quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

BITO MADALENA

 

Bito Madalena - 2017 - Arquivo JRS

Terreiro dos Antunes de Sá - 1992 - Arquivo JRS

   Foi-se Benedito Antunes de Sá, vulgo "Coruja", mais conhecido como Bito Madalena pelos mais antigos. Era o ano de 1981 quando eu conheci toda a família na velha casa de pau a pique do Saco dos Morcegos. Mais tarde, com a árdua tarefa de transportar blocos e outros materiais no barco, foi levantada a casa no alto do morro, de onde se avista todo o mar aberto, as ilhas e praias do Saco das Bananas e do Simão (Praia Brava do Frade). A idade chegou, a esposa faleceu, os filhos foram se mudando em busca de melhores condições... Que fez o seo Dito? Foi morar na praia da Caçandoca depois do presidente Lula oficializar a área do quilombo há duas décadas e pouco. 

   Voltando ao começo desta, naquele distante ano de 1981, seo Dito e dona Constantina me receberam de forma bem caiçara, com café, farinha e peixe assado. A minha intenção era passar rápido, seguir a caminhada, mas não consegui rejeitar a dormida porque era muito assunto e grande a alegria em conviver com aquela imensa família. O momento marcante: ele (Dito) foi até a camarinha (quarto) e trouxe um gomo de bambu bem escurecido. Dentro dele havia um documento muito antigo: era a escritura da Fazenda dos Morcegos, a parte que coube ao finado avô. Mais ou menos assim ele resumiu a história:

   "O meu bisavô era dono da grande fazenda Caçandoca. Tinha três filhos. Após a morte dele, aconteceu a repartição das terras: um deles ficou com a parte da praia da Caçandoca e Caçandoquinha, a outro coube a praia da Raposa, Ponta Lisa até o alto daquele morro ali, onde é a Mata Virgem. O Saco dos Morcegos, pegando o Saco das Bananas, a praia do Simão e indo até a Pedra do Um (Pedra do Frade) - tudo isso - ficou com o meu avô. Na verdade, a terra original começava na costeira da Maranduba, na Pedra do X (Pedra do Cruzeiro, na costeira do cemitério) e chegava até a Pedra do Um (Pedra do Frade, quase chegando na praia da Lagoa). Hoje aqui estamos nós; a vizinhança toda são os primos. Logo ali é o Dominguinho, depois dele, na subida do morro, é onde mora o Caçula. No caminho está o meu sobrinho Clodoaldo. Na costeira, onde está a ruína da fazenda, era a casa do Ditinho até pouco tempo. Hoje não mora quase ninguém, até a escola não funciona mais. O meu povo todo se mudou, foi para Caraguá e outros lugares mais perto, tipo Morro da Quina, Sapê, Tabatinga, Maranduba..."

   Depois dessa primeira ocasião, eu voltei muitas vezes ao Saco dos Morcegos e adjacências, participei de pescarias e de outras artes por lá. Creio que ajudei na resistência aos jagunços que tocavam terror aos pobres do lugar no começo da década de 1990. Testemunhei muita coragem do seo Dito! Eu tive a honra de inesquecíveis prosas e convivências  junto ao agora saudoso Bito Madalena e seus familiares da grande família caiçara. A vida é assim, nós passamos por ela... 


Benedito Antunes de Sá - Arquivo Charles

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