sábado, 7 de março de 2026

COMEMORAÇÕES (XII)

  

Mano Mingo e mana Ana - Arquivo JRS 


Viva os 15 anos do blog!

     

   Ana Maria é a minha querida irmã. Chegou a vez dela atender ao meu apelo neste tempo de aniversário do blog.

  


    Você pediu para escrever sobre o blog, não tenho talento.

     - Quem disse que não? Tem demais! Prova maior é o seu lar, fruto de toda uma vida de batalhas, com todos os seus arranjos.

    Sou mesmo só parte da família.

    - Ainda bem que temos você, mana Ana! Certamente que a sua proximidade continuará sendo um porto seguro para os irmãos e toda a sobrinhada.

    O seu blog representa saudades de um tempo muito distante.

    - Muitos dizem que sim. A saudade nos faz recordar de tantos momentos que vivemos desde que nascemos há mais de sessenta anos, mas também nos dá forças para resistir às maldades que, na atualidade, se banaliza graças às mídias que se aproveitam do grande número de analfabetos funcionais, da ignorância até mesmo transbordante em gente da gente.

   Hoje achei revistas Tex nas coisas da Josi. Eu havia falado pra ela que aprendi a ler com elas na casa da vó Martinha.

   - Eu também lia muito na casa da vó, nos poucos livros dos tios. Que bom que nós tivemos essa oportunidade, né? Livros e revistas eram raros nos lares caiçaras de antigamente. Josi, a nossa querida, será eterna em nossas memórias e será sempre amada nas nossas “crianças” que nos animam a viver cada dia. Certamente que elas contam com a gente porque enfrentam um mundo com barreiras mais engenhosas a impedir a realização das pessoas. Você é muito importante para nossas crias: Carla, Maria Eugênia, Estevan, Paula, Victor, Régis, Mônica, Gabriela e Pedro.

   Lembro mais da minha infância quando morava na Maranduba. Naquele tempo também havia gente ruim, que queria se aproveitar da gente.

   - Ah, minha irmã! Quantas coisas foram amargas em nossas vida! Nós superamos, mas muitos dos nossos ficaram sem forças, desistiram no meio do caminho. Porém, fazem parte do meu ser, estão no meu espírito.

   Lembro-me também das brincadeiras nas areias em frente da casa da vó, do rio que aprendi nadar.

   - Eu também me lembro. Uma velha cicatriz na sobrancelha direita é daquele tempo, quando a base de uma folha de coqueiro quase furou o meu olho. Naquele areal nós conhecemos o caju, a batata e a cana assada na fogueira. Ali vovô plantava um pouco de tudo. No terreiro, debaixo de um abacateiro, existia um banco de madeira para a gente escutar histórias. Por ali nossos primos cresceram.

   Era um tempo de inocência, meu irmão, mas que tinha safados também de plantão. Nosso pai passou a beber e causar transtornos em casa.

   - Triste demais. Acho que mamãe, sentindo-se muito fragilizada naquela vizinhança e nos rumos incertos do marido, tomou a decisão mais acertada de irmos dali, morar na praia da Fortaleza, nas proximidades do pai, da mãe e dos demais parentes.

   Lembro-me do terremoto.

   - Eu também. Me lembro que acordei em casa no dia seguinte enquanto mamãe e vocês voltavam da capela, lá perto da Maria Balio. Desconfio que nosso pai, sob efeito do álcool, não deixou que me levassem. Mais pessoas do Sapê buscaram proteção divina, se achavam mais segura na capela. Naquele tempo aconteceu a catástrofe em Caraguatatuba.

   Me lembro dos desenhos feitos e pintados na luz da lamparina, que as folhas no outro dia amanheciam na cor azul.

   - E também tinha uma menina da vizinhança que montava um cineminha com caixas, com embalagens juntadas no entorno. O nome dela era Imaculada, filha da tia Santa. Pois é!

   Para mim você é pessoa generosa e divertida, com princípios culturais, humanos e políticos que emergem do blog. Beijos.

     - Gratidão demais pela irmã que você é, Ana!


segunda-feira, 2 de março de 2026

COMEMORAÇÕES (XI)

 

Sertão da Quina e Sapê presentes no coreto (Arquivo JRS)

Viva os 15 anos do blog!

    Muitas interferências tendem a acabar com alguns dos nossos traços culturais, algumas das marcas caiçaras ainda existentes em Ubatuba. Triste quando os gestores não percebem o valor e a riqueza possível por intermédio do turismo cultural. Porém, a nossa gente resiste e segue fazendo bonito em suas manifestações. Parabéns às lideranças que não esmorecem! É isso ai, pessoal! 


Parte 4

     Nos últimos anos, o encontro voltou a receber um apoio ainda tímido, restrito basicamente à sonorização. Em 2026, contudo, o encontro não foi realizado, embora aproximadamente cinco grupos tenham mantido suas atividades de forma independente. Esse cenário acende um sinal de alerta: as Folias de Santos Reis em Ubatuba vêm se enfraquecendo em virtude de inúmeras interferências externas, da falta de políticas públicas continuadas e da ausência de um projeto estruturado de salvaguarda. O risco de desaparecimento dessa manifestação é real e iminente.

     Diante desse contexto, é imprescindível reconhecer publicamente o considerável comprometimento, a defesa incansável e a atuação concreta de Nei Martins e Rogério Estevenel como referenciais na manutenção das manifestações culturais tradicionais caiçaras, especialmente das Folias de Santos Reis. Suas trajetórias demonstram que, quando há sensibilidade, diálogo com as comunidades e respeito ao sagrado e à tradição, é possível fortalecer identidades culturais e garantir a transmissão de saberes entre gerações.

     Assim, este texto se soma ao clamor das comunidades, dos mestres e dos foliões para encorajar os poderes públicos — em especial o município de Ubatuba, por meio de seus órgãos de cultura, educação e turismo — a assumir um compromisso efetivo com a salvaguarda das Folias de Santos Reis. Faz-se urgente a criação de um projeto de fortalecimento dos grupos e dos festejos natalinos, que contemple: apoio logístico permanente; registro e documentação das cantorias seculares; ações formativas para jovens; reconhecimento dos mestres como detentores de saberes tradicionais; e a institucionalização do Encontro de Folias de Santos Reis como evento oficial do calendário cultural da cidade.

    Preservar as Folias de Santos Reis não é apenas manter uma tradição religiosa: é proteger um patrimônio imaterial que expressa a alma caiçara, a fé popular e a história viva de Ubatuba. Sem ações concretas e continuadas, corre-se o risco de silenciar vozes que, por séculos, anunciaram em canto e devoção o nascimento daquele que veio pobre, sem palácio, mas coroado de amor — O Menino Jesus!


sábado, 28 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (X)

 

Um dia distante no Puruba - Arquivo JRS

 Viva os 15 anos do blog!

       Nesta terceira parte apresentada pelo Rogério, me vem à memória o saudoso Pedro Brandão, mestre folião do Sertão do Puruba (região norte de Ubatuba), mas que terminou sua jornada no bairro da Estufa. Nos idos de 1980, na praia da Ponta Aguda (extremo sul), ouvindo o tocador Aristeu Quintino num momento de cantoria, eu quis saber como ele sabia tantas músicas do nosso povo, da Folia. Eis a resposta: "Eu aprendi com o Pedro Brandão. Era ele que fazia a Corrida da Bandeira do Divino desde quando eu era ainda criança. Fui escutando a cada ano e assim sei cantar essas modas". 

      Pedro Brandão, Nei Martins, Otávio "Paratiano", Vitória, Beto, Ophélia e tanta gente mais fizeram mais do que as suas partes na preservação de nossa cultura. Rogério segue no mesmo caminho. Parabéns, amigo!


Parte 3

    As Folias de Santos Reis em Ubatuba representam um dos mais profundos patrimônios imateriais da religiosidade popular e da cultura tradicional caiçara. Mais do que manifestações festivas, elas constituem verdadeiros arquivos vivos da memória coletiva, responsáveis, em tempos históricos de escassez da presença clerical, por assegurar a vivência da fé católica nas comunidades, levando de casa em casa a saudação ao Menino Jesus, a devoção aos Reis Magos e a transmissão de cantorias seculares que narram a profecia da vinda do Messias — nascido em manjedoura, pobre, sem palácio, o Rei dos Reis.

     Durante décadas, essas tradições foram mantidas graças ao compromisso de mestres, violeiros, cantadores e comunidades inteiras. Contudo, sua continuidade também foi profundamente fortalecida por ações públicas sensíveis e comprometidas com a cultura popular, como as desenvolvidas por Nei Martins, grande entusiasta e defensor da cultura caiçara. À frente de iniciativas dentro da FUNDART, Nei Martins iniciou um trabalho estruturante de valorização das Folias de Reis, que consistia em identificar mestres, favorecer a transmissão dos saberes entre gerações, fortalecer os grupos existentes e coordená-los conforme suas necessidades reais.

     Foi sob sua articulação que se consolidou o Encontro de Folias de Santos Reis em Ubatuba, bem como as romarias e visitas às capelas de norte a sul da cidade. Durante o mês de dezembro, as folias eram destinadas às comunidades com o devido transporte, zelo e profundo respeito aos grupos e ao sagrado, sempre em parceria com a Paróquia Exaltação da Santa Cruz. As comunidades acolhiam e prestigiavam as folias, reconhecendo nelas não apenas um ato religioso, mas um momento de pertencimento, memória e celebração coletiva.

    O ápice desse ciclo devocional acontecia no dia 6 de janeiro. O grande encontro iniciava-se com a missa, na qual cada capela vinha representada por um estandarte identificando o bairro visitado e seu padroeiro. Após a celebração, formava-se uma grande procissão em direção ao Sobradão do Porto, onde, diante de um belo presépio armado, as folias realizavam suas cantorias e reverências. O momento era coroado por uma farta mesa de alimentos caiçaras e, por fim, mestres e violeiros encerravam com um baile de fandango — em algumas edições realizado também na Praça da Matriz —, simbolizando a união entre fé, cultura e tradição.

     Infelizmente, em 2007, Nei Martins veio a falecer, deixando um legado inestimável e uma lacuna na condução institucional dessas ações. Em 2008, aguardava-se alguma iniciativa da FUNDART em torno das Folias e do tradicional encontro, o que não ocorreu. Diante desse vazio, em 2009, Rogério Estevenel, então coordenador da Pastoral Fé e Cultura, propôs a retomada do Encontro de Folias de Santos Reis, mesmo sem o apoio da FUNDART. A partir de então, o encontro passou a ser realizado dentro da Igreja Matriz, após a missa, e assim se manteve de forma ininterrupta até 2025, sustentado quase exclusivamente pela dedicação voluntária, pelo zelo pastoral e pelo profundo compromisso com a preservação da tradição.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (IX)

 

Canoas do Mestre Neco - Arquivo JRS

Viva os 15 anos do blog!


    O amigo Rogério, conforme anunciado, prossegue agora apresentando os grupos de Folia de Santos Reis ou Reisado. Destaque para as crianças e muitos jovens que estão se compondo nesse nosso traço cultural presente no município de Ubatuba.


Parte 2

       Na região sul, em Maranduba e no Sertão da Quina, destaca-se a junção de duas folias antigas — Nova Geração e Zeca Pedro —, que hoje mesclam a tradição caiçara e mineira. Na Praia Grande do Bonete, preserva-se a genuína folia caiçara, agora com jovens engajados na manutenção desse lindo patrimônio. Na Praia da Enseada, a Folia Santa Rita, comandada por Ostinho e amigos, mantém viva a devoção.

     No bairro Bela Vista, a forte migração de Ladainha-MG, na década de 1970, trouxe moradores de profundo vínculo cultural, que realizam todos os anos seus festejos nos nove dias que antecedem 6 de janeiro, culminando em um grande almoço, terço cantado e cantorias aos Reis Magos. Incluem ainda uma música em homenagem aos mestres e devotos já falecidos, sob o nome Folia Mineiros de Ladainha.

     No centro da cidade, vale rememorar o coro da Igreja Matriz, composto exclusivamente por mulheres e liderado, à época, pela saudosa Dona Ophelia e por Dona Lígia — hoje querida voluntária da Santa Casa. Esse grupo, chamado Folia Exaltação, em alusão à padroeira da cidade, Exaltação da Santa Cruz, hoje está desativado. Também na área central, merece memória a antiga Folia do Mané Babirro, composta por caiçaras foliões e membros da Lira Padre José de Anchieta, que, com clarinetes, trombones e saxofones, davam grande harmonia às cordas e vozes da romaria. Hoje, a Folia São Miguel Arcanjo continua esse legado, com a presença de seu Manoel e família na manutenção da tradição.  Não se pode esquecer que, em 2025, uma folia que abrilhantava os encontros na praça perdeu seu baluarte: o querido Beto, cantor das missas e referência para a diocese com a Missa Sertaneja. Sua folia, a Sagrada Família, formada por membros do ECC, permanece como memória viva de sua dedicação.

    As crianças da equipe de liturgia Tijolinho de Jesus também marcaram presença nos períodos natalinos, visitando famílias com cantorias de repertório infantil, sob a liderança de Rodrigo e Guaracira. No bairro do Promirim, a Folia São Roque, do saudoso mestre Orlando, teve sua tradição repassada à comunidade por seu neto Lucianinho e pela mestra Lauriana. Embora atualmente não execute as cantorias, o grupo precisa de apoio para registrar seus repertórios seculares — assim como todos os grupos de Ubatuba, que correm sério risco de perder esse rico acervo imaterial de musicalidade caiçara e de outras regiões.

     A Folia São Geraldo, do Itaguá, mantém-se ativa mesclando componentes do próprio bairro e do Sertão do Poruba, reduto do grande mestre da Congada de São Benedito, fandangueiro e folião Dito Fernandes. A Companhia Cantamar, do amigo Julinho Mendes, busca na diversidade brasileira uma identidade rica e plural. O Grupo Consertada, embora não seja uma folia de reis, integra cantigas natalinas em seu repertório e sempre participou do tradicional Encontro de Folias de Reis realizado em 6 de janeiro.

     Por fim, é imprescindível lembrar os mestres fandangueiros que detêm vasto repertório ligado às Folias de Santos Reis: Mestre Neco, Mario Gato, Armindo (Tié), Dito do Estaleiro, Mestre Marinho e Mestre Pedrinho — verdadeiros guardiões de uma herança que une fé, música e pertencimento.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (VIII)

 

Foliões no coreto -  Arquivo Rogério 


Viva os 15 anos do blog!

      O estimado professor Rogério Estevenel, além de fandangueiro, também atua em outras frentes da nossa cultura. A partir de hoje, por quatro edições consecutivas, o tema trazido por ele é um dos aspectos da catolicismo em Ubatuba: Folia de Santos Reis. Como não agradecer pelo empenho deste caiçara nos eventos que fortalecem as nossas raízes? Gratidão, companheiro!


 Parte 1

     As Folias de Santos Reis em Ubatuba constituem um dos mais belos testemunhos da religiosidade popular e da resistência cultural caiçara. Em tempos em que a presença de padres era escassa e o acesso aos sacramentos limitado, foram os foliões que asseguraram a vivência da fé católica nas comunidades, levando de casa em casa a mensagem do nascimento de Jesus, a devoção aos Reis Magos e a esperança que brota da tradição. As Folias de Santos Reis em Ubatuba não são apenas manifestações festivas: são arquivos vivos da memória coletiva, expressões profundas da religiosidade católica popular e pontes entre gerações. Preservá-las é garantir que as vozes do passado continuem a ecoar no presente, anunciando, em canto e devoção, o nascimento daquele que veio pobre, sem palácio, mas coroado de amor: o Rei dos Reis.

      Desde o final de novembro, quando as cigarras iniciavam seus cantos, o povo já sabia: era o sinal de que as Folias de Reis deveriam dar início às suas romarias. Ao luar, muitas vezes guiadas pela chamas dos fifós, os grupos percorriam os caminhos saudando o Menino Jesus diante dos presépios, entoando cantorias seculares que narravam a profecia da vinda do Messias — nascido em manjedoura, em palhinhas deitado, filho da Virgem Maria e de São José, seu pai adotivo. Pobre, sem palácio, nascia o Rei dos Reis.

    Em Ubatuba, as folias sempre tiveram uma singularidade ímpar. Formadas por membros da própria comunidade, ao som de violas, violões, rabecas, adufos, chocalhos e caixas de folia, não possuíam roupagens identitárias padronizadas nem o uso de palhaços, como em outras regiões do Brasil. Essa sobriedade estética reforçava o caráter devocional da romaria, onde o essencial era a fé cantada, o encontro fraterno e o respeito aos lares visitados. Com o passar do tempo, a forte migração aproximou Ubatuba das realidades culturais do Vale do Paraíba e de Minas Gerais, enriquecendo ainda mais essa manifestação. Hoje, a cidade abriga inúmeros grupos que expressam essa diversidade.

 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (VII)

 



O genial Henfil - Arquivo Henfil

 

        Viva os 15 anos do blog!

  

     Que coisa maravilhosa é a leitura!

 

     As pessoas escrevem e a gente lê, aprende, reflete sobre a mensagem, dá mais passos na direção de onde se encontra a nossa utopia, o alimento do nosso ser: aquilo que nos faz caminhar, na expressão de Eduardo Galeano. Neste momento, quando um tanto de gente nossa fala mal e persegue povos que nunca conheceu, promove produção e vendas de armas, desmerece educadores, apoia governantes genocidas, pedófilos e coisas piores, o presente texto (de autoria desconhecida, mas parecendo ser do norte da África) nos desafia a buscar cada vez mais o conhecimento. (Porque ser ignorante é fácil demais!).

 

 

       O juiz fitou o homem que acabara de disparar contra o presidente egípcio Anwar Sadat e perguntou, sem elevar a voz;

     - Por que você o matou?

     - Porque era seglar.

     O silêncio que se seguiu pesava mais que a sentença.

    - O que significa “seglar”? – insistiu o juiz.

    - O assassino engoliu em seco.

    - Não sei.

    Em outra sala, outro julgamento. O réu tentar matar o escritor Naguib Mahfouz.

     - Por que o esfaqueou?

 - Porque escreveu um romance contra a religião.

      - Você leu o livro?

      - Não.

    Em um terceiro tribunal, mais um homem, acusado de assassinar o intelectual Farag Fouda.

     - Por que você o matou?

     - Porque ele não tinha fé.

     - Como sabe?

     - Está no livro dele.

     - Em qual livro?

   Silêncio.

      - Eu não sei. Nunca li.

      - Por quê?

    O homem baixou a cabeça, como quem confessa o que o mundo inteiro já sabe.

   - Eu não sei ler nem escrever.

   Três julgamentos. Três mortes. Um único padrão. Matava-se por ideias que não compreendiam. Condenava-se por palavras que jamais foram lidas. Odiava-se conceitos que nem sequer sabiam definir.  Não era convicção. Era repetição. Não era fé. Era eco. Não era certeza. Era obediência cega.

   A violência não nasceu do pensamento. Nasceu da sua ausência.

   O ódio não se propaga pelo conhecimento. Espalha-se onde o conhecimento não chega. E toda vez que uma sociedade abdica de educar, não produz apenas ignorantes. Produz armas humanas: pessoas que não sabem porque atiram, mas estão dispostas a fazê-lo. Este é o preço invisível da ignorância. E, invariavelmente, quem o paga é alguém que nada fez para merecer.




quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (VI)

 

Professora Regina Natividade - Arquivo Rê

Viva os 15 anos do blog!

 

   Hoje é a vez da companheira de tantos movimentos nos honrar com sua honesta reflexão desenvolvida no ritmo acelerado da vida. Regina é educadora e fez sua estreia trabalhando no Saco do Sombrio, na Ilhabela. Era o começo da década de 1990, quem resistia ali eram poucas – e acolhedoras! - famílias caiçaras. Graças a ela eu pude conhecer o nosso povo daquele lado. A querida Rê fez bonito porque convivia com todo seu ser naquela comunidade agarrada na vivência de colher da terra e do mar. É minha irmã de coração que sempre busca dar o melhor de si. Que Dandara e João não percam a referência dessa mãe, desse farol. Gratidão demais!

 

SOBRE SER E ESTAR

 

    Já faz algum tempo que venho pensando sobre estas duas palavrinhas: SER e ESTAR. E quando penso sobre a palavra SER, logo me vem à mente a importância do que diz respeito à existência, presença e essência com relação a minha pessoa, a sua, a nossa.

    Penso no quanto é importante sermos presença na vida de alguém especial ou mesmo de forma especial. Presença essa que, o que fica guardado na memória, são momentos.

    Já a palavra ESTAR demonstra algo previsível, sem profundidade, ideia de algo provisório e passageiro como, por exemplo, pessoas que assumem um cargo: elas estão no cargo. Então, que possamos ser confiança, ser essência.

    Que possamos  ser pessoas críticas, ativas e sem perdermos a ternura com o próximo e conosco.

    Que possamos ser construtores de pontes ao invés de levantarmos muros entre nós.

    Que possamos ser luz em meio a tanta escuridão.

    Que sejamos paz em meio a tantas guerras instaladas dentro de nós mesmos, em nossas casas, em nosso ambiente de trabalho, no trânsito, nas relações.

    Que sejamos mais observadores e apreciadores dos especiais detalhes da nossa vida, dos pequenos gestos, dos pequenos seres que quase já não os vemos mais em meio a natureza devido a destruição que assola o meio ambiente ou ainda devido a nossa “correria” diária. Pequenas ações como: o pescador que joga a rede ao mar no despertar do dia, a flor que brota em meio ao concreto da cidade, o vagalume que raramente vemos e tantas outras ações que passam por nós despercebidas. 

     Que sejamos propagadores da verdade e não daquilo que “ouvimos dizer” ou “me falaram”.

     Que sejamos e saibamos ser pessoas acolhedoras com aqueles que já não podem estar com seus entes queridos, dos amigos...Afinal, quem nunca irá passar por perdas, por um luto?

    Que sejamos a soma de valores junto às pessoas de bem e do bem e jamais a subtração por qualquer que seja o motivo.

    Que ganhar não seja sobre ter que “pisar no outro” para ter seu destaque, mas que se transforme em conquistas coletivas.

    Que sonhar com uma educação de qualidade seja viver o respeito à diversidade, onde a criança seja respeitada em seu tempo, sua voz, suas necessidades, sua essência, em especial no ambiente escolar.   

     Que saibamos “preparar os espaços para que a vida aconteça com menos pressa e mais sentido” (Camila Izoli)

    Que as comunidades tradicionais, assim como o indígena e o negro, sejam respeitadas em todo nosso ser e nossa ancestralidade.

    Que saibamos ser cada dia mais e que o estar ocupe cada dia menos espaço em nós. Mas, se mesmo assim eu ou você tivermos de estar em algum lugar, que possamos dar o melhor de nós mesmos.