quarta-feira, 14 de setembro de 2016

ETNOCÍDIO TUPINAMBÁ

Um painel numa moradia em Ubatuba (Arquivo JRS)

Hoje é feriado no município de Ubatuba. Qual a razão?

               Em 1563, os padres Anchieta e Nóbrega, após uma estadia confabulando com os senhores de engenhos (líderes políticos do Brasil colonial) na Baixada Santista, partiram numa comitiva, sob o patrocínio de José Adorno, um desses líderes, para negociar a paz com os índios confederados (Confederação dos Tamoios).
                A aldeia de Yperoig que, segundo especialistas, significa “água de tubarões”, localizada onde é a atual cidade de Ubatuba, foi escolhida como território de negociação devido a presença de um cacique por nome de Koakira, considerado amistoso pelos jesuítas.

                O velho Catarino dizia: 

             “Neste chão de Ubatuba, logo ali onde era a lagoa (que deu o nome da Barra da Lagoa), era onde os índios tinham as suas ocas. Suas canoas subiam pelo rio e logo ganhavam a lagoa. Yperoig foi escolhido pelos padres e por quem mandava porque era um lugar estratégico, de onde partiam as frotas de canoas e as tropas a pé a partir do Caminho das Antas, onde hoje se conhece como Cachoeira dos Macacos. Desse lugar saía um mundaréu de gente brava que aterrorizava os portugueses!”.

                       Depois de uma tomada de fôlego, Catarino retomava a prosa-aula:

                “Entre os líderes confederados, os ânimos variavam: uns lutariam até a morte; outros já estavam cansados. Por isso que a presença dos padres e a disposição de Anchieta em ficar como refém deu-lhes uma esperança. O padre até que gostou da ideia! Afinal, era só ele entre a indialhada pelada, não é mesmo?”. Todos riam do humor do contador de causos.

                Com a desculpa de que as exigências dos índios tinham de ser decidida pelos patrões, uma comitiva se dirigiu à Baixada Santista. Enquanto isso, para sufocar os desejos da carne, entreter as mãos e os olhos, Anchieta foi escrevendo e memorizando poemas nas areias da praia. [Depois de séculos, há muitos anos passados, vi a dona Idalina Graça fazendo o mesmo na praia do Itaguá, bem perto do rancho do Florindo. Segundo ela, eram ensaios para um livro que estava escrevendo].

                Os pontos defendidos pelos confederados não pareciam conter algo tão extraordinário. Queriam a libertação dos prisioneiros que se encontravam no trabalho forçado dos engenhos, o fim da prática de escravização, a entrega dos chefes traidores e que deixassem os Tamoios viver em paz, como verdadeiros donos da terra.

      O acordo de paz, considerado o primeiro do continente americano, foi selado em Yperoig, futura cidade de Ubatuba, em 14 de setembro de 1563, dia  da Exaltação da Santa Cruz.

                Aylton Quintiliano, na obra A guerra dos Tamoios, diz que “a partir de Iperoig, e por muitos meses, houve um período de relativa calma. Aimberê, o bravo cacique de Uruçumirim, auxiliado pelo francês Ernesto, que se tornara um deles ao casar-se com Potira, retornou ao seu grupo, onde hoje é a cidade do Rio de Janeiro. Havia esperança de volta aos bons tempos da produção, das expedições de caça e pesca”.

                Em sua Carta ao Colégio de Coimbra, o padre Manuel da Nóbrega diz: “De tudo o que mais me alegra o espírito é ver por experiência o fruto que se faz nos escravos [índios] dos cristãos, os quais com grande descuido dos seus senhores, viviam gentilicamente em graves pecados. Agora, ouvem missas cada domingo e festa e têm doutrina e pregação na sua língua às tardes”.

                Vou concluindo com a fala do velho  Catarino que nos ensinou num dia distante, no jundu, no barranco da Barra da Lagoa, em frente da pobre, mas honrada casa do velho Dito Camburi:

                “Depois de um ano daquele acordo, quando receberam tropas de Lisboa, sentindo falta de mais índios para o trabalho escravo, a portuguesada acaba com tudo a partir da traição de Yperoig. Dos tupinambás só ficaram rastros!”.

                É por isso que eu não duvido que as coisas aconteceram aproximadamente do jeito descrito na Guerra dos  Tamoios:
                “Ao chegar em Iperoig, para verificar a produção de algodão, Ernesto deparou-se com um quadro que lhe fez correr  lágrimas nos olhos: todas as ocas haviam sido queimadas, vários nativos mortos em meio aos escombros ou pela praia. Alguns poucos que escaparam à fúria sanguinolenta dos brancos, contaram a ele que os portugueses haviam levado centenas de prisioneiros para São Vicente. O velho cacique Coaquira lutara como um bravo e foi um dos primeiros a morrer”.

                Agora, você decide:
                a) Comemora a Exaltação da Santa Cruz porque os Tamoios foram dizimados com a colaboração dos religiosos.

                  ou...

                b) Rememora a data como Traição de Yperoig porque a paz tão exaltada nunca houve. O que ocorreu foi o etnocídio dos tupinambás. 

4 comentários:

  1. Excelente artigo! Parabéns, Zé Ronaldo!

    ResponderExcluir
  2. Belo enfoque. Explicação simples como vejo a simplicidade caiçara e objetiva, nos levando à reflexão. Um dos compromissos da história creio ser ensinar a não se cometer no futuro e presente os erros do passado. Embora isso esteja mais para utopia.

    ResponderExcluir