quinta-feira, 14 de junho de 2012

O SAGRADO E O PROFANO


Viva o mestre Dito Fernandes e congadeiros do Sertão do Puruba!
                 A simbiose entre o sagrado e o profano sempre foi uma força para a razão do ser  caiçara. Voltei a pensar nisso depois que uma colega professora, chegada do Nordeste há pouco, quis saber sobre as festas religiosas do município de Ubatuba que têm aspectos profanos. Pensei um pouco; lembrei-me de algumas: Dança de São Gonçalo, do Prumirim, é uma delas. A Folia do Divino antigamente também tinha disso. Afinal, após a cantoria e a despedida, a Bandeira do Divino era envolta em um pano limpo e guardada num cômodo da casa para que, na sala, devidamente assoalhada, começasse o bate-pé que varava a madrugada. Era para essa alegria que as casas caiçaras tinham todo o piso de terra batida, mas a sala era de madeira para produzir os bonitos e sonoros sapateados. Por ocasião do Natal, no Reisado, após a cantoria, a acolhida sempre era a base de comida e bebida, sobretudo consertada e vinho. E o que dizer da Congada, hoje restrita ao Sertão do Puruba? É o sagrado dançado ou é o profano sacralizado? Tudo isso é lindo! É um pouco do que resta hoje capaz de nos orgulhar!
                Essa introdução serve para acolher a fala do Aristeu, um caiçara que, em toda oportunidade surgida, já estava tirando uns acordes no seu cavaquinho e fazendo as suas trovas. Deste modo ele descreveu os locais de festas no trecho entre a Tabatinga e a Maranduba, sendo as principais na Raposa, Caçandoquinha e Caçandoca:

                “Festas tinham. E muitas! A de São Pedro e São Paulo era na casa do Manoel Leonardo. A do Coração de Jesus era na casa do Salomão, vizinho do Abel Mesquita. Os Santos Reis, festejados no Natal, viravam alegria na casa do Celestino da Mata.  No dia de Santo Antonio, todos acorriam para a casa do Antoninho do Pulso, ou do Estevão Marcolino, que antes morava na Raposa. A velha Rosália e a Maria Galdino, alternando a cada ano, festejavam o São Benedito. Observação: a Maria Galdino era a capelã de todas as festas, rezava a ladainha e o terço. O Senhor Bom Jesus era homenageado na casa do Olívio. O Florindo oferecia a festa por ocasião de São João. Já o São Pedro merecia destaque na casa da Miquelina, do Pedro Germano. Convém lembrar que naquele tempo não tinha capela alguma”.

                No final dessa parte, naquele dia distante, eu aprendi a música de São Gonçalo. A melhor parte: "Ai meu São Gonçalinho/ Ele dorme na cama, ele bebe o seu vinho". Causou-me grande emoção, sobretudo quando o saudoso Aristeu disse que tinha aprendido com Pedro Brandão, um mestre-folião purubano que há muito mora na Estufa e que eu admiro bastante.

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