segunda-feira, 21 de março de 2011

O dente da tintureira

          
            Era uma tarde normal. O que fugia da normalidade era estar no Posto de Saúde à espera de uma consulta com o cardiologista. Enquanto transcorria o tempo, eu aproveitava para ler um livro. A concentração era tamanha que nem sequer percebi a chegada do amigo Zé Lucas. Coisa melhor não poderia acontecer! Ele é um bom contador de causos, principalmente do longo tempo que viveu embarcado, tal como muitos caiçaras da geração de 1950.  Em todas as ocasiões de encontros assim, faço questão de ouvir mais e mais causos. É do meu povo; são minhas raízes!
            - Conta, Zé! Fala de situações que muitos nem sonham ser possível!
            - Pois não, xará! De fato, elas são muitas! Uma delas impressionou demais a tripulação do barco no qual me aposentei como mestre. Foi assim: estávamos muito longe da costa, na pesca de atum. Era noite calma, somente o timoneiro estava atento, dois marujos a jogar dominó lhe faziam companhia no convés. De repente, o barco de quinze metros de comprimento por cinco de largura, tendo sido batizado há um semestre, deu uma chacoalhada brusca, parecendo se imobilizar momentaneamente. Quem estava desperto quis gritar na hora, quem dormia se sobressaltou. Logo todos estavam no convés querendo saber o que tinha acontecido. Alguém falou que poderia ser uma madeira ou algo parecido que bateu na hélice, porém o timoneiro, no mesmo momento, descartou tal possibilidade assegurando que o motor, nem por um segundo, perdeu a rotação costumeira. Ainda surgiram alguns palpites, mas, pelo fato de todos estarem cansados depois de um dia exaustivo sob a maresia, e, porque a calmaria não impedia a velocidade imposta à embarcação, a normalidade retornou rapidamente.  
             Nessa lonjura pescamos mais quinze dias. Depois voltamos ao porto de Santos, onde fizemos a entrega do pescado. Numa doca perto dali, em seguida, o barco foi puxado para a raspagem de cracas. Neste trabalho todos os embarcadistas, independentemente de ser cozinheiro, mestre ou timoneiro, são iguais. Afinal, o tempo de parada deve ser o mínimo possível. Isso é regular, ajuda a conservar a embarcação e contribui para a economia de combustível. Naquele momento a surpresa: na quilha de ipê, na zona intermediária, um dente de quase um palmo estava grudado. Era de tubarão, talvez de tintureira que costuma ter o hábito de abocanhar qualquer coisa flutuante. E era dos grandes! Todos se lembraram da fatídica noite, quando se chacoalharam com o barco. O que teria acontecido se o dono de um dente desse porte desse um safanão numa das bordas?
           
            Sugestão de leitura: Ser tão mar, de Jorge Ivam e Pedro Paulo
                                                           Boa leitura!
                                                           José Ronaldo dos Santos

Um comentário:

  1. Livro bom e de gente muito boa! Já o causo... se eu estivesse lá, teria um treco! Abraço, Zé! Emerson, do Deolindo

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