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| Borboleta no terreiro - Arquivo JRS |
Eu, bem
cedo, olhava o movimento na estrada. Alguns caminhões passavam com suas cargas,
carros menores também circulavam. Logo avisto o ônibus escolar, dentro dele divisei um menino acenando, reconheci imediatamente: “É o filho do Olímpio, o carvoeiro”.
Olímpio,
amigo de alguns anos, mora um pouco distante com os familiares e animais. Na simplicidade
dele um só desejo: que o filho seja estudado, tenha uma profissão que não seja
tão desgastante, sem ser explorado por patrão que desmerece empregado. Eu torço
pelos anseios desse meu amigo. Um detalhe: foi ele que, tempos atrás, me contou
de um culto ecumênico que muito lhe emocionou: “Eu vivia na capital
paulista, fui convidado para um ato religioso, na igreja da praça da Sé. A
celebração era em memória de um jornalista morto [Vladimir Herzog] pela
ditadura militar. Era quase final de
1975. Quem governava o Estado de São Paulo era Paulo Egydio Martins”. Tive
um sobressalto; precisei explicar a ele: “Este homem foi quem comprou quase
um terço da praia do Flamengo, em Ubatuba. Eu a conheço bem, lembro-me de
alguns dos seus antigos moradores. Um amigo, Antônio Neves, casado com Isabel Peralta,
da Sete Fontes, era empregado dele, zelava pela posse comprada pelo governador.
Flamengo é uma praia bem mansa, com um mínimo de moradores. É um paraíso!”.
“Pois é”, continuou ele: “Esse homem, que foi buscar o paraíso
ubatubense, é o que representava o inferno naquele dia, na praça cheia de
policiais. Na época eu era da construção civil, do sindicato. Não tinha como não
participar daquele momento tão importante. Pelo que me lembro, duas autoridades
se destacaram no culto: o cardeal Arns e o rabino Sobel. É, Zé, eu já rodei
trecho, tenho histórias para contar!”.

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