quarta-feira, 24 de setembro de 2014

NESSE MEIO TEM MUIÉ!

Caiçaras ao mar (Arquivo histórico)

A amiga Fátima não nega a marca do pai João de Souza, o grande contador de causos da Praia do Itaguá. Viva mais esta pérola dessa minha colega caiçara!

Em letras garrafais o Echo Ubatubense exibia na primeira página ILHA DA VITÓRIA DECLARA GUERRA A ILHA DOS BÚZIOS! De boca a boca a notícia se espalhou feito rastilho de pólvora.

A Praça do Comércio, hoje Praça Nóbrega, se sussurrava aos quatro cantos, pois o noticiário não deixava claro qual a razão dos fatos. Haveria algum fato que justificasse tamanho perrengue entre as duas ilhas? O assunto fervilhava pelas ruas, bares, entre baforadas de fumo de rolo e babas do bêbado, que a cada cusparada resmungava: “Tem muié nesse meio!”.

A missa da sete não foi  a mesma. O mexerico era tanto que o padre parou no meio da missa. Naquele fatídico dia ninguém botou feijão no fogo. A conversa arrolava muitas opiniões cabulosas que convergiam todas numa só conclusão: “Nesse meio tem muié!”.

No meio do dia os batelões, as canoas de voga que chegavam abarrotadas de produtos para vender, vindos das praias distantes, voltavam com a incumbência de levar o acontecido para que todos tomassem ciência e se precavessem. Até o Bom Descanso (antiga fazenda de remanescentes de colonos, a oeste do município) ficou em alerta.

O diz-que-me-disse causou ponto facultativo. Quem iria trabalhar com a eminência da guerra aparecer por ali? Acabando com o nosso sossego, colocando em risco as nossas criancinhas e a integridade das moças de família? Precisavam de mais informação. As autoridades se reuniram para tomar uma atitude. Quem sabe mandar uma comitiva até lá. Encabeçados pelo Sr. Delegado de polícia, um grupo de respeitáveis cidadãos seriam convocados para compor a força tarefa. Mas quem se arriscaria a tomar o rumo daquelas bandas? Comentava-se que os ilhéus eram de poucos amigos e por vezes, cruéis. Outros diziam que eram intrigas, que na verdade eles eram desse jeito estranho para se protegerem dos piratas. Outros ainda, tinham até histórias do que acontecia com os intrusos. “Teve um que foi pendurado pelado e de cabeça para baixo naquela figueirona da praia só para tomar juízo, passou a noite sendo picado pelos mosquitos, dia seguinte seu corpo parecia pele de jaca dura”.

No final do dia, quando o sol já estava a um palmo para dormir no Corcovado, explode o comentário. Parecia um vespeiro danificado. Um arrastão humano tomou rumo do Porto do Guisard. Tinha gente até no alto da Cruz de Anchieta, sem dizer que as grimpas das amendoeiras parecia um ninhal de biguá de tanta gente pendurada. Todos buscando o melhor ponto para observar a chegada de uma traineira vinda do Mar Novo. Bravos homens que singravam o mar e se atreveram desafiar um território em guerra.

Canoas da barra tomaram o mar indo de encontro à nau vitoriosa e portadora de novas e precisas informações. Nelas iam as autoridades e políticos e uns gatos pingados de gente comum. Na praia, orgulhosas senhoras apostavam  na força dos maridos que se exibiam no remo como se fosse um campo de batalha. Outras famílias aguardavam na praia entre algazarra das crianças e o tricô da vida alheia.

Logo a lua tingia as águas da Baía de Iperoig, as canoas então retornaram deslizando no clarão como um bando de negros paturis. Ao emborcarem as canoas, o Prefeito foi logo tomando a palavra: “Povo de Ubatuba! Não há o que temer, a guerra é finita. Finita porque acabou a munição das duas partes em litígio. Os canhões existentes nas ilhas ainda são de bambus e consomem muita pólvora seca. Consumiram até todo o estoque de pimenta”.

Depois a história verdadeira se espalhou rapidinho: o conflito já estava resolvido, graças à sabedoria daqueles homens do mar que por lá estiveram e contornaram a situação. Um sujeito da Ilha da Vitória trocou sua mulher por uma canoa com outro sujeito da Ilha dos Búzios. A mulher não se acostumou e voltou para a ilha de origem. Desesperado, o sujeito da Ilha dos búzios, que ficou sem mulher e sem canoa, juntou um pessoal e carcou fogo na Ilha da Vitória que respondeu à altura. Em meio ao fogo cerrado, nossos heróis embarcadistas aportaram e vieram ter com os dois lados, conseguindo o acordo que devolveu a paz: a canoa ficou com a mulher, que manteve residência nas duas ilhas e a cada semana ela morava numa.

       Perplexos e bestificados com a solução acordada o povo ficou estático. O bêbado, segurando num tronco de amendoeira, berrou a todos com seu bafo azedo: “Num disse que tinha muié nesse meio?

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