terça-feira, 17 de maio de 2011

“Temos pano da mesma fazenda”

          
        O título deste é uma frase dita pelo caiçara Antonio “Paratiano” num dia de sábado, final da tarde, pouco antes do frei Pio iniciar a missa na capela São José, na praia do Félix, no início da década de 1970. Era serão; se escutava os primeiros pios dos curiabôs pelas grotas. Isso já faz muito tempo! Para quem conhece o local, já sabe que o jundu é o mesmo. No serão, era o horário das últimas canoas, aquelas que foram arriar os tresmalhos, serem puxadas do lagamá até os ranchos sob os rolos esbranquiçados de embaúbas.
        O velho pescador Antonio, mais conhecido como “Paratiano”, tinha duas filhas quase chegando aos dezoito anos, ainda solteiras: Maria e Rosa. Ambas precisavam arrumar marido logo, deixar a solteirice. Os candidatos não eram tantos. Um era o filho do Anastácio, o Pedro Malaquias que era atraído pela mais velha – a Maria. Nunca  disse isso diretamente à moça, mas muita gente do lugar sabia do seu desejo em se casar, de preferência com a filha do cidadão de Parati que há muito se fixara por ali. O pretendente ensaiou, ensaiou, ensaiou... até que foi tomado pela coragem. Decidiu “pedir a mão da moça” em casamento.
         Neste teor descreveu, naquele dia distante, um pouco antes do badalar do sino chamando para a missa, o futuro sogro do Malaquias: “Ele chegou como quem não quer nada. Parou no terreiro; olhou a jabuticabeira parecendo que cheirava alguma coisa naquela direção. Depois deixou a minha velha contente falando da beleza da ‘parasita’ orelha de burro, grudada na mexeriqueira. Logo virou a cabeça para o lado da Bocaina e da Ponta Lisa. Fez um comentário bobo sobre o tempo (‘Parece que vai chover’), mas concordei assim mesmo. Foi quando a minha patroa chamou a gente para um café intirume porque já era manhã alta. Na cozinha, então, ele fez o tão custoso pedido. Nós aceitamos; a mulher se dirigiu à camarinha a fim de falar com a menina. Aí o inesperado aconteceu: a Maria não quis. Porém, a outra –a Rosa- se assanhou; prontamente cobiçou o rapaz. A coitada da mãe ficou surpreendida; de lá me chamou. As meninas me olhavam; a mulher disse tudo. Eu achei normal. Voltei à cozinha, ofereci mais café para o rapaz e informei-lhe: ‘A Maria não quer, mas... temos pano da mesma fazenda. Você aceita casar com a Rosa?’ Na mesma hora, ainda gaguejando, ele disse sim. Agora está feito! Por isso, fiquem sabendo: demos a Rosa! É só esperar a festa!”.      Nesse momento, subindo a areia grossa do jundu, ainda com o remo e o samburá na mão, chega o Antonio Malaquias. Foi, então, o centro das atenções. O felizardo, sem querer (?), ficou com a mais bonita das filhas do caiçara paratiano. É, conforme o dizer: “Há ocasiões em que os fados nos concedem os nossos mais caros desejos”. Até parece estar conforme o verso da música: “casar com mulher feia pensando na cunhada”.
        Viva todas as pessoas aqui citadas, inclusive os já falecidos!!!

        Recomendação de leitura: Mundéu, de Domingos dos Santos

Nenhum comentário:

Postar um comentário