quinta-feira, 4 de julho de 2019

COISAS VELHAS PARA OS NOVOS

A espada de Possidônio  (Arquivo Rê)


               O Miro, menino bom, de tradicional família mineira, após o falecimento do pai e da mãe, por ser homem, mesmo tendo outras irmãs mais velhas, se viu no dever de chefe de família. “E agora Zé? Eu não sei bem o que fazer!”.  Eu, que até tinha me esquecido dessa tradição, propus o que é normal: que a irmã mais velha assumisse a tarefa e que os demais a ajudassem para ser bom para todos. “É assim, amigo. A vida continua!”. Mas Miro, cidadão de outros tempos, de outro lugar, hesitou. O tempo mostrou o resultado: a família se dispersou devido às atitudes autoritárias: foi-se a tradição e tudo o que era bom nela.

               Dias atrás, uma prosa com o Pedro me fez recordar do Miro. “A nossa família e mais três trabalhava no Taquaral. Lá tínhamos nossas roças, produzíamos bastante, dava para viver. De repente, o japonês nos deu uma rasteira, as três famílias 'dançaram'. A nossa sorte foi o Seo Afonso. Ele nos acolheu, ali no começo da estrada do sertão do Perequê-mirim, disse que a gente podia ficar quanto tempo quisesse. Meu pai produziu de tudo ali, até arroz e milho a gente plantou. Você se lembra? Era uma vida de muita pobreza, sem água encanada, sem luz, tendo que vender nossos produtos a troco de alguma coisa para sobreviver. Até areia a gente tirava do rio para vender. É isso, amigo: a pobreza é vergonhosa. Por isso saímos pelo mundo para ganhar dinheiro, ter uma vida melhor para oferecer aos nossos pais um final de vida com mais dignidade. Agora, estamos bem, mas dispersos pelo mundo. Acho que alguns nem voltam mais do Japão. Mas eu gostaria de reviver aquela unidade que tínhamos no tempo da miséria, de festejar à nossa maneira os acontecimentos, as conquistas, quando as nossas pobres alegrias era as maiores do mundo. Até hoje não me conformo com o que fizeram conosco: foi japonês se aproveitando de japonês!”.

               As duas situações, esses dois amigos, nos dão a noção da ocupação do espaço caiçara, a força das tradições dos diversos grupos que aqui se estabeleceram na produção agrícola, na construção civil etc. 
               As tradições pedem revisitas e revisões. Conforme o poeta-cantor Luís Perequê: “Eu vou por aí, como num velho ditado. Com muito cuidado, pisando em ovos. Falando coisas novas para os velhos, falando coisas velhas para os novos”.  Agora, depois de tanto tempo, rever essa gente, poder escutar e apoiar, saudar novas expectativas, me faz encerrar este pensando nos amigos e nas palavras do mesmo Luís: “Ter amigos como abrigo é um jeito antigo de se abrigar”.

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