram da região Sul à procura dos rios para continuarem se reproduzindo.
         Sempre foi assim, por isso acho muito natural o meu filho, assim que o tempo esfria, perguntar: “Quando vamos assar uma tainha?”. Tá no ser dele, é parte da nossa tradição caiçara.
         Desde pequeno o meu povo já se comporta dessa maneira. Herdamos dos índios. Nos escritos de Hans Staden diz que  tupinambás e tupiniquins, dois grupos indígenas do litoral norte, entravam em combate por dois motivos: na colheita do abati(milho) e na época da tainha. Verdadeiras expedições guerreiras aconteciam em tais períodos. O ponto de encontro dos dois grupos era junto aos grandes rios da Baixada Santista, sobretudo na Barra de Bertioga. Esse peixe era essencial para eles no preparo do piracuí, uma espécie de “farinha de sustância”, conforme explicou um dia a minha vó Eugênia. Era mais comida garantida para o ano todo.
         A gente nasce escutando os mais velhos planejando as pescarias, preparando as redes, deixando os demais trabalhos para depois e saindo nas noites frias para “cercar as tainhas que estão chegando”.  Nem posso me lembrar de quantas vezes me empenhei na pesca de picaré ( modalidade de arrastar a rede por dois calões na arrebentação das ondas). Júbilo maior era escolher as ovadas, pois não tem maior satisfação alimentar do que, após secar ao sol, assar e comer com café e farinha ao menos uma ova. Assim era música aos ouvidos, na noite fria, todo encharcado, escutar algum companheiro gritar alegre: “Tá ovada!”.

sábado, 2 de julho de 2011

Buraco de quem?



        
    


       O meu amigo Ademar, caiçara criado com jangolengo, saquaritá, sapinhaoá, preguaí, guaiá, santola, pindá e tantas outras coisas boas deste universo praiano, certa vez me contou da “Gruta do Caminho da Cidade”. Trata-se de uma gruta na pedra, entre a barra do Rio Grande e a praia do Perequê-açu.
         A narrativa do Ademar foi emocionante, sobretudo porque ele falou de coisas de sua infância, de um lugar onde brincou bastante:
         “Era um tempo bom; a gente não tinha preocupação com nada. Todo mundo se conhecia. Era no morro que  a gente buscava brejaúba, palmito e mais coisas ainda. Bem no alto, pra cima da gruta, tinha um lago pequeno de uma água muito limpa, onde a gente parava para tomar água sempre que andava por ali. A água que descia, antes de alcançar o mangue, passava pela bica da dona Benedita, que era muito amiga da finada mamãe. Hoje não se vê nenhuma água por ali. O laguinho não tem mais.  Em relação à gruta, dizem muitas coisas. Só sei dizer que até gente de fora já veio para fazer não sei o quê. Quando eu era mais moço, um casal de argentinos, entrou nela. Trouxeram equipamentos. Dizem que ficaram por aqui alguns dias, mas depois foram embora sem comentar nada com ninguém. Eu até tenho vontade de fazer uma aventura assim, mas tenho medo. Os mais velhos diziam que era lugar de assombração. A neta da dona Benedita, que de vez em quando brincava com a minha irmã, sempre disse que de lá, tarde da noite, vinha uns barulhos estranhos, que dava medo. Eu acreditava porque a casa delas era bem perto da gruta”.
         O meu amigo ainda detalhou mais duas grutas existentes entre a Prainha do Padre e a Praia do Perequê-açu. Isso foi no final de década de 1970. Eu espero conhecê-las um dia.
         Sabe por que estou escrevendo isso depois de tanto tempo?  Inspirei-me depois de ter lido um artigo do amigo Júlio em relação à Gruta que chora. É, na verdade, mais um lugar que está maltratado, perdendo um potencial turístico.
         Tal como o atrativo da Praia da Sununga, assim é a “Gruta do Caminho da Cidade”. Hoje, no corre-corre, nem sei se alguém repara nela. Desconfio que os passantes nem imaginam a riqueza cultural daquele lugar.
         Com base na prosa com o Ademar, os antigos falavam coisas fantásticas, histórias que poderiam gerar até divisas através de um turismo cultural. Uma delas, por exemplo, afirmava que, na parte superior da gruta há uma passagem estreita para uma caverna maior, com acesso à Prainha do Padre, onde os índios tupinambás guardavam seus tesouros. Outra versão dizia que o local abrigou os piratas e suas riquezas. Já ouvi até que os índios, ao perceberem que seriam mortos pelos portugueses, se fecharam nessa imensa caverna para sempre.
          É, tem muito ainda neste universo caiçara que merece ser amado, estudado e divulgado!
         Para finalizar, lembro a fala do Mané Hilário quando perguntado sobre a gruta tão desprezada:       
         É o buraco da Dita, né? É porque ela [Dita] morava do lado. Ela tinha...era ela, o filho (Antonio Bento) e uma neta, filha do Antonio Bento: a Benedita, que às vezes eu falo aqui em casa dela, era bonitinha pra danado! Foi embora. Casou com um português e não vortô mais pra Ubatuba. E a Dita faleceu aqui mesmo. Então, todo mundo olhava e... ‘Ah! O buraco da Dita, o buraco da Dita! Esse buraco da Dita vai saí na prainha’. Então eu dizia: ‘que diacho de buraco mais grande que vai vará de um lado pro outro!?’ Mas não é não... é conversa do pessoá, né? Ainda tem lá o... Agora, na semana passada, eu passei de carro lá, olhei e disse assim: ‘Olha o buraco. O buraco da velha Dita tá ali. Ela se foi e o buraco ficou’. É assim, né?”