sábado, 11 de abril de 2026

O BOI COSÉ

 

Primeiro loteamento na Lagoinha - Arquivo Ubatubense

Ruinas da Lagoinha - Arquivo Fundart

Bois na praia - Arquivo internet


   Seo Porfírio, nascido e criado na praia da Lagoinha, neto (ou bisneto?) “de escrava fugitiva do fazendeiro da Caçandoca”, contava muitas histórias, sobretudo depois que teve a perna amputada e passou a ficar mais tempo na cadeira de rodas, morando com o filho Juventino, na rua Gastão Madeira, no centro da cidade. Eu, sempre que surgia uma oportunidade, me detinha e sentava na calçada para ouvi-lo. Hoje, o principal desta crônica é o boi Cosé. Pelo que me foi contado, era muito estimado este animal. Tentarei ser fiel ao máximo à narrativa desse descendente da guerreira Gertrudes.

 

   Quando eu nasci quase tudo ali era mato, com quase nada de casa. Só havia caminho pelo jundu porque na maré cheia não se podia passar pela areia da praia. As poucas roças ocupavam os morros porque o resto era areia quente ou alagados de taboas e caxetas. As ruínas já estavam há muito tempo abandonadas de tudo. Mais tarde tentaram plantar bananeiras, vender frutas para os ingleses, mas veio o tempo da guerra e tudo foi largado. Aí trouxeram gado, poucas cabeças. Produziam leite, faziam queijo, matavam de vez em quando para negociar carne. Quase ninguém comprava porque não havia dinheiro. Com o tempo os animais foram envelhecendo, ficando largados, sem rumo. Poucos foram levados para outro lugar. O resto morrreu de velhice. Andavam por onde queriam, entravam no mar, se banhavam na barra, comiam capim do jundu... Cagavam onde batia a vontade. De vez em quando a criançada atentada montava num deles e saia se sacolejando. Não tinha nenhum animal bravo. Um deles, todo preto, o Cosé, adquiriu um costume engraçado: se aproximava quando percebia que alguém se preparava para sair mar afora, parecia querer ir junto na canoa. Acompanhava com os olhos até a pessoa desaparecer no mar. Se alguém fosse remando até a Maranduba, na rota paralela à praia, Cosé seguia o rumo caminhando na água salgado, com ondas quebrando nas canelas. E ia mesmo! Chegava lá junto com a embarcação! Só voltava de lá quando o remador fazia o mesmo.

    Cosé morreu de velho, foi enterrado defronte ao ilhote do Pontal. Ali, onde mais tarde apareceu uma área de acampamento para veranistas. Deve existir ainda hoje uma árvore grande naquele lugar. Para nós era a Figueira do Cosé.

 

Notas: 1- O caisão da ponta Grossa, em Ubatuba, foi construído para servir de porto na região e estimular a bananicultura emergente na primeira metade do século XX.  A Segunda Guerra Mundial a fez submergir prematuramente neste município.

            2- A área para acampar, onde estava a Figueira do Cosé, abrigou anos depois da abertura da rodovia entre Ubatuba e Caraguatatuba, o Camping Club do Brasil (CCB).

 

  

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