![]() |
| Horizonte - Arquivo Ana |
Era um
sábado, bem cedo cheguei no ponto de ônibus. Mais cedo ainda havia
chegado alguém. Pelo jeito, a verdade mesmo seria que ele passou a noite ali. Assim estava calçado
de chinelos, com uma mochila surrada demais, roupas sujas e um cheiro característico
que o denunciava. “Coitado, é um morador de rua. Jovem ainda, mais uma vítima
do sistema”. Assim que ele percebeu a minha presença, puxou conversa. Foi então
que eu o reconheci de outros tempos, de quando eu trabalhava com meu pai pelas
obras. “É da praia do Lázaro, caiçara como eu. Que situação triste”. O pai dele, assim como o meu, era pescador-carpinteiro.
A família, pelo que me lembro, era bem religiosa, evangélica, frequentava uma grande
igreja local. “Como a congregação deixou um de seus membros decair tanto assim?”.
Lembrei-me de uma observação do Jorge Ivam acerca de certas doutrinas capazes de conseguir
incutir ideias que desenraizam as pessoas e deixam elas como arbustos secos.
Seria o caso dele?
O cidadão
em questão, agora não mais tão jovem, trabalhava com o pai. Portanto,
sabe lidar com madeiras, entende de construção. “Como será que chegou a esta
situação, de morar nas ruas?”. Fiz de conta que nem percebi a condição sofrível
dele, continuei na prosa mais escutando do que falando.
- Estou
indo para a chácara da minha irmã, vou fazer um galinheiro lá. Devo passar uns
dias com ela.
Ainda bem
que ele ainda mantém laços com familiares, não fica o tempo todo na insegurança
das ruas, correndo o risco até de ser morto por “gente de bem”, que se acha superior,
com direito até de recorrer a métodos extremos para limpar a cidade. Entre
assuntos fúteis, de personalidades ricaças mostradas nas mídias (Silvio Santos,
Neymar etc.), o nosso empobrecido personagem relembrou a morte do Bagana, caiçara da
mesma praia que ele.
- Coitado do Bagana, né? Antes do almoço ele
foi pescar na costeira como tava acostumado. Foi sozinho. A mulher, sentindo a
sua demora, ficou preocupada. Seu filho, o Fabinho, que sabia que ele tinha ido
na direção da Aguadinha, disse pra mãe que iria procurar lá. E naquele lugar da
costeira encontrou o Bagana morto, caído lá embaixo nas pedras. Parece que o
cipó que ele se agarrou para passar de uma pedra pra outra não aguentou,
arrebentou. Tava morto lá embaixo. Coitado do Bagana.
Fiquei impressionado com aquele morador de rua, caiçara que, constatando a vida que leva, não teve forças perante alguma passagem muito ruim na vida. De maneira tranquila ele fez questão de, naquela minha primeira prosa do amanhecer, relembrar da morte do estimado pescador Bagana. Em seguida se despediu de mim e seguiu o caminho que tinha em mente. Nem pude lhe oferecer um café porque a cidade ainda dormia.

Nenhum comentário:
Postar um comentário