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Em preparação ao aniversário de 15 anos do blog, o amigo Jorge nos brinda com esta crônica que me faz lembrar do tio Dário Barreto, da praia da Fortaleza. (https://coisasdecaicara.blogspot.com/2012/06/um-ser-ladino-bem-caicara.html)
Quando era criança, ainda não haviam chegado ao Brasil as sementes californianas vendidas em lata que acabaram por tornar todas as melancias redondas. Naquele tempo, havia melancias de variadas formas embora prevalecessem as compridas. O próprio agricultor selecionava as sementes que plantaria no ano seguinte.
No momento de consumir uma melancia, tirava-se a casca das extremidades e fatiava-se a fruta ao comprido com o cuidado de não aprofundar a faca para que ficasse o miolo depois de se tirarem as talhadas superiores. Primeiro se comiam (ou se chupavam como se dizia) as talhadas para depois se atacar o miolo, que repousava sobre as duas últimas fatias e era cortado em rodelas. Como a primeira rodela do lado do talo era menos doce, os adultos diziam às crianças que quem ficasse com aquela parte cresceria mais bonito. Então elas disputavam o tal pedaço que dava beleza. Crer é uma dádiva, diz-se, mas para quem? Com certeza, para quem incute a crença.
Naquele tempo, havia uma anedota em voga com a qual se pretendia ilustrar a suposta burrice dos portugueses. Contava-se que um português passeava na região com um grupo de brasileiros quando acharam uma melancia. Fatiada a fruta, os brasileiros lhe ofereçam uma talhada atrás da outra. Quando só havia o miolo sobre duas talhadas, os nativos começaram a comê-lo, e o português só conseguiu degustar um pedacinho porque já estava empanturrado. Quando ele percebeu aquela hospitalidade bem brasileira, jurou vingança. “Então é assim: o miolo das frutas é a parte mais saborosa.” Concluiu. Na parada seguinte, o grupo deparou com uma jaca. Assim que a fruta foi aberta, o português se atirou no “miolo” (a parte interna do talo) e, como um cão que pega um osso e foge da matilha, ele se afastou do grupo jurando que comeria aquela parte sozinho.
Faz alguns dias, deparei com um canal do YouTube em que se ensinava descascar jaca facilmente. Nunca achei essa tarefa difícil, mas fiquei curioso. Apareceu na tela uma mulher com uma faca fazendo sulcos numa jaca. Depois levantou a ponta de uma tira, puxou-a e os bagos ficaram à mostra. Pensei: “Só dá para fazer isso se a fruta estiver muito madura. Grande novidade!” Estava já desistindo de assistir àquilo quando a mulher confessou: “Só não sei se se come isso.”
Pois é! Ali estava uma especialista em jaca que, tal como o português da anedota, não sabia qual era parte comestível dessa fruta. O pior é que ali não era uma anedota. A influenciadora era apenas mais uma pessoa que se vale dessa rede social intentando conquistar prestígio e consequentemente dinheiro. A internet é uma fonte maravilhosa de aprendizado, de informação, de lazer etc. Infelizmente, por outro lado, é um paraíso para inescrupulosos de todas as áreas do conhecimento. Apresentar-se como especialista em jaca acaba sendo apenas risível, mas há milhares de influenciadores que deveriam ser processados e condenados à prisão perpétua devido ao mal que fazem à sociedade. Contando com a ingenuidade dos internautas, aqueles indivíduos prometem a quem estiver disposto a segui-los cura de doenças crônicas, rejuvenescimento, imortalidade, ganho de rios de dinheiros com facilidade. O descaramento é tão grande que há quem se proponha a ensinar a beber água, a sentar-se no vaso sanitário, a deitar na cama e a praticar muitas outras ações inatas, instintivas.
“Ai dos espertos se não fossem os tolos.” Dizia-se antigamente. O que prova que a credulidade não nasceu com a internet. Esta somente nos revela o quanto acreditamos em quem diz que sabe o que não sabemos. Como sugere o grande Lima Barreto, confiamos em quem diz que sabe javanês porque não falamos esse idioma. Se numa rede social aparecer algum desconhecido afirmando que deixou de ser calvo porque durante 30 dias fingia pentear-se de manhã, à tarde e à noite, haverá milhares de indivíduos que vão adotar essa receita e, passado esse período, alguns ainda vão ficar na dúvida se a seguiram corretamente porque continuam calvos como no início do “tratamento”. Na fase adulta, deixamos de acreditar que comer uma determinada parte da melancia nos tornará bonitos, mas não escapamos de outros logros simplórios forjados na internet, pois tendemos a crer na autoridade de quem se exibe nela como uma criança acredita nos seus pais.
Jorge Ivam Ferreira
Muito obrigado por publicar meu texto, Zé! Adorei ver a foto dos meus filhos Caio e Henrique quando ainda eram adolescentes!
ResponderExcluirSempre será uma honra para mim!
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