sexta-feira, 31 de agosto de 2012

MAR NOSSO





                Ontem, após ouvir notícias de ventos fortes por este mundo afora, fui ler alguns poemas do Domingos.

                O MAR NOSSO trouxe uma recordação semelhante, da minha infância. Na praia da Fortaleza, os bananais imperavam tanto nas baixadas como nos morros, pelas grotas. Eles eram muito produtivos. Só que, de vez em quando, descia um vento sudoeste arrasando tudo, prejudicando muito a subsistência dos caiçaras.

                O Mingo, navegando pelas palavras, consegue dizer melhor daquele lugar na nossa infância.

                MAR NOSSO
                A casa de meus avós navegava

                em um mar de bananeiras,

                cuja chaminé

                soltava rolos de fumaça

                com cheiro de pirão de peixe.

                A casa de meus avós

                era uma embarcação

                no oceano do bananal,

                só percebida pela bandeira

                do padroeiro São João

                no mastro principal.

                A casa de meus avós era um barco

                cercado de bananeiras

                por todos os lados,

                que quase ia a pique

                em tempo de moção,

                sob as vagas das folhagens

                em furiosa agitação.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

CONVITE À SOLIDARIEDADE


Fernanda e Lemar: eterna parceria (Foto na casa do casal Cristina e Roberto)
              

                Há alguns anos, na “Escola Deolindo”, uma mulher franzina, mas de muita disposição, foi nos apresentar a SAPOUBA. Era a corajosa Mônica Ciari, uma professora muito justa e amante das causas ambientais. Agora ela se encontra morando na capital paulista. Porém, os seus ideais, dentre eles a SAPOUBA, continuam sendo tocados em Ubatuba.

                A SAPOUBA (Sociedade de Apoio a Pacientes Oncológicos de Ubatuba) continua atuante e precisa da sua SOLIDARIEDADE  para continuar seu trabalho importante. Neste sentido, a FERNANDA LIBERAL , sempre acompanhada pelo parceiro LEMAR, quer ter o prazer de estar com VOCÊ no SEBO BAMBU para o lançamento de seu livro CONSTRUINDO MEMÓRIAS – Educando a quatro mãos. Horário: entre 16 e 19 horas, no próximo sábado. O livro será vendido a R$ 20,00, com parte da renda destinada à SAPOUBA.

                Compareça! Prestigie! Ajude!

                Em tempo: a citada Mônica, minha conhecida desde os primeiros anos da criação do Núcleo Picinguaba, quando fazíamos parte do grupo de Educação Ambiental, é parte deste município (Ubatuba) desde a metade da década de 1960. Portanto, acompanha a história política e as transformações do espaço caiçara, sobretudo a partir da especulação imobiliária que ainda continua causando tantas depredações ao meio ambiente. Ela foi mentora de inúmeros projetos pelas escolas por onde passou.

                Foi com a Mônica e a Luiza, esposa do pescador Oscar, natural da Ilha do Promirim, que, em 1991, nós denunciamos a derrubada da mata nativa na Praia do Simão (ou Brava do Frade). Tratava-se de um grileiro que tinha vários jagunços. Até fomos intimidados pelas armas quando fotografávamos na área.

                Gláucia, Ana, Mônica, Fernanda, Fátima... E assim as mulheres continuam avançando nas lutas!

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

PELAS PALHAS...TANTAS HISTÓRIAS.


 

                Olhando um chapéu de palha de bananeira, saído das mãos da tia Ana, tive tantas recordações...

                Muitas vezes eu, com outros irmãos e primos, ajudávamos a Vó Eugênia  na coleta de palha de bananeira para a confecção das tranças que depois virariam chapéus para toda a família. Eles eram partes das recomendações de cada dia. “O sol tá forte, põe o chapéu”, “Põe o chapéu pra não pegar sereno”,  “Vai sair? Leva o chapéu”, etc.

                Na praia das Toninhas, chamada pelos mais velhos de Estoninhas, eu conheci a dona Dorcelina, uma filha de escravos. Era mãe do Almeidinha. Fazia chapéu muito bem.

                Ver a agilidade da bondosa anciã com as palhas era gratificante. Melhor era escutar as suas histórias. Dizia que conheceu na praia da Lagoinha, trabalhando no “Engenho do Estevené”, alguns parentes de seu finado pai. Eles contavam de um tempo distante na “terra dos pretos, antes de serem negociados com gente sem coração de Serra Leoa”.
              “Os meus parentes...”, isto eu escutei  em algumas ocasiões da Dorcelina, “...não cansavam de contar do lugar deles, onde quase tudo era feito de pedra e barro. Lá existia uma fortaleza que era famosa até depois de uma imensidão de deserto. Tinha rei que comandava muita gente.Trabalhavam com fundição de ferro muito bem. Produziam muito. Negociavam com povos distantes. Tinham a cobra como divindade”.

                O causo de hoje também é dela:

                “Em uma ocasião o Dito Custódio voltava da Maranduba para a Lagoinha pela beira do mar, distraidamente, à noite, no silêncio quebrado apenas pelo barulho das ondas. De repente, sentiu um arrepio que lhe gelou o sangue no corpo. Sentia que estava sendo seguido de perto. Se virou e viu uma figura estranha, parecia um homem, cujo vulto se perdia em sombras. No momento em que parou para ver se  reconhecia alguém, a figura parou onde estava. Quando voltou a andar a figura desconhecida voltou a segui-lo de perto.

                O Dito ia para o lado do mar, molhando os pés na água e o vulto misterioso desaparecia. Quando se distanciava da água o  vulto reaparecia logo às suas costas. Então ele chegou à conclusão de que aquilo não podia ser pessoa viva e, trêmulo, começou a rezar em voz alta: Pai nosso, Ave Maria, Creio em Deus Pai...  enquanto continuava a andar. Nervoso, fez uma pausa em suas orações e, enquanto suspirava, ouviu a voz daquele que o seguia dizer desdenhoso: ‘Tudo isso eu também sei...’ E foi acompanhando até o canto da praia, no caminho do Bonete.

                Por ali Dito Custódio não voltou a andar sozinho”.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

REVENDO O OCÍLIO




                Um convite surgiu para o fim de semana:

                - Vamos até a cidade de  Silveiras, na Festa do Tropeiro? Será legal assistir a FOR MULA e visitar alguns pontos  turísticos!

                Achei ótima a ideia da minha esposa, principalmente pela oportunidade de aumentar os meus contatos com a cultura caipira. Além do mais, um conhecido de vários anos, natural dessa pequena cidade, é uma importante referência na tradição tropeira. Trata-se de Ocílio Ferraz.

                Ocílio, um estudioso e divulgador dos assuntos ligados ao mundo caipira e das tropas que fizeram o Brasil dos séculos passados, já esteve em Ubatuba ministrando curso. Isto foi há vinte anos, por convite do saudoso Ney Martins. Certamente que tem gente que ainda se lembra dele, de sua prosa na Semana da Cultura Popular, ocorrida nos espaços da Capela Nossa Senhora das Dores, no Itaguá. Em contexto assim diria o Dito Marcos, o caipira que se acaiçarou na Enseada: “Tempo bão!”.

                Depois de uma acolhida com farta comida e de prosear um pouco com o Ocílio, fomos ao Mulódromo. Chegamos cedo, mas logo estava cheio de gente e de bonitos animais. Conforme expressão caiçara: cavalos e mulas se teciam por ali. 

                Com os barrancos e morros acomodando os espectadores, iniciaram-se as provas. Os acidentes aconteceram, mas o FOR MULA foi um sucesso. Foi a 31ª edição, informou o narrador da competição.

                Gosto muito do mundo caipira!

                A minha recomendação?

                Visite Silveiras, passe no Restaurante do Ocílio para se fartar na gastronomia caipira  e aprecie o que é viver um pouco mais longe do mar.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

FAZ PARTE DO NOSSO SER



                Hoje apresento mais uma parte da pretensa obra pedagógica, com a participação dos irmãos Eudes e Marta. Depois, em outra ocasião, a gente continua nisto. Creio que este pouco já dá uma ideia do que seria  a obra toda e dos resultados possíveis daquilo que foi preparado. Porém, a minha insistência continua: não vamos perder os talentos que estão por aí. Afinal, é a nossa realidade que os inspiram.


                Em 1532 foi fundada a cidade de São Vicente, marcando o início do plantio da cana-de-açúcar e a perseguição aos indígenas para o trabalho escravo nos engenhos da Baixada Santista.
                                                                                    EUDES

                Os índios começaram a fugir das péssimas condições, onde muitos morriam devido aos trabalhos forçados e ao excesso de violência. Além disso, as doenças trazidas pelos colonizadores matavam demais.
                                                                                     MARTA

                Logo as tribos perceberam as reais intenções dos portugueses e buscaram se unir. Assim, por volta de 1554, nasceu a primeira resistência organizada do continente americano: a denominada Confederação dos Tamoios. Os estudiosos da língua Tupi afirmam que tamoio designa o grande ancestral, o avô; expressava a convicção dos grupos que chegaram primeiro nas terras brasileiras.
                                                                               MARTA
      
                Tradicionalmente os indígenas dessa região costeira, os Tupinambá e Tupiniquim, se enfrentavam em duas ocasiões: no final do primeiro semestre, na piracema (desova) da tainha, e, em outubro, quando o abati (milho) amadurecia.

sábado, 25 de agosto de 2012

MAIS HISTÓRIA


                 É minha sugestão:  que ninguém deixe que se percam os talentos. Eles estão entre nós, precisam se desenvolver e florescer cheios de vigor. Poderá vir deles a solução para escapar dessa massificação cultural tão intensa na atualidade.


                A forma de comércio entre os europeus (portugueses, franceses etc.) e os primeiros habitantes do Brasil ficou denominado de escambo, que consistia em trocar produtos de lá (espelhos, tesouras, machados, armas, contas de vidro etc.) por outros daqui (madeira, pássaros, animais etc.)
                                                                               MARTA

                Por causa de muita pirataria, até correndo risco de perder o território, os portugueses, a partir de 1530, resolveram colonizar  esta terra, Pindorama, Terra dos Papagaios, o nosso Brasil.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

PARA ENSINAR


Que tal um abacaxi?

                Há oito anos, no início do governo municipal que aí está, encaminhei ao sistema municipal de educação escolar um rascunho de obra pedagógica. A pretensão era dar a conhecer,  em seus princípios básicos, a história de UBATUBA.
                Ainda bem que era uma cópia das primeiras páginas! Até hoje não recebi os meus papéis, quem dirá alguma resposta!

                Os desenhos são dos irmãos EUDES e MARTA. Pena que os talentos em nossa realidade sejam tão desprezados! Eu lamento que os dois, assim como tantos outros artistas desta cidade, fiquem esquecidos deixem de contribuir para um mundo melhor naquilo que eles fazem tão bem, podendo passar por aperfeiçoamentos.

                Nestes dias pretendo apresentar aos leitores deste uma amostra do trabalho dos dois. O esquema foi o seguinte: eu preparava o texto, deixava o espaço, e, os irmãos, que eu conheci na escola “Idalina” (Ipiranguinha), criavam a partir da leitura. Assim nasceu  este material.

                Desde 1494, o território que mais tarde recebeu o nome 
                de Brasil, já pertencia, de acordo com o Tratado de
               Tordesilhas, ao rei português. Pedro Álvares Cabral, em
               1500, apenas veio tomar posse.
                                                                                    EUDES
               Naquele tempo somente os indígenas moravam aqui.
                Eles tinham um modo de vida muito especial, bem em
                conformidade com a natureza que estava ao redor, por toda parte.
                                                                                      MARTA
                        Em tempo: agradeço ao proprietário da Quitanda Izu por ter empregado os citados irmãos. 
                        Também gostei do Júlio ter recorrido ao EUDES para a ilustração do encarte do CD do Grupo Guaruçá, sobre o Boi de Conchas.
                         Valeu pessoal! Quem sabe as coisas mudem a partir de quando mudar o governo.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

MORADIA DO TEMPO


Tio Marcelino (1974)
As priminhas santistas
Vovó Eugênia (1982)
                Quando perguntei a opinião da mana Ana a respeito das últimas poesias do Mingo, ela disse isto:

                “Eu gostei, mas é porque elas falam sobre os lugares e as pessoas que nós conhecemos”.

                O que ela quis dizer é que, o nosso irmão, que vivia quietinho, mais lendo do que falando, estava captando as coisas, as pessoas e os acontecimentos de uma outra forma. Então, ao ler os poemas hoje, nós (os irmãos) revivemos tudo aquilo como se fosse a participação direta do Mingo naquele tempo. Não é interessante essa expressão tardia de um universo bem nosso?

                As pessoas, sobretudo elas, são as principais responsáveis pelas nossas saudades. Não precisa olhar a imagem da  Vó Eugênia,  boa contadora de causos, de ótimas histórias, para sentir saudade dos momentos agradáveis que vivemos em sua companhia. Agora estou pensando no tio Marcelino que, bem moço foi tentar a vida na Baixada Santista, onde serviu ao Exército e depois seguiu a carreira de metalúrgico na Cosipa, longe de todos nós. Porém, aguardávamos a cada ano o seu período de férias, pois ele nos trazia "coisas encantadoras da cidade grande”. Também para ele era importante rever o lugar e as pessoas, puxar rede na praia, namorar as deslumbradas (pelo “filho do Zé Armiro que veio de Santos”). O marcante do tio Marcelino era a sua visão mais ampla de tudo e a sua irreverência, juntamente com uma câmara fotográfica para registrar muitas coisas. Tudo era em preto e branco. Demorou um pouco para eu poder comprar a minha Kodak  Ektra 10 e fazer os meus registros. Ainda bem que todo este pessoal (Ana, Mingo, tio Marcelino, Vó Eugênia, Júlio, Belinho, Élcio, João de Souza, João Barreto etc.) deram e continuam dando suas contribuições à grande memória do nosso espaço caiçara! Tudo vai saindo das nossas memórias e das nossas saudades! A poesia do mano diz mais.

               

                Moradia do tempo

                Qualquer golpe de vento,

                qualquer toque de anjo,

                qualquer canto de pássaro,

                qualquer raio de sol,

                qualquer gota de chuva,

                qualquer nota de viola

                abre a taramela

                e escancara a janela

                do quarto onde mora

                minha memória

                e minha saudade.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

PEIXE-POESIA E FOLCLORE



                Discretamente o mano Domingos, depois de MUNDÉU, publica o PEIXE-PALAVRA. São mais poesias caiçaras para o nosso deleite.

                Escolhi Ovos de indez no desejo de que muitos leitores sejam motivados a registrarem suas experiências e emoções. A inspiração está aí para despertar mais inspiração. Se faltar...tenha o seu ovo de indez.

                Eu acredito que as palavras são capazes de rememorar muitas coisas ainda importantes para o nosso viver, para a nossa identidade.
                E viva o Dia do Folclore!

                OVOS DE INDEZ

                Seguindo o exemplo
                de Vovó Eugênia que

                com suas galinhas

                não admitia talvez,

                quando percebo

                que meus versos estão aíbos,

                por minha vez,

                leio e releio

                Mário Quintana

                e Manuel Bandeira

                que são meus ovos de indez.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

CAMBURI DE MUITA GENTE


Pitirão  para retirada de canoa da mata.
Caiçara do Camburi: da madeira à canoa (Fotos: Canoa Caiçara)

                Quando busquei um título, na primeira vez, quis chamar o Camburi de uma “ilha” rodeada de mata e água. Foi esta a impressão que tive na primeira ida neste paraíso de caiçaras que fica no extremo Norte do município de UBATUBA.



                Aproveito desta ocasião para um convite: vá conhecer a praia, o seu povo e a sua história. Ouça a sabedoria de pessoas que resistem bravamente às investidas da especulação imobiliária representada pelos grileiros, além do descaso das autoridades e dos poderes constituídos para garantir a cidadania. Procure primeiramente os anciãos como testemunhas da história. (Eu recomendo, apesar dos problemas de saúde, o seo Genésio). São essas pessoas Que permitem reconstituir a simbiose do homem com a natureza, originando o ser caiçara.



                Sinta a água gelada ao atravessar os dois rios antes de chegar às moradias dos quilombolas. Pise com cuidado nas pedras clareadas há séculos pelos pés dos negros que fugiram da escravidão. Hoje, quem continua nessa ação espontânea são os seus descendentes.



                Deixe-se impregnar pela atmosfera comunitária que envolve as casa de pau-a-pique, as farinhadas, os roçados... Enfim, todo o ambiente natural e os homens que continuam numa interdependência.



                Talvez você tenha o privilégio de tomar um café com mandioca cozida, além de escutar alguns causos reconfortantes, que perpetuam uma tradição oral. Sinta, na aparente fragilidade da dona Irene, a força da mulher caiçara. Ainda tem mais: ruínas de antiga fazenda e da serraria dos ingleses, manifestações de religiosidade, trilhas, organização comunitária, regatas de canoas etc.



                Eu fiz isso recentemente. A sensação de renovação é muito gratificante. A intenção era esta mesma: sentir a comunidade, saber da sua história e dos desafios que se apresentam. Afinal, precisamos valorizar o nosso povo, de como vai se integrando nos desafios deste século, sem abrir mão de nossas maiores riquezas: a natureza e a cultura caiçara. Tudo isso sem se omitir diante de gritantes injustiças: má conservação da estrada de acesso, rios carecendo de pontes, autoridades ambientais que negam as condições para um desenvolvimento sustentável, de manutenção cultural etc. São muitos os riscos que, desde os jovens até os idosos e doentes, correm constantemente nos caminhos do Camburi.



                A fala do seo Genésio deve ser levada mais a sério (também pelos mais jovens do lugar!). Ela soa como profecia-denúncia:

                “Acabando a nossa cultura, também acaba a natureza. Será que não somos filhos de Deus? Cadê os nossos direitos?”


                Vale a pena visitar e conferir!


                Sugestão final: Lá chegando, escute os sons do mato e das águas, sobretudo do mar, um eterno intiqueiro ( provocador) da costeira, da areia da praia, do jundu e do mangue. Isto é Camburi.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

É DA PROA DA MINHA CANOA...


Basta pouca coisa para avistar um sanhaço nas goiabas (Foto: Júlio)


                Como é bom ter sempre mais uma oportunidade para rever os amigos, visitar outros lugares, sentir mais de perto as coisas da terra! Foi o que eu vivi ontem, na área rural onde moram  a Cristina e o Roberto,  nossos amigos que migraram de Ubatuba para Natividade da Serra, um dos municípios vizinhos.


                Na casa deles, me embebedando de natureza preservada, depois de uma deliciosa refeição,  fiquei pensando nas pessoas que, dentro dos contratempos, continuam nos oferecendo muito, através da cultura popular, em cujo mês de agosto recebe uma dedicatória especial. O meu amigo Júlio está nesse rol.


                De uma rede estrategicamente armada próxima de um alimentador de pássaros, eu me pus a contemplar, a refletir, a pensar nos meus mais próximos e nos que estão um pouquinho mais longe. Recordei-me de uma poesia do Júlio Mendes que diz de coisas refletidas a partir da proa da canoa rompendo o mar. Ao chegar em casa, depois de receber um telefonema do mesmo para tratar de assunto do Museu caiçara, fui procurar a tal poesia. Portanto, para deleite de mais pessoas, apresento...


                 É da proa da minha canoa.

         É da proa de minha canoa
         Que eu vejo o céu e o mar
         Vejo serra e linha de praia
         Tudo a emoldurar
         O  meu lugar de morar.


         É da proa de minha canoa
         Que eu vejo o misturar
         De azuis, de verdes e brancos
         De céus, de matas e nuvens
         Que envolvem tão belo lugar.


         É da proa de minha canoa
         Que o vento sopra o olhar
         Que ondas balançam o pensar
         Que mareiam em cantos sonantes
         De sereias, de guetes, de anjos.


         É da proa de minha canoa...

(Fonte: O Guaruçá)

domingo, 19 de agosto de 2012

PRESENTE PARA O REI DOS REIS

Orelha-de-burro florida (herança da finada vó Martinha): presente marcante.

Ontem eu recebi um telefonema da amiga Fátima. Como sempre conversamos sobre a nossa história, os nossos causos e as nossas famílias. Sempre é gostoso prosear! Então, aproveito o arquivo do Luiz Moura (O Guaruçá) para publicar mais uma contribuição da herdeira do João de Souza, a nossa Fátima.


             Presente para os rei dos reis

             Foram tantos os Natais na minha vida! E todos foram pontuados por situações inusitadas, cômicas até.
             Não tinha neve, algodão servia para adornar a árvore, que quase sempre era um galho de cedrinho cedido pela Dona Virgínia Lefreve. Ela não gostava muito que dilacerassem suas árvores, mas fazer o quê? Natal é Natal!
             Toda torta, o galho perfumado ia para dentro de uma lata de tinta cheia de areia de construção, envolvido num papel rosa de embrulho. Na lateral da lata, ainda colava figurinhas recortadas das revistas Manchete, Grande Hotel, Capricho, Sétimo Céu, até das embalagens de comestíveis com motivo de Natal. Grudava as figuras com clara de ovo, goma arábica, massinha de trigo. Tinha Papai Noel misturado com anjo. Estrela com guinomo, trenó com sino de igreja. E muitas velas! Afinal todos diziam que Natal é Luz! Tudo era válido para deixar a árvore bonita.
          Assim feito, lá ia ela para o canto da sala, com um monte de penduricalhos brilhantes.
          Cada vez que meu pai ia trabalhar em Taubaté trazia um componente para a tal árvore.
          Até hoje tem enfeite para montar umas três árvores mais.
         Quando éramos ainda em três, hoje somos cinco irmãs, ele trouxe um sino para cada uma. Um sino vermelho, um amarelo e um verde. Ano após ano os três sinos foram pontas de árvore na nossa casa. Então eles sumiram misteriosamente. Perderam-se no tempo. Como memórias que a gente nega e renega e que substitui por outras que, provavelmente, terão o mesmo fim.
        A árvore ficava debaixo do vitrô. Quando ventava, uma melodia se espalhava por todos os cômodos, avisando da chegada do Natal. Os sininhos se desdobravam sob o ataque do vento dizendo: ”- Curtam esse tempo, ele pode repetir, mas não voltará nunca mais com a mesma essência.”
         Olha que às vezes o barulho contínuo era irritante...
         Nós não sabíamos interpretar as mensagens anunciadas por elas.
        Muitas vezes, hoje, estamos envolvidas com coisas tão supérfluas e banais, parecendo que tudo está no limite, não vai dar tempo para nada, o Natal é imediato, e não percebemos que não somos nós que vamos passar o Natal, e sim é o Natal que está passando. Ele passa todo dia. E a gente não tem noção disso.
        Todo ano o galho de cedrinho perfumado era renovado. Até o dia em que acabaram as árvores de cedrinho. Acabou a dona das árvores. Acabou o homem que buscava o galho. Ainda não acabou a família que cultivava a façanha de festejar o Natal.
        Tá certo que a árvore hoje é artificial. Tudo ficou artificial. O Natal não tem a mesma magia do simples. Hoje só tem Natal quem adquirir coisas sofisticadas.
         Esqueceram que a festa do Natal é a comemoração do aniversário de alguém que veio na terra ensinar a beleza da simplicidade contida na alma de cada um.
        Será que isso ainda vale?
        Hoje vi numa loja uma árvore de fibra ótica linda!
        Juro que senti saudade daquela árvore de cedrinho. Saudade de usar toda a criatividade para enfeitá-la com ajuda da família inteira. Saudade dos palpites de todos. Saudade da alegria de concluí-la juntos, e sentir as portas dos nossos corações abertas para chegada do Natal. O individualismo nessa época nunca teve chance lá em casa.
        E isso era Natal, uma comunhão familiar. Do nosso jeito o amor enchia a véspera e o dia de Natal.
        Era assim que presenteávamos Jesus. Pendurávamos naquela árvore o amor de nossa família. Um grande presente para o Rei dos Reis.

Nota do Editor: Fátima Aparecida Carlos de Souza Barbosa dos Santos, ou simplesmente Fátima de Souza, é, sem dúvida, a primeira caiçara da sua geração a escrever sobre temas do cotidiano local. É autora de Arrelá Ubatuba.

(Fonte: O Guaruçá) 

sábado, 18 de agosto de 2012

MOMENTOS DO RIO PURUBA




                Em muitas oportunidades, às margens do rio PURUBA, no lado Norte do município, eu tive o prazer de escutar boas histórias e de experimentar saudosas convivências.

                Um exemplo foi, através do Antonio, saber que ali, ao lado do campo de futebol, funcionou uma beneficiadora de caxeta, uma madeira abundante da várzea. Era propriedade de um espanhol; funcionou por muitos anos. Toda a produção era conduzida até a praia vizinha (da Justa), de onde continuava viagem pelo mar para o Rio de Janeiro (virava lápis, tamanco etc.). O velho Guelo Fileto era o carreiro, o condutor dos bois que faziam o transporte morro acima. Desse espaço, das duas praias, se originou duas das nossas famílias tradicionais: Oliveira e Balio. Dona Maria Balio, uma grande mulher, liderança ímpar da praia do Sapê, alfabetizadora eficiente  que nos deixou recentemente, dizia toda orgulhosa: “Na praia da Justa está enterrado o meu umbigo”.

                Vários dos trabalhadores da caxeta vinham do município vizinho de Cunha. Foram eles os portadores da tradicional Congada do Sertão do Puruba, cujo primeiro mestre foi o Ditinho Alves. Para nosso deleite e orgulho, atualmente é mantida por mestre Dito Fernandes e seus filhos.

                No encontro dos dois rios (QUIRIRIM e PURUBA), onde hoje as águas tomam o espaço, era lugar da fazenda dos ancestrais dos Oliveiras. A pedra do portal, resgatada das águas, está em propriedade do tio Dico.

                Coisa de que não se deve deixar de ver nos terreiros dali: as conchas das imensas ostras que garantiram o sustento de tantos caiçaras  daquele lugar maravilhoso.

                Eu espero que o Dia da Exaltação da Santa Cruz, padroeira da praia do Puruba, repleta de coisas de caiçara (comidas, regatas, jogos, danças etc.), seja uma referência no mês de setembro, conste definitivamente no mapa cultural do município.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

COISAS DO SABÁ


       Muitos dos que conheceram Silvério Sabá ainda estão vivos. Por isso me entenderão melhor. Aos demais, acolham com carinho as contribuições desse caiçara que nos deixou há algum tempo.
          Sabá morava na praia da Enseada; no final de sua vida era vendedor de peixes. Um ritual dele: passar a cada dia no bar onde eu trabalhava para comprar cigarro e jogar fora algumas palavras. Eu adorava escutar os seus causos.
          Sabá, descendente de escravos, era um negro alto, sempre de bem com a vida, mas que tinha o hábito de se lamentar sob a forma de brincadeiras. Não sei de onde eram os seus ancestrais africanos, mas ele falava de um tal de Arco-íris de Uidá. Era de onde chegou até ele (Sabá) muitas das coisas que sabia. Ainda hoje me recordo de uma ocasião, sabendo que o Zé da Nhanhã estava com a “boca ruim”, apareceu o preocupado negro, já no final da tarde, depositou no balcão um maço de raízes e disse assim:

         “Pegue isto, Zezinho. Dá um jeito de entregar para o Zé da Nhanhã. É raiz de malva branca e serve para curar gengivas. Explique que é preciso ferver e enxaguar a boca três vezes ao dia. Depois eu colho mais”. E funcionou mesmo!
          Em outra ocasião, durante a prosa, contou o seguinte:

         “O lugar dos meus avós - bem distante daqui !- numa ocasião estava assombrado. Havia comentários que tinha um bicho assustando os viajantes que passavam por ali à noite. Era um monstro de muitos braços e pernas. Não deixava ninguém passar pelo caminho.


         Vários homens se reuniram para acabar com o tal bicho, mas desistiram quando estavam perto do lugar (porque o medo era demais). Só um homem, chamado de Benedito, pegou a sua foice e disse que tiraria essa a história a limpo.

         Ele foi chegando já preparado para o pior. O monstro estava lá com suas pernas e braços. Mesmo com muito medo, Benedito foi em frente: pegou sua foice e passou a atacar o medonho. Ele se levantava, mas o homem continuou a dar foiçadas. Depois o monstro não se levantou mais.


         No dia seguinte, nas primeiras luzes da manhã, todos do lugar foram ver o horroroso que se findara. Foi um grande espanto! No lugar da luta, o que se via era um coqueiro todo destruído”.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

COISAS NO CÉU




                Na década de 1970, bem no comecinho, parece que a nossa terra (Ubatuba) passou a figurar nos guias turísticos intergalácticos. O que me leva a esta afirmação foram os diversos fenômenos observados em diferentes pontos do nosso município.                 Eu mesmo, em 1971, estando na casa dos meus avós, na praia da Fortaleza, um pouco depois do anoitecer, fui chamado por tio João para ver algo no céu. Era uma coisa  redonda iluminada, meio que alaranjada. Sem nenhum barulho se deslocava devagar, sem pressa alguma. Muito bonita! Parecia uma lua bem pertinho da gente. Do jeito que veio foi-se embora, sem causar nada em nada e nem em ninguém.  Mais gente também viu. Nos dias seguintes era o assunto das prosas. Parece que muitos sentiram medo. Mais tarde ficamos sabendo, através do rádio, desses papos de disco voadores, de seres extraterrestres e coisa e tal.

                Olhando o céu em noite estrelada, com luzes fortes, mas também com luzinhas que parecem fazer um grande esforço a fim de darem sinais de existência, eu acredito na existência de outros planetas ocupados por viventes. E, assim como nós, eles também podem estar passeando entre os luzeiros. Vai que alguns deles, atraídos pelos vagalumes que abundavam a Mata Atlântica, quiseram nos apreciar mais de perto. Esta era a tese do Eugênio Inocêncio, um caiçara da ilha do Mar Virado. Ele, que se criou na ilha da Vitória, ou seja, que nestes espaços tinham uma visão privilegiada do céu, dizia que luzes assim era comum, "sempre vi em toda vida".

                O que escrevo agora aconteceu com a filha do Florindo, na mesma época de tantas observações diferentes no nosso céu. Assim ela me contou:

                Na década de 1970 eu trabalhava no Itaguá. De onde era a minha casa até o local do trabalho eu andava quase dois quilômetros.
                Numa manhã, por volta das cinco horas da manhã, eu ia caminhando pela Rua Taubaté, quando de repente desceu algo do céu. Era enorme e muito estranho. Um tipo de luz o iluminava. Era redondo, assim como um disco voador.
                Eu senti muito medo, mas alguma coisa mais forte do que eu me deu forças para correr. Enquanto eu corria, olhava para trás e vi que aquilo estava bem próximo de mim, quase me alcançando. Aí corri mais ainda, fiz uma curva para chegar à casa da minha amiga perto dali, na Rua Benedita Santos. Comecei a gritar.
                Para a minha sorte, a casa da minha amiga não tinha portão. Bati na porta desesperada. Logo abriram. Então a coisa estranha sumiu de repente.

                Ainda hoje me pergunto: O que seria aquilo? Só sei que muitos não acreditaram no que falei”.