sábado, 30 de junho de 2012

FIM DE MUITAS COISAS E OUTROS COMEÇOS

Quem não conhece a canoa Rosana, do Domingos?


                Chegamos ao final de junho e do primeiro semestre. Algumas pessoas queridas nos deixaram: Silvia Patural, João Zacarias, tia Santa, Mané Hilário, Hercília Giraud e mais gente ligada ao nosso contexto de caiçaras; que deram a sua contribuição nos orientando, ensinando e questionando na sua maneira, dentro de um tempo muito específico, onde a competição era mais branda. Que os seus exemplos permaneçam em nosso meio!
               Nesta semana assisti a uma concentração de canoas na praia do Lázaro, por iniciativa do Renato, fazedor de canoas, nativo da praia das Sete Fontes, filho do Domingos. Ontem, no palco da festa de São Pedro, nos três grupos que ouvi tocando, ví filhos e netos de caiçaras sendo protagonistas: o filho da Naná, os netos do Leopoldino (Fortaleza), do velho Coelho (Corcovado) e outros mais. Assim vamos resistindo com criatividade e novos talentos!

                A escrita seguinte, da década de 1980, é resultado de uma prosa que puxei com o João Zacarias, depois de uma puxada de rede na praia da Maranduba, quando o meu avô Estevan era um dos seus parceiros de pesca.

                 SOBEJANDO
                Decerto que fui
                desde o lagamá
                até o jundu!
                Lá apurei a vista
                e puxei da recordação.
                Acho eu que o mar,
                a coivara e o matagá
                tinha uma tamanha beleza!

                 Decerto que lembro do biju,
                do pexe escalado no balaio,
                dos pano de rede, do buzo na preia!
                A gente se apinchava nos rio
                sem nunca ter embaraço.
                Acho eu que os abricoero,
                e toda fruta que devezava,
                era de tamanha beleza!

                 Decerto que logo de manhã
                o sol empurrava a lua
                para banhá a fartura da pescaria!
                Tudo era repartido,
                cada um tinha um quinhão.
                Penso em que nenhum principado,
                fazendo comparação,
                tinha tamanha beleza.

                 Decerto que arguém tá sobejando
                nessa história toda!

sexta-feira, 29 de junho de 2012

VIVA SÃO PEDRO!




                Não poderia ser diferente: uma cultura que deve parte da sua existência  às atividades no mar, sempre muito dependente da atividade pesqueira, não tem como deixar de buscar uma proteção extra, com base no catolicismo trazido pelos portugueses. É o que justifica a escolha de São Pedro, um pescador do Mar da Galileia no tempo de Jesus, de acordo com a literatura cristã, como  santo padroeiro dos pescadores da cidade de Ubatuba.

                Afirmou, numa conversa, o saudoso Ney Martins: "Quem primeiro organizou a procissão marítima nos moldes dos dias atuais, foi o padre Lino, um caiçara da primeira metade do século XX". Eu tive o privilégio de ver a fotografia de uma cerimônia conduzida por esse sacerdote. Aconteceu bem no lugar onde hoje é a desembocadura do rio, entre o porto de Yperoig e a prainha do Padre, sobre uma plataforma flutuante. O povo, espalhado desde o morro até o jundu, assistiu com muita fé a celebração ao santo dos pescadores. Como deve se repetir hoje, aconteceram as bençãos dos anzóis, das canoas e dos apetrechos de pesca.

                A plataforma, local da missa, era um tablado bem estruturado sobre quatro ou cinco canoas fundeadas lado a lado num dia de mar calmo. Num depoimento que eu recolhi do finado Janguinho, na beira do rio Acarau, ele afirmou que “Deus e São Pedro ficaram tão contentes que, o mar, parecido uma lagoa naquela tarde, nem balançava o vinho no cálice. Digo isso porque eu estava no local. Fui eu e o Zé Vieira, na canoa Brejeira, que transladamos o padre Lino”.

                Lá se vão muitas décadas! Hoje, por ingenuidade, a religião, um aspecto do conhecimento pertencente “à infância humana” (Nietzshe), continua se multiplicando. Muitos dessas denominações religiosas são intolerantes em relação às manifestações culturais populares. O resultado é este: muitos dos pescadores e suas famílias pouco caso fazem da procissão marítima. Coitados! Perdem um filão no turismo cultural, deixam de faturar, ficam ainda mais divididos e nem percebem o quanto isto interessa àqueles que comandam o sistema que aí está!

                Mas... Vamos lá! É lindo ver os barcos abarrotados e enfeitados singrando as águas da Baía de Ubatuba em procissão! Depois, deixemos a tara (maior tainha ofertada) para o santo e vamos saborear uma tainha assada!

quinta-feira, 28 de junho de 2012

POESIA EM TUDO






          O meu irmão Domingos adora poesias. Em tudo encontra motivos para manipular as palavras e nos despertar para coisas que nunca imaginaríamos ser possível.  Assim são os poetas. Hoje, a realidade da praia do Saco da Ribeira é o seu tema.


                Barco encalhado


               Há muito tempo abandonada

               no porto do Saco da Ribeira,

               mais pela tristeza

               do que pela oxidação,

               está se escangalhando

               uma antiga e bela embarcação

terça-feira, 26 de junho de 2012

REFAZENDO CAMINHOS DE SERVIDÃO



                Neste dia convidei os professores Ana Arcele e Caio e mais alguns alunos para uma caminhada até a praia do Flamengo. Afinal, o dia estava propício para isso.

                Hoje, o que denominamos de trilhas são os seculares caminhos de servidão, reconhecidos até mesmo na Lei Orgânica do município como parte do patrimônio da cultura caiçara. Portanto, devem ser protegidos, sobretudo dos egoístas compradores das posses de nossas costeiras.
             Logo no começo, expliquei do antigo armazém São João, do João Glorioso, um empreendedor que muito orgulha aqueles  que mantém viva memória da história do Saco da Ribeira. Depois do armazém do Maciel, na Enseada, esse era o mais importante ponto comercial da região.

             Em seguida, fiz com que imaginassem  toda a área, agora coalhada de barcos, de lanchas luxuosas e de marinas bem equipadas, há quarenta anos passados, onde só se destacava o estaleiro da comunidade japonesa. O resto era só natureza preservada, com abundância de peixes, de siris e outras iguarias do mar. Também fiz questão de mostrar onde estavam os antigos moradores (caiçaras), seus roçados e seus ranchos de canoas.
            Na praia da Ribeira comentei do registro pré-histórico, do valor arqueológico dessas paragens. Relembrei dos muitos amigos de outros tempos que preencheram a minha vida nesse espaço maravilhoso.

           Agora, das belezas naturais, da grande variedade de plantas, das fontes de água pura e de tantas coisas que enchem os nossos olhos e satisfazem os nossos espíritos, eu dispensei comentários.
           Será que todos gostaram?

sábado, 23 de junho de 2012

PROSEANDO COM ARISTEU (III)


"O mar era o sustento do caiçara" (Domingos - Sete Fontes)
                Nesta última parte do relato do antigo caiçara, morador da praia da Lagoa, que terminou os seus dias em Caraguatatuba, estamos na Caçandoquinha. Ou melhor, puxando pelas suas memórias, ele recordou dos moradores caiçaras da primeira metade do século XX que moravam no trecho entre as Galhetas e a praia do Pulso. Então, continuemos:

                “No alto, quase perto do Sebastião Gabriel, era a casa do Juvêncio e da Jacinta. Na praia morava o Olívio, casado com Isabel. Eram os pais do Miguel da Mata, o último morador do jundu da Caçandoquinha. Um pouco mais para frente, na virada para a Caçandoca, era o lugar da Pureza de Jesus, mulher do Manoel Jorge.
                Na praia da Caçandoca morava bastante gente. No sertão também, mas deles eu não me lembro. Só sei dizer que, a partir das ruínas da antiga fazenda dos Antunes de Sá, tinha ainda muitos moradores. Então, vamos lá! No canto da barra, onde chegava o caminho do sertão, era a casa do Félix Crispim dos Santos. Depois deles estavam o João Giraud, a Bertolina, a Maria Galdino, o Silvário, a Verônica e o Argemiro. Mais para dentro moravam o Ezídio Antunes de Sá e o Abel Mesquita.

                Na praia do Pulso, que é um lugar pequeno, moravam: José Cesário do Prado, Fabiano Lopes e Toninho do Pulso. Desse pessoal eu me lembro. Se tinha mais gente eu não sei agora. Só sei dizer que era tudo gente pobre, parentes e amigos da gente. Era como se fosse uma grande família que dependesse da roça e do mar”.

                Agora, depois de tanto tempo, ofereço estas memórias aos filhos e netos dos finados Aristeu e Odócia, seus descendentes que moram em Caraguatatuba. Um abraço nessa gente bonita. Em tempo: gostaria de receber fotografias antigas desse pessoal. Desde já agradeço.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

É TEMPO DE...


    
Era um paredão horrível!

                Algumas crianças e até mesmo adultos estão reclamando de um tema que está sendo muito comentado pela televisão: trata-se do encontro sobre o meio ambiente, no Rio de Janeiro (RIO+20). Resumidamente elas falam de que muito se fala e pouco se faz. E não temos muitos argumentos para rebater tal afirmação, pois até reduziu o número de países que estão representados oficialmente, se considerarmos o encontro anterior (de 1992). E digo mais: as determinações que valem para as nações pobres e em desenvolvimento, nem merecem consideração pelos países ricos.
                Pegando carona em outro exemplo, bem atual: os supermercados agora são limitados pela oferta de sacolas descartáveis, mas as empresas continuam a todo vapor desovando um monte de embalagens plásticas nas nossas responsabilidades de consumidores. Bom para os comerciantes que estão economizando nas embalagens. É como a lógica da indústria automobilística: há possibilidade de meios de transportes econômicos, baratos e não poluentes, mas... como ficam os altos lucros dos grupos empresariais? Afinal, esta decisão implica em rever um estilo de pensamento, de forma de produção etc. Será que chegaremos num ponto onde, como decorrência da educação, as empresas terão de rastrear as suas embalagens, reaproveitarem-nas para outras ocasiões? E o que dizer da nossa “malha ferroviária” que está parecendo rede de pesca usada  que, tendo mais buraco do que malha, é descartada para cisqueiro de caiçara?

                Na metade do século XIX, sob o governo de Pedro II, um visitante europeu já afirmava que o nosso país tinha a melhor legislação sobre o meio ambiente, mas não cumpria as determinações. Vindo para exemplos mais perto de nós, que de uma forma ou de outra alteram a qualidade ambiental: estou cansado de ver obras pipocando em nosso município sem nenhuma placa de responsável, nem do que está aparecendo ali. Também não tem como não enxergar carros velhos apodrecendo e impedindo as nossas vias públicas; praças, praias, beiradas de rios etc. sendo usadas por particulares em seus negócios; motoristas (desde ciclistas até condutores de grandes veículos) que pouco se lixam para “pequenas inflações”;  pedestres ignorantes que se acham imortais; buracos e esgotos por todo lado, sobretudo nos bairros mais populosos, de onde sai a grande massa de trabalhadores deste município etc.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

ORGULHO CAIÇARA


  
Uma cultura se faz a cada dia e nos eventos! (Arquivo Júlio Mendes)

                No domingo último (17/6), fiz parte da comitiva de pais que  acompanharam o amigo Antenor (sensei Nunes) ao XIX Torneio da Amizade de Karatê-Do , realizado em Arujá- SP. Ele é caiçara, descendente dos Nunes Pereira, os donos, em outros tempos, do Sertão do Ubatumirim.

                Todos os atletas (Matheus Simões, Sofia Simões, Alexandre Domingos, Estevan José, Pedro Henrique, Rômulo Marcondes, Wellington Oliveira e Weider Nunes) foram ao pódio. Ao todo foram 12 medalhas (6 bronze, 1 prata e 5 ouro) conquistadas com muita concentração e amor ao esporte. Só não trouxeram mais porque o cansaço da viagem e das condições do local não foram totalmente favoráveis. Pelo que podemos ver nos dados, a menor delegação presente no torneio fez bonito (6º lugar na colocação geral), representou bem a nossa cidade. Afinal, eram quase 400 inscritos de diversas associações de karatê do Estado de São Paulo. Os resultados se devem ao espírito sensível do Antenor: ele fica observando durante os treinos, faz as correções e permite que a confiança se apodere dos alunos. Outra coisa importante que observei nele no decorrer do torneio: estava sempre junto aos atletas dando orientações e oferecendo algo para sustentar os corpos. Ou seja, sendo mestre e amigo de verdade!

                Mais uma vez foi notório que as medalhas vieram para Ubatuba graças à tenacidade de um grupo restrito (sensei, alunos e pais). Poderia ser muito mais contagiante se houvesse patrocínio e apoio do poder público aos nossos jovens.

                Estão de parabéns os atletas, o sensei Nunes e as famílias que motivam seus filhos à prática do esporte. Continuem assim para motivação do nosso espírito caiçara!

segunda-feira, 18 de junho de 2012

RÍTMO E PRECONCEITOS (II)




                “Pobre diabo daquele que repete os slogans daqueles que o dominam”. Esta era uma das frases prediletas do Paulo Verzoline, saudoso colega de ginásio (década de 1970, no “Capitão Deolindo”). Hoje penso muito mais nela, sobretudo quando eu escuto a rapaziada definir caiçara como “vagabundo, que quer só beber e ficar pelas praias”. É aquilo que eu repito sempre: fizeram com que os miseráveis acreditassem no “ritmo maravilhoso” que é de sistema produtivo, de viver tentando acumular bens e ter dinheiro na poupança.

                Não seria inveja de um estilo mais desapegado? Também não pode ser uma estratégia para justificar a tomada do espaço, bem como o extermínio dos moradores originais, juntamente com o espaço entre a serra e o mar?

                “Fica complicado analisar todas as possibilidades que levam as pessoas a terem ‘cabeça gorda’, a serem repetidoras de absurdos e incoerências”, diria o meu amigo Luís Antonio, o “Gibi”.  O desafio é criar os espaços de reflexão, deixar que se estabeleçam as conexões de um novo padrão cultural que zele pelo espaço decorrente de milhões de anos, que atraiu tanta gente para compor o espaço caiçara.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

O RÍTMO E OS PRECONCEITOS (I)


Puxada de rede - Arquivo Trindadeiros

                Entendendo o ritmo ditado pelo tempo aos antigos caiçaras, compreendemos porque ocorreu a preservação ambiental neste pedaço de chão chamado de Ubatuba (terra de muitas ubás, uma espécie de cana silvestre).
                 Longe da zona industrializada,  preocupava-se apenas com a subsistência, onde o pouco que se guardava era alimento para não se preocupar demais quando o tempo chuvoso ou de festas que se arrastavam além do comum. Por que trabalhar além da conta se o que precisamos para o dia a dia é tão pouco?  O quadro muda drasticamente com o advento do turismo, quando o ter ganha uma dimensão muito além do ser.

                O turista percebe o paraíso, quer adquirir as terras, oferece dinheiro fácil. Até então ninguém pensava em ganhar dinheiro com as posses herdadas de outras gerações, que serviam apenas para abrigar roçados, algumas criações de terreiro e as humildes (ecológicas) habitações. Creio que esta frase é significativa desse período: “O dinheiro era custoso, mas o de comê era fartura”.

                O turismo que disparou a especulação imobiliária também provocou o êxodo de outras culturas, sobretudo para a construção civil: vieram cariocas para a extração de granito verde, chegaram catarinenses para o mercado pesqueiro, se estabeleceram nordestinos e mineiros como “pião de obra”. Alguns mais, outros menos, mas todos competindo na lógica capitalista, se esquecendo de suas culturas originais. Os outros que não se dispunham àquele ritmo (extensos períodos de trabalho, sem feriados e festas, sovinice, desgaste da saúde etc.) eram vagabundos. Ou seja, o povo do lugar que desenvolveu um ritmo de acordo com o ambiente, que forjou uma cultura desvinculada da escravidão industrial, era o errado. Esta mentalidade, até  mesmo incluída em definição de dicionário, continua nos dias de hoje. Portanto, fica difícil para as gerações pós 1960, refletir/entender a real dimensão de ser caiçara.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

O SAGRADO E O PROFANO


Viva o mestre Dito Fernandes e congadeiros do Sertão do Puruba!
                 A simbiose entre o sagrado e o profano sempre foi uma força para a razão do ser  caiçara. Voltei a pensar nisso depois que uma colega professora, chegada do Nordeste há pouco, quis saber sobre as festas religiosas do município de Ubatuba que têm aspectos profanos. Pensei um pouco; lembrei-me de algumas: Dança de São Gonçalo, do Prumirim, é uma delas. A Folia do Divino antigamente também tinha disso. Afinal, após a cantoria e a despedida, a Bandeira do Divino era envolta em um pano limpo e guardada num cômodo da casa para que, na sala, devidamente assoalhada, começasse o bate-pé que varava a madrugada. Era para essa alegria que as casas caiçaras tinham todo o piso de terra batida, mas a sala era de madeira para produzir os bonitos e sonoros sapateados. Por ocasião do Natal, no Reisado, após a cantoria, a acolhida sempre era a base de comida e bebida, sobretudo consertada e vinho. E o que dizer da Congada, hoje restrita ao Sertão do Puruba? É o sagrado dançado ou é o profano sacralizado? Tudo isso é lindo! É um pouco do que resta hoje capaz de nos orgulhar!
                Essa introdução serve para acolher a fala do Aristeu, um caiçara que, em toda oportunidade surgida, já estava tirando uns acordes no seu cavaquinho e fazendo as suas trovas. Deste modo ele descreveu os locais de festas no trecho entre a Tabatinga e a Maranduba, sendo as principais na Raposa, Caçandoquinha e Caçandoca:

                “Festas tinham. E muitas! A de São Pedro e São Paulo era na casa do Manoel Leonardo. A do Coração de Jesus era na casa do Salomão, vizinho do Abel Mesquita. Os Santos Reis, festejados no Natal, viravam alegria na casa do Celestino da Mata.  No dia de Santo Antonio, todos acorriam para a casa do Antoninho do Pulso, ou do Estevão Marcolino, que antes morava na Raposa. A velha Rosália e a Maria Galdino, alternando a cada ano, festejavam o São Benedito. Observação: a Maria Galdino era a capelã de todas as festas, rezava a ladainha e o terço. O Senhor Bom Jesus era homenageado na casa do Olívio. O Florindo oferecia a festa por ocasião de São João. Já o São Pedro merecia destaque na casa da Miquelina, do Pedro Germano. Convém lembrar que naquele tempo não tinha capela alguma”.

                No final dessa parte, naquele dia distante, eu aprendi a música de São Gonçalo. A melhor parte: "Ai meu São Gonçalinho/ Ele dorme na cama, ele bebe o seu vinho". Causou-me grande emoção, sobretudo quando o saudoso Aristeu disse que tinha aprendido com Pedro Brandão, um mestre-folião purubano que há muito mora na Estufa e que eu admiro bastante.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

GENTE DESSE TEMPO




                Enquanto estou escrevendo, repassando a minha prosa com o finado Aristeu, filho da Ilha do Tamanduá, vou pensando em determinados moradores do território que está sendo explicado. Agora, por exemplo, penso no trabalho de graduação individual apresentado pelo Domingos, no curso de Geografia da Universidade de São Paulo, no começo da década de 1990, ou seja, que já completou 20 anos. Nele foi abordado, a partir de uma entrevista com a dona Maria Galdino, filha de escravo da região da Caçandoca, como era a vida ali, como estava a situação após a ruína econômica de Ubatuba a partir da segunda metade do século XIX. Esse trabalho serviu de base para o tombamento do quilombo da Caçandoca há poucos anos.

                Na verdade, a região da antiga Fazenda Caçandoca, que vai da Pedra do Cruzeiro (ou do Xis) até a Pedra do Frade, da família Antunes de Sá, é um espaço bem claro de entrelaçamento cultural neste pedaço do litoral brasileiro: os pobres que já eram mestiçados se juntaram com os negros e aumentaram a mestiçagem na área que foi se arruinando. Um detalhe: o dono da fazenda escolheu ficar e se arruinar com a propriedade.

                As razões dessa opção talvez tenha sido a beleza, a tranquilidade  e a fartura do lugar, lembrando um paraíso com muita permissividade, atraindo até moradores de outros lugares próximos e das ilhas. Logo tinha muitos negros, loiros e morenos com o nome de Antunes de Sá. É assim -se misturando-  que o pobre resiste. Quero dizer que o título atual de quilombo foi uma estratégia para ter um espaço mais seguro, na lei das comunidades tradicionais, porque a resistência foi de todos que se tornaram pescadores e roceiros com uma devoção popular repleta de festas, onde, ambas as dimensões (sagrado e profano) era o combustível essencial para viver com alegria e simplicidade. Isso tudo está no valioso documento do Domingos que eu penso publicar em partes.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

PROSEANDO COM ARISTEU (II)


Aroeira madura pelos caminhos de servidão deste chão caiçara

                Pode ser que para muitos não seja interessante saber dos antigos moradores do extremo sul do município de Ubatuba, do tempo em que ainda não havia especulação imobiliária (por volta de 1935-40). Porém, tendo a oportunidade de fazer uma trilha pela região, ao se deparar com extensa área preservada, sem sinal de moradores, não se engane: outrora eram muitas as moradias de caiçaras pelos morros, praias, badejas, beiradas de rios etc. Porque eles saíram nós iremos entendendo mais tarde, em breves textos.
                Continua, então, a prosa com o saudoso Aristeu Quintino:

                “Depois do rio do Inhame, moravam bem perto um do outro: Manoel Lourenço Garcêz (filho do Zé Lourenço, da ilha do Mar Virado), o Benedito Araújo (pai do Constantino) e o Paulo Custódio. Do lado de baixo, mais perto da costeira, morava o Adelino Benedito de Araújo (irmão do Constantino). Depois, como quem seguia para a praia do Abreu (Saco das Bananas), chegava às casas do Valdomiro Custódio dos Santos, do Teófilo Custódio dos Santos, do Estanislau Marcolino Antunes de Sá e da Maria Jacinta de Jesus (filha de José Francisco do Nascimento), casada com Antonio João de Oliveira. Na praia do Abreu eram duas famílias: Gregório Crispim (que mais tarde venderá a sua posse para o Bassin) e Anastácio Crispim (pai do Gregório). É bom dizer que toda essa área, desde o rio do Inhame até o espigão do Saco dos Morcegos, era da família da Odócia, minha mulher.
                No Saco dos Morcegos, junto das ruínas da antigas fazenda, era a casa do Ditinho Antunes de Sá, o branco (filho de Luís Antunes de Sá). Logo acima ficavam as casas do Domingos Antunes de Sá, do Januário Antunes de Sá(irmão do Ditinho), do Benedito Antunes de Sá, o preto (“Bito Madalena”). No pé do morro morava Luís Antunes de Sá (onde depois morou o Argemiro, seu filho).
                Depois, passando o Saco das Cotias e a Ponta dos Cações, já estamos em área da praia da Raposa, onde moravam Caetano Lopes, Benedito Juvenal, Manoel João dos Santos (filho do João Gabriel), Benedito Gabriel dos Santos, Rosália (mãe do Benedito, João e Sebastião Gabriel). Na linha da praia morava a Ezídia Antunes de Sá (irmã do Benedito Marcolino). Subindo um pouco era a casa do Benedito Marcolino Antunes de Sá (gente do Estanislau Marcolino, do Horácio, da Maria, do Domingos e do Totoca); depois era o Paulinho da Donara. Bem mais para cima ficava a casa do Sebastião Gabriel dos Santos (pai do Orondino, Benedito, Leonor, Anastácia e Evarista). Neste lugar, hoje, quem mora é o Orondino Gabriel. Ainda não chegamos à praia da Caçandoquinha”.

sábado, 9 de junho de 2012

É PARTE DA PROSA



                Na casa do Constantino de Araújo, num dia de muito calor, eu parei para um gole de água e puxei uma prosa. Aproveitei do Aristeu para ir visitar os lugares e conhecer a praia do Simão (também chamada de Brava do Frade). Na porta da sala da humilde casa de pau-a-pique e sapê, sentados nas pedras que serviam como calçada, nós ficamos um longo tempo conversando com o dono. Era sábado. Ninguém iria pescar porque estavam esperando o padre.
                A missa seria celebrada na casa do Luís Januário, no mesmo cômodo que servia como sala de aula. Logo chegou frei Alberto, um italiano ruivo (ou louro?), duramente castigado pelo sol na longa caminhada que empreendeu desde a Maranduba. O Chico Romão o acompanhava: carregava uma mochila com os paramentos canônicos. Eu e Aristeu resolvemos ficar e só retomar o caminho de volta após a missa. Assim fizemos. Depois, conversando com o frei, conseguimos convencê-lo a ir conosco para a Ponta Aguda. Eu assumi o cargo do Chico Romão que voltou sozinho para a sua gente.
                Chegamos à casa do Aristeu quando os curiabôs começavam a piar. Depois de um banho na cachoeira, estávamos à mesa saboreando a gostosa refeição preparada pela Odócia. As lamparinas nos iluminavam. Após o jantar e um pouco mais de conversa, fomos dormir. Éramos só cansaço depois de um dia de caminhada! Os donos da casa transbordavam de felicidade por hospedarem o bondoso frei Alberto. Este, no dia seguinte, celebraria uma missa na casa da ASEL; depois seguiria o rumo da Tabatinga em companhia do Zeca da Paulina. Lá se vão quase quarenta anos!
                Ah! Junto conosco, na caminhada até a praia do Simão, foi uma cachorra amarela. No outro dia cedo deu para ver que a sua pelagem era só carrapicho. Coitada. Sobrou para o Edinho limpá-la.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

PROSEANDO COM ARISTEU (I)




                “Um enfermeiro aqui?”.  Esta frase eu soltei, há mais de trinta anos, ao lado do tio Salvador, quando estávamos chegando na praia da Ponta Aguda, no lado Sul do município, onde morava o até então desconhecido Aristeu Quintino, o companheiro da Odócia, que fazem parte da minha saudosa família do “pessoal do sul”. Eram eles os representantes da ASEL (Ação Social Estrela do Litoral, fundada pelo frei Pio Populin na passagem da década de 1960 para a seguinte) naquele ponto bem isolado.

                Na Ponta Aguda eu fiquei impressionado pela estrutura que, mesmo com a redução dos caiçaras, continuava a ser mantida naquele lugar. O enfermeiro era o Aristeu, um caiçara cheio de prosa, que adorava música e estava sempre arranjando um tempo para as pescarias. Naquela espaçosa casa havia salas destinadas ao ensino e aos primeiros socorros urgentes, uma cozinha para merenda e mais algumas coisas. O morro e a vargem eram ocupados pelas roças zeladas pelo casal. Era de onde saiam mandioca, cará, banana, verduras e tantas coisas essenciais à cozinha caiçara. Com eles eu morei alguns períodos que se tornaram inesquecíveis.

                O que eu pretendo escrever a partir de agora foi feito a partir de um mapa que nós (eu e o Aristeu) fizemos. Recorrendo à memória do prestimoso homem, lancei um desafio: “Você consegue se lembrar de todos que moravam desde aqui até o cemitério da Maranduba?”. A resposta dele: “É lógico que eu consigo, Zé!”. Antes da lista, preciso informar que os nomes se referem a uma época entre 1935 e 1940. Foi o cálculo do Aristeu.

                “Começando das Galhetas, a primeira praia de Ubatuba: ali moravam o João Manoel de Oliveira, o Renê Muniz e o Raimundo Muniz (que mais tarde foi morar na Figueira), o Lodônio Barra Seca e o João Barra Seca. É onde fica até hoje as ruínas da Fazenda Tabatinga, do tempo dos escravos.

                Na praia da Figueira tinha a casa do Raimundo Muniz, pai do Ambrósio (casado com a “Filhinha”, cujo nome é Maria do amparo de Oliveira), a casa do Roque Batista e a do Manoel Raimundo Muniz.

                Eu sou da ilha do Tamanduá, onde tem três praias: do Fogaça, do Sul e do Taquemboque. Foi onde eu nasci. Quem morava lá era: Antonio Correia de Mesquita, os meus pais Herondino Mesquita (casado com Hermínia Quintino dos Santos) e Manoel Correia de Mesquita (casado com Leopoldina).

                Na Ponta Aguda morava o meu tio-avô Jacinto Quintino, a Paulina Maria de Jesus (mãe do Zeca, Acácio, João, Manoel e Benedita), Acácio (filho do Manoel Quintino), Reginaldo Quintino dos Santos, meu tio. Ali perto do cajueiro, em frente à casa do Zé Palmeira, o cruel capataz da empresa Costa Verde, era onde ficava a casa  do Oliveira Quintino. Na praia Mansa não morava ninguém. Lá só tinha os ranchos de canoas de alguns moradores da Lagoa e dos caminhos dali de perto. Havia um caminho da Mansa para a Lagoa subindo pelo canto esquerdo e acompanhando o espigão do morro.

                No caminho entre a Ponta Aguda e a Lagoa, onde hoje é a casa da ASEL, era a casa do João Cardoso de Oliveira (casado com Maria Garcêz de Jesus, filha do Lourenço da Ilha do Mar Virado).

                Na Lagoa, bem no canto direito da praia, moravam o Sebastião Luís de Oliveira (pai da dona Paulina) e o Benedito José de Oliveira. Do meio até o outro canto era o lugar da Fazenda Lagoa: tem a grande ruína, o lugar do campo de futebol, da enfermaria e do rancho das canoas. Em cima, no começo do caminho para o Simão, no lugar das jaqueiras, depois do rio, morava Ernesto Ferreira dos Santos (casado com Laura Garcêz de Jesus). Em seguida, junto às ruínas da represa da fazenda, ficava a casa do Benedito João do Amaral (casado com a Maria Soares dos Santos) e a casa do Emílio (casado com Maria do Nascimento). Adiante, no lugar da pedra lascada, morava o Paulino Lourenço Garcêz. Também, bem junto dele, estavam os filhos Marcílio  e Benedito Garcêz.

                No Alto do Simão, onde até hoje está bem evidente as cavas de casas e árvores frutíferas, foram morar mais tarde o Ambrósio Raimundo Muniz e eu. Entre as nossas casas passava uma cachoeira. Depois que o Ambrósio veio para a Figueira, ficou lá na casa dele a Evangelina. Bem perto de nós moravam o Arnaldo de Oliveira e a Maria Jacinta de Jesus (casada com Antonio João de Oliveira. Era a mãe da Odócia, minha mulher. E da Filhinha). Mas tudo isso era antes de onde é a divisa da Costa Verde, que se estende até a Ponta do Frade, na costeira. Depois dessa linha, era a casa da Hermínia Quintino dos Santos e do Henrique Mesquita. Descendo o morro ficava as casas do Januário Luís de Oliveira, do Constantino de Araújo, do Luís Januário de Oliveira (onde funcionava a escola) e do Benedito Antonio de liveira. No Canto da Andorinha, bem perto do rio do Inhame, morava o Virgílio Custódio dos Santos. Depois disso era a área do Saco  das Bananas”.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

MORADORES E PARCEIROS (II)


Assistir ou interferir?

Em tempo de tanta discussão a respeito do meio ambiente, que tal pensar na preservação daquilo que herdamos em boas condições?


Questões:

1- Como ficará a situação dos migrantes (temporários e permanentes) enquanto adversas ao ambiente natural local? Estão fadados a serem destruidores, desequilibrarem o pacto entre a natureza e o homem ?

2- As imposições econômicas, geradas a partir das necessidades artificiais, ou mesmo das essenciais, consideram a natureza como parceiras? Pensam em preservá-la?

3- Os caiçaras tradicionais e os quilombolas continuam fiéis ao pacto feito com a natureza ou renegam seus saberes tradicionais/ancestrais ? Respeitam a sacralidade do meio privilegiado em que se fizeram parceiros-viventes? Ou se corromperam pela lucratividade despudorada, “onde até vender a própria mãe é permitido”, conforme dizia  o finado Santinho Barreto, da Enseada?

4- A  zona histórico-cultural está também em Ubatuba. Mas onde concretamente? (Pode-se procurar no condomínio fechado, de  “alto padrão”, num bairro popular, num local onde grassa a miséria, nos limites da serra etc.).

                Há a necessidade de definir em leis as zonas histórico-culturais. Alguns locais precisam urgentemente alcançar tal status, senão serão depredados, totalmente descaracterizados. É preciso se importar com as gerações futuras. Isso se concretiza fazendo investimentos no presente.

                As gerações futuras precisarão da contemplação estética para viver. Em nosso município há esporões e pequenas planícies repletos de natureza que precisam ser resguardados, serem geradores de renda de uma forma não destruidora. Não será a especulação imobiliária, nem a ocupação desordenada  que garantirão continuidade do pacto imemorial entre homem e natureza. Enfim, tais zonas serão memoriais culturais de sobrevivência. Ou seja, dificilmente se viverá bem sem elas.

                Pose ser providencial pensar, entre outros casos, nas seguintes zonas: Galhetas – Caçandoca, Lagoinha –  Fortaleza, Ribeira – Sete Fontes (sem esquecer que os pescadores do Saco da Ribeira brigam por um espaço em sua praia), Prainha do Canto do Góis – Maria Godói, toda Ponta do Farol, Barra Seca – Saco da Mãe Maria, Puruba – Justa (se estendendo até a Serra da Bocaina).

terça-feira, 5 de junho de 2012

MORADORES E PARCEIROS (I)


Mato rasgando o cimento: uma brecha de resistência evidente.


                O texto de hoje provem de outro que eu escrevi em 2005, por ocasião de uma etapa polêmica a respeito do Parque Estadual da Serra do Mar. Naquela ocasião, saiu a garantia de que os moradores da área não seriam removidos. Não sei bem como a “novela” continuou, nem se “o zoneamento foi feito e foi oficializada a permanência mediante compromisso de conservação da área”. Não seria bom verificar “em que pé andam as coisas”?

                Na conservação da natureza, os moradores tradicionais (caiçaras e quilombolas, de acordo com o tratamento dos órgãos do Estado) não podem representar um inimigo. Ou melhor, sua permanência garantida, “mediante compromisso de conservação da área”, está significando que a cultura específica do lugar (caiçara) é a mais indicada para defender a porção do seu meio ambiente específico.

                Para que uma cultura exista num determinado lugar desde muito tempo é preciso  existir um pacto entre natureza e homem. Disto resulta a cultura (síntese entre necessidade e criatividade, dinâmica que possibilita a vivência mútua). Porém, quando aparecem as situações que põem em riscos tal pacto, dependendo de sua permanência, os parceiros (homem-natureza) podem se anular, desaparecerem.

                Está provado que a racionalidade, se acompanhada de sabedoria, pode evitar catástrofes. Só uma certeza existe: a natureza fornece as possibilidades para a existência humana, mas... se ela perder determinadas condições será rompido o pacto vital, ou seja, o homem desaparece. Nesses dias assisti um documentário que detalhava alguns lugares na Europa Oriental altamente radioativos (contaminados) há décadas e que vai continuar existindo assim por milênios. Porém, dos homens daqueles lugares só está restando as moradias vazias porque o câncer está vitimando a todos. Isto é prova de que, livre da humanidade novamente a natureza se regenerará. Ela não morre totalmente  - ainda bem!

                A natureza renasce sempre! Já o homem...não sei não.

domingo, 3 de junho de 2012

UM SER LADINO, BEM CAIÇARA


Manhã maravihosa na praia da Fortaleza - (Arquivo Henrique)

                O Dário Barreto, o tio Dário da Fortaleza, se aposentou como funcionário da prefeitura. Ele e João de Grilo cuidavam da estrada municipal que vai da praia Dura até a praia da Fortaleza. O trabalho deles era carpir, preencher buracos, fazer valetas para escorrer água da chuva, cortar algum galho que atrapalhava a circulação etc.
                Por estarem sempre na estrada, viviam dando informações para os turistas, explicando os lugares, indicando os perigos, recomendando os melhores pontos de pesca etc.
                Para quem conhece bem a estrada, sabe que ela é inteiramente arborizada. No seu percurso, outras praias, maravilhosas por suas especificidades, transbordam de beleza. A prainha do Costa, por exemplo, abriga um mato cheio de jaqueiras. Pelo chão, nos meses de janeiro e fevereiro, não tem como isso passar despercebido, sobretudo devido ao cheiro peculiar das jacas maduras que se esborracham no capim rasteiro.
                Foi assim que, numa ocasião, estando os dois companheiros sentados num toco e comendo uma saborosa jaca cabacinha, uma chique Variant encostou alguns metros deles. Do veículo saiu uma turista querendo saber de uma praia onde pudesse passar o dia todo descansando. Também quis saber daquilo que eles comiam. Não conhecia a jaca. Oôôô dó!
                Experimentou; adorou. Na mesma hora queria uma muda, saber como cuidava e quanto tempo demorava a dar frutos. Foi a ocasião de entrar a ladinice do tio Dário: pegou um engaço que até continha uma folha miúda, explicando que aquilo era a muda; só bastava cuidar bem depois de escolher uma terra boa para enterrá-la. A mulher  - toda contente, coitada! – enrolou aquilo num jornal e se foi. O João de Grilo disse depois que não se conformava com aquilo, mas não pode deixar de rir muito.

                (Para quem não sabe: o engaço é a parte central, de onde saem os favos da jaca. Portanto, é parte morta depois que se desprende ao amadurecer; jamais vai brotar. A mulher, depois de muito esperar, deve ter pensado que “alguma coisa não deu certo, mesmo o bondoso caiçara ter sido tão prestativo, explicar tão bem como devia ser feito”).

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A LÓGICA DO CHIQUINHO FIDÉLIS

Imagine o Chiquinho Fidélis enfrentado ressaca na Praia da Fazenda!
                O Chiquinho Fidélis sempre trabalhou como carroceiro, mas teve um tempo que resolveu experimentar algo novo: comprou um carro usado para continuar fazendo o seu serviço, ou seja, enfrentar os caminhos barrentos dos tempos d’antes em seus fretes de areia, pedra, tijolo etc.
                De vez em quando, quase que regularmente, o  veículo atolava, derrapava até soltar uma fumaça fedida e escandalosa dos pneus. Dava um trabalhão ao coitado e às pessoas que se compadeciam da triste situação, que se dispunham a ajudá-lo. Enfim, não demorou muito para que o Chiquinho passasse o problema adiante e se voltasse à carroça puxada por cavalo. Quem lhe arranjou tudo novamente foi o Modesto, o último funcionário da prefeitura a recolher o lixo da cidade de  Ubatuba em carroça. Pessoalmente, acho que fez bom negócio!
                Quem me contou isto foi o velho Maneco Salomão:
                “Numa ocasião, ao ver o esforço do animal em conduzir a carroça de rodas de ferro pelos caminhos da Marafunda, comentei com o compadre Chiquinho para trocar as rodas de ferro por pneus de borracha. Rende mais, não atola, alivia mais o animal e o condutor.
                Por que que eu fui falar isso! No mesmo instante, parecendo uma curruíra choca defendendo o ninho, ele rebateu: ‘Nada disso! Então eu não tive carro e não sei que ele vive derrapando até soltar fumaça? Um pneu assim é capaz até de assustar o cavalo. Deixa assim que está muito bom! Eu tenho experiência; sei que tá muito bom!’.
                Saí dali dando risada sozinho. Será que o compadre imaginava o pneu rodando com uma força dele mesmo, sem ser puxado pelo animal? Não sei o que se passava na cabeça dele. E nesse ritmo ele levou a vida por muito tempo”.