sábado, 4 de junho de 2011

Lembranças dos tempos d’antes

       
         “Bem piquininho eu já ia com o papai pescá. E não tinha percisão de í muito longe pra mode pegá pexe. A maió lonjura que trago na lembrança é da Ilha Anchieta, da época que ainda se chamava de Ilha dos Porcos, quando nem tinha serventia de prisão.
         Não sei quanta casa egistia, mais era bastante. Moravam iguar os do Búzo, sem medo de morro caí na cabeça. Arguma casa já era de telha.
         Morava muita gente naquelas banda. Os mais velho ripitia sempre que vivê em ilha tinha arguns ganho. Lá não tinha saúba pra mode istragá mandioca. A terra era boa e dava de tudo. Purisso não era desperdiçada nenhuma badeja. Me alembro que de longe se avistava as coivara.
         Pexe era uma fartura pra tudo que é lado. A maió vantage de sê moradô da ilha é vê direto barco grande passando, apoitando no largo, comprando produto que os moradô oferecia. Tudo se negociava: daquilo que sobejava e daquilo que era só pra negociá mesmo.
         Direto, em quarquer casa, tinha farinha que pudia sê negociada. Também se curtivava pimenta, cará, banana... Mais o que os barco mais comprava mesmo era todo o óleo de caçoa que tivesse: o tanto que tirasse era o tanto que vendia. Dizia que era usado em máquina pra mode não gastá peça.
         A mulherada também se esmerava na feitura de chapéu; se vendia toda trança de parma de brejaúba que tivesse feita. Desse modo elas negociava com peça de fazenda e mais coisa que carecesse.
         Dependendo da época, também tinha pra negociá: goiaba, araçá, bacate, cambucá, jaca, jabuticaba, grumixama, coco brejaúba, indaiá e pindoba, manacaru, laranja... Balaio, tipití, penera também tinha aceitação. Sempre sarvava situação.
         O que mais se vendia era pexe seco. Não me sai da lembrança o terrero de cada moradô com seu jirau inteirinho de pexe escalado se dorando, depois empilhado em grandes balaios entremeado de folha de bananeira seca. Isso carecia fazê pra mode mantê sempre arejado.
         Adespois, veio o governo e construiu aquilo tudo lá. E veio preso, muito preso. Daqui do Perequê, da Enseada, da Ribeira e doutros lugá tinha gente que trabalhava lá. O Chico Cruz, irmão do Antonio Julhião foi um deles, também tem o Bito Góis, o Rodorfo Barreto e tantos outro que é bem vivo, que você conhece.  O Macié, do canto da Enseada, atendia a Ilha, fornecia mantimento, ganhô dinheiro com preso.
         Adespois veio a revorta que assustô todo mundo. O mundaréu de sordado surgiu da noite pro dia. Diz que um tantão de preso morreu, mais também teve falecido entre gente que trabalhava lá. Eu não sei o certo; nunca fui entremetido.
         Logo acabaro com tudo. Agora só o Xavié toma conta daquilo; mais tudo é vazio, lugá mar-assombrado.
         Nesse tempo todo nóis sempre pescamo em vorta da ilha, troiamo de montão. Teve cardume que, de tão grande, foi perciso emendá a minha rede, a do João Glorioso e a do Cristóvão das Estoninhas. Era quantia e mais quantia de milheiro. Era muita fartura.”


Depoimento colhido de Pedro Cabral Barbosa (Perequê Mirim, 1970)

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