sábado, 6 de julho de 2019

SOLIDÃO PRODUTIVA

Tio Neco e tio Tião  (Arquivo JRS)

Mana Ana, tio Dito  e eu (Arquivo JRS) 


               Depois de umas visitas por aí, de olhar as plantas e de fazer algumas tarefas no lar, aproveito o tempo para ler, para conversar comigo mesmo e escrever um pouco. Conforme escreveu alguém, “a leitura cria personagens internos e cria um outro em nós mesmos, de tal forma que somos cercados de pequena multidão interna”. É este conjunto procurado por mim que vai possibilitar a  minha solidão produtiva. Vários amigos e amigas dão testemunhos nisto: Pedro, recolhendo toras e galhos descartados pelos caminhos e praias, continua produzindo seus bancos, porta-lápis, abajures etc. Bispo, a partir das sucatas, monta brinquedos, jogos, utensílios variados etc. Mano Mingo escreve poesias. Minha Gal produz lindos livros interativos, riquíssimos em detalhes.  Alcides faz seus balaios de taquara. Marina produz suas mudas maravilhosas. Pedro Caetano fotografa e participa das ações ambientais. Gilda agita a associação dos coletores, recicla, reutiliza, dá outros fins àquilo que era chamado de lixo. Roberto produz suas violas. Dito se esmera no fandango. Ostinho entalha lindas peças... Enfim, gente que encontrou a solidão produtiva.

               É muito importante ter um tempo para nós! É quando lemos livros que nos esperam há meses, organizamos alguns materiais que darão impulso aos impulsos da nossa criatividade, das nossas necessidades cotidianas. “Zé, não se esqueça de terminar a nossa fonte, tá bom?”. Também estudamos, pesquisamos coisas mais sérias e coisas não tão sérias  assim. É quando cuidamos das nossas paixões nos mínimos detalhes. "Me desculpa por não ter elogiado o seu cabelo?". Vovó, em momentos assim, tranquila, na cozinha esperando a fervura do feijão, começava a recolher picumã numa lata para fazer remédio em outra ocasião. “Hoje não, menino, porque ainda preciso apanhar arruda, bengué e água empoçada na costeira. Bote ali perto da gamela”. Detalhe: ela nunca retirava tudo aquilo,  dizia que “beija-flor sempre está em busca de picumã para fazer ninho”. Ah! Esse seu jeito caiçara! Quanta saudade!

               Tempo de férias, mudanças no cotidiano. Logo as “crianças” chegam para completar o nosso lar.  As ausências temporárias de amizades especiais me fazem pensar mais em como melhorar meu empenho, em cultivá-las. É a solidão produtiva que me fez escrever e fez você ler até aqui. Curta intensamente esses momentos. Eles nos conduzem a outros valores, permitem questionar os rumos da sociedade, vivenciar outros melhores. Viva! Viva mesmo!

Um comentário:

  1. A família vai crescendo e esse tempo de dedicação ao nosso ofício vai fica do mais raro, mas que prazer que dá!

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