![]() |
| Giovani e a panela vazia - Arquivo JRS |
Os
primeiros biógrafos dos indígenas brasileiros, sobretudo dos Tupinambá que
habitavam o território entre Ubatuba (SP) e a baía da Guanabara (RJ) diziam
que, em ocasiões especiais, os primeiros habitantes deste território deixavam
se guiar pelos sonhos. Exemplo: dependendo do sonho que tivessem eles partiam
para um combate ou desistiam, adiavam. Sidarta Ribeiro, no livro Oráculo da
noite, diz que “o sonho é simulacro da realidade feito de fragmentos da
memória”. Ou seja, tudo está na nossa mente buscando uma ocasião para sair, se expressar. Só que vem um monte de coisas no mesmo sonho, né? Aí complica muito.
Dizem os
especialistas que sempre sonhamos. Acredito que é verdade mesmo, mas na maioria
das noites eu não me lembro de nada. De vez em quando, pensando em partes de
algum sonho, busco descobrir alguma mensagem tal como faziam os nossos
ancestrais, tentar entender se parece favorecer ou alertar a respeito de alguma
coisa, se foi bonito, feio ou até medonho. O referido autor acima explica que “alguns
sonhos são teoréticos (diretos), enquanto outros são alegóricos”. A minha
saudosa sogra gostava de escutar descrição de sonhos de gente próxima, buscava
interpretá-los para depois ir fazer sua aposta no “jogo do bicho”. Curioso isto de tentar a sorte pela via onírica.
Pelo que
me lembro, só uma vez um sonho mudou uma atividade programada na minha vida.
Explico agora: eu e o primo Giovani éramos companheiros de trilha na solteirice,
queríamos conhecer os muitos caminhos e belezas naturais da Mata Atlântica.
Marcávamos uma data, nos preparávamos bem para tudo dar certo. No dia
combinado, antes do dia amanhecer a gente já estava rompendo mato. Quase sempre
as mochilas iam pesadas em nossas costas porque muitas vezes a duração de uma
trilha era mais de um dia, precisávamos pernoitar, sermos acolhidos na
exuberância da natureza. Numa ocasião, na noite que antecedia uma das nossas
saídas para a Trilha do Brilhante, no Sertão da Quina, eu fiquei encabulado com
um sonho, como se tentasse me alertar para algo ruim. Ao chegar ainda no
escuro na casa dele, no Sapê, eu narrei o meu sonho enquanto tomávamos café. Ele
escutou com atenção e – pasme! – disse quase a mesma coisa, narrou um sonho que
tivera, cabuloso como o meu, cheio de detalhes. Diante dessa coincidência de
ambos sonharem coisas desagradáveis, ruins, a trilha foi desmarcada. Posso
dizer que venceu o “alvoroço” dos sonhos, o medo que eles nos inculcaram. Tenho certeza de que o meu primo também tem
essa cicatriz.









