segunda-feira, 30 de abril de 2012

INSATISFAÇÃO MORAL (II)

O que acontece se eu resolver dar um fim na minha plantação que oferece gostosas sombras aos transeuntes? Saiba que, na prefeitura de Uberlândia (MG), o proprietário deve ter ao menos uma árvore na calçada para requerer a documentação definitiva da moradia.

                Na primeira parte eu frisei a mobilização que forçou o Executivo municipal a “fazer um remendo” na besteira que fez (corte de árvores históricas) há alguns anos. Creio que consegui explicar a razão do protesto. Afinal, qual razão para entrar na contramão da arborização em nossos bairros e cidades?
                É possível  avançar muito mais em questões simples, que desembocam numa virtude máxima, na  preservação da vida. Basta se engajar nas investigações e aperfeiçoar aquilo que os gregos já definiram  como cidadania. Neste ponto é que entra a função filosófica de intervir na realidade para imprimir a função pré-objetiva. Explico: talvez sejam poucas as pessoas, mesmo dentre aquelas que se indignaram com a ação daquele fatídico dia, que assimilaram o exercício da cidadania realizado. Muitos escutam sempre essa palavra (cidadania), sobretudo dos políticos em épocas de eleição e em inaugurações, mas poucos realmente a compreendem. Assim, o ato daquele operário (de esburacar a calçada), além de evidenciar o desperdício de dinheiro público, enfoca o governo revendo uma posição que causou descontentamento público. O que é isso?
                Isso é força da mobilização! É insatisfação moral fornecendo novos conceitos no esforço para tornar a vida melhor! O que resta? Muita coisa!
                É preciso continuar refletindo após cada ação; se perguntar: 1- Atitudes revisionistas dos politiqueiros estão revelando o grau de consciência ecológica dos mesmos ou são pré-visões de uma época eleitoral? 2- O dinheiro público, que nos custa quase meio ano de trabalho para cobrir os impostos, deve servir para promover autoridades, recompensá-los com salários exorbitantes ou deve ser revertido totalmente em serviços para a comunidade? 3- Quais os outros próximos passos para continuar exercitando a nossa cidadania?
                 Agora, caiçaras, turistas, mineiros e todos os ubatubenses não  devem perder as mínimas oportunidades para demonstrações de insatisfação moral. Afinal, só assim podemos dar novos rumos ao nosso ambiente.

domingo, 29 de abril de 2012

OPÇÕES DA TERRA




                Ontem, conforme uma combinação, eu fui com o Júlio visitar o primo Elias, o tocador retraído. A intenção era conversar um pouco e escutar uns ponteados de cavaquinho e viola, além de uns lamentos de rabeca. E os dois, mesmo sem ensaio, não fizeram feio. Há tempo a vizinhança não testemunhava sons de saudade. É bom lembrar que, na Rua dos Coelhos, temos parentes do Corcovado, da Fortaleza e de mais lugares.
               A ideia foi minha porque, em outra ocasião, o Elias, ao ouvir falar sobre o Júlio, relembrou dos tempos do programa Ranchinho Caiçara, do tempo do Tony Luís, do João de Sousa, da dona Nena, do João Barreto, da Néia e demais caiçaras que, semanalmente, nos davam um banho de cultura através da emissora Costa Azul. A mamãe chamava aquilo de “uma montoeira de bobajada, de causos pra se rir”.
                De acordo com o Elias, existia uma paixão pela linha cultural, pelas pessoas simples que participavam:  “Eu nunca perdia um programa no sábado à tarde. O rádio ficava ligado em cima da mesa. A minha finada mãe também escutava com muita atenção tudo o que aquele pessoal falava. A gente dava muita risada porque entendia tudo. É pena que não tenha mais. Faz falta!”. Nisso eu me lembrei da tia Maria Estefânia, a mãe do retraído; do tempo em que fomos vizinhos, no morro da Fortaleza. Logo cedo, ao passar pelo terreiro da sua casa, ela, sem sair da cozinha dizia: “Vá dar uma volta na praia, Zezinho. As ondas estão altas, atirando limo na praia. Repare nos caminhos da areia; olhe para o Canto do Recife, depois para o Cambiá. Uma sombra neste lado só pode ser o Genésio. Do outro é o Joaquim, meu irmão”. De vez em quando ela variava as “orientações”; quase sempre acertava. Não sei como conseguia isso.
                Parece que algo mais pode ressurgir dos nossos artistas. O Júlio aventou a possibilidade de agregar o João Barreto (para quem não sabe, este tem uma linda voz, é compositor e ótimo pandeirista). Quem sabe possamos revisitar toadas diferentes e reviver momentos de fraternidade. São opções para juntar os filhos da terra.

sábado, 28 de abril de 2012

ELA HABITOU ENTRE NÓS




Sílvia, a jovem francesa em terras do Ubatumirim.
           

            Ontem, dia 27 de abril, aos 90 anos, a dona Sílvia Polacco Patural nos deixou após ter vivido um belo exemplo de cidadania. Quem não a conheceu, recomendo que leia o que eu pude registrar dessa mulher lutadora e corajosa (coisasdecaicara.blogspot.com – postagem em junho/2011).
             Eis um pequeno fragmento de sua fala. Ainda bem que eu tive essa oportunidade!

            “No ano de 1954,osse capaz de "m,  duas e a netinha Renata), agem do casal.  o qu nós partimos à procura de um lugar que, além de agradável, fosse capaz de oferecer as condições propícias de cultivo e de instalações. Meu marido era um empreendedor. O lado sul do município logo ficou fora de cogitação. Motivo: a abertura da rodovia Ubatuba-Caraguatatuba estava sendo concluída, fazendo com que os preços das terras daquele lado encarecessem muito. Então nos falaram do lado norte, das vastas áreas e de outras vantagens.

            Num final de semana, após deixarmos a Patrícia com alguém de muita confiança em Taubaté, começamos a nossa aventura para o lado norte do município. Por volta do meio-dia deixamos a cidade, seguindo sempre a pé.  Passamos o Perequê-açu, o Saco da Mãe Maria, a praia Vermelha com suas areias grossas, a praia do Alto - que até hoje é muito bonita -, a praia de Itamambuca. Imagine tudo isso a pé e com muito calor! Depois chegamos ao morrão da praia do Félix e, finalmente, paramos ao escurecer, na praia do Léo - aquela que, desde 1991, devido a um desabamento da estrada após forte chuva, está soterrada numa boa parte, se transformou em duas.

            Na praia do Léo batemos palmas numa casa e perguntamos se havia ali por perto alguma pousada ou coisa do gênero. Imagine só!!! Isso era comum na Europa. Disseram que não. O que puderam nos oferecer foi um pouso, numa cama simples com esteira de taboa. Foram muito gentis conosco.  No dia seguinte, já sabendo dos nossos motivos, disseram que para os lados do Ubatumirim e do Puruba é que tinha boas terras. E era mesmo! Pura verdade!

            No rio Puruba nós paramos e esperamos um bom tempo até que o balseiro aparecesse. Parece que ele estava almoçando, depois deve ter dormido um pouquinho. Nem me lembro mais direito deste detalhe. Só sei que ele apareceu e, assim alcançamos a praia da Justa. Finalmente, depois de um pequeno morro, estávamos no Ubatumirim.

            De fato as terras do Ubatumirim, sobretudo as da Sesmaria, nos agradaram muito. Aí fomos acolhidos na casa da família do Manoel Leopoldo. Para a dormida nos dispuseram uma sala com esteiras e penico, onde havia um montão de sapê secando. Era um calorão de janeiro; baratas passeavam por todos os lados. Ao abrirmos a porta para a entrada de frescor, também entraram os cachorros. Mesmo assim, nós, de tão cansados, desmaiamos.

            No dia seguinte fomos conhecer a Sesmaria, dos Nunes Pereira. Gostamos muito. Ainda bem que a volta para a cidade foi de canoa”.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

INSATISFAÇÃO MORAL (I)

Tudo é interdependente: não importa que sejam minúsculos cogumelos ou frondosas árvores.                                                                                                                   (Arquivo Henrique) 

                Não muito antigamente se dizia que “sete é conta de mentiroso”. Partindo deste dizer e inspirado em reminiscências eu escrevi um outro texto denominado Éramos sete, cuja intenção foi acrescentar a minha contribuição aos outros protestos contra o ato da prefeitura, há alguns anos  - mas do atual gestor (Eduardo César) – quando foram arrancados os pés de cravos-da-Índia da rua da Cascata, no bairro do Ipiranguinha, defronte à nova escola municipal Mário Covas. No lugar das plantas de mais de quarenta anos, fizeram uma moderna calçada, com guias para estacionamento.
                Com tal descabido ato, foi instaurada uma incoerência medonha, conforme o desabafo de um pai de aluno desse bairro tão populoso: “Como ensinar a importância da preservação e da recuperação ambiental em uma escola que começa com esse histórico?”.
                A verdade é que, naquele dia, foram arrancadas mais de sete árvores que estavam ali há décadas, desde quando o empreendedor Moravek apostou numa fábrica de doces no terreno. Essa tal verdade ainda está para completar. Ainda bem!!!
               Alguns dias depois, debaixo de uma garoa fria, encontrei um operário debruçado sobre a linda calçada com marreta e talhadeira. O que me disse foi aproximadamente isto: “Não entendo esse pessoal que manda fazer e desfazer! Só sei que tenho de fazer esses buracos hoje, pois na segunda-feira a prefeitura vem plantar outras árvores aqui. Espero que a chuva não me atrapalhe”.
                Muito bem! Só que a intenção do texto não é redimir a prefeitura dos descasos, da falta de bom senso. O que eu pretendo é ressaltar o poder mobilizador em tempo que, dizem muitos: “Isso é bobagem, coisa de quem não tem o que fazer”. Foram as denúncias, as fotos publicadas no jornal  A Semana e os comentários que se multiplicaram que forçou a reação da administração pública. Porém, tenho a certeza que nunca mais teremos a belas sombras e as cheirosas folhas das árvores descendentes daquelas trazidas das distantes terras das Índias pelos navegadores portugueses.

terça-feira, 24 de abril de 2012

LENTIDÃO



 Tenho o prazer de repassar aos leitores do blog uma apreciação cultural do Eduardo de Souza publicado pel'O Guaruçá.

Lentidão. Esta palavra me ocorreu ao ler o texto Retrato de família, do José Ronaldo dos Santos. O Zé nos fala dessas duas culturas que correm (corriam?) como dois rios distintos e lentos, mas que brotaram da mesma nascente: a religião católica apostólica romana. O caipira é o caiçara sem o mar. O Zé tem uma caudalosa memória. Muitas histórias para nos contar. É perspicaz em retratar a essência da nossa gente.
Ter histórias para contar e a palavra lentidão me levaram ao romancista tcheco Milan Kundera que diz que o grau de lentidão é diretamente proporcional à intensidade da memória, e que o grau de velocidade é diretamente proporcional à intensidade do esquecimento. Diz ainda, no livro A Lentidão, que quando as coisas acontecem rápido demais, ninguém pode ter certeza de nada, de coisa nenhuma, nem de si mesmo, e que nossa época se entrega ao demônio da velocidade e é por essa razão que se esquece tão facilmente de si mesma.
A lentidão tem um vínculo com a memória. Nos meus tempos de criança a vida não tinha a velocidade dos tempos atuais. Por isso, eu e os de minha geração temos tantas lembranças. A vida não tinha pressa. Tivemos tempo de armazenar saudades, de gravar indelevelmente nas nossas almas o modo de ser caiçara-caipira.
Lembranças dos tempos em que as distâncias eram percorridas a pé, a cavalo, a canoa ou a barco. E quem caminha ou percorre as distâncias nesses meios vagarosos de locomoção, tendo alguma companhia, tem tempo de prosear despreocupadamente, de conhecer melhor o companheiro e, estando só, proseia com Deus e aprecia a paisagem criada por Ele.
Se hoje, ao passar por algum lugar na hora do almoço e sentir, vindo de alguma casa, o cheiro do alho e da cebola dourando numa panela para temperar o feijão, transporto-me subitamente à cozinha de minha avó Maria, à beira do fogão a lenha, onde quase sempre a encontrava. Cozinhar à lenha exigia todo um ritual, só possível naqueles tempos sem sofreguidões. Naqueles tempos havia tempo para ser avó, mãe, tia e educar os filhos, netos, sobrinhos e afilhados. E havia tempo para cantar e ouvir histórias. E a leitura do tempo era feita pelo caminhar lento do sol ou pelas badaladas compassadas do sino da igreja. O sino do Ângelus, o cair da noite... O galo no terreiro, o amanhecer do dia. Tempo não era dinheiro. O tempo se contava por eventos. Talvez por isso o passado fosse tão presente às pessoas, e o futuro... Bem, o futuro a Deus pertencia.
A velocidade não permite contemplações, armazenar lembranças nos escaninhos da alma. Naqueles tempos, a vida ainda não fora reduzida ao político e ao econômico e a essas ansiedades que nos fazem devorar delirantemente o tempo, com tanta pressa, com tantas ocupações: o corpo perfeito e admirável, a saúde perfeita, as diversões, os modismos, as novidades. Talvez tudo isso seja uma maneira de não ver que não passamos de andarilhos neste vale de lágrimas e que tudo tem seu próprio tempo.

Nota do Editor: Eduardo Antonio de Souza Netto é caiçara, 58, prosador (nas horas vácuas) de Ubatuba, para Ubatuba e urbi et orbi

segunda-feira, 23 de abril de 2012

OLHA O MERO!



 

        Imagine a festa do grupo de caiçaras que, na década de 1970, em Caraguatatuba, pescou um mero desse tamanho! Outro grupo (2ª foto) que se orgulhou do tubarão martelo, da mesma época, é da Trindade.
        Eu vi um outro ser marinho maior que esses das fotos: foi uma caçoa pesando 120 quilos que se enrolou no tresmalho do tio Salvador há menos de 20 anos. A propósito: o tio, na semana passada, passou por uma cirurgia no coração. Agora tem uma ponte (de safena). Estamos torcendo pela sua recuperação.
        Outros casos de seres marinhos medonhos: a caranha do Mané Hilário, a jamanta do papai, o peixe-lua do Bráulio, a arraia do tio Dito, a tartaruga do tio Nelson e o mero do pai da Odócia.

domingo, 22 de abril de 2012

NÃO ERA PROCISSÃO!


       Hoje resolvemos pescar lula. Dois pontos, nesses dias, estão coalhados de embarcações: próximo da Ilha Rapada e por fora da Ilha Anchieta. Todos ficam loucos pelo fabuloso ser que vem das profundezas. Quem não gosta de lula frita, moquecada, à vinagrete etc.?
       Deixamos o porto do Perequê-mirim às 8 horas da manhã. Alguns deixavam a praia, mas muitos já estavam fundeados, subindo e descendo a linhada em alto mar. Fomos parando e largando as linhadas. Não demorou nada para pescarmos quase 20 quilos. Todos estavam contentes, conversando muito. Lá encontramos caiçaras das Sete Fontes, do Perequê-mirim, da Enseada, do Flamengo e de tantos outros lugares. Muitos amigos!
       Por volta das 12 horas já estávamos voltando. Afinal, já tínhamos o suficiente para uma semana de lula.
       Ah! Ia esquecendo de comentar uma coisa: tinha mais embarcação naquele ponto do mar do que na procissão de São Pedro Pescador. É mole?

sábado, 21 de abril de 2012

UM GRUPO DE CANTORIAS

                                                             Henrique Ferreira -2012


         Hoje, visitando o primo Elias, lembramos muitos momentos bons de nossas vidas. Os melhores estão envolvidos com as cantorias que fazíamos nas areias da praia da Fortaleza. Geralmente eram encontros à noite, após o jantar. Também tinha o Tempo de Reisado, onde a mesma turminha (Fernando, Jovane, Eliseu, Jorginho, tio João, Admilson, João Grilo, Amélia, Lucilena, Glorinha e mais gente) marcava presença, amanhecia cantando de casa em casa.
         A nossa conversa passou ainda pelos roçados, pelas pescarias e pelas rodas de causos que tantas saudades plantaram. Lógico que não podia faltar os acordes do Elias na viola caipira; nem o choro da rabeca, herança do tio Dário Barreto.
         A foto acima é de autoria do jovem Henrique Ferreira. Foram feitas a partir dos "barrancos" na praia da Fortaleza. Ficou uma beleza!

sexta-feira, 20 de abril de 2012

SOLIDARIEDADE NO ABORRECIMENTO HUMANO


Embarreamento de casa no Ubatumirim - Arquivo Olympio Mendonça

Saco das Bananas - Uma roda de capoeira depois de um pitirão

                O título eu peguei de Machado de Assis; está em Memórias Póstumas de Brás Cubas. O assunto é meu. O tema pertence a todo mundo. Afinal, quem nunca teve no dia a dia um aborrecimento humano? Solidariedade é o mínimo que posso oferecer às pessoas! (É  mínimo?).
                Solidariedade muitas vezes é entendida como sofrer junto. Outra vertente é de lutar ao lado dos injustiçados, visando a construção de um mundo mais justo. Eu prefiro entender esse conceito como convivência verdadeira.
               Tenho na lembrança os “pequenos” gestos de solidariedade, de proximidade autêntica nas pobres comunidades caiçaras. Sempre faço questão de descrever, de retransmitir alguns deles:
                1- Os pitirões (mutirões) eram frequentes em qualquer época para embarrear casa, ajudar na tiguera, cuidar das redes de pescar, puxar canoa do morro, envaretar parede, fazer cobertura de casa, armar rancho no jundu, arrancar sapê para cobertura, escalar e salgar peixe, cortar estrada, fazer aceiro etc.
                2- Muitas farinhadas eram feitas às meias. Quero dizer: alguém que não tinha viamento (os aparelhos/apetrechos para produzir a farinha de mandioca), ou não tinha mandiocal, ou tinha os dois, mas não tinha tempo, oferecia a proposta de produção e partilha ao meio do resultado final. Exemplo: caso a farinhada tivesse rendido quatro sacos, dois ficava para o dono do viamento e os outros dois era para quem tinha usado o mesmo. Vi muito isso!
                3- O meu irmão Domingos, assim que aprendeu a falar e a andar bem, se deslocava com um samburá até a casa da Livina, nossa vizinha mais querida do Sapê, para pedir ovo quando esse produto faltava em casa. Até os seus últimos dias, a companheira do finado Leôncio, depois do tio Ezídio, repetia ao enxergar o Mingo: “A mamãe mandou pedir um ovo emprestado”.
                4- Difícil de esquecer também era a época de preparar a terra para novos roçados. Famílias inteiras se deslocavam para o trabalho, levavam seus filhos, mesmo a “miuçalha”, porque assim recebiam os cuidados e iam crescendo em nossos traços culturais.
                Hoje, o mais comum é desabafar e escutar os desabafos porque existe uma engrenagem globalizante, disposta a moer todas as particularidades culturais: as verdadeiras riquezas dos seres humanos.
                Enfim, partilhar das angústias é o que chamo de solidariedade no aborrecimento humano.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

DONA MARTINHA - A PARTEIRA

Esta é a visão da praia Grande do Bonete, a partir de onde morava a dona Maria "Bidu"
                Vou deixar que a dona Maria “Bidu” fale da vovó Martinha, uma mulher “que trouxe tantas crianças ao mundo”, conforme muita gente antiga repetia.
                “Sacrifiço é comum. Tem gente que diz que é bobage. Mais é, sabe quando? Os mais velho tem o dito que no tempo d’ante é que era pió. Não sei não; tenho minha dúvida. É que hoje tem tanta dificurdade!
                Notro dia, bem tarde da noite; numa noite feia, com um ‘cu preto’ pro lado da Bocanha, veio arguém atrais de socorro. Se tratava da comadre Ditanha em dor de ganhá criança. A partêra mais perto era mais de milha, na preia do Sapê.
                Se podia í de canoa, mais o tempo não tava de confiança. Vai que acontece coisa pió, que o ‘remendo fique pió que o rasgado’. Já pensô? Então fui andando mesmo, pelo caminho escuro, proveitando o brilho de curisco que caía a todo instante. Era sorte não tá chovendo ainda. Prevenido que sô, garrei um fifó pra mode cendê no lugá que o mato fechava muito, nem dexava entrá toda luz de trovão.
                Adespois de muita topada e escorregão, cheguei na casa da partêra, a dona Martinha, do Estêvo. A cachorrada –dois ou trêis, acho eu – me cercaro. A chuva grossa veio; uma aguadilha só. Inda bem que a porta se abriu.
                Quem me arrecebeu foi o marido. Não se assustô; já era costumado contecê direto isso (de percisão, da mulhé tê de acudi no meio da noite). Depressinha contei tudo. Sua mulhé já tava de pé, recolhendo arguma coisa que podia percisá. Até uma garrafada vi pegá. E lá fomo nóis rompendo aquele mundo de água,  com trovão se arrebentando em cima da cabeça encharcada.
                A vorta até que pareceu mais curta. Chegamo não fartando muita hora pro raiá do dia. De uma lonjura, mesmo com aquele chuvisquêro, avistamo  lamparina acesa na casa do compadre Salustiano. O hómi tava pra Santos, trabalhando no bananá. Fartava notíça fresca dele. Em casa só ficô a mãe c’oas criança. Inda bem que tudo em vorta é como uma só familha! Ninguém que carecesse de quarquer coisa ficava à míngua, precisando de ajutório. Do tempo que me entendo por gente, tudo era repartido na pobreza.
                Desse modo nasceu o Nastaço e tantos’outro que nem egiste no presente. São defunto no Morro do Cruzêro”.

                E assim mais um serão se ia! Foi onde aprendi tanto dos meus antigos.

                 

terça-feira, 17 de abril de 2012

LÁ VEM A BANDEIRA DO DIVINO

(Arquivo Kilza Setti- 1978)

                Antigamente, nesta época do ano, quando a religiosidade popular era fortíssima e não havia outras religiões concorrendo com a católica, era um tempo especial no calendário litúrgico: todos aguardavam a festa de Pentecostes, da manifestação do Espírito Santo (ou espírito divino). Coincidia com o tempo das tainhas, de uma fartura que encantava os pescadores.
                A Folia do Divino corria de Norte a Sul, não esquecendo de nenhum sertão. Os violeiros, rabequistas, tocadores de tambor, versistas e outros eram fundamentais nas cantorias pelas casas e capelas. Tudo confluía para a grande festa que deveria se promovida pelo festeiro na Igreja Matriz, no centro da cidade.
                O símbolo, além do rufar do tambor que se escutava ao longe, era a Bandeira. Nela as pessoas prendiam imagens, promessas e outras coisas. As fitas eram beijadas tanto como a pombinha que representava o Espírito de Deus (enviado a Terra após a ida de Jesus para junto do Pai). Depois do cumprimento do ritual completo, antes de entrar na parte profana (xiba, ciranda e outras danças), a Bandeira era guardada num cômodo especial. Ela não podia presenciar a diversão dos caiçaras.
                Pedro Brandão, Santinho, Zacarias, Maneco Armiro, Orlando, Otávio, Sebastiana e tantos outros ficaram em nossas memórias, deram as suas contribuições nas devoções e nas diversões.
                E os versistas, então? O Macuco, do Perequê-açu, ainda hoje é um dos mais lembrados. É dele que contam o seguinte: numa ocasião, ao chegar na casa de um devoto, deveria incluir o agradecimento ao Divino pela recuperação de um dos filhos. O acidente foi feio: caiu de uma árvore e se estrepou por baixo, rente à coxa e virilha. Horrível, né?      Curou-se por milagre. Deste modo saiu o verso correspondente:
                “Cumprindo vossa promessa,
                  Conforme vós prometestes:
                  Com um palmo de pau por baixo,
                  Não sei como não morrestes”.
          
             Pronto! A promessa foi paga ao Divino!
             Coisa impressionante é a fé dos mais humildes!

segunda-feira, 16 de abril de 2012

ADEUS IRMÃS DA CRECHE

        
                Em 1982 fui chamado pelo frei Pio para realizar uma reforma na edícula e no salão da ASEL (Ação Social Estrela do Litoral), na avenida Vasco da Gama, na Estufa (I). Havia pressa, pois algumas irmãs estavam prestes a chegar para desenvolver um trabalho assistencial com as crianças carentes do bairro. Era mais uma estratégia missionária do frei italiano que deixou a sua terra e neste município jaz.
                De fato, no local onde funcionava antes um programa denominado PLIMEC, logo chegaram as freiras (Franciscanas Missionárias de Assis) Flávia, Maria e Leninha. Nascia a Creche Francisquinho. Lá se vão 30 anos. E muitas outras religiosas passaram por lá.
                Quantas crianças não cresceram apoiadas pelas irmãs franciscanas e funcionárias?! Algumas eram dali de perto; outras vinham trazidas de longe. Não sei quantas dessas famílias souberam agradecer às freiras pela assistência dada.
                Paralelamente, nas comunidades da Estufa I e II e da Sesmaria, as freiras também agiam pastoralmente. Afinal, eram missionárias!
                No último domingo, dia 15 de abril, elas se despediram da nossa cidade, da comunidade católica da região da Estufa. Os fiéis sentiram muito, mas a missão delas aqui chegou ao fim. Quem aprendeu com elas também as manterá na memória, terá saudades de suas ações e reflexões. Quem não aprendeu, nem ao menos agradecerá pelos cuidados despendidos às nossas crianças. Agora, conforme o irônico Chico Lopes, "tudo ficará por conta do poder público municipal, sob os cuidados de profissionais contratados mediante concurso público. Você vai ver que maravilha!"
                Como despedida, fui fazer umas fotografias, principalmente de um trenzinho que, desde 1986, eu construí no parquinho das crianças. Só não tive coragem de dar um último abraço nas queridas irmãs.

domingo, 15 de abril de 2012

O TÍTULO DE PESCADOR FICOU EM “CACO”


                 Já faz alguns anos que resolvi, num dia nublado de outono, rever a praia da Sununga, onde está a Gruta que Chora. Outras poucas pessoas tiveram a mesma vontade (de apreciar a natureza daquele lugar especial).
                Assim que cheguei, me dirigi ao canto direito, onde está a Pedra do Tonico, um pesqueiro dos caiçaras do entorno. Foi ali que, há mais de três décadas, a Tereza Barreto quase morreu depois de uma “lambida de onda”, quando se esfolou toda nas cracas e pindás. O meu interesse nesse  lado se explica pela existência de uma moita de manacaru sempre a oferecer maravilhosos frutos nessa época. Você já comeu manacaru?
                De longe, depois de comer alguns frutos, avistei uma figura conhecida entrando no mar sempre revoltoso. Era o Marco Antonio, do Perequê-mirim, cunhado do Ditinho, de quem eu escutei tantas histórias entre uns goles e outros. De repente ele fixou a atenção num ponto além da arrebentação das ondas, mas despistando para que outras pessoas não desconfiassem de nada.
                De longe era difícil definir o que era, mas a curiosidade fala mais alto sempre. Chegando mais perto, deu para perceber a coisa: uma senhora garoupa tonteava, não conseguia submergir. Deu desespero no Marco: ele tentava, o peixe escorregava e afundava por momentos. Depois aparecia de novo na superfície; novas tentativas e nada. A gula de uma garoupada deixava o amigo mais desesperado. Ah, se tivesse alguma coisa para envolver o peixe escorregadio! Foi quando teve a ideia: uma canga viria a calhar. Gritou para alguém trazer. Logo ele já estava com a grande esperança. E deu certo! O pano leve serviu como rede para o peixe que pesou 15 quilos. Foi uma festa! Dez pessoas naquele dia se empanturraram com tamanha dádiva do mar! Mais tarde soubemos que o fato da garoupa boiar tem uma explicação: quando ela engorda demais, corre o risco de ter uma anomalia no fígado que causa a flutuação do corpo.
                Depois do banquete regado a cerveja e caipirinha, o jeito foi “se apinchá para mode puxá uma pestana”. Enfim, o título d'O Pescador ficou em “Caco”.

sábado, 14 de abril de 2012

PROCURANDO "JESUS" (III)


                O que eu pretendi a partir do texto em três partes foi sensibilizar mais gente para uma causa que deveria ser de todos: manter as nossas riquezas culturais e naturais.

                Tem gente trabalhando pela preservação do planeta, preocupados com as “pegadas” ecológicas (repensar o consumismo, as origens dos produtos que nos são necessários etc.), com sustentabilidade e outros termos afins que deverão voltar a fazer parte do próximo evento mundial (RIO +20) sobre questões ambientais. Porém, é preciso “alimentar” tais pessoas, senão... não é todo idealismo que resiste aos ataques da mídia (tentações consumistas) e às necessidades reais de sobrevivência. (Sei, por exemplo, que ao sair para ganhar algum dinheiro como operário da construção civil, pessoas entram na propriedade do Toninho e põem em risco o que tanto tempo está conservado).

                Foram preocupações concretas, vivenciadas a partir do nosso lugar, que me conduziram à valorização de pessoas como o Toninho “Jesus”, Dito Chiéus, Luzia Borges, Neide Mesquita, Jarbas Luiz, Sinéia Santos, João “Carioca” Rodrigues, Washington Garcêz, Vera e Pedro Antonio e tantos outros. Porém, os poderes públicos, famosos por dilapidar os nossos bens, deveriam ser forçados a criarem mecanismos de compensação para aqueles que resistem à onda devastadora  e ainda nos oferecem as oportunidades de se revigorar para o cotidiano.

                Enfim, custa muito pouco tomar o rumo das “pegadas” de “Jesus”. O que faremos?

sexta-feira, 13 de abril de 2012

MAZZAROPI NA PRAÇA

Resolvi deixar a última parte de "Jesus" para amanhã. O Júlio é incrível! Parece que foi ontem toda esta narrativa da Banda das velhas virgens! O que não faltou foi figurantes! Se procurar bem, as nossas carinhas de quase jovens estão por aí. E na estreia, então!? Parece que toda a população da cidade queria ver como ficaram os nossos logradouros e praias na telona! Maravilhoso! Parabéns ao neto do saudoso Lindolfo!

Largo da Matriz. O obelisco servia de base para as brincadeiras de pique-será, soldadinho-salve e esconde-esconde. No coreto, “a furiosa” punha-se a tocar as mais variadas músicas do popular brasileiro. Carrinhos de pipocas, algodão doce, amendoim e ainda o carrinho de bugigangas do inesquecível Bem-te-vi, um baiano (foi o primeiro camelô de Ubatuba), que para atrair a criançada imitava o passarinho, que sempre foi comum nas grimpas das palmeiras imperiais.

Praça Exaltação da Santa Cruz. Do lado da rua dona Maria Alves: a farmácia do Filhinho, a bicicletaria do Dito Bento, a pensão do Braga, o artesanato do Lacerda e o atelier de João Teixeira Leite. Pela rua Condessa de Vimieiro, tínhamos o bar do Pradinho, o bar do Franklin, o armazém do William e o mais importante centro de diversões de Ubatuba, o Cine Iperoig, que quando apresentava filmes de bang-bang ou de romance tinha seus assíduos telespectadores. Mas nada se comparava quando o cartaz anunciava: “Chofer de Praça”, “O Lamparina”, “Um Caipira em Bariloche”, “O Jeca e a Égua Milagrosa” e tantos outros, dentre os 32 filmes de Mazzaropi. Aí sim! Aí era uma festa! A praça ficava repleta, tanto na matinê como na sessão noturna. Não havia um lugar sequer para se sentar; aquela muretinha de frente ao cinema parecia poleiro de baitacas. Ali era o lugar dos mais diversos tipos e figuras da miscelânea ubatubana. Dentre todos, tinha uma figura especial, uma pessoa que se destacava com suas brincadeiras, suas risadas, seu falar, seu andar, seu gesticular, enfim, o carinho que as pessoas tinham por ele era coisa incomum. “Zezinho” do Zé Diniz, lanterninha do cinema, era essa a figura.

Depois de ter rodado o filme “Jeca e seu filho preto”, na cidade de São Luiz do Paraitinga; Mazzaropi fez questão também de fazer umas externas aqui em Ubatuba, onde em 1979 produziu o filme “A banda das velhas virgens”. O cenário foi o Largo da Matriz, em que protagonizou como maestro da banda, tendo como palco o coreto de nossa praça. Esse filme deu o que falar; acredito que foi o de maior dificuldade para Mazzaropi e sua equipe, pois em apenas uma cena, houve mais de dez cortes.

- Cena 8, atenção, luz, câmera, ação!!! Corta! Erro na fala do personagem. Outra vez.

- Cena 8, atenção, luz, câmera, ação!!! Coorta! Faltou iluminação. Outra vez.

- Cena 8, atenção, luz, câmera, ação!!! Cooorta! O padre esqueceu o chapéu.

Até aí os erros eram normais, coisas de filmagens. Outra vez, desta vez não tinha erro, segue a cena, pedia o diretor.

- Cena 8, atenção, luz, câmera, ação!!! Coooorta!

O que foi agora? Adivinhem quem passou na frente das câmeras? Ele mesmo, “Zezinho” do Diniz! Outra vez.

- Cena 8, atenção, luz, câmera, ação!!! Cooooorta!

De novo? De novo! Agora foi o Tarzan, um funcionário do Bananinha da Casa Lippi, que atravessou, carregando um saco de batatas nas costas, por detrás da cena. Aí a coisa começou a ficar, tanto hilária como nervosa: de um lado os curiosos riam sem parar, do outro lado os artistas já demonstravam cansaço e o diretor ficava bravo. Dez minutos de descanso e outra vez deram início.

- Cena 8, atenção, luz, câmera, ação!!! Coooooorta!

Não é possível, de novo ele, o “Zezinho” do Diniz,  novamente passou de frente às câmeras.

- Chamem a polícia! - Ordenou o diretor para que fizessem um cordão de isolamento para não deixar ninguém passar.

Tudo arrumado, tudo em segurança, agora não teria erro.

- Cena 8, atenção, luz, câmera, ação!!!

A cena corria normal já há três minutos; de repente ecoa pelo ar um “Preeeeeeeeeeeeeeeeega fooooogo”.

- Coooooooorta porr...! - Gritou, já de saco cheio, o diretor. - Quem que deu esse grito?

Todos os curiosos já sabiam, menos o elenco e a direção da filmagem. Era o vovô Lindolfo que passava pela Maria Alves e vendo o povaréu reunido, deu o seu famoso e estridente grito que tirava a atenção de qualquer um: “Preeeeeeeeeega fooooogo, não deixa a vaca deitar”.

- Guardem os equipamentos, amanhã refazemos a cena! - Ordenou Mazzaropi, já estafado com a difícil e demorada cena, que se sucedia às portas da Igreja Matriz.
O filme rodado em nossa cidade foi o penúltimo de uma série de 32 filmes de sua carreira. Mazzaropi nasceu em São Paulo - Capital em 1902 e veio a falecer em 1981, no meio do seu 33° Filme. De norte a sul, foi campeão de bilheteria.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

PROCURANDO “JESUS” (II)

Olha o tamanho da folha do cafeeiro!


                Não é difícil encontrar o lugar onde “Jesus” tem moradia fixa. Basta subir a estrada principal do bairro Taquaral, indo até um entroncamento de onde se deixa a rua que homenageia a saudosa líder do lugar: a Maria Charleaux, a “Xana do Taquaral”. Depois, continua subindo, mas não muito. Pronto! Do lado direito, surge um caminho bem cuidado no meio da mata. Se embrenhando mais 50 metros, é possível avistar os simples chalés e os cachorros que ajudam o Toninho “Jesus” Suré a cuidar de um “pedacinho de céu”, onde a natureza nos tranquiliza porque está preservada.
                Conforme disse o Toninho: “Os chalés são simples, para acolher amigos. A minha segurança depende dessas pessoas que estão sempre próximas de mim. Elas me protegem, inclusive dos meus irmãos que se juntaram com políticos e doutores para desfazerem-se daquilo que nós herdamos. O meu avô, que veio da Alemanha, viveu 85 anos. Ele adquiriu esta propriedade que tem mais de 130 alqueires. Quem contou isto foi o meu pai, que viveu 127 anos”.
                Certamente que na área preservada tem espécies da flora e da fauna que nem foram catalogadas. Eu vi, por exemplo, pés de café totalmente diferentes dos que estou acostumado a ver nas minhas andanças: com folhas enormes e uma ramagem única. O Toninho falou que são plantas do tempo do avô dele.
                Continuando a caminhada em direção à cachoeira, os sons e luzes dão espetáculo. Ah! Notei que, no percurso do rio, vários canos levam água para outras moradias do bairro. Me perguntei: será que os usuários dessa água maravilhosa são aliados do proprietário, ou, conforme um dizer do Dico do Puruba, são “cobras prontas para darem botes”?

quarta-feira, 11 de abril de 2012

PROCURANDO “JESUS” (I)



                Até a semana passada eu tinha a seguinte questão: Onde será que mora “Jesus”, aquele da Semana Santa? Explico melhor: eu sabia que um dos Suré, do Taquaral,  sempre representava Jesus na encenação da Via Sacra. Porém, nunca o encontrei perambulando por aí. Poderia ser coincidência, mas também haveria outras possibilidades, tais como o fato de morarmos em bairros distantes, em pontos bem distintos.
                Aconteceu! Neste último domingo, na Páscoa, encontrei “Jesus”! Ou melhor, eu fui ao encontro dele, no lugar onde tem moradia fixa. O lugar é maravilhoso, bem preservado. Eu o chamaria de Paraíso dos palmitos. A cachoeira, os pássaros e grandes árvores completam a paz naquele espaço. Como eu gostaria que mais gente conhecesse o lugar do Toninho “Jesus” Suré!
                Quando eu desejo que mais pessoas conheçam o “Paraíso dos palmitos”, eu quero dizer muito mais coisas. Por exemplo: escutar a história de perseguição e resistência desse caiçara, seus infortúnios nesses anos todos; reconhecer que não é nada fácil manter um espaço da natureza preservado, disposto à acolhida. Há uma situação até curiosa: numa ocasião, escutando alguém derrubando palmeiras na área, o Toninho correu. Chegando ao local, não longe da cachoeira, quem estava na devassa? Um índio! O danado deixou o carro na estrada mais próxima e se embrenhou por ali como se estivesse na própria casa. O que fez o Toninho? Amarrou o infrator numa árvore e chamou a polícia florestal para levá-lo. Depois, segundo ele, não sabe o que aconteceu. Conforme já expressou o amigo Júlio, “será que não está na hora de ensinar os índios a plantarem pés de palmitos?”.
                É conhecendo o lugar e as histórias que poderemos ajudar na preservação daquele lugar. Quero lutar para que todas as pessoas, que agem como o Toninho “Jesus”, recebam ao menos um salário e possam se devotar ainda mais ao que já fizeram até hoje. Creio também que o município só tem a ganhar enquanto tiver espaços com tamanha qualidade para oferecer aos turistas que buscam qualidade de vida. Então, o que estão esperando para agir?
                São os nativos da terra, no modelo de “Jesus”, cidadãos da natureza,  que poderão ainda fazer muito por um turismo de qualidade e pela preservação da nossa riqueza natural.

terça-feira, 10 de abril de 2012

CABEÇA COM CABEÇA

         
                Em meados de 1970, já estudando no “Capitão Deolindo”, nós, meninos, tínhamos uma matéria denominada Artes Industriais, onde aprendíamos de tudo que “desse na telha” do professor Waldirzão: desde primeiros socorros até artesanato em madeira, que tinha muita demanda na época.
                Agora, escrevo de uma eleição final entre os dois melhores trabalhos: de um lado estava a peça do Júlio, filho do Isaías Mendes, “O nosso alfaiate”; do outro estava eu, filho do “Carpinteiro”(Leovigildo), que viajava todos os dias para vir estudar. (Naquele tempo eu morava na praia do Perequê-mirim, distante 10 quilômetros da escola). "Páreo difícil", conforme o professor disse  - e os colegas confirmaram na eleição. Ah! Ia me esquecendo de dizer: outro colega, Milton “Peixe-galo”, natural da Picinguaba, até nos ameaçou alcançando o terceiro lugar.
                O Júlio escolheu a guaiarana para entalhar. É mesmo muito macia! Eu esculpi um toco de ripa de cambará que o papai trouxe da obra (reforma do telhado do Almeida, onde mais tarde surgiu um restaurante por nome de Perequim, cujos proprietários eram Mike e Gustavo). Ficamos duas ou três aulas nessa tarefa. O espaço, onde hoje serve na citada escola como sala de projeção, de reuniões etc., abrigava as grandes mesas e cadeiras resistentes para os trabalhos manuais. Cada um dos alunos tinha um jogo de formão básico, comprado no Bazar Luna. Note bem: era tudo comprado! Não tinha esse assistencialismo governamental de hoje, onde a maioria dos alunos não valoriza o mínimo dos materiais que recebe (“kit do governo”).
                Todos se concentravam nos trabalhos, nunca ninguém ameaçou ninguém com aquelas “armas” em potencial; briga não acontecia naquele espaço. Discussão era sobre futebol, passarinho e pescaria. O que deveríamos produzir: uma cabeça de índio, com acabamento em extrato de nogueira e cera de carnaúba. Todas ficaram belas! É pena que ninguém tenha registrado esses eventos para que as gerações futuras apreciassem e nós pudéssemos recordar (a fim de reforçar as imagens que aos poucos se desgastam em nossas memórias).
                Ainda bem que eu guardei o meu trabalho! E o Júlio fez o mesmo! É um prazer apresentar os nossos produtos que, não demora muito, estarão completando 40 anos.
                Por fim, o Júlio e demais me cumprimentaram pelo resultado. Todos ganharam muito com aqueles momentos de muita camaradagem. São amizades que resistem ao tempo e às distâncias. Agradeço ao Júlio pela imagem e pelo incentivo a escrever esse fato comum em nossas histórias.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

DEPOIS DO ALMOÇO, NO JUNDU


                Os ranchos de canoas sempre ficaram no jundu, juntamente com os varais de redes. Quase sempre depois do almoço, quando havia rede para consertar, havia alguns pescadores por ali trabalhando. Afinal, qual o valor de uma rede furada, desequilibrada nos pesos e boias?
               Os últimos ranchos da praia do Cruzeiro se localizavam onde hoje está a pista de skate da juventude. Lembro-me bem do rancho do Fifo. Era um ponto de encontro; lugar de muitos causos e risadas.
                Foi lá que eu escutei, pela boca do Paca, isto:
               “Numa época de tainha, nos dias da lua cheia, o Fifo reuniu mais de seis camaradas no rancho para cercar um cardume considerável na baía. Vendo que era cedo ainda, ele deu a seguinte recomendação:
             ‘Descansem um pouco, mas acordem e desçam a canoa antes da saída da lua, senão... os peixes ficam ariscos, enxergam melhor; a gente perde a noite. E hoje ela tá boa!’. Depois dessas recomendações, o Fifo foi em casa resolver uma questão de família. Atrasou. Chegou bem depois todo espavorido. Acreditava que os camaradas já estavam na água, com cerco em andamento. Afinal, a lua brilhava intensamente no céu. E aí a surpresa. A má surpresa! Todos dormiam pesadamente sobre as tralhas de rede, pelas canoas do entorno. Na mesma hora, depois de dar uns berros, o homem desabafou: ‘Onde já se viu isso!? Uns homens novos, todos fortes assim! E deixaram a lua sair?’. Todos caíram na risada, pois ainda não nasceu ninguém capaz de segurar a lua. Acabou-se a pescaria naquela noite”.