sexta-feira, 31 de maio de 2013

ANDE LOGO DILMA; UBATUBA ESPERA!

       
Produção artesanal no Corcovado  (Arquivo Júlio Mendes)

             O amigo Júlio continua na luta, compondo e escrevendo coisas para se pensar. Aproveito para informar que logo teremos o grupo Cantamar lançando o novo CD. É lógico que continua cantando as nossas raízes!

         E nesse final de semana o povo de Ubatuba fartou-se de cultura; muita gente em Caraguatatuba, na Virada Cultural; muita gente em São Luiz do Paraitinga, na Festa do Divino; muita, muita gente de Ubatuba em Paraty, no Bourbon Festival Paraty; não vou falar ainda dos que foram a Campos do Jordão. Pois bem, quem ficou aqui nem a bandinha na praça pode apreciar. Miséria cultural total! É lógico que temos que entender que a nova turma administrativa está arrumando a casa, está com boas intenções e trabalhando em captação de recursos... e a hora que a Dilma despejar dinheiro em Ubatuba, sai debaixo, porque teremos grandes eventos acontecendo aqui e com a certeza de que nós artistas caiçaras, ubatubanos e ubatubenses, estaremos no meio desses eventos, até ganhando um dinheirinho e deixando de ser agraciado com pão e mortadela como sempre fomos. Que venha a dinheirada em prol da nossa cultura, em prol de nossa economia. Tenho certeza que quem vai se deslocar de carro ou alugando vans e ônibus para assistir shows em Ubatuba, serão os nossos vizinhos. Éééé, assim espero!
       Antes de ontem, 27, comemoramos o Dia Nacional da Floresta Atlântica e lá na praça 13 de Maio, juntamente com a turma da APPRU, com a turma dos observadores de pássaros e outras entidades, cumprimos com nossa parte em mostrar e conscientizar sobre a preservação de nosso ecossistema, de nossa Mata Atlântica. Parabéns a todos que realizaram esse engrandecedor trabalho, mas tenho certeza que a hora que a Dilma despejar dinheiro em Ubatuba, para realizarmos um grande festival em comemoração ao Dia Nacional da Floresta Atlântica e ao Dia Internacional do Meio Ambiente, Ubatuba vai ferver e eu vou reapresentar cantando para uma multidão, nacional e internacional, a música que cantei lá na praça para conscientizar sobre nosso meio ambiente:

Olho através da janela
Vejo com grande tristeza
A minha terra
À se transformar
No alto daquele morro
Tinha um grande palmital
Aroeiras e paineiras
Passarada divinal
Hoje lá virou favela (ai ai!)
Tudo muito natural
Nas margens daquele rio
Tinha um grande manguezal
Garças brancas e cachacas
Um berçário divinal
Lá também virou favela (ai ai!)
Tudo muito natural
O culpado disso tudo, moço!
É o poder do capital
Que corrompe e sucumbe
Do plebeu ao general.

         E por falar em manguezal que virou favela, agora, também, manguezal na cabeceira da ponte do Perequê-Açu tá virando pontinhos comerciais em alvenaria concretada, tudo aos olhos da patota ecológica ambiental desconcientizada. O que é isso, hein?! Enquanto ferram com a vida do caiçarinha no sertão, proibindo-o de capinar a terra para plantar seu feijão, permitem uma coisa dessas. 
          Fala sério, hein?!
          Em Ubatuba até a onça arregala os olhos!

(Fonte: O GUARUÇÁ)

RELENDO OUTROS MOMENTOS

     
Saíras no meu quintal (Arquivo JRS)
         Olhando uma imagem da casa de pau-a-pique, no Cambury, vem à memória muitos momentos vividos em paisagens assim. Hoje, passando pelos caminhos que ainda não foram tomados pelos casarões dos turistas ou pelos condomínios fechados, vou apreciando as cavas de casas, os vestígios do meu povo caiçara. Tudo se desfez na natureza porque a casa do pobre caiçara era totalmente ecológica. Na década de 1930, dizia a tia Maria Mesquita, esposa do tio Genésio: “Pode se casar que tem uma canoa e uma casa de telha”. Dessas casa mais “modernas”, o que se acha são somente cacos de telhas que ajudam a entender e explicar a nossa história. Outros aspectos a gente vai partilhando, recontando...

     Há coisa de quarenta anos era comum, no cotidiano caiçara, aproveitar ao máximo a natureza que nos rodeava e a convivência com as pessoas. Todos se conheciam, queriam ficar  juntos sempre. Nos finais das tardes, já nos serões, nas praias, os jovens jogavam futebol ou peteca. Aproveitavam a calmaria, paqueravam, partilhavam histórias. Os mais velhos, na linha do jundu, pelos ranchos de canoas, proseavam sobre o cotidiano antes de se dirigirem para o jantar. Outros chegavam de armar tresmalhos e puxavam as embarcações às áreas protegidas. Poucos passeavam na linha do lagamar: se molhavam até as canelas, um relaxamento ainda seguido à risca por alguns caiçaras e que vem de outros tempos.
                A minha prima Neide, da Praia da Fortaleza,  era uma dessas pessoas que praticava esse relaxamento. Nunca a vi falhar um serão, mesmo que chovesse. Andava olhando perto e longe; enxergava a linha do horizonte, todas as cores, mas também via cada concha, os buracos dos bichos da praia e os seres que eram novidades. Até um pinguim adotou.

                A simpática ave, trazida por alguma corrente do sul, recebeu o nome de “Arcidão”. Foi uma homenagem ao soldado do mesmo nome que, por alguns anos, sentou praça em Ubatuba . Muitos anos mais tarde, por intermédio do saudoso Ney Martins, eu soube que esse valoroso homem, após a aposentadoria, tornara-se mestre de congada em Jacarei, a sua terra natal. Já a ave se apegou tanto à Neide que, até o quarto era compartilhado: dormia num aconchegante tapete, feito de retalhos pela tia Maria Mesquita, embaixo da cama. Durante o dia, aonde ia a moça, pra lá se dirigia andando de forma muito engraçada o “Arcidão”. Nunca se separavam, exceto quando a Neide precisou ficar fora um mês por conta do curso de enfermagem. A ave entrou em tristeza profunda, não se alimentava mais. A solução foi embarcar numa canoa e soltá-lo bem longe, pois ninguém aguentava vê-lo sofrer. Eu nunca tinha visto sentimento tão forte entre um animal e a comunidade da praia da Fortaleza. Duro mesmo foi sofrer depois com o sofrimento da Neide. Ah, essa minha prima! Que coração!

terça-feira, 28 de maio de 2013

VERDADES NO MAR; VERDADES EM TERRA

                       
          
                   Hoje, ao lembrar do pessoal que viveu tanto tempo na pesca (Chico Félix, Chico Romão, Zé Lucas...), me veio a vontade de reeditar este texto. Espero que gostem!

                Se tem uma coisa que me impressiona muito, mas muito mesmo, é conversa de embarcadista. Sempre se escuta coisas fantásticas, testemunhadas por essas pessoas que têm o mar como companhia por muito mais tempo que a terra. Alguns deles, apesar de até terem se aposentado da faina marítima há tempos, ainda estão inseguros em terra firme devido ao tanto de tempo em que viveram no balanço do mar. O meu amigo Oscar, natural da Ilha do Prumirim, que viveu embarcado por muito tempo, quando em terra, demorava alguns dias para conseguir se equilibrar em sua velha bicicleta. Era comum ele dizer nos primeiros dias depois de um período de pesca: “Nem conte comigo para sair de magrela por esses dias. Se quiser ir caminhando...tô dentro!”. Outro pescador que há tempos está em terra firme é o Zé Lucas, do Perequê-mirim. É impressionante escutar os seus causos! Querem um aperitivo? Lá vai!

            - Pode contar, Zé, alguns causos vividos no mar que te marcou demais?
            - É lógico que sim! O primeiro deles aconteceu próximo da Ilha Monte de Trigo, depois de São Sebastião, do tempo em que eu nem era ainda mestre de barco. Existe um pássaro interessante, de pés minúsculos, mas com uma envergadura de asa fantástica. Sabe que ele não mergulha? O peixe que pesca é aquele que está na superfície da água; passa o bico avantajado e captura. Ele não mergulha, nem pousa na água justamente por tem uma asa muito grande que não permite alçar voo do nada. Na verdade, as asas, ao serem esticadas na altura da água, ficariam mais da metade submergidas e perderiam a sua oleosidade de flutuação. Digo isso para que você entenda o que vem agora: aconteceu de, na referida ilha, por ocasião de muita manjuba, numa das descidas, um deles se atrapalhou e ficou na água. Ficou quietinho, flutuando, como se nada tivesse acontecido. Então, já sabendo que esse pássaro não sai voando da água, todos do convés do barco se voltaram para o fato, como se dissessem ‘como ele vai se virar agora?’. Foi quando aconteceu algo que nenhum dos homens presentes, todos já velhos pescadores, tivessem visto ou imaginado: um outro pássaro do bando desceu, segurou aquele que boiava na altura do pescoço e começou a levantar o seu corpo da linha d’água até o ponto onde as asas do primeiro se desgrudaram da água, começaram a bater até ganhar autonomia de voo. Impressionante, né.
            - E aquela vez das toninhas e atobás? Conta, Zé!
            - Tá bem. Dessa vez foi pra fora do Bom Abrigo, pra mais de quatro horas de navegação, quando a embarcação estava com a carga quase completa de sardinhas. Não muito longe de onde a gente navegava, um bando de atobás desciam freneticamente a cada instante. Aquilo chamou a nossa atenção. Na mesma hora, estando eu de mestre, ordenei que fôssemos naquela direção para ver o que era aquilo, que tipo de peixe estava por ali chamando a atenção dos atobás. Aqui vem o inacreditável: naquele ponto do mar estava um cardume de toninhas. Elas mergulhavam muito profundamente, traziam, até mostrar na superfície, anchovas. Então, as aves pegavam como quem estivesse recebendo um presente; em seguida, ganhavam as alturas satisfeitas com as valiosas presas. As toninhas voltavam a mergulhar e traziam mais peixes. Tal espetáculo permaneceu por  quase uma hora, quando todos os pássaros pareciam estar saciados. Na verdade, elas estavam capturando os peixes de águas profundas e trazendo para que os atobás se alimentassem. Um dos pescadores que assistiu tudo disse no final: "Que exemplo! Será que alguém vai acreditar em nós quando, em terra, a gente contar isso?"

segunda-feira, 27 de maio de 2013

MARAVILHAS DO TIO CHICO II


 
Imagens do Google



                Agora, ao chegar ao tempo da tainha encostando em nossas praias, não tem como não relembrar das nossas puxadas de redes na praia (picarés). O Tio Chico, num momento de prosa, fez questão de contar um causo ocorrido com o saudoso Nilo Vieira, grande pescador de picaré:


                “Aconteceu na Praia do Perequê-açu. A tainha tava grossa. Era noite de lua cheia, sem nenhuma nuvem para causar sombreamento. A rede vinha chegando pesada. De repente um companheiro, o do calão de terra, diz que a rede está cheia de siris. Prontamente o Nilo respondeu: ‘Não tenha medo porque o siri não morde na lua cheia!’. Então, depois do lanço no lagamar, cheio de confiança, o rapaz enfia a mão na rede. E já sai gritando com a sirizada dependurada nas mãos. Depois volta bravo com o Nilo: ‘Você não disse que siri não morde na lua cheia?’. ‘E não morde mesmo! Veja bem: você acha que o siri alcança a lua naquela altura?"

domingo, 26 de maio de 2013

O IMPORTANTE É TER FAMÍLIA

Adoro a beleza simples da flor!  Por que complicar a vida?  (Arquivo JRS)
     
                       Sofrer preconceitos não é bom! Deixo que o Diegues fale por mim:

                       "Os caiçaras sofreram uma série de preconceitos urbanos que atingiram e atingem também outras culturas tradicionais brasileiras, provavelmente por apresentar baixos níveis de acumulação de capital e consumo urbano-industrial e depender, em suas atividades de subsistência, dos ciclos naturais".
                       Hoje, da nossa maneira,seguimos a tradição (entendida não como algo imutável, mas como um processo histórico pelo qual elementos da chamada cultura moderna são continuamente reinterpretados e incorporados ao modo de vida). Por isso, até a família é motivo de reflexão.

                A família, de acordo com a Sociologia, é um grupo social primário, ou seja, onde seus membros estão numa exposição constante entre si, sendo os seus objetivos sexuais, reprodutivos, econômicos e educacionais. Mesmo que se questione isto, cada família segue regras e procedimentos padronizados pela sociedade. Por isso que também é uma instituição social. Quer dizer que a família tem a sua função na garantia da coesão social.
                A constituição familiar varia de acordo com a política cultural, mas continua sendo família. Ela pode ser monogâmica, poligâmica, poliândrica, nuclear, extensa, disciplinada, devotada, homossexual etc. O que se constata em todos os modelos: a necessidade de voltar-se para si mesmas como forma de proteção em um mundo cada vez mais competitivo. Por isso digo:
                 Miseráveis daqueles que, por determinada moral, não reconhecem que modelos “X, Y e Z de famílias” são famílias e geram estabilidade social. Isto é importante: gerar estabilidade social! De que adianta só ser classificada como família, mas desprezar e maltratar quem oficialmente está como cônjuge? E o que dizer dos que geraram filhos, mas nem se esforçam para notá-los sob o mesmo telhado? De que adianta ter a classificação de família e estar gerando bandidos, graças às incoerências e violências?  Dirão alguns: “Ora, mas diante da lei são marido e mulher!”.
                Cada cultura foi definindo o seu modelo de família. Hoje, com a globalização, resta-nos compreender aquelas que destoam da nossa, mas que permitem as revisões de nossos conceitos. O meu modelo familiar vai se perpetuar conforme a minha vivência coerente, o meu amor por ela. E o inverso também é a mais pura verdade (as pesquisas mostram o aumento no número de separações)!  Portanto, não posso desmerecer as outras variações para mostrar o valores da minha família.  No meu entendimento, mesmo distante do modelo devotado (tradicionalíssimo), as famílias da atualidade se formam pela necessidade de carinho e segurança. Isto é que é mais importante!
                Deixa eu contar um exemplo contemporâneo, acontecido bem perto de nós:

                Fulano e Sicrano, homossexuais desde o tempo em que eu os conheci no ginásio (Escola Capitão Deolindo - Ubatuba), após a maioridade resolveram morar juntos. Em quinze anos foram felizes, compraram uma casa e outros bens. Lógico que as famílias não aceitava a situação estável dos dois! Porém, um deles morreu. Era justamente aquele em cujo nome estava registrada a casa. O que fizeram seus pais e irmãos? Tomaram a casa do outro porque não havia uma lei que os reconhecessem como parceiros, como uma família.  O coitado teve de recomeçar do zero, vendo aqueles que os detratavam desfrutarem dos frutos de seus sacrifícios. Tudo porque faltava uma lei que legalizasse tal procedimento cultural que existe desde os primórdios.

sábado, 25 de maio de 2013

A CRUZ DE UMA PAIXÃO

            
A Cruz de Iperoig, em Ubatuba,  lugar de tantas paixões! (Arquivo  A/I)

                

              Hoje tem escolas com o nome dela, mas poucos sabem a respeito dessa humilde mulher que faz parte da memória de Ubatuba.  Como seria gratificante conhecer e cultivar o espírito literário da Idalina Graça! Hoje, Da história contada pelo o velho Romão, essa caiçara escreveu a lenda da “Cruz de Iperoig”:

                “Iperoig, a mais linda virgem tamoia, implora a seu Deus o amor do homem branco. Na orla da praia, o jovem missionário ora e medita. As saudades da pátria distante são suavizadas pela fé ardente.
                O amor da jovem índia não o perturba. Há muito que esqueceu as tentações da carne, porém seu espírito sofre. Acostumado a amar e amparar os seres humanos mais infelizes do que ele próprio o é, compreende o imenso desespero da virgem que se lhe oferece e é repudiada.
                Já havia perdoado o amor louco da selvagem donzela, que tentava afastá-lo do Senhor e da gloriosa missão para a qual fora destinado na terra. Pousa seus olhos sonhador sobre a cabecinha amiga e inclinada a seus pés. Olha para os braços roliços, morenos, de linhas graciosas e puras, cruzados sobre os seios pequenos e túrgidos. Iperoig espera...
                Eis que o homem branco, com voz suave e trêmula, diz: - ‘Minha filha. Já o sol nasceu e está aquecendo a terra. Seus raios vivificadores estão dando vida tua pátria selvagem, onde viste pela primeira vez sua luz’.
                Ergueu-a mansamente da areia, onde estava ajoelhada, e viu-a trêmula e palpitante. Seu espírito forte e heroico se sentiu turbado ante aquela criança, que implorava desesperadamente amor. Vacilou por um simples momento, e pousando o seu olhar na incomensurável amplidão do céu, orou febril:  - ‘Deus, Todo Poderoso, tende piedade! Lançai Vosso olhar protetor sobre esta pobre ovelha arisca do rebanho. Senhor! Iluminai com Vossa Divina Luz este pobre coração obscurecido e mergulhado no pecado! Fazei, Senhor, com que esta criança sofredora, conheça a Luz e a Verdade, que sois Vós, Jesus!’
                Enquanto orava, de seus olhos as lágrimas escorriam, lentamente, pelas faces pálidas e encovadas. Ouvi-o Iperoig. E assim falou: - ‘Os guerreiros valentes da nação tamoia não choram quando vão morrer. Tu choras porque eu te tenho amor.’
                Cai, de joelhos, o missionário: ‘Ave-Maria...’
                Sua voz clara e melodiosa se casa com trinado dos pássaros, enquanto o mar na praia o acompanha em responso de prece...
                Parte a jovem tamoia alucinada de dor, ofendida no mais profundo ser, pela recusa do seu amor. Vai pedir a vida do homem branco a seus irmãos. – ‘Negara-lhe ele o amor que lhe ofereceu? Pois bem; ela lhe negará a vida.’
                Segue. Penetra na selva. Eis que das folhas escuras desliza lentamente a horrenda urutu. Um bote e um grito! Iperoig sente-se ferida. Seu olhar desvairado busca, frenético, a ‘árvore da vida’, cujas folhas poderão salvá-la. Mas, ai dela! A árvore nasce muito longe, além, no sopé da serra. As dores atrozes dizem-lhe que a mais linda virgem da nação está para morrer.
                - ‘Não’ –grita aflita – ‘Não morrerei longe dele. Quero vê-lo mais uma vez, antes de partir para o país das sombras’.
                Reunindo todas as forças que lhe restam, já minada pelo veneno atroz, Iperoig tenta voltar à praia. Ampara-se nos troncos, nos galhos, arrasta-se de joelhos, implorando a Tupã para que lhe dê energia suficiente. Torna a enxergar o mar. Seu olhar amortecido pela morte que se aproxima, vislumbra a silhueta amada. Um derradeiro arranco, um último esforço, o grito agônico e tudo se acaba.

                Surge a lua que ilumina dois vultos na praia deserta: um monge que reza e um corpo jovem que dorme seu último sono. Assim atravessam a noite. Quando o sol iluminou mais uma vez as areias alvas, encontrou uma tumba e uma cruz de lenho plantada pelo padre Anchieta. É ela que perdura até os nossos dias: a Cruz de Iperoig”.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

TUDO JÁ FOI PRINCIPAL UM DIA

 Não era mais bonito sem as construções ameaçando o rio? (Arquivo A/I)


                Hoje, quem passa na zona da Barra dos Pescadores, no centro de Ubatuba, quase nem repara que ali tem uma ponte, ou melhor, duas pontes. Passando pela Ilha dos Pescadores, elas já foram um grande passo na interligação com a bairro do Perequê-açu. De acordo com a Idalina Graça, as preciosidades, anterior ao concreto e metal imperceptíveis, marcaram o progresso da cidadezinha que acolhia os primeiros turistas a chegar pela rodovia Oswaldo Cruz. Era a década de 1940.

                "No dia seguinte amanheceu chovendo, e, como não me era possível ir à praia em busca de pescado fresco, fui ao frigorífico, nesse tempo funcionando onde atualmente está o D.E.R. Da ponte avistei o Dr. Felix Guisard, proprietário do sobradão de Baltazar Fortes, parado à porta principal e em animada palestra com um senhor decentemente trajado, que olhava com viva curiosidade todos os que dali se aproximavam. Acostumada a ver poucos turistas na cidade, fiz um demorado exame do forasteiro. Achei-o bem simpático. Comprei o pescado e, ao  sair, notei que ele me acompanhava com olhar.  – “Deve ser por causa das vestes masculinas que eu uso”, imaginei, para logo depois, absorvida pelo trabalho, esquecê-lo completamente.
                Por este tempo estavam construindo a ponte principal que liga a cidade à praia do Perequê-açu – “Com certeza é um dos engenheiros”.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

UM ITALIANO QUE AMOU UBATUBA


                
Igreja Matriz de Ubatuba (Arquivo JRS)
                Helena Silveira: seja bem-vinda!

          De vez em quando eu recordo de algumas passagens a respeito do saudoso Frei Pio Populin, sobretudo de embates com o finado João Pimenta, da praia do Sapê, onde nasci. Era interessante escutar uma espécie de prosa que não era comum em nosso meio. Hoje eu digo que tratava-se de enfrentamentos teológicos. Quando? Segunda metade, quase final da década de 1960. A imagem do disposto religioso escondido por um hábito marrom, tendo um cordão encardido pela cintura, foi marcante na minha infância. Bem depois disso, já na década de 1980, na Estufa, lá estava eu ajudando o mesmo frei nas obras da futura Creche Francisquinho. Também estive com ele me inteirando do Posto da ASEL, na Praia da Ponta Aguda. Deste lugar estão na memória: Aristeu, Odócia, João Araújo, Ambrósio, Filhinha e tantas pessoas desta terra (Ubatuba) maravilhosa!
                Agora, relendo a tese de doutorado do Olympio Corrêa de Mendonça, defendida em 1978, novamente sou instigado a escrever a respeito do Frei Pio.

                A instabilidade social da região dificulta muito o levantamento estatístico do número de suas casas e seus habitantes. A transformação causada pelas obras da Rio-Santos, a especulação imobiliária, a presença de potentes barcos de pesca nesse litoral e a proibição da caça de subsistência têm estimulado o êxodo para as cidades. O Bairro da Estufa, em Ubatuba, tem recebido um enorme contingente de famílias de retirantes. Em Ubatumirim, porém, onde se instalou uma missão franciscana, o êxodo rural é menor. Há casos, inclusive, de famílias que mudaram para Ubatuba, gastaram o dinheiro da venda de seus terrenos, e depois voltaram para a região, internando-se nos sertões do sopé da Serra do Mar, para formar novas posses, onde lavrariam a terra, beneficiariam a mandioca, e dedicar-se-iam à caça de subsistência, únicas atividade para as quais estão preparados.
                [...] De 1970, quando começou o desmatamento para a construção da estrada de serviço [dando início à rodovia que nos ligaria à vizinha Paraty],  até hoje, quando o asfalto corre por vales, corta morros, aterra mangues e já está para se encontrar com o trecho que vem de Santa Cruz (R.J), e as autoridades prometem a inauguração do trecho Ubatuba a Santa Cruz, para meados de 1976, a região já sente os sintomas e as consequências de uma transformação radical. Junto com o desenvolvimento chegou a destruição. [...] O caiçara antes já abandonado, recebe agora o tiro de misericórdia. As pressões econômicas, físicas, psicológicas, despojam-no de suas posses seculares (Ver SEMEDO, Fernando. “Rio-Santos ameaça tudo, até os caiçaras”. O Estado de São Paulo. São Paulo, 29 out., 1973). Os terrenos chegam a ser vendidos por centímetros. É a Costa do Ouro Brasileira; não há lugar para os que a lavraram durante cerca de 300 anos.
                Os caiçaras expulsos das terras de seus ancestrais, são apertados nos sertões dos sopés da Cordilheira Atlântica, tornam-se, mais raramente, caseiros de suas próprias terras, já vendidas a preço baixo, e, no mais das vezes, são jogados às sarjetas das cidades vizinhas, que se incham nas favelas, que já começam a proliferar pelos mangues e morros.
                [...] Se não tivesse existido o esforço ingente da Ação Social Estrela do Litoral (ASEL), dos Frades Conventuais, talvez esse “Império Caiçara” já estivesse totalmente devastado.
                Frei Pio Populin, missionário franciscano conventual, chegou a Ubatuba em 1967. Seus primeiros contatos com os caiçaras são narrados por Stipp Junior:

                “... no meio dos turistas, sua atenção foi atraída por aquela gente simples e pobre que chegava pelo mar, com sacos de farinha ou cachos de banana para vender...”

                E Frei Pio embarcou-se numa daquelas canoas feitas de um só tronco e penetrou no chamado “Império Caiçara”. Mais tarde, vencendo dificuldades enormes, instalou em Ubatumirim, no coração da região, o Centro de Promoção Humana e Profissional, mantido pela ASEL da qual é fundador e presidente.

                Sei dos esforços do Frei Pio. Meus tios Salvador, Nelson e Dito Félix estiveram na empreitada do Estaleiro do Padre. Ele, imitando o Santo de Assis, também saía pedindo até mesmo junto aos empresários no ABC e na capital paulista. Agora, descansa neste chão que tanto amou, bem longe da pátria italiana. 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

QUE ÁRVORE É AQUELA?

Carquera na rodovia Oswaldo Cruz           (Arquivo JRS)

                 Olá, Lúcia Gomes! Seja bem-vinda ao blog!

                A minha amiga Cristina Hydalgo sempre se mostra curiosa em relação às árvores da nossa mata. Quer saber  nome,    se cresce muito, se dá frutos etc. Por essa e outras paixões, vive  no  meio  da mata, no município de Natividade da Serra. Um paraíso!
                No mês passado, notando as floradas amarelas pelo trajeto da rodovia, ela me perguntou o nome. “É carquera. Bonito demais, né?”. "Pois é, Zé. A beira da estrada está cheia delas!"

                A carquera é madeira mole, lasca fácil, mas cresce bem. O seu tom de amarelo é quase ouro, um pouco mais claro que o fedegoso, outra árvore que se enche de flor em março-abril.
                Outros nomes dado à carquera é aleluia (por estar florido no período da quaresma, perto da Semana Santa), acácia, canudo-de-pito, caobi e canafístula. Certamente que tem ainda outras denominações a Senna multijuga. Um nome comum de outros tempos é quaresmeira (Não confundir com o chorão e com o manacá da serra – a tinticuia). Nesta denominação escreveu a saudosa caiçara Idalina Graça, em seu livro Terra tamoia:

                Uma interpelação colheu-me de surpresa:
                - Dona Idalina! Por que não escreve sobre as matas? Olhe a serra como está enfeitada de flores de quaresmeira! Parece ouro líquido que Deus, em sua bondade infinita, derruba sobre a terra!

domingo, 19 de maio de 2013

MARAVILHAS DO TIO CHICO – II

Gosto das pedras. Esta, por exemplo, faz-me pensar do nosso passado vulcânico (Arquivo JRS)


                Na rua Coronel Domiciano, não muito longe da mercearia dos irmãos Renato e Luiz, morava o “Biscoito”. Era na casa dele, pela janela e porta escancaradas, que nós assistíamos um pouco de televisão enquanto éramos obrigados a esperar o ônibus. Os filmes de Tarzan e Terra de gigantes eram os nossos preferidos.  Para enganar a fome, roía-se pães comprados na padaria do Maciel.        Naquele tempo, quando a Praça 13 de maio era toda plana, boa para jogar bola, eu morava no Perequê-mirim, onde fiz os estudos primários. Somente na escola Capitão Deolindo tinha a possibilidade de continuação dos estudos (da quinta série em diante).

                Biscoito, o bondoso homem, trabalhava passando roupas. Não sei se tinha outra ocupação. É nesse ambiente que narra o “Tio Chico”:

                Alguém: - Onde vai o compadre Biscoito levando esse terno engomado?
                Biscoito: - Estou levando para o Augusto, o filho do Cristino da Pedreira. Vai se casar hoje.
                     Alguém: - Mas o Augusto só anda descalço!
                   Biscoito: - Então tá certo, não tem problema algum. O terno ele veste!

sábado, 18 de maio de 2013

HORA DO CAFÉ

radio
Num rádio deste, na casa do vô Armiro,  a gente sabia as novidades do mundo.

             
Nas moradas do céu
tem fogão a lenha
com um bule de café
sempre quentinho.
No fundo tem uma mesa
onde os Santos jogam dominó
ao som de um rádio
transmitindo um jogo de futebol.
Lá no céu todos os dias
são tardes de domingo.
                                                    (Domingos Fábio dos Santos, o mano Mingo)

sexta-feira, 17 de maio de 2013

O CORPO SECO

Corpo seco                            /\



                Os mais velhos contam histórias de corpos secos. Eles estão em vários lugares de Ubatuba, inclusive em algumas das ilhas.
                O velho Sebastião Rita, natural da praia do Itaguá, contava de um que ficava na Barra da Lagoa, por volta de onde hoje é o aquário, bem na região central. Trata-se de um caso horrível. Encerra uma moral para a educação em família. Ouçamos então:
                “Corpo seco existe, meu filho! Eu mesmo não vi. É como diz a minha velha: ‘Deus não me chame por testemunha porque não vi...Me contaram’. Mas muita gente dá testemunho e nunca mais se esqueceu do que viu. A história eu sei sim. Era gente que morava na Jundiaquara: um casal com dois filhos. O mais velho não demorou muito para ir para Santos em busca de trabalho que pagasse; o caçula, o tal de Bernardino “Dindico” ficou com os pais.
                Do jeito que foi criado, nas regalias de caçula, Dindico tomou o caminho das jogatinas e das bebedeiras. Os pais, já de idade, sofriam com isso. Até a quantia enviada de vez em quando pelo filho mais velho para aliviar o viver deles acabava surrupiado, de forma violenta, para alimentar  o vício do vadio. Para envergonhar ainda mais os pais, o pilantra de vez em quando dormia na cadeia por perturbar a ordem pública. O pai logo adoentou de vez.  De nada adiantava as súplicas da mãe.
                No clarear de uma sexta-feira, a mãe pediu-lhe, após juntar algumas moedas, para ir à cidade comprar remédio porque  pai agonizava. Os olhos do Dindico brilharam ao ver aquilo. Saiu xingando todo mundo, chutando os bichos, mas foi.
                Passou o resto daquele dia, passou o sábado...Somente no domingo, já na virada da tarde, é que o miserável chegou batendo a porta e destampando panelas porque estava faminto. A mãe chorava. Na pequena sala alguns da vizinhança velavam o defunto. Dindico olhou para o  corpo amarelado e disse: ‘Morreu? Que morra! Antes ele do que eu!’. E deu meia volta para ir de novo para um jogo de truco na Venda do Tião Giró. A mãe insistiu chorando para que ficasse e ajudasse a levar o falecido até o cemitério. Tudo inútil.
                Chegando na roda de colegas, foi criticado por não estar velando o pai. A resposta não poderia ser outra: ‘Que morra ele que é mais velho!’. Nisso veio uma tempestade não sei de onde. Alguns disseram que aquilo ‘coisa boa não era’. O dono do comércio, temeroso a Deus, logo tratou de fechar as portas. Dindico perambulou o resto do dia e varou a madrugada pelas poucas ruas da cidade. Pela manhã estava em casa. Chegou xingando a mãe.
                Não demorou muito para que a velha também caísse de cama. A pouca gente da vizinhança acudia quando podia, mas todos temiam o filho. Ele era violento com todo mundo.
                Numa manhã, da camarinha a mulher pediu que lhe trouxesse uma caneca de água. Ele até trouxe, mas foi logo dizendo: 'Tá com sede? Toma, mata a sua sede e também aproveita para morrer!'. A sofredora só disse isto: ‘Eu morro, mas você não terá sossego nem mesmo depois de morto. Nem a terra há de querer o seu corpo’.
                Não demorou nada para que a mãe morresse. Em seguida, num ingazeiro que ficava perto de onde morava o Dito Camburi, pegando uma timbopeva, Dindico suicidou-se. Depois de enterrado, uma coisa terrível aconteceu: o corpo não ficava sepultado. A população ficou assombrada. Decidiram colocar o corpo numa canoa e abandoná-lo na Ilha Rapada. Mas quem disse que o mar aceitava o defunto? Era um tal de canoa alagar, de onda apinchar o corpo no lagamar. Então só restou o mangue da Barra da Lagoa. Jogaram ali.
                Passou-se o tempo, veio outra geração e mais outra. Num tempo de Natal, quando duas moças colhiam limo por ali para montar o presépio na Igreja Matriz, ao tocar num toco seco, elas escutaram: “Não arranquem tudo porque eu preciso de agasalho quando vem o frio”. Elas sumiram dali que até esqueceram os balaios. Ao contarem o ocorrido na cidade, os mais velhos se lembraram do ocorrido há tantos anos. Aquele toco era o corpo de Dindico. A praga da mãe pegou. Virou corpo seco”.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

RECORDAÇÕES JUNINAS

Olha os nossos foliões! (Arquivo Kilza Setti)


                Houve um tempo em que as festas juninas aconteciam em todos os bairros, nas escolas, nas capelas etc. Os mestres da dança são inesquecíveis. Eu posso dizer que conheci bem o Altamiro e o Dito Carneiro. Eram os dois, juntamente com a Alice e a Lúcia (da Bá), quem nos ensaiavam na Escola Agrupada do Perequê-mirim. Quando? Em 1970, 71...Até troféu, juntamente com a colega Kátia, rendeu numa ocasião. Fora os agrados de guaranás, pão com mortadela etc.
                Na mesma época, ao conhecer o pessoal do Itaguá, eu não perdia uma festa no “Arraial do pé-do-morro”, bem dizer no quintal da mãe do Élvio, na margem do rio Acarau. O saudoso João de Souza,que também promovia a festa no “Arraiá do Velho Rita”, me convidava: “Vamos na festa. A gente aproveita para visitar o Élcio “Guaruçá”. A lá ia eu todo garboso, de olho nas "prendas do Acarau". É desse tempo a crônica da amiga Fátima de Souza:

                Hoje ao abrir a gaveta encontrei meu velho cachecol de flanela cor de rosa. Já todo desbotado, mas ainda bordadinho com flores. Única testemunha de uma época da minha infância. Lembranças de gostosíssimas festas juninas que tive oportunidade de acompanhar.
                Pus-me a recordar. A sonhar de olhos abertos, e até mesmo a sentir o perfume das noites frias, tão frias de junho, quando um bairro inteiro se movimentava com um único objetivo: a festa de São João.
                Ao espocar dos primeiros fogos, chamando os fiéis para a reza, lá íamos eu e meu pai, devoto incondicional do Santo, para a casa da dona Celeste.
                A procissão tomava o rumo da casa do Capitão do Mastro. Acompanhava o andor, a bandeira com a esfinge do Santo, ao som da folia. Na casa da família festeira, a cantoria em louvor dizia assim: “João sois tão puro e bom, senhor de tanta valia...”
                Ao término da reza, o mastro já com a bandeira colocada era erguido por forquilhas de bambu, ao redor de velas acesas, completada com folia cantando e os estouros de fogo de artifício.
                As barraquinhas fervilhavam de gente. Todas cercadas e cobertas com folhas de pindova verde.
                Bandeirinhas coloridas davam um charme especial. Pareciam competir com as estrelas do firmamento. A criançada alvoroçada se revezava na brincadeira do pau-de-sebo. Olha o quebra pote! Olha o leiloeiro aos gritos para a multidão!
                O coração da gente se enchia de esperanças de poder arrematar um dos bichinhos de louça. Uma vez resolvi provar do tão falado quentão, fazia jus ao nome. Pacotinhos de amendoins torrados e embalados em papel de revistas. Pinhão de pacotinho e o pé-de-moleque de gengibre que minha avó fornecia para a festa.
                Nos escurinhos, os casais de namorados estavam mais juntos do que nunca. Para completar a noite, surgia no meio do povo, alguém se dizendo o pai da noiva e trazendo o noivo na marra para o casamento. A mãe da noiva chorava escandalosamente. O padre parecia desesperado com a demora da cerimônia, reclamava e reclamava. Em meio à confusão roubavam a noiva e todos caíam na gargalhada. Tudo de mentirinha, é claro. Tudo teatro.
                Os mais velhos desaprovavam a algazarra da juventude. Na noite fria, tão fria de junho, meu amigo cachecol aquecia o meu pescoço. No ar ainda paira o refrão vindo da velha vitrola: “São João está dormindo, não acorde não. Acordai, acordai, acordai João...” Mas no Itaguá a festa continua. E lá está o Élvio e tanta gente boa animando as novas gerações! 

                Questões finais:
Por que as escolas estão abandonando a tradição junina?
Por que a Fátima não é contratada para um trabalho voltado ao turismo cultural neste município (de Ubatuba)?

terça-feira, 14 de maio de 2013

ETNOMATEMÁTICA CAIÇARA



      
Gilberto acompanhando pescadores durante a pesquisa. (Arquivo Chieus)
     

             Seja bem-vindo, Kiscinger! 
           O caiçara Gilberto Chieus Junior está quase se aposentando na Unicamp, na área de matemática. A sua dissertação de mestrado foi a partir das medidas que se usa na construção de canoas, de rede etc. O título: Matemática caiçara – Etnomatemática contribuindo na formação docente. Nisto ele acompanhou o pessoal nas mais diversas atividades ainda tão comuns por aqui. É a matemática que permeia a etnia, o determinado grupo cultural. Hoje, apresento aqui uma de suas atividades:

                Título: De braça ao metro

                O professor pode propor aos seus alunos uma pesquisa de campo com os construtores de redes, mas...se na comunidade houver familiares ou amigos que fazem este trabalho, poderão ser convidados para a ida à escola e que façam uma demonstração. Cabe ao professor orientar seus alunos a questionar os caiçaras naquilo que acharem interessantes ou que tiverem dúvidas no decorrer da construção.
                Em relação ao questionamento, podem ocorrer perguntas como:
                Qual o tamanho da rede?
                Os caiçaras, com certeza, responderão da seguinte forma:
                - 50 braças, 100 braças...O tamanho da rede depende de para que tipo de pesca ela será utilizada.

                Através da resposta, podemos observar que os caiçaras utilizam a braça como unidade de medida que, neste caso, mede aproximadamente 1,50 m. O professor pode enriquecer a aula, dizendo a seus alunos que essa medida é de origem portuguesa. Em seguida, deve propor atividades com medidas, utilizando partes do corpo dos alunos (braça, braço, palmo, polegar, pé...) e fazer que cheguem à conclusão que não são medidas exatas, dependem das pessoas. Daí a necessidade de se chegar a uma medida padrão.
                Diante das observações dos alunos, o professor deve fazer comentários, explicando o porquê da padronização das medidas e, em seguida, mostrar a eles como surgiu o metro:

                O metro surgiu no século XVIII, no ano de 1790, quando o rei da França, Luís XVI, criou a comissão de pesos e medidas para estabelecer a uniformização dos mesmos.
                A comissão era composta pelos seguintes matemáticos: Lagrange, Laplace, Legendre, Carnot e Condorcet. Sobre isso, diz Boyler:
                “(...) a comissão ficou impressionado com a exatidão com que Legendre e outros tinham medido o comprimento de um meridiano terrestre que no fim o metro foi definido como a décima milionésima parte da distância entre o equador e o polo. O resultante sistema métrico estava praticamente pronto em 1791, mas houve confusão e demora para estabelecê-lo”.
                Esta atividade pode envolver várias disciplinas, como história, geografia etc.

sábado, 11 de maio de 2013

A REDADA (II)



              
Redada semanal (Arquivo Trindadeiros)
           A imagem de ontem, com Maneco Hilário, Alfredo Vieira, Antonio Athanásio e  outros, mostrava um momento dos pescadores. O local, onde hoje é a pista de skate, bem defronte ao aeroporto (o campo de aviação de Ubatuba), abrigava os ranchos das canoas e redes dos caiçaras do centro da cidade. Ali também ficavam os varais de bambus, onde as redes secavam e recebiam reparos. Voltando à imagem, parece que o finado Maneco mostrava alguma coisa lá para os lados do Morro da Ponta Grossa. Poderia ser sinais de cardume grande, coisa a ser confirmada pelo espia (que era especialista em avistar e calcular a quantidade de peixes que se aproximavam).
                Tanto onde nasci (Praia do Sapê) como onde morei (Praias da Fortaleza e do Perequê-mirim), a redada era semanal. O meu avô Armiro, juntamente com o tio Genésio, tinham uma rede grande que a cada sete dias estava na água. Os camaradas, ao ouvir o “toque do buzo” bem antes do amanhecer, se dirigiam à praia. Logo as canoas rolavam até o lagamar, pois a rede vivia embarcada, sobretudo em tempo de tainha. Um cabo ficava na praia bem seguro por alguém; a canoa grande saia desovando a tralha de cortiças e a tralha de chumbeiros, depois retornava à praia para, morosamente, a rede fechar os peixes contra a areia.
                Olhando de cima, a rede formava um desenho de circunferência cortada ao meio. Era quando o mestre da rede, depois de pedir que os camaradas sustentassem a tralha das cortiças bem levantadas, adentrava no lanço para fazer o ensacador. Alguns peixes conseguiam saltar assim mesmo. Se tivesse algum peixe grande capaz de rasgar partes das malhas, aí mais escapavam pelos furos. Mas assim que a rede ia ganhando o lagamar, nós, crianças ainda, capturávamos aqueles graúdos que se debatiam na lâmina d’água.
                Era bonito ver os grandes balaios serem enchidos por cações, embetaras, corvinas, palombetas, obebas etc.  Muitas das vezes bastava um só lanço. Depois de tudo novamente embarcado, as canoas seguiam para seus abrigos. Era a hora de repartir o produto. Os balaios eram virados, os peixes separados por espécies e tamanhos. Dos quinhões feitos, um terço ficava para o dono da rede. Quando havia espia, este recebia dois quinhões. Os demais camaradas tinham  direito a um quinhão cada. Na verdade,  ninguém deixava de receber peixe. Até as crianças, que se divertiam com toda a movimentação, saiam com as mãos carregadas de peixes. Logo tudo aquilo era consertado (limpo) no rio. Sempre tinha uma parte que era preparada para ser salgada e secada ao sol.
                À tarde, passando perto dos ranchos das canoas, as redes estavam secando nos varais ou sobre a vegetação rasteira do começo do jundu. Um ou dois dos pescadores consertavam as malhas avariadas, pois no dia seguinte poderia aparecer uma nova oportunidade de boa pescaria. Era a vida dos moradores da beira do mar, num tempo em que apareciam os primeiros turistas.

REDADA NA PRAIA


Homenagem aos pescadores Maneco Hilário, Alfredo Vieira, Dito Corovina, Zé Capão e tantos outros (Foto: José Maria Fonseca)                

Agora, chegando o tempo da tainha, se valendo da fotografia antiga mostrando o Maneco Hilário e outros, fiz um exercício de memória a partir da postura, dos gestos deles. São, pelo menos, dez companheiros que estiveram pescando, puxando a rede na praia, entre o Itaguá e o Cruzeiro (Yperoig). É dia ensolarado. Nenhum dos antigos pescadores usava calção ou bermuda. Seria desrespeitoso tal indumentária. Lógico que não poderia faltar o chapéu! Por isso, acho que posso reapresentar o texto do Chapéu nosso de cada dia.

                

                Houve um tempo em que o chapéu, esse produto


 cultural tão antigo, era indispensável para se sair de casa.

 De dia ele nos protegia das chuvas finas e dos raios 

solares, “para não esquentar os miolos”; nas noites a

 proteção era contra o sereno, a friagem natural que podia 

deixar resfriado, “capaz de ficar constipado”.

                A produção de chapéu era artesanal, com as mulheres se esmerando entre palhas de junco, de brejauba, de bananeira e outras matérias-primas do nosso entorno. Não era incomum avistar, geralmente nas salas das casas, as “bolas de tranças”.
                As tranças eram feitas a partir de material devidamente preparado, ocupando os momentos de descontração, enquanto proseavam. Depois era só costurar as bordas, no sentido de dentro para fora, usando fios resistentes, de preferência os de tucum que davam um perfeito acabamento.
                De acordo com a tia Maria Mesquita, fazer tranças para vender nos barcos de cabotagem  era uma alternativa econômica: “Rendia um dinheirinho que permitia a gente comprar cortes de fazenda para as roupinhas das crianças, para fazer vestidos”.
                Homens e mulheres saíam pelos matos coletando, principalmente as palmas novas de brejauba. Se precavendo contra as cobras peçonhentas, os caiçaras esfregavam alho nos braços e nas pernas. Depois murchavam a palhada no terreiro, de preferência sobre pedras, e, mão à obra. Um recurso para manter o chapéu no tom amarelo vivo era abafá-lo no enxofre queimado. Quanto charme num desses chapéus!
                Interessante era ver as pessoas tirarem suas coberturas ao se cumprimentarem, ao pedirem ou darem suas bênçãos ou simplesmente para mostrarem suas cabeleiras bem arrumadas e devidamente mantidas pelos chapéus. Nas igrejas ninguém entrava de chapéu na cabeça.
                O filósofo Jean-Paul Sartre escreveu este detalhe a respeito de outra utilidade do chapéu: “Você botava as madeixas dentro da copa e já nem se sabia se ainda tinha cabelos”.
                Na cidade vizinha de São Luiz do Paraitinga existe o Rio do Chapéu. De acordo com os relatos de cronistas de outros tempos, ali funcionava a famosa Fábrica de Chapéus, de onde descia regularmente uma tropa de burros com seus produtos a serem escoados pelo porto de Ubatuba. Essa tropa chamava a atenção pelo tom claro que se destacava de longe entre o verdor da mata, na nossa Mata Atlântica. Era a “Tropa branca”.


sexta-feira, 10 de maio de 2013

MARAVILHAS DO TIO CHICO

Bem-te-vi na refeição costumeira no meu quintal (A|rquivo JRS)


                Jocimar, o caiçara do Morro da Pedreira, carinhosamente chamado de “Tio Chico”, sempre tem uma prosa boa. Vale a pena, de vez em quando, relembrar das suas histórias:
                “Naquele mesmo dia (da aranha caranguejeira que não coube na tela do celular), um pouco mais adiante, depois de passar o sapezal, já na Trilha do Pesqueiro, quase no Saco da Mãe Maria, vendo um rapaz correndo com dois pés-de pato na mão pensei assim: ‘Vou dar um susto nesse danado’. Dito e feito! Quando ele passou pela figueira caída, eu dei um grito. Ele, se gritou, eu nem escutei. É que no meu ouvido estava o eco do meu grito. Só sei que o coitado deu um pulo, calçou os pés-de-pato e saiu tropicando numa velocidade medonha”.

                Depois, já emendando histórias, falou do avô:

                “O vovô Cristino, tocador de viola na Folia de Reis, bem cedo, depois de uma roupa riscada e um chapéu de palha brilhante, pegava a viola e pedia para a minha avó: ‘Sinhá, ó sinhá, põe mais água no feijão. Vou sair com a viola, mas volto com o povão’. Era assim o meu avô Cristino Pedro de Oliveira. Você teria gostado de conhecer o velho caiçara. Por aqui tudo era nossa roça”.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

CAIÇARA DA PEDREIRA

A Caranguejeira - Arte do Estevan/2013


                O meu amigo Jocimar, carinhosamente apelidado pelas crianças de “Tio Chico”, é caiçara do Morro da Pedreira, neto do finado Cristino Pedro de Oliveira, um violeiro que adorava sair na  Folia de Reis, o nosso Reisado Caiçara.
                O Jocimar adora pescar na costeira, onde contempla as memórias dos lugares e os causos que a natureza tanto inspira. De vez em quando vem um sargo de beiço, uma garoupa que “vira pirão com San Tomé”. Nas ocasiões em que a gente se encontra para uma rodada de viola e prosa, saem as “Maravilhas do Tio Chico”:

                “No domingo passado, quando estava indo para a Praia Vermelha, pescar no Saco da Mãe Maria, me deparei com uma aranha caranguejeira atravessando a pista. Era muito grande, mas grande mesmo! Para você ter uma ideia, os poucos carros daquela hora até pararam para fotografá-la com celular.
                A aranha era enorme! Imagine você que, de tão grande, as pernas da bicha nem couberam na tela do celular”.

                É mole?!?  

quarta-feira, 8 de maio de 2013

SAUDADES



                Há um ano, exatamente isso, nós perdemos duas pessoas que nos marcaram muito: ‘Seu” Mané Hilário e dona Silvia Patural.
O longevo caiçara da área central da cidade foi muito especial, sobretudo pela memória privilegiada e pelos causos de nossa terra. Já a francesa que adotou a nossa cidade desde a metade do  século passado, tem uma história de muita determinação, juntamente com o seu engenhoso esposo. Para homenageá-los, republico dois fragmentos de artigos que estão no blog. Foram entrevistas dos primeiros meses do blog (2011).

Sobre a fartura de peixe.
         
          "O pexe em Ubatuba a gente pedia pros consumidores pra compra pra pagá quando pudesse. Os pexe era demais. Era fartura, tinha demais. A gente vinha vendê o pexe. O que sobrava, a gente quando não dava, vortava com ele pra casa pra escalá. Quando tinha gente que queria, a gente dava, a gente trocava. Naquele tempo, no Perequê-açu, não havia muita casa. Aqueles que não tinha cana pro café trocava aquele fexe de cana por um pexe e levavam embora. Faziam a troca.
         A tainha era demais. Era trezentos mil-réis o mil. Uma tainha de duzentos réis, um tostão que a gente vendia... Escolhida a tainha grande de ova pra vendê, né? Que nem a sardinha. Sardinha era mil e duzentos o mil. Sardinha galhuda! Não dessas que vende hoje!  Sardinha galhuda que nóis chamamo, né? Porque tem trêis espécie de sardinha. Aquela tranqueira de pexe que a gente vendia tudo na beira do mar. A pesca era do corrê do cais pra dentro; tudo quanto era pexe: espada, corovina, goete, pescada... Era tudo quanto era pexe!
         Nossa mãe! Na puxada de rede na preia você  não podia tirá de dentro d’água, na preia puxá! Quando a rede vinha num cabo por banda, você não podia puxá a redada. O redêro, o prático dizia: “Aí vem coisa, no tempo da lula, no centro da rede” Perguntavam: “O quê, titio?”. “A correnteza que a rede vem trazendo é pexe!”. Quando chegava na beira da preia, às veiz não andava; encalhava. Era bagre urutu, era pescada amarela, pescada bicuda que nóis chamava, era pescada branca, obeba, gordinho... Eu com um primo-irmão, o Antonio Joaquim, que nóis chamava de Timbango, nóis dois sozinho, com Deus em primeiro lugá, demo uma redada de obeba, matamo seis mil, não pudemo alá a rede. Eu disse: “Antonio, ponha a rede num lado e de outro, vire as costas e não olhe para tráiz do que saí. Deixe que saia o que quisé saí”. Empatolemo a tralha da cortiça e do chumbo e fizemo força.  Que nada de rede vim! Era só obeba! Cada uma assim!"


Franceses sonhando em terras de Ubatuba (Parte VI)

                "Após seis anos plantando, com vários funcionários (Dito Rolim, Melentino...), a plantação estava em franca produção, começando a dar lucro. Surgiu a necessidade de aprimorar o transporte dos produtos. Era o ano de 1958 quando compramos, na Casa Granadeiro, em Taubaté, um trator. Questão: Como trazer o trator para Ubatuba, depois levá-lo até o Ubatumirim? Solução: Desmontá-lo todinho, transportar pela rodovia e pelo mar, e, remontá-lo na roça, onde ficou definitivamente.
        Aconteceu a melhoria na estrada da Sesmaria para o trânsito adequado do trator. Para levar o trator até o bananal, Jean-Pierre abriu uma estrada de sete quilômetros, sem máquinas, apenas com foices e enxadas. No local denominado “Gurita” foi preciso fazer uma ponte de madeira que fosse bem resistente para que pudesse passar o trator puxando a carreta carregada de bananas. Ele ainda ensinou um empregado chamado Freitas a dirigir o trator, dando algumas noções de mecânica. Pensava, num futuro próximo, ensinar outros rapazes e montar um curso para a formação de técnicos agrícolas. Foi uma grande novidade. Era gostoso ver o trator repleto de meninos, com o meu marido passeando com eles; lotavam a carroceria. Essa condução era atrelada a um carroção que escoava toda a produção para a praia, onde um barco grande, cujo nome era Manaus,  comprava tudo”.