![]() |
| Primeiro loteamento na Lagoinha - Arquivo Ubatubense |
![]() |
| Ruinas da Lagoinha - Arquivo Fundart |
![]() |
| Bois na praia - Arquivo internet |
Seo
Porfírio, nascido e criado na praia da Lagoinha, neto (ou bisneto?) “de escrava
fugitiva do fazendeiro da Caçandoca”, contava muitas histórias, sobretudo
depois que teve a perna amputada e passou a ficar mais tempo na cadeira de
rodas, morando com o filho Juventino, na rua Gastão Madeira, no centro da
cidade. Eu, sempre que surgia uma oportunidade, me detinha e sentava na calçada
para ouvi-lo. Hoje, o principal desta crônica é o boi Cosé. Pelo que me foi
contado, era muito estimado este animal. Tentarei ser fiel ao máximo à narrativa desse descendente da guerreira Gertrudes.
Quando eu nasci quase tudo ali era mato,
com quase nada de casa. Só havia caminho pelo jundu porque na maré cheia não se
podia passar pela areia da praia. As poucas roças ocupavam os morros porque o
resto era areia quente ou alagados de taboas e caxetas. As ruínas já estavam há
muito tempo abandonadas de tudo. Mais tarde tentaram plantar bananeiras, vender
frutas para os ingleses, mas veio o tempo da guerra e tudo foi largado.
Aí trouxeram gado, poucas cabeças. Produziam leite, faziam queijo, matavam de
vez em quando para negociar carne. Quase ninguém comprava porque não havia
dinheiro. Com o tempo os animais foram envelhecendo, ficando largados, sem
rumo. Poucos foram levados para outro lugar. O resto morrreu de velhice. Andavam por onde queriam, entravam no mar, se
banhavam na barra, comiam capim do jundu... Cagavam onde batia a vontade. De
vez em quando a criançada atentada montava num deles e saia se sacolejando. Não
tinha nenhum animal bravo. Um deles, todo preto, o Cosé, adquiriu um costume
engraçado: se aproximava quando percebia que alguém se preparava para sair mar
afora, parecia querer ir junto na canoa. Acompanhava com os olhos até a pessoa
desaparecer no mar. Se alguém fosse remando até a Maranduba, na rota paralela à
praia, Cosé seguia o rumo caminhando na água salgado, com ondas quebrando nas
canelas. E ia mesmo! Chegava lá junto com a embarcação! Só voltava de lá quando
o remador fazia o mesmo.
Cosé morreu de velho, foi enterrado defronte
ao ilhote do Pontal. Ali, onde mais tarde apareceu uma área de acampamento para
veranistas. Deve existir ainda hoje uma árvore grande naquele lugar. Para nós
era a Figueira do Cosé.
Notas: 1- O caisão da ponta Grossa, em
Ubatuba, foi construído para servir de porto na região e estimular a bananicultura emergente na primeira
metade do século XX. A Segunda Guerra
Mundial a fez submergir prematuramente neste município.
2- A área para acampar, onde estava a Figueira do Cosé, abrigou anos depois
da abertura da rodovia entre Ubatuba e Caraguatatuba, o Camping Club do Brasil
(CCB).



Nenhum comentário:
Postar um comentário