domingo, 6 de maio de 2012

LIÇÕES DO VELHO HIROITO


Pescador feliz em Caraguatatuba - (Arquivo Saladinha)

         Eu já contei, em outra ocasião, alguma coisa do enigmático Hiroito. Por um tempo, na década de 1980, acompanhando alguns jovens “filhinhos de papais”, ele morou na praia da Fortaleza. Hoje achei algo mais sobre ele. Ah! Estava esquecendo uma coisa: eu ajudei a vender o livro que ele escreveu na prisão.

Hiroito de Moraes Joanides nasceu em Morretes, Paraná, em 1936 e veio para São Paulo com a família em 1948, onde estudou e trabalhou em diversos lugares. Aos 21 anos, foi acusado pela morte de seu pai, barbaramente assassinado com golpes de armas brancas. A aproximação com a Boca do Lixo, que até então tinha um caráter de divertimento e que era tão comum aos rapazes da época, torna-se necessário refúgio para o jovem que se tornou um personagem notável nas páginas policiais. Magro, grandes óculos, aparência frágil, com uma cultura rara naquele ambiente, Hiroito conquista espaço e respeito na Boca pela violência e pela inteligência com que travava suas relações. Com a exploração de seus feitos pelos meios de comunicação, principalmente os jornais, a figura de Hiroito extrapola os limites da Boca e ganha notoriedade, fazendo com que sua fama cresça até que se promova uma caçada ao homem que ficou conhecido como o rei da Boca do Lixo. Preso, Hiroito escreve este livro (Boca do Lixo) em que sua história se mistura com a formação, o auge e a decadência da Boca. Morreu em 1992 na cidade de São Paulo.
                Foi do Hiroito que eu escutei pela primeira vez sobre a Guerra de Tróia. Também dele eu recebi uma lição da Biblioteca de Alexandria. Disse que era no Egito (no lugar das pragas, cruz credo!) e que foi um importante centro cultural.
                Imagine se, numa realidade onde se transpirava o roçado e a pescaria num caldo católico, alguém imaginava o que era um centro cultural! Por isso foi preciso muita paciência do Hiroito para explicar isso. Somente meia dúzia de caiçaras prestava atenção, pois não era coisa do nosso universo; os demais gracejavam discretamente com o palavreado novo. Eu e outros aprendemos. Eis um exemplo de fala desse personagem que por aqui passou:
               “Os textos, tudo isso que está nos livros, nas revistas e até mesmos nos entalhes que alguns caiçaras fazem com tamanha perfeição podem ter três vertentes: literal, alegórico e moral. O primeiro se restringe à propria letra; o outro se sconde sob fábulas. Da moral, uma palavra tão insistida para encobrir a ética, custosa para se aplicar, é o que se pretende ensinar para viver bem consigo e com os outros".
                Lembrei-me  disso agora porque, pensando bem, aquele ex-detento, enquanto esteve entre nós, era um dos intérpretes dos pasquins enigmáticos produzidos por não sei quem. Portanto, concluo agora: ter uma teoria sobre a linguagem ajuda muito a encontrar um sentido para o dia-a-dia, além de brincar com as formas de comunicação e suas estéticas. É assim que se chega a caminhos e modos de vida (existência) propriamente humanos. Que consolo!

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