segunda-feira, 5 de setembro de 2016

AS CARAVANAS (I)

Meu povo caiçara na escola  (Arquivo Ir. Iolanda)

                        Bem-vinda ao blog, Mel Fulli Frias!

               Conversando com a amiga Neide, do Saco dos Morcegos, da família Antunes de Sá, recordamos do tempo em que ela e outras meninas foram acolhidas na A.L.A (Assistência ao Litoral de Anchieta), sob os cuidados das religiosas Cônegas de Santo Agostinho, cuja obra começou em 1957 e se findou em 1986, quando a prefeitura comprou o prédio onde funcionou essa importante obra assistencial e educacional da caiçarada. Vou me valer do livro Semeadoras da esperança, escrito por Liz Cintra Rolim, umas das freiras que aqui exerceu a sua missão, para dar a conhecer outros detalhes da nossa cultura. Vale também saber como fomos recompensados por pessoas fantásticas, tal como a Dª Virgínia Lefèvre, que tive o prazer de entrevistar em 1980, na praia do Canto do Acaraú, onde era a sua moradia. Que mundo de livros ela tinha!

               Tudo começou com as famosas Caravanas, que proporcionavam o “mergulho” num mundo diferente, contribuindo para confirmar a própria identidade posta em face ou confrontada com outras alteridades. E, numa época em que não se pensava, nem se falava em “INCULTURAÇÃO”, as Caravanas foram o meio prodigioso para se descobrir não só a riqueza e os valores, mas também as limitações de uma forma de ver, sentir, viver, transformar e se comunicar com o mundo.

               Esta experiência foi vivenciada no litoral norte. O trabalho congregou esforços da “Caravana Social Litorânea”, dirigida pelo Pe. João Beil e os da “Sociedade Pró-Educação e Saúde de São Paulo”. O relatório nos diz:

               “No barco do Sr.Albino rumamos para a praia da Almada, a duas horas distante de Ubatuba. Mar grosso. Natureza belíssima. Um esplendor do Criador que não se repete! Ao passar pela praia do Félix, o diretor da Caravana Social Litorânea, Pe. João Beil, ex-vigário de Ubatuba, , serviu de um chifre de boi para chamar os pescadores que se encontravam na praia. Imediatamente uma frágil barquinha é lançada ao mar. Alegria de ambas as partes ao se reconhecerem. O Padre pede que os moradores de Ubatumirim sejam avisados que haverá missa, confissões, batizados, casamentos e crismas. Seguimos viagem para aportarmos na Almada.
               Pertinho da praia, a Escola pequenina; mais adiante algumas casas de pescadores, cobertas de telhas e bem apresentadinhas. As crianças achavam-se em hora de recreio e brincavam alegremente. Acorreram para receber as visitas, mas ao me verem vestida com hábito – pois fui uma das primeiras a descer, - recuaram, pois nunca haviam visto uma religiosa. Aproximei-me deles amigavelmente e logo fizemos amizade.


               Padre João é recebido com muito entusiasmo por todos que o consideram e estimam com um pai e amigo. Os adultos são todos analfabetos. Só as crianças se beneficiam da aprendizagem na escolinha aberta há pouco tempo pela “Sociedade Pró-Educação e Saúde” cuja presidente é Dª Virgínia Lefèvre, que se tornou a advogada do lugar. A ela recorrem em caso de dificuldade e de doença. Todos ali vivem da pesca e da lavoura. Lutam com a vida rude do mar e as dificuldades da plantação, facilmente devoradas pelas formigas saúvas. Na praia, uma capelinha de telha vã abre suas portas para o mar e contempla um panorama grandioso cercado por montanhas que se perdem na bruma do horizonte. 
                Após o almoço, recreação com as crianças, finalizando com uma aula de catecismo, todos sentadinhos em semicírculo na areia. Fiz algumas visitas domiciliares às famílias dos pescadores, acompanhada pela professora local, moça católica e muito gentil (...)  À noite, eu e Dª Virgínia, ficamos alojadas na sala da escola. Algumas carteiras foram recuadas e duas largas esteiras estendidas no chão. Nenhuma instalação sanitária. Água a ser buscada numa bica bem distante dali. Tudo primitivo e rústico”. 
               

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