segunda-feira, 31 de maio de 2021

O GUAIAMUM

 


Guaiamum - Arquivo JRS


Como quem não quer nada

lá vai um guaiamum.

Por que saiu?

Sei lá. Deve ser apenas um passeio,

esticando as pernas.

Vai sem pressa;

só dá uma parada quando cisma.


Sou eu olhando...

É ele andando...  


E aqueles olhos

que seguem os movimentos?

E aqueles braços fortes por natureza?

E aquelas cores em tamanha beleza?


Vai, guaiamum.

Eu fico aqui só no apreciar.


Guaiamum: mais uma beleza do lugar!

domingo, 30 de maio de 2021

A REDE DO TEMPO-MAR (V)

Homens na natureza (Arquivo JRS)

As pessoas simples, da terra; os estudados, que chegam para pesquisar... A resistência precisa de aliados. Que as coisas não fiquem apenas em elaborados textos e com belas fotografias. Por trás de uma atração turística, de um lugar preservado, tem um povo sendo iludido e perseguido.


Nunca vi um governadô bota os pé aqui nas trilha

ou vir tomá um café de cana com nóis

Candidato as veis vem quando é época de eleição

mas já tamo cansado desse falatório de mentira 

e dessa enganação

Num adianta ocê fala com sua língua de estudado

sobre protege e preservá

essas coisa é bunita só nos banco das faculdade

que é frio e longe da realidade

Quantos pesquisadô vem toda hora pra falá com nóis, e 

diz que é pra fazê livro e fazê filme e num sei  mais quê

que é pra ajudá a nossa cultura e depois

vão simbora e ganham dinhêro com as coisas

que nóis faiz pra vivê 

Ora seu moço

ocêis deviam era de aprender

cos antigos, co’as coisas de cada povo

que já vive aqui e nos otro lugá muito antes de ocêis chegá

Não se conserva as mata e o mar se não soubé de usar

sem tirar demais, sem deixar demais

as marca dos homes e suas vaidade de ter tudo

em todo lugá

Ora seu moço

não se “sarva a natureza”

si não não se respeita o povo

que nasceu nesse lugá

isso que eu to lhe dizendo

não sou eu que diz não

é a natureza que tá a ensiná

faiz muito tempo já.

Isso, cêis vão publicá?!


sábado, 29 de maio de 2021

A REDE DO TEMPO-MAR (IV)

 

Cacho de bananas (Arquivo JRS)


        E assim seguimos pela poesia do Santiago, onde a busca por um significado e uma comunidade suplanta todas as coisas.


E eu pregunto mais otra coisa procêis

que são estudados:

quando fizeram essas lei e esse parque e essa estrada grande

que trouxe um monte de gente deseducada do respeito

ocêis por acaso arrepararam que as coisas pioraram na natureza

que as matas foram mais cortadas, os rios ficaram sujos, as praias

cheias de prástico, que os pexes tão sumindo cada veis mais

que o esgoto corre pelas ruas 

e os mangue tão se acabando

aterrados pra dá lugá pros condomino,

desde de que  isso tudo chegô?! 

Arrepararam?!

E o governo e a policia florestá e essa gente do “meio ambiente”

vem nos dizê que a curpa é nossa!!

Tá certo isso?! 

Essa coisa de turismo,

com todo esse barulho e  essas droga

e lixo do verão e dos feriados 

nóis não pedimo não, foi colocada pra dar dinhêro

aos que já tinham di montão

e muitos agora tem de fazê igual

pra podê  sobrevivê e “ganhá o pão”

Ou cêis tão enganados ou precisa di estudá mais e olhá

de verdade o que acontece

Quanto tempo de suas vidas ocêis passaram

dentro de uma canoa de um pau só

olhando o mar por dentro?!

Quanto tempo ocêis andaram nas mata conhecendo

as prantas e os bichos, cada um do seu jeito de viver e se criar?!

Será que é mais tempo do que os nossos pais e avôs e bisavôs e

todos os que vieram antes deles desde os índios?!

Uma arvre cresce na tela do seu computadô?!

Ou nas foto do seu celulá?! 


sexta-feira, 28 de maio de 2021

MOMENTO LITERÁRIO - FAKE NEWS

 

Livros na estante Arquivo JRS)

    Quando lemos uma notícia, geralmente lemos os fatos. Contudo, a notícia pode também conter opinião. E como fazemos para distinguir “fato” de “opinião”?

    Ao perguntar, após ler um texto: “Qual dessas afirmativas eu posso provar?”, eu estou em busca de identificar os fatos. Se quero saber quais afirmativas refletem as crenças e pensamentos do escritor, estou na determinação da opinião.

     Uma opinião é um julgamento que reflete crenças e sentimentos de uma pessoa. Não é necessariamente uma verdade. Explorando isto, temos as fake news grassando em nosso meio, causando intrigas, mortes etc. e pondo em risco até a possibilidade do exercício democrático na atualidade. Nesta direção, na abertura do nosso segundo Momento Literário, a professora Solange bem dizer traçou a rota do evento: não tem como não enxergar os danos de uma visão negacionista na sociedade brasileira. O processo educacional não pode se omitir em defender o conhecimento científico. Este é um dos fundamento dos estudos sistemáticos. E também precisa denunciar absurdos como, por exemplo, o presidente do país, longe de ser médico ou pesquisador, forçando o uso da hidroxicloroquina e ivermectina no combate ao vírus do momento - covid-19 - e demorando para agilizar vacinas, segue resultando na morte desnecessária de milhares de nossa gente. Ela elogiou ainda a existência do SUS - Sistema Único de Saúde - e salientou que muita gente foi  enganada e/ou continua repassando esse ato criminoso, essa mentira conveniente a poucos graças ao fenômeno fake news. 

        Bem interessante a dinâmica aplicada (de ler frases e fazer os participantes se inteirarem dizendo se era fake ou fato), com os comentários do professor José Carlos, professora Kátia e outros participantes. Alguns dos resultados comprovaram o que as pesquisas já mostraram: cerca de 70% das pessoas se informa apenas pelas redes sociais, onde fake news é que não falta. Grande desafio para uma educação libertadora!

Alguns pontos de atenção/reflexão nesta Era Digital:

1- Agentes mal-intencionados podem explorar facilmente para espalhar informações errôneas e desinformação, crueldade e preconceito, pois há a possibilidade do anonimato na web. 

2- Prevalece o isolamento em bolhas ideológicas e a relativização da verdade.

3- O ativista de internet Eli Parisier escreveu em seu livro  O filtro invisível que “com o Google personalizado para todos, a consulta, por exemplo, ‘célula-tronco’ pode trazer resultados totalmente opostos para cientistas que apoiam pesquisas com células-tronco e ativistas que se opõem a elas. Outro exemplo: ‘provas de mudanças climáticas’ podem trazer resultados diferentes para um ativista ambiental e um executivo de uma petroleira.

4- A tecnologia encanta; fica cada vez mais difícil escapar das notícias falsas. Vozes já podem ser recriadas a partir de amostras de áudio, e expressões faciais podem ser manipuladas por programas de inteligência artificial. No futuro, talvez vejamos vídeos realistas de políticos dizendo coisas que eles jamais disseram. Um perigoso avanço tecnológico mexerá ainda mais com a nossa capacidade de distinguir entre a imitação e o real, o falso e o verdadeiro.

 5- Só a educação e uma imprensa livre e independente serão cruciais para criar um público informado, capaz de escolher seus líderes com sabedoria. 


      Em 1890, Rudyard Kipling escreveu: “Somos todos ilhas gritando mentiras umas para as outras através de mares de incompreensão”.  Já se passou tanto tempo, mas as mentiras continuam. E agora mais fortalecida pela tecnologia recorrente por motivos espúrios! Só o desenvolvimento da nossa capacidade reflexiva, aliada ao desejo de um bem coletivo, será capaz de barrar as piores opções. Agradeço a todo mundo que participou, tentou entender e continuará sensível à problemática deste Momento Literário. 

       Organizadores e participantes estão de parabéns! O próximo será no dia 03 de julho. O tema é sobre Causos. Prepare o seu e venha participar.

Alguns passos para identificar fake news: 

Fonte:http://www.blog.saude.gov.br/index.php/servicos/53504-8-passos-para-identificar-fake-news -  Acesso em 01/03/2021


Ah! Uma pergunta básica a ser feita constantemente: Qual é a fonte?


Livro-base: 

A morte da verdade, de Michiko Kakutani.


Livros complementares: 

Leitura – um jogo de estratégias, de Alexandra Mansur e Beatriz Pacheco; 

21 lições para o século 21 – Yuval Noah Harari.


quinta-feira, 27 de maio de 2021

A REDE DO TEMPO-MAR (III)


A casinha do nhonhô Armiro, na Fortaleza (Arquivo JRS)

      E, debaixo de uma sombra,  a prosa feito poema continua. Dá-lhe, Santiago!


Nos disseram que a riqueza ia chegá pra todo mundo

mas nóis já era rico e sabia

agora nóis não é mais não

Prometeram tanta coisa

e não veio nenhuma não

Hoje em dia a gente vive empurrado pro sertão

si nóis sobe os pé de serra prá fazê uma casinha

vem os home do meio ambiente e põe no chão

mas as casa grande dos turista não põe não

si nóis faiz uma roça prá plantá

feijão, cana, mio ou mandioca

vem as lei e ranca tudinho

mas as piscina nas costera não

Uma coisa que cumpriram

Direitinho e sem perdão

foi  tirá nóis da nossa terra

sem nenhum direito não

Nóis morava lá na praia

perto da boca do rio

respeitava os ciclos da terra

respeitava os ciclos do mar

Então veio também o parque

estadual da serra do mar

e também disseram que a gente não podia mais plantá

nem siquer fazer conserto

das parede do nosso lar

mas quando vem a chuva forte

E derruba os píer dos políticos

Que tem mansão na beira do mar

ele liga pro governadô

e põe di novo no lugá

e a gente fica pensando

que o dinheiro compra tudo, as lei, os home, o mundo

e também nosso lugá

só não compra nossa história, nossas alma e nossas vida

mas a tristeza há de ficar

E é por isso que eu lhe digo

seu moço tar de ambientalista

senhorita estudada em biologia

e nessas coisas mais que oceis adora proseá

co’as palavras que só oceis intende no paper

Nóis não tem estudo não, nóis não tem diploma ou carro

nossa faculdade é o mar, é as planta da floresta

os rios e os animá

nosso estudo é as época de cada coisa, 

cada planta, cada cardume de pexe

cada fase da lua, cada maré que sobe e desce, 

isso a gente aprendeu cos bisavós e 

tem dado certo inté então 

inté chegá o governo co’as suas leis estranhas

e co’as suas opressão


quarta-feira, 26 de maio de 2021

A REDE DO TEMPO-MAR (II)

 

Prosa no jundu (Arquivo JRS)

Continuando nas veias poéticas do Santiago...


O velho caiçara estava ali... E eu...


...Sentado num toco, escuto, distante, ondas de uma maré antiga ecoando no meu silencio e nas cavernas de corais dentro do grande, imenso mar do tempo:


Si o moço qué sabe

eu vou conta pro sinhô

Eu nasci debaixo  dessas arvres

lá bem perto do marzão

Aprendi desde cedinho

 a ter calos nas mão

Antes eu era pescador

de rede, canoa e remo

levantava antes do sol

pra pescá o pexe bão

Era simples e tranquila a vida

 mas fácil não era não, 

mais nóis tinha o que precisava

e não era muito não 

Mas bastava e nóis sabia

que era feliz e hoje nóis não é mais não

E então chegou a estrada

cortando as terra desse chão

como um rio de asfarto

dividindo nossas vidas

separando o mar do sertão

E chegou as casa grande do povo da capitá

invadindo nossas praias e cercando nossas trilhas

com arame, farpa e mourão

e eu que era pescador

hoje já não sei o que sou

pois as casas pequeninas de bambu barro e sapé

foro tudo derrubada

prá levantá os casarão

dos que vinheram de longe 

ocupá o nosso chão

e nos rancho abandonado

os petrecho apodreceram sem ter mais uso não

coisa triste de se ver

As canoa encostadas sem voltar mais pro marzão

Prometeram tanta coisa 

vida boa e trabaio, casa, escola, leite e pão

mas cumpriram nada não

Foram derrubando as mata

arvre grande e pequena foi tudo pro chão

e a gente nem podia

rancá um pé de ingá, cedro , canela ou guapuruvu

prá fazê uma canoa pra gente podê pescá


terça-feira, 25 de maio de 2021

A REDE DO TEMPO-MAR (I)

 

Consertando rede (Image: Santiago)

Santiago se põe ali, de lado; esmiúça o olhar enquanto semeia e colhe palavras. Aos poucos vai trazendo nas malhas palavras em mensagens que nos alegram. Valeu, irmão!


A rede do tempo-mar


       A tarde era um mar alaranjado pelo sol poente, brilhando nas malhas secando na areia. Praia vazia de outono, quando enfim o sossego volta a pousar na beira d’água que desliza mansinha na madeira da canoa.

       Eu andava por ali, conversando com um velho consertador de redes, que lembrava histórias, causos, com a tranquilidade de um remanso no olhar... e a profundidade do mar em dias longos. Suas mãos continham a arte de tecer o fio de rede do tempo nas histórias que voltam à memória como ondas indo e vindo nas marés do existir. 

       Lembro dele de quando guri eu andava por estas bandas com os pequenos amigos de escola, passando rede picaré, pulando das pedras, indo de trilha para a praia Brava. Ele era então pescador... contava histórias do mar, das ilhas tantas que há por ali ao redor dessa vila antiga de gente da terra e não só do mar, pois eles plantavam. Época iam para o mar “colher” peixes, época iam pra roça colher mandioca, milho, cará, feijão... 

       Ele consertava a rede de cerco do neto. Mãos velhas e enrugadas, mas ainda ligeiras do oficio de tanto tempo, pensamento sereno e um tanto triste, como uma manhã de agosto quando um vento traz à praia os restos e silêncios de naufrágios. 

     Caminho pela praia, pensando... eu que já não sou pescador há tanto tempo... desde que as leis proibiram a pesca que meu pai fazia, e o velho naufragou na tristeza dos que nada podem contra as marés dos homens e suas injustiças e ganâncias. 

       Hoje sou um pescador de palavras. Mas às vezes jogo a rede, jogo a rede e nada. Dias em que “o mar não está pra peixe” e o coração não tem palavras... um bolo de silêncio de sal na garganta. Rodeio o velho consertador de redes, como um menino rodeando a grandeza do mar. Aproximo-me e sento quieto ao seu lado. Ele não se incomoda, segue em seu trabalho, dedos rápidos na agulha remendando buracos, reforçando a malha. Talvez ele lembre, e veja apenas um menino querendo aprender coisas antigas, escutar a voz do tempo na voz do homem. 

       Em silêncio nos quedamos assim, ele na sua arte, eu na minha solidão de escrever com os olhos, sobre a superfície das águas morosas. Por quanto tempo?! Talvez pela eternidade adentro... pelo oceano de ilhas-histórias que não voltam mais, talvez por um momento apenas...

          Dois jovens se aproximam, um moço e uma moça “da cidade”, param, olham, se achegam, pedem conversa, câmera e caderno nas mãos e uma certeza de um mundo de longe, que não esse. 

         O velho consertador de redes para, ouve a fala deles. Olha o mar, o reflexo dos barcos ancorados no abrigo, a luz do sol de fim de dia deslizando nas pedras lisas, e seu olhar parece um mar olhando outro mar... e os dedos prosseguem em seu trançado, como se trançasse o tempo, a memória, o pensamento. E não pudesse parar. E depois de alguns minutos em silencio ele começa a falar. E é como se o próprio tempo falasse.


segunda-feira, 24 de maio de 2021

MARIAZINHA NO ENTARDECER

 

Entardecer na praia (Arquivo JRS)

     Mariazinha, depois do banho, antes do jantar, se dirigia à praia. Nem dia chuvoso impedia esse ritual dela. Era para caminhar lentamente de uma ponta até a outra, com águas das ondas nas canelas. Poucas vezes ia só. Sempre alguém lhe acompanhava. Podia ser um primo, uma prima, uma das irmãs ou alguém que era apenas parente. Todos naquele lugar eram parentes. 

    Em mais de uma ocasião, eu a acompanhei. Seguíamos proseando coisas da nossa vidinha dali mesmo, mas já notando "a gente de fora", os turistas e migrantes que estavam chegando ao nosso lugar. Ela, por aqueles dias, estava cismada com um catarinense embarcadista. Neco era o nome dele. Uma vez por mês, na lua cheia, a traineira dele fundeava na nossa baía por uns dias. Por volta de dez pescadores desciam à terra, faziam amizades, se divertiam com a caiçarada da praia. As moças do lugar se alvoroçavam, organizavam bailes e se empenhavam nas quermesses. Os moços de fora atraiam as atenções. De fato, Neco e Mariazinha namoraram um bom tempo,  parecia que ia desembocar em casamento. Mas alguém, da turma do pescador, não suportou ver a caiçarinha enganada. Revelou que seu admirador era casado em sua terra. Desilusão dela; tristeza nossa. Já sonhávamos com uma festa de arromba, repleta de bolos, refrigerantes e doces diferentes. Se salvou de um aproveitador. O que deu forças para superar a triste situação, me confessou num entardecer: "Só por ter vocês e podermos caminhar juntos, em prosa, é que eu dei a volta por cima. Nesses momentos é que eu sinto que somos, neste lugar, uma grande família. Que bom que temos um hábito assim, de viver isto a cada serão!".

      Não demorou muito para a Mariazinha se encantar por outra pessoa. Assim que casou, longe dali, vieram dois filhos. Mas também não levou tempo nenhum para ela deixar esta vida. Parecia feliz. Eu a encontrei poucos meses antes de morrer. Agora, no entardecer, lembro-me dela. "Nossa! Tudo passa tão rápido! Nem vi a Mariazinha se tornar Maria e deixar de ser tudo isso!".

domingo, 23 de maio de 2021

O HOMEM VEM AÍ

Morreu na contramão atrapalhando o trânsito (Arquivo JRS)

      Hoje, logo cedo, quando o sol já iluminava bem, da minha varanda escutei um poc-poc-poc. E seguiu se repetindo. Pensei: "Um pica-pau". Até quis acordar as "crianças" para apreciar, mas desisti. Me postei num degrau logo ali e fui firmando a vista na direção do som. Era no abacateiro que ele estava. Me aproximei devagarinho, na direção de onde vinha o som. Uma sabiá voou, mas o poc-poc-poc continuou. Pronto! Lá estava o passarinho! Num galho seco cortado ele insistia. Sabia que o tronco continha tinha alimento. Ah! Como o barulho perturba! Aquele poc-poc-na cabeça... As formigas reagem e vão saindo. É quando viram comida daquele pica-pau minúsculo, cinzento, até fácil de ser confundido com uma rendeirinha. A respeito de passarinhos, Rubem Alves, em 2004, escreveu:

  Canários -da-terra moravam  nas árvores da minha infância. Amarelos, cabeças vermelhas, eram também conhecidos como "cabecinhas de fogo". Aos poucos foram sumindo. Pensei que haviam nos abandonado. Definitivamente. De medo. Para sobreviver. Teriam ido para longe dos homens... Bachelard, falando sobre sua experiência com um pássaro que havia feito um ninho em seu jardim, nos descreve a nós como aqueles que perderam a confiança dos pássaros. E com razão. Tantas coisas horríveis lhes fizemos. Nos meus dias de infância, o esporte favorito dos meninos era matar passarinhos com estilingue, pelo puro prazer de matar. Ou engaiolá-los. Há  uma canção de Chico Buarque sobre a passarada em que a alegria é sempre interrompida pelo refrão "...O homem vem aí, o homem vem aí". Mas os pássaros estão voltando [...] Vi, nas montanhas de Minas, um espetáculo maravilhoso que nunca imaginei que existisse: bandos de mais de 50 canários-da-terra voando. Isso me deu alegria e esperança.

   Ele estava certo: os canários-da-terra voltaram. Mas sabe por que eles agora se mostram pelos nossos caminhos, nos loteamentos? A razão é a aprovação de leis que os protegem e que pune aquelas pessoas que insistem em engaiolá-los. Dias desses, sabendo que é contravenção, que o policiamento funciona, escutei alguém alertando um "cabeça-gorda" que se deleita em ver pássaros presos: "Cuidado, os hómi vem aí".

sábado, 22 de maio de 2021

O MENINO E O BICHO-CACHORRINHO

 

Bicho cachorrinho (Arquivo JRS)

No nosso terreiro,

numa folha de palmeira,

um bicho-cachorrinho.

"Saia daí, menino!".


Era alerta da vovó:

"Disso, menino, tenho vivência!".

Ela sabia do perigo

de bicho buscando abrigo.


Que lindo! Vontade de pegar.

"Menino! É boniteza que queima!"

E assim apreendemos,

sobretudo das coisas que queremos.


Agachado, de longe...

"Ficar admirando pode, menino. Só isso!".

E o bicho seguiu...

Triste de quem não viu!

sexta-feira, 21 de maio de 2021

O OBELISCO

 

1937- Inauguração do obelisco na praça da Matriz (Arquivo Ubatuba)


     Era o dia 30 de outubro de 1937.

     Impertinente chuva caía, o povo adensado na praça, crianças uniformizadas das escolas circundando o obelisco. Pequenos marinheiros da Escola de Pesca de Santos, perfilados. Precisamente às 14 horas estruge uma salva de 21 tiros e o dr. Felix Guisard Filho descobre o elegante e rico monumento. Trata-se de uma esguia coluna de oito e meio metros de altura, toda de granito picotado, tendo nas faces anterior e posterior, de um lado a esfera armilar do Estado do Brasil, marco da época da colonização e de outro, no simbolismo severo do bronze, o brasão de armas da cidade. Nas faces contrárias, duas placas de bronze com inscrições, elaboradas pelo ilustre membro do Instituto Histórico e diretor do museu do Ipiranga, sr. dr. Afonso d'E. Taunay [...] Descoberto o monumento, o revmo. padre J. Passos, sacerdote ubatubano e cura da catedral de Santos, deu, de acordo com o rito católico, a benção cristã ao marco comemorativo dos trezentos anos de vida de sua terra natal.

    Ato contínuo, o sr. dr. José torres de Oliveira, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de S. Paulo, diz das razões que privaram Ubatuba da presença do ilustre chefe do Estado, que mais de uma vez demonstrara firme intenção de comparecer à solenidade e inaugurar o obelisco chantado na própria praça onde se viam as ruínas do "Ateneu Ubatubense", primeira casa de instrução que s. excia. frequentara na meninice. Infelizmente todos os ubatubanos, com os próprios olhos, estavam vendo quais eram essas razões, exclusivamente determinadas por traição do tempo.

(Do livro Terceiro centenário de Ubatuba - Instituto histórico e geográfico de S. Paulo)

quinta-feira, 20 de maio de 2021

CADÊ AQUELA ÁGUA?



 
Mapa antigo da cidade de Ubatuba (Arquivo Ubatuba)


           Tempos desses, bem pouco, recebi uma mensagem do professor Nelson:       

      Me mudei de Ubatuba em 1989 aos 4 anos. Sou Neto de Dona Maria Grazia e do Senhor Vicente Cianci. Morei na Rua Hans Staden (atualmente onde está localizada a Escola Gaia). Sempre dou um pulo aí nas férias de janeiro ou julho (Temos casa de veraneio no Perequê-açu). Atualmente sou Biólogo. (Já passei pelo Aquário de Ubatuba e Projeto Tamar na época de Estagiário e também trabalhei no Zoológico de São Paulo), mas atualmente sou Professor de Biologia da Rede Estadual no Município de Suzano (onde moro) e Ciências! Acompanho seu Blog há 3 anos. Parabéns 

     Em seguida, recebi mais informações dele:

   Por ali tinha muitos terrenos vizinhos ao nosso que, ao longo da década de 90, deram lugar a muitos prédios residenciais. O terreno da nossa casa é (ou era enorme, depois que tivemos que vender a propriedade em 1997 nunca mais tive oportunidade de entrar lá...). Mas lembro que no nosso quintal, que meu avô nomeou de Chácara dos bagrinhos, tinha mais de 30 espécies de árvores, a maioria frutífera, como jabuticaba, abacate, ameixa, lima, bananeiras, pitangueira, limão e muitas outras...Lembro de uma família grega que morava na casa próxima, do outro lado da rua e tinham um comércio quase na esquina, pertinho da praça 13 de Maio.

    Focando minhas lembranças no centro da cidade daqueles anos, me lembrei do saudoso Otávio, filho da Maria Galdino, da Caçandoca. Era ali, na vizinhança descrita pelo professor, que esse cidadão viveu até o fim da vida. É, colega, muitas coisas mudaram! E mudaram demais!

    Relendo a mensagem caprichada do Nelson, me detive no nome da propriedade do avô: Chácara dos bagrinhos. E fui buscar um mapa da metade do século passado, quando estava nascendo o Campo de Aviação. Corria por ali, vindo de uma mina existente depois da Rua Conceição, na propriedade das religiosas agostinianas, na A.L.A, entre as ruas Cunhambebe e Gastão Madeira, um córrego. Mais adiante formava um brejo e depois seguia no rumo da Barra da Lagoa. Essa água, natural do centro da cidade, desapareceu ou foi canalizada? Passa por onde? Quem poderá esclarecer mais questões ou dar notícias dela?

    No último final de semana, como quem não queria nada, fui olhar nas imediações do aeroporto. Naquele canal marginal, lá no final, notei um canal subterrâneo chegando, deixando uma água clara por ali. Desconfiei que ali estava chegando aquele córrego histórico, que constava no mapa. Então desconfiei de uma coisa: o senhor Vicente adquiriu o terreno por onde passava a dita água. E tinha peixes! Daí o nome Chácara dos bagrinhos. Será mesmo?

   Parabéns a você, amigo! É assim, com lembranças, que vamos levando este blog.