quarta-feira, 30 de setembro de 2020

CULTURAS E CAMINHOS

Festa para Tobias e Carminha (Arquivo JRS)



     Eu digo que trabalho, devoção e festa sempre estiveram em igual proporção na vida do povo caiçara. O trabalho era questão de resistência, criatividade e sobrevivência. A devoção sustentava a esperança e era alento nos temores. A festa sempre foi manifestação da alegria, agrado a alguém e agradecimento pela vida. "Não havia preguiça para festa alguma. Nem que fosse depois da derradeira serra ninguém esmorecia quando a festa era anunciada", me contou um dia o Dito Neves, marido da Joaninha, em cujo terreiro chupei muitos cajus  no tempo de criança.
    
     De vez em quando acontecia de alguém ter motivo para falar mal de alguma festa. O "velho" França, depois que passou um tempo em Santos, servindo em quartel, voltou para Ubatuba recebendo um salário sem precisar trabalhar. Era como se fosse uma aposentadoria de militar. Não sei o porquê, nem quem arranjou isso para ele. Só me lembro dele dizer que o nosso povo era muito folgado, fazia muitas festas etc. Alguém, já naquele tempo, me fez ver o seguinte: tem gente que vive às custas de quem trabalha, mas fala mal dos trabalhadores. Notei isso quando o saudoso Herondino esculachou o "velho" França: "Alguém como você é gente sem vergonha na cara. Bastou alguns anos vivendo entre os soldados para poder viver o resto da vida recebendo sem trabalhar. Eu, no seu lugar, me retiraria numa dessas grotas para deixar de inticar com os outros que seguem no suor pelo pão de cada dia". 

    Eu confesso que, nas poucas oportunidades em que avistei o "intiqueiro" em momentos de festa do nosso povo, ele estava sempre de lado, sem ninguém nem para prosear. Nem sei como conseguiu se casar. Resumindo, no dizer do tio Francolino: "O França cutuca mais que ispim de brejaúba. Vivendo sem esforço, só mamando, agora não para de inchar. Está quase um baiacu de ispim, sem ninguém fazendo questão de ficar do lado dele".

    Hoje, depois de tanto tempo, consigo identificar a condição do pensamento do "velho" França: ele foi envolvido por uma ideologia, por ideias de gente rica que tem a necessidade de desmerecer os mais pobres. Causando o rebaixamento de muitos, alguns poucos se dão bem. É assim que essa moral é cultivada para oprimir e extinguir formas culturais diversas, tal como a nossa. O Dito França e tantos outros servem como exemplos de aliados dos ricos, de gente que precisa oprimir para existir. Se vivemos situações de miséria cultural e material, se não valorizamos devidamente a nossa cultura hoje, é porque não fizemos as leituras necessárias em outros tempos. Basta! Vou parando de inticar por aqui!

(Em tempo: a filha do França vive ainda nos dias atuais recebendo o salário que era do finado pai. Pode isso?).

terça-feira, 29 de setembro de 2020

JARDIM CHEIROSO

 

Flor cheirosa (Arquivo JRS)
    

    Eu já escrevi a respeito do terreiro da vovó Eugênia em mais de uma ocasião. Assim que chegava a primavera, uma flor saía da terra, do nada. Na verdade, suas folhas desapareciam no inverno, como se a planta findasse o seu ciclo. Mas, num dia de setembro, antes do dia clarear de vez, um perfume suave invadia nossas narinas. Então nossos olhos se fixavam rente ao chão e enxergavam a maravilha denominada por todos daquele tempo como Flor do Japão. O motivo? É que ela surgia de dentro da terra. Logo, se o Japão fica do outro lado da Terra, então ela viria de lá. Mais tarde aprendi que ela também é conhecida como Flor da Ressurreição. Hoje resolvi fotografá-la para que todos possam apreciar tal maravilha comum nos terreiros caiçaras, dentre outras plantas do jardim. É pena que o cheiro não passe pela imagem.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

CONTEMPLAÇÃO

Beija-flor (Arquivo Anilsi)

Em dias de mentiras oficiais;

Chovendo ou não;

Com rumores ou silêncio:

Eu  busco oportunidade.


Olho pela vidraça,

Contemplo passarinho no ninho:

Coisa comum no mato,

Momento raro na cidade.


Um capricho natural,

Uma eternidade genética.

Desde sempre assim faz:

Técnica sem idade.


De repente, num voo veloz,

Foi-se a mãe de penas brilhantes.

À vista dois ovos acomodados:

Por um instante, numa brevidade.


Saiu a beijar flores,

Precisa se manter viva:

Tem compromisso com vidas;

Alerta a necessidade.


O retorno se dá num piscar de olhos:

Meu jardim é logo ali.

Acomoda-se em sua missão

Em beleza e felicidade.


Seres novos chegarão;

Há flores e seres esperando no tempo.

Eu, minha família, eles e as flores...Vidas.

Sigo espreitando, renascido na verdade.



terça-feira, 22 de setembro de 2020

MELHORA COM NINHO DE ARAPUÁ

 

Lá longe, nem se avista quase (Arquivo JRS)

    "Nós fomos naquela lonjura buscar uma erva. É que só lá na ilha tem. Saímos cedo; éramos três remando. Quase meio-dia durou a travessia. Melhor dizendo: saímos no clarão e chegamos quase no sol a pino. Isso porque o mar estava liso, sem nenhuma ventarola. A canoa ficou amarrada na poita deles: uma bola grande com algumas letras. Encostou ali um dia; pode ter se desgarrado de algum navio que passou por fora, segundo os moradores. Caímos na água e subimos pelo estivado mais perto. O Batengo estava agachado; nos recebeu com um pito na mão. O cheiro bom do fumo estava no ar. Os outros se esconderam como é o costume deles. São vergonhosos ou não desejam gente para não estragar aquela paz.  Apareceram depois, aos poucos, meio ressabiados. Logo ali, subindo pelo mesmo caminho, chegamos na casa. Dentro estavam os outros (mulher e crianças) do Batengo. Ela explicou onde tinha o mato para nós, a erva que fomos buscar. Bastou subir mais um pedaço do morro, até uma área de macega com muita macela e um marco de duas pedras: uma maior e a outra menor. A grande era um granito verde; a pequena era inteirinha branca, dessas que dizemos ser pedra de vidro. Entre as duas tinha a tal erva que Josefa precisava para depois do benzimento. A nossa tarefa era levar aquele mato. Logo ajuntei uma massaroca, uma boa braçada. Chegou a metade da tarde. O tempo virou, veio vento forte. A nossa canoa foi puxada para a terra firme. O jeito era pernoitar com eles, na ilha. Ainda não tinha escurecido de vez quando jantamos: era comida como a nossa, de caiçara. Farinha e peixe ensopado. Uma panelada de cambeba. Além de banana verde, havia uns fiapos escuros pelo meio do caldo. É que eles, a gente de lá, tem o costume de juntar um tipo de limo da costeira, secam no jirau para depois usar no cozido. Dá um gosto a mais na comida. Só não usam no marisco, dizem,  porque este já tem o gosto do limo na carne. Depois da janta, a companheira (Lídia) do Batengo explicou que aquele mato colhido por nós é amargoso, solta um pitiu, mas se fizer amassado com ninho de arapuá, um aroma doce se espalha pelo ar e  se torna melhor de beber. Escutei bem a recomendação dela: 'Faz desse jeito pra mode tomá com gosto e fazer mais efeito, curar ligeiro. É certo: melhora com ninho de arapuá'. Tudo isso eu transmiti à nossa benzedeira quando chegamos de volta. 

    Ainda a gente estava na prosa da mesa, tomando um cafezinho depois, quando chegou o primo Eugênio trazendo umas esteiras de taboa da casa dele. Proseou um pouco só; nem uma hora depois se foi pela escuridão.  Logo dormimos todos. No escuro da madrugada as brasas do fogão foram reavivadas para o nosso café antes de deixarmos a ilha. Juntamos tudo o que era nosso, agradecemos e embarcamos para remar tudo aquilo de novo. Que não é fácil ser ilhéu isto eu posso garantir!".

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

ERA GARNÉ

 



Baguary de Fora (Arquivo JRS)

    O mar estava ali, bem na porta. Comida também tinha, era o que bastava para as forças necessárias de cada dia. A pinguinha sempre surgia de algum lugar, trazida por alguém para distrair a vida dos pescadores. Ali Garné vivia o seu tempo não sei por quanto tempo, pois desde sempre eu tenho a lembrança dele sendo pescador naquele lugar, no pedaço de costeira conhecido como Baguary de Fora. Outros parceiros vez ou outra lhe faziam companhia, dormiam por ali.

    Desde sempre os pescadores usaram o Baguary como referência de pesqueiro, com bons parcéis e tocas fantásticas. Lugar de garoupa, de sargo e de tantas outras espécies cobiçadas por quem vive do mar. Há muito tempo a pesca de cerco foi instalada ali. Hoje não tem mais. Na falta de praia, uma estrutura (estivado) feita em paus roliços sobre as pedras da costeira serve de rampa às canoas, onde sobem e descem para a água, em busca dos peixes. Dois caminhos garantiam o acesso ao Baguary: um do alto do morro do Cedro e outro da Ponta Grossa, quase chegando no Farol. Quer um lugar bonito? Deseja sentir melhor a natureza? Recomendo, dentre outros, o Baguary de Fora, uma formação de relevo diferente. Tio Genésio dizia que baguari é coisa que não está de acordo. Quero entender que significava algo que destoa daquilo que era normal. No caso, entre um amontoado de rochas resistentes à força do mar, um ambiente diferente se formou. Árvores grandes, plantas rasteiras e até coqueiros se fizeram aparecer a partir de condições que pareciam impossíveis à vida. É certo: a natureza insistiu muito para se fazer daquele jeito, naquela beleza sem igual.
    
    O percurso da Ponta Grossa, a partir do Canto do Acaraú,  sempre me agradou muito. Andei bem por aqueles morros e costeiras desde antes dos vinte anos de idade. Vi as modificações acontecendo (e continuam!). Por vezes, de repente, punha a mochila nas costas, me despedia da mãe e lá me ia na caminhada. Quase sempre levava café, açúcar e pão para um café durante a prosa com o Garné e possíveis companheiros do Baguary (Zeca, Bidico, Tico, Jango...). Neste ano, meses atrás, Garné se foi. A paz daquele lugar agora é outra, sem o amigo de tantas prosas, das boas risadas da Era Garné.

    

    

domingo, 20 de setembro de 2020

AQUELA CASA

Na beira da estrada (Arquivo JRS)


             Quem faz casa na beira da estrada tem sina de acolhedor, pois quem viaja recorre sempre por um copo de água, uma informação ou simplesmente larga pelo chão o fardo num instante para prosear

           O dia amanhecia. Bem na frente daquela casa eu parei para esperar o Chico Lopes que se dirigiria ao pé da serra, ao sítio. Eu iria para conhecer a cachoeira das Pedras Brancas. Sentei ali, na beira da estrada; poucos carros passavam naquela momento. Abri a mochila e puxei de caderno, máquina fotográfica e caneta para registrar aquele momento. Deduzi que há tempo ninguém morava ali, nem zelava pela área como seria merecido. Notei o estilo e os materiais usados na obra: tudo moderno em outros tempos. Foi feita bonita, acolhedora... Sem cerca alguma para dizer que confiava nos passantes e não recusava acolhida. Uma janela antiga requadrada com esmero. Em meio à natureza, ela parecia querer também ser notada. Assim a humanidade foi trabalhando, modificando a natureza: pedra foi cortada para alicerce, barro virou tijolo e telha, árvore virou porta, janela, caibros, vigas, ripas... A casa se tornou proteção ao homem, à mulher e às crianças que se multiplicaram sobre mais espaços da natureza, da mata ao redor. O tempo passou, as pessoas se foram e os sentimentos de zelo pelo belo foi se apagando. Teve pintura? Agora não tem mais. Flores abundavam o terreiro? Agora é só terra seca e folhas secas ajuntadas pela ventania. O que eu faria? Reformava seguindo conforme a originalidade e a tornaria aquela casa novamente agradável, capaz de despertar contemplações de todo mundo que estivesse passando por ali. Depois de tudo pronto, de um jardim colorido, um banco seria permanente para boas prosas. Um cachorro, um gato e galinhas dariam movimento ao espaço. Pensava tudo isto quando o Chico chegou batendo em minhas costas. "Vamos?". Embalado na imaginação, prossegui: "Senta aí, compadre. toma um cafezinho que acabei de passar. E aproveita que a minha amada ainda dorme, mas aprontou ontem umas broinhas de milho que não tem como não gostar". Ele, vendo a casa e notando o caderno com coisas escritas, sentou ao meu lado. Me escutou e acrescentou a sua luminosidade ao meu olhar, àquela casa da beira do caminho de antigamente, onde muitas tropas passaram com suas cargas valiosas a enfrentar a dura subida e descida da Serra do Mar.

sábado, 19 de setembro de 2020

SE NÃO HOUVER CHIFRE EM CASA

 

Coentro, hortelã, cebolinha...Nosso espaço (Arquivo JRS)


       De onde vem todo esse conhecimento de mato, de ervas, que a cultura caiçara tem? "Tem mato para tudo", diziam os mais antigos. "É sabedoria dos caiporas, dos pretos e da portuguesada". Assim como antigamente, as mulheres continuam à frente nesta particularidade de conhecer os matos e as suas funções na culinária e como medicamento. Em toda a minha vida eu conheci várias benzedeiras caiçaras, mas apenas um benzedor: o Velho Mariano, do Ubatumirim, que veio findar seus dias no bairro da Estufa. Após o ritual deles e as rezas, ninguém deixava o lugar sem levar uma braçada de mato para fazer remédio. A cura se completava assim

             Nossos quintais eram repletos desses matos, dessas plantas que não podiam faltar porque sempre havia precisão para usar na comida, fazer um chá, um emplasto etc. Quase sempre um cercado de bambu (ou de aproveitamento de pano de rede velha) protegia nossas ervas, sobretudo das galinhas ciscadeiras. Era o espaço das hortelãs (gordo e de bicha), dos coentros (miúdo e do mato) , da alfavaca, da melissa, do capim cidrão, do poejo, do guaco, da cidreira, do alecrim, do favacão, da arruda, do manjericão... Entre elas, ocupando o mesmo espaço se via couve, cebolinha, tomate, pimenta, salsa e por aí vai. Entre as flores do terreiro e pelos caminhos também abundavam dessas plantas que nasciam levadas pelo vento, por bichos e por nós também. Era comum avistar alguém fincando galhos ou jogando sementes nos locais das nossas andanças. E tinha toda aquela riqueza de plantas que abundavam na capoeira, depois do cisqueiro. A gente, a bem dizer, tropeçava em caninha do brejo, pariparoba, urtiga, aperta ruão, malícia, sete sangria, quebra pedra, gervão, melãozinho, prumera, boldo de todo tipo, erva baleeira, ervas diversas (cavalinha, de bicho, de São João, de Santa Luzia etc.).

               Nunca podia faltar algumas folhas de alfavaca no preparo de qualquer espécie de cação. Na carne de galinha, o sabor que realçava era do hortelã gordo. Coentro do mato entrava em quase todos os tipos de peixes que fossem cozinhados. "Zezinho, vá lá fora e me traga três folhas de coentro. Escolha das maiores". Assim, a partir da mãe, das avós e com tanta gente mais, fomos aprendendo disso tudo. De vez em quando se escutava frases do tipo: "Comadre, tendes aí hortelã, daquela de bicha [lombriga]? É que tenho reparado no Tãozinho que se encontra muito aíbo, empalamado. É só bater a vista que se nota. Deve ser ataque de bicha. Na semana que começa amanhã, irei preparar chá de hortelã com pó de chifre para ele beber de tarde". E por que tinha de ser na parte da tarde? Vovó Martinha me explicou: "É que, depois de atacar a comida do almoço, as bichas ficam desesperadas de sede, dando até coxa nas tripas. Só que, em vez de água, quem conhece faz elas tomarem chá de hortelã nas fuças. Se tiver fervido com um punhado de chifre torrado aí que resolve mesmo! Pode ser usado sementes de mamão moído se não houver chifre em casa e nem na vizinhança".

                    Talvez por tudo isso, eu, assim que me levanto a cada manhã, dou uma volta no quintal para apreciar as nossas ervas, o nosso mato. "Um pedaço da Mata Atlântica no terreno", conforme o dizer da mana Ana.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

EM SERÃO

Cais de Ubatuba no serão (Arquivo JRS)

 


                                               Fim de tarde é serão;

                                 Parei no Acari e Mariquinha.

                                 Após prosa e café andei mais,

                                 Fui me despedindo do dia.

                                 Desde a Ubatubana tudo brilhava.

                                 O Sol se pondo perto do Corcovado,

                                 No cais muita gente se ajuntando.

                         Não há ninguém ao meu lado.


                                  Depois do serão escurece logo.

                                  Bebo água na bica; 

                                  Piam curiabôs e grilos na grota.

                                  Olho o balaio de peixes do Bié:

                                  Sargo, garoupa e gudião.

                                  À luz do Sol, todos dourados.

                                  Contemplo aquilo tudo; 

                                  Dali me vou no mar salgado.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

O MONO CAPELÃO


1984 - Ponta do Farol (Arquivo JRS)



              Em 1980, num meio dia de Sol ardido, eu estava no recenseamento na área da Ponta Grossa. Era outubro. Naquele dia o meu roteiro tinha se iniciado no canto da Praia Vermelha, na entrevista com o Dito Olho Azul, mestre da dança da fita da capela do Itaguá. Depois passei pelo povo da Anatilde, minha colega de escola, pela bica do morro onde era a casa do Ditinho Batatão e Hione. Logo alcancei as poucas casas do Cedro, onde o saudoso Zeca do Paru me guiou para os lugares dos parentes, às moradias dali. Ainda faltava a Ponta do Farol. A comadre Galdina apareceu por acaso, estava visitando alguém. A sua moradia era no Acaraú, vizinha da família Damásio, bem no meio do pessoal numeroso do Janguinho e Santana: caiçaras que marcaram a minha juventude. Ao vê-la, o Zeca, sempre com alguma tarefa em mente, pediu: "Gardina, faz o favor de acompanhar o Zé Ronaldo até as casas da Ponta, para fazer a pesquisa que é preciso". E assim subimos e descemos morros naquele calor bravo. No percurso encontramos um caminhão pipa. Ela me explicou: "A água dali é pouca. Por isso sempre vem um caminhão cheio de água para serventia dos moradores, de quem está por ali. É tudo turista, mas tem duas famílias que servem de caseiros. Se fosse só pobre, eu duvido que a prefeitura fizesse isso. Quem conseguiu esse serviço foi a dona da casa maior, gente do Abreu Sodré, que foi governador do nosso Estado. Hoje tem tem mais obras novas por lá, você vai ver mais construções. O caminhão tem vindo mais vezes por isso".
       
             De fato, recenseei apenas quatro casas. Vislumbrei para os próximos anos mansões por debaixo daquele mato todo. Após a última casa, a comadre me convidou: "Já que estamos aqui, vamos até o farol. Dizem que está reformado, mais bonito. Ainda não fui lá depois disso". Lógico que eu ansiava em ver a famosa Ponta Grossa do Farol, o tal farol. E lá chegamos: uma obra simples, de onde se avistava um mar imenso. O finado Dário Barreto, caso estivesse conosco, na certa exageraria: "Quando o tempo está bem limpo, sem nenhuma cerração lá longe, daqui a gente é capaz de avistar o outro lado, a terra dos africanos". Sentamos ali para prosear desfrutando da linda visão. De repente um barulho veio vindo pelo mato, balançando galhos mais altos das árvores. Novamente aquela maravilhosa mulher me acalmou: "É mono. De vez em quando tem um bando deles que passa por aqui. O povo daqui está acostumado. Papai, que Deus o tenha, dizia que eles vem de longe, da serra, porque sentem saudade do mar, do cheiro da maresia e do barulho das ondas na costeira. É sempre neste tempo, quando tem mais caraguatás maduros. Vamos ficar quietos, só reparando no jeito deles. Macaco parece com gente, né?". O bando chegou, mais de quinze deles entre grandes e pequenos. Um deles se destacava. Ao nos perceber, deu uns pulos na nossa direção para nos examinar melhor, de perto. Permaneceu ali alguns minutos, na distância de cinco metros, sobre uma pedra. Depois  soltou um som como se acalmasse os demais e foi tranquilamente se juntar ao bando que atacava os cachos de caraguatás. Impressionante! "Aquele que veio até nós é o capelão, quem comanda os outros. Repare que tem a barba a mais grande e bem ruiva, parecida galhada de aroeira madura. E olha aquele tamanho de gogó!". Fiquei devendo mais uma lição para a comadre Galdina. Quanto privilégio meu em conviver com essa gente toda!

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

DETALHES DO SER CAIÇARA

Tio Antônio Félix (Arquivo JRS)
                
                         Tio Antônio foi o primeiro filho dos oito que a vovó Martinha teve. Um talento especial nele era o de fazer rir quem estivesse por perto, em prosa com ele: sempre encontrava ao menos uma graça em alguma coisa. Também se aproveitava das ocasiões para esclarecimentos em qualquer coisa, sobretudo quando se relacionava com saberes da nossa gente. Tinha a paciência em detalhar material, técnica e uso do tema abordado. Por exemplo: 

           “As casas da nossa gente - quase todas! – era feita de pau, barro e sapê. O tronco da jiçara era feito em ripas para receber a cobertura. Para usar como vigas, a preferência era pelo jacatirão, sempre reto. Já na serventia de colunas, a gente procurava pau mais duro no mato, mais resistente ao tempo. Cabiuba, ipê, canela e até mesmo tarumã eram os mais aproveitados para fazer colunas. Mas tudo tinha de ser cortado no tempo certo, na lua boa, senão... logo bichava, dava cupim. Ainda é assim para alguns hoje. Depois de colocados em pé, de travadas as colunas das paredes e da cumeeira, vem as vigas por cima. Na parte de baixo, rente ao chão, deitam-se as peças que servirão de soleira, de onde parte os paus dos batentes das portas e das janelas. A cobertura acontece nesse momento. O sapê colhido e secado é separado em porções iguais, amarrados, penteados e distribuídos sobre as ripas em camadas. Quando é bem feito, penteado de acordo, dura até catorze, quinze anos... Na soleira também é onde se firmam os paus mais finos, varetas escolhidas a dedo. Ficam a pique para serem enleiados, envarados e firmados com embira, sendo mais recomendado a de Imbé, da casca dele. Pode passar o tempo que quiser que aquilo não se acaba, nem se rompe. O pau a pique tem de ficar menos de um palmo de distância um do outro. Envaro é o que se põe de um lado e de outro do pau a pique e vai se prendendo com embira. É assim: pau a pique é pau em pé e envaro é pau deitado. Tudo bem amarrado se torna a sustentação das paredes. Nesse trançado que fica é que vai jogar barro, espremer nos vãos, fechando a casa e os cômodos dela. Tudo isso nunca foi serviço de homem sozinho ou de dois e três. Sempre era feito em pitirão, com muita gente do lugar no ajutório. Depois o dono passava a ocupar; aquilo virava o seu lar, onde namorava para cumprir o mandamento divino de crescer e multiplicar. Era mais um lugar para se cantar Reis, Folia e fazer bate-pé. Quase sempre a sua sala, com bancos encostados nas paredes, serviam para prosas e rezas. Quando alguém da casa falecia, era na sala que se velava e conversava a respeito de tantas coisas, ainda mais das engraçadas vividas com o defunto. Não havia quem não rezasse e quem não desse risadas debaixo daquele teto. Flores, velas, café, pinga e o de comer eram sagrados naquelas horas de despedidas”.

             Ah! Detalhe: o tio Antônio foi padrinho do tio Neco, o sétimo filho. Segundo a crença, para que este não virasse lobisomem era preciso cumprir o ritual. Se fosse sete mulheres na sequência, também a primeira delas batizaria a sétima, evitando uma nova bruxa no pedaço, no nosso chão caiçara.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

A FORÇA DAS LENDAS

 

Grupo da Folia do Divino - Capela da Marafunda 2005 (Arquivo Luzia)


                No ano de 1267, numa cidade italiana, um frade mendicante faz um sermão através de uma história divertida e edificante, pertencente ao gênero literário conhecido por exemplum, retirada de um texto recém-concluído chamado Legendae sanctorum, vulgo histoira lombardica dicta. Seu autor também era um mendicante, Jacopo, nascido em 1226 na cidade de Varazze, próxima a Gênova.

                Autor de muitos sermões e de uma importante Crônica de Gênova escrita em 1293, sua grande obra, foi a coletânea hagiográfica que ficaria conhecida por Legenda áurea. Isto é, um conjunto de textos (legenda: aquilo que deve ser lido), também tinha o sentido de “leitura da vida de santos”) de grande valor (daí áurea, “de ouro”) moral e pedagógico. O objetivo imediato de Jacopo de Varazze era fornecer aos seus colegas de hábito, os dominicanos ou frades pregadores, material para a elaboração de seus sermões. Material teologicamente correto, isento de qualquer contágio herético, mas também compreensível e agradável aos leigos que ouviriam a pregação. E, detalhe, a atemporalidade dos fatos relatados, faz com que o conteúdo da sua obra principal – Legenda áurea – fosse recorrida ao longo dos séculos vindouros pela religião católica. Assim chegou até nós o evento da Exaltação da Santa Cruz, padroeira do município de Ubatuba, festejada no dia 14 de setembro.

               Da Legenda áurea  retirei um texto mínimo para que sintamos a força da legenda até os nossos dias. De legenda se origina a palavra lenda, uma história muito antiga que vai passando pelas gerações. As legendas (lendas) eram contadas para explicar aquilo que não se conhecia a causa. Portanto, não sabemos o que de fato é real numa lenda.

                A Exaltação da Santa Cruz é assim chamada porque neste dia a fé e a Santa Cruz foram especialmente exaltadas. Note-se que antes da paixão de Cristo a cruz era vulgar, por ser feita de madeira comum, infrutífera, plantada no Monte Calvário onde nada frutificava; era ignóbil, por ser destinada ao suplício de ladrões; era tenebrosa, por ser feia e sem qualquer ornato; era mortífera, pois os homens eram colocados nela para morrer; era fétida, por ser plantada no meio de cadáveres. Depois da Paixão, foi exaltada de diversas formas, passando de vulgar a preciosa [...] A Exaltação da Santa Cruz é celebrada solenemente pela Igreja porque graças a ela a fé foi exaltada.

                Em Ubatuba, pelo que eu sei, algumas capelas capelas homenageiam a cruz: Cambury, Puruba, Marafunda, Sapê, Toninhas... Todas elas irradiadas da Igreja Exaltação da Santa Cruz, no centro da cidade. Com toda certeza, colocar a inauguração da Matriz (no ano de 1886) no “Dia da Paz de Yperoig”, tinha somente o motivo de comemorar a vitória da fé (e da guerra!) dos “nossos pais portugueses” sobre os “gentios da terra”, os tupinambás (primeiros moradores deste chão). Na praia do Cruzeiro (Yperoig) a fé católica triunfou, os índios foram derrotados, a vila nasceu. Se a lenda dizia que a cruz sempre venceu, agora não poderia ser diferente.  Até recentemente, todas as praias em Ubatuba tinham o seu Porto do Cruzeiro, a sua cruz olhando para o mar, invocando a proteção aos moradores daqueles lugares habitados pelo povo caiçara.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

O VELHO ASSUNTO DO ACARAÚ

 

                                            Canoa no Itaguá (Arquivo JRS)

           Cheguei cedo para um trabalho contratado pelo saudoso João de Souza. Ah, faz décadas isso! Na entrada do Camping do Velho Rita se encontrava proseando João Barriguinha, João de Souza e Acari. O assunto era política porque estava na época de eleições municipais. Os elogios, primeiramente eram para o Basílio Cavalheiro, o prefeito daquele tempo (e também morador do bairro!), pelas melhorias na orla do Itaguá (muro de pedra para conter as ondas das ressacas, evitando invadir a área da estrada de rodagem no jundu, construção do ginásio de esportes, o “Tubão”, etc. Mas uma coisa parecia ser angustiante aos três caiçaras naquela prosa política: o rio Acaraú. O motivo era que, por estar muito estreito, com construções quase fechando o seu leito, as grandes chuvas causavam sempre um estrago no bairro, invadiam terrenos e casas por ali tudo. “Não tem como remover as casas que já estão construídas”, “De nada adianta afundar o leito dele”, “Se fizer um corte, endireitar o rio, de nada vai adiantar”... Até parecia um gabinete de técnicos prontos a chegar na solução ideal do problema. Naquele momento chegou o Velho Rita. Logo se inteirou e deu a posição que eu julguei ser a melhor: “De um rio pode-se fazer dois. Basta anular uma rua dali de traz e transformar a reta, que vai até a praia, num rio. A maior parte do tempo ela vai correr com pouquinha água, mas nas grandes chuvas, vira um rio potente e deixa de fazer o estrago aqui do nosso lado. É difícil isso? Claro que não! Hoje tem máquina escavadeira na prefeitura. Se não tivesse, a gente podia fazer no braço. É para o bem nosso mesmo. Só é preciso fazer umas duas pontes para poder ter travessia aos dois lados. Isso não é difícil. De repente, o lugar onde hoje corre o Acaraú, deixe de existir, seja tudo aterrado. Então deixa de ter dois rios e fica só o segundo. Dali em diante o segundo será o primeiro e único. Está bom assim?”. Todos acharam a ideia um absurdo por um motivo apenas: “Nem pensar uma coisa dessa! Onde nós vamos pescar depois disso? Nem pensar! Todos nós crescemos comendo traíra desse rio. Desde criança nós pescamos traíra, acará, bagre e outros a cada dia ali. Nossos filhos, nossos netos vivem ali pescando sempre nos finais de tarde. Agora mesmo, olha ali a Celeste e o neto dela esperando com paciência a chegada de alguma coisa no anzol”. Resumindo: morreu o assunto. O problema continuou. Pior: se agravou! Agora é esgoto que transborda pelos espaços do bairro. Só não  se repete mais como antes porque as grandes chuvas já não são tão frequentes. É evidente que diminuiu a oferta de água no nosso lugar. Com certeza os descendentes desses antigos caiçaras não se arriscam a pescar há muito tempo no rio que corta o bairro com seus odores terríveis. Nem deve viver peixe com tanta sujeira ali! 

           Agora, novamente em véspera de eleição na cidade, o assunto bem que poderia voltar a ser falado, discutido pelos candidatos a alguma coisa na próxima fase administrativa do município. O velho assunto do Acaraú se mantém atualíssimo. Eu ainda acredito que não apareceu ideia melhor do que aquela do saudoso Sebastião, o Velho Rita.

Em tempo: hoje, feriado municipal "Dia da Paz de Yperoig" (1563). Nós sabemos que foi quando se concluiu a traição dos indígenas  que aqui viviam, resultando no extermínio do povo Tupinambá. O correto seria reconhecer como Dia da Traição de Yperoig)

domingo, 13 de setembro de 2020

SINA DE FUXIQUEIRO

 


                                                                     Entardecer na praia (Arquivo JRS)

                A saudosa vovó Martinha tinha fama de fuxiqueira. Na verdade, era mesmo! Só que eu prefiro ainda hoje considerá-la como uma informante exagerada. Ela, em suas caminhadas ao amanhecer, via coisas até desnecessárias, mas geradoras de conjecturas que muitas vezes se confirmavam. Realidades e fantasias sempre estavam nos seus roteiros de fala. Era um leva-e-traz constante o cotidiano dela. Apenas o João Brilhante se emparelhava, poderia competir com ela. Por isso eu sempre o chamei de João, o Fuxiqueiro. Ainda o chamo assim. E ele gosta, até dá risada! Chegou a velhice, está diabético, mas se mantem na mesma vivacidade, sempre “antenado”, prestando atenção, principalmente em coisas que não lhe dizem respeito. Depois, assim como a vovó, faz impressionantes comentários, só que é mais seletivo, escolhe para quem vai compartilhar as novidades. Ultimamente, depois que enviuvou, parece estar mais afinado em seu velho talento. De vez em quando vou visitar o João e me fazer ouvinte de suas prosas. A vantagem é que vou adquirindo mais assuntos para escrever. Ao chegar no portão dele já escuto mais ou menos isto: “Ainda bem que você chegou, Zé! Estou em dívida com umas histórias faz tempo. Entra e senta que eu lhe conto umas boas. Antes vamos tomar um café com um queijo que comprei na feira, dos caipiras de Catuçaba”.

                Numa ocasião ele disse coisas inesperadas a respeito da Teteia, a companheira do Totonho. Lembrei-me da prosa agora porque acabei de vê-la no caminho, indo para o serviço pedalando afobadamente. Não tem como não se impressionar com o João. É o meu fuxiqueiro-mor. Como sempre, após o café, a inesperada narrativa:

“Sabe que a nossa amiga Teteia tem sofrido com essa vida de viagens do Totonho. Já tem anos que o homem só dorme uma ou duas noites em casa. Não desejo vida dessa para ninguém, nem sendo inimigo dos piores.  Que vida triste leva a Teteia! Se ela não ouvisse o conselho da Maura Pernuda, o Totonho já tinha enfeite pontudo na cabeça. Enfezado que é, parecendo sarna brava, você já imagina o que ele seria capaz de fazer!? Sabe o que ela aprendeu para compensar  a ausência do macho dela? Se distrai com mandioca. Quando não tem, se vira com banana nanica verde. Coisa triste isso. Por sorte, de um ano para cá ela conseguiu emprego em casa de gente rica, uma tal de Dona Zilda, no Itaguá.  Tal como a empregada, a patroa passa por angústia parecida. Mas, cá entre nós, você acha que gente rica  vai recorrer à banana, mandioca ou coisa assim? Claro que não! Ela, segundo a Teteia, ‘tem uns aparelhos de sex shop, de tamanhos de fazer inveja’. O melhor lhe conto agora: a ricaça percebeu, pelo brilho nos olhos, o interesse da coitada pelo mostruário sob a cômoda. Escutou a história dela, se compadeceu. Acabou escolhendo uma peça da admirável coleção, colocou dentro de uma sacola e lhe presenteou. Segundo o ditado, ‘não precisa muita coisa para alegrar pobre’.  Desse jeito, Teteia, graças à madame, se modernizou para sentir prazer na ausência do marido. Só que, você sabe, essa gente crente pensa muito em pecado. E por azar, num culto ela ouviu uma pregação desfavorável, servida para reforçar a sua culpa. O que fez Teteia? Pegou o apetrecho e endereçou a um velho desafeto da família. Isso confirma novamente um dizer dos antigos: ‘Alegria de pobre dura pouco’. Por que tem de ser assim as coisas? O que vai fazer a coitada? Não tenho nenhuma dúvida que ela já retornou aos recursos de antes. Por que tenho certeza disso? Eu não vejo então, por acaso, ela passar uma vez por semana, no rumo da roça do Chico Mergulhão?”.

                Parafraseando a criançada: “Viaja esse João!”. O que há de se fazer? Desde que eu o conheço é assim, tem assunto de onde você nunca espera. Mais uma vez confirma o apelido de Fuxiqueiro, não é mesmo?



sábado, 12 de setembro de 2020

CAPITÃO DE CANOA

 


 

Frente ao mar, no Masssaguaçu (Arquivo JRS)

          Aristeu, caiçara da Ilha do Tamanduá, tinha boa memória, gostava de prosas em rimas. Em qualquer ocasião puxava da oralidade e da tradição, quase sempre num ponteado de cavaquinho. Dele escutei a respeito de um velho capitão, vindo de outras terras.

 

Passou por aqui, meu amigo Zé,

Um velho capitão, desses do mar.

Como eu reconheci? Ele nos contou!

“Tenho mais dias de água salgada do que de vida”.

Logo debulhou todos os lugares,

E contou seus tantos amores.

Mas foi neste lugar que apoitou:

Ali no Morro da Tinticuia morreu.

Em lugar de quase água nenhuma,

O homem de tantas águas se findou;

Sem posse alguma além das histórias...

Ele saudades deixou.

 

Quando chegou trazia só um saco de lona,

Um pito no canto da boca

E o cachorro Tristão.

Achamos graça do jeito de falar:

Era estrangeiro de lugar estranho.

“Eu me criei em Granadinas, terra cercada de mar”.

Riscou no chão seu lugar: Canouan.

No sarro da nossa gente era:

O capitão que veio de Canoa.

Logo Capitão Canoeiro ficou.

Muita gente sabe das suas histórias

Desde cada serão que contou.



sexta-feira, 11 de setembro de 2020

OURO À VISTA

 

                                                                                                                Meu ipê florido.....(Arquivo JRS)

                O que cobiça esse ser ao afirmar que “é preciso passar a boiada”, destruir a única riqueza verdadeira: a vegetação? Onde vamos parar com tanta destruição ambiental? Como exigir que as populações tradicionais sejam respeitadas, que seus territórios continuem preservados para a vida?

                Somem árvores e rios. Acabam os peixes do mar, dos lagos... As aves migratórias da minha terra desapareceram porque os brejos fartos em nutrientes foram aterrados pela gana imobiliária. Diminui a oferta de alimentos, surgem novas doenças devido ao desequilíbrio notório. Tudo se esvai como água entre os dedos.

                Em cada esquina um monte de tudo batizado de entulho. Plásticos decoram beiras de estradas. Morros são destruídos para o acúmulo de capital apenas de um ou dois seres.

                Qual ser inteligente corroeria os alicerces da casa que o abriga? Qual ser jogaria esgoto na água que precisa para a vida? Onde está a sabedoria em pensar somente no agora como se não fosse existir outras gerações?

                Ao escutar um economista dizer que, no Brasil, chega até 600 (seiscentas) vezes mais que o salário médio dos trabalhadores os salários de diretores de algumas empresas, me pergunto se entre os homens as necessidades biológicas são diferentes. Partindo dessa forma de violência fica fácil entender a razão da violência crescente sob todas as formas na nossa sociedade.

                Durmo e acordo atento e tenso  aos rumos desta terra e desta Terra. Meu espaço está arborizado. Cada planta eu vi desde semente. Agora olho desde as minúsculas suculentas, sempre com folhas rebrotando em novas mudas, até os grandes coqueiros jarobás oferecendo suas floradas às abelhas e seus coquinhos às crianças que, com pedras, quebram seus frutos na calçada, se alimentam deles. Pelos galhos das árvores que cresceram se aninham passarinhos diversos. Cantos e piados são constantes no cotidiano. Assim me equilibro. Assim se equilibram os da minha casa. Talvez os passantes também se aproveitem de nacos do meu prazer, do meu esforço. Pode ser que alguém reflita e passe a cultivar, a cuidar melhor do seu espaço particular para ser um lugar de paz com a natureza. Devemos ser capazes de entender que o todo não existe sem cada um.

               Tem ouro maior que isto?

                Tem sim! Agora contemplo a florada do ipê amarelo. Penso: “Ainda ontem era semente; hoje parece coberto de ouro”.

 

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

E POR FALAR EM LETRAS...

 Arte do Estevan, meu filho (Arquivo JRS)

Arte do Estevan, meu filho (Arquivo JRS)

            Ao relatar que o Antônio de Puruba aprendeu de uma forma bem peculiar (“Pegava um pedaço de jornal e perguntava pra  quem soubesse: Que letra é essa? A pessoa dizia e eu escrevia no chão. Daí em diante escrevi largamente...”), agora digo aqui uma experiência pessoal, o meu princípio de alfabetização: tudo começou no lagamar, na areia molhada da praia. Meu pai, quando íamos cedo na praia esperar os pescadores que vinham de visitar seus tresmalhos, riscava as letras com uma vareta e depois pedia que eu copiasse do jeito que estava. Assim me iniciei nas letras, no caderno bem grande da praia. Primeiro aprendi a escrever o meu nome inteiro. Gostava tanto que, ao ver um espaço limpo, quando voltava para nossa casa, logo pegava um pedaço de carvão para deixar as marcas da minha evolução. Paredes, chapas de madeira, cascas de árvores, pedras... Tudo ganhava rabiscos. Nunca levei bronca por isso.

            A Dona Maria Balio, mulher de muita fibra, dizia que assim que chegou ao Sapê, onde eu nasci, logo se interessou em ensinar às crianças da região. Por volta de 1952 já estava ministrando aulas no Sertão da Quina. Era um trabalho voluntário, gratuito. Além do aprendizado das crianças, também orientava as mães a respeito de cuidados gerais (saúde, higiene, vestimentas etc.), possibilitando aquilo que hoje seria chamado de empoderamento das mulheres. Nenhum papel era desperdiçado quando aparecia. “Eu juntava eles, com a minha máquina de costura, sob a forma de cadernos para usar nas aulas”. Mais tarde, em 1959, ela já estava num novo desafio, na praia Grande do Bonete: “Eu lá ensinava num rancho de canoa, no jundu. As crianças se espalhavam pelas canoas e na areia mesmo. Nem me lembro de quem providenciou lousa e giz. Para os alunos aquilo era um espetáculo maravilhoso. Precisava ver a satisfação deles conforme iam aprendendo! Só quando o tempo virava, com ventania e chuva, é que não tinha como dar aulas, tudo ficava respingado, molhava de verdade. Pouco tempo depois, o Adelino cedeu a sua sala para servir de escola. A casa dele era no canto de lá [esquerdo, depois da barra] da praia. Eu andava tudo isso a pé. Ficava se segunda até sábado cedo com eles. O fim de semana vinha para casa”. (Do Sapê até a Grande do Bonete, gente!).

Outra coisa desta mulher valente: promovia a festa de Natal. Conseguia angariar uns presentes com quem tinha mais dinheiro e distribuía para nos alegrar. Foi vereadora, juntamente com o seu filho Zé do Prado, num tempo em que era apenas um trabalho voluntário, de serviço ao município, sem nenhuma remuneração. Me recordo de um evento religioso no Largo do Sapê, no final de 1968, quando a banda da cidade, entre outras músicas, executou A Banda, de Chico Buarque. A apoteose foi quando um helicóptero sobrevoou o povo caiçara concentrado ali. Todos acenavam com um lenço branco para saudar a imagem de Nossa Senhora que diziam estar nele, nos abençoando. Muita gente chorava, mas eu não entendia a razão.  O que importava para mim era a festa, o povo reunido, o espaço lotado com a nossa gente. Que beleza!





quarta-feira, 9 de setembro de 2020

DESAFIOS DAS LETRAS

Sinéia, professora caiçara boa de prosa (Arquivo JRS)


                Vovó Martinha, nascida na praia do Pulso, se queixava sempre por não ter aprendido a ler. “No meu tempo de criança não havia escola. Bem depois, quando as crianças foram nascendo é que, onde morava o Chico Romão, na boca-da-barra [rio Maranduba], começou a ter ensino. Um professor vinha da cidade [centro] e passava a semana toda, ficava hospedado com uma família dali mesmo”. Mais tarde, quando tinha quase todos os filhos casados, a vovó resolveu frequentar o MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização). Era tempo dos governos militares (1964 a 1985). No serão, com um caderno e um lápis na sacola, ela se dirigia ao miolo do bairro (Sapê), à casa da dona Maria Balio, uma guerreira do nosso povo. Era lá que as aulas aconteciam. Ela aprendeu as letras, soletrava cada uma delas com segurança, mas não alcançou aquele ponto mágico de uni-las e ter o significado completo. Não persistiu, deixou o curso. “Porque eu me cansava demais depois de um dia todo na labuta”. Outro caso para entender os desafios das letras é o depoimento do Antônio Alexandre, da praia do Puruba. Está em Os caiçaras contam:

                “Aprendi a escrever na terra. Tinha 18 anos. Pegava um pedaço de jornal e perguntava pra quem soubesse: Que letra é essa? A pessoa dizia e eu escrevia no chão. Daí em diante escrevi largamente. Escrevi de tudo. Fazia aquela garrancharia e depois arrumava. Rapaz!, o que eu mais gostava de fazer era estudar, mas aqui não tinha escola... Três meses de estudo pra mim teria sido como 200 anos!”.

                Vovó Martinha e Antônio do Puruba: dois saudosos caiçaras apenas para ficar como exemplos. A prosa boa deles me faz falta. Escutei-os bastante, mas gostaria de ter registrado tantas coisas a mais deles... Quantas boas histórias, quantas prosas prazerosas se foram, continuam se apagando, sem se tornarem letras arrumadas, sem se arranjarem em textos para deleites hoje e nas gerações vindouras?

                Para finalizar: Maria Balio era tia do Antônio. Era a "Tia Mariazinha" de quase todos que habitam em torno da capela da praia (Puruba). Nasceu bem ali, na praia da Justa, no norte do município, mas acompanhou o pai, funcionário do telégrafo, ao Sapê, no sul, onde viveu até os últimos dias de vida. Era mulher de encarar enormes desafios e de vencê-los.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

VELHAS ÁRVORES

Tronco da velha jabuticabeira (Arquivo JRS)

Velha jabuticabeira (Arquivo JRS)
            Ao me deparar com uma velha jabuticabeira em minhas andanças, o que mais me impressionou foi o seu tronco cheio de rugas. Fotografei-a pensando na possível idade da árvore: "Seguramente tem mais de cem anos". Me demorei ali apreciando as formas que continuam abrigando os caminhos de sua sustentação, os nutrientes da planta. Imaginei o quanto já produziu, quantas gerações se beneficiaram dos seus frutos. Olhando melhor, me admirei: "Nossa! Ela ainda frutifica!". Seus galhos, de meio para cima estavam cheios de frutas verdes, ainda crescendo. "Dentro de duas semanas, no máximo, estarão maduras".

        Aquela árvore, ali na beira da estrada, me fez recordar das jabuticabeiras do estimado japonês Hiasa, do Perequê-mirim. Na sua área de plantação se encontrava três jabuticabeiras que ficavam carregadas de frutos entre setembro e outubro. Ninguém ousava ir lá para recolher alguma coisa sem que chegasse o dia certo, quando o proprietário convidava todos os moradores do lugar para o ato. Era uma tarde inteira numa grande movimentação. As árvores eram enormes, todas carregadas de uma das frutinhas da nossa infância mais cobiçada. Os troncos e galhos estavam pretos nesse dia, bonitos demais; doces na medida certa. Era um ritual que se repetia a cada ano. Não havia muros, não tinha nenhuma cerca, mas ninguém dali mexia antes do tempo, sem que o senhor Hiasa fizesse o convite. Além do pessoal do bairro, até de outros lugares vinha sempre alguém que já estava acostumado com aquilo. Apesar de estarem em propriedade particular as saudosas jabuticabeiras, seus frutos eram coletivizados. Hoje aquilo tudo foi loteado. Das três árvores, apenas uma avistei em pé uns anos atrás, mas se encontrava maltratada demais. Será que ainda frutifica? Não sei. Mas valeu as imagens para rememorar um procedimento tão significativo daquele homem que veio de um país distante cultivar em chão caiçara. Seu filho, casado com mulher caiçara, certamente nesta época de jabuticabas no pé, deve se relembrar do velho pai e contar aos filhos e netos o quanto bonito era aquilo: um exemplo para  compartilhar na luta contra a riqueza concentrada.


segunda-feira, 7 de setembro de 2020

SOPA D’ÁGUA

Pesca de cerco (Arquivo Chieus)


                A farinha de mandioca, o peixe e a banana constituíam a nossa garantia alimentar número 1, que nunca podia faltar nas casas dos caiçaras. Meus avós nunca deixavam de almoçar e jantar uma boa porção de escaldado (pirão) que geralmente era de peixe, mas podia ser de alguma criação do quintal ou até mesmo de carne de caça. Arroz, para esses mais antigos, era pouco usado, quando muito enfeitando borda do prato.

                Farinha era fartura mesmo! No começo da segunda metade do ano, as plantações eram feitas. Imediatamente as ramas brotavam e cresciam sempre vigiadas devido aos ataques das saúvas. Uma safra sucedia a outra; toda semana tinha alguém fazendo farinha nos arredores para consumo e venda nas mercearias do centro da cidade. Peixe era guardado: quando seco em balaios, quando sapresado em gamelas. Naquele tempo não tínhamos energia elétrica e nem geladeira. Desse modo, era esse o procedimento para se garantir entre as pescarias, além de poder variar os modos de preparo do peixe nosso de cada dia.

                Peixe sapreso é peixe deixado na salmoura, em gamela de madeira, para ser comido em ocasião futura, em receita especial. No caso, a sopa d’água. Papai e mamãe faziam de vez em quando e comiam com um misto de prazer e saudade. Meus avós se alimentavam mais regularmente de sopa d’água. Se não me falha a memória, era simples assim: cozinhava aquele peixe salgado após lavar em água fria. A farinha de mandioca simplesmente era despejada em um prato com água fria. Quem gostava de pimenta, amassava-as no prato. Depois era só comer aquela sopa acompanhada do peixe que estava pronto no caldeirão. Mas de onde veio este hábito que hoje nem quase se fala mais? Achei a possível resposta para a origem da sopa d’água no tempo do tráfico negreiro. Os africanos trazidos pelos portugueses eram melhor tratados na travessia. Eles visavam os lucros com escravos sadios. Laurentino Gomes registrou assim:

                “Cuidam e alimentam melhor, o que lhes permite obter lucro duas vezes maior na hora da venda dos cativos. Eles lavam o deque do navio todos os dias com vinagre ruim. Preparam alimentos quentes duas vezes ao dia para os cativos: o primeiro com feijões africanos, a segunda com milho bem cozido acrescido com uma grande concha de óleo de palma [dendê], tudo misturado com um pouco de sal e, às vezes, um bom pedaço de peixe salgado em cada prato. Durante o dia sempre há um pouco de farinha com água [...], além de oferecer duas ou três peças de tecido velho para que se protejam [do frio noturno]”.

                      Então, relembrando dos meus pais e avós, deduzo agora: a nossa raiz proveniente da África, necessitava relembrar daqueles momentos de sofrimento do tempo da escravidão. A sopa d'água entrava como componente de um ritual.

domingo, 6 de setembro de 2020

CANTO DO CAMBIÁ

Concha de cambiá (Arquivo JRS)

Canoa Cambiá (Xilogravura - Arquivo JRS)

             
          Eu sigo escrevendo e me alegrando com os amigos produzindo suas páginas a nos permitirem viajar, sonhar, alegrar e admirar pelas suas memórias e imaginações. Jorge Ivam ontem me avisou do lançamento de seu mais recente livro - Ser silvestre. Estou ansioso para ler mais uma joia pura desse talentoso professor que escolheu Ubatuba para criar a família. Viva a Bahia de Todos os Santos e  de tanta gente talentosa! Ao meu amigo sempre bem inspirado: parabéns!

                Interessante as forças da fantasia e da memória; parece que uma vive emprestando palavras à outra constantemente. Falando e registrando tudo vamos passando culturas, histórias e sentimentos. Agora, em tempo de reclusão devido à pandemia, nossas prosas vestem novas roupagens. Viva todo mundo que segue deixando suas marcas pelos textos e pelas imagens!

                O que escrevo agora está relacionado a um molusco: o cambiá. É um molusco muito apreciado na cultura caiçara, mas tem gerações mais novas que não sei dizer se conhecem esse ingrediente da nossa culinária. Mamãe nos preparava fartas porções de cambiás na quentura branda da lenha. Geralmente eles aparecem na praia em maré vazante ou após uma forte ressaca, quando não resistem às correntezas insistindo em rolá-los até o lagamar. O amigo Rogério Estevenel, caiçara da praia das Toninhas, escreveu que lá aparecia muito mesmo. Que bom! Os cambiás, para o meu povo, fazem parte das tantas dádivas do mar.

                Cambiá também é o canto direito da praia da Fortaleza, chão do meu lado materno, onde passei parte da minha infância. Lá, na Costeira do Cambiá, ficava o Buraco da Cobra. (Precisa recordar? Busca no índice do coisasdecaicara.blogspot.com O buraco da cobra, publicado em 08/03/2011). Também no Canto do Cambiá morava o Tio Onofre. Então, Canto do Tio Onofre era o jundu e Canto do Cambiá era o extremo da praia, na costeira. Foi na sua sala, segundo a sua filha Maria Mesquita, nossa querida titia, que funcionou a primeiro espaço de aula daquele lugar. “Papai cedeu parte da nossa pobre casa para as crianças aprenderem. A professora vinha da cidade e ficava morando com a gente, lá em casa mesmo. Era na nossa sala que ela ensinava”. Mais tarde a propriedade foi vendida para um turista, mudando o modo de chamar para Canto do Pierre. Eu me lembro bem de uns gansos bravos dele que sempre cismavam em correr atrás de nós na praia. Ai que raiva!

Acabou a escola, não teve mais aula? Não! A tia Martinha em seguida cedeu a sua casa no pé do morro, próximo da casa do vovô Armiro para a criançada continuar aprendendo. Foi ali a minha primeira experiência escolar. Bem cedo eu e minha irmã descíamos da nossa casa no morro molhando as canelas no orvalho do capim para aprender a escrever, ler e fazer contas, começo desta epopeia que eu seguirei até a morte, quando a gente deixa de aprender. Só em meados da década de 1970 a prefeitura construiu um prédio, para ser, de fato, a escola do bairro, no local onde ficava o Bananal do Sul, ponto do começo da subida do caminho em direção à a praia Grande do Bonete, nas posses da vovó Eugênia, herança do finado João Bento. Até hoje funciona lá a escola e o posto de saúde.





sábado, 5 de setembro de 2020

HORA DE CAÇOAR

Meus tios e uma caçoa pequena (Arquivo Tio Salvador)


                Eu conheci o Bito Mesquita, irmão do Porphírio, quando era bem velho, mas desconfio que há muito tempo ele era conhecido como Velho Mesquita. A  sua moradia era no canto da Lagoinha, no começo do morro, na beira do caminho que vai para as bandas do Bonete. Atualmente, tenho quase certeza de que só a costeira não se modificou naquele lugar. As casas pobres e os roçados dali já se foram há muito tempo. Agora, só casarões vigiam desconfiados os transeuntes, com seus muros empurrando o antigo caminho de servidão. Um pouco mais para frente, depois da prainha do Oeste, morava o Tio Zaca, o seu parceiro de prosa e pesca. Uma das prainhas agora lhe homenageia: Prainha do Zaca.

                O meu ofício não é escrever histórias, mas sempre dou um jeito de registrar alguma coisa. Agora mesmo estava me recordando de uma tarde ali na prainha. Para uma plateia só de caiçaras (Eu, Tobias, Júlio, João, Zé Roseno e Angelino), Tio Zaca contou:

              “O Mesquita, se pudesse, não deixava o mar. Nunca se viu alguém na vida gostar tanto de canoa. No tempo de caçoa então, ai ai ai... Nem a cantoria dos galos tinham parado ainda de chamar o dia, ele já chegava no rancho, que era neste lugar mesmo, onde tem a figueira. Dava só um grito: ‘Hora de caçoar, Zaca’. Eu que nunca gostei de deixar ninguém esperando, vinha logo de casa e embarcava com ele mar afora. Bom pescador e parceiro sem igual era aquele homem. Nunca vi igual! Parecia que ele enxergava os cardumes dentro d’água. Caçoa, então, ele farejava de longe. Eu brincava que na outra vida ele tinha sido cachorro.‘Tais sentindo, Zaca, o cheiro de melancia? Elas acabaram de arrotar aqui perto, vamos arriando as linhadas. É pena que só damos conta de duas!’. E não era que ele estava certo? Não demorava nada a gente já estava de volta, rolando a canoa no jundu e começando a consertar as bitelas ali no rio”.

                Pescaria de caçoa tinha disso. Dificilmente os antigos caiçaras puxavam mais do que duas devido ao tamanho e peso (quase sempre entre 80 e 100 kg). O tempo delas, depois de agosto, desesperava todo mundo. É que o óleo, extraído de seus fígados, era muito cobiçado. Os mestres dos barcos que faziam a navegação de cabotagem compravam tudo que houvesse e levavam para Santos para revender.

                Ao dizer a palavra caçoar hoje, faz lembrar de gozação, de rir de alguém. Em outros tempos, caçoar era se aventurar pelo mar com as narinas abertas a fim de sentir o cheiro dos arrotos das caçoas e lançar os anzóis para capturar as grandes, medonhas, mas mansas criaturas que possibilitavam uma renda a mais na economia dos pobres moradores desta Ubatuba, um pedaço de litoral brasileiro.