sábado, 18 de abril de 2026

SONHOS E CICATRIZES

 

Giovani e a panela vazia - Arquivo JRS


    Os primeiros biógrafos dos indígenas brasileiros, sobretudo dos Tupinambá que habitavam o território entre Ubatuba (SP) e a baía da Guanabara (RJ) diziam que, em ocasiões especiais, os primeiros habitantes deste território deixavam se guiar pelos sonhos. Exemplo: dependendo do sonho que tivessem eles partiam para um combate ou desistiam, adiavam. Sidarta Ribeiro, no livro Oráculo da noite, diz que “o sonho é simulacro da realidade feito de fragmentos da memória”. Ou seja, tudo está na nossa mente buscando uma ocasião para sair, se expressar. Só que vem um monte de coisas no mesmo sonho, né? Aí complica muito.

    Dizem os especialistas que sempre sonhamos. Acredito que é verdade mesmo, mas na maioria das noites eu não me lembro de nada. De vez em quando, pensando em partes de algum sonho, busco descobrir alguma mensagem tal como faziam os nossos ancestrais, tentar entender se parece favorecer ou alertar a respeito de alguma coisa, se foi bonito, feio ou até medonho. O referido autor acima explica que “alguns sonhos são teoréticos (diretos), enquanto outros são alegóricos”. A minha saudosa sogra gostava de escutar descrição de sonhos de gente próxima, buscava interpretá-los para depois ir fazer sua aposta no “jogo do bicho”. Curioso isto de tentar a sorte pela via onírica.

    Pelo que me lembro, só uma vez um sonho mudou uma atividade programada na minha vida. Explico agora: eu e o primo Giovani éramos companheiros de trilha na solteirice, queríamos conhecer os muitos caminhos e belezas naturais da Mata Atlântica. Marcávamos uma data, nos preparávamos bem para tudo dar certo. No dia combinado, antes do dia amanhecer a gente já estava rompendo mato. Quase sempre as mochilas iam pesadas em nossas costas porque muitas vezes a duração de uma trilha era mais de um dia, precisávamos pernoitar, sermos acolhidos na exuberância da natureza. Numa ocasião, na noite que antecedia uma das nossas saídas para a Trilha do Brilhante, no Sertão da Quina, eu fiquei encabulado com um sonho, como se tentasse me alertar para algo ruim. Ao chegar ainda no escuro na casa dele, no Sapê, eu narrei o meu sonho enquanto tomávamos café. Ele escutou com atenção e – pasme! – disse quase a mesma coisa, narrou um sonho que tivera, cabuloso como o meu, cheio de detalhes. Diante dessa coincidência de ambos sonharem coisas desagradáveis, ruins, a trilha foi desmarcada. Posso dizer que venceu o “alvoroço” dos sonhos, o medo que eles nos inculcaram.  Tenho certeza de que o meu primo também tem essa cicatriz.

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