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| Alto do Morro - Arquivo JRS |
O dia está quente, a mata bem verde, com pouca diversidade de espécies porque eucaliptos e pinus foram despejados no meio da mata original. Enfrentamos um morro bravo, com muitos espinhos. Por não se precaver como devia, a sede aperta; estamos em busca de um rio que não haveria de estar muito perto. Um bando de macacos fazendo barulho perto da grota dão o sinal: "É por ali, estamos no rumo certo". Vou prestando atenção, reparando nas plantas: tem muitas ingazeiras, algumas caneleiras, uns pés de guairanas... Chama a atenção uma espécie de taquara que não é oca: "É a rapacar", disse o Zé Paulo. Mostro uma planta especial: "Esta é a pixirica, os passarinhos adoram". A cachorrada segue junto, de vez em quando desaparece, descobre caminho mais antigo que parece obstruído em vários trechos. "É um velho acesso à água, sigamos em frente", creio eu. Trechos emaranhados, chão encoberto pelo longo tempo sem uso, mas é trilha, caminho dos antigos que olhos acostumados não se enganam. Peço silêncio para ouvir algo, alguma bulha. Ouvir é mais do que escutar. Nada; até os macacos emudeceram. Certamente perceberam a nossa aproximação. É assim mesmo: os animais silenciam porque não sabem o que se aproxima, são curiosos, mas preferem se esconder para observar melhor. "Estamos bem no alto, por aqui estão nascendo olhos d'águas, por isso não tem barulho. Só mais abaixo esses veios se juntam e se tornam rio ruidoso, som de calmaria nas almas. Pena que mais abaixo, no bairro, receberá esgotos e lixos". "Será?", pergunta alguém. "Sim, eu já vi as valetas sujas chegando nele. Plásticos de todo tipo se dependuram em galhos logo abaixo da vila. Disto eu sou testemunha", afirmei categoricamente. De repente avisto uma folhas diferentes: "São folhas de caetês e de ciosa. É ali, naquela direção está a água! Chegamos, gente!". Era mesmo uma área encharcada e alguns poços de límpida água. Ao redor, por ali tudo, havia pegadas de diversos bichos e aves. Eu me ajoelhei primeiro para saciar a sede. "Que bom, né pessoal? Tem coisa melhor que achar uma água assim depois de tanto andar à procura?". "Todos saciados? Agora é romper todo caminho novamente, voltar prestando mais atenção nas marcações deixadas para não se perder", dei o ritmo. Um detalhe que não percebemos na subida: um esqueleto de cobra ainda cheirando ruim. Pergunto ao grupo: "Qual bicho será que a matou e comeu sua carne deixando apenas o esqueleto?". Deduzo que não foram os vermes porque o chão está muito seco, limpo, sem sinal algum. Só sei que dela algum ser se alimentou.

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