quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

MAR GROSSO


Caiçara ao mar - Arquivo Louzada

       Por estes dias o mar tá grosso e a chuva persiste. A arrebentação vem lá fora, tudo crespo, uma ronqueira só. Pegou maré cheia, não vaza, mas mesmo assim tem tantos turistas que chega a deixar o trânsito na rodovia quase parando. Agora começa um desgaste para todo mundo, sobretudo para quem trabalha e depende de transporte público, de ônibus. São horas perdidas na espera, principalmente quando está voltando para casa depois de um período cansativo na labuta. Na temporada passada, um motorista de ônibus me disse que num horário para Caraguatatuba, distante cinquenta quilômetros, o percurso demorou oito horas. (Geralmente demora duas horas). Sofreu ele, sofreram os passageiros. 

     "É mar grosso, meu amigo". Assim expressou um caiçara que enfrentava o mesmo dilema que eu em viagem desta semana, quando a lentidão no trânsito nos atrasou na viagem em quarenta minutos. E olha que a temporada nem começou! Sugestões ao problema sazonal não faltam. Deveria ser criado um corredor destinado aos ônibus que operam no município, outras vias alternativas poderiam ser construídas, a travessia dos pedestres nos trechos que beiram as praias precisa ser disciplinada etc.  Certamente outras possibilidades precisam ser pensadas e encampadas por quem está na função de gestão do município. Só precisa de vontade política e coragem. Mas vontade política quem faz é nós! É a população que pode atuar nos rumos, nas direções políticas da sociedade! É o que chamamos de pressão, de participação popular. Afinal, são os cidadãos que  sustentam a classe política. A maioria que trabalha contribui entre 30 e 40% nos impostos (Previdência, IPTU, IPVA...), enquanto os mais ricos aumentam seus lucros e contribuem com menos impostos, obtêm descontos ou são perdoados em suas dívidas. O mar tá grosso!  
    Além dos imprevistos, tem os previstos que podem ser remediados ou resolvidos. Eu proseava assim com o Agenor, um velho marinheiro, quando ele puxa esta pérola de sabedoria caiçara: "Vamos torcer para não surgir uma jamanta por debaixo da canoa. Imagine um bicho de mais de metro de largura por mais de dois de comprimento querendo brincar agora com a embarcação! Se voar perto alaga a gente. Num mar desse, com gente nem sabendo nadar, vai dar no quê?". Por isso eu repito sempre: "É preciso que a gente busque entender e se interesse por política. Só assim as coisas podem melhorar". É  isto:  o mar tá grosso, mas a gente sabe se virar bem. Basta querer!

Em tempo: quando eu avisto um mar bravo logo me recordo do saudoso Tio Chico que em qualquer canoa enfrentava as grandes ondas, as piores ressacas. E sempre remando de pé! Lidar no mar era o seu ambiente natural. Quando estava em terra, parecia deslocado, perdido. Hoje percebo que mais gente nossa se sente assim. Coisas de caiçara, né?

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

MAS SERÁ O BENEDITO?








Benedito Caravelas - Imagem Facebook

Na publicação de 17 de dezembro último, MEMÓRIAS DE UM BRASIL ANTIGO publicou o presente texto que vai explicar umas pergunta que faz parte dos dizeres brasileiros. Desde criança eu escutava com acentuada emoção o...
MAS SERÁ O BENEDITO?
Benedito Meia-Légua assombrou os escravagistas anos antes da abolição. Seu nome original era Benedito Caravelas e viveu até 1885, um líder nato e bastante viajado, conhecia muito do nordeste. Suas andanças conferira-lhe a alcunha de "Meia-légua". Andava sempre com uma pequena imagem de São Benedito consigo, que ganhou um significado mágico depois.
Ele reunia grupos de negros insurgentes e botava o terror nos fazendeiros escravagistas da região, invadindo as Senzalas, libertando outros negros, saqueando e dando verdadeiros prejuízos aos racistas.
Contam que ele era um estrategista ousado e criativo, criava grupos pequenos para evitar grandes capturas e atacavam fazendas diferentes simultaneamente. A genialidade do plano era que o líder de cada grupo se vestia exatamente como ele.
Sempre que um tinha o infortúnio de ser capturado, Benedito reaparecia em outras rebeliões. Os fazendeiros passaram a crer que ele era Imortal. E sempre que haviam notícias de escravos se rebelando vinha a pergunta "Mas será o Benedito?"
O mito ganhou força após uma captura dramática. Benedito chegou a São Mateus (ES) amarrado pelo pescoço, sendo puxado por um capitão do mato montado a cavalo. Foi dado como morto e levado ao cemitério dos escravos, na igreja de São Benedito.
Noutro dia, quando foram dar conta do corpo, ele havia sumido e apenas pegadas de sangue se esticavam no chão. Surgiu a lenda que ele era protegido pelo próprio São Benedito. Por mais de 40 anos ele e seu Quilombo, mais do que resistiram, golpearam o sistema escravocrata.
Meia-Légua só foi morto na sua velhice, manco e doente. Ele dormia em um tronco oco de árvore. Esconderijo que foi denunciado por um caçador. Seus perseguidores ficaram à espreita, esperando Benedito se recolher. Tamparam o tronco e atearam fogo.
Seu legado é um rastro de coragem, fé, ousadia e força para lutar pelo nosso povo, que ainda hoje é representado em encenações de Congada e Ticumbi pelo Brasil. Em meio as cinzas encontraram sua pequena imagem de São Benedito.
Todo dia 1 De Janeiro, o cortejo de Ticumbi vai buscar a pequena imagem do São Benedito do Córrego das Piabas e levar até a igreja em uma encenação dramática para celebrar a memória de Meia-Légua.
Fonte: Alê Santos
Publicado por Mulheirismo Africano MDA

sábado, 17 de dezembro de 2022

BEM LONGE

Grupo Escolar Dr. Esteves da Silva - Ubatuba - Arquivo Ubatuba


        Uma prosa, dias destes, me levou a refletir sobre o lixo que produzimos. O autor, Luciano, afirmou que “lixo é um erro de design, é energia que está sendo jogada fora porque é desperdício de recursos retirados da natureza”. Perante toda a problemática da nossa produção de lixo, sobretudo nesta época de temporada que se inicia em Ubatuba, na faixa litorânea, continua urgente repensar nossos hábitos alimentares, de consumo de produtos e serviços etc. Não cansamos de repetir que as mudanças já passam da hora de acontecer, mas nossos passos são tímidos, imperceptíveis. A maioria de nós diz que não adianta esperar mudanças significativas, pois “as pessoas são destruidoras mesmo, só pensam em si, nos seus interesses”. Então eu digo que o mundo só muda se a gente muda. Pequenos gestos irão fazendo diferença para o futuro que esperamos deixar às futuras gerações. Lógico que os nossos passos servirão de apoio a outras pessoas que acalentam sonhos semelhantes! Porém, devemos nos atentar para conseguir se desvencilhar de gente que é apenas exemplar mal acabado da nossa espécie. Caso contrário, faremos parte de um mal exemplo, de uma engrenagem que está causando muitos males nas proximidades e além dos limites da nossa existência. Eu posso ser parte dessa engrenagem que está em movimento há muito tempo e que parece impossível parar, levando ao pensamento e atitudes de aceitação da destruição da natureza, da perseguição às minorias, às diversidades culturais etc.

       A questão é: no que eu estou usando as minhas energias? Se não me cuidar, as propagandas, as muitas fantasias e tentações acabam por jogar todo o meu ser nesse movimento, nessa engrenagem... E a minha potência se torna destrutiva e autodestrutiva. Eu me torno “um erro de design” também, uma energia desperdiçada (porque está colocada a serviço de mal). Depende de mim  - também! – até mesmo a continuidade da cultura caiçara. Enfim, os estímulos para produzir lixo, barulhos e confusões se intensificam a cada temporada de verão na nossa realidade. E, de acordo com a colega Patrícia, “quem faz muito barulho não quer se ouvir”. Então, que o hoje, o amanhã, o próximo ano e cada período que nos resta de vida seja oportunidade para reduzir os barulhos que querem abafar as nossas vozes. Eu sou um  animal que raciocina, capaz de redirecionar o meu ser e de se harmonizar com os demais seres. Os problemas vividos no contexto brasileiro nos últimos anos me levam a atentar às disputas de narrativas, a promover mais e melhores reflexões acerca da política. Aceito as teorias científicas que apontam o desfecho do planeta Terra, mas espero que as nossas atitudes o mantenha bem longe. A vida tem de ser plena para todos! Equivocados - ou tomados pelas maldades! -  estão aqueles que se engajam em projetos de morte embrulhados como presentes maravilhosos. Gente que não quer se ouvir destrói até mesmo a própria cultura!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

A MENINA DAS TONINHAS

Mané Hilário - Arquivo JRS

Dona Gertrudes - Arquivo JRS
 
Partiu a menina das Toninhas!

Nascida naquele jundu,
sempre trabalhando e festejando por ali,
"consertando" peixes, a serviço do Maciel, 
cresceu a menina
e foi atuar em outras terras, em Santos.
Fez-se parceira das Cônegas de Santo Agostinho,
esteve a serviço dos mais necessitados,
nas camadas exploradas da Baixada Santista.
Retornou à terra caiçara de Ubatuba,
enamorou-se,
casou e teve filhas: Maria e Regina.
Sempre festeira e religiosa,
sempre contagiante nas suas narrativas
e sempre querendo saber algo da gente.

Sempre presente e atuante!

Que memória!

Outro que me vem à memória: Mané Hilário.
Ambos partiram depois de100 anos de vida,
ambos me engrandeceram com suas memórias:
nossas cepas caiçaras do século XX.
Quantos registros deles tenho? Não sei.
Só sei que ainda tenho coisas a transcrever dos dois.
As duas filhas... Rogério e Rodrigo...
Estes seus netos seguem na coerência cultural,
atualizam os nossos traços culturais.
Seu fermento, querida menina,
há de ser viva-memória entre essa caiçarada boa!
103 anos de cultura nossa,
de humanidade despretensiosa,
de saudade desde já.

Viva Dona Gertrudes!

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

CENSO 2022


O nosso cão - Foto: Maria Eugênia

Akamaru é o nome dele -  Foto: Maria Eugênia

Vai Brasil! - Arquivo Nosso



      Em 1980 eu fiz parte dos grupo de recenseadores que contaram os habitantes de Ubatuba. Neste ano, cujo último mês começa  hoje, a minha querida filha Maria Eugênia está em igual tarefa, correndo para "dar conta do recado". Segundo ela, a principal dificuldade são pessoas que se negam a responder, não atendem as muitas visitas que são feitas e refeitas. (Desconfio de que lado político tais espécies estão). No meu tempo foi bem diferente. Os caiçaras eram a maioria, eu era acolhido com muita simpatia, quase sempre me ofereciam ao menos um café. 

     Com o título de Censo 2022, o Mano Mingo dá uma pista para rever nossas atitudes e nossas doenças (inclusive aquela que reproduz o oposto de amor).


CENSO 2022


No meu bairro tem 20 ruas,

cada rua tem 50 casas,

cada casa tem, em média,

duas crianças e um cachorro 

menos nos endereços das pessoas

que padecem, sem saber o porquê,

de solidão ou depressão.

domingo, 27 de novembro de 2022

HÁ DE SE CUIDAR DO BROTO

 

Praia do Saco da Ribeira: privatização do espaço público - Arquivo JRS



       “...E há de se cuidar do broto pra que a vida nos dê flor e fruto” (Coração de estudante – Milton Nascimento)

 

       As previsões políticas e econômicas do Brasil para o próximo ano são medonhas, sobretudo para os mais pobres que nem imaginam o que seja especulação financeira, neoliberalismo e geopolítica. Todos os programas básicos (saúde, educação, moradia etc.) estão defasados e com orçamentos falidos, parte do plano de um presidente desonesto e de extrema-direita. Considerando que os deputados e senadores eleitos são, sobretudo, empresários e latifundiários dessa mesma ideologia, os boicotes a qualquer medida visando amenizar as desigualdades sociais aumentarão. Quem sofrerá mais?

      Me agarro à questão cultural para me fortalecer. A cultura caiçara, os traços culturais herdados dos mais antigos renovam a esperança que eu tenho na vida. Estou cada vez mais convicto que é por esta narrativa que eu vivo, converso com as pessoas, escrevo e educo os meus filhos. E reconheço que cada cultura traz em sua origem princípios semelhantes, querem a vida feliz, desejam a vida plena. Na semana que passou eu tive de questionar um jovem caiçara, cujos pais e avós eu conheço bem, pelo motivo de dizer tolamente que “caiçara é vagabundo, por isso que esse tanto de gente vem para cá na temporada ganhar dinheiro”. Ele deveria estar pensando até agora nesta pergunta que deixei para reflexão: “Então os seus pais, o seu avô Daniel e a sua vó Maria são vagabundos? Você, que rala desde cedo até o escurecer, é vagabundo?”.

       Agora, mais do que nunca, reconheço que precisamos focar nas narrativas. A disputa de narrativas é o eixo para perseverar na nossa humanização. Não podemos deixar que discursos de ódio elaborados pela classe dominante (branca, machista, preconceituosa, vingativa etc.) invadam nossos princípios caiçaras e das diversas culturas que preenchem, desde o advento do turismo, o espaço litorâneo privilegiado que ocupamos no planeta. O meu medo, notando o que se propaga pelas redes sociais e abraçada por tantos do meu povo, é, conforme a música cantada por Milton Nascimento, que o broto esteja sendo estragado e comprometendo totalmente o futuro. Assim, faço questão de rememorar uma parte da História: no ano de 1942, na defesa da pureza da raça, os nazistas avançaram na discussão da “solução final” com a construção de eficientes campos de concentração, onde os mais aptos se tornavam mão de obra escrava. E os demais? Eram submetidos a experiências horrendas, exterminadas sob gás letal, deixados a morrer de fome, frio e sede, incinerados ou lançados em valas comuns. Um médico nazista teria escrito depois do primeiro morticínio por gás: “Comparado a isso, o inferno de Dante parece comédia”. E agora me apego ao escritor Ian Crofton acerca dessa gente, dessas pessoas que se tornaram cúmplices de Hitler e foram envolvidos na execução dessa triste solução: “Não eram monstros desumanos e, sim, homens e mulheres que haviam sido tão doutrinados que acreditavam estar fazendo seu trabalho de maneira eficiente e de acordo com a vontade do líder máximo”. Pergunto a todos se percebem a escuridão que se instalou no Brasil, sobretudo com o golpe de 2016 aplicado pela classe dominante. O que emergiu da podridão, dos esgotos da sociedade? É esta mesma narrativa (contra as minorias e contra as injustiças sociais que fundamentavam a “solução final” dos nazistas que fizeram horrores indizíveis) que é abraçada por gente do meu povo! É essa gente que está chocando o ovo da serpente, o nazifascismo evidente na sociedade brasileira atual. Triste ver caiçaras e migrantes doutrinados nos mesmos ideais do nazismo e do fascismo.

   Quem são os caiçaras? Uma minoria social!

   Quem são os migrantes (mineiros, baianos, cearenses, paraibanos etc.)? Minorias sociais!


   Se queremos vencer a escuridão, ousemos na narrativa que remova ignorância, maldade e ideologia de rebanho. Ousemos educar para o exercício da cidadania na justiça social!


sábado, 26 de novembro de 2022

MEUS ANCESTRAIS

Formiga - Arte; Estevan


      O que eu contarei agora é parte do que recebi dos meus avós. Eles aprenderam dos mais antigos; trata-se de sabedoria cujas origens se perde no tempo, mas que está desaparecendo muito depressa. Ou seja, corre o risco de se perder de vez. Estou recordando agora de um tempo quando as formigas eram assustadoras, atacavam os mandiocais, exigindo combate contínuo para salvar as lavouras. No final da tarde, antes que escurecesse, os chefes de família se muniam de alguns apetrechos e saíam morro acima em busca dos formigueiros, dos seus carreiros. As saúvas eram terríveis! Não era à toa que os caiçaras procuravam as ilhas em tempos mais antigos para seus cultivos! Diziam que nas ilhas não havia formigas. Por isso famílias inteiras atravessavam os largos em canoas para terem os melhores resultados agrícolas.

      Eu, criança curiosa, gostava de observar as formigas. Uma espécie eu temia muito: era a taoca. Sua picada dói muito. Ainda hoje, de vez em quando, sou surpreendido por elas entre as folhas secas do nosso quintal. Você já viu as taocas em correição? Explico: correição é quando as formigas parecem estar migrando, buscando outros lugares. Elas parecem aqueles batalhões de guerreiros que vemos em filmes. Dos antigos aprendi isto: “Aquelas formigas grandes que andam pelo meio das taocas se chamam capitães. São os machos. Elas percebem os perigos para o grupo antes das outras, dão o alerta”.

     E cará, você conhece? Neste tempo (outubro, novembro), eles estão brotando. No nosso quintal tem o do roxo e o moela. O cara-moela se espalha pelas árvores, dá de montão. O cará-roxo dá na terra, como batata. Ontem mesmo parei para apreciar seus tentáculos singulares ganhando os espaços, garantindo continuidade de nossas raízes e nossa autonomia na produção de alimentos. Quantas pessoas já pararam para pensar no quanto nós já perdemos de espécies e sementes? Isto é planejado, as indústrias de sementes transgênicas fazem questão de acabar com tudo para terem o domínio sobre os agricultores. Mas do outro lado há pessoas e associações fazendo a preservação e o resgate das chamadas sementes criolas. Estas são essenciais à vida! Isto é resistência! Mas... quando eu citei o cará, não era nesses carás que eu pensava. Eu me recordava do finado Antônio Clemente, no sertão do Ubatumirim, me explicando de uma bolota de pelos extraída do bucho dos porcos do mato: “Não é todo porco que tem esse quisto. Diziam os mais velhos que aquilo era causado por cocos comidos pelos bichos. É usado como remédio para doenças nos peitos, mas serve também como patuá [talismã] para guardar a gente de doença. Eu mesmo tenho o meu no bolso da calça. Olha aqui”. Coisas dos meus ancestrais. E eu pude contemplar pela primeira e única vez um cará de porco. Desconfio que você não terá esse privilégio. Que pena!

domingo, 20 de novembro de 2022

APRENDIZADO CAIÇARA



Cultura caiçara na escola - Arte: Camila dos Santos

      Nesta poesia, do Mano Mingo, temos a oportunidade de refletir sobre o quanto é fundamental as comunidades tradicionais para a continuidade da vida no planeta. O desenho da  jovem Camila também expressou a importância da vida do mar aos caiçaras, aos pescadores e à atividade  turística. Parabéns aos dois! E viva a Escola da Vida!


A gente só sabia fazer a embarcação,

costurar a rede

e acordar de madrugada,

para surpreender os peixes,

a gente não sabia quase nada.

A gente só sabia ler as nuvens,

acompanhar a direção dos ventos,

para perceber, antes que fosse tarde,

os sinais que anunciam a tempestade.

A gente só sabia os remédios do mato,

as sabedorias do tupinambá,

o jeito certo de conversar com Deus,

a tocar rabeca e viola,

essas e  tantas outras matérias

que não ensinam em nenhuma escola

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

CABEÇA-GORDA CHOCANDO OVO

Resiste, valente caiçara! (Arquivo JRS)


     Logo ali, diante da minha janela, está o mato da Serra do Mar. Do aparelho sobre a mesa recebo notícias do Brasil e do mundo. O dia começa com algumas coisas boas e outras tantas ruins; muitas delas no nosso Estado de São Paulo e outras tantas em Ubatuba, onde moramos. Um amigo de muitas décadas me alertou dos riscos que corremos com a eleição de um governante estadual da extrema-direita, com o pior quadro de políticos se deslocando do âmbito federal - porque foram destronados -, vindo para cá. Até aquele ministro do meio ambiente envolvido com contrabando de madeiras na Amazônia está na rota. Portanto, vem aí golpes contra o patrimônio público com as privatizações sendo feitas a rodo. Portanto, aumentam os riscos às comunidades tradicionais, às áreas de proteção ambiental, ao porto de São Sebastião, aos pescadores que recorrem ao atracadouro no Saco da Ribeira e a tantas outras medidas favoráveis à elite, contra o povo trabalhador. Podemos também esperar a linha dura investindo na privatização da educação e em escolas militares (que se notabilizaram pelo apoio ao terror autoritário e cruel brasileiro dos últimos anos, sendo capazes de acolherem baderneiros antidemocráticos acampados em sua área de segurança desde o dia seguinte às eleições, de notas vergonhosas e promoções descabidas de altas patentes, com revelações do Tribunal de Contas da União de que 79 mil milicos receberam auxílio emergencial indevidamente durante a pandemia etc.).  Esse mesmo amigo disse que estava com vontade de enviar notícias assim para uns caiçaras conhecidos nossos, reacionários,  atuais “patriotários”.  Eu respondi: “Melhor não. Estão convictos, são do time cabeça-gorda, alienados. Não aceitarão e ainda falarão mal de você. Eles, por enquanto, não dão a impressão de estar em busca da recuperação da dignidade que tiveram um dia. Se entregaram ao mal, deixaram de ser resistentes. Certamente nem perceberam que estão alimentando o neonazismo no Brasil”. Ou seja, do nosso recôndito local, dentre os caiçaras e migrantes que aqui se acomodaram, também está sendo gerado ovo de serpente, tal como abertamente temos acompanhado no Estado de Santa Catarina, sob tutela de forças policiais. Ontem, 17/11/2022, assisti a uma entrevista de Joaquim de Carvalho (TV 247) com lideranças que resistem naquela região aos neonazistas. Impressionante como eles avançaram por lá! Lógico que tem um contexto histórico (acolhida aos alemães criminosos do front encabeçado por Hitler, passado integralista etc.). Resumindo: imigrantes haitianos, indígenas, nordestinos e outros trabalhadores em solo catarinense correm sérios riscos. É isto que queremos em nossa terra?

      Segundo a historiadora Lillia Schwarcz afirma: “Células nazistas crescem 270% no período do governo Bolsonaro”.  Que mérito há em vislumbrar gente nossa envolvida nessa empreitada infernal? Acorda, caiçarada! Acorda, classe trabalhadora!

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

URUBU UNGIDO

Urubu no poste - Arquivo JRS


        Pretensão das religiões é separar coisas sagradas de coisas profanas. Quem discorda disso? Quem não conhece alguém que, depois de muito aprontar na vida, prevendo um suposto terrível castigo se acoita numa igreja, se converte? Assim eu ia pelo lagamar pensando. Mais à frente seguia na maior alegria um razoável grupo de adultos e crianças. Acompanhando-os, um cachorro estava a correr atrás dos urubus que, como costume, vasculhavam o espaço em busca de algo para comer. Nisso me recordei de uma descendente de piauienses apoiadora de ideias discriminatórias contra nordestinos, negros e pobres, favorável à ideia de golpe militar, apoiadora do Bozo, do Marreco de Maringá etc., que apareceu vindo do interior para "recomeçar" nova vida no chão caiçara.  Enfim, uma “patriota” que passou um perrengue com urubus. Lhe conto agora esta história. 

    Certo dia, no rio que passava rente ao local de trabalho dessa pessoa reacionária, amanheceu um animal morto, parecia um porco. Talvez tenha sido arrastado pela chuva violenta de dias antes. Não demorou nada para que os urubus chegassem e fossem se revezando nas bicadas ao cobiçado defunto. Pareciam formar um time sobre o muro, se desentendendo de vez em quando. De repente, um deles se perde na direção do voo e adentra no corredor da edificação, terminando por se chocar contra uma barreira gradeada. O coitado ficou tonto, vomitou no piso, mas logo se recobrou e saiu voando pelo outro lado. O que fez a “patriota”? Se desesperou; chamou um pastor que estava por ali, colega do execrável Totonho do Rio Abaixo que vive de se aproveitar da fé alheia, e pediu-lhe uma oração diante do horrível vômito.

        Todo compenetrado na ação, o indivíduo deu início ao ato religioso, à reza do urubu: “Ó Senhor, pai nosso e de todos os demais seres, olhai pela nossa irmã que tem medo de bichos, sobretudo de aves, de passarinhos. Proteja ela neste lugar, neste prédio. Que essas aves não passem mais por aqui, não tragam coisas ruins à irmã. De espaço em espaço, a solicitante se empolgava no “aleluia, irmão”.  De repente um ruído diferente. Sabe o que era? Outro urubu na mesma rota do anterior! A mulher deu um berro no meio do “aleluia” e se entocou na sua sala de trabalho, trancando a porta. O urubu, assustado com o berro, se deteve todo desengonçado e retornou de onde tinha vindo sem querer e foi deixando um rastro esbranquiçado e fedido pelo corredor, provocando um êxtase no pregador: “Ele cagou, ele cagou... Foi ungido, se libertou...Não vai mais afrontar a irmã!”. De longe, quase rindo de tudo aquilo, pensei que uma solução lógica era manter fechada a barreira que já existe no corredor, mas nem comentei com ninguém. Resta o fato garantido pelo pastor: o urubu foi ungido, tornou-se sagrado. (Ah! Ainda bem que ele não "ungiu" ninguém!)

 

Em tempo: quando eu era criança na praia da Fortaleza, atrás de casa da vovó Eugênia tinha umas embaúbas prediletas dos urubus. Do galhos altos eles defecavam sobre uma pedras que estavam debaixo. Da vovó eu escutava o alerta: “Nunca fique debaixo daquele lugar. Se eles cagarem na sua cabeça, você fica careca”.

Em tempo 2: conforme um dito popular, relembrado pela saudosa mãe do Carlos Lunardi: "Urubu quando está com azar, o de baixo caga no de cima". Boa esta, né?

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

ATÉ TU, FONSECA?!


Um homem digno - Arte: Estevan

ATÉ TU, FONSECA?!?


“Tristeza por aqueles que não param para refletir e acabam escolhendo ficar do lado opressor, enganados que estão por um discurso moralista, defendido por quem é imoral!”.  (J. Ivam)


   De longe eu avistei o Fonseca, vinha pela mesma calçada, no centro da cidade. De repente, ele se bandeou para o outro lado, evitando o nosso encontro. Azar dele, ué! Afinal, ao menos um bom dia eu lhe garantiria com sinceridade. Qual o porquê? A frase de abertura deste, do estimado Jorge, desconfio que explica bem.

   Questionei, mas logo dei a resposta. Afinal, conheci o pai do Fonseca, um caiçara e operário da construção civil que adorava a folia. Sua mãe, até bem idosa, vivia de aumentar os rendimentos servindo na casa de gente rica: era trabalhadora mesmo! A irmandade toda estudou ali, na escola “Capitão Deolindo”, no centro da cidade. Nesse meio, entre escola, festejos e igreja eu conheci essa família tradicional de Ubatuba. Tradicional porque nascidos aqui, não porque justificam os discursos falsos de certos manipuladores políticos do qual o Fonseca e outros tantos caiçaras se orgulham de cultuarem como mito (s). Sorri sozinho ao perceber a manobra dele indo para o outro lado da rua. Quase gritei se ele estava naquele grupo de “patriotas” que não aceitaram ainda os resultados das eleições e ficam dando vexame para o mundo todo. Você é homem, colega! Não se deixe ser engolido por uma bolha que tira a sua dignidade! Concordo que o pleito foi roubado sim. O vencedor, caso não houvesse todas as irregularidades, teria muitos milhões de votos a mais. Ou seja, o Excrementíssimo perdeu roubando feio (PRF).

   Esse caiçara alienado está longe de refletir que se trata de uma disputa de narrativas, onde de um lado estão razões humanitárias para inclusão de mais gente, e, de outro, apenas a ganância de uma elite perversa. De certa forma, conhecendo a história dessa família, sobretudo dos pais e outras gerações mais antigas, ao se posicionar contra as garantias de direitos aos mais pobres, Fonseca abre mão do protagonismo enquanto população tradicional caiçara. Agindo assim, ele joga fora os nossos saberes autênticos para abraçar as regras de exploração ao nosso povo. Que vontade de gritar que esses nossos saberes são os meios mais poderosos para salvar o planeta, a humanidade! São os traços culturais herdados dos mais antigos que renovam a esperança que eu tenho na vida. É por esta narrativa que eu vivo, escrevo e educo os meus filhos. Ninguém precisa me patrocinar por isto! Gratidão à minha esposa por ser um lume neste caminhar.



sábado, 5 de novembro de 2022

CONVITE

Caçandoca é quilombo, está na lei - Lula e Mano Mingo-   Arquivo Mano Mingo



Querido Luís Inácio Lula da Silva,

que reconheceu os quilombolas de Ubatuba,

que pôs na lei os diretos dos pescadores

de terem um ranchinho de canoa na faixa de marinha,

seja bem vindo ao meu lar,

venha para uma refeição,

não digo que tenha pão,

pois aqui não é terra de trigo,

mas sempre tem um cuité de farinha

e um peixe deste amigo,

o quintal está perfumado de kanangas de Vovó Eugênia,

o cachorro é de boa,

os pássaros dão lições de cantos

aos sapos da gamboa,

venha sim, venha conversar

de quando a criação vai chegar à perfeição

com as pessoas a aprender com as árvores frutíferas

a conjugar o verbo ofertar.

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

GADO PINGADO


Guaruçá - Arquivo JRS


      Na minha adolescência, na praia do Perequê-mirim, escutei a seguinte questão do talentoso pintor Cireneu: “Sabia, Zezinho, que criamos o mundo?”. Até hoje faço questão de sempre rememorar a explicação que se seguiu. De vez em quando, me angustiando no contexto histórico, escrevo a respeito. Foi o caso de dias atrás.


      Chovia bastante. Bem antes do meu destino a condução se deteve. Logo tinha gente inquieta, querendo saber o que tinha acontecido. Uma moça ao meu lado disse: “É a paralisação dos caminhoneiros que não aceitam a vitória de Lula. Em outros lugares do país está a mesma coisa”.  Algumas pessoas se exaltaram, sobretudo quem dependia da movimentação do ônibus para chegar no horário de algum compromisso. Eu desembarquei ali mesmo e me pus a caminhar sob a garoa. Não foi difícil porque eu tinha um guarda-chuva e estava apenas carregando uma mochila. Mais tarde passei no tal local onde estavam “patriotas” vigiados por viaturas da polícia rodoviária federal, “gado pingado” como ironizou alguém das cercanias. É essa gente que se diz defensora da pátria, da família e contra a corrupção. E gritam: “Deus acima de tudo”. Na verdade, são pessoas contra a democracia, que querem o regime nazifascista. A designação (gado) tem a abordagem psicológica de um grupo que segue uma ordem, uma atitude, sem nem saber porque está naquela direção.

       Questiono:

       Qual pátria? Aquela que é submetida aos Estados Unidos, ao fascista Trump e aos grandes conglomerados econômicos internacionais que ambicionam o petróleo, a água, os minérios e outros riquezas deste solo brasileiro? A pátria que entregou até a Eletrobrás (que controla o setor elétrico) e outras tantas empresas públicas, que custaram nossos impostos e décadas para se solidificarem? Será a pátria do ministro da economia e de vários outros com contas em paraísos fiscais? Talvez a pátria cujo presidente se coloca como mula da extrema-direita internacional, querendo promover os ideais nazifascistas que nunca deixaram pessoas que ainda têm Hitler em seus corações? Ou a pátria que retira muitos direitos da classe trabalhadora e vê indiferente a fome se alastrar?

     Qual família? Aquela que se formou a partir de um militar terrorista, que foi se fazendo por mentiras midiáticas, interesses econômicos, politiqueiros etc.? Aquela espelhada no líder que já está na terceira esposa, faz apologia à pedofilia e homofobia; é misógino, racista etc.? É aquele modelo que acha normal desmerecer a mulher, traí-la, espancá-la juntamente com os filhos? Ou ainda, é aquela família que nem comparece em reuniões escolares, deixando de se comprometer com a educação das crianças?

    Qual corrupção? Aquela que se assenta sobre sigilo de 100 anos, orçamento secreto, compra de votos, ordem para “passar a boiada” nas questões ambientais, propina na compra de vacinas, garantia dos lucros dos banqueiros e dos grandes empresários em detrimento do sufoco aos mais pobres? Aquela que se alia aos milicianos, corrompe parte das polícias e dos militares para conseguir encobrir seus abusos? Ou aquela que compra muitas propriedades com dinheiro vivo, quer privatizar praias e costeiras etc.?

    Enfim, qual Deus? Aquele que defende o armamento em missas e cultos? Aquele que ataca a diversidade religiosa brasileira, sobretudo os grupos de matriz africana? Aquele que está com pastores desviando verbas do Ministério da Educação? Aquele que apoia líderes explorando pobres com suas ameaças se não votarem em tal candidato? Qual Deus?

    Concluo: ninguém deveria se conformar em continuar nessa moral de rebanho. O maior valor da gente é cultivar constantemente a autonomia de pensamento. Agora, um brinde a você que resistiu, mesmo quando milhões acreditavam no falso mito.

    “Ter um posicionamento político significa saber que nós nos tornamos inventores de mundos(Rubem Alves)

domingo, 30 de outubro de 2022

O MAR DA HISTÓRIA


Grande mar e ilha do Prumirim - Vista da aldeia Boa Vista - Arquivo JRS


Não estamos alegres, 
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de estar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las.
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas

Vladimir Maiakóvski

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

CRIANÇA É ASSIM MESMO!

   
Frei Pio, Leninha e Luzia - (Arquivo Luzia)

      

NA CAPELA DE SÃO JOÃO


Frei Pio Populin,

o bom franciscano,

faz o sermão,

meio português

mezzo italiano.

E eu, criança ainda,

presto atenção

no sobe e desce

da lagartixa na parede -

um bote, um pernilongo.

Que discurso longo!



Lendo esta poesia do mano Mingo, decidi que vale a pena republicar o texto seguinte.

          De vez em quando eu recordo de algumas passagens a respeito do saudoso Frei Pio Populin, sobretudo de embates com o finado João Pimenta, da praia do Sapê, onde nasci. Era interessante escutar uma espécie de prosa que não era comum em nosso meio. Hoje eu digo que tratava-se de enfrentamentos teológicos. Quando? Segunda metade, quase final da década de 1960. A imagem do disposto religioso escondido por um hábito marrom, tendo um cordão encardido pela cintura, foi marcante na minha infância. Bem depois disso, já na década de 1980, na Estufa, lá estava eu ajudando o mesmo frei nas obras da futura Creche Francisquinho. Também estive com ele me inteirando do Posto da ASEL, na Praia da Ponta Aguda. Deste lugar estão na memória: Aristeu, Odócia, João Araújo, Ambrósio, Filhinha e tantas pessoas desta terra, a Ubatuba maravilhosa!
               Agora, relendo a tese de doutorado do Olympio Corrêa de Mendonça, defendida em 1978, novamente sou instigado a escrever a respeito do Frei Pio.

              "A instabilidade social da região dificulta muito o levantamento estatístico do número de suas casas e seus habitantes. A transformação causada pelas obras da Rio-Santos, a especulação imobiliária, a presença de potentes barcos de pesca nesse litoral e a proibição da caça de subsistência têm estimulado o êxodo para as cidades. O Bairro da Estufa, em Ubatuba, tem recebido um enorme contingente de famílias de retirantes. Em Ubatumirim, porém, onde se instalou uma missão franciscana, o êxodo rural é menor. Há casos, inclusive, de famílias que mudaram para Ubatuba, gastaram o dinheiro da venda de seus terrenos, e depois voltaram para a região, internando-se nos sertões do sopé da Serra do Mar, para formar novas posses, onde lavrariam a terra, beneficiariam a mandioca, e dedicar-se-iam à caça de subsistência, únicas atividade para as quais estão preparados."

               [...] De 1970, quando começou o desmatamento para a construção da estrada de serviço [dando início à rodovia que nos ligaria à vizinha Paraty],  até hoje, quando o asfalto corre por vales, corta morros, aterra mangues e já está para se encontrar com o trecho que vem de Santa Cruz (R.J), e as autoridades prometem a inauguração do trecho Ubatuba a Santa Cruz, para meados de 1976, a região já sente os sintomas e as consequências de uma transformação radical. Junto com o desenvolvimento chegou a destruição. [...] O caiçara antes já abandonado, recebe agora o tiro de misericórdia. As pressões econômicas, físicas, psicológicas, despojam-no de suas posses seculares (Ver SEMEDO, Fernando. “Rio-Santos ameaça tudo, até os caiçaras”. O Estado de São Paulo. São Paulo, 29 out., 1973). Os terrenos chegam a ser vendidos por centímetros. É a Costa do Ouro Brasileira; não há lugar para os que a lavraram durante cerca de 300 anos.
               Os caiçaras expulsos das terras de seus ancestrais, são apertados nos sertões dos sopés da Cordilheira Atlântica, tornam-se, mais raramente, caseiros de suas próprias terras, já vendidas a preço baixo, e, no mais das vezes, são jogados às sarjetas das cidades vizinhas, que se incham nas favelas, que já começam a proliferar pelos mangues e morros.

               [...] Se não tivesse existido o esforço ingente da Ação Social Estrela do Litoral (ASEL), dos Frades Conventuais, talvez esse “Império Caiçara” já estivesse totalmente devastado.
               Frei Pio Populin, missionário franciscano conventual, nascido em 17/02/1913, chegou a Ubatuba em 1966. Seus primeiros contatos com os caiçaras são narrados por Stipp Junior:

               “... no meio dos turistas, sua atenção foi atraída por aquela gente simples e pobre que chegava pelo mar, com sacos de farinha ou cachos de banana para vender...”

               Ele embarcou-se numa daquelas canoas feitas de um só tronco e penetrou no chamado “Império Caiçara”. Mais tarde, vencendo dificuldades enormes, instalou em Ubatumirim, no coração da região, o Centro de Promoção Humana e Profissional, mantido pela ASEL da qual foi fundador e presidente.


               Sei dos esforços do Frei Pio. Meus tios Salvador, Nelson e Dito Félix e tantos outros estiveram na empreitada do Estaleiro do Padre. Ele, imitando o Santo de Assis, também saía pedindo até mesmo junto aos empresários no ABC e na capital paulista. Agora, desde 18/11/2009, descansa neste chão que tanto amou, bem longe da pátria italiana.