quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

VEM DA PROSA DO DITINHO RICARDO


Seja bem-vindo, Chico Abelha! Eis o pescador Leopoldo Louzada. (Arquivo  Camaroeiro)

                Quando criança, além do Totô, na praia do Sapê, quem cortava os nossos cabelos era o Ditinho Ricardo, um primo do meu pai, da praia do Pulso, que migrara para Caraguatatuba no tempo da Fazenda  São Sebastião, a “fazenda dos ingleses” às margens do rio Juqueriquerê, na estrada que vai para a cidade de São Sebastião.
                A Barbearia do Ditinho era quase atrás da rodoviária velha de Caraguá, na “praça da praia”. Coisa comum em "salão de tesoura e de navalha" é saber de tudo, escutar causos e histórias bem interessantes. Foi onde aprendi a respeito de alguns dos meus que deixaram a região da Caçandoca para buscar trabalho com os ingleses. “Eu não me arrependo” – dizia o parente enquanto acertava cabelos e barbas – “Aprendi muito, consegui guardar um dinheirinho para começar o meu negócio. Lá tinha de tudo que  se precisasse. Só que tinha que trabalhar mesmo! Bem dizer toda semana tinha embarque de banana, de laranja e mais coisa. Foi uma pena que acabou tudo aquilo dali por ocasião da enchente [1967]”.
                No início da década de 1990, participando de um curso em Educação Ambiental, fiquei hospedado no bairro do Tinga, com visitas monitoradas em diversas áreas da restinga, na orla de Caraguá. Aproveitei da ocasião para ver o que restava das instalações da Fazenda dos Ingleses, sobretudo  os atracadouros nas imediações da ponte do Porto Novo, o New Port de outras décadas. Achei impressionante tudo aquilo! Vislumbrei o que teria sido tudo aquilo em funcionamento.
                Na mesma época do referido curso, passando em Caraguá com a amiga Priscila, fizemos uma breve visita ao seu avô Marino Garrido. Entabulando uma gostosa prosa, fiquei sabendo que ele também foi funcionário dos ingleses. Melhor: até escreveu um livro a respeito da fazenda. Outro idoso que estava na casa do Garrido era Tibiriçá Pimenta,  ex-prefeito de Caraguatatuba e descendente da Fazenda Poço Verde, na praia da Mococa. Me amarrei nos dois e não fiz nenhum esforço para as horas de prosa que se seguiram. Nem percebi o serão. Também a Priscila aceitou muito bem o longo tempo que ficamos na casa do vô.
                Resumindo: Ditinho Ricardo, Garrido e Tibiriçá Pimenta me ensinaram muito sobre a tal fazenda. Agora, o amigo Jorge, com outro presente para mim – o livro Uma fazenda inglesa no universo caiçara, de Glória Kok – mostra em detalhes a dinâmica do empreendedorismo inglês. Desde a sua organização (departamentos: bananicultura, citricultura, gerência, tráfego ou transporte, contabilidade, mecânica, almoxarifado, engenharia, marítimo, sanitário, farmácia, armazéns e carpintaria) até a produção e exportação exclusiva para a realeza e os súditos da Grã Bretanha, distantes 12 horas de navio. “As bananas eram cortadas semanalmente, dois dias antes da escala, em São Sebastião, dos navios frigoríficos da frota Blue Star Line, que vinham de Buenos Aires carregados de carne para o mercado inglês. A média semanal era de 35 mil a 40 mil cachos. O corte era feito por trabalhadores que pegavam o seu ‘vão de picada’, ou seja, os talhões entre os caminhos do bananal, cortando, individualmente, até 150 cachos por dia. Se precisassem ser acondicionados em sacos de papel, como era exigido para exportação,  o trabalhador não conseguia mais de 80 cachos diariamente. O carregador pegava o cacho na beira do caminho e conduzia-o até o ponto onde era colocado nos vagões, cuidadosamente forrados com folhas de bananeiras, a fim de evitar atritos para não amassar as bananas”.  
Segundo o depoimento do seu Leopoldo Ferreira Louzada, que trabalhou muitos anos na Fazenda dos Ingleses,  “as  bananas iam bem verdinhas, pra chegar lá na Europa verde ainda, não amadurecer na viagem, porque o mar é muito quente e amadurece a banana muito depressa”.
Enfim, os ingleses criaram, entre 1927 e 1967, nas terras onde hoje está parte da Fazenda Serramar, uma outra cidade, melhor estruturada que o próprio município de Carguatatuba, atraindo muitos caiçaras que viviam na subsistência, sem nenhuma fonte salarial. Para encerrar: foram os ingleses que ensinaram o futebol nessas terras de bons remadores. Não posso deixar de mencionar o Justo Arouca, um caraguatatubense que, vindo para Ubatuba, por volta de 1955, foi um grande incentivador do “jogo de bola” e de outros esportes coletivos.

3 comentários:

  1. Olá, José Ronaldo!
    Gostei muito dos seus escritos. Passei uns dias na Lagoinha e explorei um pouco as redondezas, Bonete e Caçandoca, além da mata em frente à praia.
    Faço pesquisa de folclore e gostaria de um contato seu para eventuais informações sobre a sua região.
    Falei muito com dona Lourdes do restaurante do Bonete, a que faz a consertada, o seu Benedito, que canta a folia de reis e tbm a Maria de Lourdes que mora na Estufa 2, mas penso em voltar e descobrir um pouco mais.
    Meu email é: chico.abelha@hotmail.com
    Meu blog, onde escrevo é: http://chicoabelha.wordpress.com/
    Meu facebook: https://www.facebook.com/chicoabelha
    Grande abraço e parabéns pelo trabalho, bem escrito, simples e divertido.
    Francisco José Lacaz Ruiz

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  2. Olá!
    Meu nome é Priscilla e sou descendente da família Peixoto, De Paula e Oliveira, entre outros sobrenomes Portugueses que sei somente até os bisavós. Fiquei sabendo que a minha bisavó contava que a família dela era dona da Fazenda Serramar antes mesmo dos Ingleses. Após uma rebelião de escravos que mataram quase todos da família, a mãe e duas filhas precisaram fugir. Gostaria de saber se há alguma pesquisa feita sobre essa época. Meu email é pribemol@hotmail.com. Obrigada

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  3. José Ronaldo bom dia.Eu nasci em Caraguatatuba e moro em São Gonçalo RJ.Gostaria de saber se existe algum museu dos ingleses na Fazenda Serramar e se ela pode ser visitada pelo publico. Isso para mim é muito importante. Você pode entrar em contato comigo através do e-mail luaolivieri@yahoo.com.br Muito obrigada!

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