segunda-feira, 30 de setembro de 2013

MELODIA DIVINA


Cantoria para um bom dia  (Arquivo JRS)

Tem alguém que não tenha escutado, desde o começo de agosto, o canto do sabiá?
Eu, graças à mata do quintal, abrigo ao menos uma ninhada a cada ano. Por isso, a poucos metros da janela da cozinha, tenho o privilégio de ver e ouvir seus cantares. Normalmente é de sabiá-laranjeira (também conhecido por sabiá-galinha) ou sabiá-coleira.               Extasia qualquer um a cantoria deles!
Eles ficam à vontade; comem das frutas, das minhocas e de outras coisas que estão pelo chão. Neste ano, um ninho está no pé de carambola. É de sabiá-laranjeira. Cesso a digitação para apreciar uma cantoria que se inicia, mesmo com o amanhecer nublado.
Desde criança, ano após ano, nunca fui impedido de receber desses seres uma energia tão especial. Ainda me lembro de como ajudava o tio Lúcio a cuidar dos filhotes dando naquinhos de banana em seus delicados bicos, a agasalhar em panos e protegê-los de predadores. 
É isso! Cante  sabiá! 
Cante para despertar os trabalhadores e estudantes para dar novos rumos à vida!
Cante nos desejando bom dia neste novo dia!

domingo, 29 de setembro de 2013

QUE FOTOGÊNICA!



        Quem circula pela Rua Maranhão, quase esquina com a Dona Maria Alves, no centro da cidade de Ubatuba, tem uma surpresa maravilhosa  e gratuita. É que na calçada do senhor Cláudio, vive uma maravilha. Trata-se de um grande ipê amarelo.
     Durante as outras épocas do ano ele quase não é percebido. Pode até ser que algum “civilizado ao extremo ou asséptico radical” até já tenha reclamado da árvore por estar “atrapalhando o caminho” ou "sujando tudo com suas folhas". Agora, porém, não há quem não se extasie com a florada amarelo ouro. Até dói a vista quando o dia está ensolarado.
     No sábado passado, às sete horas da manhã, antes de ir para um curso em Caraguatatuba, eu fui fotografar e receber energia dessa exuberância da natureza. Vendo o  seo Cláudio chegando da padaria, puxei uma rápida prosa. Ele está feliz por ter tantos admiradores do ipê. É evidente que a todo instante tem gente parando para tirar fotos. Empolgado, entre outros fatos ele disse:

  - Você sabe que agorinha mesmo, coisa de meia hora, uma senhora veio, deixou a bicicleta encostada, abraçou a árvore e disse: “Você é linda!”.
      Como eu gostaria que os exemplos de plantio de árvores em nossas ruas se multiplicassem!
      Como é bom acompanhar a vida delas no meu quintal, na minha calçada e nas “portas” dos outros!
           Pense na energia das árvores para você e para todos, principalmente às futuras gerações.

sábado, 28 de setembro de 2013

QUESTÃO DE OCASIÃO (II)

     

     
Ubatuba em época de tainha (Arquivo Igawa)
       Olá, Chico! Está acompanhando essa narrativa? Ela é localizada, ou seja, a partir do lugar, das pessoas e da problemática da minha ascendência paterna (da região da Caçandoca). Porém, se aplica ao macrocosmo de Ubatuba. É por isso que, numa audiência pública das terras caiçaras, um representante da promotoria pública estadual afirmou que “não existe um pedaço de terra em Ubatuba que não tenha pelo menos três documentos brigando entre si”. 


      É bom saber: até o princípio do século XX, o caiçara era semi nômade: só parava num lugar para cultivar e pescar por um tempo. Isto significa que, cansando dali, cansada a terra, dando saudade de alguém em outro lugar, ia-se. Os pertences eram poucos; cabiam numa canoa. Logo, naquele lugar que ele ocupou,  se arruinava a casa de pau-a-pique coberta  de sapê. Tudo voltava a ser mato fechado. Era uma movimentação, a bem dizer, espontânea. O que eu comecei a lhe explicar na primeira parte da presente questão tem uma forte correlação com a história de um povo bem distante: os judeus, cuja diáspora, “esparramação”, conforme explicação do saudoso tio Maneco Mesquita, “se deu por volta do ano setenta depois do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo”.


       Dentro do conceito de diáspora, eu fiz questão de visitar os parentes em Vicente de Carvalho, em São Vicente, nos morros (do Funhanhado, do Algodão, das Moças, do Querosene), na Estufa, no Porto Novo, nos Tourinhos etc. Ainda tenho gravações - em fitas cassete! - inéditas de muita gente, inclusive do patriarca Gabriel e da matriarca Benedita do Caliano. "Tudo gente que foi morar em lugares feios!".  Como diria a vovó Martinha ao escutar as minhas narrativas naquela época: “É tristeza de dá dó”.

      Mais triste foi a condição de quem se fez de capacho dos ricos.
     Se tornar capacho, lugar de se pisar, provoca a perda da identidade, a renúncia aos muitos valores seculares. Também impede a tomada de consciência de sua condição de exploração. Passam a valer os ditados: “Quem puder mais chora menos”, “Farinha pouca, meu pirão primeiro”...E por aí vai.  

          Copiar os exemplos de outros pobres que vão chegando de outras regiões empobrecidas, desde a década de 1970,  passa a ser uma alternativa. Por isso vale avançar nos espaços que ainda não estão com os ricaços. “Questão de sobrevivência” justifica a cobiça que vai danando ainda mais a vida dos irmãos, chegando ao ponto de se colocar a favor dos proprietários de mansões nos jundus.  Até que um dia, esgotadas as já minguadas tetas, passando por condições degradantes, o pensamento se volta às origens. “Que saudade das cebolas do Egito!”. De repente, as opiniões mudam: “Estava certo aquele que tentou se agarrar na sua posse, no seu modo de vida”; “O compadre é pobre, não tem carro, nem luz em casa, mas vive em paz, pode pescar e plantar”...

         Começa o entendimento e a vontade de voltar no tempo. Só que agora o tempo é outro, as necessidades são outras. A cultura também já se modificou. 
     Diante das impossibilidades em face do consumismo ambicionado, o assistencialismo público se apresenta como a solução.
         O ruim disso é que a volta ao espaço original não significa retorno à cultura raiz. E o que se vê, mesmo causando melindres, é “comunidade” bem nos rumos globalizantes, onde o discurso “ideológico” não condiz com a prática. Quando aparece alguém apresentando questões em torno disso, as reações evidenciam a realidade de quem que não é capaz de identificar a sua condição de submetido. O pior: pode conseguir o apoio daqueles ignorantes da condição de exclusão e inferioridade de que foram vítimas. O que eu quero dizer se resume ao seguinte, parafraseando o vovô Estevan dando uma moral após uma certa história de castelo: 

       “Não se mata sapo, menino! Ele pode ter um aviso pra você!”.  Melhor dizendo (ou atualizando o dizer do vovô): podemos estar matando o sapo que somente está mostrando uma realidade muito maior que a nossa lagoa. E o que pode acontecer? Depois do sapo exterminado, os mosquitos e outras denominadas pragas podem se refestelar.

       É só. Tenho dito. Um abração.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

QUESTÃO DE OCASIÃO (I)

Enquanto tomo um café com abacate e farinha...(ArquivoJRS)
Eu e Dito Madalena


Ao amigo Chico Abelha:

Você tem razão ao perceber a situação melindrosa na área visitada (Caçandoca, em Ubatuba). Posso contribuir com mais elementos, talvez esclarecedores?

Conforme a nossa história de vida, está mais que evidente uma verdade: nós, caiçaras do litoral norte paulista, nos desgarramos (ou fomos arrancados) das nossas posses por uma lógica capitalista. Assim, posso elencar alguns aspectos pertinentes ao assunto:

1º) O isolamento nos apresentou uma vida simples, de dependência da natureza e da criatividade, a filha da necessidade. Porém, essa vida passou a ser encarada como penúria ao ter contato e saber da existência das comodidades das cidades,  dos ritmos comercial e industrial.
2º) As dificuldades em acompanhar ou desfrutar das modernidades instigou a procurar formas de abdicar da vida simples, mais ligada ao meio rural.
3º) Negociar a terra, a sua posse às vezes por muitas gerações, foi uma alternativa quase que instantânea com o advento turístico, a partir das rodovias (década de 1930 - Taubaté; década de 1950 - Caraguatatuba).

A confluência desses motivos principais fez com que irmãos enganassem irmãos e grileiros tivessem a preferência nas comunidades. Tudo isso, sem que a maioria percebesse, sob a batuta de grandes empreendedores. Prova disso foi o domínio de fulano na Praia do Pulso, de beltrano na Praia Vermelha do Sul, de sicrano na Praia Dura etc. Detalhe: todos doutores de muito dinheiro! E aí se deu a diáspora que, enxergando na sua amplidão, podemos dizer que foram poucos os casos de violência explícita. Desafiador é perceber a violência implícita que continua existindo. Por isso, causa-me orgulho saber ou ter acompanhado exemplos de caiçaras que se grudaram em suas posses, brigaram até mesmo em instâncias federais para não saírem como a maioria da parentada (que foram morar nos sertões distantes, sobre áreas impróprias, de brejo ou mangues de cidades maiores, sobretudo na Baixada Santista). Falem o que falar, mas um exemplo de resistência, dentre vários outros, é o Benedito Antunes de Sá, o "Dito Madalena", cuja amizade eu travei em 1981, numa casa de farinha, no Saco dos Morcegos. 

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O QUILOMBO DA CAÇANDOCA (IV)

        
Ainda não encontrei uma situação tão ruim que não tivesse ao menos uma flor (Arquivo JRS).
                  Já começo respondendo à questão principal do Chico: o que predomina na Caçandoca são cafuzos e mamelucos, ou seja, a miscigenação entre índios e negros e brancos e negros. Portanto, os negros são uma minoria na área, mas estão na conta de parentes. Na verdade, o que aconteceu no decorrer do movimento pela retomada das terras das antigas fazendas Caçandoca e Saco dos Morcegos, foi uma manipulação, por parte de uma das lideranças, para se aproveitar da brecha constitucional (de reconhecimento de área quilombola). Infelizmente prevaleceu a mentalidade de assistencialismo, o que já causou dissidência e desfigurou o objetivo original de reviver a dignidade da cultura caiçara. Posso falar com muita propriedade porque estive, juntamente com meus irmãos, no movimento desde 1990. Afinal, ali nasceu meu pai, meus avós, bisavós etc. É de onde vem a base dos Félix, Cabral, Lopes e Amorim. Outros ramos de nossa família caiçara nesse local eu já escrevi através das memórias de Aristeu (Proseando com o Aristeu). Tudo gente que empobreceu junto com o fim do ciclo cafeeiro nesse litoral, na segunda metade do século XIX, inclusive os Antunes de Sá, os últimos proprietários da região em litígio. Fala, Chico!

             Quando cheguei em casa, fui ao google e encontrei farto material sobre o quilombo da Caçandoca. É material acadêmico e técnico, resultado de pesquisa antropológica e com a finalidade de fazer valer aos remanescentes, o direito à propriedade da terra em que vivem. À partir da constituição de 1988, que atualizou o conceito de quilombo, foi possível a diversas comunidades remanescentes espalhadas pelo Brasil, enquadrarem-se na nova lei e reivindicarem a propriedade da terra.

            A situação da Caçandoca não é simples. Segundo me contou uma pessoa que mora na praia da Maranduba, além dos remanescentes, reivindicam a propriedade da região, uma empresa imobiliária que teria comprado a terra quando da abertura da  BR 101, a Rio-Santos e também os descendentes de um antigo proprietário, que dizem ter um documento de posse de séculos atrás. Por isso a minha dificuldade de obter informações dos atuais moradores. Mas eu ainda não entendi muito bem porque não encontrei nenhum negro por lá, isso ainda é um mistério para mim. Se alguém que conhece mais de perto a situação quiser explicar, eu agradeço.

        Quem se interessar, pode conferir o material técnico aqui.http://www.itesp.sp.gov.br/br/info/acoes/rtc/RTC_Cacandoca.pdf

        Enfim, o autor do texto termina lembrando que, além de mudar os nomes, nem mesmo fotos das pessoas ele quis publicar devido à situação melindrosa que estão vivendo.  Valeu, Chico!

domingo, 22 de setembro de 2013

O QUILOMBO DA CAÇANDOCA (III)

         
           
                O Chico também é o autor das fotografias deste texto. Nesta penúltima parte, ele nos transmite o seu estranhamento e questionamentos. Implicitamente nós podemos ter muitos outros. O seu interesse faz-me lembrar de uma outra pessoa, cujas pesquisas e registros fotográficos guardam uma relação com a comunidade do Sapê, sobretudo com o grupo de Reisado. Isso foi há dezoito anos; era também de São José dos Campos: dona Helena
         
          Alguns metros mais abaixo, em direção à praia, que ainda não se fazia ver, mais uma construção de pau a pique, também com ar de abandonada. Conforme dizia a placa na parede, tratava-se do Centro Comunitário da Associação dos Remanescentes da Comunidade do Quilombo da Caçandoca. Mais abaixo, dos dois lados da estrada, algumas casas recém construídas, estas de blocos, sem acabamento e cobertas com telha de amianto. Das casas, sou observado por crianças e mulheres, nenhum deles é negro.

       Resolvi seguir adiante, procurar meus negros mais à frente. Chegando à praia, outro susto, ela estava tomada, de fora a fora, por barracas de venda de comida e uma linha contínua de guarda sóis coloridos, vermelhos e amarelos. Não havia quase gente, era cedo ainda, o pessoal das barracas estava se preparando para a chegada dos turistas. Procurei os negros entre o pessoal nas barracas, talvez eles estivessem fazendo um bico na temporada, talvez fossem os donos, mas nada, não havia um só deles. No máximo um mulato curtido do sol… Saltavam aos olhos, contrastando com o verde da mata, os anúncios de camping, de passeios de barcos, logotipos de cervejas, isso tinha por toda extensão dos 2 km de praia.

          Eu poderia ter perguntado para qualquer um, onde estavam os quilombolas, mas depois da lambada do seu Irineu e com receio de levar outra resposta atravessada, fiquei na minha. Tomei meu banho de mar, mastiguei meu sanduíche de pão integral e resolvi cair fora, que o céu estava ficando cinza-chumbo e eu não queria arriscar a volta debaixo de chuva.

         Entrei no carro, apanhei o celular para ver que horas eram e levei um susto quando vi a data, 25 de janeiro! Vinte cinco de janeiro era o dia do aniversário da minha esposa e eu ainda não tinha providenciado um presente para ela! Lembrei de ter visto umas lojinhas dessas que vendem artesanato, atrás das barracas na praia, quem sabe eu não achava algo diferente numa delas?

       Parei naquela que me pareceu a mais simpática. Quem me atende é dona Nilda, também branca. Ela me explica que o artesanato local é feito por eles mesmos, com “material que a natureza descarta“. São móbiles de conchas, esteiras de folha de bananeira e enfeites diversos, de madeira pintada, ela me mostra tudo com orgulho. Não sei se pelo efeito da alta umidade, mas tudo me pareceu já velho e sem o viço que eu queria para o meu presente. Lá do fundo da loja, umas bolsas coloridas me fisgaram o olhar.

       - E aquelas bolsas, dona Nilda, são feitas por vocês também?

       - Ah, essas são as bolsa que se transforma em canga, são de uma mulhé de Ubatuba que traz aqui pra nóis. 

A bolsa era interessante, acabei comprando uma delas, uma cor-de-laranja-cheguei. Minha esposa gosta de cores fortes, certamente iria gostar deste objeto de dupla serventia.

Depois de pagar dona Nilda, já na saída, não consegui segurar a língua, perguntei onde era o quilombo da Caçandoca. Ela fez uma cara de espanto e respondeu olhando torto:

         - Mas o senhor já está nele, moço! 

         - Ah, é aqui? E os quilombolas, onde estão?

         - Está falando com um deles. Todos que moram aqui são quilombolas.

A minha cabeça deu um nó nessa hora. Resolvi não perguntar diretamente o por que de não haver nenhum negro neste quilombo, ou, se os havia, onde se escondiam…

        - E a senhora nasceu aqui no quilombo, dona Nilda?

        - Nasci aqui, sim, mas quando eu nasci não era quilombo ainda, era tudo fazenda. Em 2003 foi que o Lula criou o quilombo e disse que a terra era nossa, de quem tivesse morando nela. A gente ainda não temos o papel, mas esse ano ele prometeu que vai sair em definitivo. Deu na Voz do Brasil, eu escutei ainda um dia desses, que a gente tem que escutar a Voz do Brasil pra se informar, não é mesmo? Ele é muito bão, o Lula.

        - Quer dizer que a senhora gosta do Lula?

        - Gosto! Eu só acho ruim que a gente não pode derrubá uma árvore que seja pá modi prantá que é murtado. Isso eu acho muito errado! Por isso que nóis agora tamo virando pro turista pra se garanti.

Sem que eu perguntasse, dona Nilda começou a falar de como era a vida nas fazendas, do tempo em que ela era criança, de como eles tinham de tudo ali na Caçandoca, só precisavam comprar querosene, sal e pólvora. Das festas de bate-pé, das catiras, dos reisados, que eram a unica diversão que eles tinham naqueles tempos. E que tudo isso acabou porque veio um pessoal da cidade, comprou a terra dos caiçaras por um dinheiro qualquer, o povo se foi para a cidade e só agora é que estava voltando, depois que o “Lula criou o quilombo“. Minha cabeça estava que era uma bagunça só. Eu nunca imaginei que um quilombo pudesse ser criado em pleno século XXI.

         - Mas espera aí, dona Nilda, quer dizer que esse quilombo não foi formado por escravos foragidos que se esconderam aqui na Caçandoca? 

         - Não, menino, este quilombo é por doação, não por fuga. 

       Achando que ela poderia ser uma boa informante, quis registrar o material e sugeri:

        - O, dona Nilda, vamos fazer um vídeo dessa nossa conversa, a senhora permite?

        - Ah, hoje não, menino, que eu perdi o meu pente e estou com a cara muito bagunçada. Volte aqui outro dia, hoje não.

         - Mas com essa estrada ruim, é muito difícil chegar aqui.

         - Então volte no tempo da seca, que aí a estrada fica uma “excelência”!

Entendi que dona Nilda não queria se comprometer com gravações e respeitei sua vontade. Nem perguntei mais nada. Despedi-me dela e disse que voltaria quando fosse possível.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O QUILOMBO DA CAÇANDOCA (II)



          A partir desta parte, o cronista, por motivos óbvios, recorre ao uso de nomes fictícios para as pessoas que se intitulam quilombolas. Não é estranho, sobretudo a nós caiçaras, alguém se negar a uma prosa, ter orgulho desse nosso lugar e mostrar-se acolhedor?

         A primeira construção que vejo é de pau-a-pique, o Centro de Artesanato, do Projeto de Desenvolvimento Sustentável do Quilombo da Caçandoca, conforme indica um banner afixado à parede. O imóvel está fechado, com toda cara de abandonado e o mato invadindo o que um dia deve ter sido um lindo jardim. No meio do jardim, uma antena parabólica toda comida pela ferrugem. Enquanto tiro algumas fotos, um senhor branco, com cara de gente da cidade, passa devagar pela estrada, caminhando com a ajuda de seu guarda-chuvas. Disparo minha primeira pergunta, preciso fazer contato para saber mais sobre o quilombo:

       -  Bom dia, o senhor está passando férias por aqui?

    - Não senhor, sou nascido e moro aqui na Caçandoca. Vim telefonar no orelhão, pedir um botijão de gás, que o meu acabou ontem. Mas o orelhão está quebrado, uma pouca vergonha. Ontem ficamos sem luz e hoje sem telefone! E essa estrada ruim do jeito que está, uma vergonha… uma vergonha! 

      Achei estranho, não imaginei que um branco pudesse ter nascido num quilombo, mas se ele afirmava…

      - Ah, o senhor nasceu aqui? Este lugar sempre foi um quilombo? Quando foi que os escravos chegaram?

       -  O senhor é de onde, mal lhe pergunte?

    -  Desculpe, é verdade, eu nem me apresentei! Meu nome é Chico Abelha (preferi usar o apelido, dependendo do caso facilita a comunicação). Faço pesquisas para o Museu do Folclore de São José dos Campos. Então, o senhor já está aqui há quantos anos?…

      -  72 anos, meu filho, 72 anos…

      -  E o seu nome?

      -  Irineu Santos Neves.

      - Seu Irineu deve conhecer muitas histórias. Não quer me contar como foi que começou o quilombo?

    Seu Irineu moveu o rosto um nadica para o lado e levantou o nariz para dizer:

     - Ah, meu filho, eu conheço muitas histórias, todas elas, mas não vou contar nenhuma não! 

     Falou isso e baixou os olhos, evitando contato visual. É raro a pessoa se negar assim, terminantemente. O mais comum é as pessoas se abrirem, contarem sobre suas vidas, nem que seja para reclamar, mas o seu Irineu mostrou que não estava para conversar não. Nessas horas não tem remédio, é melhor agradecer e tocar em frente. Foi o que fiz.