domingo, 17 de fevereiro de 2019

HISTÓRIA E MEMÓRIA CAIÇARA

Na camiseta (Arquivo JRS)


               Com este título, o professor Diegues (Antônio Carlos Diegues), abre o volume IV da Enciclopédia Caiçara:

               Caiçaras ou praianos do litoral sudeste brasileiro raramente aparecem nos arquivos e documentos históricos. É como se eles nunca tivessem existido e mesmo historiadores locais raramente se referem a eles, à gente dos sítios. Em alguns dicionários o termo caiçara é associado à pessoa indolente, preguiçosa. Até documentos recentes que se referem, por exemplo, à criação de áreas protegidas e reservas naturais em territórios sabidamente habitados por caiçaras, os ignoram ou, às vezes, os classificam como “bons selvagens”, pessoas que viveriam imersas na natureza, sem direitos de cidadania.

               Os caiçaras fazem parte das populações brasileiras pobres e marginalizadas, apesar de terem mantido relações sociais e econômicas com as cidades da região.
História Oral e Excluídos

               Tonglet (2002) se interroga se os pobres têm história e se o próprio fato de se formular essa pergunta não é um sinal que confirma sua exclusão da sociedade. Para ele, encontrar o lugar dos pobres na história não é coisa fácil, pois os arquivos guardam somente os relatos escritos e os pobres raramente deixaram esses relatos. Hannah Arendt (1967) fala dos pobres como condenados a viver na sombra e afirma que a verdadeira marca da pobreza, mais que a própria miséria, é sua invisibilidade histórica.

               Tonglet (2002) afirma, no entanto que os pobres têm uma história, pertencem a uma história e “fazem história na medida em que os reconhecemos como atores na construção de nosso futuro comum” (p.55).
               Para Perrot (2002), o silêncio rodeia a vida dos humildes e marginais, mas esquecê-los é uma forma de negar sua existência, o que explica o desejo legítimo de reconstruir sua história. Para ela, o que não foi objeto de um relato não existe. Esse parece ser o caso dos caiçaras.
               Para os historiadores ligados aos Annales, uma nova História, livre de procedimentos rígidos, em que a história do presente, do cotidiano e da experiência individual adquiriram significativa importância, incorporou o tema da oralidade e da memória que, juntamente com o da cultura, passou a ser para os historiadores um desafio e motivo de renovada criação, como atestam os trabalhos de Braudel, Le Goff, Thompson e Keith Tomas entre outros.
               No Brasil, na década de 70, a História Oral servia quase que exclusivamente para trabalhar com as comunidades dominadas, isto é, as que, por motivos mais que conhecidos, não tiveram oportunidade de ter suas histórias registradas, por não fazerem parte das elites dominantes. Havia a dicotomia entre a chamada história oficial e a não oficial e, esta sim, poderia oferecer um universo próprio para ser explorado através da História Oral (Correa, 1996, p.63).
               O desenvolvimento recente da chamada História Oral como método de pesquisa, recomendado também por cientistas sociais, desejosos de enriquecer o conhecimento com experiências vividas e de romper com o caráter unilateral das memórias oficiais, tem permitido um conhecimento mais aprofundado de populações tradicionais, como os caiçaras, seu modo de vida e sua história.

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