sábado, 31 de dezembro de 2011

Ano vai...vida vem!



              Hoje, último dia de 2011, parabenizo o amigo Jorge Ivam, estimado companheiro de magistério que busca fazer sempre mais para aperfeiçoar a nossa cidadania.
             Jorge Ivam Ferreira nasceu no último dia de 1959, em Iaçu, cidade cravada no sertão baiano. desde 1999, vive em Ubatuba, onde é professor de Língua Portuguesa nas redes estadual e municipal.  A sua companheira é a Joana. Eles são pais de quatro jovens maravilhosos!
             Em parceria, com Pedro Paulo, Jorge é autor do livro Ser Tão Mar.  Da poesia Rio Poruba é de onde escolhi a parte que eu considero mais caiçara. Afinal,  foi nessa confluência que teve início o meu namoro com a Gláucia:

            Logo abaixo desse cenário,
            Fraternalmente o rio poruba
            Dá a mão ao rio Quiririm
            E ambos entram no mar.
            Quem os vê unidos assim
            como um casal apaixonado,
            Se pensar na sua existência,
            Decerto fica emocionado.

          Felicidades é o que desejamos ao Jorge, Joana e filhos. Com carinho: Zé, Gláucia e filhos

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

As imagens e as nossas avaliações

 Avenida Yperoig - Ubatuba - 1970 (foto postal)

              A imagem acima possibilita muitas reflexões. Olhando-a, faço questão de destacar:

              a) A avenida tinha um canteiro central maravilhoso, que diminuia o impacto do asfalto;
              b) Potentes refletores iluminavam a orla da praia;
              c) Não existia poluição visual;
              d) Prevalecia o máximo da natureza no jundu;
              e) É notório, ao longe, os morros verdes e sem construções;
              f) Nenhum prédio se avista nas cercanias;
              g) Havia uma harmonia com o entorno e intensas relações sociais;
              h) O turismo tinha um outro nível e ainda não tinha tanto impacto na cultura local.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Imagem desconhecida para muitos





         A imagem acima é de uma rede do pessoal da praia do Puruba (Dico, Antonio, Severiano, Zico e outros). Trata-se de chumbeiros, ou seja, de pesos da tralha de fundo da rede. Não se sabe desde quando eles são usados, mas atualmente são substituídos por chumbo. Bem antigamente eles eram feitos de pedras; depois veio o cimento para formatar a massa adequada a cada tipo de rede.
         Esta foto, feita por Marcelo Galvão, primo da minha esposa, que mora na Alemanha há quase duas décadas, participou de um concurso e foi uma das selecionadas. Virou cartão postal. Ela é de 1995. É isso! Coisas que nem todos que aqui moram ainda conhecem, mas que são apreciados por aí afora!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Reconhecimento de valor


                       Transcrevo, agora, como arremate da história publicada no mês de junho p.p., a manifestação aprovada pelos vereadores em solidariedade à Família Patural (dona Silvia e seus filhos) por ocasião da tragédia ocorrida.

Of. 47/61    Em 10 de outubro de 1961
Sra. Viúva Jean  Pierre Patural.
                Para vosso conhecimento, transcrevemos o teor do requerimento número 17/61, de autoria do vereador Mário Celso Guisard Cembranelli, aprovado por unanimidade na sessão ordinária realizada no dia 5 do corrente:
                Requerimento nº17/61. Requeiro à Mesa, ouvido o Plenário, no sentido que seja constado em ata, um voto de pesar pela trágica morte de Jean Pierre Patural, como também oficiado a sua família. Justificativa: se a nossa vida é uma luta, o lugar onde vivemos é o nosso campo de batalha. Nem todos porém escolhem esse campo. Uns são sedentários e não gostam de mudar. Outros são levados, talvez, pelo espírito de aventura a sair pelo mundo à procura de um  lugar para viver. E quando  encontram esse lugar será também uma pátria, mas acolhida pelo coração. Aos vinte anos de idade, Jean Pierre conheceu Ubatuba e a amou. Desde então dirigiu sua vida no sentido de aqui se fixar. Sua alma de pioneiro impressionava-se com as imensas regiões incultas da nossa Ubatuba e o seu desejo era desbravá-las, levar até elas o progresso. Para conseguir isso lutou contra dificuldades que a muitos teriam feito desanimar, mas ele as soube vencer. Não há caiçara no Ubatumirim que não conheça o Jean, como era por eles chamado, e como se admiravam de seu esforço inédito e constante para arrancar da terra o seu fruto. Nós que o conhecemos e avaliamos o seu caráter, sua energia indomável, o seu saber vasto, mas modesto, sem alarde, sem exibições, suas maneiras suaves e polidas, seu ar tímido e o seu jeito calado; sua vida sempre branda e serena com todos os que lhe falavam; mão firme e decidida; não podemos deixar de ficar tristes e sentir toda a amargura pelo seu triste e doloroso fim. Ele, que afrontou sempre perigos do mar com o seu barquinho e no ar com o avião que ele mesmo construiu, que enfrentou a fúria dos elementos e foi um dia colhido por eles e a tragédia aconteceu. Porém, homem intrépido e corajoso, com as forças que lhe restavam, tenta salvar-se. Caminha com passos vacilantes e incertos, depois não pode mais, arrasta-se então, por vários dias e dias seguidos. Antes que o socorro possa alcançá-lo, ele morre. E que triste fim o seu: a dor, a fome, o frio, a solidão e a certeza do abandono. Ele que tanto ajudou os seus semelhantes, que curou feridas, que mitigou a dor, que transportou doentes no seu avião, sentir-se assim ao desamparo. Que ele encontre agora a recompensa pelos seus atos de bondade e pela sua caridade desinteressada. Que Deus o premie, pois nós nada mais podemos fazer. E nosso pesar é maior ainda por isso, por não podermos, digo, por não termos o encontrado a tempo. Sabemos que lutou com todas as suas forças para que aquela não fosse a separação definitiva dos seus entes queridos. Morreu com ele um sonho de progresso, uma ambição sadia de construir, plantar, traçar novos rumos para a exploração dos nossos sertões. Queremos levar agora aos seus entes queridos a nossa palavra de consolo, a expressão de nosso pesar, da nossa dor e da nossa admiração por aquele que tão cedo foi arrebatado do convívio familiar.  É por isso, colegas, que conto com apoio integral dessa Egrégia Câmara Municipal para esse ato de solidariedade humana. Sala das Sessões da Câmara Municipal, 28 de setembro de 1961. a) Mário Celso Guisard Cembranelli. Vereador.
                Aproveitamos a oportunidade para apresentar as nossas condolências.
                                                                        José Alberto dos Santos

O nosso lugar e o temas



                Neste ano de 2011, eu tive a oportunidade de presenciar o lançamento de três livros a partir da história de Ubatuba e das culturas que aqui estão: Moacyr Pinto, um sociólogo de São José dos Campos muito apaixonado por Ubatuba, escreveu a vivência do Zé Pedro, da Casa da Farinha, no sertão da Fazenda da Caixa; Maria Aparecida Honório, estudou os rituais dos guaranis da Comunidade Tekoa Jaexaa Porã, no sertão do Promirim; Maria Helena T. C. Barros, uma descendente direta do Balthazar Fortes, dono do Casarão do Porto, conseguiu registrar as suas pesquisas, dando-nos a oportunidade de poder entender melhor para divulgar mais a nossa história.
                Assim, estão disponíveis a todos as seguintes obras:
              

1- Eu tenho o meu sonho;
2- Mba’epu ete’i – instrumentos musicais sagrados;
3- Balthazar e Benedicta.
      
        
  Parabéns aos autores e obrigado por suas contribuições ao nosso município!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Tudo começou com Luís Ernesto e Praxedes


                “Numa casa, ali no acesso à praia do Tenório, Luís Ernesto  e compadre Praxedes acharam por bem montar um museu caiçara”. Foi assim que o João de Souza me contou. Também acrescentou isto: “Depois, o compadre Praxedes andava por tudo quanto é canto catando coisas para expor no museu do bairro. Diz que foi até a Ponta Grossa, lá pelo cisqueiro do Paru”.
                Fico contente em saber que, mesmo timidamente, um voluntariado persevera. Dessa forma nós trabalhamos, sob a batuta do Júlio,  vários finais de semana na apresentação atual do nosso museu. Também quero expressar a minha gratidão para com a dona Zelma. Dou a conhecer que esta filha do saudoso Pascoal se aproximou da nossa cultura a partir dos caiçaras do Perequê-mirim. Muito nos orgulha essa combatente mulher! No entanto, conforme disse o Júlio, é preciso que o poder público se sensibilize e abrace o museu como atrativo cultural/educativo e capaz de gerar rendas para o município.
                A seguir, do ano de 1986, este verso registrou o Domingos após um encontro no primeiro museu:
                As casas de antigamente
                falem um pouquinho
                das pessoas e das vidas
                que por ali passaram.
                Um pouquinho de cada coisa;
                Da imensa vida dos tempos passados.

Novos caiçaras

Imagem deste Natal:
           Pedro Elias, meu sobrinho nascido em 20 de outubro p.p., filho do Wagner (Guinho) e da Maria Inêz.

              É ao pequeno caiçara da nossa família que eu selecionei a poesia do Domingos   

         Na camarinha da infância

        Nossa cama era uma tarimba,
        com esteiras de taboa,
        com travesseiro de macela.
       Talvez seja por isso
       que nosso sono
       era tranquilo e revigorante,
       ou foi porque o mundo
       já foi mais aconchegante?

domingo, 25 de dezembro de 2011

Pesca no perau

Meus artesanatos/ reciclagem de materiais
                Na praia do Sapê, desde o porto do Eixo até chegar no Pontal, sempre predominou a formação de peraus.  Nem sei se é assim que se escreve.
                Perau é a denominação dos antigos para aqueles “buracos” formados junto ao lagamar em praias de tombo. É uma combinação das forças das ondas com correntezas, constituindo um corredor natural para os peixes. São ótimos pesqueiros, onde predomina pampo, cação, embetara etc.
                Papai, vovô Estevan, tio Chico e muitos outros sempre pescavam no perau. Bastava levar a linhada preparada; a isca estava na areia grossa: era pregoava.
]              Pregoava é um molusco que vive na divisa da água com a areia, ou melhor, mais para o seco do que para o molhado. Para pegá-lo basta ir afastando a areia com os pés e ir recolhendo as brilhantes conchas. Depois, quebra-se a concha e enfia a carne no anzol. Em seguida, “é só pinchar na água e prestar atenção na fisgada”. Que briga boa faz um peixe na arrebentação! Mais bonito mesmo é ver os pescadores com suas fianduras de peixes rompendo o jundu; levando o “de comê” tão apreciado por todos! Indo pelos caminhos era comum escutar: “Pesca boa. Agora só falta a banana verde!"
                Ah! Ia me esquecendo de dizer que pregoava, tal como preguaí, sapinhaoá, saquaritá e outros tantos, também faz parte da alimentação caiçara. Que gostoso!

sábado, 24 de dezembro de 2011

Um Natal de outros tempos

                Hoje todo mundo aguarda o Natal esperando presentes. É bem diferente de outros tempos, quando ninguém sonhava com Papai Noel e lojas de tudo quanto é novidade. Prazer dessa época era o Reisado que surpreendia sempre.
                No Sapê, a praia onde nasci, sabíamos que o  Natal não estava muito longe porque ajudávamos a vovó Martinha e a Maria Balio a  montar o presépio na capela. As imagens (bois, carneiros, reis magos, pastores, Jesus Cristinho e seus pais) eram guardadas no armário da sacristia, junto com os outros objetos sagrados. Restava pouca coisa para nós crianças fazermos, além de juntarmos conchinhas no lagamar.
                Depois que um canto do templo era demarcado, alguém muito prestimoso fazia um ranchinho coberto de palhas, colocava areia da praia e algumas pedras. Em seguida, a nossa tarefa era acompanhar a vovó na queimada, uma vasta área de vegetação na areia quente que se estendia do Porto do Eixo ao Pontal, onde apanhávamos musgos, liquens, pequenas plantinhas e muitas cascas de cigarras para o toque final junto com a estrela feita de alumínio de lata de leite.
                Feito o presépio, sabíamos que já era um tempo litúrgico chamado de Advento, quando tinha reza todas as noites até a famosa Missa do Galo chegar. Pronto! Era Natal! Uma festa acontecia: tinha doce de mamão e puxa-puxa para todos. Os adultos, ou melhor, os homens bebiam vinho que não sei de onde vinha. Mas era vinho! A consertada era para todos igualmente. A mamãe adorava. Depois se abraçavam e iam para casa quando os galos desandavam na cantoria. Afinal, só numa data tão excepcional ficávamos acordados até a virada do dia. Muitos diziam: “Agora já é amanhã!”. Só mesmo o nascimento do menino-Deus para me fazer cuspir nas mãos, molhar os olhos e não dormir como muitos outros pelos bancos. De vez em quando, no dia 25, logo depois do almoço, alguém aparecia com uma bola colorida, carrinho de plástico e boneca. Ai que alegria!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Colhendo na praia

Praia da Justa- 1993

                Muitos aspectos da cultura caiçara merecem ser relembrados, mesmo que seja quase inimaginável de se repetirem. Um exemplo que agora me vem à lembrança é o “ritual” do sapinhaoá, um  molusco outrora largamente utilizado na culinária. Hoje, com nossas praias e águas sujas, quem tem coragem de coletar sapinhaoá para comer?
                A cada lua cheia ou lua nova, quando a maré seca mesmo, nas praias mais planas (Maranduba, Itaguá, Perequê-açu, Justa etc.) as pessoas acorriam logo cedo para o lagamar. Iam enchendo balaios de sapinhaoá. A prática era impressionante! Alguns se abaixavam, e, com o indicador, arrancavam rapidamente o molusco; outros, de pé mesmo, escavavam os poucos centímetros da areia molhada que recobria o ser em questão. Logo enchiam as vasilhas e retornavam para seus lares.
                Para reconhecer onde está o sapinhaoá: na maré completamente baixa olhe atentamente na areia molhada e busque reparar as mínimas saliências (montículos). Sob eles estão os frutos do mar que tem esse nome. São muito cobiçados para caldeiradas ou simples petiscos acebolados. Nota: os caiçaras não usavam pimenta nos frutos do mar porque tinham a crença que isso resultava na diminuição da oferta.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Tecendo tucum


                Eu não vivi  isso, mas teve um tempo em que a linha de pesca de todos os caiçaras era feita de tucum, ou melhor, das fibras entrelaçadas das folhas de tucum.
                Tucum é uma palmeira pequena (ou mediana?) comum nas áreas encharcadas e nas depressões do nosso relevo, onde ajunta água regularmente. Por isso é raro encontrá-la em morros. O seu fruto, abundante em cachos, é um coco do tamanho de uma bola de gude; azedíssima na casca quando verde. Depois de devezado, a casca fica roxa como a jiçara ou o açaí. A carne fica duríssima. Nessa fase é preciso cozinhá-lo. Em seguida, após a quebra, transforma-os em paçoca no pilão. A farinha final, acrescentada à farinha de mandioca, torna-se uma iguaria apropriada para ser degustada com café. É dessa maneira que também outros cocos (pindoba, indaiá, jarobá...) viram paçoca.
                Voltando ao início da prosa, das folhas do tucunzeiro eram retiradas as fibras, torcidas com esmero até se tornarem uma linha única e resistente. Era algo trabalhoso, mas valia a pena! Era necessária à pesca! Hoje não precisa mais desse trabalhão porque a indústria está avançada. Basta ter dinheiro! Porém, não nos esqueçamos do valor cultural dessas pequenas coisas.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Arcidão, o pinguim

                Há coisa de quarenta anos era comum, no cotidiano caiçara, aproveitar ao máximo a natureza que nos rodeava e a convivência com as pessoas. Todos se conheciam, queriam ficar  juntos sempre. Nos finais das tardes, já nos serões, nas praias, os jovens jogavam futebol ou peteca. Aproveitavam a calmaria, paqueravam, partilhavam histórias. Os mais velhos, na linha do jundu, pelos ranchos de canoas, proseavam sobre o cotidiano antes de se dirigirem para o jantar. Outros chegavam de armar tresmalhos e puxavam as embarcações às áreas protegidas. Poucos passeavam na linha do lagamar: se molhavam até as canelas, um relaxamento ainda seguido à risca por alguns caiçaras e que vem de outros tempos.
                A minha prima Neide era uma dessas pessoas que praticava esse relaxamento. Nunca a vi falhar um serão, mesmo que chovesse. Andava olhando perto e longe; enxergava a linha do horizonte, todas as cores, mas também via cada concha, os buracos dos bichos da praia e os seres que eram novidades. Até um pinguim adotou.
                A simpática ave, trazida por alguma corrente do sul, recebeu o nome de “Arcidão”. Foi uma homenagem ao soldado do mesmo nome que, por alguns anos, sentou praça em Ubatuba . Muitos anos mais tarde, por intermédio do saudoso Ney Martins, eu soube que esse valoroso homem, após a aposentadoria, tornara-se mestre de congada em Jacarei, a sua terra natal. Já a ave se apegou tanto à Neide que, até o quarto era compartilhado: dormia num aconchegante tapete embaixo da cama. Durante o dia, aonde ia a moça, pra lá se dirigia andando de forma muito engraçada o “Arcidão”. Nunca se separavam, exceto quando a Neide precisou ficar fora um mês por conta do curso de enfermagem. A ave entrou em tristeza profunda, não se alimentava mais. A solução foi embarcar numa canoa e soltá-lo bem longe, pois ninguém aguentava vê-lo sofrer. Eu nunca tinha visto sentimento tão forte entre um animal e a comunidade da praia da Fortaleza. Duro foi sofrer depois com o sofrimento da Neide.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Estranhas coisas no céu

(Painel produzido por alunos da escola "Sueli"- Estufa-2011)
                No ano de 1963, mais detalhadamente falando, no final de outubro daquele ano, alguns caiçaras morreram no mar devido a um forte vento. Vários deles eram da praia Grande do Bonete, inclusive o finado Ismael (que era marido da dona Isabel, "gente dos Rozeno"). Lembrei-me disso e o que aconteceu naquele tempo após um sonho onde redes, parentes, chuva torrencial e desespero se misturavam. Foi o que me fez recordar de uma conversa entre a vovó Eugênia e a estimada dona Isabel, em 1969, por ocasião da festa de São Sebastião, festejado pela comunidade daquela praia em janeiro. Assim é cabeça de criança: parece não estar nem aí, mas está sempre captando tudo, registrando em sua fresquíssima memória.
                As duas amigas conversavam olhando para a carranca que se armava no céu. Parecia que ia estragar o bate pé tão aguardado para depois da novena. Para esse fim estava preparada a grande sala assoalhada do João da Vargem. De repente a dona Isabel começou a chorar e a contar de um fato triste ocorrido há mais de seis anos: a tormenta que matou o seu amado e tantos outros pescadores. Entrou  em detalhes do forte vento, quando nenhuma bananeira ficou em pé; mostrou com as mãos as grandes ondas que varreram os ranchos de canoas do jundu. Disse que tudo lembrava o fim do mundo, quando, de acordo com os mais antigos, deveria acontecer um segundo dilúvio. Assustador, capaz de traumatizar facilmente qualquer um, principalmente crianças. Imagine eu!
                Porém, me recordei hoje de um detalhe daquele dia distante: a dona Isabel disse que em meio à situação terrível, coisas estranhas passavam pelo céu. Eram luzes redondas que iluminavam como se procurassem alguma coisa na terra. “Fachearam tudo desde o morro até a praia. Pelo menos duas delas chegaram bem perto de nós, neste nosso lugar. Deu para ver que eram máquinas tão brilhantes como peixe espada. Temi pela nossa gente que atravessava a inundação e buscava segurança nos morros. Rezei para que não me enxergassem na minha casa, bem aqui debaixo deste cambucazeiro. Até hoje me arrepio quando tenho recordação daquela noite. Depois sumiram no céu. De onde vieram voltaram!”.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Antigamente

(Flor da ressurreição embaixo da jabuticabeira, ´conhecida pelos caiçaras antigos como flor do Japão)
          Encontrei uma poesia do mano Domingos para sustentar, sobretudo aos que seguem o blog,   o meu desejo de Boas Festas e de um Feliz 2012.

Eram os Reis Magos
que nos traziam presentes:
boneco desengoçado,
corda de pular,
pião carrapeta,
balanço na goiabeira,
canoa de caixeta,
carrinho de madeira.
Mas chegou o Papai Noel
que expulsou os Reis Magos
e acabou a brincadeira.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Lobisomem

Vó Eugênia era moradora da Praia da Fortaleza. Mulher simples, atenciosa, não era de inventar nem de mentir.
Um dia perguntei a ela se já tinha visto Lobisomem ou se conhecia alguém que já tinha visto, e ela respondeu que numa madrugada ela mesma viu. Já estava deitava há tempo quando escutou latidos fortes vindo do meio do bananal. Levantou-se e olhou pela fresta da porta para ver o que atormentava os cães e vislumbrou um cachorro preto e peludo, enorme, diferente de todos os que havia por ali, sendo cercado pelos cães da vizinhança, que estavam furiosos. Ele parecia estar muito cansado, ela até podia escutá-lo arfando alto. Minha avó se arrepiou, paralisada de medo.
Depois de um instante parado, o animal continuou a correria fugindo dos cachorros que o perseguiam. Aquela era uma noite de lua cheia.
Outras pessoas já haviam relatado as aparições desse cachorro, que ninguém conhecia, sempre perseguido por outros cães, que queriam atacá-lo. João Barreto disse que pôde ver os olhos do cão e eram olhos vermelhos. Ele conta que, na praia da Fortaleza, aconteceu um desencantamento: o Joaquim Silvino se encontrou com um Lobisomem quando pegava sua canoa para pescar de madrugada. Quando o bicho chegou ameaçador para o seu lado, ele lhe bateu forte com o remo no ombro, perto do pescoço, tirando sangue. Assim foi quebrado o encantamento e o cão tornado homem de novo, não voltou a se transformar.
Dizem que o Lobisomem vinha de outras praias, passava por ali e depois seguia para outras. Acredita-se  que a sina do lobisomem era se transformar nas noites de lua cheia  e correr sete praias.
Quem poderia se transformar em Lobisomem? Quando, numa família, nasciam sete filhos homens, pensava-se que o sétimo teria a desgraça de se transformar em Lobisomem. Então, para evitar o mal, o jeito era o filho mais velho batizar o sétimo, cortando a maldição. Isso aconteceu na família da vó Martinha e vô Estevan: o sétimo filho deles, Manoel, foi batizado pelo primogênito, Antônio. Assim, todos ficaram tranquilos: um lobisomem a menos em Ubatuba.


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O VALOR DO CHIFRE

Ninhada de pato no quintal do Bigode


      Hoje, vasculhando papéis mais antigos, encontrei a seguinte      pérola do João de Souza, o  nosso saudoso contador de causos do bairro do Itaguá. Creio que não posso escondê-la. Boa leitura!

É indiscutível o valor do chifre, tanto para os homens como, principalmente, para os animais. Para os animais os chifres têm a função de defesa; para os homens a função de utensílios e decorações.
O touro numa tourada ataca com os chifres. O carneiro disputa sua fêmea lutando com os chifres. Já o veado usa seus chifres apenas para desfilar na floresta. O elefante nasceu com os chifres para baixo, dizem que são suas presas, mas eu digo que são chifres. No mar temos o camarão que tem apenas um chifre, feito lança. Ninguém ainda pesquisou a utilidade do chifre do camarão, mas a minha tese é que ele usa seu único chifre para furar a ova do siri ou para cutucar a bunda do corrupto.
Para os homens, o chifre é de fundamental importância desde a sua vivência em cavernas, utilizando-os como armas, até os dias de hoje usando-os como utensílios domésticos e artefatos de decoração.
As espingardas de antigamente eram de carregar pela boca, onde os antigos caçadores andavam pela mata com um par de chifres, sendo um para carregar a pólvora e o outro o chumbo.
            Os antigos pescadores, para anunciar a entrada dos grandes cardumes de tainhas na baía, metiam a boca no trombone, feito de chifre de boi.
Já os boiadeiros usam os chifres em forma de berrante para reunir o gado. O chifre berrante também é usado para dar inicio a uma festa de peão de boiadeiro.
O dinheiro dos coronéis de fazendas era guardado em seus chifres, ou melhor, no chifre de boi que eles possuíam. Uma vez um senhor muito honesto achou um chifre cheio de dinheiro, não sabendo a quem devolver, teve uma ideia:  de duas formas passou a anunciar o achado. Bem alto ele gritava: “Achei um chifre” e, em seguida, bem baixinho, ele falava: “Tá cheio de dinheiro”... Saiu pela a cidade gritando, e por onde ele passava as respostas eram as seguintes: “É do teu pai!”, “É do teu irmão!”, “É da sua mãe!”, “É do teu avô!”. Com essas respostas, não teve dúvidas de quem era  o dinheiros que estava dentro do chifre: como seus pais, seu irmão e seus avós eram mortos, o dinheiro ficou para ele.
Os chifres também são usados pelos homens como meio de ofensas, humilhações e gozações. O chifre quando é usado nesse sentido é porque já destruiu família, separou casais. Tem chifrudo que gosta do chapéu e faz que não sabe. “Um delegado recém-casado foi transferido para uma cidade do interior, onde diziam ser a cidade dos chifrudos e que todos que lá chegavam seriam cornos também. Não deu bola para esse boato porque conhecia muito bem a mulher que tinha. Alugou um apartamento de frente para uma pracinha e ali ficava observando todo o movimento da cidade e foi comprovando a fama da cidade: descobriu que o dentista, o médico, o banqueiro, o padeiro e até o prefeito, quem diria! Enfim, todos eram cornos. Certo dia viu sua esposa saindo sorrateiramente de um hotel. Desesperado tentou tirar a cabeça de fora da janela, mas não conseguiu, pois ficara preso pelos chifres. Já era!!!
Outro dia, aqui no nosso ranchinho, apareceu o senhor Darbely Feline, o nosso querido Beto Mágico trazendo um par de chifres na cabeça de um lobisomem, um bicho muito feio por sinal, que logo o  nosso conhecedor de lobisomem, o Bigode, já saiu em defesa dos lobisomens, dizendo que aquilo que o Beto trouxera não era lobisomem e sim a imagem do coisa ruim, mas aí o Beto falou que tem lobisomem chifrudo também. Foi uma farra: um defendia os lobisomens e outro defendia o chifrudo.
Pois é... essa história de chifre não dá muito certo! Então vamos parar por aqui finalizando  com a frase do dia:
            “PENTE ENROSCANDO  EM CABEÇA DE CARECA É SINAL DE CHIFRE.”
            João de Souza, o caiçara do pé rachado. Ubatuba 19/7/2001

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Apoitando

Esculturas de tainhas- Flip 2011
                Neste momento uma imagem de pesca me dá saudade. Local: Ponta do Flamengo (Ubatuba). Local de tortinhas, embetaras e outros peixes apropriados à nossa culinária. Conforme ia se aproximando o tempo quente (verão), as canoas começavam a se ajuntar por ali. Bastava apoitar, arriar os anzóis e logo se alegrar com a pegadeira. Que festa!
                De vez em quando alguém soltava um xingamento. Nem precisava perguntar para saber que era baiacu na linha, cortando anzol como quem corta isopor; dando prejuízo.
                Quem nunca comeu baiacu não sabe o que está perdendo. É uma das melhores carnes de pescado. O meu parente Mané Bento, cheio de manias estrambólicas, tinha um colar de dentes de baiacu. Dizia que era simpatia para ter língua afiada, com respostas imediatas para tudo. O interessante é que esta  é a imagem que eu tenho do velho Mané Bento: as respostas estavam na ponta da língua. Ele sabia um monte de palavrões e não titubeava em usá-los quando açulado. Dono de um temperamento difícil, ele terminou os seus dias no Lar Vicentino (asilo), que é uma obra católica fundada pelo frei Vitório em meados de 1970.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Pé de guanandi

                 Nesta época, dezembro, o guanandi, uma grande árvore da várzea, está florido. Infelizmente são poucos que teimam em existir. O motivo? Estavam nas áreas que hoje viraram loteamentos e estão povoados por, principalmente, casas de veraneio.
                Essa espécie tão frondosa, de madeira vermelha e singelas flores brancas, não suportam um mínimo de aterramento em sua base. Isto quer dizer, de acordo com o papai, que não se pode encostar nem trinta centímetros  em suas raízes. É morte quase instantânea.
                Isso que estou contando eu testemunhei “com estes olhos que a terra há de comer”. No começo da rua Taubaté, há menos de cem metros, havia um guanandi que se destacava. Onde ela imperava, hoje está uma loja que negocia com minerais. Bastou um mínimo de aterro para que a gigantesca árvore secasse. Depois as ferramentas dos homens fizeram o resto.
                O meu primeiro contato com o guanandi e com a sua maravilhosa madeira foi através de um remo. Era do finado Oliveira Quintino, da praia da Ponta Aguda. Os seus descendentes devem preservá-lo. Impressionante! O vermelho da madeira, ao ser molhado, tornava-se igual a uma brasa viva.
                As lembranças também servem para isto: escrever sobre o nosso lugar, descrever as espécies que “cedem” suas vidas para nós etc.
                Quer ver um guanandi? No terreno da escola Sueli (Estufa I), bem ao lado da secretaria, existe um teimoso. Vai lá!

sábado, 10 de dezembro de 2011

Mais vale a fé

                Na casa da vó Eugênia, assim como em todos os lares daquele tempo, existia um oratório. Era sobre a mesa grande da sala, onde tinha de tudo: lampião, imagens de santos, fotografias, balaio de costura, caixas de remédios etc. Conforme se aproximava a hora da ave Maria (18 h), o vovô Armiro acendia uma vela e puxava uma oração sempre acompanhado de mais algumas pessoas.
                 Ao anoitecer, o lampião era aceso por quase duas horas. Era o ritual da roda de conversa de cada noite. Depois disso vinha a ordem para descansar o corpo porque o dia seguinte já nos aguardava com suas tarefas.             Era na grande sala que, por ocasião de visitas, as esteiras de taboa eram espalhadas após a prosa de cada noite, se transformando em espaço de descanso.
                 Sempre tinha agregados, sobretudo caipiras da Vargem Grande e das Palmeiras, que vinham para trabalhos na roça com o vovô. Foi numa dessas ocasiões que, ao se levantar na madrugada, o tio João notou José Sibi,um desses trabalhadores, ajoelhado diante de um quadro emoldurado. Ele fazia as suas preces considerando a sacralidade do oratório da vovó. Sabe qual santidade estava defronte o piedoso homem? Tratava-se do quadro, da fotografia de casamento dos meus pais, diante da Igreja Matriz de Ubatuba. Ou seja, desse jeito a imagem estava santificada. Deve ter feito milagres. Vai saber!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Saudade serve para...

                Como os causos que contou,
                Era todo paladar
                Como o pirão que provou,
                Era todo caiçara
                Como o povo que amou,
                Era todo coração

                Em 7/12/2007, quando o dia amanhecia, João de Souza, “o caiçara do pé rachado” nos deixou. É a ele que a poesia do Domingos faz referência.
                Foi um duro golpe, sobretudo pela nossa amizade, pelos causos contagiantes e pelo ser caiçara que ele era. Infelizmente muitos sequer têm noção de quem ele era, onde morou... Imagine então conhecer os seus causos - os que ele teve oportunidade de escrever!
                Desconfio que o causo de hoje ele não escreveu. Dele eu escutei quando fazia um serviço de pedreiro no Camping do Velho Rita. Os personagens são: Sebastião Rita, o pai do nosso saudoso João, e, João de Paula, o caiçara hippie. Eram primos. Os dois estiveram trabalhando na construção de um muro, mas o serviço se arrastava porque era hábito dos dois as escapulidas para “uma bicadinha” no Bar do Barriquinha, na beira do campo de futebol  do Itaguá.
                Num dia bem cedo os dois prepararam uma grande quantidade de concreto para enchimento das colunas. Misturaram tudo. Antes das oito horas da manhã a massa já estava no ponto. Ao perceberem que estavam adiantados, resolveram “molhar a goela” na “fruteira do bairro”. Em pé, afundada na massa, deixaram a enxada para mostrar que logo estariam de volta. Porém, isso não aconteceu.
                De gole em gole, acompanhado de torresmo frito, passaram toda a manhã e viraram a tarde. Depois foram tirar uma soneca no rancho de canoa do velho Tibúrcio Mesquita. Anoiteceu. Já passava a Voz do Brasil quando Sebastião Rita chegou em casa. Todos estavam preocupados! Na mesma noite o tempo desabou: se seguiram quatro dias de chuva forte. Ninguém colocava nem o nariz para fora de casa. O terreiro era um lago porque o rio Acarau transbordou. Só depois de cinco dias, quando o tempo deu um recarmão, pareceu se firmar no sol, é que viram o monumento: do monte de concreto totalmente endurecido saía o cabo da enxada. Resultado: perdeu-se tudo, inclusive a ferramenta. Por fim, completou o João de Souza:
                “Acho que foi desse jeito que surgiu a história da espada na pedra, lá na Inglaterra! Só que aqui não teve nenhum Arthur forçudo. Sobrou para o Chico Preto malhar com marreta e ponteiro um dia inteiro!”.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

FELIZ ANIVERSÁRIO!

Eis algumas imagens para quem não pode ir à festa de aniversário do Mané Hilário. Viva o aniversariante e viva todo mundo que colaborou!
(Imagens - Julio C. Mendes)

domingo, 4 de dezembro de 2011

“Arranhando” o japonês.

(Trindadeiros - 30 anos depois)
                Quando pequeno, eu escutei falar de uma escola de pesca que, nas décadas de 1950/1960, funcionava na Ilhabela. Mais tarde procurei saber mais detalhes dessa escola. Tratava-se de uma iniciativa católica (semelhante a ASEL e a ALA que nós, os mais “antigos”,  conhecemos, em Ubatuba) para proporcionar uma formação técnica-assistencial aos jovens caiçaras. Era também uma ação humanitária. Nessa intenção, na ilha que abriga tantos caiçaras, foi criada uma estrutura básica funcionando como internato, ou seja, de diversos pontos do Litoral Norte, os filhos das famílias pobres eram encaminhados para serem instruídos de forma mais técnica na arte pesqueira. Legal isso, né?
                Indo mais a fundo, localizei alguns ex-alunos: Neco Félix, Tobias Amorim, Nelson Almiro, Salomão, Aristides, Eugênio Inocêncio, Bernadino Barreto, Zé Lucas, Zequita e outros. Ao relembrarem da Escola de Pesca, as emoções ficaram em evidência porque foi uma boa convivência, aprenderam muitas coisas a respeito das atividades pesqueiras, das tecnologias, mas também de convivência e de outros aspectos culturais que no nosso município ainda não tinha.  Desses nomes, a maioria voltou para o ritmo da roça. A saudade da família era o que mais angustiava a todos. Só alguns se engajaram na pesca profissional. Tobias Amorim, da praia da Caçandoca foi um deles. Por muitos anos fez parte dos embarcados em uma baleeira; depois, num atunzeiro, encerrou a sua carreira de pescador.
                Foi na pesca do atum, num barco de pesca japonês, que Tobias permaneceu por mais tempo. Quase que espontaneamente aprendeu o idioma japonês, inclusive escrevia inúmeras palavras. Mais tarde, quando sentia saudade de seu antigo patrão, da convivência e de alguns hábitos, o experiente pescador, formado na Escola de Pesca da Ilhabela, se deslocava até a Colônia dos Japoneses do Saco da Ribeira. Ficava à vontade entre eles. Conforme dizia, era “uma forma de continuar ‘arranhando’ o japonês”. Só nunca quis aprender a lutar sumô porque achava o traje muito escandaloso.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Dez anos depois





               
Nesta semana, em 1º de dezembro, foi o aniversário do nosso caiçara Mané Hilário. Fui visitá-lo por volta das onze horas, pensando que o encontraria acordado, mas... só pude contemplá-lo no seu pesado sono. A comadre me informou que agora ele está ficando menos tempo na cadeira, está dormindo mais, mas tem muitos momentos de lucidez. Até pediu uma festinha de aniversário, com cantoria se possível. Isso demonstra que, apesar dos efeitos colaterais dos remédios fortes que toma, o bom velhinho continua sabendo o que quer, tem clareza daquilo que está ao seu alcance.
                Voltei no tempo. Há dez anos, por ocasião da entrevista que gerou o artigo publicado na Enciclopédia Caiçara (Vol.4), assim disse o nosso personagem querido:
                “Eu sou de 1908;  1º de dezembro de 1908. Eu nasci numa casa na rua Dr. Esteves da Silva [...] Dancei muito baile. Onde tinha baile eu tava rente. Hoje não posso mais; a perna não ajuda. Hoje eu gosto de vê. O coração dá umas mordidas, mas...o que vou fazê? Não posso mais, né? O que os olho não vê o coração não sente, mas eu gosto de tá olhando. E... tudo acaba!”. Ou seja, aos 93 anos, naquela ocasião, o Mané Hilário já aceitava numa boa as limitações do corpo. Imagine hoje, aos 103 anos!
                Parabéns às pessoas que fazem de tudo para que o nosso pescador descanse enquanto os ventos cantam no traquete. Fica a certeza de que muitas coisas jamais saberemos e que existem muitos fios soltos cujas pontas não poderemos nunca achar.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Feliz aniversário!

          Hoje é mais um dia especial, principalmente ao Mané Hilário e seu pessoal. Afinal, não é tão comum completar 103 anos neste chão caiçara. O aniversariante me dá grande orgulho. Espero reproduzir muito das coisas que aprendi na pouca convivência com este legítimo praiano. Um abraço de toda a família caiçara.

domingo, 27 de novembro de 2011

Taboal

(Flor de caxeta flutuando num taboal do bairro Estufa)
                Não era possível, há coisa de quarenta anos, neste chão de Ubatuba, imaginar um considerável espaço sem nenhum taboal.
                Taboa é uma planta do brejo, juntamente com o junco, caxetas e outras mais. É a matéria-prima para confecção de esteiras, tapetes e outros artefatos corriqueiros das famílias caiçaras.
                Também era nos taboais que os caiçaras pescavam traíras, acarás, lambaris, cágados, enguias e outros seres da nossa culinária. E quem, naquele tempo, não caçava marrecos e patos selvagens entre juncos e taboas?
                Ah! Também tinha sanguessuga!
                E orquídeas nos pés de caxetas que abundavam as áreas alagadas!? Era demais!
                Depois, sobretudo a partir de 1970, veio o turismo furioso e forçou os aterramentos dessas nobres áreas. Sobre esses antigos espaços hoje estão plantados prédios, ruas, praças etc. Só as lembranças continuam.
                De vez em quando enxergo as “ilhas” que ainda não foram engolidas pelos loteamentos. São mostras de um espaço, de um ecossistema que parece estar com os dias contados.
                 Eu, moleque ainda, fui companheiro do vô Estevan no corte de taboa para fazer as esteiras que usávamos para acalento de nossos corpos. Dele aprendi um pouco da arte na palha. Da vó Martinha aprendi a apurar a vista em busca de lindas orquídeas. Tudo isso graças ao ambiente preservado que tínhamos recebido como herança. Agora, o que vamos deixando para as próximas gerações?

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Depois de Luiz Januário

                Nesta terra, neste chão de Ubatuba, até 1980, eu pensava que já  tinha visto quase tudo, mas nunca um nativo homossexual. O primeiro, naquele tempo, avistei no terreiro do Luiz Januário.
                Cosme era um rapaz, mas não tão rapaz: tinha a voz fina e os trejeitos de uma dama, embora as mãos calosas provassem ser um roceiro muito esforçado.
                Depois de uma boa acolhida por parte do Cosme e de seus familiares, das informações que precisávamos, eu e Cícero deixamos o lugar e o pessoal. Pelo caminho fomos conversando. Afinal, tínhamos um tema novíssimo para debater. Ele também estava admirado de,  num lugar tão isolado e num viver tão duro, termos encontrado o afeminado. O  rapaz era algo muito diferente do padrão caiçara. Daí  veio a falácia:
                Se Cosme é diferente de Cícero, e Cícero é homem, então Cosme é diferente de homem. Ou melhor: Cosme não é homem assim como Cícero é homem. Ficou a pergunta: Cosme é o que então? Disso rimos bastante, quase alcançando a casa do finado Aristeu. Depois disso nunca mais tocamos no assunto com ninguém. Creio que o Cosme, o caiçara homossexual, viveu e morreu feliz naquelas paragens.


terça-feira, 22 de novembro de 2011

Morro do foge




No Sertão da Quina, em Ubatuba, existe um morro chamado “Morro do Foge”. Os moradores passam pelo sopé do morro ao fazer a curva da estrada que acompanha o rio naquele trecho. Bem ali muita gente já viu e ouviu coisas estranhas.
Aconteceu com Leandro e Gilson de passarem caminhando por ali uma noite, voltando de uma festa. Leandro foi quem primeiro se calou ao ver, um pouco adiante, uma bola de luz branca e evanescente, que saiu do lado do rio, atravessar a estrada flutuando a cerca de um metro do chão e se perder no morro escuro. Assustado, mas sem deter o passo, ele tentou engolir o espanto pensando consigo: “devo estar bêbado...”. Depois de ter passado arrepiado pelo local da aparição, criou coragem de perguntar: “Gilson, você viu o que eu vi?”. Aí foi que Gilson teve consciência de que algo realmente tinha acontecido, não era imaginação: “Vi... mas era branco, deve ser do bem”.
A mesma tranquilidade não teve o Diego, que passava devagar por ali ao voltar da escola. Ao ouvir um assobio, ele se voltou para ver se alguém o chamava e não viu ninguém. Depois outro assobio soou mais forte, seguido de um barulho medonho de pedras grandes se chocando e caindo do alto do morro. Mas nenhuma pedra caiu. O assombro fez com que ele saísse pedalando numa fuga desabalada. Chegou em casa com o coração disparado, dizendo: “Mãe, me arruma dinheiro pro ônibus, que de bicicleta eu não vou mais pra escola”.
Ninguém sabe dizer quando e como surgiu o nome “Morro do Foge”, mas o certo é que muita gente já fugiu desesperada dali, ganhando casos misteriosos para contar.

domingo, 20 de novembro de 2011

Se não fosse o Totô!


Guaiás capturados na maré baixa para sustento de caiçara- Júlio 2011

                Já escrevi em outras ocasiões a respeito do João Pimenta, o incréu. Era da nossa vizinhança, na praia do Sapê, onde eu nasci.      Deste pequeno comerciante, o que mais me marcou foram os “bate bocas” (debates) que estabelecia com o frei Pio e mais uns dois ou três moradores do lugar. Eram disputas teológicas, mas eu não sabia disso naquele tempo. Meu pai não participava ativamente de tais conversas, mas as escutava e depois comentava em casa vagamente do assunto. Dizia no final: “O João Pimenta não é má pessoa, mas é incréu!”.
                 Numa dessas arengas, me recordo bem, o tema era o poder do Papa, da tão distante Roma. Frei Pio dizia que “o homem” era o “representante de Deus na Terra, o prenitudo potestatis”. João retrucava que tudo era conversa para alguém lucrar com isso. Nié, o mecânico, se dizia “acreditar desacreditando”. Nisso, o bom Nestor, o nosso “Totô” deu um basta em tudo badalando o sino e gritando ao mesmo tempo em forma de bronca: “O pessoá tá se cansando de esperá o padre. Como é que é: tem missa ou não tem?”. Não restou outra alternativa: lá se foi o influído frei Pio no seu hábito marrom que há muito se revelava encardido. Só não descobri até hoje se era parte da liturgia um hábito do frei: entrar na capela dizendo a cada fiel “Eticumespiritutu”. “Será que ele quer comer tutu?”. Eu tentava adivinhar o significado, fazendo as aproximações possíveis. De vez em quando o vovô Estevan ralhava, mas quase sempre dava uma risadinha. Acho que ninguém seguia perfeitamente o latim do frei, mas repetiam os sons nos momentos adequados.