sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

SE TECENDO PELAS COISAS

Meu quintal (Arquivo JRS)

              
- Que é isso, vovô?
- É capa de embigo, não tá vendo?
- De onde veio?
- Dali,ó, daquele cacho de santomé. Mais um mês já serve pra pirão, mas vô escorá senão não pode com o peso.
- Será que carece, vovô?

Arte em sossego (Arquivo JRS)
Arte em sossego (Arquivo JRS)


- Qué isso, meu neto?
- É máscara de totoa, do jarobá.
- Tá bonita,credo!
- Não gostou, vovô? Mas ainda não tá acabada.
- Quando era criança, escolhia das largas pra descê o morro, no sapezá. Você tamém fez isso, né?
- Fiz sim, vovô.

Arte do Sr. Tosio Honda (Arquivo JRS)

Arte do Sr, Tosio Honda (Arquivo JRS)

- E essa outra coisa?
- É uma escultura, vovô.
- Nunca vi iguá. Parece até o vosso tio plantando bananeira.
- É japonês. Chama-se tosa matsuri, faz parte da cultura kochi-ken.
- Explica melhor, minino.
- É uma cultura de uma ilha do Japão por nome de Shikoku.
- Credo! Tomara que o compadre Chico Lopes não tenha escutado isso!
- E quem fez isso, assim tão bonitinho?
- Ah! Foi um japonês, pai da minha amiga Mirtes (Harumi Honda). Ele já é falecido.
- Ô dó. Qual o nome dele?
- Tosio Honda, vovô.
- Ô dó! Dá xarope de guaco.
- Na verdade, vovô, pelo que a minha amiga Mirtes explicou, tosa matsuri é um movimento para preservar, para manter vivas as tradições, seus costumes e histórias. No Brasil, os imigrantes japoneses, aqueles da mesma região do Sr. Tosio (lê-se Toshio), conterrâneos de Kochi-ken, da mesma cultura, para preservar e divulgar suas tradições e cultura, fundaram a Associação dos Provincianos de Kochi no Brasil (Kochi-Kenjinkai), em 1953. A sede atual, em São Paulo (Rua dos Miranhas, 196 – Pinheiros), foi construída com o apoio do governo da província de Kochi.
- Então... me diga qual a razão dessa imagem?
- Ah! É uma escultura plantando bananeira, como bem disse o senhor. Só que, reparando bem, vemos que ele usa uma máscara por trás da cabeça. É feia. Dizem que, na agricultura, bem antigamente, na Ilha de Shikoku,  as pessoas faziam assim, confeccionavam máscaras e desfilavam com elas como se fosse um festival, um carnaval nosso, na intenção de espantar os maus espíritos que pudessem atrapalhar a lavoura, a colheita. Manter viva-memória disso é tosa matsuri.
- Muito interessante, Zezinho!
- E tem mais vovô:  o povo dessa cidade tem o maior orgulho de um de seus filhos, por nome de Sakamoto Ryoma, líder do movimento que transformou o Japão em um país moderno.
- E tem mais! Ele tornou-se um exilado ao deixar Tosa (atual Kochi) aos 28 anos. Mesmo nessa condição, ele andou pelo Japão divulgando suas ideias, para acabar com o sistema feudal. Graças a ele, houve aliança entre os dois clãs mais poderosos da época, evitando uma guerra civil. Morreu assassinado, em 1867, quando completava 33 anos. É patrono da Marinha Imperial Japonesa.
- Que beleza, né? Então...
- Gostou, vovô?
- Gostei sim. Agora faz o seguinte: pega essa sua máscara, sai pela rua e bota pra corrê essa gente que é sem-noção. 

- Boa ideia, vovô. Viva tosa matsuri!
- Viva tosa matsuri!

Um comentário:

  1. Excelente, amigo Zé Ronaldo! Cultura de um povo para ser preservada!

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