quinta-feira, 22 de setembro de 2016

FEIRA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL - RELATOS (VII)

1993 - Regina, Pedro e pescadores do Saco do Sombrio (Arquivo JRS)
Bem-vindo ao blog, Luciano Camargo!

A ESCOLA DA VIDA  -  Regina Natividade de Azevedo

(Parte I)

Relato de uma experiência vivida por uma professora numa escola isolada localizada ao norte da Ilhabela – EEPGER Paranabi

Como é o nosso espaço físico 
A EEPGER Paranabi é uma escola de emergência rural e/ou isolada. O nome por si só já  traduz o significado dessas pequenas escolas espalhados por todo o nosso litoral. Muitas delas mal construídas por falta de verba do estado, que parece nem saber que elas existem.
A escolinha em que trabalho fica localizada ao norte da Ilhabela, gastando-se em média para chegar lá, de duas horas e meia a três horas de viagem de barco, costeando a ilha. Nela já foram realizadas três reformas por membros da comunidade local. Homens, mulheres e até crianças participam. Parte do material é doado pela prefeitura (tinta, cimento, telhas) e parte, em alguns casos, pela própria comunidade (madeiramento e mão de obra).
A água que tomamos corre de uma nascente para a caixa d’água. Como em outras escolas isoladas, não há eletricidade. Vivemos à base de óleo diesel, muito usado pelos pescadores dessas comunidades.
Nessas escolas funcionam principalmente as séries iniciais, pois os alunos frequentam o curso até no máximo a 4ª série quando, por algum motivo (geralmente trabalho), abandonam o s estudos. Às vezes não chega a completar a 3ª série ou apenas dão início aos estudos, sem assiduidade.

O início
A chegada foi um tanto quanto difícil. A dificuldade foi me adaptar às pessoas, seus costumes e aos acontecimentos do cotidiano, como por exemplo, enfrentar ataques de morcegos, de formigas, de traças e borrachudos, o que é bastante comum. No início parece que tudo seria fácil, porque o número de alunos era pequeno e a força de vontade bastante grande, tanto da minha parte como da parte das crianças. Para elas, tudo era novidade, segundo o que diziam a respeito de outras experiências com professores que haviam estado por ali. Não havia em mãos nenhum planejamento para início e/ou continuidade de trabalho.
No começo tive de impor algumas regrinhas básicas como a limpeza da sala de aula, da caixa d’água, do terreiro das escola, a higiene antes e após merenda, o respeito pelos colegas e por mim. Após um tempo, iniciamos a experiência de deixar os alunos ajudarem no preparo da merenda, inclusive com alimentos do lugar (peixe, farinha e banana).
Tê-los como ajudantes foi uma experiência que deu certo, de forma a não sobrecarregar a professora, já que aqui temos de ser de tudo um pouco (faxineira, merendeira, secretária etc.). Na avaliação deles, disseram que com  isso aprenderam a cozinhar e também aprenderam sobre o valor dos alimentos. Após a refeição, todos ajudam na limpeza da cozinha para então darmos sequência aos estudos.

Desenvolvimento do trabalho
Não adotei métodos tradicionais, como a cópia mecanizada, sem leitura ou entendimento, nem mesmo a cartilha, cujo aprendizado limita todo o conhecimento da criança. Procurei aos poucos mostrar a importância de se expressarem através da música, da pintura, do desenho e do manuseio de papéis, como a dobradura. Teve também o trabalho com sucatas. Também procurei trabalhar as diversas atividades envolvendo todos os alunos, sem que houvesse qualquer tipo de discriminação ou preconceito entre eles por motivo de idade ou diferenças de série, pois, sob um certo aspecto, estão todos no mesmo barco.
Uma das dificuldades encontradas foi a falta de orientação pedagógica de como e por olnde começar a trabalhar e, já que não tive, resolvi buscar informações a respeito da comunidade junto a mesma, envolvendo os alunos e demais moradores do Sombrio. Parti de um roteiro cujo tema central era conhecer a história do Sombrio. Eis o roteiro:
Aspectos geográficos, localização, espécies de árvores e plantas nativas.
História do Sombrio: o porquê do nome, o número de moradores (antigamente e atualmente).
Atividades de trabalho: a pesca, a roça, a caça, a criação.
Aspectos sociais:  as superstições, os relacionamentos, o lazer, a relação com a natureza, uso de plantas medicinais, artesanato, religiosidade, histórias do local, festividades, principais problemas enfrentados pelos moradores.
A história da escola: em que ano surgiu, datas das reformas, participação da comunidade, movimento ou atividade envolvendo professor.

Sozinha e quase sem experiência como professora, me vi numa comunidade que passou por um processo de alterações peculiares. Muitos dos moradores tradicionais saíram de lá. O que se encontra lá hoje é uma comunidade em formação, em processo de acomodação e, portanto, não se consegue resgatar a história do local. Quando cheguei, em fevereiro deste ano (1993), moravam cerca de 12 famílias e hoje este número está reduzido a 7 famílias, somando um total de 28 pessoas. Com essas e mais algumas informações que as pessoas me passavam, eu me animava em dar continuidade ao estudo do local, um estudo que fosse iniciado com os próprios alunos, passando por seus pais, avós e ex-moradores do Sombrio, hoje jogados sabe lá Deus como e onde... 

Um comentário:

  1. Como se formou essa comunidade? Qual sua origem étnica? Essa postagem despertou a curiosidade.

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