terça-feira, 20 de outubro de 2026

NÓS FALHAMOS

 

Um grande cogumelo - Arquivo JRS 

      Sempre estou cavando um dedo de prosa pelos caminhos. Todos nós precisamos disto. Anteontem parei um cidadão na beira da estrada, puxei um conversa para saber mais da história daquele lugar, como era antigamente, de que viviam etc.  Ele, João, disse que não era dali, veio parar no bairro depois que a fazenda foi vendida e as famílias dos camaradas foram despejadas. "O meu avô trouxe a gente pra cá. Tinha uma escolinha, mas não existia o posto de saúde. Depois fecharam o lugar onde a criançada estudava; passaram a mandar um carro para quem quisesse estudar na cidade. Era difícil, quase todo mundo precisava ajudar em casa, na roça. As coisas ficaram melhor faz pouco tempo, uns vinte anos ou pouca coisa a mais. Hoje tem médico uma vez por semana para atender o povo, tem ônibus escolar três vezes por dia, tem ajuda do governo para quem mais precisa...". 

        Aprendi muito escutando o João. "É aposentado?". "Não, mas já tenho um advogado fazendo um trabalho pela minha aposentadoria". "Vai votar em quem?". "É claro que vou votar em quem melhorou a nossa vida! Como vou cair nessa armadilha do filho do outro que não fez nada por nós, que  vive mentindo?".

        João é idoso. Lula mais idoso ainda. Quando eu vejo um pessoal que já ultrapassou a minha idade se posicionando de forma tão firme pela vida, pela dignidade humana, não arredando nem um passo de suas convicções, e, ao mesmo tempo, avisto tantos mais jovens torcendo pelo pior dos mundos, eu sinto que falhamos. Idosos deveriam curtir o que lhes resta de vida, contar histórias nos bancos das praças, se alegrar pelo mundo, pela contribuição dada desde os tempos de maior vigor. No entanto, eles se desdobram em tarefas pela própria sobrevivência e pelos seus. O mundo parece ter piorado. Quer prova maior ao saber dessa massa apoiando, se desmerecendo por aqueles que, comprovadamente, tem os piores defeitos morais, se orgulham de roubos e mentiras, praticam o que há de pior para viver às custas dos trabalhadores, de gente honesta, tal como o João, a Doca, a Ângela e muitos outros que resistem na lida, acreditam na promessa de um mundo melhor? Quer prova maior de que a nossa geração falhou feio?

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