quarta-feira, 30 de setembro de 2026

A CASA SOMOS NÓS!

 

Tico-tico - Arquivo JRS 

   "Quando um espírito imundo sai de um homem, passa por lugares áridos procurando descanso, e, não o encontrando, resolve voltar para a casa de onde saiu. Quando chega, encontra a casa varrida e em ordem. Então ele chega acompanhado por outros sete espíritos piores do que ele. Entram e passam a viver ali. Ou seja, pioram muito aquele lugar, aquela casa".

 

    Estando bem próxima as eleições no Brasil, vemos esta manipulação recorrente de políticos: usar da religiosidade para enganar as pessoas. Isto pode lhes garantir plenos poderes para seguir explorando, viver às custas do suor de quem trabalha. Pior: pode inaugurar uma nova “guerra santa”, tal como as Cruzadas e outros movimentos históricos. É processo de desumanização!

    Toda gente religiosa, mas também quem não segue religião alguma, creio eu, parte do princípio que “tem de ser arrumada a casa”. (Ou será que existe algum discurso autêntico contra a purificação do ser humano?). Começa pelo próprio indivíduo que almeja a paz, a serenidade e a convicção de que ninguém é melhor do que ele, que todos são iguais, têm iguais direitos e deveres. A seguir, se identificando com outros neste mesmo rumo, surge a dimensão comunitária de querer essa “casa” (em última instância: a Terra) em ordem, para mais gente, um lugar de mais justiça e amor. “Um mundo para todos”, “Que todos tenham vida” etc. É o momento do surgimento da política, a arte de cuidar da cidade (que inclui bairro, cidade, país, mundo). A coletividade se torna essencial. Não cabe mais defender tal ou tal religião, perseguir quem não acredita em nenhum ser divino, taxar manifestações como primitivas etc. O Estado é decretado como laico, espaço onde moral deveria evoluir para ética. 

   Para concluir: se estamos fascinados ou desanimados por fulano que disse isso ou sicrano que prometeu aquilo usando princípios religiosos, é sinal de que a ética está falhando. Caso fulano ou sicrano ganhe, seu grupo religioso terá um status especial. E quem não compartilha de nada dessas posições morais? O que será dos grupos sempre marginalizados, perseguidos por manterem religiosidades ancestrais? O que pode acontecer com toda essa gente que vive uma espiritualidade satisfatória na sexualidade que lhe cabe desde a concepção? Já vislumbramos quais as consequências sociais (porque exemplos temos demais ao longo da civilização). Por isso que abraçar esses tipos de lideranças pode resultar nos espíritos piores se apoderando da “casa limpa” e a transformarem para pior, torná-la uma imundície só. A casa somos nós! Afundaremos, naufragará toda sociedade em seus passos vagarosos, duramente conquistados, de evolução; regride a humanidade? Isto é Inferno!

     Como serão nossas escolhas nas próximas eleições?

  

 

terça-feira, 29 de setembro de 2026

A MESMA HISTÓRIA




       Bem cedinho eu resolvi escrever a partir das imagens feitas por duas pessoas: Mônica e Victor, partes da sobrinhada querida.

      Na primeira imagem, no alto da estrada que vai para a Caçandoca, onde muito antigamente havia plantações de mandioca do pessoal do Salomão, do vô Estevan (sim, vovô morou no Morro do Cemitério!), do tio Ezídio, dos Blac, do Chico Romão e tantos outras famílias caiçaras do canto esquerdo da praia da Maranduba, a Mônica observa como é discrepante o tratamento social: o rico pode ocupar à vontade todos os lugares, construir nos morros, no jundu etc. “Que lindo!”, dirão alguns.  Ele pode sugar água das nascentes, construir fossa no critério dele, desmatar ao redor etc. Já o pobre sequer tem o direito de cultivar um roçado em áreas dessas, fazer um rancho ou simplesmente ter um ponto privilegiado para apreciar o entorno. “Casa de pobre no morro é favela”, repetirão muitos. Já na segunda cena, assim que vi na postagem do Victor eu quis saber por onde ele andava: “Vermelha do Sul, tio! O córrego lá está todo contido por gabiões”.

    Gabiões são gaiolas de metal enchidas com pedras para conter desabamentos. É bastante comum avistá-los em beiras de estrada para contenção de terras em deslizamentos. No caso, é para deixar o rio sem alternativa de desvio. Isto é ruim? Péssimo! Aquela dinâmica da natureza, das correntes, acaba; é sacrificada para alguns ricaços se aproveitarem do jundu. Passei ao Victor uma informação vinda do saudoso vovô Armiro, da praia da Fortaleza: por ali, naquele ponto da praia, existiu um cemitério, mas quando vovô nasceu, por volta de 1910, ninguém mais era sepultado naquele jundu porque o nível do mar avançou (ou será a praia que abaixou?) e começou a revelar as ossadas. Então, todos os defuntos passaram a ser conduzidos para o cemitério da cidade, em redes carregadas aos ombros por uns 20 quilômetros. Um detalhe: recorria-se ao balseiro para a travessia do Rio Iriri (Praia da Barra/Dura). A aqui é o meu sobrinho quem fala: “O pai contou a mesma história quando estávamos lá. Isso é muito interessante, quem frequenta a praia cheia das mansões nem tem ideia de que era caiçara assim”.

    Na Praia Vermelha do Sul, cuja última família caiçara, do Bertolino, eu alcancei ainda criança, foi inaugurado um requintado loteamento no começo da década de 1970. Meu pai e tio Tonico foram os construtores de três grandes casas ali, tendo uma delas partes sobre o pequeno rio. “O dinheiro pode tudo!”. Para encerrar a prosa: um grande amigo, Carlos Lunardi, realizando uma pesquisa sobre edificações modernistas no chão de Ubatuba para o curso de arquitetura, visitou a dona desse loteamento erigido sobre posses caiçaras: Olga Sisla. “É uma grande casa no meio da mata, lá do alto se avista toda a beleza do entorno: mata, mar, praias e ilhas. Impressionante mesmo!”. Uma mansão para uma viúva. “Morreu, não levou nada”, completei.

Em tempo: já passou de meio século que pisei nas areias da praia Vermelha do Sul.

sábado, 26 de setembro de 2026

APRENDER PARA IGNORAR

 

Arte: Tom Cotrim - Arquivo Instagram 

       Eu apresento agora um comentário do amigo Carlos Lunardi, de Caraguatatuba, após ter apreciado o texto “CAMALEÃO CEGO”. Entenda porque uma reduzidíssima parcela da população determina os rumos sociais. No Brasil, mais de 40 milhões são analfabetos funcionais. Milhões de eleitores estão nesta categoria! Quem “faz a cabeça” deles? Como escapar da massificação cultural?

 

       O problema é mais grave do que parece. A associação civil sem fins lucrativos que atua nos campos da educação, cultura e juventude, na perspectiva dos direitos humanos, Ação Educativa (acaoeducativa.org.br), criou, em 2001, o Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional). Sua função é realizar pesquisas periódicas para determinar o índice de alfabetismo funcional da população brasileira adulta. A pesquisa é realizada com amostras da população entre 15 e 64 anos, e seu objetivo é oferecer subsídios para orientar políticas públicas e mobilizar esforços da sociedade na superação desse desafio. Nessa pesquisa, é medida a capacidade das pessoas de compreender, interpretar e utilizar informações escritas, numéricas e digitais no cotidiano e em diferentes contextos sociais.
       O resultado não é nada animador. Na última edição, realizada em 2024, 30% das pessoas que participaram da pesquisa eram analfabetos funcionais, ou seja, não conseguem usar a leitura ou escrita de forma funcional ou conseguem ler palavras e frases simples, mas tem dificuldade para compreender textos curtos.
      Quando observado o número aproximado de pessoas que estão nessa faixa etária, o número ultrapassa 40 milhões de pessoas, considerando que a idade mínima para votar é 16 anos, podemos concluir que a grande maioria dessas pessoas são eleitores, e que essas pessoas podem decidir o futuro de um país inteiro, onde os maiores afetados são os mais vulneráveis.
      Em 1964, o golpe civil-militar levou à prisão de Paulo Freire e interrompeu o Plano Nacional de Alfabetização, que tinha como objetivo não apenas alfabetizar a população adulta, mas também promover a conscientização sobre seus direitos e seu papel na sociedade. De lá pra cá, uma frase do antropólogo, historiador e sociólogo Darcy Ribeiro define bem qual é o projeto das classes dominantes para a educação: "A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto."
       Não poderia encerrar este texto sem uma citação de Paulo Freire, de seu livro A importância do ato de ler: “Não basta saber ler que 'Eva viu a uva'. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho”.
     Mais Paulo Freire, menos pastores!

 

Repetindo: de acordo com o Inaf, alfabetismo funcional é mensurado pelas habilidades das pessoas em compreender, interpretar e utilizar informações escritas, numéricas e digitais no cotidiano e em diferentes contextos sociais. 

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

CORRELIGIONÁRIO NA CAIXA D'ÁGUA

 

Chafariz Grande - Arquivo Ubatuba 


    Seo Filhinho, nascido no início do século XX, dá valiosos informes em suas obras literárias. Um deles é relativo ao serviço de água na cidade (Ubatuba):


    “Não havia perfeita rede de abastecimento de água potável e a população abastecia-se em alguns dos poucos chafarizes, cinco ao todo, distribuídos em pontos diversos da reduzida área urbana. O principal era o Chafariz Grande. Era de fato monumental, formado por uma coluna tetragonal de pedra maciça, importada de Portugal, medindo certamente quatro metros de altura por um metro nas faces laterais, provido de quatro grossas torneiras de bronze, uma em cada face, que funcionavam simultaneamente. Fora inaugurada festivamente em 1896 no centro da antiga Praça do Programa, hoje Praça Nóbrega. [...] Outras chafarizes eram o do Juquinha, no cruzamento das ruas Maria Alves e Hans Staden; o da Campina, no centro da Praça 13 de Maio; o da Caixa d’Água, no cruzamento das ruas Hans Staden e Cel. Ernesto de Oliveira, e o do Porto, no centro da Praça Anchieta”.

  “Sabemos que naquela data, além de feitas as primeiras e raras ligações domiciliares, foi inaugurado um reservatório [caixa d’água] na cidade, no cruzamento das ruas Hans Staden e Coronel Ernesto de Oliveira, edificação esta que, com o decorrer do tempo, a prefeitura doou a um correligionário, que ali construiu a sua residência”.

   De onde vinha a água?

   “Uma pequena caixa de captação, instalada no Morro da Pedreira, em canos de chumbo, emitia o precioso líquido para o centro da cidade”. Quando? No final do século XIX.

   E esse grande chafariz, vindo de Portugal, onde foi parar?

  

  “Quando o ‘progresso’ atingiu Ubatuba e o chafariz grande se fez obsoleto, um prefeito mandou desmontá-lo, picá-lo e atirá-lo na Barragem da Barra da Lagoa”. Sim, o Rio Lagoa tinha uma lagoa! Imagine a quantidade de peixes em tal lugar. Sobre ela, há décadas, surgiram muitas edificações.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

CAMALEÃO CEGO

 

Arte: academia_marchena4


        Esta frase encontrei em Gabriel García Marquez: “Camaleão cego não muda de cor”. E ela me fez lembrar de outro dizer do Velho Caetano: “Galinha choca não tira o ovo da cabeça”. Foram elas que me inspiraram a escrever estas linhas após uma prosa com Olívio, na beira da estrada. Ele tecia comentários do bairro e dos moradores depois de estar “mais de 17 anos convivendo com todo mundo”.

       A dona da vendinha diz que “os pobres não querem mais trabalhar porque recebem Bolsa Família do governo federal”. É quase certeza de que ela tem parentes e amigos que estão sobrevivendo melhor com esse mísero auxílio. Nem pretendo inquirir se ela é favorável à escala de serviço de 5x2, se pretende se aposentar um dia etc. A mesma opinião escutei de outras pessoas evangélicas. “Sabe quem orientou elas nessa direção?” – foi o Olívio quem me informou – “O pastor, aquele homem cheio de saúde que vive da igreja e tem aquele carrão”. Aceitei a explicação, mas lhe afiancei que vários parentes meus, católicos, estão na mesma linha, engolindo essa “verdade” da direita reacionária que vive na maior imoralidade, se aproveitando do suor do povo brasileiro, mas pretendendo entregar totalmente o chão brasileiro para os Estados Unidos. Mas por que pensam assim, sobretudo a nossa gente pobre? Porque é muito poderosa a rede de alienação! Máquinas e instituições seguem sendo comandadas por quem sempre dependeu do trabalho alheio, da servidão da maioria. Redes virtuais, igrejas e grande parte da legislação estão alinhadas para manter no poder, no controle do mundo, uma reduzidíssima parcela da população. 

    Quem compra naquela vendinha, inclusive com a ajuda do governo, são os pobres; os que estão em melhores condições se deslocam para irem aos grandes supermercados. Por fim, por que será que esses “moralistas de carteirinhas” não questionam as apostas virtuais, o roubo do banqueiro, os altos juros exigidos pelo mercado financeiro, as falcatruas da família Bozo e tantos outros temas que poderiam aperfeiçoar a nossa cidadania? Por que será que, muito dos beneficiados pelas medidas do atual presidente, querem o retorno daquele que nada de bom fez pelos pobres, sentem “saudades das cebolas do Egito”?

    “Camaleão cego não muda de cor”. O que falta? Leitura, no sentido mais amplo, para ler o mundo e reescrevê-lo!

sábado, 19 de setembro de 2026

GERAÇÃO PASQUIM

 

Arte: Pita Paiva


      “Cézar Montero olhou para cima e viu o céu espesso e baixo a  dois palmos da sua cabeça. Fez o sinal da cruz, esporeou a mula e a fez girar várias vezes sobre as patas traseiras, até que o animal se firmou na lama, escorregadia como sabão. Foi então que viu o papel pregado na porta da sua casa. Leu sem desmontar. A água havia diluída a cor, mas o texto escrito a pincel, em grosseiras letras de imprensa, continuava legível. Cézar Montero levou a mula  até a parede, arrancou o papel e o rasgou”.

    “No portão, um grupo de mulheres comentava em voz alta o conteúdo de um novo pasquim, que aparecera na noite passada. Como o dia havia amanhecido claro e sem chuva, as mulheres leram o papel anônimo quando iam para a missa, de maneira que agora todo o povoado já estava inteirado do fato”.


     Os dois parágrafos acima estão no livro O veneno da madrugada, de Gabriel García Marquez. Conforme adentrei na leitura, descobri que em realidades bem distantes do litoral norte paulista, de Ubatuba, o gênero literário denominado de pasquim também fez sucesso. (Ou ainda faz?). Mas por qual motivo? Creio que é por revelar para mais gente segredos de poucos e movimentar a realidade próxima.

     Em Ubatuba, já vai se findando a geração que viveu a fase máxima dos pasquins. Árvores, portas de igrejas, obelisco da praça, rancho de canoas e outros lugares estavam sujeitos a amanhecerem com um pasquim grudado. Fofocas, informes e quadrinhas de contexto eram temas preferidos. Um ou outro não gostava, espumava de raiva, mas qualquer pasquim resultava em agitação na comunidade. Mais alegria do que tristeza! Na obra de García Marquez tem uma passagem que confirma: “Naquela mesma tarde, o Padre Ángel observou que também na casa dos pobres se falava dos pasquins, mas de um modo diferente e até com uma saudável alegria”.

    Eu me recordo de algumas partes de um pasquim repetido pelo saudoso João de Souza, da comunidade do Itaguá:

     - Tava assim lá, Ronaldo, na porta da venda do Jaca. Eu era quase adulto:


Na casa do falecido

Há uma viúva enlutada

Que abre de noite a janela

Para ficar aliviada.

 

Manezinho da Ponta Grossa

Passeia de madrugada

Presta atenção na janela

E espera uma chamada.



sexta-feira, 18 de setembro de 2026

FUNDART - CONCURSO LITERÁRIO 2026

 

Arte: academia_marchena.4


      Desde o início do segundo semestre eu estava de olho nos editais das Fundart (Fundação de Arte e Cultura de Ubatuba). O objetivo era dar ciência para quem segue o blog (coisasdecaicara.blogspot.com) do nosso tradicional Concurso Literário, enviar o edital às escolas, aos estimados colegas que atuam em salas de aulas e estão no coração do espaço fundamental da aprendizagem. São estas pessoas que sustentam a maior quantidade de ferramentas capazes de incentivar o alunado, desintoxicar o mundo com a literatura. Finalmente saiu!

 

O Concurso Literário compreenderá as seguintes categorias:

 

33° Concurso de Contos "Washington de Oliveira";

12° Concurso de Crônicas "Prof. José Ronaldo dos Santos";

38° Concurso de Poesia Estudantil "Idalina Graça” – Ensino Fundamental – 1º ao 5º ano;

38° Concurso de Poesia Estudantil "Idalina Graça" - Ensino Fundamental - 6° ao 9º ano;

38° Concurso de Poesia Estudantil "Idalina Graça" - Ensino Médio;

39° Concurso de Poesia "Idalina Graça";

25° Concurso de Texto de Teatro "Tia Helô".

 

ETAPAS

01 - Publicação do Edital do Concurso Literário 10/09/2026

02 - Período De Inscrição 10/09/2026 a 28/09/2026

03 - Período de Análise das Obras inscritas 29/09/2026 a 13/10/2026

04 - Resultado e Entrega da Premiação do Concurso (Biblioteca Municipal "Ateneu Ubatubense") 27/11/2026

 

Parabéns, Ubatuba!

É isso, meu povo! Vamos participar!

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

É MINHA OBRIGAÇÃO (II)

 

Arte - Tiano Mendes


 “Milhões de pessoas terão maiores ou menores condições de enfrentar a luta por um lugar ao sol dependendo do meu e do seu voto. Porque reforma íntima que não se converte em consciência política e social não é reforma íntima, é HIPOCRISIA” – Elias Moraes

 

       Eu e minha irmandade toda criada com peixe, farinha e os frutos da terra rente ao mar, tivemos acesso à escolaridade graças ao ensino público. Minha filha e meu filho cursaram universidades públicas, bem como toda a sobrinhada. É isto que desejamos para todos aqueles que, historicamente, foram deixados de lado, ficaram marginalizados.

      Eu e minha família estamos vivos graças a uma rede pública de saúde, com a nossa saudosa mãe fazendo de tudo para que não ficássemos de fora em nenhuma campanha de vacinação desde a infância de tantos perrengues.

     Eu, graças às leis trabalhistas conquistadas até com martírio de inúmeras lideranças, estou aposentado e desejando um aperfeiçoamento delas para aliviar a carga dos mais jovens, da classe trabalhadora que move este Brasil e o mundo inteiro.

     Eu, graças aos estudos e reflexões, sei que, desde 1500, este país é espoliado por uma minoria com a cumplicidade de nações estrangeiras a se tornarem poderosas, riquíssimas, graças à exploração da nossa terra, do nosso povo, resultando na desesperança de tanta gente.

     Eu, bem como muita gente, reconhece as políticas sociais implantadas no Brasil por um governo popular a partir de 2002, muito tempo depois da invasão portuguesa. Sabemos também que o golpe de 2016 foi orquestrado para regredirmos nesses avanços civilizatórios e entregar de mãos beijadas nossos patrimônios públicos essenciais.

    Eu, mediante exemplos e consequências históricas, sei o que é a perda da soberania, “complexo de vira-lata”, pouco caso das leis por empresas estrangeiras, xenofobia, genocídio, escravidão, poluição ambiental etc.

    Eu rejeito a ditadura, as perseguições às diversidades culturais mantidas pelos povos originários, pelos afrodescendentes e pelas comunidades tradicionais (dentre elas a caiçara a qual pertenço).

    Eu, assim como o Elias Moraes, não acredito em mudança pessoal que não aceita uma vida melhor para todos. Por isso tenho a consciência da importância do meu voto para que todos tenham vida. O meu direito é a minha obrigação em desejar  vida em abundância.

   Assim, abaixo a HIPOCRISIA, principalmente das pessoas que batem no peito se autoproclamando religiosas!



segunda-feira, 14 de setembro de 2026

"É MINHA OBRIGAÇÃO !"

 

Lá longe o mar - Arquivo JRS 

"Pergunto-me como é possível ver a injustiça, a miséria e a dor sem sentir a obrigação moral de mudar o que se vê". (José Saramago)


     Eu já escutei algumas pessoas, pouca coisa mais velhas do que eu, dizerem que não vão mais votar porque não são mais obrigados por lei, está como opção. “Agora eu voto se quiser”. No entanto, todo mundo sabe, cada voto faz diferença num resultado final. Estou no time das pessoas esperançosas de que os idosos, conscientes da fragilidade da democracia brasileira, possam exercer com toda firmeza seus direitos, sua cidadania, para alcançarem um final de vida com a maior dignidade possível. Por outro lado, aqueles que permanecerem alienados, fariam um favor à nação se não comparecessem no momento solene das urnas, nas eleições.

     No contexto do início acima, viajando de ônibus um dia desses de Ubatuba para Taubaté, várias pessoas embarcaram no mesmo veículo na rodoviária de São Luiz do Paraitinga. Dois idosos se acomodaram nas poltronas próximas daquela onde eu estava. Pelo visto eles se conheciam apenas de vista, mas logo estavam na melhor prosa. Era gente de roça, mas conversavam sobre tudo, entraram na área da política e demonstravam que estavam a par dos últimos acontecimentos. Até do “Pangaré Obscuro” já condenado e inelegível trocaram opiniões. Eu, como bom escutador, atentava aos detalhes, queria saber em quem votariam nas eleições que se aproximavam, mas parecia que os dois não ousavam revelar. Talvez porque não eram suficientemente amigos, mas apenas conhecidos. Só que eu percebia o quanto os dois eram críticos das propagandas mentirosas, comentavam sobre o horário eleitoral da televisão. Num dado momento o senhor que parecia mais idoso disse isto: “Eu não sou mais obrigado a ir votar, mas é minha obrigação exercer o meu direito. Eu sei quem é melhor para o meu país, quem está fazendo mais pelos pobres. Buscar um mundo melhor é minha obrigação!”. Aí o outro exultou: “Então você também vai votar no Lula?”. Ou seja, só depois de quase uma hora de viagem eles se revelaram. Daí em diante pude notar que ficaram mais empolgados, avançaram ainda mais em detalhes, revelaram suas paixões por uma linha de governo que alimentava suas esperanças naquela etapa da vida. Que bom! Eles nunca podiam imaginar que alguém logo ali era todo ouvidos na prosa e estava torcendo para serem afinados nos mesmos ideais.

    Concluindo: essa categoria de idosos não pode se ausentar nas próximas eleições na qual a nossa soberania corre grande risco.

  Que os mais jovens sigam bons exemplos de cidadania!

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

À DERIVA

 

Tiano em ação - Arquivo JRS 


"Um passado que se compartilha é um sacramento de solidariedade”.

(Rubem Alves)

 

    No século passado alguém escreveu que o mais indicado a fazer, no intuito de desfrutar de uma cidade, é andar à deriva. Assim eu fiz num dia desses nos arredores do centro da cidade de Ubatuba: saí pedalando num destino incerto. Avistei o mar, olhei partes do mangue, me detive num canto de praia. Seguindo pedalando, bem distraído, notei um amigo trabalhando em seu espaço. Aí não teve como não parar e prosear com o pintor Tiano!

   Cristiano, o Tiano Mendes, neto do Zeca Pão (da estátua do pescador na rotatória da rodovia Oswaldo Cruz), segue a trajetória do pai recentemente falecido. Ainda era cedo, mas ele já estava nos últimos retoques em nomes que estavam numa prancha de surfe. “É uma encomenda para enfeitar o local de um cliente”. Naquele espaço da avenida Padre Manuel da Nóbrega, no Perequê-açu, fui apreciando trabalhos em diferentes etapas desse artista caiçara que teve destaque, sobretudo na pandemia de 2020, quando ajuntava suas tintas, seu material e saía tornando mais agradáveis os nossos pontos de ônibus. Outros poucos artistas se animaram e também fizeram bonito. Eram obras artísticas, que mereciam ser retocadas. Foi uma iniciativa louvável a ser expandida! Porém as lindas pinturas foram apagadas e substituídas por coisa sem graça. O que dizer de gestores indiferentes aos esforços dos nossos talentosos artistas?


Tempo da pandemia - Arquivo Tiano


Ponto de ônibus hoje - Arquivo JRS 



   Tiano me disse que ele começou a pintar cedo: “Fui aprendendo com a minha tia Rosângela Vieira, irmã do meu pai. Ela pintava muito bem”. Eu a conheci em 1992; já estava doente, faleceu muito jovem. “Depois fui pintando letras e painéis com o meu pai. Por fim, após passar uns anos na capital paulista, resolvi voltar para Ubatuba, morar com a minha mãe. Então arrumei este espaço onde ensinava pintura, mas não deu muito certo porque os alunos faltavam demais. Hoje eu sigo produzindo aqui, mas sempre tenho uns trabalhos pelas ruas, pinto letras e mais coisas”. Ele ainda se recordou de momentos da sua infância: “Eu acompanhava a minha avó nas idas à costeira, na pescaria e na captura de caranguejos no mangue logo ali, depois da escola Esteves”. Por fim, ele confessou: “Eu gostaria de me encontrar mais vezes com gente nossa, que gosta de contar histórias e de recordar de tantas coisas que vivemos em outros tempos. Poderia ter um programa na rádio ou na internet abordando coisas da nossa Ubatuba. A minha finada avó conversava muito comigo, me ensinou muitas coisas”.

   Resumindo: a manhã, graças a minha opção de sair à deriva, proporcionou um feliz encontro com esse artista bem caiçara. Como é bom compartilhar momentos assim!

domingo, 6 de setembro de 2026

RAIZ DE NAVEGANTE (II)

 

Anúncio - Arquivo Steve Duarte 

       Steve Duarte, na pesquisa da trajetória do seu tretavô, o português Antônio José Duarte de Souza, hoje nos apresenta mais um pouco da história, dos empreendimentos no ramo da navegação no século XIX. Ubatuba, lar desse pessoal, era o porto por onde escoava até café cultivado em Itajubá e outras paragens mineiras.

 

      No ramo da navegação, inicialmente a parceria era entre o nosso personagem principal e seu sogro. Posteriormente, ingressaram na sociedade seu cunhado Francisco Gonçalves Pereira e seu concunhado Joaquim Victorino da Cunha, passando a operar sob a razão social Pereira, Duarte & Comp., que se consolidaria como uma das casas comerciais de maior expressão da vila na segunda metade do século XIX. A sociedade entre Antônio José Duarte de Souza, seu sogro e os dois cunhados foi dissolvida amigavelmente mediante escritura pública lavrada no Tabelião Cruz, em 14 de abril de 1864. Na ocasião, Antônio José retirou-se da empresa com o propósito de constituir uma nova firma em associação com seu filho mais velho, Antônio Júlio. Os demais sócios permaneceram reunidos sob a razão social Pereira, Victorino & Comp. Pouco mais de um mês depois, em 18 de maio de 1864, foi lavrada, no 4.o Ofício de Notas da Capital do Rio de Janeiro, a escritura de venda do vapor nacional Innovador. A embarcação foi adquirida por Antônio José Duarte de Souza diretamente do Barão de Mauá, pela quantia de 16 contos de réis, passando então a denominar-se Trovador. O negócio foi acompanhado do pagamento do selo proporcional, no valor de 16 mil réis, sob o nº 142, na mesma data, e do registro nº 3.196 na Alfândega do Rio de Janeiro, onde foram recolhidos direitos de 5%, correspondentes a 800 mil réis. A aquisição do Innovador, rebatizado Trovador, marcou o início de uma nova etapa na trajetória empresarial de Antônio José Duarte de Souza, agora desvinculado da sociedade mantida com o sogro e os cunhados e associado diretamente ao filho na condução de seus negócios. Constituía-se, assim, a nova casa comercial sob a razão social Duarte & Filho. No entanto, o percurso da firma não esteve isento de infortúnios. Em agosto de 1867, Antônio José Duarte de Souza anuncia no Correio Mercantil o trágico falecimento precoce de seu prezado filho e sócio, Antônio Júlio Gonçalves Duarte, de apenas 23 anos.

     Apesar do revés que lhes acometera, a firma continuou a buscar expandir suas operações. No Jornal do Commércio de 28 de maio de 1868, anunciou-se um novo acordo envolvendo as casas comissárias de Caraguatatuba, passando o vapor Trovador a realizar três viagens mensais àquele porto. O que Duarte não contava é que, na madrugada de 24 de fevereiro de 1869, sofreria outra grande perda: o catastrófico naufrágio de seu Trovador, episódio posteriormente narrado na primeira página do Jornal do Commércio de 2 de março do mesmo ano.

  Após sucessivas adversidades, Antônio José Duarte de Souza anunciou no Jornal do Commércio, de 17 de dezembro de 1870, que reabrira seu estabelecimento para receber cargas, declarando esperar a coadjuvação de seus amigos e fregueses das províncias de São Paulo e Minas Gerais, marcando assim a retomada formal das atividades comerciais após o naufrágio do Trovador. Nessa nova fase de sua firma, Duarte, tendo como sócio seu segundo filho, José Bernardo, adquiriu um novo vapor com o apoio de Miranda Monteiro & C., que detinha porcentagem da embarcação. A aquisição do vapor Emiliana, de 120 toneladas, ampliava a capacidade de transporte em relação à embarcação perdida e demonstrava não apenas a recomposição de seus meios materiais, mas também firme disposição de reconstruir e reinvestir no tráfego costeiro que integrava o circuito cafeeiro responsável por ligar o Vale do Paraíba e o sul de Minas à praça comercial do Rio de Janeiro. A viagem inaugural do vapor, com partida da cidade do Rio de Janeiro, ocorreu três dias mais tarde, na manhã de domingo, 9 de julho, às sete horas, conforme anúncio publicado no Jornal do Commércio de 8 de julho de 1871. Nessa nova fase, ingressou também seu genro Alfredo Augusto da Silveira, agora sob a firma Duarte, Filho & Genro. Mais adiante houve a aquisição do vapor Pirahy, em 1878.

   

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O ESPÍRITO DA ESPERANÇA

 

Entre nuvens - Arquivo Mingo

    Estou na leitura do livro O espírito da esperança: contra a sociedade do medo, do filósofo Byung-Chul Han. Nele vai se afirmando que "apenas a esperança nos permite recuperar a vida que é mais que sobrevivência".  Então me localizei no texto e no contexto atual a alimentar uma onda reacionária que eu, caiçara, adepto da ética comunitária, nunca imaginaria uns anos antes. O autor é eficiente em sua análise. Assim, não tem como não transcrever o seguinte:

   O clima generalizado de medo sufoca qualquer broto de esperança. Com o medo se instala uma atmosfera depressiva. O medo e o ressentimento lançam as pessoas nos braços dos populistas de direita, que atiçam o ódio. Solidariedade, amistosidade e empatia se deterioram. O medo e o ressentimento causam o embrutecimento da sociedade como um todo. Isso, em última instância, ameaça a democracia.  

     Medo e democracia são incompatíveis. A democracia prospera apenas numa atmosfera de reconciliação e diálogo. Aquele que dogmatiza suas opiniões e não escuta os outros não é cidadão. O medo é um popular meio de dominação, pois torna as pessoas obedientes e suscetíveis à chantagem.

    Qual medo está na moda em nossa cidade? Tenho ouvido de muita gente sobre o medo dos sofredores de rua, dos que mendigam a sobrevivência. "Vi na internet isso", "Minha amiga me enviou tal situação" etc. O marginalizado, fruto de uma sociedade que jamais repartiu é o culpado? Por que esse medo não se volta contra os opressores, os que desejam seguir sugando vidas, vivendo do suor da classe trabalhadora? Por que não desbancamos de seus tronos aqueles que pretendem seguir produzindo essa massa de desvalidos? 

   Escolher os mais fracos como culpados é uma estratégia reacionária, da direita política! E o que dizer dos pobres que abraçam isto?

  

Instagram  iohana.estudantepsi