sexta-feira, 10 de abril de 2026

JANGUINHO E SANTANA

 

Rancho dos pescadores - Arquivo JRS


 

   - Era feriado, dia de festa. O lagamar, desde a barra até o porto da nossa capela, estava tomado de gente. Era um mundaréu só. Um foguetório traduzia a alegria geral e a curiosidade do nosso povo. Era a visita do presidente da república, do nosso presidente que, depois de passar pela ilha Anchieta, veio até a cidade. O navio dele ficou fundeado bem lá fora.

   - Faz tempo isso, Janguinho?

   - Ah, faz muito tempo! Antes do tempo do presidente Getúlio Vargas, eu era bem novo ainda. Depois disso, que eu me lembre, festança maior só em 1948 quando o Guisard, inaugurou a luz na cidade. O prefeito daquele tempo era o doutor Alberto. Até o bispo de Taubaté, Dom Idílio, veio para prestigiar o evento.

 

   A prosa acima aconteceu no começo da década de 1980, quando eu já morava no bairro da Estufa II. A praia do Itaguá era o nosso principal ponto de encontro. Aos domingos, era comum ver todo mundo por ali aproveitando bem o mar e a areia. Tudo era limpo!  Na ocasião acontecia uma corrida de canoa marcando os festejos da capela do Itaguá. O professor Joaquim Lauro era o grande incentivador dos festejos. Eu, claro, aproveitava para ouvir histórias dos mais velhos. O casal Janguinho e Santana (a parteira da comunidade) estava na vez: um ajudava o outro nos detalhes da narrativa. Quando eu ouvi o nome do bispo, entendi porque algumas crianças caiçaras receberam o nome de Idílio. Ao menos dois me aparecem na mente: um no Perequê-mirim e outro no Sapê. Dar nomes aos filhos se guiando pelo santo do dia no calendário, assim como homenagear recém-nascidos com nome de autoridades eclesiásticas, fazia parte da religiosidade católica caiçara.

    Pois é! Bem mais tarde eu encontrei uma imagem da época onde o citado bispo oficializava a missa solene recordada pelo saudoso casal do Itaguá. Era no Cruzeiro, na avenida Iperoig. Havia mesmo uma multidão!

Nota: a inauguração da energia elétrica em Ubatuba, no ano de 1948, se deu pelo esforço da Companhia Taubaté Industrial (CTI), do Félix Guisard, dono do Casarão na época. Porém, a cidade cresceu e foi preciso que a companhia estadual de energia (CESP) estendesse uma rede mais potente via serra de Caraguatatuba, na década de 1960. Eu, bem criança, na praia do Sapê, me recordo de homens e máquinas estendendo fios e postes sobre as picadas abertas nas matas. Como eu tinha medo!

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