domingo, 18 de janeiro de 2026

CONSCIÊNCIA ESTÁVEL (II)

 

De boa - Arquivo JRS 

    Totonho do Rio Abaixo, o caipira que veio melhorar de vida em Ubatuba, depois de "pisar na bola" e prevendo bronca da esposa, elaborou uma "saída honrosa".  A solução foi escolher um bode expiatório: "Vou dizer que fiquei desnorteado porque alguém me deixou sem graça mediante uma expressão moderna". Moderna demais!  Tão moderna que meu avô sempre repetia quando algo não dava certo: "Ai, abençoado". Totonho seguiu o raciocínio: "Aí ela se põe no meu lugar, releva a minha culpa, me perdoa. Esquece tudo e amanhã volta tudo ao normal, sem cara feia". 

    Esquema simples, né? Mente ardilosa, incapaz de assumir suas falhas, consegue manipular sentimentos através de discursos arranjados de última hora. Consegui definir isto uma semana depois. Na primeira ocasião em que avistei o Totonho eu lhe disse: "Você foi incoerente, cara. É claro que você estava plenamente consciente do que se passou! Que feio modificar os fatos a fim de convencer os outros! Que desculpa foi aquela? Se há preconceitos, você precisa se libertar, se desapegar de péssimos princípios, tal como muita gente que depende dos programas sociais, mas quer se achar no lugar dos ricos, dos poderosos". Em seguida eu lhe disse de fulano que veio me sondar sobre o tema Venezuela e eu lhe disse que se trata de terrorismo dos Estados Unidos para roubar o petróleo daquele país. E concluí: "Quem aceita o discurso que está sobrando na mídia dominante me faz pensar em dois defeitos morais: ou é ingênuo útil, fácil de manipular ou é pilantra consciente que quer também se aproveitar dos outros. Você é o quê?". Eu acho que Totonho tem os dois defeitos porque vive dando calotes nas pessoas.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

ROSA, CARINHO E PÃO

 

Rosa criança - Arquivo JRS 

Pelas ruas corria minha criança;

Um asfalto começava.

Ruas e mais ruas;

Chico observava.


Me compadeci, 

Enxerguei determinação.

Criança honesta e verdadeira,

Gente grande no coração.


Seu olhar era de doer:

"Me puseram nesta real".

Abaixei os olhos,

Entrei na luta contra o mal.


Ó mundo de desafios;

Ó vida de sucessos e fracassos.

Ó vida minha que verte prantos;

Ó criança grande nos meus passos.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

ESPECIALISTA EM JACA

Nova geração rente ao mar - Arquivo JRS 


Nas nossas matas - Arquivo JRS 


          Em preparação ao  aniversário de 15 anos do blog, o amigo Jorge nos brinda com esta crônica que me faz lembrar do tio Dário Barreto, da praia da Fortaleza. (https://coisasdecaicara.blogspot.com/2012/06/um-ser-ladino-bem-caicara.html


           Quando era criança, ainda não haviam chegado ao Brasil as sementes californianas vendidas em lata que acabaram por tornar todas as melancias redondas. Naquele tempo, havia melancias de variadas formas embora prevalecessem as compridas. O próprio agricultor selecionava as sementes que plantaria no ano seguinte.

         No momento de consumir uma melancia, tirava-se a casca das extremidades e fatiava-se a fruta ao comprido com o cuidado de não aprofundar a faca para que ficasse o miolo depois de se tirarem as talhadas superiores. Primeiro se comiam (ou se chupavam como se dizia) as talhadas para depois se atacar o miolo, que repousava sobre as duas últimas fatias e era cortado em rodelas. Como a primeira rodela do lado do talo era menos doce, os adultos diziam às crianças que quem ficasse com aquela parte cresceria mais bonito. Então elas disputavam o tal pedaço que dava beleza. Crer é uma dádiva, diz-se, mas para quem? Com certeza, para quem incute a crença.

        Naquele tempo, havia uma anedota em voga com a qual se pretendia ilustrar a suposta burrice dos portugueses. Contava-se que um português passeava na região com um grupo de brasileiros quando acharam uma melancia. Fatiada a fruta, os brasileiros lhe ofereçam uma talhada atrás da outra. Quando só havia o miolo sobre duas talhadas, os nativos começaram a comê-lo, e o português só conseguiu degustar um pedacinho porque já estava empanturrado. Quando ele percebeu aquela hospitalidade bem brasileira, jurou vingança. “Então é assim: o miolo das frutas é a parte mais saborosa.” Concluiu. Na parada seguinte, o grupo deparou com uma jaca. Assim que a fruta foi aberta, o português se atirou no “miolo” (a parte interna do talo) e, como um cão que pega um osso e foge da matilha, ele se afastou do grupo jurando que comeria aquela parte sozinho.

          Faz alguns dias, deparei com um canal do YouTube em que se ensinava descascar jaca facilmente. Nunca achei essa tarefa difícil, mas fiquei curioso. Apareceu na tela uma mulher com uma faca fazendo sulcos numa jaca. Depois levantou a ponta de uma tira, puxou-a e os bagos ficaram à mostra. Pensei: “Só dá para fazer isso se a fruta estiver muito madura. Grande novidade!” Estava já desistindo de assistir àquilo quando a mulher confessou: “Só não sei se se come isso.”

              Pois é! Ali estava uma especialista em jaca que, tal como o português da anedota, não sabia qual era parte comestível dessa fruta. O pior é que ali não era uma anedota. A influenciadora era apenas mais uma pessoa que se vale dessa rede social intentando conquistar prestígio e consequentemente dinheiro. A internet é uma fonte maravilhosa de aprendizado, de informação, de lazer etc. Infelizmente, por outro lado, é um paraíso para inescrupulosos de todas as áreas do conhecimento. Apresentar-se como especialista em jaca acaba sendo apenas risível, mas há milhares de influenciadores que deveriam ser processados e condenados à prisão perpétua devido ao mal que fazem à sociedade. Contando com a ingenuidade dos internautas, aqueles indivíduos prometem a quem estiver disposto a segui-los cura de doenças crônicas, rejuvenescimento, imortalidade, ganho de rios de dinheiros com facilidade. O descaramento é tão grande que há quem se proponha a ensinar a beber água, a sentar-se no vaso sanitário, a deitar na cama e a praticar muitas outras ações inatas, instintivas.

“Ai dos espertos se não fossem os tolos.” Dizia-se antigamente. O que prova que a credulidade não nasceu com a internet. Esta somente nos revela o quanto acreditamos em quem diz que sabe o que não sabemos. Como sugere o grande Lima Barreto, confiamos em quem diz que sabe javanês porque não falamos esse idioma. Se numa rede social aparecer algum desconhecido afirmando que deixou de ser calvo porque durante 30 dias fingia pentear-se de manhã, à tarde e à noite, haverá milhares de indivíduos que vão adotar essa receita e, passado esse período, alguns ainda vão ficar na dúvida se a seguiram corretamente porque continuam calvos como no início do “tratamento”. Na fase adulta, deixamos de acreditar que comer uma determinada parte da melancia nos tornará bonitos, mas não escapamos de outros logros simplórios forjados na internet, pois tendemos a crer na autoridade de quem se exibe nela como uma criança acredita nos seus pais.


Jorge Ivam Ferreira

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

COISA EM COMUM

 

Trancoso  de outros tempos - Foto: Iza Souza

  Eu estava lendo um texto no Instagram (manjar_ancestral, de Iza Souza) a respeito de Trancoso, no litoral baiano, e notei muitas coisas em comum com Ubatuba, pois padecemos de problemas semelhantes no litoral paulista. Após autorização da autora, apresento aqui, na íntegra, o maravilhoso roteiro para nossas reflexões visando intervenções cidadãs na nossa realidade próxima. O exercício da cidadania é essa coisa em comum que nos permite encontros e reencontros.


       Trancoso foi higienizado, branqueado e  arrancado de quem o fez existir. Quando cheguei ao distrito, há maís de vinte anos, o Quadrado histórico ainda era território vivo. As puxadas de mastros reuniam pescadores nativos e suas famílias. O sincretismo religioso não era espetáculo, era prática cotidiana. Tudo começava com reza e comida partilhada nas casas simples. A festa era da família, porque o Quadrado, que sempre foi um retângulo de convivência, era morada dos mais antigos: a rezadeira, a parteira, o pescador, o pequeno restaurante, as crianças que cresceram naquele chão e a comunidade hippie que também fazia parte do tecido social. Esse território tinha memória, cheiro de comida, som de tambor e riso de criança. Tinha conflito, improviso e pobreza, mas tinha pertencimento. E isso foi arrancado com pressa. O apagamento cultural e histórico aconteceu de forma brutal, disfarçado de progresso, valorização imobiliária e turismo qualificado. A mudança da configuração do lugar não foi natural, foi planejada. Higienizaram o espaço, retiraram os nativos e expulsaram o corpo popular da paisagem. Eu não sou contra a evolução dos lugares. O que preocupa é o apagamento sistemático da cultura. O que será entregue as próximas gerações? Onde havia vida, vizinhança e cotidiano comunitário, hoje há lojas e restaurantes de grife. O território virou vitrine, o afeto virou mercadoria e a memória passou a incomodar. A mesa do samba acabou. A baba de fim de tarde ainda resiste, mas já se anuncia a sua retirada. A igreja, antes espaço de encontro comunitário e espiritual, virou cenário para casamentos badalados. Houve ascensão financeira para quem vendeu suas casinhas, agora tratadas como ativos de alto valor. Mas dinheiro não compra memória, não preserva história e não devolve território. A história de Trancoso não está nos livros, está nas lembranças dos que ficaram e dos que foram empurrados para fora. Está na oralidade, nas ausências e nos silêncios. Existem pessoas resistindo, mas a especulação imobiliária é uma máquina pesada. O que se vê é um lugar bonito, caro e vazio de alma. Quando um território perde sua gente, ele deixa de ser comunidade e vira apenas cenário.

Gratidão, Iza! Saudações da beira do mar!


Nota: baba de fim de tarde é quando as pessoas voltam do trabalho na praia.

domingo, 11 de janeiro de 2026

CONSCIÊNCIA ESTÁVEL

 

Luminosidade - Arquivo JRS 

    Décadas atrás, na chegada da nossa cidade se via uma propaganda: Bem-vindo a Ubatuba. Você chegou ao paraíso. Que fim levou isto? Muita gente já diz que é o oposto. Será mesmo?

    Más gestões resultaram em descasos. O resultado é poluição visual e ambiental que nos desanimam. Até mesmo em praias de acesso dificultado se vê uma feiúra grassando, com lixos e esgotos à vontade em lugares inimagináveis. Acha pouco? Pois saiba o seguinte: o que está ruim pode piorar! E tudo dentro da lei! (O que é pior, né?).

   Depredar um bem público, atentar contra o estado democrático de direito além de ser motivo de descabido orgulho, pode receber anistia, passar impunemente. Altas patentes militares, financistas,  congressistas, gestores próximos e distantes seguem burlando, "mexendo os pauzinhos" para desfrutarem de altíssimas somas em seus rendimentos. Ousam, sem pejo algum, avanços famélicos sobre bens públicos. Criaram até uma lei que garante mamata secreta! Enquanto isso, um mísero aumento no salário mínimo é acusado como responsável pela suposta crise que ameaça o Brasil.

    A questão é: 

     Quando a consciência, mediante tantas tribulações, será libertada, se tornará estável, sem as agitações mortíferas que vai detonando o nosso paraíso, o distanciamento de um mundo melhor? (Com certeza não será cultuando ideias reacionária com endeusamento de pilantras e resguardo de princípios elitistas!)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

SEM ANISTIA!

 

Entardecer - Arquivo JRS 

    No dia 8 de janeiro de 2023, quem acredita na democracia ficou apavorado quando viu a horda patriotária invadir a capital do Brasil e ir depredando o que estava pela frente. Uma jornalista, tempo depois afirmou isto: "Aquela turma podia ser composta de bagrinhos, mas era violenta, queria a todos custo empossar o candidato democraticamente derrotado nas eleições. Até meus celulares foram tomados por essa gente fanática, dispostas aos piores crimes. Parecia que um apito de cachorro incentivava aquela multidão com ordem de atacar e destruir. Por isso não pode haver anistia". 

 É bem assim, conforme escreveu Platão há mais de 2.400 anos: " A impunidade deixa os maus ainda piores". 

  No entanto, quanta gente nossa continua atenta ao tal apito de cachorro, querendo o nazifascismo de volta? Tipos assim, até próximos de nós, que pediam a intervenção militar, saudosistas da ditadura que durou 21 anos, agora querem justificar a cobiça dos Estados Unidos da América sobre o petróleo venezuelano alegando que ali há uma ditadura. Ué, mas esses patriotários não eram favoráveis à ditadura, não queriam a volta dos militares? Não foi por isso que tentaram o golpe contra o estado democrático de direito?

      Não tenho como discordar do Paulo Andrade: "Quem defende o bolsonarismo se divide basicamente em dois grupos: os ignorantes úteis, sem qualquer senso crítico, facilmente manipuláveis, e, os canalhas conscientes, totalmente desprovidos de caráter, ética e escrúpulos, que vendem  qualquer valor por dinheiro e poder".

      Então... Sem anistia!


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

MALDITOS SEJAM!

 

Flor no mato - Arquivo JRS 

     Conta a História que, na Grécia Clássica, de onde tantas coisas se encaminharam às sociedades vindouras, o sábio Péricles foi substituído no governo de Atenas por políticos infinitamente inferiores, cheios de más intenções, mal preparados, desajeitados, pouco inteligentes, incapazes de defender a soberania, a democracia e a população da pólis. Eram "raposas no galinheiro", pessoas que não queriam o bem público, as melhorias para o conjunto dos moradores da cidade. Na verdade, ansiavam por uma rápida popularidade se valendo de mentiras, fazendo acordos com inimigos externos, manipulando o orçamento público e se apoderando das mentalidades mais ingênuas ou cobiçosas. Que situação horrível, né?

   "Desde que o mundo é mundo as coisas são assim" , gostava de repetir o companheiro Jorge Galdino. E completava: "São políticos egoístas, corruptos e quase sempre imbecis. É gente que não se importa minimamente com os resultados que a ambição pessoal possa ter sobre a população. Gente assim passa as 24 horas do dia em maquinação de como controlar o poder. O bem público que se dane! "

     Assim escreveu o velho Maquiavel
     "Malditos políticos que, quando tá tudo bem, enchem-se de honra e de proveitos particulares, mas à chegada do mal, o dano e a perda ficam para a cidade". Concordo:  malditos sejam!