sexta-feira, 17 de abril de 2026

EU JÁ RODEI TRECHO

 

Borboleta no terreiro - Arquivo JRS 


     Eu, bem cedo, olhava o movimento na estrada. Alguns caminhões passavam com suas cargas, carros menores também circulavam. Logo avisto o ônibus escolar, dentro dele divisei um menino acenando, reconheci imediatamente: “É o filho do Olímpio, o carvoeiro”.

   Olímpio, amigo de alguns anos, mora um pouco distante com os familiares e animais. Na simplicidade dele um só desejo: que o filho seja estudado, tenha uma profissão que não seja tão desgastante, sem ser explorado por patrão que desmerece empregado. Eu torço pelos anseios desse meu amigo. Um detalhe: foi ele que, tempos atrás, me contou de um culto ecumênico que muito lhe emocionou: “Eu vivia na capital paulista, fui convidado para um ato religioso, na igreja da praça da Sé. A celebração era em memória de um jornalista morto [Vladimir Herzog] pela ditadura militar. Era quase  final de 1975. Quem governava o Estado de São Paulo era Paulo Egydio Martins”. Tive um sobressalto; precisei explicar a ele: “Este homem foi quem comprou quase um terço da praia do Flamengo, em Ubatuba. Eu a conheço bem, lembro-me de alguns dos seus antigos moradores. Um amigo, Antônio Neves, casado com Isabel Peralta, da Sete Fontes, era empregado dele, zelava pela posse comprada pelo governador. Flamengo é uma praia bem mansa, com um mínimo de moradores. É um paraíso!”. “Pois é”, continuou ele: “Esse homem, que foi buscar o paraíso ubatubense, é o que representava o inferno naquele dia, na praça cheia de policiais. Na época eu era da construção civil, do sindicato. Não tinha como não participar daquele momento tão importante. Pelo que me lembro, duas autoridades se destacaram no culto: o cardeal Arns e o rabino Sobel. É, Zé, eu já rodei trecho, tenho histórias para contar!”.

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