terça-feira, 13 de janeiro de 2026

COISA EM COMUM

 

Trancoso  de outros tempos - Foto: Iza Souza

  Eu estava lendo um texto no Instagram (manjar_ancestral, de Iza Souza) a respeito de Trancoso, no litoral baiano, e notei muitas coisas em comum com Ubatuba, pois padecemos de problemas semelhantes no litoral paulista. Após autorização da autora, apresento aqui, na íntegra, o maravilhoso roteiro para nossas reflexões visando intervenções cidadãs na nossa realidade próxima. O exercício da cidadania é essa coisa em comum que nos permite encontros e reencontros.


       Trancoso foi higienizado, branqueado e  arrancado de quem o fez existir. Quando cheguei ao distrito, há maís de vinte anos, o Quadrado histórico ainda era território vivo. As puxadas de mastros reuniam pescadores nativos e suas famílias. O sincretismo religioso não era espetáculo, era prática cotidiana. Tudo começava com reza e comida partilhada nas casas simples. A festa era da família, porque o Quadrado, que sempre foi um retângulo de convivência, era morada dos mais antigos: a rezadeira, a parteira, o pescador, o pequeno restaurante, as crianças que cresceram naquele chão e a comunidade hippie que também fazia parte do tecido social. Esse território tinha memória, cheiro de comida, som de tambor e riso de criança. Tinha conflito, improviso e pobreza, mas tinha pertencimento. E isso foi arrancado com pressa. O apagamento cultural e histórico aconteceu de forma brutal, disfarçado de progresso, valorização imobiliária e turismo qualificado. A mudança da configuração do lugar não foi natural, foi planejada. Higienizaram o espaço, retiraram os nativos e expulsaram o corpo popular da paisagem. Eu não sou contra a evolução dos lugares. O que preocupa é o apagamento sistemático da cultura. O que será entregue as próximas gerações? Onde havia vida, vizinhança e cotidiano comunitário, hoje há lojas e restaurantes de grife. O território virou vitrine, o afeto virou mercadoria e a memória passou a incomodar. A mesa do samba acabou. A baba de fim de tarde ainda resiste, mas já se anuncia a sua retirada. A igreja, antes espaço de encontro comunitário e espiritual, virou cenário para casamentos badalados. Houve ascensão financeira para quem vendeu suas casinhas, agora tratadas como ativos de alto valor. Mas dinheiro não compra memória, não preserva história e não devolve território. A história de Trancoso não está nos livros, está nas lembranças dos que ficaram e dos que foram empurrados para fora. Está na oralidade, nas ausências e nos silêncios. Existem pessoas resistindo, mas a especulação imobiliária é uma máquina pesada. O que se vê é um lugar bonito, caro e vazio de alma. Quando um território perde sua gente, ele deixa de ser comunidade e vira apenas cenário.

Gratidão, Iza! Saudações da beira do mar!


Nota: baba de fim de tarde é quando as pessoas voltam do trabalho na praia.

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