terça-feira, 28 de julho de 2026

ARTESANATO E IDENTIDADE

 

Um vaso diferente - Arquivo JRS

  O artesanato constitui um dos traços culturais do povo do nosso lugar, que se estabeleceu há séculos entre a serra e o mar. Sem ele, como seria a sobrevivência nesse ecossistema tão específico? Desde os remotos tempos, o povo caiçara produziu balaios para transportar raízes, peixes, frutas... Outras cestarias (tipiti, peneira, samburá, covo etc.) permitiam a realizações de serviços diversos (farinhada, secagem de pescados, captura de peixes...). Armadilhas (foge, esparrela, mundéu, arapuca...) garantiam alimentos na mata no tempo propício. Esteira, rede e tarimba permitiam repouso. Muitos outros objetos e técnicas estão englobadas no artesanato. 

    A canoa - a marca primeira dos Tupinambá e esteio principal dos primeiros habitantes do litoral -  é símbolo importante até nos dias atuais, sobretudo no município de Ubatuba, porque continua servindo às atividades pesqueiras e atraindo olhares de visitantes, de turistas. Este meio de locomoção é, sem dúvida alguma, o objeto de atenção na calma costumeira de quem sai ou chega da pesca ou nas remadas vigorosas dos esportistas. Quem nunca vibrou com as disputas nas “corridas de canoas” tão orgulhosamente apresentada ao público?

     Será que quem admira a canoa imagina a arte que está ali embutida? Felizmente ainda há gente nossa especialista na técnica de escolher a madeira no mato, cortar e escavar nas justas medidas. (Recomendo a leitura do trabalho científico do ubatubense Gilberto Chieus Júnior, sob o título Matemática caiçara – Etnomatemática contribuindo na formação docente). Recentemente a canoa caiçara também inspirou Tronco de Canoa, um prazeroso livro do Adilson Zambaldi). Tudo graças ao artesanato! Ainda é possível constatar nativos selecionando taquaras, cipós, taboas e madeiras macias para prosseguirem em suas artes. É a minha gente que aposta na perpetuação dos saberes herdados de quem precisou sobreviver nesse meio bem específico do litoral, nesse pedaço de chão nomeado na nossa raiz  indígena por Ubatuba, terra de muitas ubás. É gente mostrando inigualáveis obras na madeira, criando lindas peças em  mosaico e argila, desenvolvendo a costura criativa etc. De repente, aquilo que estava descartado vira uma maravilhosa surpresa, encanta muita gente.

   Por fim, artesanato é marca cultural e herança que resultou no ser caiçara resistente da atualidade. Cada cidadão, jovem ou idoso detentor desses saberes artesanais, é a garantia de que a geração presente e futura continuará cultivando essa identidade.


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