domingo, 31 de março de 2024

SATISFAÇÃO

Nossas matas - Arquivo JRS

 

      Nossas matas têm mais vidas do que a gente possa imaginar. A todo momento, estando caminhando por dentro dela, descobrimos coisas inéditas, seres impressionantes, fenômenos que aguçam a nossa curiosidade e nos impulsionam a querer saber mais e mais. Tempos atrás, numa cachoeira quase beirando o mil metros de altitude da Serra do Mar, encontrei um caranguejo amarelo que nem sei se está catalogado pelos estudiosos. Agora, na semana passada, correndo pelo cisco numa poça d'água, avistei um bicho parecido um escorpião. Dei um jeito de recolhê-lo com uma vareta para ver mais de perto. Não era escorpião, pois não tinha aquela cauda característica, própria para picar e inocular veneno. Seu corpo terminava com um simples rabinho. Pena que eu não estava equipado para fazer um registro. fotográfico. Conversando com o Zé Rodrigues a respeito disso, ele me contou mais coisas impressionantes dessa vegetação que nos rodeia. Um dia irei registrar uma trilha com ele, contarei mais novidades desse homem que foi criado vivendo mais tempo no mato do que entre as pessoas. 

    Foi o próprio Zé Rodrigues quem me falou de pessoas que se perderam por essas matas. Algumas dessas eu conheci. Neste momento me vem à mente o caso do Tininho que foi achado depois de longas semanas. Estava morto, entre as enormes árvores, em plena serra. Parece que saiu para descansar de tudo, no ambiente que sempre fez parte da sua rotina. Ele dizia que sua família eram os bichos que encontrava nas andanças. Ouvindo falar de um desaparecimento recente nessa maravilhosa mata que nos rodeia, perguntei ao Zé: "A onça não pode ter devorado o homem?". Prontamente ele respondeu: "Isso não aconteceu não senhor. Se tivesse comido, ela passaria aqui no rancho para me contar, me daria satisfação do seu feito".  Caí na risada.  

sexta-feira, 29 de março de 2024

TERRA PARA QUÊ?

Mutirão caiçara no Ubatumirim - Arquivo Olympio


   Eu  olhei o morro ao redor, onde outrora o meu povo cultivava sua subsistência, garantia a minha existência e a nossa cultura. Agora estava completamente ocupada por propriedades de gente rica, com quase nenhuma árvore e muitas porções de terra recoberta com cimento. A cachoeira que bastava ao povo do lugar desapareceu. Poços foram cavados nas profundidades enquanto a empresa que lucra com água não se interessa no investimento. São em momentos desses que eu mais penso na preservação ambiental. Os meus antigos, em seus roçados, não causavam tais danos à natureza porque seguiam os hábitos indígenas de cultivo em pousio. A pureza das águas era algo sagrado, delas todos bebiam. Qualquer veio d'água tinha seus peixinhos, seus camarões e demais seres que ali se sustentavam. Aos animais peçonhentos, quando a morte era inevitável, havia um lugar reservado. Ali, onde era o Buraco da Cobra, toda a comunidade sabia que deveriam ser largados os bichos mortos, sem perigo para ninguém. Os peixes e frutos do mar eram básicos na sobrevivência. Suas cascas e seus restos serviam para realimentar a terra, sustentar  as raízes e frutas tão essenciais à vida, se juntavam no monturo às folhas secas e galhos e eram revolvidos pelas galinhas, pela criação. Vidros eram guardados à parte, tinham suas serventias diversas. Plásticos não era comum. A posse da terra era para servir à vida do povo que ali habitava. Agora, lendo um documento antigo, do século XVII, lavrado pelo Juiz Ordinário Diogo Couqueiro, me deparo com a fundação da Vila Nova da Exaltação da Santa Cruz do Salvador de Ubatuba, cabendo ao Capitão Jordão Homem da Costa "fazer a Vila e Igreja, gastando com sua fazenda por provisão que tem da Senhora Condessa dona Mariana de Sousa Guerra [Condessa de Vimeiro], proprietária das ditas terras e Senhora... por sua Majestade e assim por esta escritura assim eu e o mais herdeiros assinados como contentes que a possa dar de sesmaria a quem lhe parecer que a possa aprovar e aproveitar e pagar dela os dízimos a Deus e os redízimos ao dito Capitão para enviar à Senhora Condessa e assim o havemos por bem e tiramos todo o nosso dito domínio e poder careçam se temos algum direito nas ditas terras para que o dito Capitão as possa dar aos ditos povoadores que é assim serviço de Deus e de Sua Majestade e da dita Condessa, sendo por testemunhas...". E segue poucos nomes, os tais primeiros povoadores. Nada se diz referente aos povos originários, à etnia Tupinambá, a nossa importante raiz cultural, uma das bases da cultura caiçara. Mais tarde, no advento do turismo, aconteceu algo semelhante: não houve esforço para aprender com as pessoas que habitavam o espaço litorâneo, que aqui viviam há séculos. O resultado está aí: uma massificação cultural e uma destruição do meio ambiente. Foi claro o desrespeito cultural! 

   Tenhamos a convicção que é a cultura, formada pelo tempo de vida humana sobre este pedaço de chão chamado de Ubatuba, que permite um elo muito forte da comunidade com todos os demais seres (plantas, animais, rios, mar etc.). Digamos que isto é espiritualidade de fato. O resto é tramoia de poucos para viverem às custas da maioria, para destruir a natureza. É evidente que a dívida pelo roubo praticado pelos invasores europeus e por especuladores dos tempos recentes ainda permanece, tem seus desdobramentos cruéis. O futuro está ameaçado.

quinta-feira, 21 de março de 2024

COM CARINHO

   

Meu filho e um livro - Arquivo JRS

  Eu acordei pensando na família, sobretudo na aniversariante Maria Eugênia, nossa querida filha.  Na primeira página da minha leitura, no livro Natureza Selvagem, a autora (Miriam Lancewood) deixa uma mensagem admirável. Vale para mim, vale para todos. Bom dia e boa reflexão, gente  do bem!


Oh, mães,

Beijem seus filhos antes que o dia termine. Deixe que a verdade sempre os ilumine. Façam com que saiam e tenham a sua vez como minha mãe comigo assim o fez.


Oh, pais,

Cantem uma carinhosa canção a seus pequenos sobre a terra à qual todos nós pertencemos. Cantem sobre o amor e sobre a liberdade como cantou meu pai na minha mais tenra idade.

sexta-feira, 15 de março de 2024

TEMPEROS PARA O VIVER

 

Temperos - Arquivo JRS

     Diante de acontecimentos políticos recentes, voltei a pensar no descaso para com a Educação e Cultura. Qual sociedade evolui com ignorância? E retomei a poesia de tempo atrás:


Esta ideia mal resolvida

Essa gente má

Mistura de milicianos

E fanáticos crentes

Cimentados com ignorância

E ruindades em geral,


É, este país vai mal!


      Há muitos fatos que abalam, modificam culturas, podendo até fazer com que desapareçam. Por esses dias, recebendo notícias das posições políticas mais reacionárias no Brasil e no mundo, vou chegando à conclusão que modernidade desaba. É triste perceber que a racionalidade está sofisticando a violência, dando retoques nos requintes de crueldade e, pior, disciplinando os mais fracos para isto: ser contra eles mesmos. O que ocorre é uma alteração da vontade de vida que se encontrava nas culturas originárias. Eu, enquanto pertencente à cultura caiçara, não quero tal modelo de sociedade. Portanto, devo me agarrar às minhas raízes, continuar aprendendo com diversos aspectos da diversidade cultural que me rodeia, me fazer "dono do sim e do não diante da infinita beleza" que é esta Terra, conforme escreveu a filósofa Viviane Mosé. Eu tenho a convicção de que as pessoas amigas, a Educação e a Cultura podem me guiar nesse empenho de preservar a Vida.

quinta-feira, 7 de março de 2024

ONDE ESTÁ A VIDA?

 

Mar bravo - Arquivo JRS

    O mar estava tentador para quem adora a energia das ondas. Muitas pranchas ilustravam aquele azul que sumia de vista. O sol castigava. O adolescente Juninho estava entre aquelas pessoas que aproveitavam as imensas ondas.

   Surfar é coisa relativamente nova em Ubatuba, de meados da década de 1970. Naquele tempo apenas a Praia Grande servia à prática desse esporte, pois a rodovia BR-101 (Ubatuba-Paraty) ainda não se completara para revelar a famosa Itamambuca e outras do lado norte do município. Pouca gente tinha condições para adquirir prancha naquela época. Também eram poucos os admiradores do novo esporte. Prazer era tomar banho de mar, pegar jacaré (descer na onda usando apenas o corpo), jogar futebol na areia e paquerar. Ouso dizer que, dentre aqueles surfistas, poucos eram destemidos. Assim, em dias de fortíssimas ondas, a maioria ficava na areia. Eram denominados de "paneleiros". Os bermudões floridos/coloridos marcaram época. O jovem da nossa história não era desse tempo. A sua prancha era de isopor.

   Os pais de Juninho, migrantes, eram caseiros, tomavam conta de uma mansão que ocupava parte do morro e da costeira de Praia Vermelha, a Vermelhinha. Naquele dia distante ele deixou a água para nos acompanhar. Os lábios sangravam porque, para quase todo mundo, protetor solar era algo desconhecido. Logo estávamos no acesso à casa. Um remanso na costeira revelava mariscos (mexilhões) e tantas outras iguarias que o mar oferece aos povos litorâneos desde os primórdios. Eu fui catando os maiores, sobretudo mariscos e saquaritás. Qual caiçara desprezaria esses frutos do mar? Com certeza seria um reforço no almoço que a pobre senhora nos ofereceria. Fui chegando, cumprimentado a mãe e filhos menores. O pai estava ausente, fazendo uns "bicos"  para melhorar as condições de sobrevivência da família. Notei que a parte elétrica na área que abrigava aquela gente estava feia, bem arruinada. Pensei: "Sabe quando o patrão vai se importar com isso? Nunca!". Então decidi: enquanto proseava eu iria fazendo os reparos possíveis. Era o mínimo que eu poderia retribuir pela acolhida e aprendizado com aquela família. Hoje o Juninho é um profissional de renome na comunicação, na propaganda. Trabalha há anos na capital paulista. É migrante lá, assim como os pais que se mudaram para Ubatuba há  décadas. Tempos atrás eu o encontrei num supermercado, estava desfrutando de um feriado prolongado. "Faço isto sempre que posso, Zé. Não perco nenhuma oportunidade. Foi aqui que me fiz e é aqui que me refaço para enfrentar o cotidiano na cidade grande". Resumindo: aquele adolescente radiante de outrora, fruto de uma educação/vivência no território/cultura caiçara, continua do mesmo jeito, animando a gente. Me pergunto agora: quantas pessoas reconhecem uma dívida para com a natureza e cultura desta cidade, desta Ubatuba?

quarta-feira, 6 de março de 2024

REINO DA DELICADEZA

Bromélia - Arquivo JRS


Um cipó e sua flor roxa,

Passarinho preto me visitando,

Vento balançando tudo.


Galo cantando desde a escuridão,

Sons agradáveis (de longe e de perto),

Coração que não é mudo.


Aromas pelos caminhos,

Saudades de gente amiga,

Bebês chegando sob encanto.


Maria Cecília, Miguel... 

Novas esperanças e alegrias:

Sonhos de acalanto.

sexta-feira, 1 de março de 2024

UMA TRADIÇÃO

  

Um galho no telhado - Arquivo JRS

   Um novo dia vem se anunciando. Refleti durante o repouso o quanto as pessoas são dominadas, usadas para que terceiros continuem se aproveitando delas. As pressões são diversas, desde as discretas mensagens revestidas em roupagens sagradas até o uso da força bruta, ameaças de demissões, de perda de “benefícios” etc. Assim é este mundo: está fortemente baseado no princípio de que a satisfação de alguns é resultado da desventura de outros. Neste momento em que muita gente já está em busca de um alimento para a manhã que vem enxotando a noite, me recordei de uma tradição do meu finado pai.

   Papai fazia de tudo um pouco, mas era carpinteiro. Eu e meus irmãos aprendemos um pouco convivendo nas obras, acompanhando seus trabalhos. Ele tinha seus rituais na realização das tarefas, mas deixava que os filhos, por teimosia, fizessem coisas diferentes, adotassem outros procedimentos. Ou seja: a gente aprendia com ele, mas ele também adquiria outros pontos de vista com a ousadia dos mais novos. A tradição a que me referi era a inauguração da cobertura de casas. Estranho? Nada! Explico: após colocar a última telha sobre o madeiramento, ele ia até o mato mais perto, cortava um considerável galho de árvore e pregava na cumeeira da casa. Ficava vistoso, chamava a atenção aquele galho verde no alto. Estava inaugurado o telhado. Ele dizia que era uma maneira de pedir a proteção da casa. Muitas pessoas da cultura caiçara ao verem aquilo sabia do que se tratava. Aquele galho permaneceria no alto por ao menos uma semana, quando perderia as folhas. Até hoje não sei de onde veio esse ritual, mas sigo repetindo-o por acreditar na mensagem, por lembrar do meu pai e por gostar dessa tradição.