quinta-feira, 10 de outubro de 2013

SE ORGANIZAR É RESISTIR




     No Blog do Peter (canoadepau.blogspot.com), escolhi o mapa da proposta de zoneamento do pessoal da Praia da Enseada, onde podemos localizar as diversas zonas de interesse pesqueiro, maricultura, bancos naturais de mexilhão, trilhas na mata, recifes artificiais marinhos (poita dos meros). O Mapa é baseado nas regras tácitas tradicionais locais que integram: 

1- os pesqueiros tradicionais, pedra da laje, pedra rachada, figueirinha, porto velho, poço fundo (castelinho), saco grande (todo, cerco flutuante), após o calhéu (pedra redonda) zona mista exceto arpoador, saco do arpoador, até saco do soldado (zona de influência do cerco flutuante da ponta do espia); 

2- com a maricultura familiar artesanal de baixo impacto em áreas de 2.000 m2. (dois mil).


       Já o primeiro desenho eu fiz para uma proposta visando a recuperação da fauna marinha, sobretudo dos peixes, na Baía de Ubatuba (desde a Praia do Cedro até a Ponta da Mãe Maria). Já faz um certo tempo isso, mas se destinava aos pescadores e suas entidades representativas. Porém, penso como o Peter e muitos outros: se organizar é resistir (para viver mais e melhor).

              
          Eu acredito que é possível e viável reservar toda essa área (da Baía de Ubatuba) para a pesca artesanal, onde as estrelas da navegação seriam as canoas caiçaras. Pelo que vi, os parceiros da Enseada pensam nessa direção. Quem ganha com isso é todo mundo, principalmente a cidade através da sustentabilidade e da preservação ambiental.

              Imagine tudo repleto de parcéis artificiais! Em pouco tempo até o bagre-urutu do finado Maneco Hilário apareceria novamente!
       
               A pesca esportiva faria sucesso, muitos remadores apareceriam, a arte de fazer canoa caiçara se reergueria. E que tal resgatar as costumeiras regatas de canoas e as grandes provas natatórias?

terça-feira, 8 de outubro de 2013

ESPAÇOS MUSEOLÓGICOS

Obelisco: obra  de 1937. Olhem a beleza do casario do entorno!


                Quem anda pela cidade de Ubatuba, ou por qualquer  outra cidade, sempre  tem a atenção inclinada para algo singular, quer saber mais, admira traços, cores etc.  Portanto, a cidade está repleta de espaços museológicos já evidentes.  Outros podem ser criados e/ou fomentados.

             Em relação à nossa  cidade, começando pela boca-da-barra do Rio Grande, o denominado Ubatuba  (muitas ubás) pelos tupinambás, me pergunto se existe muita gente que poderia ajudar, sobretudo os migrantes e  turistas, a um retorno no tempo para vislumbrar os indígenas fisgando peixes, caçando, produzindo uma cerâmica básica, coletando nas matas e costeiras, se divertindo nas areias da Praia de Iperoig até a intromissão do explorador português. E, a partir desse mesmo local, que tal imaginar, com astúcia jesuítica, a Traição de Iperoig, mais conhecido como o primeiro “tratado de paz do continente americano”, cuja comemoração ocorre sempre no dia catorze de setembro, com o Dia da Paz de Iperoig ou da Exaltação da Santa Cruz?

            Na Ilha dos Pescadores, admirando o colorido das pequenas embarcações pesqueiras, convém explicar o nosso passado, cujo destaque foi  ter sido um porto exportador  (da produção local, do Vale do Paraíba e do Sul de Minas).  Dali se avista o maltratado Casarão  do Porto. Ele está de pé atestando a opulência do século XIX, quando  o café era a principal riqueza. Além dele, tivemos outros produtos geradores de dinheiro. Exemplos: farinha de mandioca, aguardente,  peixe seco, banana, anis, arroz, granito verde, madeira etc. etc. etc... A atividade pesqueira também já teve seu auge. Por isso que, em 1937, nessa ilha de exuberante mangue, foi instituída a Feitoria de Pesca, sob a liderança do professor Teodorico Coutinho. Ah! Já que estamos falando disso, não podemos nos esquecer que, lá no “Caisão”, há décadas, funciona o Instituto de Pesca, um importante centro de pesquisa marinha, de pesca e de outras possibilidades garantidas pelo imenso mar.  Nesse mesmo assunto, quem  desconhece que, na Praia do Lamberto, entre as praias Brava (do Hermínio) e o Saco da Ribeira, se localiza a Base Norte do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo?


             É isso! Nunca é demais saber um pouco de nossa história. Conforme já disse alguém: “Não deveríamos ter de aprender de novo cada habilidade a cada nova geração”.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

VALEU, MEU SENHOR!


 



 Foram se as flores...
Ficaram as satisfações.

Os nossos olhos contemplaram,
Muita gente parou
E registrou.

“É piúva!” disse o João.
Assim se chama o ipê
Na linguagem caiçara.

Agora...
Varre, Cláudio!
          
Valeu, meu senhor!

sábado, 5 de outubro de 2013

AMIGOS E LEITORES

Flor do Japão (Arquivo JRS)

               Ontem, às pressas, sai para um compromisso a convite da amiga Lourdes Moreira: um sarau de abertura do concurso de poesia de Ubatuba. Lá, na Biblioteca Municipal, encontrei muitos amigos, inclusive leitores das coisas de caiçara que eu me atrevo a escrever. Uma dessas pessoas era a Ana Maria, cuja família eu conheci morando na beira do mar, na Prainha do Padre (ou do Matarazzo). 


     A Ana expressou um desejo: conhecer a Flor do Japão. Então, aproveitando desta semana que elas desabrocharam, lhes apresento. 

     A Flor do Japão sai da terra maravilhosa e cheirosa. Em outros lugares é conhecida como Flor da Ressurreição. Elas abundavam no terreiro da vovó Eugênia. Eis a explicação dos caiçaras daquele tempo: "O Japão é do outro lado da Terra, de onde vieram os japoneses. É por isso que se chama Flor do Japão essa flor que se abre de dentro da terra. Vem do lugar deles".

      A todo instante tinha alguém agachado para sentir mais de perto o seu aroma adocicado. Maravilha de outros tempos que eu cultivo sem nenhum esforço!

      Um outro lugar que, nessa época do ano ficava roxo, branco e perfumado era do Toninho Nicodemos, no Sertão do Ingá. Conhecendo ele e o irmão Mané, ambos tranquilos eternamente, creio que por lá as coisas continuam muito igual. Até imagino o perfume inebriante com tantas flores naquele terreiro tão bem cuidado. Ah! Recomendo os doces caseiros produzidos pelo Mané! Deliciosos!!!

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

MOMENTO DE REGISTRO


Vaso de avenca (Arquivo JRS)

           
          Hoje, após uns dias de chuva, amanheceu na característica bem dessa época (de primavera), com passarinhos em algazarra, nos mais variados sons.
           Sem ainda dar uma olhada  na “cara do tempo”, acredito que o sol vai aparecer e ajudar na secagem de uma “pilha de roupa” na varanda.
                Um galo cantou bem longe. 
       A corruíra está próxima, mandando a sua mensagem alvoroçada do vaso onde a avenca se esparrama bem verdinha. 
               Sanhaços fazem festa na palmeira, rente ao muro. 
          A melodia de sabiá-laranjeira vem da parte de trás do quintal, onde o cachorro, agora cansado da vigília da madrugada, está enroladinho no seu cantinho. 
         Ao longe, alguém da vizinhança ouve o rádio. O ritmo é sertanejo.
        Penso, escrevo, penso... E assim me fui entretendo nesse ouvir, imaginar e interpretar. Não demorou nada para as interferências cessarem e eu ser envolvido apenas pelo silêncio solitário de querer registrar esse momento.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

LOURENÇO DA ILHA

              
Sabiá-coleira no quintal  (Arquivo JRS)
                         Cheguei agora da rua. Vim de ônibus conversando com o Toninho do tio Mané Pequeno. Escutei boas histórias desse caiçara que se aproxima dos oitenta anos. Acho que posso tornar a editar o seguinte texto.

            Atualmente, olhando alguns poucos jovens caiçaras soberbos, dissimulados, fúteis, petulantes etc., fico pensando em detalhes passados desse meu povo. Desde o ano passado, por exemplo, classifiquei desse modo alguns descendentes do finado Lourenço da Ilha. 

                O caiçara Lourenço da Ilha era ilhéu do Mar Virado até o início do século XX. Porém, mudou-se com a família para a praia da Caçandoca devido as melhores condições de acesso e de produção. Também considerou a necessidade cultural. Afinal, na costa havia mais festas, mais rituais religiosos e mais gente, inclusive parentes. De lá, após a abertura da estrada para Caraguatatuba e o advento do turismo, os seus descendentes se deslocaram para o bairro da Estufa e outros lugares mais próximos do centro da cidade de Ubatuba. E, - lógico! -  continuaram a se reproduzir.

                Hoje, olhando silenciosamente para esses jovens tão distantes, mas próximos do Lourenço da Ilha, penso: será que ao menos sabem que algumas de suas raízes estão no nem tão distante Lourenço, um homem que foi capaz de criar para si uma segunda natureza: de viver fora da ilha? Ainda bem que, dessa mesma descendência, há vários atuando na recuperação da dignidade caiçara! A eles dou os meus parabéns!

terça-feira, 1 de outubro de 2013

ORQUÍDEAS

Olha ela aí, Chico! (Arquivo JRS)

Agora, como quem não quer nada, dos lugares mais recônditos do meu quintal vai surgindo surpresa. No final de semana passada, entre as folhagens, eis que um amarelo se destaca. É a singela florada de uma orquídea por nome de Índia.

Índia é a denominação dada pelo compadre Chico Lopes. Foi ele quem me deu essa maravilhosa planta, há quase vinte anos. Ainda me lembro bem, como se fosse agora: ele foi até a ameixeira, na porta da cozinha, desgrudou uma parte viçosa, colocou num saquinho e disse: “Toma, compadre. O nome dela é Índia. Não sei o nome científico. Só sei que é muito bonita”. 

Assim, quase todas as orquídeas têm seus nomes de origem. Trazem nisso a sua história particular; lembram momentos e pessoas queridas.

Foi a vovó Martinha quem me conduziu para a apreciação das espécies existentes em nossas matas. Desde pequeno, vivendo na Praia do Sapê, era comum excursionar com ela pela Queimada em busca de orquídeas. “Zezinho, daqui a pouco, logo depois de almoço, nós vamos catar parasita na Queimada”.

O que os caiçaras do Sapê chamam de Queimada é um lugar único em Ubatuba, pois se formou a partir de um alongado banco de areia entre a vargem e o mar, desde o Porto da Cruz até o Pontal da Lagoinha. Quantas frutas nós coletamos ali!

Na Queimada era abrigada a mata do jundu do Sapê, cuja característica principal é de árvores baixas (araçás, goiabeiras...), manacarus e muito musgo a forrar o solo arenoso de milhares de anos. Por ter muitas espécies com cascas gretadas, é grande a variedade de caraguatás e de orquídeas, mais comumente conhecida pelos antigos por parasita. “Essa é chifre-de-veado. Aquela é rabo-de-rato. Chuva-de-ouro é a que mais tem”.

Da Queimada original quase não restou nada. Tudo foi tomado pelos loteamentos. Também teve um tempo em que empresários da terraplanagem retiraram muita areia daquele lugar. Ganharam dinheiro... detonaram o local.

Na Queimada também tinha lagoas, onde as aves migratórias faziam suas paradas e chamavam a nossa atenção. Hoje não sei onde descansam porque esses lugares foram aterrados, ganharam edifícios. Acho que elas nem passam mais por nossa cidade. Outras coisas fornecida pelas lagoas: peixes, cágados, caxeta, taboa e junco (para tranças e chapéu). Quantas vezes esses lugares nos socorreu com seus recursos, com sua diversidade!?!