quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

APOITANDO

    

Mosaico - Arquivo JRS 

       No mês de comemoração dos 15 anos deste blog, vou recordando bons momentos das coisas dos caiçaras. 

      Chico Félix, meu tio nascido no sertão da Caçandoca, também entendia de fazer casa do jeito nosso, que veio dos antigos. Firmava pau a pique na soleira, depois envarava tudo com imbé. Jissara era a ripa preferida. No morro escolhia sapê, penteava com maior cuidado e logo estava pronta a cobertura. Dizia que sabia, mas se orgulhava de dizer que aprendeu mesmo com o João Firmino, seu caprichoso sogro. Porém, nunca quis viver nisso porque a grande paixão dele era a pescaria.


     "Tresantonte fui no currico, mas não deu nada. Vardí do Diocrécio topô de í comigo. Não é ruim quando tem mais um pra remá, né mesmo? Ele foi que falô da gente esticá até a Redonda, aquela lage no rumo do Mar Virado. Fomos, lá arriamo a poita e logo deu bicho grande na linha. Veio garopa, gudião, sargo... Só ser de respeito. 'Assim vale a pena', se alegrô o Vardí. Tive de concordá com o meu parcêro. Do nada, já tando quase saindo, com a poita embarcada, uma espada bitela pegô no meu anzó. Era criada a danada! Usei o bichêro, puxei pra dentro da canoa. Nessa hora me estrepei: ela meteu o dente no meu carcanhá, foi só sangue na água do fundo. Vardí tirô na cuia. A valênça é que sempre carrego uma garrafada no balaio. Arco e arcanfo é santo remédio, nem chega a inframá. Taís vendo aqui? Isto não é nada, tô quase curado. Logo logo a gente vai de novo naquele pesquêro apoitá. Sabeis com que isca? Sururu do rio, lá de casa. É só batê e puxá". 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

FILHO QUERIDO

 

Rótulo - Arte do Estevan




   Hoje, 4 de fevereiro, aniversário do nosso querido Estevan, declaro aberto o mês de  comemoração do décimo quinto anos deste blog.

           Coisasdecaicara.blogspot nasceu por estímulo da esposa, da minha Gal. Ela queria que, além de dar as contribuições a outros veículos, eu tivesse o meu próprio: "É uma forma de você escrever, organizar seus textos e publicá-los quando der na cabeça". Assim, por recomendação dela, alcançamos este tempo de 15 anos.

      15 anos no prazer de escrever, de registrar lembranças, causos caiçaras, histórias de pessoas estimadas etc. Foram 15 anos de apoio da família, vendo o crescimento das crianças. (Agora elas enfrentam suas batalhas na realidade que, predominante, pretende ser exploradora, desvirtuadora dos rumos e desnorteadora dos sonhos juvenis). Neste instante sei que nossos filhos já rumam para mais um dia de labuta, seguem pelos caminhos sob sol ou chuva em conduções improvisadas e rompendo muitas adversidades até seus postos de trabalho. Tenho plena ciência que muita gente vai ficando pelos trajetos desiludidos de tudo. Quem não enxerga jovens perambulando desnorteados, dormindo ao relento, sendo pisoteados como os animais covardemente abandonados? Também não se pode deixar de ver tantos idosos que até hoje não encontraram a merecida paz após uma longa vida sustentando a sociedade.

     15 anos é o tempo que passei registrando as minhas impressões, angústias e alegrias em 2.213 postagens até este momento. Em 15 anos conquistei 209 seguidores e computei 1.047 comentários.

      Vale muito tudo isso, meu povo! Abraços e beijos, minha gente! 

     Feliz aniversário, filho querido!

 

      

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

QUE É ISSO?

Uma aula de erros - Arquivo JRS 


"O direito à informação é um valor tão essencial quanto o direito à alimentação, à saúde e à educação"  (L. Nassif)


      Eu, por curiosidade, me deparei com uma aula ministrada por militares onde o a alfabetismo funcional ficou evidenciado. Me convenci de que há desinformação nesse projeto de escola. Das duas uma: ou os pais são ingênuos úteis ou quem defende tal modelo é pilantra consciente. 

     É um nível de analfabetismo funcional gritante, onde os erros ortográficos me fazem passar vergonha só em vê-los de tão longe de uma sala de aula neste momento. Gente assim nunca leu o que deveria ler, nunca entenderá que o mundo gira em torno dos interesses mesquinhos de uma minoria poderosa. Gente assim nunca perceberá que é uma engrenagem útil por enquanto, mas logo será descartada porque jamais fará parte da elite. Gente assim, desde agora, é contra os direitos trabalhistas que ainda amenizam bastante a rotina de quem labuta, de quem carrega este Brasil nos ombros. Gente assim segue alimentando o sumo da miséria cultural que apodrece o lagamar, corrói nossas embarcações e resulta em tantos naufrágios.

Em tempo: gente assim sabe que as filhas de militares falecidos ganham muitas vezes mais do que o seu soldo mensal?

     

sábado, 31 de janeiro de 2026

ONDE A ESSÊNCIA MANDA (II)

 

O genial Henfil - Arquivo Henfil

    Eu estava lendo um texto de Robert Wright quando achei esta importante contribuição aos significados das coisas, de suas essências, sobretudo em tempo de ameaças e ataques a muitos países por parte de um tirano que se acha dono do mundo. Me assusta mais saber, via pesquisa nacional, que só pouco mais da metade dos brasileiros católicos (a minha tradição caiçara) está do lado do estado democrático de direito. Ou seja: essa gente está cultivando a essência política reacionária com as piores tendências. Assim, aprovar a matança de pobres (votando em políticos inescrupulosos) em vez de promover a justiça social, vai se tornando "ideal" à essência da humanidade. Isto é péssimo para todos nós!



    "A guerra oferece um bom exemplo de como a essência pode passar de um nível a outro. Você começa com a ideia de que o líder de uma nação é uma pessoa essencialmente ruim. A partir daí, embarca na ideia de que um país inteiro é seu inimigo. Isso então se traduz na ideia de que todos os soldados daquele país  -  ou até mesmo todas as pessoas daquele país -  são essencialmente ruins. E se as pessoas são más, isso significa que você pode matá-las sem sentir qualquer dor na consciência. Os Estados Unidos jogaram bombas atômicas em duas cidades japonesas  -  cidades, não bases militares -  sem gerar praticamente nenhum protesto por parte dos americanos."

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

ONDE A ESSÊNCIA MANDA

 

Touca da Nini - Arquivo JRS 

       Janeiro chegando ao fim. Em fevereiro  aniversaria coisasdecaicara.blogspot.com  (estará completando quinze anos).

      Eu, aos quinze anos, depois de trabalhar mais de ano num bar sem nenhuma folga, recebi em dinheiro um mês de férias e passei a ter uma folga semanal a cada segunda-feira. Que venha a escala 5 por dois ou outra melhor.

      Logo completando quinze anos, o blog tem 2.210 postagens,  208 seguidores e 1.047 comentários. Preguiça de escrever eu não tenho. Ah! Também tem as contribuições de gente muito estimada! Que bom, né? Saiba quem me segue e lê as crônicas: tá tudo guardado  no coração!

      Por que guardo tantas coisas? Por causa de suas histórias! Quase sempre elas têm relações com momentos e/ou com pessoas que muito admiro. Exemplo: olho um passarinho esculpido num pequeno pedaço de madeira e nunca me esqueço que foi presente de casamento que o tio Antônio nos deu: "Este sabiá foi escavado pelos meninos lá de casa, pelos vossos primos. É um presente de coração".  Você notou que há uma história que me faz guardar com muita devoção essa obra e tantas outras? 

    Bilhetes, ferramentas, desenhos e muito mais coisas são carregados por mim porque estão repletos de significados invisíveis e intangíveis. Eu atribuo a essa enorme quantidade essências afetivas. Elas mandam! São ítens especiais que me provocam sentimentos especiais. É por isso que tenho o meu olhar nelas: a canoinha, presente do Pedro, veio da ilha dos Búzios, o remo, feito pelo finado Bito Estevão, é da Caçandoca, o nível de ferro era do senhor Honda, os serrotes que pertenceram ao meu saudoso pai, a touca feita pela Nini, a manta confeccionada com tanto esmero pela querida Gal, a boina presenteada pelo Bentão etc. Alguém escreveu que ter sentimentos em relação a um objeto equivale a fazer julgamentos sobre ele. Acho que é mesmo!

    Vou à praia da Barra Seca, em Ubatuba, avisto a canoa CERNE, sei que foi a última escavada por meu pai alguns anos antes de falecer. Sigo admirando. Concordo que a conotação afetiva nasceu de uma crença cultivada por mim na história do objeto, nas pessoas envolvidas nela. Meus afetos precisam disso, meu condicionamento emocional se sustenta nessas histórias e nessas essências.

     O meu desejo é que não me falte energia para manter esta paixão em deixar registrado tudo que segue brotando em meu ser.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

OVOS DE SERPENTES

      

     

Rosas e Flor - Arquivo JRS 

   Ovos de serpentes continuam sendo chocados. Alguém dúvida? Neste momento está amplamente divulgado o caso de alguns adolescentes ricos, em Florianópolis, que torturam uma cadela por nome de Orelha. A justiça irá alcançá-los? Também nesta semana soube que os cinco adolescentes de Brasília que, em 20 de abril de 1997, queimaram o indígena Galdino, da etnia Pataxó, que dormia num ponto de ônibus, se tornaram funcionário públicos bem remunerados.  A justiça não os alcançou. O que eles têm em comum ? São contra as políticas que visam diminuir as desigualdades sociais neste país. 


      No Instagram, Sabrina (psisabrinademarchi) postou este importante texto para a nossa reflexão em torno da violência masculina, do feminicídio.


      A violência masculina não é uma exceção à regra, ela é a regra, a norma, a estrutura dominante.

      A violência contra animais não é um acidente isolado, é um dos primeiros territórios onde a socialização masculina testa seus limites: quem aguenta ver sofrimento, quem consegue objetivar um corpo vivo, quem consegue silenciar qualquer culpa.

       Quando chamamos isso apenas de "psicopatia", fazemos três coisas perigosas ao mesmo tempo:

- Despolitizamos  a violência, como se ela não fosse ensinada, incentivada e normalizada culturalmente.

- Protegemos o sistema porque não precisamos questionar a masculinidade, educação emocional, pornografia, cultura do estupro ou a glorificação da agressividade masculina.

- Transferimos o problema para o indivíduo, como se bastasse isolar alguns "doentes" para que o mundo fosse seguro.

 E assim conclui a autora, nos alertando:

      Porque se continuarmos tratando violência masculina como exceção, nunca  vamos enfrentá-la como regra social.


     Gratidão, Sabrina!

domingo, 25 de janeiro de 2026

GASTANDO SALIVA

 

O genial Henfil - Arquivo Henfil

"Tudo é política, inclusive seu silêncio conivente e fantasiado de neutralidade" - A.Gramsci


     Gastão, homem negro de raíz caçandoqueira, diz que se orgulha de ser da cultura caiçara. Eu não duvido porque conheço seus parentes maternos, sei que são herdeiros da ruína que se abateu sobre Ubatuba e a Fazenda Caçandoca, no século XIX.

     Por herdeiros da ruína quero dizer todos os descendentes dos antigos negros trazidos para serem escravos ali, naquele pedaço de chão. Também incluo aí os não negros que foram se ajeitando nesse lugar, tal como as minhas raízes paternas. (Desse mesmo lugar eram vovô Estevan e vovó Martinha). Resumindo: os nossos mais antigos sobreviveram lá, na praia da Caçandoca e adjacências.

     Bem mais tarde, depois das agruras durante os governos militares (1964-1985), graças a uma modesta organização e ao surgimento de determinada lei humanitária (denominada por Gastão de esquerdista), o referido território foi decretado como área quilombola. O nosso personagem nunca morou lá, mas muitos dos seus familiares habitam aquele lugar, têm um chão garantido e seguem aumentando as alternativas para as melhorias em suas vidas.

     Tempos atrás, estando numa pizzaria, me encontrei com o Gastão. Do assunto inicial em torno de futebol, logo ele pulou para política: "Não sou de esquerda, nem de direita. Sou neutro". Disse outras besteiras, repetiu clichês fartamente divulgados em postagens conservadoras; queria que eu concordasse com tamanha incoerência.

       "Incoerência, Zé?". Sim, incoerência! Agora você vive às custas mais do trabalho dos outros do que do seu. Tem dois empregados que ralam por você, né?

       "Incoerência, Zé?". Sim! Não existe neutralidade política, meu amigo! Ainda mais quando se é negro e vendo que nossos parentes se sustentam numa lei decretada que garante o território. Você acha que essa conquista "esquerdista" não segue sendo combatida pela direita reacionária? Faz algum sentido você se dizer neutro, não tomar posição contra esse pessoal que está cavando a oportunidade, fazendo a sua cabeça e de mais gente, para dar um golpe fatal contra sua mãe e sua irmandade, contra os nossos parentes da Caçandoca?