sábado, 31 de janeiro de 2026

ONDE A ESSÊNCIA MANDA (II)

 

O genial Henfil - Arquivo Henfil

    Eu estava lendo um texto de Robert Wright quando achei esta importante contribuição aos significados das coisas, de suas essências, sobretudo em tempo de ameaças e ataques a muitos países por parte de um tirano que se acha dono do mundo. Me assusta mais saber, via pesquisa nacional, que só pouco mais da metade dos brasileiros católicos (a minha tradição caiçara) está do lado do estado democrático de direito. Ou seja: essa gente está cultivando a essência política reacionária com as piores tendências. Assim, aprovar a matança de pobres (votando em políticos inescrupulosos) em vez de promover a justiça social, vai se tornando "ideal" à essência da humanidade. Isto é péssimo para todos nós!



    "A guerra oferece um bom exemplo de como a essência pode passar de um nível a outro. Você começa com a ideia de que o líder de uma nação é uma pessoa essencialmente ruim. A partir daí, embarca na ideia de que um país inteiro é seu inimigo. Isso então se traduz na ideia de que todos os soldados daquele país  -  ou até mesmo todas as pessoas daquele país -  são essencialmente ruins. E se as pessoas são más, isso significa que você pode matá-las sem sentir qualquer dor na consciência. Os Estados Unidos jogaram bombas atômicas em duas cidades japonesas  -  cidades, não bases militares -  sem gerar praticamente nenhum protesto por parte dos americanos."

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

ONDE A ESSÊNCIA MANDA

 

Touca da Nini - Arquivo JRS 

       Janeiro chegando ao fim. Em fevereiro  aniversaria coisasdecaicara.blogspot.com  (estará completando quinze anos).

      Eu, aos quinze anos, depois de trabalhar mais de ano num bar sem nenhuma folga, recebi em dinheiro um mês de férias e passei a ter uma folga semanal a cada segunda-feira. Que venha a escala 5 por dois ou outra melhor.

      Logo completando quinze anos, o blog tem 2.210 postagens,  208 seguidores e 1.047 comentários. Preguiça de escrever eu não tenho. Ah! Também tem as contribuições de gente muito estimada! Que bom, né? Saiba quem me segue e lê as crônicas: tá tudo guardado  no coração!

      Por que guardo tantas coisas? Por causa de suas histórias! Quase sempre elas têm relações com momentos e/ou com pessoas que muito admiro. Exemplo: olho um passarinho esculpido num pequeno pedaço de madeira e nunca me esqueço que foi presente de casamento que o tio Antônio nos deu: "Este sabiá foi escavado pelos meninos lá de casa, pelos vossos primos. É um presente de coração".  Você notou que há uma história que me faz guardar com muita devoção essa obra e tantas outras? 

    Bilhetes, ferramentas, desenhos e muito mais coisas são carregados por mim porque estão repletos de significados invisíveis e intangíveis. Eu atribuo a essa enorme quantidade essências afetivas. Elas mandam! São ítens especiais que me provocam sentimentos especiais. É por isso que tenho o meu olhar nelas: a canoinha, presente do Pedro, veio da ilha dos Búzios, o remo, feito pelo finado Bito Estevão, é da Caçandoca, o nível de ferro era do senhor Honda, os serrotes que pertenceram ao meu saudoso pai, a touca feita pela Nini, a manta confeccionada com tanto esmero pela querida Gal, a boina presenteada pelo Bentão etc. Alguém escreveu que ter sentimentos em relação a um objeto equivale a fazer julgamentos sobre ele. Acho que é mesmo!

    Vou à praia da Barra Seca, em Ubatuba, avisto a canoa CERNE, sei que foi a última escavada por meu pai alguns anos antes de falecer. Sigo admirando. Concordo que a conotação afetiva nasceu de uma crença cultivada por mim na história do objeto, nas pessoas envolvidas nela. Meus afetos precisam disso, meu condicionamento emocional se sustenta nessas histórias e nessas essências.

     O meu desejo é que não me falte energia para manter esta paixão em deixar registrado tudo que segue brotando em meu ser.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

OVOS DE SERPENTES

      

     

Rosas e Flor - Arquivo JRS 

   Ovos de serpentes continuam sendo chocados. Alguém dúvida? Neste momento está amplamente divulgado o caso de alguns adolescentes ricos, em Florianópolis, que torturam uma cadela por nome de Orelha. A justiça irá alcançá-los? Também nesta semana soube que os cinco adolescentes de Brasília que, em 20 de abril de 1997, queimaram o indígena Galdino, da etnia Pataxó, que dormia num ponto de ônibus, se tornaram funcionário públicos bem remunerados.  A justiça não os alcançou. O que eles têm em comum ? São contra as políticas que visam diminuir as desigualdades sociais neste país. 


      No Instagram, Sabrina (psisabrinademarchi) postou este importante texto para a nossa reflexão em torno da violência masculina, do feminicídio.


      A violência masculina não é uma exceção à regra, ela é a regra, a norma, a estrutura dominante.

      A violência contra animais não é um acidente isolado, é um dos primeiros territórios onde a socialização masculina testa seus limites: quem aguenta ver sofrimento, quem consegue objetivar um corpo vivo, quem consegue silenciar qualquer culpa.

       Quando chamamos isso apenas de "psicopatia", fazemos três coisas perigosas ao mesmo tempo:

- Despolitizamos  a violência, como se ela não fosse ensinada, incentivada e normalizada culturalmente.

- Protegemos o sistema porque não precisamos questionar a masculinidade, educação emocional, pornografia, cultura do estupro ou a glorificação da agressividade masculina.

- Transferimos o problema para o indivíduo, como se bastasse isolar alguns "doentes" para que o mundo fosse seguro.

 E assim conclui a autora, nos alertando:

      Porque se continuarmos tratando violência masculina como exceção, nunca  vamos enfrentá-la como regra social.


     Gratidão, Sabrina!

domingo, 25 de janeiro de 2026

GASTANDO SALIVA

 

O genial Henfil - Arquivo Henfil

"Tudo é política, inclusive seu silêncio conivente e fantasiado de neutralidade" - A.Gramsci


     Gastão, homem negro de raíz caçandoqueira, diz que se orgulha de ser da cultura caiçara. Eu não duvido porque conheço seus parentes maternos, sei que são herdeiros da ruína que se abateu sobre Ubatuba e a Fazenda Caçandoca, no século XIX.

     Por herdeiros da ruína quero dizer todos os descendentes dos antigos negros trazidos para serem escravos ali, naquele pedaço de chão. Também incluo aí os não negros que foram se ajeitando nesse lugar, tal como as minhas raízes paternas. (Desse mesmo lugar eram vovô Estevan e vovó Martinha). Resumindo: os nossos mais antigos sobreviveram lá, na praia da Caçandoca e adjacências.

     Bem mais tarde, depois das agruras durante os governos militares (1964-1985), graças a uma modesta organização e ao surgimento de determinada lei humanitária (denominada por Gastão de esquerdista), o referido território foi decretado como área quilombola. O nosso personagem nunca morou lá, mas muitos dos seus familiares habitam aquele lugar, têm um chão garantido e seguem aumentando as alternativas para as melhorias em suas vidas.

     Tempos atrás, estando numa pizzaria, me encontrei com o Gastão. Do assunto inicial em torno de futebol, logo ele pulou para política: "Não sou de esquerda, nem de direita. Sou neutro". Disse outras besteiras, repetiu clichês fartamente divulgados em postagens conservadoras; queria que eu concordasse com tamanha incoerência.

       "Incoerência, Zé?". Sim, incoerência! Agora você vive às custas mais do trabalho dos outros do que do seu. Tem dois empregados que ralam por você, né?

       "Incoerência, Zé?". Sim! Não existe neutralidade política, meu amigo! Ainda mais quando se é negro e vendo que nossos parentes se sustentam numa lei decretada que garante o território. Você acha que essa conquista "esquerdista" não segue sendo combatida pela direita reacionária? Faz algum sentido você se dizer neutro, não tomar posição contra esse pessoal que está cavando a oportunidade, fazendo a sua cabeça e de mais gente, para dar um golpe fatal contra sua mãe e sua irmandade, contra os nossos parentes da Caçandoca?

sábado, 24 de janeiro de 2026

MARIQUITINHA DA PRAIA

 

Belezas nos caminhos - Arquivo JRS 


         Nasceu, recebeu lindo nome, mas logo atendia somente por Mariquitinha na casa dos avós maternos, onde nasceu e morou nos primeiros anos. Era perto da praia, lugar ideal de diversão e existência da cultura  caiçara. Assim foi crescendo Mariquitinha, na praia.

      Mariquitinha deixava a adolescência quando os pais se separaram. O pai resolveu se engraçar por outra senhora. A inesperada situação soldou os laços entre mãe e filha. A vida seguiu com Mariquitinha e a cara genitora remando no vigor que as condições lhes permitiam. Eram e continuam sendo verdadeiras parceiras, "pau pra toda obra" como se costumava dizer na minha mocidade. As duas cresceram; ainda hoje não se cansaram de buscar as melhorias para suas vidas. Elas se completam nos afazeres, nas viagens, e, sobretudo, nos cuidados com as plantas e  animais adotados ao longo do tempo. A marca que se distingue em mãe e filha é a dedicação carinhosa a tudo que se propõem fazer. Agora, enamorada por alguém de muita dignidade, é que Mariquitinha se fortaleceu mesmo! Neste momento eu enxergo três baluartes na beira do mar.

       Quando me encontro pensando nos rumos, nos combates das duas estimadas mulheres, me recordo do berço que as geraram: uma humilde família que ainda resiste a pouca distância da beira do mar, vivendo num grande terreiro com os parentes, na orgulhosa família expandida que se une, forma uma micro comunidade e preserva tantos laços, tantos traços culturais. São estes valores que estão no alicerce das duas guerreiras desta história. Salve, Mariquitinha da Praia! Vivas ao seu parceiro! Longa e feliz vida para a sua mãe !

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

QUE PUTA AUTOESTIMA!

 

Autoestima elevada - Arquivo JRS 

"O pensamento sempre começa e termina nos sentimentos" (Akincano Marc Weber)


     Era dia quente, de lagarto sair passeando para se esquentar. Um grandão se tecia pela porta do casebre do Fábio "Baiano" onde havia um espaço com comida e água aos animais passantes (cachorro, gato, lagarto, pombo...). O bichão se alimentava sossegado porque ninguém circulava por perto no momento. Notando o meu interesse, o dono da casa fez a observação: "Ele é manso mesmo, todo dia vem me visitar e depois volta para o mato, sobe naquele morro ali".

      O "Baiano" veio há décadas da boa terra: "Vim quase adulto, em pau de arara. Passei a vida toda em obras, trabalhei em muitos prédios. Nunca me casei, faz tempo que moro aqui, a vizinhança toda me conhece, de vez em quando tenho ajuda dessa gente. Sei ler e escrever, passei um tempo na escola, consigo me virar na vida. Agora estou mais de boa, não preciso de tanta coisa para viver". Ao me ver buscando um ângulo para fotografar, imaginando que o meu interesse era no grande lagarto, ele interveio: "Pode chegar mais perto porque o bicho é manso mesmo, tá acostumado com gente".  Na verdade, eu queria apenas fazer uma imagem da fachada da moradia dele, cuja frase pintada demonstrava a autoestima elevada do "Baiano". E que puta autoestima!

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

A RUÍNA SE ALASTRA

 

Henfil, o genial - Arquivo Henfil 

       Se há pobres, há ricos. Lógico, né? Triste quadro. Muitos são empobrecidos para formar a riqueza de poucos. De pouquíssimos! No entanto, esse mínimo de privilegiados são devotados, tidos como heróis para muita gente. "A maioria deles", dizem ao meu redor, "fizeram por merecer". Alguns  desses aproveitadores recebem títulos engrandecedores, ganham nomes de logradouros públicos e até mesmo estátuas. Por aqui topamos com rua rei beltrano, praça prefeito fulano, avenida general sicrano de tal etc. E isto se repete Brasil afora! 

      Triste situação! Deixamos de perceber o quanto de violência envolve isso tudo. Exemplo: devido a especulação/cobiça imobiliária, o povo caiçara foi forçado a  deixar a beirada do mar e se afundar no pé da serra, subir morros e ocupar áreas impróprias. Mas... mesmo distante, esses que vivem comendo hoje o que ganharam ontem, continuam sendo explorados. Faz tempo que a municipalidade investe pesado na tributação do imposto territorial (IPTU), não se importando se isto torna a vida do pobre ainda pior. Certamente que muitas mansões pagam o mínimo, que muitos ricaços nem pagam!

     Neste país, o trabalhador é o principal contribuinte, paga impostos que nem imagina porque está na base da pirâmide social. Aumentar o já abusivo IPTU é ato cruel porque empurra mais famílias morro acima, resultando em destruição de mata nativa, de fontes naturais e de contaminação no geral. Isso é criminoso. Será que quem está na gestão pública não consegue enxergar nessa direção? Não podemos aceitar tudo isso como violência necessária!

       Por fim, não posso me conformar com este "silêncio", nas palavras de Iza Souza ditas em contexto similar, "que se repete hoje quando o turismo vale mais do que a dignidade de quem mora aqui e quando o lucro fala mais alto que o direito à terra, ao trabalho justo, à moradia e à memória".