quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (IX)

 

Canoas do Mestre Neco - Arquivo JRS

Viva os 15 anos do blog!


    O amigo Rogério, conforme anunciado, prossegue agora apresentando os grupos de Folia de Santos Reis ou Reisado. Destaque para as crianças e muitos jovens que estão se compondo nesse nosso traço cultural presente no município de Ubatuba.


Parte 2

       Na região sul, em Maranduba e no Sertão da Quina, destaca-se a junção de duas folias antigas — Nova Geração e Zeca Pedro —, que hoje mesclam a tradição caiçara e mineira. Na Praia Grande do Bonete, preserva-se a genuína folia caiçara, agora com jovens engajados na manutenção desse lindo patrimônio. Na Praia da Enseada, a Folia Santa Rita, comandada por Ostinho e amigos, mantém viva a devoção.

     No bairro Bela Vista, a forte migração de Ladainha-MG, na década de 1970, trouxe moradores de profundo vínculo cultural, que realizam todos os anos seus festejos nos nove dias que antecedem 6 de janeiro, culminando em um grande almoço, terço cantado e cantorias aos Reis Magos. Incluem ainda uma música em homenagem aos mestres e devotos já falecidos, sob o nome Folia Mineiros de Ladainha.

     No centro da cidade, vale rememorar o coro da Igreja Matriz, composto exclusivamente por mulheres e liderado, à época, pela saudosa Dona Ophelia e por Dona Lígia — hoje querida voluntária da Santa Casa. Esse grupo, chamado Folia Exaltação, em alusão à padroeira da cidade, Exaltação da Santa Cruz, hoje está desativado. Também na área central, merece memória a antiga Folia do Mané Babirro, composta por caiçaras foliões e membros da Lira Padre José de Anchieta, que, com clarinetes, trombones e saxofones, davam grande harmonia às cordas e vozes da romaria. Hoje, a Folia São Miguel Arcanjo continua esse legado, com a presença de seu Manoel e família na manutenção da tradição.  Não se pode esquecer que, em 2025, uma folia que abrilhantava os encontros na praça perdeu seu baluarte: o querido Beto, cantor das missas e referência para a diocese com a Missa Sertaneja. Sua folia, a Sagrada Família, formada por membros do ECC, permanece como memória viva de sua dedicação.

    As crianças da equipe de liturgia Tijolinho de Jesus também marcaram presença nos períodos natalinos, visitando famílias com cantorias de repertório infantil, sob a liderança de Rodrigo e Guaracira. No bairro do Promirim, a Folia São Roque, do saudoso mestre Orlando, teve sua tradição repassada à comunidade por seu neto Lucianinho e pela mestra Lauriana. Embora atualmente não execute as cantorias, o grupo precisa de apoio para registrar seus repertórios seculares — assim como todos os grupos de Ubatuba, que correm sério risco de perder esse rico acervo imaterial de musicalidade caiçara e de outras regiões.

     A Folia São Geraldo, do Itaguá, mantém-se ativa mesclando componentes do próprio bairro e do Sertão do Poruba, reduto do grande mestre da Congada de São Benedito, fandangueiro e folião Dito Fernandes. A Companhia Cantamar, do amigo Julinho Mendes, busca na diversidade brasileira uma identidade rica e plural. O Grupo Consertada, embora não seja uma folia de reis, integra cantigas natalinas em seu repertório e sempre participou do tradicional Encontro de Folias de Reis realizado em 6 de janeiro.

     Por fim, é imprescindível lembrar os mestres fandangueiros que detêm vasto repertório ligado às Folias de Santos Reis: Mestre Neco, Mario Gato, Armindo (Tié), Dito do Estaleiro, Mestre Marinho e Mestre Pedrinho — verdadeiros guardiões de uma herança que une fé, música e pertencimento.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (VIII)

 

Foliões no coreto -  Arquivo Rogério 


Viva os 15 anos do blog!

      O estimado professor Rogério Estevenel, além de fandangueiro, também atua em outras frentes da nossa cultura. A partir de hoje, por quatro edições consecutivas, o tema trazido por ele é um dos aspectos da catolicismo em Ubatuba: Folia de Santos Reis. Como não agradecer pelo empenho deste caiçara nos eventos que fortalecem as nossas raízes? Gratidão, companheiro!


 Parte 1

     As Folias de Santos Reis em Ubatuba constituem um dos mais belos testemunhos da religiosidade popular e da resistência cultural caiçara. Em tempos em que a presença de padres era escassa e o acesso aos sacramentos limitado, foram os foliões que asseguraram a vivência da fé católica nas comunidades, levando de casa em casa a mensagem do nascimento de Jesus, a devoção aos Reis Magos e a esperança que brota da tradição. As Folias de Santos Reis em Ubatuba não são apenas manifestações festivas: são arquivos vivos da memória coletiva, expressões profundas da religiosidade católica popular e pontes entre gerações. Preservá-las é garantir que as vozes do passado continuem a ecoar no presente, anunciando, em canto e devoção, o nascimento daquele que veio pobre, sem palácio, mas coroado de amor: o Rei dos Reis.

      Desde o final de novembro, quando as cigarras iniciavam seus cantos, o povo já sabia: era o sinal de que as Folias de Reis deveriam dar início às suas romarias. Ao luar, muitas vezes guiadas pela chamas dos fifós, os grupos percorriam os caminhos saudando o Menino Jesus diante dos presépios, entoando cantorias seculares que narravam a profecia da vinda do Messias — nascido em manjedoura, em palhinhas deitado, filho da Virgem Maria e de São José, seu pai adotivo. Pobre, sem palácio, nascia o Rei dos Reis.

    Em Ubatuba, as folias sempre tiveram uma singularidade ímpar. Formadas por membros da própria comunidade, ao som de violas, violões, rabecas, adufos, chocalhos e caixas de folia, não possuíam roupagens identitárias padronizadas nem o uso de palhaços, como em outras regiões do Brasil. Essa sobriedade estética reforçava o caráter devocional da romaria, onde o essencial era a fé cantada, o encontro fraterno e o respeito aos lares visitados. Com o passar do tempo, a forte migração aproximou Ubatuba das realidades culturais do Vale do Paraíba e de Minas Gerais, enriquecendo ainda mais essa manifestação. Hoje, a cidade abriga inúmeros grupos que expressam essa diversidade.

 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (VII)

 



O genial Henfil - Arquivo Henfil

 

        Viva os 15 anos do blog!

  

     Que coisa maravilhosa é a leitura!

 

     As pessoas escrevem e a gente lê, aprende, reflete sobre a mensagem, dá mais passos na direção de onde se encontra a nossa utopia, o alimento do nosso ser: aquilo que nos faz caminhar, na expressão de Eduardo Galeano. Neste momento, quando um tanto de gente nossa fala mal e persegue povos que nunca conheceu, promove produção e vendas de armas, desmerece educadores, apoia governantes genocidas, pedófilos e coisas piores, o presente texto (de autoria desconhecida, mas parecendo ser do norte da África) nos desafia a buscar cada vez mais o conhecimento. (Porque ser ignorante é fácil demais!).

 

 

       O juiz fitou o homem que acabara de disparar contra o presidente egípcio Anwar Sadat e perguntou, sem elevar a voz;

     - Por que você o matou?

     - Porque era seglar.

     O silêncio que se seguiu pesava mais que a sentença.

    - O que significa “seglar”? – insistiu o juiz.

    - O assassino engoliu em seco.

    - Não sei.

    Em outra sala, outro julgamento. O réu tentar matar o escritor Naguib Mahfouz.

     - Por que o esfaqueou?

 - Porque escreveu um romance contra a religião.

      - Você leu o livro?

      - Não.

    Em um terceiro tribunal, mais um homem, acusado de assassinar o intelectual Farag Fouda.

     - Por que você o matou?

     - Porque ele não tinha fé.

     - Como sabe?

     - Está no livro dele.

     - Em qual livro?

   Silêncio.

      - Eu não sei. Nunca li.

      - Por quê?

    O homem baixou a cabeça, como quem confessa o que o mundo inteiro já sabe.

   - Eu não sei ler nem escrever.

   Três julgamentos. Três mortes. Um único padrão. Matava-se por ideias que não compreendiam. Condenava-se por palavras que jamais foram lidas. Odiava-se conceitos que nem sequer sabiam definir.  Não era convicção. Era repetição. Não era fé. Era eco. Não era certeza. Era obediência cega.

   A violência não nasceu do pensamento. Nasceu da sua ausência.

   O ódio não se propaga pelo conhecimento. Espalha-se onde o conhecimento não chega. E toda vez que uma sociedade abdica de educar, não produz apenas ignorantes. Produz armas humanas: pessoas que não sabem porque atiram, mas estão dispostas a fazê-lo. Este é o preço invisível da ignorância. E, invariavelmente, quem o paga é alguém que nada fez para merecer.




quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (VI)

 

Professora Regina Natividade - Arquivo Rê

Viva os 15 anos do blog!

 

   Hoje é a vez da companheira de tantos movimentos nos honrar com sua honesta reflexão desenvolvida no ritmo acelerado da vida. Regina é educadora e fez sua estreia trabalhando no Saco do Sombrio, na Ilhabela. Era o começo da década de 1990, quem resistia ali eram poucas – e acolhedoras! - famílias caiçaras. Graças a ela eu pude conhecer o nosso povo daquele lado. A querida Rê fez bonito porque convivia com todo seu ser naquela comunidade agarrada na vivência de colher da terra e do mar. É minha irmã de coração que sempre busca dar o melhor de si. Que Dandara e João não percam a referência dessa mãe, desse farol. Gratidão demais!

 

SOBRE SER E ESTAR

 

    Já faz algum tempo que venho pensando sobre estas duas palavrinhas: SER e ESTAR. E quando penso sobre a palavra SER, logo me vem à mente a importância do que diz respeito à existência, presença e essência com relação a minha pessoa, a sua, a nossa.

    Penso no quanto é importante sermos presença na vida de alguém especial ou mesmo de forma especial. Presença essa que, o que fica guardado na memória, são momentos.

    Já a palavra ESTAR demonstra algo previsível, sem profundidade, ideia de algo provisório e passageiro como, por exemplo, pessoas que assumem um cargo: elas estão no cargo. Então, que possamos ser confiança, ser essência.

    Que possamos  ser pessoas críticas, ativas e sem perdermos a ternura com o próximo e conosco.

    Que possamos ser construtores de pontes ao invés de levantarmos muros entre nós.

    Que possamos ser luz em meio a tanta escuridão.

    Que sejamos paz em meio a tantas guerras instaladas dentro de nós mesmos, em nossas casas, em nosso ambiente de trabalho, no trânsito, nas relações.

    Que sejamos mais observadores e apreciadores dos especiais detalhes da nossa vida, dos pequenos gestos, dos pequenos seres que quase já não os vemos mais em meio a natureza devido a destruição que assola o meio ambiente ou ainda devido a nossa “correria” diária. Pequenas ações como: o pescador que joga a rede ao mar no despertar do dia, a flor que brota em meio ao concreto da cidade, o vagalume que raramente vemos e tantas outras ações que passam por nós despercebidas. 

     Que sejamos propagadores da verdade e não daquilo que “ouvimos dizer” ou “me falaram”.

     Que sejamos e saibamos ser pessoas acolhedoras com aqueles que já não podem estar com seus entes queridos, dos amigos...Afinal, quem nunca irá passar por perdas, por um luto?

    Que sejamos a soma de valores junto às pessoas de bem e do bem e jamais a subtração por qualquer que seja o motivo.

    Que ganhar não seja sobre ter que “pisar no outro” para ter seu destaque, mas que se transforme em conquistas coletivas.

    Que sonhar com uma educação de qualidade seja viver o respeito à diversidade, onde a criança seja respeitada em seu tempo, sua voz, suas necessidades, sua essência, em especial no ambiente escolar.   

     Que saibamos “preparar os espaços para que a vida aconteça com menos pressa e mais sentido” (Camila Izoli)

    Que as comunidades tradicionais, assim como o indígena e o negro, sejam respeitadas em todo nosso ser e nossa ancestralidade.

    Que saibamos ser cada dia mais e que o estar ocupe cada dia menos espaço em nós. Mas, se mesmo assim eu ou você tivermos de estar em algum lugar, que possamos dar o melhor de nós mesmos.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (V)

  

Livro recomendado - Arquivo Carlos
 

    Viva os 15 anos do blog!

    

    Pelos caminhos da vida a gente vai encontrando coisas boas e também um tanto daquilo que não tem nada de agradável. As coisas ruins eu vou me esforçando para apagar das  lembranças, até batendo o pó das sandálias para se livrar de qualquer resquício perverso. Pessoas horríveis seguem se desvanecendo na cerração do meu tempo. Por outro lado, as reconfortantes vivências, as muitas pessoas que me sustentaram continuam em minha vida, contribuem desde sempre no meu espírito de ser caiçara, permanecem vivas a cada dia que essa terra me sustenta. É como está na letra da música da Acadêmicos de Niterói: “Revolucionário é saber escolher os seus heróis”

 

     Carlos Lunardi Laureano, o meu irmão de coração, caiçara de Caraguatatuba, maravilhoso leitor que conheci na vivência profissional, é parte do tesouro que está guardado sob intenso carinho em meu baú. Hoje, é dele a colaboração neste tempo de comemoração deste simples blog. Assim, reproduzo agora o comentário dele por ocasião da publicação do texto "FILHO QUERIDO"


     Parabéns mais uma vez pelo Blog, torço para que você, meu irmão de coração, continue nos agraciando com seus causos que trazem muitas recordações de uma vivência caiçara rica em memórias, história de resistência de um povo que a especulação imobiliária e a burguesia cada vez mais empurra para as periferias e para os morros. Usando o termo criado pela maravilhosa escritora Conceição Evaristo, seu o Coisas de Caiçara é a materialização da "escrevivência" de um povo caiçara. Aproveito também para parabenizar o Estevan, pelo aniversário e também por sempre estar contribuindo com o blog com sua Arte.

  Gratidão, irmão! Beijos e abraços para a sua maravilhosa família!

Em tempo: em sua última mensagem, Carlos indica a sua leitura atual: A terra dá, a terra quer, de Antônio Bispo dos Santos.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (IV)

 

 

Jorge Ivam Ferreira - Arquivo Jorge

Viva os 15 anos do blog!

   Quem nos homenageia hoje, acerca do mundo do trabalho e suas repercussões na realidade da nossa cidade litorânea, é o meu irmão de coração que escolheu Ubatuba para viver e nos brindar com a sua querida família. Valeu, Jorge! (Sobretudo no fortalecimento da luta pelo fim da escala 6x1)


 Ser empregado não é inteligente


         Hoje eu estava no supermercado escolhendo laranja quando um homem falava ao celular. Era um empresário que tinha recebido uma proposta de compra do seu comércio. Confessou que estava tentado a vendê-lo. Sua justificativa era que nesta temporada está difícil arranjar empregado e acredita que na próxima será pior. Alegou que os jovens não querem trabalhar. Já escutei outras queixas semelhantes e me perguntava se era verdade ou era somente o ponto de vista de gerações mais velhas sobre as mais novas. Como algumas vezes tenho constatado que o jovem que está me atendendo não demonstra muito interesse em servir, tendo a concordar com a opinião de que rapazes e moças (com boas exceções, é claro!) não demonstram diligência no trabalho.

         Se essa mudança de comportamento é um fato, ela deve ter uma causa. Primeiramente, pensei que fosse preguiça, mas não parece que uma geração seja mais preguiçosa do que outra. Afinal trabalhar nunca foi uma atividade prazerosa, mas as gerações anteriores buscavam um emprego e se dedicava a ele. Havia uma formação discursiva que incentivava esse compromisso traduzido na expressão “vestir a camisa da empresa.”

         A Rede Globo divulgava o “Operário-padrão” do ano. Era um concurso que visava tornar o empregado dedicado e, sobretudo, dócil, conformado com a opressão que sofria. O Capitalismo sempre soube inculcar no oprimido a ideia de que “o trabalho edifica”, de que “o bom cabrito não berra.” Quando as fábricas precisavam de mão-de-obra, incentivou-se a mulher a tornar-se economicamente ativa empregando-se numa delas. Além disso, levou-se o agricultor a abandonar o campo e ingressar numa linha de montagem.

        Com o advento da robotização, a oferta de mão-de-obra começou a ficar maior do que a demanda por ela. O que resultou numa drástica redução dos salários uma vez que a ameaça de desemprego levava o assalariado, temendo o desemprego, aceitar a remuneração que lhe era oferecida.

       O avanço da tecnologia fez com que a oferta de emprego caísse vertiginosamente e o contingente de desempregados aumentasse de modo perigoso para o sistema. Prevendo uma derrocada, os teóricos do liberalismo passaram a pregar a ideia falaciosa de que a felicidade está no empreendedorismo. Ser empregado é ruim, o bom é ser empreendedor. Uma grande quantidade de jovens comprou essa tese, que é uma faca de dois gumes. Pois, se por um lado ela atinge o objetivo de diminuir a pressão por emprego, que a sociedade não tem para oferecer, por outro, os jovens que entram no mercado de trabalho acabam não tendo vontade de permanecer nele e, por isso, não veem motivos para se empenhar e se aperfeiçoar na atividade que está exercendo.

       Daí, o empreendedor, que precisa de empregados, ficar indignado com o comportamento descomprometido de seus “colaboradores”. Pois é. Uma das nuances do Capitalismo é “dourar a pílula”. A exploração do subalterno continua como antes, mas ele deve ser chamado de colaborador, pois imagina-se que, sendo tratado com esse eufemismo, ele se sentirá melhor. Tendo, pois, a concordar com aquele comerciante que vi no supermercado daqui de Ubatuba: provavelmente a próxima temporada vá ter mais falta de empregados e os que se empregarem estarão pouco empenhados em dar o seu melhor. Não por preguiça, mas porque lhe fizeram crer que ser empregado não é inteligente.

 

Jorge Ivam Ferreira

         

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (III)

 

 

 

Fandangando - Arquivo Rogério 


    Viva os 15 anos do blog!


     Neste dia quem nos homenageia é o estimado Rogério Estevenel, cuja raiz materna está na praia das Toninhas. Ele é professor, sua cabeça está na Geografia, mas seu coração é devoto das tradições caiçaras. Hoje o tema é fandango e seus desdobramentos, mas mais adiante ele nos brindará com o tema dos Santos Reis. Quem nunca apreciou este caiçara em seus bate-pés não sabe o que está perdendo!

 

     O fandango caiçara é mais do que dança e música: é expressão viva de um modo de ser coletivo, tecido no espírito do mutirão, da partilha e da convivência comunitária. Em cada batida do tamanco, em cada ponteio da rabeca e da viola, pulsa uma tradição construída no entrosamento, na amizade e no respeito às pluralidades que compõem o universo caiçara. O baile é encontro, é conversa sem palavras, é aprendizado entre gerações, onde todos têm lugar e voz.

     Seus instrumentos — rabeca, viola, adufo, pandeiro e tamancos — não são apenas ferramentas sonoras, mas extensões da memória e da fé de um povo que dança em comunhão. No salão simples, sob luzes modestas, constrói-se um ambiente de acolhimento, onde o coletivo se sobrepõe ao individual e a alegria se faz disciplina, ritmo e pertencimento. 

     Entre os muitos ritos do fandango, o baile do Enterra Toco ocupa lugar singular. Realizado na terça-feira de Carnaval, é o último baile antes da Quaresma, encerrando-se rigorosamente às 23 horas e 59 minutos. À meia-noite, com o início do período quaresmal, os fandangueiros guardam seus instrumentos de costas para a parede e os desafinam simbolicamente, colocando-os em guarda devocional. Esse gesto representa o recolhimento espiritual e a memória dos quarenta dias em que Jesus se retirou ao deserto para se preparar para o martírio que se aproximava. 

     Durante toda a Quaresma, o silêncio dos instrumentos é sinal de respeito e de fé. Apenas no Sábado de Aleluia, em festa pela Ressurreição de Jesus, a tradição é retomada, e o som do fandango volta a ecoar como anúncio de vida nova. Mas o Enterra Toco não é apenas rito religioso: é também rito de afetos. Em tempos antigos, quando os pais não permitiam que suas filhas mantivessem contato com rapazes antes do casamento, o baile de fandango tornava-se espaço discreto de enamoramento. A última moda dançada na terça-feira de Carnaval funcionava como um aviso silencioso entre os casais interessados. O verdadeiro compromisso, porém, só se confirmava na retomada do fandango no Sábado de Aleluia, quando se dançava a primeira moda com a mesma pessoa da última dança carnavalesca — sinal de um interesse que, muitas vezes, culminaria em futuros casórios. Hoje, essa prática permanece como memória afetiva de outros tempos. Ainda assim, em tempos escassos de bons pretendentes, o velho rito do Enterra Toco continua a soar, com certa ironia e esperança, como uma forma eficaz de garantir o seu “toco” — não apenas de madeira, mas de amor, tradição e continuidade cultural.

 

Rogério Estevenel